10 julho 2004

Blogantologia(s) – XV: A novíssima poesia angolana

1. Ilha de Luanda. 8 de Julho de 2004. 18h. Esplanada do Restaurante Coconuts. Meia dúzia de adoradores do sol. Aristocracia crioula. Novos ricos. Homens de negócio russos. Cooperantes de desvairados sítios. Dois seguranças em cada ponta. Mais dois no parque de estacionamento. Aqui não chega o cheiro fétido do sub-humano mundo dos candongueiros. Aqui não há o incómodo ziguezaguear das corajosas zungueiras nas ruas atulhadas de Luanda. Não longe nas praias dos pescadores os futuros Mantorras-de-pé-descalço chutam a bola às balizas esfarradas do destino.



2. Descubro a poesia do José Luís Mendonça (n. 1955). O último livro: "Gramática do amor contemporâneo". Luanda: Editorial Nzila, 2002 (Colecção Letras Angolanas/Poesia, 7).



Escreve Luís Kandjimbo, na contracapa: “Podendo ser considerado o mais vigoroso produtor de rupturas no plano formal naquilo que é a novíssima poesia angolana, preenche igualmente os requisitos para ser um dos mais inovadores poetas da Geração de 80, a chamada Geração das Incertezas. Inscreve-se numa das quatro tendências em que podemos analisar a poética dessa geração, caracterizando-se particularmente pelo rigor e intencionalidade na construção de metáforas e pela associação de sentidos, quando é confrontado com a necessidade de propor uma verdadeira linguagem poética”.



Aqui fica uma sugestão de leitura (poema 21, página 29):



__________



21



aqui, no fundo do oceano, tudo se filma em câmara ardente.

pouso o lápis no cerne desse êxtase de hungos-violinos, aliás,

escuto: será essa a vibração do mundo ? deixo a música

desfraldar o mastro das eternas sílabas de areia.



idólatra da carne, elevo a minha prece ao deus escaldante

da sede e da tortura da alma. o vento e as chuvas subiram

as escadas, um anjo alisa a argila microscópica do altar

coberto de moscas de basalto e um incêndio de nuvens de

arame coroa a mão do mundo, beijado pela suprema ciência

da poesia.



que diferença existe entre a vagina e a mão que escreve

este poema ?


________________





3. Por um feliz acaso, descobri desta vez a editora e livraria Chá de Caxinde, um sítio de visita obrigatória na baixa de Luanda (sita no edifício do Nacional Cine-Teatro). Da mesma editora (Nzila) e colecção (Letras Angolanas / Poesia, 3), comprei o livro do consagrado João Maimona (n. 1955). Aqui fica um dos mais belos poemas deste livro de 2001 ("No útero da morte"):



Feliz reencontro (p. 52)



uma crinça me trouxe,

com as mãos vazias, a ternura verde

nas vértebras, uma carta de renascimento.

a seca se volatilizou. dia dos homens.

noite de passos segundos. a hipertermia

deixou a pele. fruto de imenso acontecimento.

existem agora rios de luz. existe água

potável nos rios de luz.

e diante do templo que precede

o renascimento

leio chuvas de imenso silêncio:

reencontro minhas veias

no sistema vascular

dos meus antepassados.

Blogantologia(s) – XV: A novíssima poesia angolana

1. Ilha de Luanda. 8 de Julho de 2004. 18h. Esplanada do Restaurante Coconuts. Meia dúzia de adoradores do sol. Aristocracia crioula. Novos ricos. Homens de negócio russos. Cooperantes de desvairados sítios. Dois seguranças em cada ponta. Mais dois no parque de estacionamento. Aqui não chega o cheiro fétido do sub-humano mundo dos candongueiros. Aqui não há o incómodo ziguezaguear das corajosas zungueiras nas ruas atulhadas de Luanda. Não longe nas praias dos pescadores os futuros Mantorras-de-pé-descalço chutam a bola às balizas esfarradas do destino.

2. Descubro a poesia do José Luís Mendonça (n. 1955). O último livro: "Gramática do amor contemporâneo". Luanda: Editorial Nzila, 2002 (Colecção Letras Angolanas/Poesia, 7).

Escreve Luís Kandjimbo, na contracapa: “Podendo ser considerado o mais vigoroso produtor de rupturas no plano formal naquilo que é a novíssima poesia angolana, preenche igualmente os requisitos para ser um dos mais inovadores poetas da Geração de 80, a chamada Geração das Incertezas. Inscreve-se numa das quatro tendências em que podemos analisar a poética dessa geração, caracterizando-se particularmente pelo rigor e intencionalidade na construção de metáforas e pela associação de sentidos, quando é confrontado com a necessidade de propor uma verdadeira linguagem poética”.

Aqui fica uma sugestão de leitura (poema 21, página 29):

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21

aqui, no fundo do oceano, tudo se filma em câmara ardente.
pouso o lápis no cerne desse êxtase de hungos-violinos, aliás,
escuto: será essa a vibração do mundo ? deixo a música
desfraldar o mastro das eternas sílabas de areia.

idólatra da carne, elevo a minha prece ao deus escaldante
da sede e da tortura da alma. o vento e as chuvas subiram
as escadas, um anjo alisa a argila microscópica do altar
coberto de moscas de basalto e um incêndio de nuvens de
arame coroa a mão do mundo, beijado pela suprema ciência
da poesia.

que diferença existe entre a vagina e a mão que escreve
este poema ?

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3. Por um feliz acaso, descobri desta vez a editora e livraria Chá de Caxinde, um sítio de visita obrigatória na baixa de Luanda (sita no edifício do Nacional Cine-Teatro). Da mesma editora (Nzila) e colecção (Letras Angolanas / Poesia, 3), comprei o livro do consagrado João Maimona (n. 1955). Aqui fica um dos mais belos poemas deste livro de 2001 ("No útero da morte"):

Feliz reencontro (p. 52)

uma crinça me trouxe,
com as mãos vazias, a ternura verde
nas vértebras, uma carta de renascimento.
a seca se volatilizou. dia dos homens.
noite de passos segundos. a hipertermia
deixou a pele. fruto de imenso acontecimento.
existem agora rios de luz. existe água
potável nos rios de luz.
e diante do templo que precede
o renascimento
leio chuvas de imenso silêncio:
reencontro minhas veias
no sistema vascular
dos meus antepassados.

01 julho 2004

Socio(b)logia - XI: Populismo: Vade retro, Santanás!

Há um provérbio popular português que diz: Guarda-te do alvoroço do povo e de travar com o doido.



Mas também há outro que adverte: Se queres conhecer o vilão mete-lhe o mando na mão.



É claro que o anti-populismo está nesta outra pérola da sabedoria popular: Segue tu sempre a verdade e a razão, embora a uns agrade e a outros não.



O que eu admiro, no Zé Povinho, é a sua capacidade para falar límguas mortas, como o latim. Por exemplo: Da peste, da fome e da guerra e do bispo da nossa terra, Libera nos, Domine!



A última que lhe ouvi, é de antologia: Vade retro, Santanás! E ainda dizem que o Zé Povinho é vilão, bajulador, analbafeto, reaccionário, retrógrado...

Socio(b)logia - XI: Populismo: Vade retro, Santanás!

Há um provérbio popular português que diz: Guarda-te do alvoroço do povo e de travar com o doido.

Mas também há outro que adverte: Se queres conhecer o vilão mete-lhe o mando na mão.

É claro que o anti-populismo está nesta outra pérola da sabedoria popular: Segue tu sempre a verdade e a razão, embora a uns agrade e a outros não.

O que eu admiro, no Zé Povinho, é a sua capacidade para falar límguas mortas, como o latim. Por exemplo: Da peste, da fome e da guerra e do bispo da nossa terra, Libera nos, Domine!

A última que lhe ouvi, é de antologia: Vade retro, Santanás! E ainda dizem que o Zé Povinho é vilão, bajulador, analbafeto, reaccionário, retrógrado...

25 junho 2004

Portugas que merecem as nossas palmas - X: Ricardo, herói (nacional) por uma noite

1. Eu que sei o que é que o meu ilustre colega de Coimbra, muitíssimo mais ilustre do que eu, o sociólogo Carlos Fortuna, pensa da onda de nacionalismo que por aí vai, na sequência do Euro 2004: é "barato, imediatista e pouco consistente", disse ele aos jornais.



Não me admiraria nada que logo a seguir um outro ilustre coimbrão, vedeta da rádio, da televisão e da psiquiatria, o Prof. Carlos Amaral Dias, viesse dizer precisamente o contrário: que o futebol funciona hoje, de maneira eficaz e eficiente, como o tal caldo de cultura onde se misturam e produzem todos os elementos identitários de um povo, de uma nação, de um país. Em Portugal, em Inglaterra e por aí fora.



Eu sei que ele, Carlos Fortuna, tem toda a razão sociológica deste mundo, mas nem por isso ele deixa de dar a impressão de ser um chato de um sociólogo. E a pior coisa que nos pode acontecer, a nós, sociólogos, é sermos uns chatos de uns sociólogos.



Os sociólogos são chatos, não só por causa da (i) sua lingauagem de pau (langue du bois, em francês), mas também por que (ii) costumam dizer coisas que ninguém gosta de ouvir, a começar pelas elites do poder: que o rei vai nu, por exemplo... Além disso, são chatos por que (iii) vêm estragar a festa do Zé Povinho.



Em Coimbra, no Porto ou em Lisboa, que são as três praças fortes do pensamento sociológico, há sociólogos chatos. Lucidíssimos mas chatos. Sejamos pluralistas: e porque não também Braga ? ou Évora ? Não quero, com isto, hierarquizar os pólos da sociologia portuguesa que, de resto, está bem e recomenda-se (E o Prof.  Carlos Fortuna é um dos nomes que honra a sociologia portuguesa, diga-se a talhe de foice).



2. Eu subscrevo inteiramente o que o senhor professor de Coimbra escreveu a este propósito: "Este nacionalismo [futebolístico] é pouco". Mais: "a bandeira custa um euro". Pior ainda: a bandeira é made in China. Trágico:  foi feita numa daquelas fábricas de vão escada, em que o trabalho é sinónimo de sangue, suor e lágrimas.



As tristemente famosas sweatshops dos chinocas foram há dias publicamente denunciadas pelos nossos grandes industriais do têxtil, como exemplos de dumping social. Nunca os vi, entretanto, preocupados com as sweat shops dos portugas, em Vale do Ave e outros paraísos do empreendedorismo lusitano, com a melhoria das condições de trabalho dos operários portugueses, com a protecção da saúde e da segurança do trabalho, com a sua qualidade de vida no trabalho, etc.

 

Como eu costumo dizer, se as nossas fábricas e outros locais de trabalho fossem ao menos "estábulos-modelos", os nossos operários e demais trabalhadores poderiam ser equiparados à melhor aristocracia dos porcos, dos perus, dos frangos ou das vacas...



A verdade sociológica mais profunda é que este é um "nacionalismo barato", afirmou o ex-presidente da Associação Portuguesa de Sociologia (APS), em declarações à agência Lusa (Público, 11 de Junho de 2004). Eu acrescentaria: duplamente barato!



O meu ilustre colega sustenta que, "face à consciência nacional de um défice de resultados positivos (do país), os portugueses querem sucesso rápido, breve e imediato, e o futebol resolve-se em 90 minutos".



Ora, desse ponto de vista, o futebol "é fantástico, porque é a plena consciência nacional do fracasso", considerando que "há muita pouca coisa com que os portugueses se possam entusiasmar" (espero que o jornalista não tenha deturpado o pensamento do sociólogo).



Na opinião de Carlos Fortuna, existe em Portugal um "défice de nacionalismo e de auto-estima", e o país precisa de um nacionalismo "não tão imediatista e mais consistente do ponto de vista político".



Em suma, este é um recado, sábio, para o portuga de ejaculação precoce que espera o paraíso ao fim de 90 minutos de provação no inferno (há vários infernos: o dos dragões, o da luz, o de alvalade...).



3. Eu não gosto de fazer sociologia espontânea nem de me pôr em bicos de pés para aparecer em título de caixa alta. Quando muito, lá vou praticando a minha periférica e efémera socio(b)logia...



Mas se os doutos professores coimbrãos me permitem uma opinião de leigo ou, quando muito, de socio(b)logo, eu ficaria contente, se fosse psiquiatra ou até ministro da saúde, por os portugas deixarem de pensar, mesmo que por uns escassos momentos, no dramático fim de mês que, para cada vez mais portugas, tende a ser (ou parecer ser) pior que o fim o mundo...

 

O que de resto é compreensível, diga-se de passagem: (i) do fim do mundo nunca ninguém voltou para dar o dramático, pungente e irrepetível testemunho; (ii) e da terrível provação de tesos do dia 15 até ao fim do mês,  todos (ou quase todos) os portugas podem falar de cátedra...



Eu sei que o futebol não resolve este problema, nem nenhum outro problema dos nossos muitos problemas colectivos (estruturais, económicos, culturais, mentais...). Mas, que diabo!, faz bem a nossa auto-estima. Nem que seja por uma noite ou por umas horas!



Cibercaríssimo Carlos, deixe o portuga (i) sonhar, (ii) alienar-se, (iii) embebedar-se, por uma uma noite... Deixe o portuga tuga (iv) pensar que é o maior do mundo só por que às veze até é capaz de enfiar a bola na baliza... A ressaca do dia seguinte é terrível e aí você pode aplicar a sua pesada, pesadíssima, lucidez de sociólogo, o rigoroso método do Durkheim, do Weber ou do Bourdieu...



4. Leio nos jornais que, em Coimbra, a procura das bandeiras portuguesas tem sido tal que se encontra praticamente esgotada, nomeadamente nos quiosques:



"Esgotaram há três, quatro dias", disse à Lusa José Maria Saraiva, da Tabacaria S. Cruz, uma das mais centrais na cidade.A varanda, a janela, a porta, o fio da roupa, o chapéu-de-sol que abriga o engraxador de sapatos, quase tudo serve para expor a bandeira nacional, na cidade de Coimbra, seja qual for o tamanho. Na Baixa citadina, é nas zonas mais degradadas que as bandeiras mais se destacam, nalguns casos atravessando as estreitas ruas de lado a lado, como na Rua Direita" (Público, 11 de Junho de 2004).



Em Lisboa, eu também constato o mesmo fenómeno e, curiosamente, é nos bairros populares e nos bairros de habitação social que se desfraldam mais bandeiras portuguesas, das tais made in China, com os símbolos lusitanos aldrabados: os famigerados pagodes budistas em vez dos nossos garbosos castelos conquistados à moirama!



5. A esta hora da noite, ou melhor da madrugada, deixem-me dizer que o meu herói, provisório, efémero, é o Ricardo... Ou porque não os dois Ricardos ? E quem diz os dois diz os vinte e três mais o resto da orquestra... Esta npoite chamo-me Ricardo. Confesso que não vi o jogo Portugal-Inglaterra, apenas os últimos, dramáticos minutos, impróprios para cardíacos...

 

Em boa verdade sou patriota mas não sou masoquista; aliás, pela Pátria já dei o meu quinhão de sangue, suor e lágrimas...



O que me tocou, o que me sensibilizou profundamente, o que emocionou mesmo foi a sua (dele, Ricardo) atitude de autoconfiança, pondo a cabeça no cepo ao oferecer-se, ele próprio, para marcar o último e decisivo penalty, depois de ter acabado de fazer a grande defesa da noite...



Eu acho que ele quis matar de vez o fantasma do Vitor Baía, como diria o Prof. Carlos Amaral Dias (e dirão os jornais do dia seguinte). Independentemente disso, eu passei a ter um enorme respeito por este mouro do Montijo. A sua postura, a sua determinação, a sua coragem e a sua heterodoxia são (bons) exemplos que extravasam as quatro linhas bem delimitadas de um campo de futebol...



Eu que não vi o jogo de futebol Portugal-Inglaterra, e que de resto não passou de um simples jogo de futebol entre onze portugueses e onze ingleses... Ou terão sido muitos mais ?



O que vale é que portugueses, espanhóis e ingleses são fracos em história, senão já teriam trazido, para o relvado dos estádios novinhos em folha, as (e)ternas questões por resolver, ligadas à nossa história comum: por ex., a valorosa padeira de Aljubarrota teria mesmo seis dedos em cada mão ? E como que é que, mesmo assim, com seis dedos, ela foi capaz de matar, só à conta dela, sete castelhanos?



6.  Não há dúvida de que o nacionalismo é uma ideologia eficiente e eficaz.  O futebol é hoje o-pão-e-o-circo da pós-modernidade. A(s) direita(s) europeia(s) sempre o souberam explorar. Começaram por fazer dele um fenómeno interclassista, logo acima de todas as diferenças que todos os dias nos separam...



Não era por acaso que denunciávamos, antes e depois do 25 de Abril de 1974, a ditadura dos três F (Fátima, Fado e Futebol).



O Futebol é hoje a continuação da guerra por outros meios. Em plena euroforia, é bom pôr (re)pensar o fenómeno da futebolização da sociedade portuguesa actual... Não vale a pena dar-lhe muita importância, mas também não é aconselhável  subestimá-la. Socio(b)logo dixit!



Portugas que merecem as nossas palmas - X: Ricardo, herói (nacional) por uma noite

1. Eu que sei o que é que o meu ilustre colega de Coimbra, muitíssimo mais ilustre do que eu, o sociólogo Carlos Fortuna, pensa da onda de nacionalismo que por aí vai, na sequência do Euro 2004: é "barato, imediatista e pouco consistente", disse ele aos jornais.

Não me admiraria nada que logo a seguir um outro ilustre coimbrão, vedeta da rádio, da televisão e da psiquiatria, o Prof. Carlos Amaral Dias, viesse dizer precisamente o contrário: que o futebol funciona hoje, de maneira eficaz e eficiente, como o tal caldo de cultura onde se misturam e produzem todos os elementos identitários de um povo, de uma nação, de um país. Em Portugal, em Inglaterra e por aí fora.

Eu sei que ele, Carlos Fortuna, tem toda a razão sociológica deste mundo, mas nem por isso ele deixa de dar a impressão de ser um chato de um sociólogo. E a pior coisa que nos pode acontecer, a nós, sociólogos, é sermos uns chatos de uns sociólogos.

Os sociólogos são chatos, não só por causa da (i) sua lingauagem de pau (langue du bois, em francês), mas também por que (ii) costumam dizer coisas que ninguém gosta de ouvir, a começar pelas elites do poder: que o rei vai nu, por exemplo... Além disso, são chatos por que (iii) vêm estragar a festa do Zé Povinho.

Em Coimbra, no Porto ou em Lisboa, que são as três praças fortes do pensamento sociológico, há sociólogos chatos. Lucidíssimos mas chatos. Sejamos pluralistas: e porque não também Braga ? ou Évora ? Não quero, com isto, hierarquizar os pólos da sociologia portuguesa que, de resto, está bem e recomenda-se (E o Prof.  Carlos Fortuna é um dos nomes que honra a sociologia portuguesa, diga-se a talhe de foice).

2. Eu subscrevo inteiramente o que o senhor professor de Coimbra escreveu a este propósito: "Este nacionalismo [futebolístico] é pouco". Mais: "a bandeira custa um euro". Pior ainda: a bandeira é made in China. Trágico:  foi feita numa daquelas fábricas de vão escada, em que o trabalho é sinónimo de sangue, suor e lágrimas.

As tristemente famosas sweatshops dos chinocas foram há dias publicamente denunciadas pelos nossos grandes industriais do têxtil, como exemplos de dumping social. Nunca os vi, entretanto, preocupados com as sweat shops dos portugas, em Vale do Ave e outros paraísos do empreendedorismo lusitano, com a melhoria das condições de trabalho dos operários portugueses, com a protecção da saúde e da segurança do trabalho, com a sua qualidade de vida no trabalho, etc.
 
Como eu costumo dizer, se as nossas fábricas e outros locais de trabalho fossem ao menos "estábulos-modelos", os nossos operários e demais trabalhadores poderiam ser equiparados à melhor aristocracia dos porcos, dos perus, dos frangos ou das vacas...

A verdade sociológica mais profunda é que este é um "nacionalismo barato", afirmou o ex-presidente da Associação Portuguesa de Sociologia (APS), em declarações à agência Lusa (Público, 11 de Junho de 2004). Eu acrescentaria: duplamente barato!

O meu ilustre colega sustenta que, "face à consciência nacional de um défice de resultados positivos (do país), os portugueses querem sucesso rápido, breve e imediato, e o futebol resolve-se em 90 minutos".

Ora, desse ponto de vista, o futebol "é fantástico, porque é a plena consciência nacional do fracasso", considerando que "há muita pouca coisa com que os portugueses se possam entusiasmar" (espero que o jornalista não tenha deturpado o pensamento do sociólogo).

Na opinião de Carlos Fortuna, existe em Portugal um "défice de nacionalismo e de auto-estima", e o país precisa de um nacionalismo "não tão imediatista e mais consistente do ponto de vista político".

Em suma, este é um recado, sábio, para o portuga de ejaculação precoce que espera o paraíso ao fim de 90 minutos de provação no inferno (há vários infernos: o dos dragões, o da luz, o de alvalade...).

3. Eu não gosto de fazer sociologia espontânea nem de me pôr em bicos de pés para aparecer em título de caixa alta. Quando muito, lá vou praticando a minha periférica e efémera socio(b)logia...

Mas se os doutos professores coimbrãos me permitem uma opinião de leigo ou, quando muito, de socio(b)logo, eu ficaria contente, se fosse psiquiatra ou até ministro da saúde, por os portugas deixarem de pensar, mesmo que por uns escassos momentos, no dramático fim de mês que, para cada vez mais portugas, tende a ser (ou parecer ser) pior que o fim o mundo...
 
O que de resto é compreensível, diga-se de passagem: (i) do fim do mundo nunca ninguém voltou para dar o dramático, pungente e irrepetível testemunho; (ii) e da terrível provação de tesos do dia 15 até ao fim do mês,  todos (ou quase todos) os portugas podem falar de cátedra...

Eu sei que o futebol não resolve este problema, nem nenhum outro problema dos nossos muitos problemas colectivos (estruturais, económicos, culturais, mentais...). Mas, que diabo!, faz bem a nossa auto-estima. Nem que seja por uma noite ou por umas horas!

Cibercaríssimo Carlos, deixe o portuga (i) sonhar, (ii) alienar-se, (iii) embebedar-se, por uma uma noite... Deixe o portuga tuga (iv) pensar que é o maior do mundo só por que às veze até é capaz de enfiar a bola na baliza... A ressaca do dia seguinte é terrível e aí você pode aplicar a sua pesada, pesadíssima, lucidez de sociólogo, o rigoroso método do Durkheim, do Weber ou do Bourdieu...

4. Leio nos jornais que, em Coimbra, a procura das bandeiras portuguesas tem sido tal que se encontra praticamente esgotada, nomeadamente nos quiosques:

"Esgotaram há três, quatro dias", disse à Lusa José Maria Saraiva, da Tabacaria S. Cruz, uma das mais centrais na cidade.A varanda, a janela, a porta, o fio da roupa, o chapéu-de-sol que abriga o engraxador de sapatos, quase tudo serve para expor a bandeira nacional, na cidade de Coimbra, seja qual for o tamanho. Na Baixa citadina, é nas zonas mais degradadas que as bandeiras mais se destacam, nalguns casos atravessando as estreitas ruas de lado a lado, como na Rua Direita" (Público, 11 de Junho de 2004).

Em Lisboa, eu também constato o mesmo fenómeno e, curiosamente, é nos bairros populares e nos bairros de habitação social que se desfraldam mais bandeiras portuguesas, das tais made in China, com os símbolos lusitanos aldrabados: os famigerados pagodes budistas em vez dos nossos garbosos castelos conquistados à moirama!

5. A esta hora da noite, ou melhor da madrugada, deixem-me dizer que o meu herói, provisório, efémero, é o Ricardo... Ou porque não os dois Ricardos ? E quem diz os dois diz os vinte e três mais o resto da orquestra... Esta npoite chamo-me Ricardo. Confesso que não vi o jogo Portugal-Inglaterra, apenas os últimos, dramáticos minutos, impróprios para cardíacos...
 
Em boa verdade sou patriota mas não sou masoquista; aliás, pela Pátria já dei o meu quinhão de sangue, suor e lágrimas...

O que me tocou, o que me sensibilizou profundamente, o que emocionou mesmo foi a sua (dele, Ricardo) atitude de autoconfiança, pondo a cabeça no cepo ao oferecer-se, ele próprio, para marcar o último e decisivo penalty, depois de ter acabado de fazer a grande defesa da noite...

Eu acho que ele quis matar de vez o fantasma do Vitor Baía, como diria o Prof. Carlos Amaral Dias (e dirão os jornais do dia seguinte). Independentemente disso, eu passei a ter um enorme respeito por este mouro do Montijo. A sua postura, a sua determinação, a sua coragem e a sua heterodoxia são (bons) exemplos que extravasam as quatro linhas bem delimitadas de um campo de futebol...

Eu que não vi o jogo de futebol Portugal-Inglaterra, e que de resto não passou de um simples jogo de futebol entre onze portugueses e onze ingleses... Ou terão sido muitos mais ?

O que vale é que portugueses, espanhóis e ingleses são fracos em história, senão já teriam trazido, para o relvado dos estádios novinhos em folha, as (e)ternas questões por resolver, ligadas à nossa história comum: por ex., a valorosa padeira de Aljubarrota teria mesmo seis dedos em cada mão ? E como que é que, mesmo assim, com seis dedos, ela foi capaz de matar, só à conta dela, sete castelhanos?

6.  Não há dúvida de que o nacionalismo é uma ideologia eficiente e eficaz.  O futebol é hoje o-pão-e-o-circo da pós-modernidade. A(s) direita(s) europeia(s) sempre o souberam explorar. Começaram por fazer dele um fenómeno interclassista, logo acima de todas as diferenças que todos os dias nos separam...

Não era por acaso que denunciávamos, antes e depois do 25 de Abril de 1974, a ditadura dos três F (Fátima, Fado e Futebol).

O Futebol é hoje a continuação da guerra por outros meios. Em plena euroforia, é bom pôr (re)pensar o fenómeno da futebolização da sociedade portuguesa actual... Não vale a pena dar-lhe muita importância, mas também não é aconselhável  subestimá-la. Socio(b)logo dixit!

24 junho 2004

Portugas que merecem as nossas palmas - IX: João Lobo Antunes e a ciência (a)moral

A ciência é amoral ? Puro engano, isso não existe. A amoralidade em ciência. Não há tecnologia nem ciência(s) puras. Temos que fazer escolhas, quase sempre difíceis e por vezes dilacerantes. Agora o que não podemos é proibir o conhecimento. O acesso à informação e ao conhecimento é, hoje, um dado civilizacional, um valor democrático.



Corremos o risco de abrir a caixa de Pandora ? Mas a aventura humana não é outra coisa senão essa oportunidade e esse desafio.



Perguntam: mas as novas tecnologias (por exemplo, as da saúde) são igualizadoras, garantem a igualdade de oportunidades, ou não passam de “brinquedos para os ricos” ? É como a história do aborto: não se pode fazer em Portugal ? Dá-se uma salto a Badajoz, ali mesmo ao aldo, onde há clínicas abortivas para quem pode pagar...



Foram estas e outras perguntas (muito mnais do que as respostas) que constituíram a excelente, estimulante e amena cavaqueira que o Prof. João Lobo Antunes manteve, no passado dia 22, com dúzia e meia de privilegiad@s no Salão Nobre da Escola Nacional de Saúde Pública, das 17 às 18 horas, a propósito das novas tecnologias da saúde, da prática clínica e da administração de cuidados.



Nada como juntar o papel de médico que manipula uma alta tecnologia (a neurocirurgia) com o do membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, sem esquecer, o professor, o cidadão, o escritor, o humanista (no sentido renascentista do termo), o Prémio Pessoa 1996, etc.



Que implicações éticas têm as novas tecnologias ? Muitas, a começar pelos custos e benefícios. Veja-se o discurso dos políticos sobre a investigação em células estaminais humanas: os mais conservadores (v.g., Bush, Agosto de 2001) têm acentuado (i) o princípio dos riscos morais; e (ii) a negação do princípio (erradamente atribuído a Maquiavel) de que os fins (e sobretudo os mais nobres...) justificam os meios. E que fins mais nobres do que o de prevenir e curar a doença (v.g., Alzeimher) ou até de melhorar a espécie humana ?!



O drama é que a ciência não é mais pura... A ciência tornou-se pura com o iluminismo. Mas ela começou por ser pragmática (por exemplo, na Idade Média, nos conventos). Hoje tende a desaparecer o gap entre a ciência académica (individual, teórica, desinteressada, pura...) e a ciência industrial (grupal, prática, pragmática, produzindo valor acrescentado...). Há uma tremenda pressão para que a ciência se transforma em tecnologia, essa filha sexy da ciência...



O que temos hoje é a apploid science: (i) colectiva, em rede; (ii) aplicável, logo rentável; (iii) propensa ao conflito (há sempre conflito de interesses; e, por fim, com (iv) consequências éticas... Veja-se o que se passou cokm o grupo de cientistas que esteve na origem na construção da bomba atómica (J. Robert Oppenhieimer, Einstein, Leo Szilard...).



As novas tecnologias começam por exercer em nós uma enorme surpresa e encanto (i); há depois uma segunda fase, que é de refluxo, de receios pelos riscos (“a acaixa de Pandora”); e, +por fim, (iii) a preessão do Estado e da socieade civcil para a regulamantação.



No campo da a saúde, pode-se falar há muito de um complexo médico-industrial, com particulares interesses nos tipos de tecnologia: (i) as de suporte à vida; (ii) as diagnósticas; e, por fim, (iii) as cirúrgicas.



(...)

Portugas que merecem as nossas palmas - IX: João Lobo Antunes e a ciência (a)moral

A ciência é amoral ? Puro engano, isso não existe. A amoralidade em ciência. Não há tecnologia nem ciência(s) puras. Temos que fazer escolhas, quase sempre difíceis e por vezes dilacerantes. Agora o que não podemos é proibir o conhecimento. O acesso à informação e ao conhecimento é, hoje, um dado civilizacional, um valor democrático.

Corremos o risco de abrir a caixa de Pandora ? Mas a aventura humana não é outra coisa senão essa oportunidade e esse desafio.

Perguntam: mas as novas tecnologias (por exemplo, as da saúde) são igualizadoras, garantem a igualdade de oportunidades, ou não passam de “brinquedos para os ricos” ? É como a história do aborto: não se pode fazer em Portugal ? Dá-se uma salto a Badajoz, ali mesmo ao aldo, onde há clínicas abortivas para quem pode pagar...

Foram estas e outras perguntas (muito mnais do que as respostas) que constituíram a excelente, estimulante e amena cavaqueira que o Prof. João Lobo Antunes manteve, no passado dia 22, com dúzia e meia de privilegiad@s no Salão Nobre da Escola Nacional de Saúde Pública, das 17 às 18 horas, a propósito das novas tecnologias da saúde, da prática clínica e da administração de cuidados.

Nada como juntar o papel de médico que manipula uma alta tecnologia (a neurocirurgia) com o do membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, sem esquecer, o professor, o cidadão, o escritor, o humanista (no sentido renascentista do termo), o Prémio Pessoa 1996, etc.

Que implicações éticas têm as novas tecnologias ? Muitas, a começar pelos custos e benefícios. Veja-se o discurso dos políticos sobre a investigação em células estaminais humanas: os mais conservadores (v.g., Bush, Agosto de 2001) têm acentuado (i) o princípio dos riscos morais; e (ii) a negação do princípio (erradamente atribuído a Maquiavel) de que os fins (e sobretudo os mais nobres...) justificam os meios. E que fins mais nobres do que o de prevenir e curar a doença (v.g., Alzeimher) ou até de melhorar a espécie humana ?!

O drama é que a ciência não é mais pura... A ciência tornou-se pura com o iluminismo. Mas ela começou por ser pragmática (por exemplo, na Idade Média, nos conventos). Hoje tende a desaparecer o gap entre a ciência académica (individual, teórica, desinteressada, pura...) e a ciência industrial (grupal, prática, pragmática, produzindo valor acrescentado...). Há uma tremenda pressão para que a ciência se transforma em tecnologia, essa filha sexy da ciência...

O que temos hoje é a apploid science: (i) colectiva, em rede; (ii) aplicável, logo rentável; (iii) propensa ao conflito (há sempre conflito de interesses; e, por fim, com (iv) consequências éticas... Veja-se o que se passou cokm o grupo de cientistas que esteve na origem na construção da bomba atómica (J. Robert Oppenhieimer, Einstein, Leo Szilard...).

As novas tecnologias começam por exercer em nós uma enorme surpresa e encanto (i); há depois uma segunda fase, que é de refluxo, de receios pelos riscos (“a acaixa de Pandora”); e, +por fim, (iii) a preessão do Estado e da socieade civcil para a regulamantação.

No campo da a saúde, pode-se falar há muito de um complexo médico-industrial, com particulares interesses nos tipos de tecnologia: (i) as de suporte à vida; (ii) as diagnósticas; e, por fim, (iii) as cirúrgicas.

(...)

20 junho 2004

Blogantologia(s) - XIV: Paimogo da minha infância I

Não preciso de ser geólogo

Para te amar,

Ó Praia de Paimogo

Da minha infância.



Nem de ser paleontólogo

Para seguir as peugadas

Da tua errância

De dinossauro

do Jurássico Superior.



Nem muito menos biólogo ou sociólogo

Para te conhecer aí onde

Se alimenta o recolector-caçador

E o polvo, o povo, se esconde

Nas marés vivas de lua cheia.



Procurei abrigo na tua enseada,

Domei as ondas e o vento,

Esculpi a esfinge que guarda

A porta do teu templo,

Andei na pesca ao candeio,

Contrabandeei, fui almocreve,

Maçarico, marinheiro, calafate,

Pescador de lagosta, camarada,

Embarcadiço, capitão do norte,

Poeta, pirata e frade,

Fenício, celta, romano e moçárabe,

Português do mundo em cada esquina.



Armei navios, enriqueci, trafiquei,

Naufraguei em ilhas longínquas, polinésias,

Adubei as minha terras com o teu limo,

Fiz o meu ninho de ave de rapina

No alto das tuas falésias,

Lavrei o mar, semeei a morte,

E os meus mortos enterrei

Nas tuas areias.



Vigiei o mar, o céu e a terra

Do alto setecentista do teu forte;

Tive visões, vi monstros e sereias,

Fugi das garras dos temíveis terópodes,

Extingui vulcões, sofri horrores,

Conheci a paz e a guerra,

Estive cativo do mouro,

Fui devorado por gasterópodes,

Choquei os teus ovos de dinossauro,

Andei à deriva dos continentes,

Mas a verdade é que,

Cobiçada por muitas gentes,

Nunca nenhuma armada invencível te venceu,

Ó Praia de Paimogo da minha infância.

Se te perdeste, foi só por amores!



Quando eu era criança,

Quando eu tive a sorte de ser criança,

As sardinhas voltavam sempre

Em frágeis cardumes de prata e luar

À praia onde haviam nascido.



Quando eu era menino e moço,

Havia uma princesa moura, encantada,

Numa das tuas grutas submarinas;

O corpo coberto de lapas e algas agar-agar,

Era fonte de água pura, doce e quente,

Donde bebiam os ofegantes cavalos alados

Com as suas enormes narinas.

E o vento, nas velas dos barcos e dos moinhos,

Falava-me da tragédia antiga, mas ainda viva,

Da filha do teu capitão

Que se havia matado do alto da arriba,

Dizem que por amor e solidão.



No antigo reino mouro

e depois franco da Lourinhã,

Também os búzios me diziam

Que à noite as luzinhas,

Ao sul das Ilhas Berlengas,

Eram as alminhas

Dos que morriam

Sem sepultura cristã.



Hoje não acredito mais nessas lendas:

Afinal essas luzes são apenas as das traineiras,

Ao largo do Mar da Cerca,

Atrás dos cardumes de sardinhas.







Fonte: © Atelier Hannover 2000(1999-2000)





Post scriptum



Em 1993, foi descoberto em Paimogo aquilo que viria a ser considerado o maior ninho de ovos de dinossauro do mundo, e mais específicamente de dinossauros terópodes (carnívoros bípedes).



Segundo ojovem paleontólogo e doutorando Octávio Mateus, a jazida de Paimogo tem cerca de 120 ovos. "Existem ovos ou cascas de ovos mais antigos, mas o ninho de Paimogo é a mais antiga estrutura de nidificação. É o único com embriões na Europa e possui os mais antigos ossos com embriões do mundo (150 milhões de anos)". Além disso, misturados com os ovos de dinossauro, "descobriram-se três ovos de crocodilo, os mais antigos do mundo. Essa ocorrência permite-nos pensar numa relação de comensalismo entre dinossauros e crocodilos durante o Jurássico".







1º Prémio do II Concurso Internacional de Ilustração de Dinossauros: Eustreptospondylus (pormenor) - Autor: Vladimir Bondar (Ucrânia)



© Vladimir Bondar e GEAL-Museu da Lourinhã (2002).



Divulgue o Museu da Lourinhã e sobretudo visite-o: é a melhor exposição permanente do País na área da paleontologia dos dinossauros.



Blogantologia(s) - XIV: Paimogo da minha infância I

Não preciso de ser geólogo
Para te amar,
Ó Praia de Paimogo
Da minha infância.

Nem de ser paleontólogo
Para seguir as peugadas
Da tua errância
De dinossauro
do Jurássico Superior.

Nem muito menos biólogo ou sociólogo
Para te conhecer aí onde
Se alimenta o recolector-caçador
E o polvo, o povo, se esconde
Nas marés vivas de lua cheia.

Procurei abrigo na tua enseada,
Domei as ondas e o vento,
Esculpi a esfinge que guarda
A porta do teu templo,
Andei na pesca ao candeio,
Contrabandeei, fui almocreve,
Maçarico, marinheiro, calafate,
Pescador de lagosta, camarada,
Embarcadiço, capitão do norte,
Poeta, pirata e frade,
Fenício, celta, romano e moçárabe,
Português do mundo em cada esquina.

Armei navios, enriqueci, trafiquei,
Naufraguei em ilhas longínquas, polinésias,
Adubei as minha terras com o teu limo,
Fiz o meu ninho de ave de rapina
No alto das tuas falésias,
Lavrei o mar, semeei a morte,
E os meus mortos enterrei
Nas tuas areias.

Vigiei o mar, o céu e a terra
Do alto setecentista do teu forte;
Tive visões, vi monstros e sereias,
Fugi das garras dos temíveis terópodes,
Extingui vulcões, sofri horrores,
Conheci a paz e a guerra,
Estive cativo do mouro,
Fui devorado por gasterópodes,
Choquei os teus ovos de dinossauro,
Andei à deriva dos continentes,
Mas a verdade é que,
Cobiçada por muitas gentes,
Nunca nenhuma armada invencível te venceu,
Ó Praia de Paimogo da minha infância.
Se te perdeste, foi só por amores!

Quando eu era criança,
Quando eu tive a sorte de ser criança,
As sardinhas voltavam sempre
Em frágeis cardumes de prata e luar
À praia onde haviam nascido.

Quando eu era menino e moço,
Havia uma princesa moura, encantada,
Numa das tuas grutas submarinas;
O corpo coberto de lapas e algas agar-agar,
Era fonte de água pura, doce e quente,
Donde bebiam os ofegantes cavalos alados
Com as suas enormes narinas.
E o vento, nas velas dos barcos e dos moinhos,
Falava-me da tragédia antiga, mas ainda viva,
Da filha do teu capitão
Que se havia matado do alto da arriba,
Dizem que por amor e solidão.

No antigo reino mouro
e depois franco da Lourinhã,
Também os búzios me diziam
Que à noite as luzinhas,
Ao sul das Ilhas Berlengas,
Eram as alminhas
Dos que morriam
Sem sepultura cristã.

Hoje não acredito mais nessas lendas:
Afinal essas luzes são apenas as das traineiras,
Ao largo do Mar da Cerca,
Atrás dos cardumes de sardinhas.



Fonte: © Atelier Hannover 2000(1999-2000)


Post scriptum

Em 1993, foi descoberto em Paimogo aquilo que viria a ser considerado o maior ninho de ovos de dinossauro do mundo, e mais específicamente de dinossauros terópodes (carnívoros bípedes).

Segundo ojovem paleontólogo e doutorando Octávio Mateus, a jazida de Paimogo tem cerca de 120 ovos. "Existem ovos ou cascas de ovos mais antigos, mas o ninho de Paimogo é a mais antiga estrutura de nidificação. É o único com embriões na Europa e possui os mais antigos ossos com embriões do mundo (150 milhões de anos)". Além disso, misturados com os ovos de dinossauro, "descobriram-se três ovos de crocodilo, os mais antigos do mundo. Essa ocorrência permite-nos pensar numa relação de comensalismo entre dinossauros e crocodilos durante o Jurássico".



1º Prémio do II Concurso Internacional de Ilustração de Dinossauros: Eustreptospondylus (pormenor) - Autor: Vladimir Bondar (Ucrânia)

© Vladimir Bondar e GEAL-Museu da Lourinhã (2002).

Divulgue o Museu da Lourinhã e sobretudo visite-o: é a melhor exposição permanente do País na área da paleontologia dos dinossauros.

16 junho 2004

Portugas que merecem os nossos assobios - III: Os avelinos

(i) Ah!, este Portugal caceteiro, reaccionário, castiço, afadistado, arrogante, prepotente, troglodita, fascistóide, psicótico!... O Portugal do Senhor Dom Miguel e do Remexido!...



(ii) Eu que fiz daquela terra a minha terceira terra, tenho pena que este primata antissocial ainda seja o pequeno rei & roque do Marco de Canaveses, a terra que é berço da artista Carmen Miranda, do Eng. Belmiro de Azevedo e de um bom lote dos meus amigos e familiares (gente de cinco estrelas, como por lá se diz!)



(iii) Castigat ridendo mores: Que ao menos seja pelo humor, pelo riso, que a gente castigue estes pouco brandos costumes ancestrais...



(iv) É expondo-os ao ridículo do écrã da televisão ou da grande pantalha da blogosfera, perante milhões de portugas, que estes energúmenos acabam por sair de cena... Pode levar o seu tempo, mas acabam por passar de moda... Eu sei que na próxima telenovela aparecerão outros com maneiras mais sofisticadas, com new look, com outra Kultura Democrática e outra Etiketa Social...



(v) O que é intrigante são as cumplicidades de que estes e outros avelinos parecem beneficiar, entre os tentáculos do Estado-polvo e as enguias do poder do dinheiro; são os diabretes que a democracia pós-abrilista acabou por gerar no seu ventre ubérrimo, generoso mas nem sempre lúcido e inteligente.

Portugas que merecem os nossos assobios - III: Os avelinos

(i) Ah!, este Portugal caceteiro, reaccionário, castiço, afadistado, arrogante, prepotente, troglodita, fascistóide, psicótico!... O Portugal do Senhor Dom Miguel e do Remexido!...

(ii) Eu que fiz daquela terra a minha terceira terra, tenho pena que este primata antissocial ainda seja o pequeno rei & roque do Marco de Canaveses, a terra que é berço da artista Carmen Miranda, do Eng. Belmiro de Azevedo e de um bom lote dos meus amigos e familiares (gente de cinco estrelas, como por lá se diz!)

(iii) Castigat ridendo mores: Que ao menos seja pelo humor, pelo riso, que a gente castigue estes pouco brandos costumes ancestrais...

(iv) É expondo-os ao ridículo do écrã da televisão ou da grande pantalha da blogosfera, perante milhões de portugas, que estes energúmenos acabam por sair de cena... Pode levar o seu tempo, mas acabam por passar de moda... Eu sei que na próxima telenovela aparecerão outros com maneiras mais sofisticadas, com new look, com outra Kultura Democrática e outra Etiketa Social...

(v) O que é intrigante são as cumplicidades de que estes e outros avelinos parecem beneficiar, entre os tentáculos do Estado-polvo e as enguias do poder do dinheiro; são os diabretes que a democracia pós-abrilista acabou por gerar no seu ventre ubérrimo, generoso mas nem sempre lúcido e inteligente.

Blogantologia(s) - XIII: Para ti

Para ti, A., em jeito de poemacção, de poemafeição, de poemamor, de poemagradecimento, de poemapoio ou tão só de poemassombração. Como quiseres, que em poesia não há relações lineares de causa-efeito.





Quanto é bom voltar a ver-te voar





gaivota deusa alada

cortas fundo o branco

da manhã

e até ao cabo mais ocidental

do meu corpo

quero-te e espero-te

a viajar

no último comboio da madrugada



até ao fim até ao sul

paro escuto e olho

os semáforos do nevoeiro no país verde-rubro

mas já a maré enche de azul

as praças da cidade

e tu amor sem arribar



porto seguro e encantatório

ilha secreta gruta radar

com uma palmeira à janela

e uma bandeira em cada promontório

dizem que és filha da liberdade

do rio e da foz do vulcão e da lava

e em dias de neblina também és oásis

aldeia palafita e ponto final

entre as arribas e a praia-mar



não olhei para o calendário

nas paredes da falésia

nem fixei o dia o mês o ano ou a era

mas hoje o teu voo é preclaro sinal

de primavera



ponho um cêdê do fado novo

paro escuto perscruto

o telefone os búzios a guitarra

mas tu amante sibila cartomante

sem aportar



frias são as estrias do poema

e hirto o sax-grito

do último navio na noite

mas a letra do fado me diz

que tu gaivota deusa alada

estás p’ra chegar.



quanto é bom voltar a ver-te

voar.



28.3.1985

16.6.2004



Blogantologia(s) - XIII: Para ti

Para ti, A., em jeito de poemacção, de poemafeição, de poemamor, de poemagradecimento, de poemapoio ou tão só de poemassombração. Como quiseres, que em poesia não há relações lineares de causa-efeito.


Quanto é bom voltar a ver-te voar


gaivota deusa alada
cortas fundo o branco
da manhã
e até ao cabo mais ocidental
do meu corpo
quero-te e espero-te
a viajar
no último comboio da madrugada

até ao fim até ao sul
paro escuto e olho
os semáforos do nevoeiro no país verde-rubro
mas já a maré enche de azul
as praças da cidade
e tu amor sem arribar

porto seguro e encantatório
ilha secreta gruta radar
com uma palmeira à janela
e uma bandeira em cada promontório
dizem que és filha da liberdade
do rio e da foz do vulcão e da lava
e em dias de neblina também és oásis
aldeia palafita e ponto final
entre as arribas e a praia-mar

não olhei para o calendário
nas paredes da falésia
nem fixei o dia o mês o ano ou a era
mas hoje o teu voo é preclaro sinal
de primavera

ponho um cêdê do fado novo
paro escuto perscruto
o telefone os búzios a guitarra
mas tu amante sibila cartomante
sem aportar

frias são as estrias do poema
e hirto o sax-grito
do último navio na noite
mas a letra do fado me diz
que tu gaivota deusa alada
estás p’ra chegar.

quanto é bom voltar a ver-te
voar.

28.3.1985
16.6.2004

08 junho 2004

Blogantologia(s) - XII: Antony Gormley: no princípio era o corpo

A construção social do risco
ou socio(b)logando sobre uma exposição do escultor Anthony Gormley
("Mass and Empathy")


No princípio não era ainda o verbo.
O verbo virá depois.
Critical mass. Domain field.
O Anjo do Norte. O corpo e a morte.
E outras ideias fortes
Esculpidas no gesso, no ferro, no aço ou no cimento.

No princípio era o corpo.
A imensa mole de corpos.
A mão. O braço. O teu corpo.
O braço como extensão do teu corpo.
O corpo ubíquo. Iníquo.
O corpo de pé. De cócoras. De joelhos.
Sentado. Dobrado.
Deitado. Despojado.
Amontoado. Pendurado. Dependurado.
Petrificado. Fossilizado.

A partir do teu corpo.
Da extensão do teu braço.
Marcas um círculo à tua volta.
Aí mesmo onde as pedras fizeram uma elipse e
Pousaram.
Na terra. A cima da terra.
O teu corpo em molde de gesso.
Recuperas o teu corpo. Molécula a molécula.
Devolves o teu genoma à terra.
Estás num caixão. Um sarcófago. Um cofre.
Sem olhos. Estanque.

Um corpo à procura dum lugar para ser.
Um corpo. Um braço.
Algo que é teu.
O braço do teu corpo.
Mas que te é estranho.
Familiarmente estranho.
Como os restos do cordão umbilical
Que te liga(m) à matriz original
De todas as coisas.

Na tua mão seguras
O epicentro do mundo.
Chamemos-lhe provisoriamente mundo.
Punhamo-lo entre parêntesis. O mundo.
Entre parêntesis de arame farpado.
Porque no princípio era apenas o corpo
E a extensão do teu corpo.
E a violência do teu parto.
E o cordão umbilical que te liga à terra.

Mas isto não é um corpo.
É uma maçã, diz Magritte. Ou talvez não.
Apenas um poema em construção.
Um acto de criação.
A criação em acção.
Um muro liso e branco.
O muro. O fio de prumo.
O pêndulo. A corda. O cadafalso.
A linha do horizonte na vertical.
A luz ao fundo do túnel.
O fio de Ariane que te conduz
No labirinto.

Se o em si existe
É esta porção de mundo
Que está ao alcance da tua mão.
Um círculo. A exacta circunferência
Desenhada pelo teu dedo
Na areia da praia onde arribaste.
Ou poderia ter sido o dedo do deus
De Miguel Ângelo.
Ou outra criatura. Ou outro criador.

O teu corpo supunha-o blindado.
Como um caixão de chumbo. Um sarcófago.
Blindado mas oco como uma forma.
Sem olhos. Vazio. Mumificado.
Afinal, o teu corpo
É apenas um material de construção.
Um poema em construção. Um projecto.
Com especificações técnicas como qualquer projecto.
E dentro do poema um coração
Onde se lê: Cuidado, frágil.

É a relação com os outros
Que importa agora reter.
A semelhança. A dissemelhança.
É o relacional que dá sentido
À tua ubiquidade.
À tua iniquidade.
És velho e novo.
Alto e baixo.
Servo e senhor.
Objecto e sujeito.
Doente e terapeuta.
Masculino e feminino.
Escultor e esculpido.
Medium e antropólogo.
Construído e construtor.
Vítima e predador.
Fio e labirinto.
Perdido e achado.
Fóssil e paleontólogo.
Arte e artista.
Antony e Gormley.

És mais do que um corpo.
Mais do que um corpo na cidade.
És a própria cidade em construção.
A textura da cidade. O sociograma.
Mais do que rélation, diria rapport.
Relação de força, tensão, stresse, strain.

Tenho dificuldade em explicar-te
Onde acaba o biológico
E onde começa o social.
A linha de risco. O risco. O existencial.
O normal e o patológico.
O céu e o inferno. O axiológico.
A salutogénese e a patogénese.
A expiação do pecado original.
O mal. Pompeia e o Etna.
Hiroshima. O absurdo.
A angústia à flor da pele.
O envelhecer. A dor.
A raíz da dor. A depressão. O medo.
A morte e o morrer.
E sobretudo o poder.
Da vida e da morte.
O poder que não é coisa,
Atributo, categoria ou variável.
Mas relação. Um construído.
Como o teu corpo. A tua identidade.
A estratificação socioespacial do teu corpo.
O tempo e o lugar. A equidade. A bioética.
O corpo no labirinto.

Que disse que o mundo é
Injusto ou errado ?
Ou foi mal planeado ?
O problema não é de filosofia
Nem de risk assessment
Mas de engenharia (meta)física.
O stresse é uma força
Que aplicada sobre o aço do teu corpo
A deforma. Mais: O stresse mata.

E depois há o corpo que suporta
O peso. Do próprio corpo.
Dos outros corpos. Do mundo.
Mais do que os teus 700 quilos de ferro forjado
É o insustentável peso do mundo
Que tu habitas mais o teu corpo.
E o teu frágil coração.
Julgava-o blindado, o teu corpo. Mas não.

Há também, antes ou depois,
O corpo solidário. A rede.
O projecto identitário.
O poema em construção.
O desastre humanitário.
O fio do labirinto de Ariane.
O estado totalitário.
O corpo em acção.
O futuro sempre precário.

Mesmo Robinson Crusoe na tua ilha de arribação,
És um corpo com marcas indeléveis.
No teu invólucro de gesso
Vejo a marca do bisturi. Do naufrágio.
Da Kalashnikov. Do trabalho.
Da doença. Da escrita.
Da escola. Do código de Hamurabi.
Da guerra. Da tatuagem. Do sucesso.
Da formatação. Do clã. Do vulcão.
Do genoma. Da engenharia genética.
Da iatrogénse. Do puro terror.
Do Génesis. Da palavra de salvação.
Da bomba de Hiroshima.
Do desembarque nas praias da Normandia.
Do fado. Da saudade da partida.
Do horóscopo. Da viagem.
Da memória. Da história.
Da tua história de vida.

Mercator, ergo pestiferus.
Corpo ambulante. Desertor. Militante.
Mercador. Corsário. Marinheiro.
Recrutador de soldados.
Hóspede e hospedeiro.
Enfim, livre.
Trazes das outras ilhas a peste. A vida.
Nunca te reconheceria apenas pela cor dos teus olhos.
Furados.

Fundação Calouste Gulbenkian,
Museu de Arte Moderna,
Lisboa, 7 de Maio de 2004.

Por ocasião de uma visita guiada à exposição "mass and Empahy", de Antony Gormley, na companhia da Prof. Dra. Isabel Loureiro, do psiquiatra Dr. Luís Gamito e de dezasseis mestrand@s de saúde pública (7º Mestrado de Saúde Pública, Escola Nacional de Saúde Pública/Universidade Nova de Lisboa, 2003/2005)

Duas instalações de Antoney Gormley (n. Londres, 1950):

(i) Critical Mass II (1998). Ferro forjado. 60 unidades em tamanho natural. Molde do corpo do artista. Oficinas de carpintaria da Gulbenkian.

(ii) Domain Field (2003). Barras de ferro inoxidável. 4.76 x 4.76 mm. 287 esculturas, vários tamanhos, resultantes de moldes em gesso de habitantes de Newcastle-Gateshead com idades compreendidas entre os 2.5 anos e os 84 anos. Espaço (fabuloso) de exposições temporárias do Centro de Arte Moderna.


Outros sítios sobre Antony Gormley:

21st Century British Sculpture > Antony Gormley

Artcyclopedia > Antony Gormley

BBC > BBC Four > Audio Interviews > Antony Gormley

BALTIC > Summer 2003 Imagebank > Antony Gormley> Body and Fruit, 1993

Graeme Peacock > Photos > Angel of the North > Gateshead, Tyne & Wear, UK

Blogantologia(s) - XII: Antony Gormley: no princípio era o corpo

A construção social do risco
ou socio(b)logando sobre uma exposição do escultor Anthony Gormley
("Mass and Empathy")


No princípio não era ainda o verbo.
O verbo virá depois.
Critical mass. Domain field.
O Anjo do Norte. O corpo e a morte.
E outras ideias fortes
Esculpidas no gesso, no ferro, no aço ou no cimento.

No princípio era o corpo.
A imensa mole de corpos.
A mão. O braço. O teu corpo.
O braço como extensão do teu corpo.
O corpo ubíquo. Iníquo.
O corpo de pé. De cócoras. De joelhos.
Sentado. Dobrado.
Deitado. Despojado.
Amontoado. Pendurado. Dependurado.
Petrificado. Fossilizado.

A partir do teu corpo.
Da extensão do teu braço.
Marcas um círculo à tua volta.
Aí mesmo onde as pedras fizeram uma elipse e
Pousaram.
Na terra. A cima da terra.
O teu corpo em molde de gesso.
Recuperas o teu corpo. Molécula a molécula.
Devolves o teu genoma à terra.
Estás num caixão. Um sarcófago. Um cofre.
Sem olhos. Estanque.

Um corpo à procura dum lugar para ser.
Um corpo. Um braço.
Algo que é teu.
O braço do teu corpo.
Mas que te é estranho.
Familiarmente estranho.
Como os restos do cordão umbilical
Que te liga(m) à matriz original
De todas as coisas.

Na tua mão seguras
O epicentro do mundo.
Chamemos-lhe provisoriamente mundo.
Punhamo-lo entre parêntesis. O mundo.
Entre parêntesis de arame farpado.
Porque no princípio era apenas o corpo
E a extensão do teu corpo.
E a violência do teu parto.
E o cordão umbilical que te liga à terra.

Mas isto não é um corpo.
É uma maçã, diz Magritte. Ou talvez não.
Apenas um poema em construção.
Um acto de criação.
A criação em acção.
Um muro liso e branco.
O muro. O fio de prumo.
O pêndulo. A corda. O cadafalso.
A linha do horizonte na vertical.
A luz ao fundo do túnel.
O fio de Ariane que te conduz
No labirinto.

Se o em si existe
É esta porção de mundo
Que está ao alcance da tua mão.
Um círculo. A exacta circunferência
Desenhada pelo teu dedo
Na areia da praia onde arribaste.
Ou poderia ter sido o dedo do deus
De Miguel Ângelo.
Ou outra criatura. Ou outro criador.

O teu corpo supunha-o blindado.
Como um caixão de chumbo. Um sarcófago.
Blindado mas oco como uma forma.
Sem olhos. Vazio. Mumificado.
Afinal, o teu corpo
É apenas um material de construção.
Um poema em construção. Um projecto.
Com especificações técnicas como qualquer projecto.
E dentro do poema um coração
Onde se lê: Cuidado, frágil.

É a relação com os outros
Que importa agora reter.
A semelhança. A dissemelhança.
É o relacional que dá sentido
À tua ubiquidade.
À tua iniquidade.
És velho e novo.
Alto e baixo.
Servo e senhor.
Objecto e sujeito.
Doente e terapeuta.
Masculino e feminino.
Escultor e esculpido.
Medium e antropólogo.
Construído e construtor.
Vítima e predador.
Fio e labirinto.
Perdido e achado.
Fóssil e paleontólogo.
Arte e artista.
Antony e Gormley.

És mais do que um corpo.
Mais do que um corpo na cidade.
És a própria cidade em construção.
A textura da cidade. O sociograma.
Mais do que rélation, diria rapport.
Relação de força, tensão, stresse, strain.

Tenho dificuldade em explicar-te
Onde acaba o biológico
E onde começa o social.
A linha de risco. O risco. O existencial.
O normal e o patológico.
O céu e o inferno. O axiológico.
A salutogénese e a patogénese.
A expiação do pecado original.
O mal. Pompeia e o Etna.
Hiroshima. O absurdo.
A angústia à flor da pele.
O envelhecer. A dor.
A raíz da dor. A depressão. O medo.
A morte e o morrer.
E sobretudo o poder.
Da vida e da morte.
O poder que não é coisa,
Atributo, categoria ou variável.
Mas relação. Um construído.
Como o teu corpo. A tua identidade.
A estratificação socioespacial do teu corpo.
O tempo e o lugar. A equidade. A bioética.
O corpo no labirinto.

Que disse que o mundo é
Injusto ou errado ?
Ou foi mal planeado ?
O problema não é de filosofia
Nem de risk assessment
Mas de engenharia (meta)física.
O stresse é uma força
Que aplicada sobre o aço do teu corpo
A deforma. Mais: O stresse mata.

E depois há o corpo que suporta
O peso. Do próprio corpo.
Dos outros corpos. Do mundo.
Mais do que os teus 700 quilos de ferro forjado
É o insustentável peso do mundo
Que tu habitas mais o teu corpo.
E o teu frágil coração.
Julgava-o blindado, o teu corpo. Mas não.

Há também, antes ou depois,
O corpo solidário. A rede.
O projecto identitário.
O poema em construção.
O desastre humanitário.
O fio do labirinto de Ariane.
O estado totalitário.
O corpo em acção.
O futuro sempre precário.

Mesmo Robinson Crusoe na tua ilha de arribação,
És um corpo com marcas indeléveis.
No teu invólucro de gesso
Vejo a marca do bisturi. Do naufrágio.
Da Kalashnikov. Do trabalho.
Da doença. Da escrita.
Da escola. Do código de Hamurabi.
Da guerra. Da tatuagem. Do sucesso.
Da formatação. Do clã. Do vulcão.
Do genoma. Da engenharia genética.
Da iatrogénse. Do puro terror.
Do Génesis. Da palavra de salvação.
Da bomba de Hiroshima.
Do desembarque nas praias da Normandia.
Do fado. Da saudade da partida.
Do horóscopo. Da viagem.
Da memória. Da história.
Da tua história de vida.

Mercator, ergo pestiferus.
Corpo ambulante. Desertor. Militante.
Mercador. Corsário. Marinheiro.
Recrutador de soldados.
Hóspede e hospedeiro.
Enfim, livre.
Trazes das outras ilhas a peste. A vida.
Nunca te reconheceria apenas pela cor dos teus olhos.
Furados.

Fundação Calouste Gulbenkian,
Museu de Arte Moderna,
Lisboa, 7 de Maio de 2004.

Por ocasião de uma visita guiada à exposição "mass and Empahy", de Antony Gormley, na companhia da Prof. Dra. Isabel Loureiro, do psiquiatra Dr. Luís Gamito e de dezasseis mestrand@s de saúde pública (7º Mestrado de Saúde Pública, Escola Nacional de Saúde Pública/Universidade Nova de Lisboa, 2003/2005)

Duas instalações de Antoney Gormley (n. Londres, 1950):

(i) Critical Mass II (1998). Ferro forjado. 60 unidades em tamanho natural. Molde do corpo do artista. Oficinas de carpintaria da Gulbenkian.

(ii) Domain Field (2003). Barras de ferro inoxidável. 4.76 x 4.76 mm. 287 esculturas, vários tamanhos, resultantes de moldes em gesso de habitantes de Newcastle-Gateshead com idades compreendidas entre os 2.5 anos e os 84 anos. Espaço (fabuloso) de exposições temporárias do Centro de Arte Moderna.


Outros sítios sobre Antony Gormley:

21st Century British Sculpture > Antony Gormley

Artcyclopedia > Antony Gormley

BBC > BBC Four > Audio Interviews > Antony Gormley

BALTIC > Summer 2003 Imagebank > Antony Gormley> Body and Fruit, 1993

Graeme Peacock > Photos > Angel of the North > Gateshead, Tyne & Wear, UK

04 junho 2004

Socio(b)logia - X: Deus nos livre de mula que faz him e de mulher que sabe latim

1. Um cota, um senhor cota, veio há dias defender, em público, o sistema de quotas para as mulheres que querem ser médicas. É uma opinião, seguramente polémica mas provavelmente respeitável. Por ser pública e não privada, é uma opinião que pode e deve ser comentada no espaço semi-público que é este, o da blogosfera.



Acontece que o senhor é ministro, e não é um ministro qualquer. É o ministro que tutela a saúde, a nossa saúde. Os rapazes que querem ser médicos mas não conseguem entrar nas faculdades de medicina, terão aplaudido. Alguns. Outros não terão sequer entendido o alcance histórico da controversa proposta do senhor. Para mais, feita fora de portas, no Luxemburgo.



2. Os médicos, alguns, terão aplaudido. Voltámos à guerra dos sexos ? A avaliar pela posição pública do Bastonário da Ordem dos Médicos, não. Trata-se apenas de (re)equacionar, sem tabus, um problema que vai ter consequências no exercício futuro da medicina em Portugal. A urologia e a ortopedia, por exemplo. As mulheres não têm apetência para estas especialidades. E depois há as questões do pudor médico, masculino e feminino. Vocês estão a imaginar as urologistas a fazer o toque rectal à turma dos portugas ?



3. As mulheres, essas, indignaram-se. É que a guerra dos sexos acabou, é verdade. Já assinámos há muito o nosso Tratado de Évora-Monte. Mas ainda está bem fresca, na memória das chavalas e das cotas, a guerra dos sexos. De resto, já não se diz sexo, mas género: ser homem ou mulher já não é apenas resultado do determinismo genético, é também uma construção social.



Até uma cota, que por acaso é ministra (de outra pasta), foi aos arames e deixou o seu colega mais corado do que um pimentão vermelho, ao puxar-lhe as orelhas. Em público, fora de portas, no Luxemburgo. Olhe que não, olhe que não: que essa das mulheres para o gineceu, já!, só nos faz perder votos; e você quer melhor exemplo de dedicação à coisa pública do que eu, que uso saias ?



4. Recorde-se o argumento (capital) do senhor a favor das quotas para as mulheres em medicina: (i) as mulheres, quais marabuntas, invadiram aos anfiteatros de anatomia, os centros de saúde, os hospitais, os congressos de medicina; (ii) cerca de 63% dos actuais estudantes que frequentam o curso de medicina nas nossas 7 faculdades (n= 6067) são mulheres; (iii) daqui a uns anos os pobres dos homens, no SNS (leia-se: Serviço Nacional de Saúde), serão uma minoria socioprofissional, reduzidos a meia dúzia de maqueiros e ortopedistas; (iv) por causa dessa coisa da maternidade, elas são muito mais absentistas que os homens.



Pois é, diz o senhor Bastonário, elas têm mais juízo do que os rapazes, são mais aplicadas, estudam mais e melhor. E agora a gente vai ter que as aturar, incluindo naqueles dias em que elas estão impróprias para tudo, para todo o tipo de relação: a profissional, a terapêutica, a conjugal, a filial, etc. Abreviando argumentos, "a maternidade afasta as mulheres do serviço e tira-lhes alguma da capacidade de doação à profissão" (sic) (Bastonário da Ordem dos Médicos, Público, 2 de Junho de 2004). Em termos mais simples: um homem pode estar vinte e quatro horas por dia de alma e coração a exercer medicina; a mulher não tem disponibilidade nem física nem mental para ser doutora a tempo inteiro: ou é doutora e não pode exercer os outros papéis sociais que se esperam dela, como mulher, como mãe, como doméstica; ou é mulher, mãe e doméstica, e nesse caso só pode ser doutora em part-time.



5. Aí surge a valente Isabel do Carmo a comprar esta guerra (Público, do mesmo dia): (i) meus senhores, “nunca ninguém se lembrou de quotas quando a situação era inversa”; (ii) e quando vocês partiram para a guerra e nós ficámos na rectaguarda, fomos capazes de nos bater com os cotas em todas as especialidades, sem deixar de parir e educar os nossos filhos...



Comentário das jornalistas que fizeram a peça (Alexandra Campos, Emília Monteiro): “O que continua a preocupar Isabel do Carmo é que, havendo hoje tantas médicas, apenas cheguem homens a directores de serviço”. Este, por acaso, não é dos menos intrigantes paradoxos da sociedade dos portugas.



6. Curiosamente, de tempos a tempos somos visitados pelos velhos deuses e demónios da medicina, dos saberes e dos poderes da medicina... Há uns cem anos atrás, diziam os burgueses, machos, nova clsse social em ascensão: "Não provam bem as senhoras que se metem a doutoras"...



Mais brutal era o cota, porventura cristão-velho, escolástico, seguramente misógeno e sexista, que industriava o povo, do alto do púlpito da igreja ou da cátedra de Coimbra, com nacos de prosa como esta há trezentos anos atrás: "Deus nos livre da mula que faz him e da mulher que sabe latim"...



7. Pelos vistos, este dossiê está longe de estar encerrado. Há 141 anos atrás, em 1863, os médicos do Middlesex Hospital emitiam a seguinte declaração sobre o assunto escaldante das woman doctors:



"The presence of a young female in the operating theatre is an outrage to our natural instincts and is calculated to destroy the respect and admiration with which the opposite sex is regarded" (em português: "A presenaça de uma jovem mulher na sala de operações é um ultraje aos nossos instintos naturais e tem como intenção destruir o respeito e a admiração com que são devidos ao sexo oposto".



Recorde-se que as mulheres só há cento e poucos anos puderam, no Ocidente cristão, burguês e particular, entrar no santos dos santos (que era então a universidade). A luta para serem reconhecidas como médicas e praticarem a medicina não foi fácil.



É justo referir aqui o nome de Elizabeth Blackwell (1821-1910): (i) a primeira mulher médica dos tempos modernos; (ii) inglesa, emigrou para os EUA em 1832 com a família; (iii) depois de rejeitada por inúmeras escolas, conseguiu finalmente diplomar-se pela Geneva Medical School, em Nova Iorque, em 1843; (iv) foi sistematicamente boicotada e vilipendiada em toda a parte ao tentar exercer medicina (EUA, França, Inglaterra); (v) foi professora da London School of Medicine for Women (1875-1907); e, por fim, (vi) é hoje considerada como uma das grandes feministas da 1ª geração, por ter travado um longo combate pelo direito das mulheres a seguirem a medicina como profissão.



Post Scriptum - As mulheres não só se indignaram como inclusive estão a pedir a cabeça do São João Baptista, quero eu dizer, do Senbhor Ministro da Saúde. Veja-se a recolha de assinaturas que está a ser organizada, com o apoio da APMJ - Associação portuguesa de Mulheres Juristas. refiro-me a abaixo assinado Mulheres em Medicina Sim, Retrocesso Não!

Socio(b)logia - X: Deus nos livre de mula que faz him e de mulher que sabe latim

1. Um cota, um senhor cota, veio há dias defender, em público, o sistema de quotas para as mulheres que querem ser médicas. É uma opinião, seguramente polémica mas provavelmente respeitável. Por ser pública e não privada, é uma opinião que pode e deve ser comentada no espaço semi-público que é este, o da blogosfera.

Acontece que o senhor é ministro, e não é um ministro qualquer. É o ministro que tutela a saúde, a nossa saúde. Os rapazes que querem ser médicos mas não conseguem entrar nas faculdades de medicina, terão aplaudido. Alguns. Outros não terão sequer entendido o alcance histórico da controversa proposta do senhor. Para mais, feita fora de portas, no Luxemburgo.

2. Os médicos, alguns, terão aplaudido. Voltámos à guerra dos sexos ? A avaliar pela posição pública do Bastonário da Ordem dos Médicos, não. Trata-se apenas de (re)equacionar, sem tabus, um problema que vai ter consequências no exercício futuro da medicina em Portugal. A urologia e a ortopedia, por exemplo. As mulheres não têm apetência para estas especialidades. E depois há as questões do pudor médico, masculino e feminino. Vocês estão a imaginar as urologistas a fazer o toque rectal à turma dos portugas ?

3. As mulheres, essas, indignaram-se. É que a guerra dos sexos acabou, é verdade. Já assinámos há muito o nosso Tratado de Évora-Monte. Mas ainda está bem fresca, na memória das chavalas e das cotas, a guerra dos sexos. De resto, já não se diz sexo, mas género: ser homem ou mulher já não é apenas resultado do determinismo genético, é também uma construção social.

Até uma cota, que por acaso é ministra (de outra pasta), foi aos arames e deixou o seu colega mais corado do que um pimentão vermelho, ao puxar-lhe as orelhas. Em público, fora de portas, no Luxemburgo. Olhe que não, olhe que não: que essa das mulheres para o gineceu, já!, só nos faz perder votos; e você quer melhor exemplo de dedicação à coisa pública do que eu, que uso saias ?

4. Recorde-se o argumento (capital) do senhor a favor das quotas para as mulheres em medicina: (i) as mulheres, quais marabuntas, invadiram aos anfiteatros de anatomia, os centros de saúde, os hospitais, os congressos de medicina; (ii) cerca de 63% dos actuais estudantes que frequentam o curso de medicina nas nossas 7 faculdades (n= 6067) são mulheres; (iii) daqui a uns anos os pobres dos homens, no SNS (leia-se: Serviço Nacional de Saúde), serão uma minoria socioprofissional, reduzidos a meia dúzia de maqueiros e ortopedistas; (iv) por causa dessa coisa da maternidade, elas são muito mais absentistas que os homens.

Pois é, diz o senhor Bastonário, elas têm mais juízo do que os rapazes, são mais aplicadas, estudam mais e melhor. E agora a gente vai ter que as aturar, incluindo naqueles dias em que elas estão impróprias para tudo, para todo o tipo de relação: a profissional, a terapêutica, a conjugal, a filial, etc. Abreviando argumentos, "a maternidade afasta as mulheres do serviço e tira-lhes alguma da capacidade de doação à profissão" (sic) (Bastonário da Ordem dos Médicos, Público, 2 de Junho de 2004). Em termos mais simples: um homem pode estar vinte e quatro horas por dia de alma e coração a exercer medicina; a mulher não tem disponibilidade nem física nem mental para ser doutora a tempo inteiro: ou é doutora e não pode exercer os outros papéis sociais que se esperam dela, como mulher, como mãe, como doméstica; ou é mulher, mãe e doméstica, e nesse caso só pode ser doutora em part-time.

5. Aí surge a valente Isabel do Carmo a comprar esta guerra (Público, do mesmo dia): (i) meus senhores, “nunca ninguém se lembrou de quotas quando a situação era inversa”; (ii) e quando vocês partiram para a guerra e nós ficámos na rectaguarda, fomos capazes de nos bater com os cotas em todas as especialidades, sem deixar de parir e educar os nossos filhos...

Comentário das jornalistas que fizeram a peça (Alexandra Campos, Emília Monteiro): “O que continua a preocupar Isabel do Carmo é que, havendo hoje tantas médicas, apenas cheguem homens a directores de serviço”. Este, por acaso, não é dos menos intrigantes paradoxos da sociedade dos portugas.

6. Curiosamente, de tempos a tempos somos visitados pelos velhos deuses e demónios da medicina, dos saberes e dos poderes da medicina... Há uns cem anos atrás, diziam os burgueses, machos, nova clsse social em ascensão: "Não provam bem as senhoras que se metem a doutoras"...

Mais brutal era o cota, porventura cristão-velho, escolástico, seguramente misógeno e sexista, que industriava o povo, do alto do púlpito da igreja ou da cátedra de Coimbra, com nacos de prosa como esta há trezentos anos atrás: "Deus nos livre da mula que faz him e da mulher que sabe latim"...

7. Pelos vistos, este dossiê está longe de estar encerrado. Há 141 anos atrás, em 1863, os médicos do Middlesex Hospital emitiam a seguinte declaração sobre o assunto escaldante das woman doctors:

"The presence of a young female in the operating theatre is an outrage to our natural instincts and is calculated to destroy the respect and admiration with which the opposite sex is regarded" (em português: "A presenaça de uma jovem mulher na sala de operações é um ultraje aos nossos instintos naturais e tem como intenção destruir o respeito e a admiração com que são devidos ao sexo oposto".

Recorde-se que as mulheres só há cento e poucos anos puderam, no Ocidente cristão, burguês e particular, entrar no santos dos santos (que era então a universidade). A luta para serem reconhecidas como médicas e praticarem a medicina não foi fácil.

É justo referir aqui o nome de Elizabeth Blackwell (1821-1910): (i) a primeira mulher médica dos tempos modernos; (ii) inglesa, emigrou para os EUA em 1832 com a família; (iii) depois de rejeitada por inúmeras escolas, conseguiu finalmente diplomar-se pela Geneva Medical School, em Nova Iorque, em 1843; (iv) foi sistematicamente boicotada e vilipendiada em toda a parte ao tentar exercer medicina (EUA, França, Inglaterra); (v) foi professora da London School of Medicine for Women (1875-1907); e, por fim, (vi) é hoje considerada como uma das grandes feministas da 1ª geração, por ter travado um longo combate pelo direito das mulheres a seguirem a medicina como profissão.

Post Scriptum - As mulheres não só se indignaram como inclusive estão a pedir a cabeça do São João Baptista, quero eu dizer, do Senbhor Ministro da Saúde. Veja-se a recolha de assinaturas que está a ser organizada, com o apoio da APMJ - Associação portuguesa de Mulheres Juristas. refiro-me a abaixo assinado Mulheres em Medicina Sim, Retrocesso Não!

29 maio 2004

Estórias com mural ao fundo - XXVI: Pior do que a dentadura do proletariado, só a ditadura da linha

Querido Diário, vou começar hoje a fazer dieta. Sabes, preciso de perder dez quilos até à saison. Não posso aaprecer em Albufeira assim. Levo logo tampa dos gaijos. Mas ss minhas amigas de Lisboa dizem-me: a linha, a dieta, a saúde, que horror, agora apanhaste a doença da saúde!



A culpa é do meu médico que diz que tem que ser. E o que tem que ser tem muita força, diz o meu gaijo. Não vai ser fácil, avisa o doutor. Querida, vai precisar de ter muita força de vontade, diz-me o cota. Que a carne é fraca, minha jóia. É simpático, mas não deixa de ser um chato. É médico e basta. Ainda por cima, cota. Porra, mas por que é que a realidade nunca rima com o prazer ?



Querido diário, desculpa-me os palavrões. Escapam-se-me, às vezes. Tou a aprender com a Margarida Rebelo Pinto. Ela é o máximo. Quem me dera escrever como ela. E sobretudo comer os gaijos que ela já comeu!... Além disso, faz o favor de ser minha amiga. Se calhar é pretensão minha, mas tenho todos os seus livros autografados. "À minha amiga e admiradora

Manecas". Foi com ela que tive a ideia de escrever um diário. Ela diz que falar para o boneco faz bem às mulheres que querem perder peso. E é melhor do que andar no pixicólogo!



Não é coisa que me chateie, essa de escrever. Vou passar a falar com contigo, meu querido diário. Prometo não te maçar muito. Sinto-me excitada como uma catraia. É como voltar à adolescência. Nessa altura também tinha um diário. Recordo-me ainda: o papel era cor de rosa, tinha uma capa com florinhas e uma fitinha para marcar as páginas. Ao alto, na capa, podia ler-se: "O meu querido diário". Em baixo o meu nome (de guerra): Manecas.



Vou conseguir. Vou matar de inveja as minhas amigas. Vou voltar a vestir aquele maldito vestido preto que usei na noite em que me apaixonei perdidamente. Já não me lembro do nome do filho da puta com quem fui para a cama. No baile dos finalistas do liceu. Mas apaixonei-me. Era menina e moça. E usava um vestido preto a matar. Elegantérrima. Trinta anos depois, tou uma vaca, um saco de batatas. E trabalho num escritório de advogados. Gente fina. E sou fã da Margarida Rebelo Pinto. E espero que este seja o primeiro dia do resto da minha nova vida. E prometo arranjar outro gaijo que não seja careca e teso como o meu. Juro que nada será como dantes.



Mais difícil vai ser deixar de fumar. Mas isso é outro desafio: fica para a próxima. Não sou tão radical assim que consiga cortar, de uma só vez, com todos os prazeres da vida. Como fez a Quicas! Por isso é que Tá toda chupadinha, tadinha! Arranjou uma anorexia, imagina!



1º dia (de dieta)



Um iogurte magro. Um copo de diet shake. Acordei bem disposta. Estaria 100%, se não fosse a maldita enxaqueca da manhã. Já me habituei. À enxaqueca. Problema da idade e da mulher, diz o sacana do meu médico. Dizem que os safados dos gaijos nunca têm enxaquecas.



2º dia



Uma salada de alface. Uma torrada de pão integral. Um iogurte magríssimo. Tudo bem ou quase. Uma aspirina para a enxaqueca matinal. Noto que estou a fumar mais do que o habitual.



3º dia



Uma noite de desassossego. O meu pobre estômago dá sinais ao fim de 72 horas de greve de fome. Era de prever, sua estúpida. Fui à cozinha. Beber uma litrada de chá de ervas medicinais da Amazónia. Mas quem te mandou a ti tomar chá de camomila ?! Coisas do teu Júlio que é natural das berças.



4º dia



Comecei a odiar as saladas. O verde da salada. Até o Sporting que é o clube da família. Tou a odiar o verde. A erva. A relva. A alface. A couve. Sinto-me uma vaca ruminante. A minha colega de escritório comeu uma piza daquelas que eu gosto: com muito atum, azeitonas e orégãos. A vacalhona comeu tudo sozinha. E no fim, ainda por cima, lambeu os dedos. A gozar comigo!, imagina, meu querido diário. A gozar com os meus batidos e as minhas saladas. Que me custam os olhos da cara.



5º dia



Tive uma ataque de histeria. Pus a menina das pizas a chorar. Ainda é mais histérica do que eu. Saí à hora do almoço. Fui ver monstras, laurear a pevide, passear pelas lojas do shopping cá da rua. Comprei uma revista com a Marisa Cruz na capa. A namoradinha de Portugal. Tenho ciúmes da gaija. Diz que se está nas tintas para a dieta. Olha a sortuda, come o que quer (e quem quer) e não engorda!



6º dia



Esta noite sonhei com ovos moles, pudim do Abade de Priscos, papéis de Belém e outras merdas deliciosas que me fazem mal. Que ninguém me diga nada. Fumei um maço e meio!



7º dia



Fui ao médico. Emagreci meio quilo. O cabrão ainda me puxou as orelhas. Mas que amigo da onça! Andei toda a semana a comer erva e a tomar batidos, e o gajo a avacalhar-me ainda mais. A enterrar-me na merda. Que nas mulheres da minha idade, tás a ver, a coisa demora mais tempo. É preciso tempo e paciência, minha coisa fofa.



Tive uma ataque de choro. O filho da puta chamou-me gorda e cota. Ainda não cheguei aos cinquenta, imagina! Só faltou chamar-me vaca e feia com todas as letras. Pois que fique sabendo que estou aqui para as curvas. E ele já dobrou o meio século. Até podia ser meu pai. Vou mas é comprar-lhe uns patins. Mas quem me mandou a mim ir na conversa na Quicas! Foi ela que mo impingiu.



8º dia



A minha colega de escritório e o meu chefe olharam para mim com um ar esquisito. De estranheza e, ao mesmo tempo, de distância. Será que tenho lepra ? Tou assim tão horrível ?!



9º dia



Não fui trabalhar hoje. Acordei às 4 da manhã a delirar. Se bem me lembro, sonhei com frango assado e batatas fritas. Telefonei à Quicas. De aflição. Em estardo febril. Ela já passou por estes trabalhos. Mas vale ficar de balão e parir um filho. Como diz o ditado, "incha, desincha e passa". Leva é nove meses!



Aonde fui busacar essa do frango ? Já sei, é dos odores locais: na rua onde moro ainda há um tasco que faz frango de churrasco com carvão ao natural. E muito piri-piri. Faz-me lembrar os meus tempos de África. Quando fui atrás do meu alferes miliciano, em 1973. Ai os bons tempos da ilha de Luanda.



10º dia.



Odeio as capas de revista. As Marisas, as Sofias, os corpinhos Danone! És mas é uma invejosa, Manecas!





11º dia



Imagina como eu ando, toda histérica! Dei um pontapé no cão da vizinha. Desculpa, meu querido diário. Gritei com a mulher da limpeza. Despedi o meu chulo. Também nunca mais acabava o curso de direito! Hoje fumei dois maços de cigarros. Não ganho para o tabaco, os batidos e as ervas!



12º dia



Sopa. De couves. Que horror ! Nunca gostei sopa de couves: só me lembro de ver, no colégio das freiras, os caracóis e as lesmas a tentar fugir, com a panela a ferver e a espumar! Uma coisa pornográfica.



13º dia



Dia de purga, dia de amargura. O meu médico desespera. A vaca que há em mim não se quer ir embora. O caso é de outro domínio. Manda-me para o pixicólogo! Doida varrida, só me faltava esta! Que sem a ajuda do pixicólogo, a coisa é mais difícil. É um gaijo novo, imberbe, que trabalha com ele. Deve ser afilhado.



14º dia



Andei toda a hora do almoço a rondar o restaurante da Portugália. Que fica perto do meu escritório. Encontrei o Frango que me apresentou uns amigos brasileiros que trabalham, com ele, num restaurante de rodízio: uma deles chamava-se Picanha. Fez-me lembrar as últimas férias que fiz em Fortaleza. E o meu namoradinho bem gostoso... Mas nessa época tinha cá um corpinho Danone que até podia usar fio dental! Só não usava porque eu, nesse tempo, era púdica (ou, antes, parva). À noite voltei a delirar: sonhei com o Picanha!



15º dia



Matei a Marisa Cruz. Fui de charola para a urgência psiquiátrica.



Moral da estória:



Terminei a minha dieta. Por contra-indicações médicas. Disseram que estou à beira de um ataque de nervos. Que o meu problema com a comida é psicossomático. Fui ao dicionário do Torrinha. Não encontrei o palavrão. Meu querido diário, desisto. Resisti até ao 15º dia.



Ao fim de meia dúzia de tentativas para emagrecer, este meu foi o meu record. Estou contente comigo. Pelo menos, fez-me bem à minha auto-estima que andava de rastos. Afinal tentei. Isto fez-me lembrar os meus tempos de chavala revolucionária em 1975. Do livrinho vermelho do MRPP, na faculdade de direito (só frequentei o primeiro ano). Ainda me lembro do grande educador da classe operária. E da palavra de ordem: “Ousar lutar, ousar vencer”. Eu vencer, não venci, mas lutar, lutei. 15 dias. Camaradas, desisto, não tenho fibra de revolucionária. Faço a minha autocrítica. Podem expulsar-me: confesso que sou uma pequeno-burguesa. Afinal, como o Zé Manel ou a Mizé. Confesso que não tenho arrependimento, e por isso não mereço perdão. Do povo, da classe operária, dos camponeses, dos soldados e dos marinheiros. Mas deixem dizer-vos, como última confidência, desta eis-eme-erre-pê-pê de terceira classe: pior que a dentadura do proletariado, só a ditadura da linha!

Estórias com mural ao fundo - XXVI: Pior do que a dentadura do proletariado, só a ditadura da linha

Querido Diário, vou começar hoje a fazer dieta. Sabes, preciso de perder dez quilos até à saison. Não posso aaprecer em Albufeira assim. Levo logo tampa dos gaijos. Mas ss minhas amigas de Lisboa dizem-me: a linha, a dieta, a saúde, que horror, agora apanhaste a doença da saúde!

A culpa é do meu médico que diz que tem que ser. E o que tem que ser tem muita força, diz o meu gaijo. Não vai ser fácil, avisa o doutor. Querida, vai precisar de ter muita força de vontade, diz-me o cota. Que a carne é fraca, minha jóia. É simpático, mas não deixa de ser um chato. É médico e basta. Ainda por cima, cota. Porra, mas por que é que a realidade nunca rima com o prazer ?

Querido diário, desculpa-me os palavrões. Escapam-se-me, às vezes. Tou a aprender com a Margarida Rebelo Pinto. Ela é o máximo. Quem me dera escrever como ela. E sobretudo comer os gaijos que ela já comeu!... Além disso, faz o favor de ser minha amiga. Se calhar é pretensão minha, mas tenho todos os seus livros autografados. "À minha amiga e admiradora
Manecas". Foi com ela que tive a ideia de escrever um diário. Ela diz que falar para o boneco faz bem às mulheres que querem perder peso. E é melhor do que andar no pixicólogo!

Não é coisa que me chateie, essa de escrever. Vou passar a falar com contigo, meu querido diário. Prometo não te maçar muito. Sinto-me excitada como uma catraia. É como voltar à adolescência. Nessa altura também tinha um diário. Recordo-me ainda: o papel era cor de rosa, tinha uma capa com florinhas e uma fitinha para marcar as páginas. Ao alto, na capa, podia ler-se: "O meu querido diário". Em baixo o meu nome (de guerra): Manecas.

Vou conseguir. Vou matar de inveja as minhas amigas. Vou voltar a vestir aquele maldito vestido preto que usei na noite em que me apaixonei perdidamente. Já não me lembro do nome do filho da puta com quem fui para a cama. No baile dos finalistas do liceu. Mas apaixonei-me. Era menina e moça. E usava um vestido preto a matar. Elegantérrima. Trinta anos depois, tou uma vaca, um saco de batatas. E trabalho num escritório de advogados. Gente fina. E sou fã da Margarida Rebelo Pinto. E espero que este seja o primeiro dia do resto da minha nova vida. E prometo arranjar outro gaijo que não seja careca e teso como o meu. Juro que nada será como dantes.

Mais difícil vai ser deixar de fumar. Mas isso é outro desafio: fica para a próxima. Não sou tão radical assim que consiga cortar, de uma só vez, com todos os prazeres da vida. Como fez a Quicas! Por isso é que Tá toda chupadinha, tadinha! Arranjou uma anorexia, imagina!

1º dia (de dieta)

Um iogurte magro. Um copo de diet shake. Acordei bem disposta. Estaria 100%, se não fosse a maldita enxaqueca da manhã. Já me habituei. À enxaqueca. Problema da idade e da mulher, diz o sacana do meu médico. Dizem que os safados dos gaijos nunca têm enxaquecas.

2º dia

Uma salada de alface. Uma torrada de pão integral. Um iogurte magríssimo. Tudo bem ou quase. Uma aspirina para a enxaqueca matinal. Noto que estou a fumar mais do que o habitual.

3º dia

Uma noite de desassossego. O meu pobre estômago dá sinais ao fim de 72 horas de greve de fome. Era de prever, sua estúpida. Fui à cozinha. Beber uma litrada de chá de ervas medicinais da Amazónia. Mas quem te mandou a ti tomar chá de camomila ?! Coisas do teu Júlio que é natural das berças.

4º dia

Comecei a odiar as saladas. O verde da salada. Até o Sporting que é o clube da família. Tou a odiar o verde. A erva. A relva. A alface. A couve. Sinto-me uma vaca ruminante. A minha colega de escritório comeu uma piza daquelas que eu gosto: com muito atum, azeitonas e orégãos. A vacalhona comeu tudo sozinha. E no fim, ainda por cima, lambeu os dedos. A gozar comigo!, imagina, meu querido diário. A gozar com os meus batidos e as minhas saladas. Que me custam os olhos da cara.

5º dia

Tive uma ataque de histeria. Pus a menina das pizas a chorar. Ainda é mais histérica do que eu. Saí à hora do almoço. Fui ver monstras, laurear a pevide, passear pelas lojas do shopping cá da rua. Comprei uma revista com a Marisa Cruz na capa. A namoradinha de Portugal. Tenho ciúmes da gaija. Diz que se está nas tintas para a dieta. Olha a sortuda, come o que quer (e quem quer) e não engorda!

6º dia

Esta noite sonhei com ovos moles, pudim do Abade de Priscos, papéis de Belém e outras merdas deliciosas que me fazem mal. Que ninguém me diga nada. Fumei um maço e meio!

7º dia

Fui ao médico. Emagreci meio quilo. O cabrão ainda me puxou as orelhas. Mas que amigo da onça! Andei toda a semana a comer erva e a tomar batidos, e o gajo a avacalhar-me ainda mais. A enterrar-me na merda. Que nas mulheres da minha idade, tás a ver, a coisa demora mais tempo. É preciso tempo e paciência, minha coisa fofa.

Tive uma ataque de choro. O filho da puta chamou-me gorda e cota. Ainda não cheguei aos cinquenta, imagina! Só faltou chamar-me vaca e feia com todas as letras. Pois que fique sabendo que estou aqui para as curvas. E ele já dobrou o meio século. Até podia ser meu pai. Vou mas é comprar-lhe uns patins. Mas quem me mandou a mim ir na conversa na Quicas! Foi ela que mo impingiu.

8º dia

A minha colega de escritório e o meu chefe olharam para mim com um ar esquisito. De estranheza e, ao mesmo tempo, de distância. Será que tenho lepra ? Tou assim tão horrível ?!

9º dia

Não fui trabalhar hoje. Acordei às 4 da manhã a delirar. Se bem me lembro, sonhei com frango assado e batatas fritas. Telefonei à Quicas. De aflição. Em estardo febril. Ela já passou por estes trabalhos. Mas vale ficar de balão e parir um filho. Como diz o ditado, "incha, desincha e passa". Leva é nove meses!

Aonde fui busacar essa do frango ? Já sei, é dos odores locais: na rua onde moro ainda há um tasco que faz frango de churrasco com carvão ao natural. E muito piri-piri. Faz-me lembrar os meus tempos de África. Quando fui atrás do meu alferes miliciano, em 1973. Ai os bons tempos da ilha de Luanda.

10º dia.

Odeio as capas de revista. As Marisas, as Sofias, os corpinhos Danone! És mas é uma invejosa, Manecas!


11º dia

Imagina como eu ando, toda histérica! Dei um pontapé no cão da vizinha. Desculpa, meu querido diário. Gritei com a mulher da limpeza. Despedi o meu chulo. Também nunca mais acabava o curso de direito! Hoje fumei dois maços de cigarros. Não ganho para o tabaco, os batidos e as ervas!

12º dia

Sopa. De couves. Que horror ! Nunca gostei sopa de couves: só me lembro de ver, no colégio das freiras, os caracóis e as lesmas a tentar fugir, com a panela a ferver e a espumar! Uma coisa pornográfica.

13º dia

Dia de purga, dia de amargura. O meu médico desespera. A vaca que há em mim não se quer ir embora. O caso é de outro domínio. Manda-me para o pixicólogo! Doida varrida, só me faltava esta! Que sem a ajuda do pixicólogo, a coisa é mais difícil. É um gaijo novo, imberbe, que trabalha com ele. Deve ser afilhado.

14º dia

Andei toda a hora do almoço a rondar o restaurante da Portugália. Que fica perto do meu escritório. Encontrei o Frango que me apresentou uns amigos brasileiros que trabalham, com ele, num restaurante de rodízio: uma deles chamava-se Picanha. Fez-me lembrar as últimas férias que fiz em Fortaleza. E o meu namoradinho bem gostoso... Mas nessa época tinha cá um corpinho Danone que até podia usar fio dental! Só não usava porque eu, nesse tempo, era púdica (ou, antes, parva). À noite voltei a delirar: sonhei com o Picanha!

15º dia

Matei a Marisa Cruz. Fui de charola para a urgência psiquiátrica.

Moral da estória:

Terminei a minha dieta. Por contra-indicações médicas. Disseram que estou à beira de um ataque de nervos. Que o meu problema com a comida é psicossomático. Fui ao dicionário do Torrinha. Não encontrei o palavrão. Meu querido diário, desisto. Resisti até ao 15º dia.

Ao fim de meia dúzia de tentativas para emagrecer, este meu foi o meu record. Estou contente comigo. Pelo menos, fez-me bem à minha auto-estima que andava de rastos. Afinal tentei. Isto fez-me lembrar os meus tempos de chavala revolucionária em 1975. Do livrinho vermelho do MRPP, na faculdade de direito (só frequentei o primeiro ano). Ainda me lembro do grande educador da classe operária. E da palavra de ordem: “Ousar lutar, ousar vencer”. Eu vencer, não venci, mas lutar, lutei. 15 dias. Camaradas, desisto, não tenho fibra de revolucionária. Faço a minha autocrítica. Podem expulsar-me: confesso que sou uma pequeno-burguesa. Afinal, como o Zé Manel ou a Mizé. Confesso que não tenho arrependimento, e por isso não mereço perdão. Do povo, da classe operária, dos camponeses, dos soldados e dos marinheiros. Mas deixem dizer-vos, como última confidência, desta eis-eme-erre-pê-pê de terceira classe: pior que a dentadura do proletariado, só a ditadura da linha!