O motivo é simples mas pode parecer insólito: O presidente da Assembleia da República é o anfitrião de uma exposição sobre os "Dinossauros da Lourinhã", a inaugurar hoje na casa da nossa democracia.
A organização coube ao GEAL - Museu da Lourinhã, ao qual me prendem laços afectivos e funcionais: mais do que o cargo (quase honorífico) que lá desempenho (como presidente da assembleia geral), o que me leva a deslocar-me até lá e a aceitar o convite para estar presentar, às 17h., na inauguração da exposição, é o poder prestar a minha homenagem ao trabalho de um pequeno grupo de gente generosa e competente (o Horácio, a Isabel, o Octávio, o Simão, o Rui, o Nuno, o Dário, a Marta, o Teles Antunes...), com o apoio da Câmara Municipal da Lourinhã, que quer mostrar aos deputados da nação e aos demais visitantes o que de melhor se faz em paleontologia em Portugal e o que se pode e deve fazer para motivar os jovens para a aventura da ciência, para o desafio da cultura, para a necessidade do estudo, para a defesa do património e do ambiente...
Houve já quem brincasse com a situação, parodiando o tema e dizendo que os verdadeiros dinossauros, os dinossauros excelentíssimos, já lá estão... Parece é que os nossos humoristas de serviço não ainda perceberam o significado que esta exposição tem, ao abrir também as portas da Assembleia da República à sociedade civil, aos cidadãos, à crianças e aos jovens e a coisas tão sérias e tão importantes como a paleontologia dos dinossauros... De qualquer modo, o humor é sempre saudável e, neste caso, está a conribuir também para divulgar o projecto (que é do GEAL, da Lourinhã, do Oeste, do País...) da criação de um futuro Parque Jurássico.
A referida exposição até patente ao público até 15 de Outubro próximo, no horário das 10 às 18h. A entrada é livre. O jornal "Público" consagrou hoje uma página inteira a esta exposição e aos vencedores do 4º Concurso Internacional de Ilustração de Dinossauros, organizada pelo GEAL.
Ao GEAL e à Assembleia da República, a minha chapelada!
blogue-fora-nada. homo socius ergo blogus [sum]. homem social logo blogador. em sociobloguês nos entendemos. o port(ug)al dos (por)tugas. a prova dos blogue-fora-nada. a guerra colonial. a guiné. do chacheu ao boe. de bissau a bambadinca. os cacimbados. o geba. o corubal. os rios. o macaréu da nossa revolta. o humor nosso de cada dia nos dai hoje.lá vamos blogando e rindo. e venham mais cinco (camaradas). e vieram tantos que isto se transformou numa caserna. a maior caserna virtual da Net!
15 setembro 2004
Portugas que merecem as nossas palmas - XII: O presidente da Assembleia da República
O motivo é simples mas pode parecer insólito: O presidente da Assembleia da República é o anfitrião de uma exposição sobre os "Dinossauros da Lourinhã", a inaugurar hoje na casa da nossa democracia.
A organização coube ao GEAL - Museu da Lourinhã, ao qual me prendem laços afectivos e funcionais: mais do que o cargo (quase honorífico) que lá desempenho (como presidente da assembleia geral), o que me leva a deslocar-me até lá e a aceitar o convite para estar presentar, às 17h., na inauguração da exposição, é o poder prestar a minha homenagem ao trabalho de um pequeno grupo de gente generosa e competente (o Horácio, a Isabel, o Octávio, o Simão, o Rui, o Nuno, o Dário, a Marta, o Teles Antunes...), com o apoio da Câmara Municipal da Lourinhã, que quer mostrar aos deputados da nação e aos demais visitantes o que de melhor se faz em paleontologia em Portugal e o que se pode e deve fazer para motivar os jovens para a aventura da ciência, para o desafio da cultura, para a necessidade do estudo, para a defesa do património e do ambiente...
Houve já quem brincasse com a situação, parodiando o tema e dizendo que os verdadeiros dinossauros, os dinossauros excelentíssimos, já lá estão... Parece é que os nossos humoristas de serviço não ainda perceberam o significado que esta exposição tem, ao abrir também as portas da Assembleia da República à sociedade civil, aos cidadãos, à crianças e aos jovens e a coisas tão sérias e tão importantes como a paleontologia dos dinossauros... De qualquer modo, o humor é sempre saudável e, neste caso, está a conribuir também para divulgar o projecto (que é do GEAL, da Lourinhã, do Oeste, do País...) da criação de um futuro Parque Jurássico.
A referida exposição até patente ao público até 15 de Outubro próximo, no horário das 10 às 18h. A entrada é livre. O jornal "Público" consagrou hoje uma página inteira a esta exposição e aos vencedores do 4º Concurso Internacional de Ilustração de Dinossauros, organizada pelo GEAL.
Ao GEAL e à Assembleia da República, a minha chapelada!
A organização coube ao GEAL - Museu da Lourinhã, ao qual me prendem laços afectivos e funcionais: mais do que o cargo (quase honorífico) que lá desempenho (como presidente da assembleia geral), o que me leva a deslocar-me até lá e a aceitar o convite para estar presentar, às 17h., na inauguração da exposição, é o poder prestar a minha homenagem ao trabalho de um pequeno grupo de gente generosa e competente (o Horácio, a Isabel, o Octávio, o Simão, o Rui, o Nuno, o Dário, a Marta, o Teles Antunes...), com o apoio da Câmara Municipal da Lourinhã, que quer mostrar aos deputados da nação e aos demais visitantes o que de melhor se faz em paleontologia em Portugal e o que se pode e deve fazer para motivar os jovens para a aventura da ciência, para o desafio da cultura, para a necessidade do estudo, para a defesa do património e do ambiente...
Houve já quem brincasse com a situação, parodiando o tema e dizendo que os verdadeiros dinossauros, os dinossauros excelentíssimos, já lá estão... Parece é que os nossos humoristas de serviço não ainda perceberam o significado que esta exposição tem, ao abrir também as portas da Assembleia da República à sociedade civil, aos cidadãos, à crianças e aos jovens e a coisas tão sérias e tão importantes como a paleontologia dos dinossauros... De qualquer modo, o humor é sempre saudável e, neste caso, está a conribuir também para divulgar o projecto (que é do GEAL, da Lourinhã, do Oeste, do País...) da criação de um futuro Parque Jurássico.
A referida exposição até patente ao público até 15 de Outubro próximo, no horário das 10 às 18h. A entrada é livre. O jornal "Público" consagrou hoje uma página inteira a esta exposição e aos vencedores do 4º Concurso Internacional de Ilustração de Dinossauros, organizada pelo GEAL.
Ao GEAL e à Assembleia da República, a minha chapelada!
14 setembro 2004
Blogantologia(s) - XVIII: Quando os ventos sopram em Assuão é verão
Egipto, 22-29 de Agosto de 2004
Portugal, verão 2004
Quando os ventos sopram em Assuão é verão
O verão é fértil,
O verão é fútil,
O verão é fértil em coisas fúteis.
O verão é fértil
No Vale do Nilo.
E fútil
Em Abu Simbel.
É no Verão
Que se come melancia
Ao quilo.
Enquanto amadurecem as tâmaras
Vende-se a cultura a granel
Em folhas de falso papiro:
- Welcome, sejam bem vindos a Assuão!
Senhores do norte,
Em Agosto resiste-se melhor à melancolia
Do entardecer
Em África,
Bem como ao medo das escuras câmaras
Da morte,
Na linha do horizonte,
Abaixo do Trópico de Câncer.
Em Abu Simbel,
O verão é ostentação.
Eu prefiro
Os ostraca
Onde o operário
De Deir el-Medina
Falava da sua condição
De produtor, de artesão,
De construtor de túmulos,
De guardador de segredos,
De malandro e de grevista,
De salteador e de ladrão,
De violador de medos
E de barqueiro de Queronte.
Eu sempre achei que esta estação
Não rimava com poesia.
Mas eu não sou o Ramsés Segundo
Nem conheço o caminho irreversível
Para a imortalidade.
Aqui o verão é fértil
Em coisas fúteis
Como o escriba acocorado
Perante o espectáculo risível
Do mundo globalizado.
Na terra prometida do pão e do mel
Tenham cuidado, meus senhores,
Com os vegetais,
Bebam águas minerais,
Levem dimicina e ultralevure
Por causa dos desarranjos intestinais.
- E o vírus do Nilo ? É mortal ?
- Descanse, minha senhora,
Que o barco tem escolta policial.
Na Ilha Elefantina
Não há manicure,
Há apenas pessoas inúteis
Que adoram subir aos píncaros do verão.
De camelo.
- Sobretudo não tome uísque
Com gelo,
Pode ler-se numa tabuleta
À beira do lago Nasser.
- Meus senhores, estamos em África,
'Be careful'.
Aqui o verão é, por excelência,
O paraíso com o ocre
Como pano de fundo.
O verão é uma casa de adobe
E uma esteira no chão
E os altos muros do deserto
Estrangulando o fio de água da vida.
- Ah, o nascer e o pôr do sol,
Não esquecer de desfrutar
O deus-sol.
Porque o verão no Egipto
É a rosa do mundo.
O misticismo. A demência.
Os calores de Santa Teresa d’Ávila
Em trabalho de múltiplos orgasmos.
No Vale dos Reis.
E das Rainhas.
E dos Nobres.
Esqueçam, por favor,
A mastabas dos pobres:
- Não vêm nos roteiros turísticos!
O verão é o sexo distendido.
O músculo relaxado.
A alma em carne viva.
A praia. O creme Nívea.
O postal ilustrado.
A alegre promiscuidade
Dos cinco sentidos.
O Cairo em três dimensões.
O meu gin tónico com limão.
A carne em decomposição.
O desastre humanitário.
Mais ao fundo a Núbia, o Sudão.
Os dóceis núbios.
As volúpteis núbias.
A tragédia de Darfur.
A louca montanha russa.
O bazar.
A dança do ventre
Dançada por travestis, canastrões.
A mesquita de alabastro.
O mítico mar vermelho.
A Sagrada Família.
Jesus, Maria e José.
O burrinho puxando a nora.
A felicidade a preço de saldo.
O exotismo com molho de bechamel.
O oásis no deserto.
Todos os estereótipos do mundo.
- Tirem uma fotografia digital.
Da varanda do hotel Marriott.
Gostaria de apresentar uma reclamação,
Por escrito, ao senhor vizir:
- Eu estive em Abu Simbel
E experimentei as dificuldades
Da comunicação humana.
O verão é o Vale do Nilo
Um gigantesco falo
Que penetra, fundo,
A terra árida e seca
Da Mãe África.
Gretada, a terra, a carne.
- White women, carne branca.
I Egiptian man, fertility man.
Portugal ? Good, Luís Figo.
Do alto da mesquita de Najaf,
Mais acima no mapa do corpo humano,
Diz o guia, o nosso guia,
Com o coração sangrando
De dor
Pelos seus irmãos,
Xiitas, sunitas, ismaelistas;
Ou do alto das pirâmides de Sakara
Há um imã que te notifica
Por carta registada com aviso de recepção:
- Que a vida eterna te chama
E exige a mortificação, a mumificação.
Recebi hoje correio de Lisboa
Onde a fertilidade da futilidade
É agora um problema de saúde pública.
Um osso duro
De roer.
Tão duro como o granito de Assuão
Donde sopra o vento que modela
O rosto das esfinges.
De Lisboa ao Cairo
Ergo o templo do futuro
Com paragem técnica em Luxor
Para consultar os arquitectos da eternidade.
A antiga Tebas, a cidade das cem portas,
É hoje um pequeno burgo.
E o meu guia, egípcio, brasileiro,
Diz que tem o coração a sangrar.
Marcos chora pelos seus irmãos
De Najaf, no Iraque,
E confidencia:
- Eu nunca poderia trabalhar
Para os meus inimigos e vizinhos de Israel.
Por muito dinheiro que me pagassem.
Tenham santa paciência.
Os pobres. Os diabos.
Os pobres diabos.
Os santos. Os turistas.
Os contribuintes.
Os camponeses.
Os escribas.
Os romancistas policiais.
Os arqueólogos.
Os caçadores de tesouros.
As esposas dos ricos homens de negócios das arábias.
Os sacerdotes do templo de Kom-Omb
Que eram carecas.
- E sobretudo os pobres.
Porque deles será o reino da terra.
Pobre planeta, sem rei nem roque.
E com tantos súbditos.
Por favor ponham a escrita em dia.
Pesem a alma.
Meçam as bolsas.
Leiam o Livro dos Mortos
Ou A Morte no Nilo,
Que o barco vai zarpar.
- Um oiro um oiro, amigo.
Para o Habibo.
E para o camelo do Habibo.
Óscar, de seu nome.
E o Estado garante
Que não pode ser,
Que não pode mais no futuro
Garantir que é Estado.
E muito menos Estado-Providência.
E pagar o leitinho às criancinhas.
E o funeral aos velhinhos.
E a múmia do faraó.
Deixem isso às madraças
E à caridade em tempo de Ramadão.
Resta-nos a Alta Autoridade do Nilo
Que regula os influxos
E os defluxos dos deuses.
E a exploração do trabalho infantil
Nas escolas-fábricas de tapeçarias
Em Memphis.
Na verdade,
O verão é apenas uma estação.
De comboio.
Do comboio de via estreita
Que vai do nascer ao morrer.
Ou quem diz estação
Diz cais. De chegar. De apodrecer.
Como esta falua do Nilo à beira Tejo
Que é o rio que passa à minha porta.
Sexta-feira, treze
De Agosto.
Dia de azar,
Quer queiram, quer não.
A indústria do lazer, aposto,
Vai ser o principal foco de infecção
Neste pico de verão.
Tenham cuidado com o cão
E com a maldição
Do Faraó Tutankamon.
Morreu a indústria dos metais pesados,
Viva a indústria do lazer.
Leve. Ecológica. De terceira vaga.
Com homologação.
Com certificação.
Com acreditação.
Com exemplos de boas práticas.
Com análises de custo/benefício.
Graças ao lóbi da qualidade
O mundo vai bem melhor.
Que a vida é dura.
E o que a gente faz para ganhá-la.
Como o búfalo que pasta
Nas margens do Nilo.
Como qualquer búfalo domesticado
Depois de trabalhar o dia inteiro
Para o seu suserano,
O camponês egípcio.
Que por sua vez alimenta
O Faraó e as suas esposas e concubinas,
O seu exército, a sua polícia núbia
E a legião de escribas
Que têm o monopólio da escrita.
E do saber.
Hoje as partes pudendas,
A zona púbica,
A coisa pia
Do Portugal contemporâneo
Vai ser matéria de alto relevo
Na televisão.
Diz o Eça, o escriba acocorado,
Em missão de reportagem
Na inauguração do Canal do Suez.
Já não temos rei.
Nem o tique aristocrático
Do beija-mão.
Nem o Conde de Burnay
Nem faraó. Nem deuses. Agora é
A república quem mais ordena.
Senão popular, pelo menos populista.
A coisa pia mais fino
No Portugal pequenino
Mas democrático.
Imagino.
Sem imagem nem voz.
Porque estou em férias
Num cruzeiro do Nilo.
A observar o elegante voo da garça.
- Onde estará o pelicano ?
E a cegonha preta ?
E os filhos ilegítimos do povo ?
No barco não apanho
A RTP, felizmente de todos nós.
Nem sei se o Porto perdeu na supertaça
E o Obikwelo ganhou
A medalha de prata dos 100 metros
Nas Olimpíadas de Atenas.
- Turco, grego, tunisino ?
Espanhol, italiano, palestino ?
- Não, português !
- Ah!, Portugal, Luís Figo! Compra, amigo.
- Quanto, quanto ? Dez nove oito sete seis cinco.
Quatro três dois, um!
- É só um oiro, amigo.
Que o Habibo tem fome mais o camelo.
Maria do Patrocínio
Minha avó materna.
Lembrei-me de ti, Tia Patxina.
Patxina, de alcunha,
Uma alcunha tão terna.
Nunca foste rainha,
Nunca te chamariam Hatshepstut,
Nem te construiriam o templo
Mais belo do mundo
Na aldeia do Nadrupe.
Morreste cega,
Sem hieroglifos gravados na estela,
Tia Patxina,
Apalpando os netos
O cabelo a cara.
E não te mumificaram
Nem muito menos te operaram
Que no teu tempo
As obras de misericórdia
Eram sete espirituais
E sete corporais.
Como no Egipto dos faraós.
Como as pragas do Egipto.
Como nesta triste aldeia núbia
Que é uma espécie de reserva dos índios
Cá do sítio.
Com crocodilos de plástico
E pretos garanhões de olhos verdes.
E onde há uma velhota
Cega como tu, minha avó,
Que vende bugigangas pró turista.
De Assuão a Luxor
Eu gostaria de ter escrito
Um poema sobre os meus estados de alma.
Tão contraditórios que se anulam.
A verdade é que encontrei aqui
Um povo afável.
Mas que me adianta o pedigree
E os cinco milénios de civilização
E o templo de Edfu
Se nada nudou na minha condição
De burro carrejão ?
Sopra o vento dessecante.
Estou em Assuão.
Nos píncaros do verão.
Portugal, verão 2004
Quando os ventos sopram em Assuão é verão
O verão é fértil,
O verão é fútil,
O verão é fértil em coisas fúteis.
O verão é fértil
No Vale do Nilo.
E fútil
Em Abu Simbel.
É no Verão
Que se come melancia
Ao quilo.
Enquanto amadurecem as tâmaras
Vende-se a cultura a granel
Em folhas de falso papiro:
- Welcome, sejam bem vindos a Assuão!
Senhores do norte,
Em Agosto resiste-se melhor à melancolia
Do entardecer
Em África,
Bem como ao medo das escuras câmaras
Da morte,
Na linha do horizonte,
Abaixo do Trópico de Câncer.
Em Abu Simbel,
O verão é ostentação.
Eu prefiro
Os ostraca
Onde o operário
De Deir el-Medina
Falava da sua condição
De produtor, de artesão,
De construtor de túmulos,
De guardador de segredos,
De malandro e de grevista,
De salteador e de ladrão,
De violador de medos
E de barqueiro de Queronte.
Eu sempre achei que esta estação
Não rimava com poesia.
Mas eu não sou o Ramsés Segundo
Nem conheço o caminho irreversível
Para a imortalidade.
Aqui o verão é fértil
Em coisas fúteis
Como o escriba acocorado
Perante o espectáculo risível
Do mundo globalizado.
Na terra prometida do pão e do mel
Tenham cuidado, meus senhores,
Com os vegetais,
Bebam águas minerais,
Levem dimicina e ultralevure
Por causa dos desarranjos intestinais.
- E o vírus do Nilo ? É mortal ?
- Descanse, minha senhora,
Que o barco tem escolta policial.
Na Ilha Elefantina
Não há manicure,
Há apenas pessoas inúteis
Que adoram subir aos píncaros do verão.
De camelo.
- Sobretudo não tome uísque
Com gelo,
Pode ler-se numa tabuleta
À beira do lago Nasser.
- Meus senhores, estamos em África,
'Be careful'.
Aqui o verão é, por excelência,
O paraíso com o ocre
Como pano de fundo.
O verão é uma casa de adobe
E uma esteira no chão
E os altos muros do deserto
Estrangulando o fio de água da vida.
- Ah, o nascer e o pôr do sol,
Não esquecer de desfrutar
O deus-sol.
Porque o verão no Egipto
É a rosa do mundo.
O misticismo. A demência.
Os calores de Santa Teresa d’Ávila
Em trabalho de múltiplos orgasmos.
No Vale dos Reis.
E das Rainhas.
E dos Nobres.
Esqueçam, por favor,
A mastabas dos pobres:
- Não vêm nos roteiros turísticos!
O verão é o sexo distendido.
O músculo relaxado.
A alma em carne viva.
A praia. O creme Nívea.
O postal ilustrado.
A alegre promiscuidade
Dos cinco sentidos.
O Cairo em três dimensões.
O meu gin tónico com limão.
A carne em decomposição.
O desastre humanitário.
Mais ao fundo a Núbia, o Sudão.
Os dóceis núbios.
As volúpteis núbias.
A tragédia de Darfur.
A louca montanha russa.
O bazar.
A dança do ventre
Dançada por travestis, canastrões.
A mesquita de alabastro.
O mítico mar vermelho.
A Sagrada Família.
Jesus, Maria e José.
O burrinho puxando a nora.
A felicidade a preço de saldo.
O exotismo com molho de bechamel.
O oásis no deserto.
Todos os estereótipos do mundo.
- Tirem uma fotografia digital.
Da varanda do hotel Marriott.
Gostaria de apresentar uma reclamação,
Por escrito, ao senhor vizir:
- Eu estive em Abu Simbel
E experimentei as dificuldades
Da comunicação humana.
O verão é o Vale do Nilo
Um gigantesco falo
Que penetra, fundo,
A terra árida e seca
Da Mãe África.
Gretada, a terra, a carne.
- White women, carne branca.
I Egiptian man, fertility man.
Portugal ? Good, Luís Figo.
Do alto da mesquita de Najaf,
Mais acima no mapa do corpo humano,
Diz o guia, o nosso guia,
Com o coração sangrando
De dor
Pelos seus irmãos,
Xiitas, sunitas, ismaelistas;
Ou do alto das pirâmides de Sakara
Há um imã que te notifica
Por carta registada com aviso de recepção:
- Que a vida eterna te chama
E exige a mortificação, a mumificação.
Recebi hoje correio de Lisboa
Onde a fertilidade da futilidade
É agora um problema de saúde pública.
Um osso duro
De roer.
Tão duro como o granito de Assuão
Donde sopra o vento que modela
O rosto das esfinges.
De Lisboa ao Cairo
Ergo o templo do futuro
Com paragem técnica em Luxor
Para consultar os arquitectos da eternidade.
A antiga Tebas, a cidade das cem portas,
É hoje um pequeno burgo.
E o meu guia, egípcio, brasileiro,
Diz que tem o coração a sangrar.
Marcos chora pelos seus irmãos
De Najaf, no Iraque,
E confidencia:
- Eu nunca poderia trabalhar
Para os meus inimigos e vizinhos de Israel.
Por muito dinheiro que me pagassem.
Tenham santa paciência.
Os pobres. Os diabos.
Os pobres diabos.
Os santos. Os turistas.
Os contribuintes.
Os camponeses.
Os escribas.
Os romancistas policiais.
Os arqueólogos.
Os caçadores de tesouros.
As esposas dos ricos homens de negócios das arábias.
Os sacerdotes do templo de Kom-Omb
Que eram carecas.
- E sobretudo os pobres.
Porque deles será o reino da terra.
Pobre planeta, sem rei nem roque.
E com tantos súbditos.
Por favor ponham a escrita em dia.
Pesem a alma.
Meçam as bolsas.
Leiam o Livro dos Mortos
Ou A Morte no Nilo,
Que o barco vai zarpar.
- Um oiro um oiro, amigo.
Para o Habibo.
E para o camelo do Habibo.
Óscar, de seu nome.
E o Estado garante
Que não pode ser,
Que não pode mais no futuro
Garantir que é Estado.
E muito menos Estado-Providência.
E pagar o leitinho às criancinhas.
E o funeral aos velhinhos.
E a múmia do faraó.
Deixem isso às madraças
E à caridade em tempo de Ramadão.
Resta-nos a Alta Autoridade do Nilo
Que regula os influxos
E os defluxos dos deuses.
E a exploração do trabalho infantil
Nas escolas-fábricas de tapeçarias
Em Memphis.
Na verdade,
O verão é apenas uma estação.
De comboio.
Do comboio de via estreita
Que vai do nascer ao morrer.
Ou quem diz estação
Diz cais. De chegar. De apodrecer.
Como esta falua do Nilo à beira Tejo
Que é o rio que passa à minha porta.
Sexta-feira, treze
De Agosto.
Dia de azar,
Quer queiram, quer não.
A indústria do lazer, aposto,
Vai ser o principal foco de infecção
Neste pico de verão.
Tenham cuidado com o cão
E com a maldição
Do Faraó Tutankamon.
Morreu a indústria dos metais pesados,
Viva a indústria do lazer.
Leve. Ecológica. De terceira vaga.
Com homologação.
Com certificação.
Com acreditação.
Com exemplos de boas práticas.
Com análises de custo/benefício.
Graças ao lóbi da qualidade
O mundo vai bem melhor.
Que a vida é dura.
E o que a gente faz para ganhá-la.
Como o búfalo que pasta
Nas margens do Nilo.
Como qualquer búfalo domesticado
Depois de trabalhar o dia inteiro
Para o seu suserano,
O camponês egípcio.
Que por sua vez alimenta
O Faraó e as suas esposas e concubinas,
O seu exército, a sua polícia núbia
E a legião de escribas
Que têm o monopólio da escrita.
E do saber.
Hoje as partes pudendas,
A zona púbica,
A coisa pia
Do Portugal contemporâneo
Vai ser matéria de alto relevo
Na televisão.
Diz o Eça, o escriba acocorado,
Em missão de reportagem
Na inauguração do Canal do Suez.
Já não temos rei.
Nem o tique aristocrático
Do beija-mão.
Nem o Conde de Burnay
Nem faraó. Nem deuses. Agora é
A república quem mais ordena.
Senão popular, pelo menos populista.
A coisa pia mais fino
No Portugal pequenino
Mas democrático.
Imagino.
Sem imagem nem voz.
Porque estou em férias
Num cruzeiro do Nilo.
A observar o elegante voo da garça.
- Onde estará o pelicano ?
E a cegonha preta ?
E os filhos ilegítimos do povo ?
No barco não apanho
A RTP, felizmente de todos nós.
Nem sei se o Porto perdeu na supertaça
E o Obikwelo ganhou
A medalha de prata dos 100 metros
Nas Olimpíadas de Atenas.
- Turco, grego, tunisino ?
Espanhol, italiano, palestino ?
- Não, português !
- Ah!, Portugal, Luís Figo! Compra, amigo.
- Quanto, quanto ? Dez nove oito sete seis cinco.
Quatro três dois, um!
- É só um oiro, amigo.
Que o Habibo tem fome mais o camelo.
Maria do Patrocínio
Minha avó materna.
Lembrei-me de ti, Tia Patxina.
Patxina, de alcunha,
Uma alcunha tão terna.
Nunca foste rainha,
Nunca te chamariam Hatshepstut,
Nem te construiriam o templo
Mais belo do mundo
Na aldeia do Nadrupe.
Morreste cega,
Sem hieroglifos gravados na estela,
Tia Patxina,
Apalpando os netos
O cabelo a cara.
E não te mumificaram
Nem muito menos te operaram
Que no teu tempo
As obras de misericórdia
Eram sete espirituais
E sete corporais.
Como no Egipto dos faraós.
Como as pragas do Egipto.
Como nesta triste aldeia núbia
Que é uma espécie de reserva dos índios
Cá do sítio.
Com crocodilos de plástico
E pretos garanhões de olhos verdes.
E onde há uma velhota
Cega como tu, minha avó,
Que vende bugigangas pró turista.
De Assuão a Luxor
Eu gostaria de ter escrito
Um poema sobre os meus estados de alma.
Tão contraditórios que se anulam.
A verdade é que encontrei aqui
Um povo afável.
Mas que me adianta o pedigree
E os cinco milénios de civilização
E o templo de Edfu
Se nada nudou na minha condição
De burro carrejão ?
Sopra o vento dessecante.
Estou em Assuão.
Nos píncaros do verão.
Blogantologia(s) - XVIII: Quando os ventos sopram em Assuão é verão
Egipto, 22-29 de Agosto de 2004
Portugal, verão 2004
Quando os ventos sopram em Assuão é verão
O verão é fértil,
O verão é fútil,
O verão é fértil em coisas fúteis.
O verão é fértil
No Vale do Nilo.
E fútil
Em Abu Simbel.
É no Verão
Que se come melancia
Ao quilo.
Enquanto amadurecem as tâmaras
Vende-se a cultura a granel
Em folhas de falso papiro:
- Welcome, sejam bem vindos a Assuão!
Senhores do norte,
Em Agosto resiste-se melhor à melancolia
Do entardecer
Em África,
Bem como ao medo das escuras câmaras
Da morte,
Na linha do horizonte,
Abaixo do Trópico de Câncer.
Em Abu Simbel,
O verão é ostentação.
Eu prefiro
Os ostraca
Onde o operário
De Deir el-Medina
Falava da sua condição
De produtor, de artesão,
De construtor de túmulos,
De guardador de segredos,
De malandro e de grevista,
De salteador e de ladrão,
De violador de medos
E de barqueiro de Queronte.
Eu sempre achei que esta estação
Não rimava com poesia.
Mas eu não sou o Ramsés Segundo
Nem conheço o caminho irreversível
Para a imortalidade.
Aqui o verão é fértil
Em coisas fúteis
Como o escriba acocorado
Perante o espectáculo risível
Do mundo globalizado.
Na terra prometida do pão e do mel
Tenham cuidado, meus senhores,
Com os vegetais,
Bebam águas minerais,
Levem dimicina e ultralevure
Por causa dos desarranjos intestinais.
- E o vírus do Nilo ? É mortal ?
- Descanse, minha senhora,
Que o barco tem escolta policial.
Na Ilha Elefantina
Não há manicure,
Há apenas pessoas inúteis
Que adoram subir aos píncaros do verão.
De camelo.
- Sobretudo não tome uísque
Com gelo,
Pode ler-se numa tabuleta
À beira do lago Nasser.
- Meus senhores, estamos em África,
'Be careful'.
Aqui o verão é, por excelência,
O paraíso com o ocre
Como pano de fundo.
O verão é uma casa de adobe
E uma esteira no chão
E os altos muros do deserto
Estrangulando o fio de água da vida.
- Ah, o nascer e o pôr do sol,
Não esquecer de desfrutar
O deus-sol.
Porque o verão no Egipto
É a rosa do mundo.
O misticismo. A demência.
Os calores de Santa Teresa d’Ávila
Em trabalho de múltiplos orgasmos.
No Vale dos Reis.
E das Rainhas.
E dos Nobres.
Esqueçam, por favor,
A mastabas dos pobres:
- Não vêm nos roteiros turísticos!
O verão é o sexo distendido.
O músculo relaxado.
A alma em carne viva.
A praia. O creme Nívea.
O postal ilustrado.
A alegre promiscuidade
Dos cinco sentidos.
O Cairo em três dimensões.
O meu gin tónico com limão.
A carne em decomposição.
O desastre humanitário.
Mais ao fundo a Núbia, o Sudão.
Os dóceis núbios.
As volúpteis núbias.
A tragédia de Darfur.
A louca montanha russa.
O bazar.
A dança do ventre
Dançada por travestis, canastrões.
A mesquita de alabastro.
O mítico mar vermelho.
A Sagrada Família.
Jesus, Maria e José.
O burrinho puxando a nora.
A felicidade a preço de saldo.
O exotismo com molho de bechamel.
O oásis no deserto.
Todos os estereótipos do mundo.
- Tirem uma fotografia digital.
Da varanda do hotel Marriott.
Gostaria de apresentar uma reclamação,
Por escrito, ao senhor vizir:
- Eu estive em Abu Simbel
E experimentei as dificuldades
Da comunicação humana.
O verão é o Vale do Nilo
Um gigantesco falo
Que penetra, fundo,
A terra árida e seca
Da Mãe África.
Gretada, a terra, a carne.
- White women, carne branca.
I Egiptian man, fertility man.
Portugal ? Good, Luís Figo.
Do alto da mesquita de Najaf,
Mais acima no mapa do corpo humano,
Diz o guia, o nosso guia,
Com o coração sangrando
De dor
Pelos seus irmãos,
Xiitas, sunitas, ismaelistas;
Ou do alto das pirâmides de Sakara
Há um imã que te notifica
Por carta registada com aviso de recepção:
- Que a vida eterna te chama
E exige a mortificação, a mumificação.
Recebi hoje correio de Lisboa
Onde a fertilidade da futilidade
É agora um problema de saúde pública.
Um osso duro
De roer.
Tão duro como o granito de Assuão
Donde sopra o vento que modela
O rosto das esfinges.
De Lisboa ao Cairo
Ergo o templo do futuro
Com paragem técnica em Luxor
Para consultar os arquitectos da eternidade.
A antiga Tebas, a cidade das cem portas,
É hoje um pequeno burgo.
E o meu guia, egípcio, brasileiro,
Diz que tem o coração a sangrar.
Marcos chora pelos seus irmãos
De Najaf, no Iraque,
E confidencia:
- Eu nunca poderia trabalhar
Para os meus inimigos e vizinhos de Israel.
Por muito dinheiro que me pagassem.
Tenham santa paciência.
Os pobres. Os diabos.
Os pobres diabos.
Os santos. Os turistas.
Os contribuintes.
Os camponeses.
Os escribas.
Os romancistas policiais.
Os arqueólogos.
Os caçadores de tesouros.
As esposas dos ricos homens de negócios das arábias.
Os sacerdotes do templo de Kom-Omb
Que eram carecas.
- E sobretudo os pobres.
Porque deles será o reino da terra.
Pobre planeta, sem rei nem roque.
E com tantos súbditos.
Por favor ponham a escrita em dia.
Pesem a alma.
Meçam as bolsas.
Leiam o Livro dos Mortos
Ou A Morte no Nilo,
Que o barco vai zarpar.
- Um oiro um oiro, amigo.
Para o Habibo.
E para o camelo do Habibo.
Óscar, de seu nome.
E o Estado garante
Que não pode ser,
Que não pode mais no futuro
Garantir que é Estado.
E muito menos Estado-Providência.
E pagar o leitinho às criancinhas.
E o funeral aos velhinhos.
E a múmia do faraó.
Deixem isso às madraças
E à caridade em tempo de Ramadão.
Resta-nos a Alta Autoridade do Nilo
Que regula os influxos
E os defluxos dos deuses.
E a exploração do trabalho infantil
Nas escolas-fábricas de tapeçarias
Em Memphis.
Na verdade,
O verão é apenas uma estação.
De comboio.
Do comboio de via estreita
Que vai do nascer ao morrer.
Ou quem diz estação
Diz cais. De chegar. De apodrecer.
Como esta falua do Nilo à beira Tejo
Que é o rio que passa à minha porta.
Sexta-feira, treze
De Agosto.
Dia de azar,
Quer queiram, quer não.
A indústria do lazer, aposto,
Vai ser o principal foco de infecção
Neste pico de verão.
Tenham cuidado com o cão
E com a maldição
Do Faraó Tutankamon.
Morreu a indústria dos metais pesados,
Viva a indústria do lazer.
Leve. Ecológica. De terceira vaga.
Com homologação.
Com certificação.
Com acreditação.
Com exemplos de boas práticas.
Com análises de custo/benefício.
Graças ao lóbi da qualidade
O mundo vai bem melhor.
Que a vida é dura.
E o que a gente faz para ganhá-la.
Como o búfalo que pasta
Nas margens do Nilo.
Como qualquer búfalo domesticado
Depois de trabalhar o dia inteiro
Para o seu suserano,
O camponês egípcio.
Que por sua vez alimenta
O Faraó e as suas esposas e concubinas,
O seu exército, a sua polícia núbia
E a legião de escribas
Que têm o monopólio da escrita.
E do saber.
Hoje as partes pudendas,
A zona púbica,
A coisa pia
Do Portugal contemporâneo
Vai ser matéria de alto relevo
Na televisão.
Diz o Eça, o escriba acocorado,
Em missão de reportagem
Na inauguração do Canal do Suez.
Já não temos rei.
Nem o tique aristocrático
Do beija-mão.
Nem o Conde de Burnay
Nem faraó. Nem deuses. Agora é
A república quem mais ordena.
Senão popular, pelo menos populista.
A coisa pia mais fino
No Portugal pequenino
Mas democrático.
Imagino.
Sem imagem nem voz.
Porque estou em férias
Num cruzeiro do Nilo.
A observar o elegante voo da garça.
- Onde estará o pelicano ?
E a cegonha preta ?
E os filhos ilegítimos do povo ?
No barco não apanho
A RTP, felizmente de todos nós.
Nem sei se o Porto perdeu na supertaça
E o Obikwelo ganhou
A medalha de prata dos 100 metros
Nas Olimpíadas de Atenas.
- Turco, grego, tunisino ?
Espanhol, italiano, palestino ?
- Não, português !
- Ah!, Portugal, Luís Figo! Compra, amigo.
- Quanto, quanto ? Dez nove oito sete seis cinco.
Quatro três dois, um!
- É só um oiro, amigo.
Que o Habibo tem fome mais o camelo.
Maria do Patrocínio
Minha avó materna.
Lembrei-me de ti, Tia Patxina.
Patxina, de alcunha,
Uma alcunha tão terna.
Nunca foste rainha,
Nunca te chamariam Hatshepstut,
Nem te construiriam o templo
Mais belo do mundo
Na aldeia do Nadrupe.
Morreste cega,
Sem hieroglifos gravados na estela,
Tia Patxina,
Apalpando os netos
O cabelo a cara.
E não te mumificaram
Nem muito menos te operaram
Que no teu tempo
As obras de misericórdia
Eram sete espirituais
E sete corporais.
Como no Egipto dos faraós.
Como as pragas do Egipto.
Como nesta triste aldeia núbia
Que é uma espécie de reserva dos índios
Cá do sítio.
Com crocodilos de plástico
E pretos garanhões de olhos verdes.
E onde há uma velhota
Cega como tu, minha avó,
Que vende bugigangas pró turista.
De Assuão a Luxor
Eu gostaria de ter escrito
Um poema sobre os meus estados de alma.
Tão contraditórios que se anulam.
A verdade é que encontrei aqui
Um povo afável.
Mas que me adianta o pedigree
E os cinco milénios de civilização
E o templo de Edfu
Se nada nudou na minha condição
De burro carrejão ?
Sopra o vento dessecante.
Estou em Assuão.
Nos píncaros do verão.
Portugal, verão 2004
Quando os ventos sopram em Assuão é verão
O verão é fértil,
O verão é fútil,
O verão é fértil em coisas fúteis.
O verão é fértil
No Vale do Nilo.
E fútil
Em Abu Simbel.
É no Verão
Que se come melancia
Ao quilo.
Enquanto amadurecem as tâmaras
Vende-se a cultura a granel
Em folhas de falso papiro:
- Welcome, sejam bem vindos a Assuão!
Senhores do norte,
Em Agosto resiste-se melhor à melancolia
Do entardecer
Em África,
Bem como ao medo das escuras câmaras
Da morte,
Na linha do horizonte,
Abaixo do Trópico de Câncer.
Em Abu Simbel,
O verão é ostentação.
Eu prefiro
Os ostraca
Onde o operário
De Deir el-Medina
Falava da sua condição
De produtor, de artesão,
De construtor de túmulos,
De guardador de segredos,
De malandro e de grevista,
De salteador e de ladrão,
De violador de medos
E de barqueiro de Queronte.
Eu sempre achei que esta estação
Não rimava com poesia.
Mas eu não sou o Ramsés Segundo
Nem conheço o caminho irreversível
Para a imortalidade.
Aqui o verão é fértil
Em coisas fúteis
Como o escriba acocorado
Perante o espectáculo risível
Do mundo globalizado.
Na terra prometida do pão e do mel
Tenham cuidado, meus senhores,
Com os vegetais,
Bebam águas minerais,
Levem dimicina e ultralevure
Por causa dos desarranjos intestinais.
- E o vírus do Nilo ? É mortal ?
- Descanse, minha senhora,
Que o barco tem escolta policial.
Na Ilha Elefantina
Não há manicure,
Há apenas pessoas inúteis
Que adoram subir aos píncaros do verão.
De camelo.
- Sobretudo não tome uísque
Com gelo,
Pode ler-se numa tabuleta
À beira do lago Nasser.
- Meus senhores, estamos em África,
'Be careful'.
Aqui o verão é, por excelência,
O paraíso com o ocre
Como pano de fundo.
O verão é uma casa de adobe
E uma esteira no chão
E os altos muros do deserto
Estrangulando o fio de água da vida.
- Ah, o nascer e o pôr do sol,
Não esquecer de desfrutar
O deus-sol.
Porque o verão no Egipto
É a rosa do mundo.
O misticismo. A demência.
Os calores de Santa Teresa d’Ávila
Em trabalho de múltiplos orgasmos.
No Vale dos Reis.
E das Rainhas.
E dos Nobres.
Esqueçam, por favor,
A mastabas dos pobres:
- Não vêm nos roteiros turísticos!
O verão é o sexo distendido.
O músculo relaxado.
A alma em carne viva.
A praia. O creme Nívea.
O postal ilustrado.
A alegre promiscuidade
Dos cinco sentidos.
O Cairo em três dimensões.
O meu gin tónico com limão.
A carne em decomposição.
O desastre humanitário.
Mais ao fundo a Núbia, o Sudão.
Os dóceis núbios.
As volúpteis núbias.
A tragédia de Darfur.
A louca montanha russa.
O bazar.
A dança do ventre
Dançada por travestis, canastrões.
A mesquita de alabastro.
O mítico mar vermelho.
A Sagrada Família.
Jesus, Maria e José.
O burrinho puxando a nora.
A felicidade a preço de saldo.
O exotismo com molho de bechamel.
O oásis no deserto.
Todos os estereótipos do mundo.
- Tirem uma fotografia digital.
Da varanda do hotel Marriott.
Gostaria de apresentar uma reclamação,
Por escrito, ao senhor vizir:
- Eu estive em Abu Simbel
E experimentei as dificuldades
Da comunicação humana.
O verão é o Vale do Nilo
Um gigantesco falo
Que penetra, fundo,
A terra árida e seca
Da Mãe África.
Gretada, a terra, a carne.
- White women, carne branca.
I Egiptian man, fertility man.
Portugal ? Good, Luís Figo.
Do alto da mesquita de Najaf,
Mais acima no mapa do corpo humano,
Diz o guia, o nosso guia,
Com o coração sangrando
De dor
Pelos seus irmãos,
Xiitas, sunitas, ismaelistas;
Ou do alto das pirâmides de Sakara
Há um imã que te notifica
Por carta registada com aviso de recepção:
- Que a vida eterna te chama
E exige a mortificação, a mumificação.
Recebi hoje correio de Lisboa
Onde a fertilidade da futilidade
É agora um problema de saúde pública.
Um osso duro
De roer.
Tão duro como o granito de Assuão
Donde sopra o vento que modela
O rosto das esfinges.
De Lisboa ao Cairo
Ergo o templo do futuro
Com paragem técnica em Luxor
Para consultar os arquitectos da eternidade.
A antiga Tebas, a cidade das cem portas,
É hoje um pequeno burgo.
E o meu guia, egípcio, brasileiro,
Diz que tem o coração a sangrar.
Marcos chora pelos seus irmãos
De Najaf, no Iraque,
E confidencia:
- Eu nunca poderia trabalhar
Para os meus inimigos e vizinhos de Israel.
Por muito dinheiro que me pagassem.
Tenham santa paciência.
Os pobres. Os diabos.
Os pobres diabos.
Os santos. Os turistas.
Os contribuintes.
Os camponeses.
Os escribas.
Os romancistas policiais.
Os arqueólogos.
Os caçadores de tesouros.
As esposas dos ricos homens de negócios das arábias.
Os sacerdotes do templo de Kom-Omb
Que eram carecas.
- E sobretudo os pobres.
Porque deles será o reino da terra.
Pobre planeta, sem rei nem roque.
E com tantos súbditos.
Por favor ponham a escrita em dia.
Pesem a alma.
Meçam as bolsas.
Leiam o Livro dos Mortos
Ou A Morte no Nilo,
Que o barco vai zarpar.
- Um oiro um oiro, amigo.
Para o Habibo.
E para o camelo do Habibo.
Óscar, de seu nome.
E o Estado garante
Que não pode ser,
Que não pode mais no futuro
Garantir que é Estado.
E muito menos Estado-Providência.
E pagar o leitinho às criancinhas.
E o funeral aos velhinhos.
E a múmia do faraó.
Deixem isso às madraças
E à caridade em tempo de Ramadão.
Resta-nos a Alta Autoridade do Nilo
Que regula os influxos
E os defluxos dos deuses.
E a exploração do trabalho infantil
Nas escolas-fábricas de tapeçarias
Em Memphis.
Na verdade,
O verão é apenas uma estação.
De comboio.
Do comboio de via estreita
Que vai do nascer ao morrer.
Ou quem diz estação
Diz cais. De chegar. De apodrecer.
Como esta falua do Nilo à beira Tejo
Que é o rio que passa à minha porta.
Sexta-feira, treze
De Agosto.
Dia de azar,
Quer queiram, quer não.
A indústria do lazer, aposto,
Vai ser o principal foco de infecção
Neste pico de verão.
Tenham cuidado com o cão
E com a maldição
Do Faraó Tutankamon.
Morreu a indústria dos metais pesados,
Viva a indústria do lazer.
Leve. Ecológica. De terceira vaga.
Com homologação.
Com certificação.
Com acreditação.
Com exemplos de boas práticas.
Com análises de custo/benefício.
Graças ao lóbi da qualidade
O mundo vai bem melhor.
Que a vida é dura.
E o que a gente faz para ganhá-la.
Como o búfalo que pasta
Nas margens do Nilo.
Como qualquer búfalo domesticado
Depois de trabalhar o dia inteiro
Para o seu suserano,
O camponês egípcio.
Que por sua vez alimenta
O Faraó e as suas esposas e concubinas,
O seu exército, a sua polícia núbia
E a legião de escribas
Que têm o monopólio da escrita.
E do saber.
Hoje as partes pudendas,
A zona púbica,
A coisa pia
Do Portugal contemporâneo
Vai ser matéria de alto relevo
Na televisão.
Diz o Eça, o escriba acocorado,
Em missão de reportagem
Na inauguração do Canal do Suez.
Já não temos rei.
Nem o tique aristocrático
Do beija-mão.
Nem o Conde de Burnay
Nem faraó. Nem deuses. Agora é
A república quem mais ordena.
Senão popular, pelo menos populista.
A coisa pia mais fino
No Portugal pequenino
Mas democrático.
Imagino.
Sem imagem nem voz.
Porque estou em férias
Num cruzeiro do Nilo.
A observar o elegante voo da garça.
- Onde estará o pelicano ?
E a cegonha preta ?
E os filhos ilegítimos do povo ?
No barco não apanho
A RTP, felizmente de todos nós.
Nem sei se o Porto perdeu na supertaça
E o Obikwelo ganhou
A medalha de prata dos 100 metros
Nas Olimpíadas de Atenas.
- Turco, grego, tunisino ?
Espanhol, italiano, palestino ?
- Não, português !
- Ah!, Portugal, Luís Figo! Compra, amigo.
- Quanto, quanto ? Dez nove oito sete seis cinco.
Quatro três dois, um!
- É só um oiro, amigo.
Que o Habibo tem fome mais o camelo.
Maria do Patrocínio
Minha avó materna.
Lembrei-me de ti, Tia Patxina.
Patxina, de alcunha,
Uma alcunha tão terna.
Nunca foste rainha,
Nunca te chamariam Hatshepstut,
Nem te construiriam o templo
Mais belo do mundo
Na aldeia do Nadrupe.
Morreste cega,
Sem hieroglifos gravados na estela,
Tia Patxina,
Apalpando os netos
O cabelo a cara.
E não te mumificaram
Nem muito menos te operaram
Que no teu tempo
As obras de misericórdia
Eram sete espirituais
E sete corporais.
Como no Egipto dos faraós.
Como as pragas do Egipto.
Como nesta triste aldeia núbia
Que é uma espécie de reserva dos índios
Cá do sítio.
Com crocodilos de plástico
E pretos garanhões de olhos verdes.
E onde há uma velhota
Cega como tu, minha avó,
Que vende bugigangas pró turista.
De Assuão a Luxor
Eu gostaria de ter escrito
Um poema sobre os meus estados de alma.
Tão contraditórios que se anulam.
A verdade é que encontrei aqui
Um povo afável.
Mas que me adianta o pedigree
E os cinco milénios de civilização
E o templo de Edfu
Se nada nudou na minha condição
De burro carrejão ?
Sopra o vento dessecante.
Estou em Assuão.
Nos píncaros do verão.
11 setembro 2004
Car@s ciberamig@s - V: De luto, pelo portal Terràvista
1. Em 23 de Junho de 1999 criei, no portal Terràvista, a minha página pessoal, subordinada ao tópico Saúde e Trabalho (http://www.terravista.pt/meco/5531). Devo confessar que acabei por ter um certo orgulho, uma pontinha de orgulho, neste cantinho, lusófono, do ciberespaço.
Recorde-se que o portal tinha sido lançado dois anos antes e que, de então para cá, se haviam criado dezenas de milhares de páginas nas mais desvairadas "praias" onde se falava português, desde Portugal (vg. Meco) ao Brasil (vg.,Praia Brava) e de Cabo Verde (vg., Baía das Gatas)a Angola (vg., Mussulo).
Até à data a minha página teve mais de 40 mil visitantes, o que não é nada mau.
Entretanto, o Terràvista mudou de mãos e perdeu o acento grave (Terravista), sinal quiça dos movos tempos globalizadores e padronizadores. Mas o mais grave não foi isso: Há dias fui/fomos surpreendido(s)pelo seguinte aviso no Portal Terravista: "Dada a antiguidade dos sistemas de alojamento de páginas pessoais disponibilizados pelo Terravista.pt, a Administração do Terravista.pt decidiu dar por terminada a disponibilização do serviço de páginas pessoais (www.terravista.pt/praia/número e 7mares.terravista.pt)". Convenhamos que é uma justificação pouco ou nada convincente. Era preferível não serem cínicos e correrem connosco como hóspedes indesejáveis...
Acrescentava-se a seguir: "No sentido de permitir a todos os utilizadores recuperar as suas páginas e conteúdos, o Terravista.pt criou um sistema simples e rápido: basta colocar o endereço da sua página e um endereço de correio electrónico (válido) e todos os ficheiros correspondentes que estejam alojados nos nossos servidores ser-lhe-ão devolvidos". Enfim: era o mínimo que se podia esperar do senhorio...
Em resumo: o actual dono do portal (a empresa T-online)vai pôr fim ao serviço de alojamento de páginas pessoais no dia 20 de Setembro próximo. Muitos cibernautas como eu fomos surpreendidos por esta ordem de despejo, em plenas férias, ao ler um artigo no jornal "Público", no suplemento "Computadores (6 de Setembro de 2004).
2. A primeira reacção é de revolta e de desalento. Senti-me como um náufrago, destroçado e despejado pela borda fora. Mas a seguir recompus-me e tratei de procurar outro porto de abrigo. De qualquer modo, os economistas já me tinham vindo a avisar, ao longo de todos estes anos, que, no planeta azul, nesta terra que é nossa (mas é sobretudo mais de alguns), "não há almoços de borla".
Segundo o "Público" nos lembra, "o Terràvista foi, de início, um projecto estatal, que (...) acabou por ser vendido à operadora de telecomunicações Jazztel - para vir a ser mais tarde adquirido pela Ya.com".
E davam-se mais pormenores: "O projecto foi idealizado no seio da iniciativa Mosaico - A Cultura Portuguesa na Sociedade da Informação, do Ministério da Cultura, e lançado a 23 de Março de 1997, visando facultar a milhares de cidadãos o alojamento gratuito de conteúdos e a criação de uma vasta comunidade virtual de língua portuguesa, fomentando a produção de conteúdos nacionais para a rede das redes".
A vida deste portal foi, desde o início, atribulada: por exemplo, em Julho de 1998, na sequência de uma notícia que denunciava a persistência de páginas pornográficas, o senhor ministro da Cultura de então, Manuel Maria Carrilho, decidiu encerrar o portal, no meio de um coro de protestos de que ainda hoje há ecos na Net.
Uma semana depois, era "constituída uma associação com o mesmo nome, para a qual foram transferidos os activos e a marca Terràvista - uma solução arranjada para afastar o Ministério da Cultura da responsabilidade dos conteúdos alojados no projecto Terràvista". Nem o Estado nem o ministério da cultura nem muito menos o filósoo Manuel Maia Carrilho têm vocação para gestores. A solução encontrada não era menos desastrada: amanhem-se para aí...
Não admira, por isso, que a Associação Terràvista seja obrigado a vender o portal, apesar da sua popularidade tanto no Velho como no Novo Mundo lusófono, alegando "dificuldades financeiras com os custos de manutenção da sua infra-estrutura" na ausência ou impossibilidade de uma exploração comercial do Terràvista (continuo a citar o artigo do "Público" de 6 de Setembro último).
A venda é feita em Fevereiro de 2000 à Jazztel Internet Factory, do grupo de telecomunicações Jazztel, que a integra "na Ya.com, a sua divisão para a Internet". Dá-se então início a "uma mudança de identidade do projecto, transformando-o num portal com conteúdos próprios mas mantendo as comunidades de cibernautas e o serviço de alojamento gratuito".
Mal passados seis meses, logo em Setembro de 2000, as páginas pessoais alojadas no Terràvista passaram a ter "banners" publicitários. A marujada (como o pessoal era carinhosamente tratado nos primórdios) foi confrontada com a política do facto consumado, tendo sido avisada com apenas dois dias de antecedência (!). Mas quem mandava já falava noutra língua, a castelhana... A polémica rebentou mais uma vez mas de pouco valeram os (fracos) protestos dos marujos.
Dois anos depois, em Setembro de 2002, o Terràvista muda novamente de mãos, "quando a Jazztel anunciou a venda da Ya.com Internet Factory - que integrava os portais português Terràvista e o espanhol Ya.com - por 414,3 milhões de euros à T-online, uma empresa fornecedora de acesso à Internet, subsidiária da operadora alemã Deutsche Telekom". Não sei se foi ou não um mau negócio, mas tenho que reconhecer que era uma pipa de massa.
Foi nessa altura que o Terràvista perdeu o acento grave no primeiro "a"... Um pequeno detalhe que não deixava de ser simbólico... Entretanto, em 20 de Setembro de 2004 (mais uma vez no mês de Setembro, de má memória!) lá irão matar e enterrar o Terràvista. O grande perdedor é seguramente a língua portuguesa e a comunidade lusófona.
3.O que me apetece dizer, em sinal de luto e de protesto, é apenas o seguinte: O projecto original do Terràvista morreu, viva o Terràvista! E vivam todos os cibernautas lusófonos que puseram a sua criatividade em marcha!
De qualquer ao último e aos anteriores senhorios deste espaço no ciberespaço, eu tenho que endereçar os meus agradecimentos. Afinal, sou um cavalheiro civilizado, atento e obrigado. Só tenho pena é que muitas e belíssimas páginas em português se percam, nomeadamente por falta de alternativas de alojamento (gratuito). Estou a pensar nos nossos companheiros lusófonos de países com menos recursos que o nosso em matéria de novas tecnologias da informação, de Cabo verde a Timor, de São Tomé Príncipe ao Brasil...
Pela minha parte, estou grato ao Terràvista por estes cinco anos de utilização de um serviço de que não fui o único beneficiário e que, na prática, não era inteiramente gartuita. É bom recordar que desde há quatro anos a minha página exibia "banners" publicitários, devidamente seleccionados em função da sua temática principal (a saúde e a segurança do trabalho)e do seu público-alvo. De qualquer modo, foi graças ao projecto Terràvista que eu me atrevi a fazer a minha primeira página na Net. Isso não posso negar nem esquecer.
Na hora da despedida, o meu muito obrigado vai sobretudo para os ciberamigos (e foram bastantes) que ganhei. Vou/vamos continuar noutro cantinho do ciberespaço, agora cada vez mais globalizado...
Para os que quiserem continuar a visitar-me, aqui fica o novo endereço da minha página a partir de 10 de Setembro de 2004:
http://www.ensp.unl.pt/luis.graca
É caso para dizer que, a partir de agora, não preciso de atravessar a rua e ser atropelado: fico em casa, o mesmo é dizer que a minha página pessoal está alojada no sítio da instituição onde trabalho, a Escola Nacional de Saúde PÚblica, da Universidade Nova de Lisboa.
Recorde-se que o portal tinha sido lançado dois anos antes e que, de então para cá, se haviam criado dezenas de milhares de páginas nas mais desvairadas "praias" onde se falava português, desde Portugal (vg. Meco) ao Brasil (vg.,Praia Brava) e de Cabo Verde (vg., Baía das Gatas)a Angola (vg., Mussulo).
Até à data a minha página teve mais de 40 mil visitantes, o que não é nada mau.
Entretanto, o Terràvista mudou de mãos e perdeu o acento grave (Terravista), sinal quiça dos movos tempos globalizadores e padronizadores. Mas o mais grave não foi isso: Há dias fui/fomos surpreendido(s)pelo seguinte aviso no Portal Terravista: "Dada a antiguidade dos sistemas de alojamento de páginas pessoais disponibilizados pelo Terravista.pt, a Administração do Terravista.pt decidiu dar por terminada a disponibilização do serviço de páginas pessoais (www.terravista.pt/praia/número e 7mares.terravista.pt)". Convenhamos que é uma justificação pouco ou nada convincente. Era preferível não serem cínicos e correrem connosco como hóspedes indesejáveis...
Acrescentava-se a seguir: "No sentido de permitir a todos os utilizadores recuperar as suas páginas e conteúdos, o Terravista.pt criou um sistema simples e rápido: basta colocar o endereço da sua página e um endereço de correio electrónico (válido) e todos os ficheiros correspondentes que estejam alojados nos nossos servidores ser-lhe-ão devolvidos". Enfim: era o mínimo que se podia esperar do senhorio...
Em resumo: o actual dono do portal (a empresa T-online)vai pôr fim ao serviço de alojamento de páginas pessoais no dia 20 de Setembro próximo. Muitos cibernautas como eu fomos surpreendidos por esta ordem de despejo, em plenas férias, ao ler um artigo no jornal "Público", no suplemento "Computadores (6 de Setembro de 2004).
2. A primeira reacção é de revolta e de desalento. Senti-me como um náufrago, destroçado e despejado pela borda fora. Mas a seguir recompus-me e tratei de procurar outro porto de abrigo. De qualquer modo, os economistas já me tinham vindo a avisar, ao longo de todos estes anos, que, no planeta azul, nesta terra que é nossa (mas é sobretudo mais de alguns), "não há almoços de borla".
Segundo o "Público" nos lembra, "o Terràvista foi, de início, um projecto estatal, que (...) acabou por ser vendido à operadora de telecomunicações Jazztel - para vir a ser mais tarde adquirido pela Ya.com".
E davam-se mais pormenores: "O projecto foi idealizado no seio da iniciativa Mosaico - A Cultura Portuguesa na Sociedade da Informação, do Ministério da Cultura, e lançado a 23 de Março de 1997, visando facultar a milhares de cidadãos o alojamento gratuito de conteúdos e a criação de uma vasta comunidade virtual de língua portuguesa, fomentando a produção de conteúdos nacionais para a rede das redes".
A vida deste portal foi, desde o início, atribulada: por exemplo, em Julho de 1998, na sequência de uma notícia que denunciava a persistência de páginas pornográficas, o senhor ministro da Cultura de então, Manuel Maria Carrilho, decidiu encerrar o portal, no meio de um coro de protestos de que ainda hoje há ecos na Net.
Uma semana depois, era "constituída uma associação com o mesmo nome, para a qual foram transferidos os activos e a marca Terràvista - uma solução arranjada para afastar o Ministério da Cultura da responsabilidade dos conteúdos alojados no projecto Terràvista". Nem o Estado nem o ministério da cultura nem muito menos o filósoo Manuel Maia Carrilho têm vocação para gestores. A solução encontrada não era menos desastrada: amanhem-se para aí...
Não admira, por isso, que a Associação Terràvista seja obrigado a vender o portal, apesar da sua popularidade tanto no Velho como no Novo Mundo lusófono, alegando "dificuldades financeiras com os custos de manutenção da sua infra-estrutura" na ausência ou impossibilidade de uma exploração comercial do Terràvista (continuo a citar o artigo do "Público" de 6 de Setembro último).
A venda é feita em Fevereiro de 2000 à Jazztel Internet Factory, do grupo de telecomunicações Jazztel, que a integra "na Ya.com, a sua divisão para a Internet". Dá-se então início a "uma mudança de identidade do projecto, transformando-o num portal com conteúdos próprios mas mantendo as comunidades de cibernautas e o serviço de alojamento gratuito".
Mal passados seis meses, logo em Setembro de 2000, as páginas pessoais alojadas no Terràvista passaram a ter "banners" publicitários. A marujada (como o pessoal era carinhosamente tratado nos primórdios) foi confrontada com a política do facto consumado, tendo sido avisada com apenas dois dias de antecedência (!). Mas quem mandava já falava noutra língua, a castelhana... A polémica rebentou mais uma vez mas de pouco valeram os (fracos) protestos dos marujos.
Dois anos depois, em Setembro de 2002, o Terràvista muda novamente de mãos, "quando a Jazztel anunciou a venda da Ya.com Internet Factory - que integrava os portais português Terràvista e o espanhol Ya.com - por 414,3 milhões de euros à T-online, uma empresa fornecedora de acesso à Internet, subsidiária da operadora alemã Deutsche Telekom". Não sei se foi ou não um mau negócio, mas tenho que reconhecer que era uma pipa de massa.
Foi nessa altura que o Terràvista perdeu o acento grave no primeiro "a"... Um pequeno detalhe que não deixava de ser simbólico... Entretanto, em 20 de Setembro de 2004 (mais uma vez no mês de Setembro, de má memória!) lá irão matar e enterrar o Terràvista. O grande perdedor é seguramente a língua portuguesa e a comunidade lusófona.
3.O que me apetece dizer, em sinal de luto e de protesto, é apenas o seguinte: O projecto original do Terràvista morreu, viva o Terràvista! E vivam todos os cibernautas lusófonos que puseram a sua criatividade em marcha!
De qualquer ao último e aos anteriores senhorios deste espaço no ciberespaço, eu tenho que endereçar os meus agradecimentos. Afinal, sou um cavalheiro civilizado, atento e obrigado. Só tenho pena é que muitas e belíssimas páginas em português se percam, nomeadamente por falta de alternativas de alojamento (gratuito). Estou a pensar nos nossos companheiros lusófonos de países com menos recursos que o nosso em matéria de novas tecnologias da informação, de Cabo verde a Timor, de São Tomé Príncipe ao Brasil...
Pela minha parte, estou grato ao Terràvista por estes cinco anos de utilização de um serviço de que não fui o único beneficiário e que, na prática, não era inteiramente gartuita. É bom recordar que desde há quatro anos a minha página exibia "banners" publicitários, devidamente seleccionados em função da sua temática principal (a saúde e a segurança do trabalho)e do seu público-alvo. De qualquer modo, foi graças ao projecto Terràvista que eu me atrevi a fazer a minha primeira página na Net. Isso não posso negar nem esquecer.
Na hora da despedida, o meu muito obrigado vai sobretudo para os ciberamigos (e foram bastantes) que ganhei. Vou/vamos continuar noutro cantinho do ciberespaço, agora cada vez mais globalizado...
Para os que quiserem continuar a visitar-me, aqui fica o novo endereço da minha página a partir de 10 de Setembro de 2004:
http://www.ensp.unl.pt/luis.graca
É caso para dizer que, a partir de agora, não preciso de atravessar a rua e ser atropelado: fico em casa, o mesmo é dizer que a minha página pessoal está alojada no sítio da instituição onde trabalho, a Escola Nacional de Saúde PÚblica, da Universidade Nova de Lisboa.
Car@s ciberamig@s - V: De luto, pelo portal Terràvista
1. Em 23 de Junho de 1999 criei, no portal Terràvista, a minha página pessoal, subordinada ao tópico Saúde e Trabalho (http://www.terravista.pt/meco/5531). Devo confessar que acabei por ter um certo orgulho, uma pontinha de orgulho, neste cantinho, lusófono, do ciberespaço.
Recorde-se que o portal tinha sido lançado dois anos antes e que, de então para cá, se haviam criado dezenas de milhares de páginas nas mais desvairadas "praias" onde se falava português, desde Portugal (vg. Meco) ao Brasil (vg.,Praia Brava) e de Cabo Verde (vg., Baía das Gatas)a Angola (vg., Mussulo).
Até à data a minha página teve mais de 40 mil visitantes, o que não é nada mau.
Entretanto, o Terràvista mudou de mãos e perdeu o acento grave (Terravista), sinal quiça dos movos tempos globalizadores e padronizadores. Mas o mais grave não foi isso: Há dias fui/fomos surpreendido(s)pelo seguinte aviso no Portal Terravista: "Dada a antiguidade dos sistemas de alojamento de páginas pessoais disponibilizados pelo Terravista.pt, a Administração do Terravista.pt decidiu dar por terminada a disponibilização do serviço de páginas pessoais (www.terravista.pt/praia/número e 7mares.terravista.pt)". Convenhamos que é uma justificação pouco ou nada convincente. Era preferível não serem cínicos e correrem connosco como hóspedes indesejáveis...
Acrescentava-se a seguir: "No sentido de permitir a todos os utilizadores recuperar as suas páginas e conteúdos, o Terravista.pt criou um sistema simples e rápido: basta colocar o endereço da sua página e um endereço de correio electrónico (válido) e todos os ficheiros correspondentes que estejam alojados nos nossos servidores ser-lhe-ão devolvidos". Enfim: era o mínimo que se podia esperar do senhorio...
Em resumo: o actual dono do portal (a empresa T-online)vai pôr fim ao serviço de alojamento de páginas pessoais no dia 20 de Setembro próximo. Muitos cibernautas como eu fomos surpreendidos por esta ordem de despejo, em plenas férias, ao ler um artigo no jornal "Público", no suplemento "Computadores (6 de Setembro de 2004).
2. A primeira reacção é de revolta e de desalento. Senti-me como um náufrago, destroçado e despejado pela borda fora. Mas a seguir recompus-me e tratei de procurar outro porto de abrigo. De qualquer modo, os economistas já me tinham vindo a avisar, ao longo de todos estes anos, que, no planeta azul, nesta terra que é nossa (mas é sobretudo mais de alguns), "não há almoços de borla".
Segundo o "Público" nos lembra, "o Terràvista foi, de início, um projecto estatal, que (...) acabou por ser vendido à operadora de telecomunicações Jazztel - para vir a ser mais tarde adquirido pela Ya.com".
E davam-se mais pormenores: "O projecto foi idealizado no seio da iniciativa Mosaico - A Cultura Portuguesa na Sociedade da Informação, do Ministério da Cultura, e lançado a 23 de Março de 1997, visando facultar a milhares de cidadãos o alojamento gratuito de conteúdos e a criação de uma vasta comunidade virtual de língua portuguesa, fomentando a produção de conteúdos nacionais para a rede das redes".
A vida deste portal foi, desde o início, atribulada: por exemplo, em Julho de 1998, na sequência de uma notícia que denunciava a persistência de páginas pornográficas, o senhor ministro da Cultura de então, Manuel Maria Carrilho, decidiu encerrar o portal, no meio de um coro de protestos de que ainda hoje há ecos na Net.
Uma semana depois, era "constituída uma associação com o mesmo nome, para a qual foram transferidos os activos e a marca Terràvista - uma solução arranjada para afastar o Ministério da Cultura da responsabilidade dos conteúdos alojados no projecto Terràvista". Nem o Estado nem o ministério da cultura nem muito menos o filósoo Manuel Maia Carrilho têm vocação para gestores. A solução encontrada não era menos desastrada: amanhem-se para aí...
Não admira, por isso, que a Associação Terràvista seja obrigado a vender o portal, apesar da sua popularidade tanto no Velho como no Novo Mundo lusófono, alegando "dificuldades financeiras com os custos de manutenção da sua infra-estrutura" na ausência ou impossibilidade de uma exploração comercial do Terràvista (continuo a citar o artigo do "Público" de 6 de Setembro último).
A venda é feita em Fevereiro de 2000 à Jazztel Internet Factory, do grupo de telecomunicações Jazztel, que a integra "na Ya.com, a sua divisão para a Internet". Dá-se então início a "uma mudança de identidade do projecto, transformando-o num portal com conteúdos próprios mas mantendo as comunidades de cibernautas e o serviço de alojamento gratuito".
Mal passados seis meses, logo em Setembro de 2000, as páginas pessoais alojadas no Terràvista passaram a ter "banners" publicitários. A marujada (como o pessoal era carinhosamente tratado nos primórdios) foi confrontada com a política do facto consumado, tendo sido avisada com apenas dois dias de antecedência (!). Mas quem mandava já falava noutra língua, a castelhana... A polémica rebentou mais uma vez mas de pouco valeram os (fracos) protestos dos marujos.
Dois anos depois, em Setembro de 2002, o Terràvista muda novamente de mãos, "quando a Jazztel anunciou a venda da Ya.com Internet Factory - que integrava os portais português Terràvista e o espanhol Ya.com - por 414,3 milhões de euros à T-online, uma empresa fornecedora de acesso à Internet, subsidiária da operadora alemã Deutsche Telekom". Não sei se foi ou não um mau negócio, mas tenho que reconhecer que era uma pipa de massa.
Foi nessa altura que o Terràvista perdeu o acento grave no primeiro "a"... Um pequeno detalhe que não deixava de ser simbólico... Entretanto, em 20 de Setembro de 2004 (mais uma vez no mês de Setembro, de má memória!) lá irão matar e enterrar o Terràvista. O grande perdedor é seguramente a língua portuguesa e a comunidade lusófona.
3.O que me apetece dizer, em sinal de luto e de protesto, é apenas o seguinte: O projecto original do Terràvista morreu, viva o Terràvista! E vivam todos os cibernautas lusófonos que puseram a sua criatividade em marcha!
De qualquer ao último e aos anteriores senhorios deste espaço no ciberespaço, eu tenho que endereçar os meus agradecimentos. Afinal, sou um cavalheiro civilizado, atento e obrigado. Só tenho pena é que muitas e belíssimas páginas em português se percam, nomeadamente por falta de alternativas de alojamento (gratuito). Estou a pensar nos nossos companheiros lusófonos de países com menos recursos que o nosso em matéria de novas tecnologias da informação, de Cabo verde a Timor, de São Tomé Príncipe ao Brasil...
Pela minha parte, estou grato ao Terràvista por estes cinco anos de utilização de um serviço de que não fui o único beneficiário e que, na prática, não era inteiramente gartuita. É bom recordar que desde há quatro anos a minha página exibia "banners" publicitários, devidamente seleccionados em função da sua temática principal (a saúde e a segurança do trabalho)e do seu público-alvo. De qualquer modo, foi graças ao projecto Terràvista que eu me atrevi a fazer a minha primeira página na Net. Isso não posso negar nem esquecer.
Na hora da despedida, o meu muito obrigado vai sobretudo para os ciberamigos (e foram bastantes) que ganhei. Vou/vamos continuar noutro cantinho do ciberespaço, agora cada vez mais globalizado...
Para os que quiserem continuar a visitar-me, aqui fica o novo endereço da minha página a partir de 10 de Setembro de 2004:
http://www.ensp.unl.pt/luis.graca
É caso para dizer que, a partir de agora, não preciso de atravessar a rua e ser atropelado: fico em casa, o mesmo é dizer que a minha página pessoal está alojada no sítio da instituição onde trabalho, a Escola Nacional de Saúde PÚblica, da Universidade Nova de Lisboa.
Recorde-se que o portal tinha sido lançado dois anos antes e que, de então para cá, se haviam criado dezenas de milhares de páginas nas mais desvairadas "praias" onde se falava português, desde Portugal (vg. Meco) ao Brasil (vg.,Praia Brava) e de Cabo Verde (vg., Baía das Gatas)a Angola (vg., Mussulo).
Até à data a minha página teve mais de 40 mil visitantes, o que não é nada mau.
Entretanto, o Terràvista mudou de mãos e perdeu o acento grave (Terravista), sinal quiça dos movos tempos globalizadores e padronizadores. Mas o mais grave não foi isso: Há dias fui/fomos surpreendido(s)pelo seguinte aviso no Portal Terravista: "Dada a antiguidade dos sistemas de alojamento de páginas pessoais disponibilizados pelo Terravista.pt, a Administração do Terravista.pt decidiu dar por terminada a disponibilização do serviço de páginas pessoais (www.terravista.pt/praia/número e 7mares.terravista.pt)". Convenhamos que é uma justificação pouco ou nada convincente. Era preferível não serem cínicos e correrem connosco como hóspedes indesejáveis...
Acrescentava-se a seguir: "No sentido de permitir a todos os utilizadores recuperar as suas páginas e conteúdos, o Terravista.pt criou um sistema simples e rápido: basta colocar o endereço da sua página e um endereço de correio electrónico (válido) e todos os ficheiros correspondentes que estejam alojados nos nossos servidores ser-lhe-ão devolvidos". Enfim: era o mínimo que se podia esperar do senhorio...
Em resumo: o actual dono do portal (a empresa T-online)vai pôr fim ao serviço de alojamento de páginas pessoais no dia 20 de Setembro próximo. Muitos cibernautas como eu fomos surpreendidos por esta ordem de despejo, em plenas férias, ao ler um artigo no jornal "Público", no suplemento "Computadores (6 de Setembro de 2004).
2. A primeira reacção é de revolta e de desalento. Senti-me como um náufrago, destroçado e despejado pela borda fora. Mas a seguir recompus-me e tratei de procurar outro porto de abrigo. De qualquer modo, os economistas já me tinham vindo a avisar, ao longo de todos estes anos, que, no planeta azul, nesta terra que é nossa (mas é sobretudo mais de alguns), "não há almoços de borla".
Segundo o "Público" nos lembra, "o Terràvista foi, de início, um projecto estatal, que (...) acabou por ser vendido à operadora de telecomunicações Jazztel - para vir a ser mais tarde adquirido pela Ya.com".
E davam-se mais pormenores: "O projecto foi idealizado no seio da iniciativa Mosaico - A Cultura Portuguesa na Sociedade da Informação, do Ministério da Cultura, e lançado a 23 de Março de 1997, visando facultar a milhares de cidadãos o alojamento gratuito de conteúdos e a criação de uma vasta comunidade virtual de língua portuguesa, fomentando a produção de conteúdos nacionais para a rede das redes".
A vida deste portal foi, desde o início, atribulada: por exemplo, em Julho de 1998, na sequência de uma notícia que denunciava a persistência de páginas pornográficas, o senhor ministro da Cultura de então, Manuel Maria Carrilho, decidiu encerrar o portal, no meio de um coro de protestos de que ainda hoje há ecos na Net.
Uma semana depois, era "constituída uma associação com o mesmo nome, para a qual foram transferidos os activos e a marca Terràvista - uma solução arranjada para afastar o Ministério da Cultura da responsabilidade dos conteúdos alojados no projecto Terràvista". Nem o Estado nem o ministério da cultura nem muito menos o filósoo Manuel Maia Carrilho têm vocação para gestores. A solução encontrada não era menos desastrada: amanhem-se para aí...
Não admira, por isso, que a Associação Terràvista seja obrigado a vender o portal, apesar da sua popularidade tanto no Velho como no Novo Mundo lusófono, alegando "dificuldades financeiras com os custos de manutenção da sua infra-estrutura" na ausência ou impossibilidade de uma exploração comercial do Terràvista (continuo a citar o artigo do "Público" de 6 de Setembro último).
A venda é feita em Fevereiro de 2000 à Jazztel Internet Factory, do grupo de telecomunicações Jazztel, que a integra "na Ya.com, a sua divisão para a Internet". Dá-se então início a "uma mudança de identidade do projecto, transformando-o num portal com conteúdos próprios mas mantendo as comunidades de cibernautas e o serviço de alojamento gratuito".
Mal passados seis meses, logo em Setembro de 2000, as páginas pessoais alojadas no Terràvista passaram a ter "banners" publicitários. A marujada (como o pessoal era carinhosamente tratado nos primórdios) foi confrontada com a política do facto consumado, tendo sido avisada com apenas dois dias de antecedência (!). Mas quem mandava já falava noutra língua, a castelhana... A polémica rebentou mais uma vez mas de pouco valeram os (fracos) protestos dos marujos.
Dois anos depois, em Setembro de 2002, o Terràvista muda novamente de mãos, "quando a Jazztel anunciou a venda da Ya.com Internet Factory - que integrava os portais português Terràvista e o espanhol Ya.com - por 414,3 milhões de euros à T-online, uma empresa fornecedora de acesso à Internet, subsidiária da operadora alemã Deutsche Telekom". Não sei se foi ou não um mau negócio, mas tenho que reconhecer que era uma pipa de massa.
Foi nessa altura que o Terràvista perdeu o acento grave no primeiro "a"... Um pequeno detalhe que não deixava de ser simbólico... Entretanto, em 20 de Setembro de 2004 (mais uma vez no mês de Setembro, de má memória!) lá irão matar e enterrar o Terràvista. O grande perdedor é seguramente a língua portuguesa e a comunidade lusófona.
3.O que me apetece dizer, em sinal de luto e de protesto, é apenas o seguinte: O projecto original do Terràvista morreu, viva o Terràvista! E vivam todos os cibernautas lusófonos que puseram a sua criatividade em marcha!
De qualquer ao último e aos anteriores senhorios deste espaço no ciberespaço, eu tenho que endereçar os meus agradecimentos. Afinal, sou um cavalheiro civilizado, atento e obrigado. Só tenho pena é que muitas e belíssimas páginas em português se percam, nomeadamente por falta de alternativas de alojamento (gratuito). Estou a pensar nos nossos companheiros lusófonos de países com menos recursos que o nosso em matéria de novas tecnologias da informação, de Cabo verde a Timor, de São Tomé Príncipe ao Brasil...
Pela minha parte, estou grato ao Terràvista por estes cinco anos de utilização de um serviço de que não fui o único beneficiário e que, na prática, não era inteiramente gartuita. É bom recordar que desde há quatro anos a minha página exibia "banners" publicitários, devidamente seleccionados em função da sua temática principal (a saúde e a segurança do trabalho)e do seu público-alvo. De qualquer modo, foi graças ao projecto Terràvista que eu me atrevi a fazer a minha primeira página na Net. Isso não posso negar nem esquecer.
Na hora da despedida, o meu muito obrigado vai sobretudo para os ciberamigos (e foram bastantes) que ganhei. Vou/vamos continuar noutro cantinho do ciberespaço, agora cada vez mais globalizado...
Para os que quiserem continuar a visitar-me, aqui fica o novo endereço da minha página a partir de 10 de Setembro de 2004:
http://www.ensp.unl.pt/luis.graca
É caso para dizer que, a partir de agora, não preciso de atravessar a rua e ser atropelado: fico em casa, o mesmo é dizer que a minha página pessoal está alojada no sítio da instituição onde trabalho, a Escola Nacional de Saúde PÚblica, da Universidade Nova de Lisboa.
12 agosto 2004
Blogantologia(s) – XVII: Paimogo da minha infância III
Nova versão em relação à de 20.06.04. O blogador, em férias, pode ser visto a fazer o seu jogging matinal, na baixa-mar, entre a Praia da Areia Branca e a Praia do Paimogo. Que, diga-se baixinho, é um dos mais belos recantos do litoral português. Oxalá os deuses e sobretudo os homens não sejam dominados pela súbita febre do cimento armado que tem destruído outros recantos belíssimos, selvagens, da nossa costa. Vejo, no entanto, com preocupação as pontas dos guindastes a avançarem da Praia da Areia Branca para norte...
Não preciso de ser geólogo
Para te amar,
Ó Praia de Paimogo
Da minha infância.
Nem de ser paleontólogo
Para desenhar na areia
As peugadas da tua errância
De dinossauro do Jurássico Superior.
Nem muito menos biólogo ou sociólogo
Para te conhecer aí onde
Se alimenta o recolector-caçador
E o polvo, o povo, se esconde
Nas marés vivas de lua cheia.
Fugi de terramotos e tempestades,
Procurei abrigo na tua enseada,
Domei as ondas e o vento,
Desfiz mitos, adorei divindades,
Esculpi a esfinge alada
Que guarda a porta do teu templo.
Andei na pesca ao candeio,
Fui pescador de lagosta,
Camponês, jornaleiro, camarada,
Andarilho de costa a costa,
Negociante de peixe, almocreve,
Apanhador de algas, caçador submarino,
Amigo do fado e da boémia,
Poeta, pirata e frade,
Mulher e fêmea,
Viúva de vivo e de morto,
Zé-Ninguém, cidadão clandestino.
Vim da Bretanha em barcos a vapor,
Fui avieiro nos meses longos de verão,
Fenício, cartaginês, romano e moçárabe,
Português do mundo em cada porto.
Armei navios, enriqueci, trafiquei,
De escravos fui senhor
E dono de engenhos nos brasis.
Embarcadiço e capitão do norte,
Aventureiro e explorador colonial,
Bandeirante, garimpeiro,
Prostituta e proxeneta,
E até de príncipes fui conselheiro.
Carreguei vinho nos barris
Da nossa Nau Catrineta,
Para a corte russa, imperial;
Naufraguei em ilhas longínquas, polinésias,
Adubei as minhas terras
Com o limo do mar dos sargaços,
Fiz o meu ninho de ave de rapina
No alto das tuas falésias,
Fui presa e predador,
Dos contrabandistas segui os passos,
Lavrei o mar, semeei a morte,
Sobrevivi a mil e uma guerras,
E os meus mortos enterrei
Nas tuas areias.
Vigiei o mar, o céu e a terra
Do alto setecentista do teu forte:
Tive visões, vi monstros e sereias,
Fugi das garras dos terópodes,
Escapei dos mandíbulas dos crocodilos,
Lutei contra muitas outras feras,
Fiz a paz e a guerra,
Da vida conheci todo os estilos,
Fui condenado às galeras
E quase devorado por gastrópodes,
Peguei de caras o minotauro,
Estive cativo do mouro
Nas longínquas mauritânias,
Choquei os teus ovos de dinossauro,
Construí castros, citânias,
Andei à deriva dos continentes,
Sobrevivi à fome e à peste,
Andei a monte, fugi a salto,
Lutei pela liberdade,
Pela lei e pela grei gritei bem alto,
De norte a sul, de leste a oeste,
E a pátria te defendi,
Contra todos os invasores.
A verdade, a verdade,
É que cobiçada por muitas gentes,
Desejada por muitos senhores,
Nunca nenhuma armada invencível te venceu,
Ó Praia de Paimogo da minha infância.
Se te perdeste,
Se alguma vez te perdeste,
Foi só por amores.
Quando eu era criança,
Quando eu tive a sorte de ser criança
Como diria o Fernando Pessoa,
As sardinhas voltavam sempre
Em frágeis cardumes de prata e luar
À praia onde haviam desovado.
Quando eu era menino e moço,
No tempo em que ainda partiam soldados
Para a Índia, para Goa,
Havia uma princesa, moura, encantada,
Num das tuas grutas submarinas;
O corpo coberto de ágar-ágar,
Era fonte de água pura, quente e doce,
Donde bebiam os ofegantes cavalos alados,
Com as suas enormes narinas.
E o vento, a nortada,
Nas velas dos barcos e dos moinhos,
Falavam-me da tragédia antiga,
Mas ainda viva,
Da filha do teu capitão
Que se havia matado do alto da arriba,
Dizem que por amor e solidão.
No antigo reino mouro
E depois franco e fero da Lourinhã,
Também os búzios me diziam
Que à noite as luzinhas,
A sul das Ilhas Berlengas,
Eram as alminhas
Dos que morriam
No mar, sem sepultura cristã.
Pobres náufragos,
Marinheiros, pescadores,
Poetas loucos, errantes, noctívagos,
Imigrantes clandestinos,
Corsários, contrabandistas, pecadores,
À deriva, sem um ui nem um ai,
Agarrados às tábuas do barco Deus é Pai.
Hoje não acredito mais
Nessas lendas das alminhas
Que eu ouvia aos ceguinhos das feiras,
Vendedores de letras de fado
E do Borda-d’Água:
Afinal essas luzinhas,
Lá longe e ali tão perto,
São apenas as traineiras
Ao largo do Mar do Serro,
Atrás dos cardumes de sardinhas.
Forte de Paimogo, visto do lado nascente.
Fotografia gentilmente cedida por © António Pena Luís (2004)
Notas explicativas:
1) O Forte de Paimogo, construído em 1674, construído durante a regência do príncipe D. Pedro, futuro rei D. Pedro II, “fazia parte de uma linha defensiva da costa portuguesa, que começava na Praça Forte da vila de Peniche e estendia até ao Forte de São Francisco de Xabregas, na cidade de Lisboa” (Cipriano, 2001.143). Embora classificado como imóvel de interesse público pelo Decreto nº 41191, de 18 de Julho de 1955, encontra-se há muito em estado de ruína. Apraz-me saber que a Cãmara Municipal da Lourinhã tem um projecto para a sua recuperação.
2) O concelho da Lourinhã também tem a sua quota-parte na história trágico-marítima deste país. Cipriano (2001.261-262) refere a ocorrência, de 1968 a 2000, de seis naufrágios de barcos de pesca onde morreram três dezenas de filhos da terra, com especial destaque para as gentes de Ribamar (fora outros acidentes de trabalho mortais, cujo número se desconhece). Um desses naufrágios foi o do barco Deus é Pai, em 26 de Março de 1971, no Mar do Serro, ao largo do Cabo Carvoeiro. Os restantes foram os do Certa (15 de Maio de 1968), Altar de Deus (6 de Novembro de 1982), Arca de Deus (17 de Fevereiro de 1993), Amor de Filhos (25 de Julho de 1994) e Orca II (antigo Porto Dinheiro) (19 de Julho de 2000). Entre estes homens há parentes meus, da grande família Maçarico.
3) Em 1993, foi descoberto na zona de Paimogo aquilo que viria a ser considerado o maior ninho de ovos de dinossauro do mundo. Segundo o jovem paleontólogo e doutorando Octávio Mateus, a jazida de Paimogo tem cerca de 120 ovos. “Existem ovos ou cascas de ovos mais antigos, mas o ninho de Paimogo é a mais antiga estrutura de nidificação. É o único com embriões na Europa e possui os mais antigos ossos com embriões do mundo (150 milhões de anos)”. Além disso, misturados com os ovos de dinossauro, “descobriram-se três ovos de crocodilo, os mais antigos do mundo". Essa ocorrência, conclui o jovem cientista lourinhanense, "permite-nos pensar numa relação de comensalismo entre dinossauros e crocodilos durante o Jurássico”.
4) A presença humana em Paimogo está documentada por vestígios arqueológicos, remontando pelo menos ao Calcolítico. A região da Lourinhã também foi habitada por povos como os iberos, os fenícios, os gregos, os túrdulos e os cartagineses. A passagem mais marcante foi, todavia, a dos romanos e, depois, a dos mouros. Na reconquista destas terras, D. Afonso Henriques foi ajudado por cavaleiros francos (isto é, oriundos da antiga Gália), entre eles D. Jordão, que irá ser o primeiro donatário da Lourinhã (Cipriano, 2001. 17-25).
Referência bibliográfica:
Cipriano, Rui Marques (2001) – Vamos falar da Lourinhã. Lourinhã: Câmara Municipal da Lourinhã.
Outras fontes:
Lusodino > Página pessoal de Octávio Mateus
GEAL - Museu da Lourinhã
Não preciso de ser geólogo
Para te amar,
Ó Praia de Paimogo
Da minha infância.
Nem de ser paleontólogo
Para desenhar na areia
As peugadas da tua errância
De dinossauro do Jurássico Superior.
Nem muito menos biólogo ou sociólogo
Para te conhecer aí onde
Se alimenta o recolector-caçador
E o polvo, o povo, se esconde
Nas marés vivas de lua cheia.
Fugi de terramotos e tempestades,
Procurei abrigo na tua enseada,
Domei as ondas e o vento,
Desfiz mitos, adorei divindades,
Esculpi a esfinge alada
Que guarda a porta do teu templo.
Andei na pesca ao candeio,
Fui pescador de lagosta,
Camponês, jornaleiro, camarada,
Andarilho de costa a costa,
Negociante de peixe, almocreve,
Apanhador de algas, caçador submarino,
Amigo do fado e da boémia,
Poeta, pirata e frade,
Mulher e fêmea,
Viúva de vivo e de morto,
Zé-Ninguém, cidadão clandestino.
Vim da Bretanha em barcos a vapor,
Fui avieiro nos meses longos de verão,
Fenício, cartaginês, romano e moçárabe,
Português do mundo em cada porto.
Armei navios, enriqueci, trafiquei,
De escravos fui senhor
E dono de engenhos nos brasis.
Embarcadiço e capitão do norte,
Aventureiro e explorador colonial,
Bandeirante, garimpeiro,
Prostituta e proxeneta,
E até de príncipes fui conselheiro.
Carreguei vinho nos barris
Da nossa Nau Catrineta,
Para a corte russa, imperial;
Naufraguei em ilhas longínquas, polinésias,
Adubei as minhas terras
Com o limo do mar dos sargaços,
Fiz o meu ninho de ave de rapina
No alto das tuas falésias,
Fui presa e predador,
Dos contrabandistas segui os passos,
Lavrei o mar, semeei a morte,
Sobrevivi a mil e uma guerras,
E os meus mortos enterrei
Nas tuas areias.
Vigiei o mar, o céu e a terra
Do alto setecentista do teu forte:
Tive visões, vi monstros e sereias,
Fugi das garras dos terópodes,
Escapei dos mandíbulas dos crocodilos,
Lutei contra muitas outras feras,
Fiz a paz e a guerra,
Da vida conheci todo os estilos,
Fui condenado às galeras
E quase devorado por gastrópodes,
Peguei de caras o minotauro,
Estive cativo do mouro
Nas longínquas mauritânias,
Choquei os teus ovos de dinossauro,
Construí castros, citânias,
Andei à deriva dos continentes,
Sobrevivi à fome e à peste,
Andei a monte, fugi a salto,
Lutei pela liberdade,
Pela lei e pela grei gritei bem alto,
De norte a sul, de leste a oeste,
E a pátria te defendi,
Contra todos os invasores.
A verdade, a verdade,
É que cobiçada por muitas gentes,
Desejada por muitos senhores,
Nunca nenhuma armada invencível te venceu,
Ó Praia de Paimogo da minha infância.
Se te perdeste,
Se alguma vez te perdeste,
Foi só por amores.
Quando eu era criança,
Quando eu tive a sorte de ser criança
Como diria o Fernando Pessoa,
As sardinhas voltavam sempre
Em frágeis cardumes de prata e luar
À praia onde haviam desovado.
Quando eu era menino e moço,
No tempo em que ainda partiam soldados
Para a Índia, para Goa,
Havia uma princesa, moura, encantada,
Num das tuas grutas submarinas;
O corpo coberto de ágar-ágar,
Era fonte de água pura, quente e doce,
Donde bebiam os ofegantes cavalos alados,
Com as suas enormes narinas.
E o vento, a nortada,
Nas velas dos barcos e dos moinhos,
Falavam-me da tragédia antiga,
Mas ainda viva,
Da filha do teu capitão
Que se havia matado do alto da arriba,
Dizem que por amor e solidão.
No antigo reino mouro
E depois franco e fero da Lourinhã,
Também os búzios me diziam
Que à noite as luzinhas,
A sul das Ilhas Berlengas,
Eram as alminhas
Dos que morriam
No mar, sem sepultura cristã.
Pobres náufragos,
Marinheiros, pescadores,
Poetas loucos, errantes, noctívagos,
Imigrantes clandestinos,
Corsários, contrabandistas, pecadores,
À deriva, sem um ui nem um ai,
Agarrados às tábuas do barco Deus é Pai.
Hoje não acredito mais
Nessas lendas das alminhas
Que eu ouvia aos ceguinhos das feiras,
Vendedores de letras de fado
E do Borda-d’Água:
Afinal essas luzinhas,
Lá longe e ali tão perto,
São apenas as traineiras
Ao largo do Mar do Serro,
Atrás dos cardumes de sardinhas.
Forte de Paimogo, visto do lado nascente.
Fotografia gentilmente cedida por © António Pena Luís (2004)
Notas explicativas:
1) O Forte de Paimogo, construído em 1674, construído durante a regência do príncipe D. Pedro, futuro rei D. Pedro II, “fazia parte de uma linha defensiva da costa portuguesa, que começava na Praça Forte da vila de Peniche e estendia até ao Forte de São Francisco de Xabregas, na cidade de Lisboa” (Cipriano, 2001.143). Embora classificado como imóvel de interesse público pelo Decreto nº 41191, de 18 de Julho de 1955, encontra-se há muito em estado de ruína. Apraz-me saber que a Cãmara Municipal da Lourinhã tem um projecto para a sua recuperação.
2) O concelho da Lourinhã também tem a sua quota-parte na história trágico-marítima deste país. Cipriano (2001.261-262) refere a ocorrência, de 1968 a 2000, de seis naufrágios de barcos de pesca onde morreram três dezenas de filhos da terra, com especial destaque para as gentes de Ribamar (fora outros acidentes de trabalho mortais, cujo número se desconhece). Um desses naufrágios foi o do barco Deus é Pai, em 26 de Março de 1971, no Mar do Serro, ao largo do Cabo Carvoeiro. Os restantes foram os do Certa (15 de Maio de 1968), Altar de Deus (6 de Novembro de 1982), Arca de Deus (17 de Fevereiro de 1993), Amor de Filhos (25 de Julho de 1994) e Orca II (antigo Porto Dinheiro) (19 de Julho de 2000). Entre estes homens há parentes meus, da grande família Maçarico.
3) Em 1993, foi descoberto na zona de Paimogo aquilo que viria a ser considerado o maior ninho de ovos de dinossauro do mundo. Segundo o jovem paleontólogo e doutorando Octávio Mateus, a jazida de Paimogo tem cerca de 120 ovos. “Existem ovos ou cascas de ovos mais antigos, mas o ninho de Paimogo é a mais antiga estrutura de nidificação. É o único com embriões na Europa e possui os mais antigos ossos com embriões do mundo (150 milhões de anos)”. Além disso, misturados com os ovos de dinossauro, “descobriram-se três ovos de crocodilo, os mais antigos do mundo". Essa ocorrência, conclui o jovem cientista lourinhanense, "permite-nos pensar numa relação de comensalismo entre dinossauros e crocodilos durante o Jurássico”.
4) A presença humana em Paimogo está documentada por vestígios arqueológicos, remontando pelo menos ao Calcolítico. A região da Lourinhã também foi habitada por povos como os iberos, os fenícios, os gregos, os túrdulos e os cartagineses. A passagem mais marcante foi, todavia, a dos romanos e, depois, a dos mouros. Na reconquista destas terras, D. Afonso Henriques foi ajudado por cavaleiros francos (isto é, oriundos da antiga Gália), entre eles D. Jordão, que irá ser o primeiro donatário da Lourinhã (Cipriano, 2001. 17-25).
Referência bibliográfica:
Cipriano, Rui Marques (2001) – Vamos falar da Lourinhã. Lourinhã: Câmara Municipal da Lourinhã.
Outras fontes:
Lusodino > Página pessoal de Octávio Mateus
GEAL - Museu da Lourinhã
Blogantologia(s) – XVII: Paimogo da minha infância III
Nova versão em relação à de 20.06.04. O blogador, em férias, pode ser visto a fazer o seu jogging matinal, na baixa-mar, entre a Praia da Areia Branca e a Praia do Paimogo. Que, diga-se baixinho, é um dos mais belos recantos do litoral português. Oxalá os deuses e sobretudo os homens não sejam dominados pela súbita febre do cimento armado que tem destruído outros recantos belíssimos, selvagens, da nossa costa. Vejo, no entanto, com preocupação as pontas dos guindastes a avançarem da Praia da Areia Branca para norte...
Não preciso de ser geólogo
Para te amar,
Ó Praia de Paimogo
Da minha infância.
Nem de ser paleontólogo
Para desenhar na areia
As peugadas da tua errância
De dinossauro do Jurássico Superior.
Nem muito menos biólogo ou sociólogo
Para te conhecer aí onde
Se alimenta o recolector-caçador
E o polvo, o povo, se esconde
Nas marés vivas de lua cheia.
Fugi de terramotos e tempestades,
Procurei abrigo na tua enseada,
Domei as ondas e o vento,
Desfiz mitos, adorei divindades,
Esculpi a esfinge alada
Que guarda a porta do teu templo.
Andei na pesca ao candeio,
Fui pescador de lagosta,
Camponês, jornaleiro, camarada,
Andarilho de costa a costa,
Negociante de peixe, almocreve,
Apanhador de algas, caçador submarino,
Amigo do fado e da boémia,
Poeta, pirata e frade,
Mulher e fêmea,
Viúva de vivo e de morto,
Zé-Ninguém, cidadão clandestino.
Vim da Bretanha em barcos a vapor,
Fui avieiro nos meses longos de verão,
Fenício, cartaginês, romano e moçárabe,
Português do mundo em cada porto.
Armei navios, enriqueci, trafiquei,
De escravos fui senhor
E dono de engenhos nos brasis.
Embarcadiço e capitão do norte,
Aventureiro e explorador colonial,
Bandeirante, garimpeiro,
Prostituta e proxeneta,
E até de príncipes fui conselheiro.
Carreguei vinho nos barris
Da nossa Nau Catrineta,
Para a corte russa, imperial;
Naufraguei em ilhas longínquas, polinésias,
Adubei as minhas terras
Com o limo do mar dos sargaços,
Fiz o meu ninho de ave de rapina
No alto das tuas falésias,
Fui presa e predador,
Dos contrabandistas segui os passos,
Lavrei o mar, semeei a morte,
Sobrevivi a mil e uma guerras,
E os meus mortos enterrei
Nas tuas areias.
Vigiei o mar, o céu e a terra
Do alto setecentista do teu forte:
Tive visões, vi monstros e sereias,
Fugi das garras dos terópodes,
Escapei dos mandíbulas dos crocodilos,
Lutei contra muitas outras feras,
Fiz a paz e a guerra,
Da vida conheci todo os estilos,
Fui condenado às galeras
E quase devorado por gastrópodes,
Peguei de caras o minotauro,
Estive cativo do mouro
Nas longínquas mauritânias,
Choquei os teus ovos de dinossauro,
Construí castros, citânias,
Andei à deriva dos continentes,
Sobrevivi à fome e à peste,
Andei a monte, fugi a salto,
Lutei pela liberdade,
Pela lei e pela grei gritei bem alto,
De norte a sul, de leste a oeste,
E a pátria te defendi,
Contra todos os invasores.
A verdade, a verdade,
É que cobiçada por muitas gentes,
Desejada por muitos senhores,
Nunca nenhuma armada invencível te venceu,
Ó Praia de Paimogo da minha infância.
Se te perdeste,
Se alguma vez te perdeste,
Foi só por amores.
Quando eu era criança,
Quando eu tive a sorte de ser criança
Como diria o Fernando Pessoa,
As sardinhas voltavam sempre
Em frágeis cardumes de prata e luar
À praia onde haviam desovado.
Quando eu era menino e moço,
No tempo em que ainda partiam soldados
Para a Índia, para Goa,
Havia uma princesa, moura, encantada,
Num das tuas grutas submarinas;
O corpo coberto de ágar-ágar,
Era fonte de água pura, quente e doce,
Donde bebiam os ofegantes cavalos alados,
Com as suas enormes narinas.
E o vento, a nortada,
Nas velas dos barcos e dos moinhos,
Falavam-me da tragédia antiga,
Mas ainda viva,
Da filha do teu capitão
Que se havia matado do alto da arriba,
Dizem que por amor e solidão.
No antigo reino mouro
E depois franco e fero da Lourinhã,
Também os búzios me diziam
Que à noite as luzinhas,
A sul das Ilhas Berlengas,
Eram as alminhas
Dos que morriam
No mar, sem sepultura cristã.
Pobres náufragos,
Marinheiros, pescadores,
Poetas loucos, errantes, noctívagos,
Imigrantes clandestinos,
Corsários, contrabandistas, pecadores,
À deriva, sem um ui nem um ai,
Agarrados às tábuas do barco Deus é Pai.
Hoje não acredito mais
Nessas lendas das alminhas
Que eu ouvia aos ceguinhos das feiras,
Vendedores de letras de fado
E do Borda-d’Água:
Afinal essas luzinhas,
Lá longe e ali tão perto,
São apenas as traineiras
Ao largo do Mar do Serro,
Atrás dos cardumes de sardinhas.
Forte de Paimogo, visto do lado nascente.
Fotografia gentilmente cedida por © António Pena Luís (2004)
Notas explicativas:
1) O Forte de Paimogo, construído em 1674, construído durante a regência do príncipe D. Pedro, futuro rei D. Pedro II, “fazia parte de uma linha defensiva da costa portuguesa, que começava na Praça Forte da vila de Peniche e estendia até ao Forte de São Francisco de Xabregas, na cidade de Lisboa” (Cipriano, 2001.143). Embora classificado como imóvel de interesse público pelo Decreto nº 41191, de 18 de Julho de 1955, encontra-se há muito em estado de ruína. Apraz-me saber que a Cãmara Municipal da Lourinhã tem um projecto para a sua recuperação.
2) O concelho da Lourinhã também tem a sua quota-parte na história trágico-marítima deste país. Cipriano (2001.261-262) refere a ocorrência, de 1968 a 2000, de seis naufrágios de barcos de pesca onde morreram três dezenas de filhos da terra, com especial destaque para as gentes de Ribamar (fora outros acidentes de trabalho mortais, cujo número se desconhece). Um desses naufrágios foi o do barco Deus é Pai, em 26 de Março de 1971, no Mar do Serro, ao largo do Cabo Carvoeiro. Os restantes foram os do Certa (15 de Maio de 1968), Altar de Deus (6 de Novembro de 1982), Arca de Deus (17 de Fevereiro de 1993), Amor de Filhos (25 de Julho de 1994) e Orca II (antigo Porto Dinheiro) (19 de Julho de 2000). Entre estes homens há parentes meus, da grande família Maçarico.
3) Em 1993, foi descoberto na zona de Paimogo aquilo que viria a ser considerado o maior ninho de ovos de dinossauro do mundo. Segundo o jovem paleontólogo e doutorando Octávio Mateus, a jazida de Paimogo tem cerca de 120 ovos. “Existem ovos ou cascas de ovos mais antigos, mas o ninho de Paimogo é a mais antiga estrutura de nidificação. É o único com embriões na Europa e possui os mais antigos ossos com embriões do mundo (150 milhões de anos)”. Além disso, misturados com os ovos de dinossauro, “descobriram-se três ovos de crocodilo, os mais antigos do mundo". Essa ocorrência, conclui o jovem cientista lourinhanense, "permite-nos pensar numa relação de comensalismo entre dinossauros e crocodilos durante o Jurássico”.
4) A presença humana em Paimogo está documentada por vestígios arqueológicos, remontando pelo menos ao Calcolítico. A região da Lourinhã também foi habitada por povos como os iberos, os fenícios, os gregos, os túrdulos e os cartagineses. A passagem mais marcante foi, todavia, a dos romanos e, depois, a dos mouros. Na reconquista destas terras, D. Afonso Henriques foi ajudado por cavaleiros francos (isto é, oriundos da antiga Gália), entre eles D. Jordão, que irá ser o primeiro donatário da Lourinhã (Cipriano, 2001. 17-25).
Referência bibliográfica:
Cipriano, Rui Marques (2001) – Vamos falar da Lourinhã. Lourinhã: Câmara Municipal da Lourinhã.
Outras fontes:
Lusodino > Página pessoal de Octávio Mateus
GEAL - Museu da Lourinhã
Não preciso de ser geólogo
Para te amar,
Ó Praia de Paimogo
Da minha infância.
Nem de ser paleontólogo
Para desenhar na areia
As peugadas da tua errância
De dinossauro do Jurássico Superior.
Nem muito menos biólogo ou sociólogo
Para te conhecer aí onde
Se alimenta o recolector-caçador
E o polvo, o povo, se esconde
Nas marés vivas de lua cheia.
Fugi de terramotos e tempestades,
Procurei abrigo na tua enseada,
Domei as ondas e o vento,
Desfiz mitos, adorei divindades,
Esculpi a esfinge alada
Que guarda a porta do teu templo.
Andei na pesca ao candeio,
Fui pescador de lagosta,
Camponês, jornaleiro, camarada,
Andarilho de costa a costa,
Negociante de peixe, almocreve,
Apanhador de algas, caçador submarino,
Amigo do fado e da boémia,
Poeta, pirata e frade,
Mulher e fêmea,
Viúva de vivo e de morto,
Zé-Ninguém, cidadão clandestino.
Vim da Bretanha em barcos a vapor,
Fui avieiro nos meses longos de verão,
Fenício, cartaginês, romano e moçárabe,
Português do mundo em cada porto.
Armei navios, enriqueci, trafiquei,
De escravos fui senhor
E dono de engenhos nos brasis.
Embarcadiço e capitão do norte,
Aventureiro e explorador colonial,
Bandeirante, garimpeiro,
Prostituta e proxeneta,
E até de príncipes fui conselheiro.
Carreguei vinho nos barris
Da nossa Nau Catrineta,
Para a corte russa, imperial;
Naufraguei em ilhas longínquas, polinésias,
Adubei as minhas terras
Com o limo do mar dos sargaços,
Fiz o meu ninho de ave de rapina
No alto das tuas falésias,
Fui presa e predador,
Dos contrabandistas segui os passos,
Lavrei o mar, semeei a morte,
Sobrevivi a mil e uma guerras,
E os meus mortos enterrei
Nas tuas areias.
Vigiei o mar, o céu e a terra
Do alto setecentista do teu forte:
Tive visões, vi monstros e sereias,
Fugi das garras dos terópodes,
Escapei dos mandíbulas dos crocodilos,
Lutei contra muitas outras feras,
Fiz a paz e a guerra,
Da vida conheci todo os estilos,
Fui condenado às galeras
E quase devorado por gastrópodes,
Peguei de caras o minotauro,
Estive cativo do mouro
Nas longínquas mauritânias,
Choquei os teus ovos de dinossauro,
Construí castros, citânias,
Andei à deriva dos continentes,
Sobrevivi à fome e à peste,
Andei a monte, fugi a salto,
Lutei pela liberdade,
Pela lei e pela grei gritei bem alto,
De norte a sul, de leste a oeste,
E a pátria te defendi,
Contra todos os invasores.
A verdade, a verdade,
É que cobiçada por muitas gentes,
Desejada por muitos senhores,
Nunca nenhuma armada invencível te venceu,
Ó Praia de Paimogo da minha infância.
Se te perdeste,
Se alguma vez te perdeste,
Foi só por amores.
Quando eu era criança,
Quando eu tive a sorte de ser criança
Como diria o Fernando Pessoa,
As sardinhas voltavam sempre
Em frágeis cardumes de prata e luar
À praia onde haviam desovado.
Quando eu era menino e moço,
No tempo em que ainda partiam soldados
Para a Índia, para Goa,
Havia uma princesa, moura, encantada,
Num das tuas grutas submarinas;
O corpo coberto de ágar-ágar,
Era fonte de água pura, quente e doce,
Donde bebiam os ofegantes cavalos alados,
Com as suas enormes narinas.
E o vento, a nortada,
Nas velas dos barcos e dos moinhos,
Falavam-me da tragédia antiga,
Mas ainda viva,
Da filha do teu capitão
Que se havia matado do alto da arriba,
Dizem que por amor e solidão.
No antigo reino mouro
E depois franco e fero da Lourinhã,
Também os búzios me diziam
Que à noite as luzinhas,
A sul das Ilhas Berlengas,
Eram as alminhas
Dos que morriam
No mar, sem sepultura cristã.
Pobres náufragos,
Marinheiros, pescadores,
Poetas loucos, errantes, noctívagos,
Imigrantes clandestinos,
Corsários, contrabandistas, pecadores,
À deriva, sem um ui nem um ai,
Agarrados às tábuas do barco Deus é Pai.
Hoje não acredito mais
Nessas lendas das alminhas
Que eu ouvia aos ceguinhos das feiras,
Vendedores de letras de fado
E do Borda-d’Água:
Afinal essas luzinhas,
Lá longe e ali tão perto,
São apenas as traineiras
Ao largo do Mar do Serro,
Atrás dos cardumes de sardinhas.
Forte de Paimogo, visto do lado nascente.
Fotografia gentilmente cedida por © António Pena Luís (2004)
Notas explicativas:
1) O Forte de Paimogo, construído em 1674, construído durante a regência do príncipe D. Pedro, futuro rei D. Pedro II, “fazia parte de uma linha defensiva da costa portuguesa, que começava na Praça Forte da vila de Peniche e estendia até ao Forte de São Francisco de Xabregas, na cidade de Lisboa” (Cipriano, 2001.143). Embora classificado como imóvel de interesse público pelo Decreto nº 41191, de 18 de Julho de 1955, encontra-se há muito em estado de ruína. Apraz-me saber que a Cãmara Municipal da Lourinhã tem um projecto para a sua recuperação.
2) O concelho da Lourinhã também tem a sua quota-parte na história trágico-marítima deste país. Cipriano (2001.261-262) refere a ocorrência, de 1968 a 2000, de seis naufrágios de barcos de pesca onde morreram três dezenas de filhos da terra, com especial destaque para as gentes de Ribamar (fora outros acidentes de trabalho mortais, cujo número se desconhece). Um desses naufrágios foi o do barco Deus é Pai, em 26 de Março de 1971, no Mar do Serro, ao largo do Cabo Carvoeiro. Os restantes foram os do Certa (15 de Maio de 1968), Altar de Deus (6 de Novembro de 1982), Arca de Deus (17 de Fevereiro de 1993), Amor de Filhos (25 de Julho de 1994) e Orca II (antigo Porto Dinheiro) (19 de Julho de 2000). Entre estes homens há parentes meus, da grande família Maçarico.
3) Em 1993, foi descoberto na zona de Paimogo aquilo que viria a ser considerado o maior ninho de ovos de dinossauro do mundo. Segundo o jovem paleontólogo e doutorando Octávio Mateus, a jazida de Paimogo tem cerca de 120 ovos. “Existem ovos ou cascas de ovos mais antigos, mas o ninho de Paimogo é a mais antiga estrutura de nidificação. É o único com embriões na Europa e possui os mais antigos ossos com embriões do mundo (150 milhões de anos)”. Além disso, misturados com os ovos de dinossauro, “descobriram-se três ovos de crocodilo, os mais antigos do mundo". Essa ocorrência, conclui o jovem cientista lourinhanense, "permite-nos pensar numa relação de comensalismo entre dinossauros e crocodilos durante o Jurássico”.
4) A presença humana em Paimogo está documentada por vestígios arqueológicos, remontando pelo menos ao Calcolítico. A região da Lourinhã também foi habitada por povos como os iberos, os fenícios, os gregos, os túrdulos e os cartagineses. A passagem mais marcante foi, todavia, a dos romanos e, depois, a dos mouros. Na reconquista destas terras, D. Afonso Henriques foi ajudado por cavaleiros francos (isto é, oriundos da antiga Gália), entre eles D. Jordão, que irá ser o primeiro donatário da Lourinhã (Cipriano, 2001. 17-25).
Referência bibliográfica:
Cipriano, Rui Marques (2001) – Vamos falar da Lourinhã. Lourinhã: Câmara Municipal da Lourinhã.
Outras fontes:
Lusodino > Página pessoal de Octávio Mateus
GEAL - Museu da Lourinhã
23 julho 2004
Portugas que merecem as nossas palmas - XI: Sophia de Mello Breyner Andresen ( 1919-2004) e Carlos Paredes (1925-2004)
Pura beleza, a poesia da Sophia, pura emoção, a música do Carlos!
Seguramente dois dos melhores portugas da geração dos meus pais, dois dos melhores dos nossos melhores em todas as gerações.
Dois portugas que marcaram a minha adolescência e a minha juventude: eu nunca seria o mesmo (nós nunca seríamos os mesmos ...) se em 1962 não tivessem ocorrido dois momentos mágicos: (i) o Livro Sexto, da Sophia; e (ii) os Verdes Anos (o filme de Paulo Rocha, com banda sonora do Carlos Paredes).
Ah!, este país que ainda consegue emocionar-me, mexer comigo e até ser motivo de orgulho!
"Quando eu morrer voltarei para buscar / os instantes que não vivi junto ao mar." (Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, 1962).
Obrigado, amiga! Obrigado, amigo!
Seguramente dois dos melhores portugas da geração dos meus pais, dois dos melhores dos nossos melhores em todas as gerações.
Dois portugas que marcaram a minha adolescência e a minha juventude: eu nunca seria o mesmo (nós nunca seríamos os mesmos ...) se em 1962 não tivessem ocorrido dois momentos mágicos: (i) o Livro Sexto, da Sophia; e (ii) os Verdes Anos (o filme de Paulo Rocha, com banda sonora do Carlos Paredes).
Ah!, este país que ainda consegue emocionar-me, mexer comigo e até ser motivo de orgulho!
"Quando eu morrer voltarei para buscar / os instantes que não vivi junto ao mar." (Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, 1962).
Obrigado, amiga! Obrigado, amigo!
Portugas que merecem as nossas palmas - XI: Sophia de Mello Breyner Andresen ( 1919-2004) e Carlos Paredes (1925-2004)
Pura beleza, a poesia da Sophia, pura emoção, a música do Carlos!
Seguramente dois dos melhores portugas da geração dos meus pais, dois dos melhores dos nossos melhores em todas as gerações.
Dois portugas que marcaram a minha adolescência e a minha juventude: eu nunca seria o mesmo (nós nunca seríamos os mesmos ...) se em 1962 não tivessem ocorrido dois momentos mágicos: (i) o Livro Sexto, da Sophia; e (ii) os Verdes Anos (o filme de Paulo Rocha, com banda sonora do Carlos Paredes).
Ah!, este país que ainda consegue emocionar-me, mexer comigo e até ser motivo de orgulho!
"Quando eu morrer voltarei para buscar / os instantes que não vivi junto ao mar." (Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, 1962).
Obrigado, amiga! Obrigado, amigo!
Seguramente dois dos melhores portugas da geração dos meus pais, dois dos melhores dos nossos melhores em todas as gerações.
Dois portugas que marcaram a minha adolescência e a minha juventude: eu nunca seria o mesmo (nós nunca seríamos os mesmos ...) se em 1962 não tivessem ocorrido dois momentos mágicos: (i) o Livro Sexto, da Sophia; e (ii) os Verdes Anos (o filme de Paulo Rocha, com banda sonora do Carlos Paredes).
Ah!, este país que ainda consegue emocionar-me, mexer comigo e até ser motivo de orgulho!
"Quando eu morrer voltarei para buscar / os instantes que não vivi junto ao mar." (Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, 1962).
Obrigado, amiga! Obrigado, amigo!
22 julho 2004
Humor com humor se paga - XVI: A (e)terna sabedoria popular
1. A revolução é a festa dos deprimidos (… e o futebol, a dos comprimidos).
2. À noite todas as pardas são gatas (… e todas as loiras são inteligentes mas daltónicas).
3. Adoro as rosas, mas prefiro as trepadeiras (…dão mais jeito, são mais práticas, dão mais pica).
4. Amor livre, sexo pago (… não se pode ter tudo).
5. As mulheres perdidas são as mais procuradas (… na secção de Perdidos & Achados da esquadra de polícia mais próxima).
6. Até encontrares o homem certo, diverte-te com os errados (... para sermos socialmente correctos: Até encontrares a mulher certa, diverte-te com as erradas).
7. Cuidado com as mulheres fáceis: será difícil livrares-te delas! (... mas também não sei o que as mulheres pensam dos homens fáceis).
8. Conselho (para)suicidário: existe, insiste! (... ah!, o duro ofício de viver).
9. Dizem que o diabo não é tão feio como o pintam (... o que é decepcionante: já não posso diabolizar a outra metade do mundo que eu detesto).
10. Entra merda, sai merda (… ou será melhor dar o benefício da dúvida ?).
11. Errar é tão humano quanto divino (... acho que assim é teologicamente mais correcto).
12. Mais vale chegar atrasado neste mundo do que adiantado no outro (... é o que eu costumo dizer ao meu chefe para justificar os meus já crónicos problemas de pontualidade).
13. Mulher que sabe latim, não tem marido nem bom fim! (… é uma hipótese de investigação para a socio(b)logia dos gender-relatade studies).
14. Melancia grande e gaja boa, ninguém come sozinho (... viva a socialização do prazer!) .
15. Médico novo e puta velha, todos gostam de experimentar (... o que é confirmadoi pelo ICEP quando diz que Portugal é particularmente sensível à modernidade, por um lado, e à tradição, por outro).
16. Na vida tudo é passageiro, menos o motorista e o cobrador (... não sei qual será o estatuto dos gajos que andam à boleia no país do Zé) .
17. Não roubarás, diz um dos Dez Mandamentos da lei de Deus (… além disso, o Estado detesta concorrência).
18. No teatro do poder, todos somos diplomados: uns em artes cénicas e outros em artes cínicas (... não me venhas dizer, companheiro, que o poder não te interessa de todo).
19. O beijo pode não matar a fome, mas abre o apetite (... foi você quem pediu um beijo ?).
20. O dinheiro pode não trazer a felicidade, mas ajuda-te a gerir a depressão (… em sítios in como a Quinta do Lago que eu só conheço como excursionista).
21. O dinheiro não compra a saúde (... mas eu prefiro ser rico com saúde do que pobre com doença).
22. O Homem é um erro de 'casting' de Deus (… o contrário não é verdadeiro e, se o fosse, seria blasfémia!) .
23. O hóspede e o peixe aos três dias fedem (…é melhor pô-los no frigorífico!).
24. O meu Banco ? O Alimentar Contra a Fome (... que a fome dos outros, em Portugal ou em Angola, é apenas um fait-divers).
25. Os negócios do Zé (… afinal, quem os não tem?) .
26. Pensamento (não-oficial, mas oficioso) do dia: Percebe-se melhor o nível de desenvolvimento e a qualidade de vida de um país quando até o Primeiro-Ministro é um emigrante (de luxo).
27. Portugal: 0; Europa: 1 (… "Perdi um mau primeiro-ministro portuga; espero ganhar um bom presidente europeu", disse um dos indefectíveis apoiantes da selecção nacional de futebol que ainda não despiram a camisola, não penduraram o cachecol nem retiraram da janela a bandeira das quinas, na ressaca do Euro2004-de-todas-as-emoções-excepto-a-da-vitória-final).
28. Quando pobre come frango, um dos dois está doente (... ou fora do prazo de validade).
29. Se a merda valesse ouro, os pobres nasciam sem cu (... esta é miserabilista!).
30. Se a morte é um descanso, então eu prefiro viver cansado (... o que não me resolve o problema, a avaliar pelo provérbio 'Muita saúde, pouco vida, porque Deus não dá tudo').
31. Se Deus escreve direito por linhas tortas, a culpa só pode ser da caneta, do papel ou do professor.
32. Se te queres matar, porque não te queres matar? (… Se o Álvaro de Campos estivesse aqui acrescentaria: Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida, se ousasse matar-me, também me mataria...).
33. Sous le pavé, la plage! ("Debaixo da calçada, a praia!") (1968) (...os estudantes hoje não têm mais imaginação: vão directamente à agência de viagens da respectiva associação, em vez de levantarem as pedras da calçada).
34. Terra virgem (…que a minhoca é mole).
35. Uns têm veia poética, outros têm varizes (… é um problema de equidade em saúde).
36. Velho dá bom conselho (… já que não consegue dar mau exemplo).
37. Zé: A família tem orgulho em ti. Boa sorte! Desculpa lá qualquer coisinha...
2. À noite todas as pardas são gatas (… e todas as loiras são inteligentes mas daltónicas).
3. Adoro as rosas, mas prefiro as trepadeiras (…dão mais jeito, são mais práticas, dão mais pica).
4. Amor livre, sexo pago (… não se pode ter tudo).
5. As mulheres perdidas são as mais procuradas (… na secção de Perdidos & Achados da esquadra de polícia mais próxima).
6. Até encontrares o homem certo, diverte-te com os errados (... para sermos socialmente correctos: Até encontrares a mulher certa, diverte-te com as erradas).
7. Cuidado com as mulheres fáceis: será difícil livrares-te delas! (... mas também não sei o que as mulheres pensam dos homens fáceis).
8. Conselho (para)suicidário: existe, insiste! (... ah!, o duro ofício de viver).
9. Dizem que o diabo não é tão feio como o pintam (... o que é decepcionante: já não posso diabolizar a outra metade do mundo que eu detesto).
10. Entra merda, sai merda (… ou será melhor dar o benefício da dúvida ?).
11. Errar é tão humano quanto divino (... acho que assim é teologicamente mais correcto).
12. Mais vale chegar atrasado neste mundo do que adiantado no outro (... é o que eu costumo dizer ao meu chefe para justificar os meus já crónicos problemas de pontualidade).
13. Mulher que sabe latim, não tem marido nem bom fim! (… é uma hipótese de investigação para a socio(b)logia dos gender-relatade studies).
14. Melancia grande e gaja boa, ninguém come sozinho (... viva a socialização do prazer!) .
15. Médico novo e puta velha, todos gostam de experimentar (... o que é confirmadoi pelo ICEP quando diz que Portugal é particularmente sensível à modernidade, por um lado, e à tradição, por outro).
16. Na vida tudo é passageiro, menos o motorista e o cobrador (... não sei qual será o estatuto dos gajos que andam à boleia no país do Zé) .
17. Não roubarás, diz um dos Dez Mandamentos da lei de Deus (… além disso, o Estado detesta concorrência).
18. No teatro do poder, todos somos diplomados: uns em artes cénicas e outros em artes cínicas (... não me venhas dizer, companheiro, que o poder não te interessa de todo).
19. O beijo pode não matar a fome, mas abre o apetite (... foi você quem pediu um beijo ?).
20. O dinheiro pode não trazer a felicidade, mas ajuda-te a gerir a depressão (… em sítios in como a Quinta do Lago que eu só conheço como excursionista).
21. O dinheiro não compra a saúde (... mas eu prefiro ser rico com saúde do que pobre com doença).
22. O Homem é um erro de 'casting' de Deus (… o contrário não é verdadeiro e, se o fosse, seria blasfémia!) .
23. O hóspede e o peixe aos três dias fedem (…é melhor pô-los no frigorífico!).
24. O meu Banco ? O Alimentar Contra a Fome (... que a fome dos outros, em Portugal ou em Angola, é apenas um fait-divers).
25. Os negócios do Zé (… afinal, quem os não tem?) .
26. Pensamento (não-oficial, mas oficioso) do dia: Percebe-se melhor o nível de desenvolvimento e a qualidade de vida de um país quando até o Primeiro-Ministro é um emigrante (de luxo).
27. Portugal: 0; Europa: 1 (… "Perdi um mau primeiro-ministro portuga; espero ganhar um bom presidente europeu", disse um dos indefectíveis apoiantes da selecção nacional de futebol que ainda não despiram a camisola, não penduraram o cachecol nem retiraram da janela a bandeira das quinas, na ressaca do Euro2004-de-todas-as-emoções-excepto-a-da-vitória-final).
28. Quando pobre come frango, um dos dois está doente (... ou fora do prazo de validade).
29. Se a merda valesse ouro, os pobres nasciam sem cu (... esta é miserabilista!).
30. Se a morte é um descanso, então eu prefiro viver cansado (... o que não me resolve o problema, a avaliar pelo provérbio 'Muita saúde, pouco vida, porque Deus não dá tudo').
31. Se Deus escreve direito por linhas tortas, a culpa só pode ser da caneta, do papel ou do professor.
32. Se te queres matar, porque não te queres matar? (… Se o Álvaro de Campos estivesse aqui acrescentaria: Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida, se ousasse matar-me, também me mataria...).
33. Sous le pavé, la plage! ("Debaixo da calçada, a praia!") (1968) (...os estudantes hoje não têm mais imaginação: vão directamente à agência de viagens da respectiva associação, em vez de levantarem as pedras da calçada).
34. Terra virgem (…que a minhoca é mole).
35. Uns têm veia poética, outros têm varizes (… é um problema de equidade em saúde).
36. Velho dá bom conselho (… já que não consegue dar mau exemplo).
37. Zé: A família tem orgulho em ti. Boa sorte! Desculpa lá qualquer coisinha...
Humor com humor se paga - XVI: A (e)terna sabedoria popular
1. A revolução é a festa dos deprimidos (… e o futebol, a dos comprimidos).
2. À noite todas as pardas são gatas (… e todas as loiras são inteligentes mas daltónicas).
3. Adoro as rosas, mas prefiro as trepadeiras (…dão mais jeito, são mais práticas, dão mais pica).
4. Amor livre, sexo pago (… não se pode ter tudo).
5. As mulheres perdidas são as mais procuradas (… na secção de Perdidos & Achados da esquadra de polícia mais próxima).
6. Até encontrares o homem certo, diverte-te com os errados (... para sermos socialmente correctos: Até encontrares a mulher certa, diverte-te com as erradas).
7. Cuidado com as mulheres fáceis: será difícil livrares-te delas! (... mas também não sei o que as mulheres pensam dos homens fáceis).
8. Conselho (para)suicidário: existe, insiste! (... ah!, o duro ofício de viver).
9. Dizem que o diabo não é tão feio como o pintam (... o que é decepcionante: já não posso diabolizar a outra metade do mundo que eu detesto).
10. Entra merda, sai merda (… ou será melhor dar o benefício da dúvida ?).
11. Errar é tão humano quanto divino (... acho que assim é teologicamente mais correcto).
12. Mais vale chegar atrasado neste mundo do que adiantado no outro (... é o que eu costumo dizer ao meu chefe para justificar os meus já crónicos problemas de pontualidade).
13. Mulher que sabe latim, não tem marido nem bom fim! (… é uma hipótese de investigação para a socio(b)logia dos gender-relatade studies).
14. Melancia grande e gaja boa, ninguém come sozinho (... viva a socialização do prazer!) .
15. Médico novo e puta velha, todos gostam de experimentar (... o que é confirmadoi pelo ICEP quando diz que Portugal é particularmente sensível à modernidade, por um lado, e à tradição, por outro).
16. Na vida tudo é passageiro, menos o motorista e o cobrador (... não sei qual será o estatuto dos gajos que andam à boleia no país do Zé) .
17. Não roubarás, diz um dos Dez Mandamentos da lei de Deus (… além disso, o Estado detesta concorrência).
18. No teatro do poder, todos somos diplomados: uns em artes cénicas e outros em artes cínicas (... não me venhas dizer, companheiro, que o poder não te interessa de todo).
19. O beijo pode não matar a fome, mas abre o apetite (... foi você quem pediu um beijo ?).
20. O dinheiro pode não trazer a felicidade, mas ajuda-te a gerir a depressão (… em sítios in como a Quinta do Lago que eu só conheço como excursionista).
21. O dinheiro não compra a saúde (... mas eu prefiro ser rico com saúde do que pobre com doença).
22. O Homem é um erro de 'casting' de Deus (… o contrário não é verdadeiro e, se o fosse, seria blasfémia!) .
23. O hóspede e o peixe aos três dias fedem (…é melhor pô-los no frigorífico!).
24. O meu Banco ? O Alimentar Contra a Fome (... que a fome dos outros, em Portugal ou em Angola, é apenas um fait-divers).
25. Os negócios do Zé (… afinal, quem os não tem?) .
26. Pensamento (não-oficial, mas oficioso) do dia: Percebe-se melhor o nível de desenvolvimento e a qualidade de vida de um país quando até o Primeiro-Ministro é um emigrante (de luxo).
27. Portugal: 0; Europa: 1 (… "Perdi um mau primeiro-ministro portuga; espero ganhar um bom presidente europeu", disse um dos indefectíveis apoiantes da selecção nacional de futebol que ainda não despiram a camisola, não penduraram o cachecol nem retiraram da janela a bandeira das quinas, na ressaca do Euro2004-de-todas-as-emoções-excepto-a-da-vitória-final).
28. Quando pobre come frango, um dos dois está doente (... ou fora do prazo de validade).
29. Se a merda valesse ouro, os pobres nasciam sem cu (... esta é miserabilista!).
30. Se a morte é um descanso, então eu prefiro viver cansado (... o que não me resolve o problema, a avaliar pelo provérbio 'Muita saúde, pouco vida, porque Deus não dá tudo').
31. Se Deus escreve direito por linhas tortas, a culpa só pode ser da caneta, do papel ou do professor.
32. Se te queres matar, porque não te queres matar? (… Se o Álvaro de Campos estivesse aqui acrescentaria: Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida, se ousasse matar-me, também me mataria...).
33. Sous le pavé, la plage! ("Debaixo da calçada, a praia!") (1968) (...os estudantes hoje não têm mais imaginação: vão directamente à agência de viagens da respectiva associação, em vez de levantarem as pedras da calçada).
34. Terra virgem (…que a minhoca é mole).
35. Uns têm veia poética, outros têm varizes (… é um problema de equidade em saúde).
36. Velho dá bom conselho (… já que não consegue dar mau exemplo).
37. Zé: A família tem orgulho em ti. Boa sorte! Desculpa lá qualquer coisinha...
2. À noite todas as pardas são gatas (… e todas as loiras são inteligentes mas daltónicas).
3. Adoro as rosas, mas prefiro as trepadeiras (…dão mais jeito, são mais práticas, dão mais pica).
4. Amor livre, sexo pago (… não se pode ter tudo).
5. As mulheres perdidas são as mais procuradas (… na secção de Perdidos & Achados da esquadra de polícia mais próxima).
6. Até encontrares o homem certo, diverte-te com os errados (... para sermos socialmente correctos: Até encontrares a mulher certa, diverte-te com as erradas).
7. Cuidado com as mulheres fáceis: será difícil livrares-te delas! (... mas também não sei o que as mulheres pensam dos homens fáceis).
8. Conselho (para)suicidário: existe, insiste! (... ah!, o duro ofício de viver).
9. Dizem que o diabo não é tão feio como o pintam (... o que é decepcionante: já não posso diabolizar a outra metade do mundo que eu detesto).
10. Entra merda, sai merda (… ou será melhor dar o benefício da dúvida ?).
11. Errar é tão humano quanto divino (... acho que assim é teologicamente mais correcto).
12. Mais vale chegar atrasado neste mundo do que adiantado no outro (... é o que eu costumo dizer ao meu chefe para justificar os meus já crónicos problemas de pontualidade).
13. Mulher que sabe latim, não tem marido nem bom fim! (… é uma hipótese de investigação para a socio(b)logia dos gender-relatade studies).
14. Melancia grande e gaja boa, ninguém come sozinho (... viva a socialização do prazer!) .
15. Médico novo e puta velha, todos gostam de experimentar (... o que é confirmadoi pelo ICEP quando diz que Portugal é particularmente sensível à modernidade, por um lado, e à tradição, por outro).
16. Na vida tudo é passageiro, menos o motorista e o cobrador (... não sei qual será o estatuto dos gajos que andam à boleia no país do Zé) .
17. Não roubarás, diz um dos Dez Mandamentos da lei de Deus (… além disso, o Estado detesta concorrência).
18. No teatro do poder, todos somos diplomados: uns em artes cénicas e outros em artes cínicas (... não me venhas dizer, companheiro, que o poder não te interessa de todo).
19. O beijo pode não matar a fome, mas abre o apetite (... foi você quem pediu um beijo ?).
20. O dinheiro pode não trazer a felicidade, mas ajuda-te a gerir a depressão (… em sítios in como a Quinta do Lago que eu só conheço como excursionista).
21. O dinheiro não compra a saúde (... mas eu prefiro ser rico com saúde do que pobre com doença).
22. O Homem é um erro de 'casting' de Deus (… o contrário não é verdadeiro e, se o fosse, seria blasfémia!) .
23. O hóspede e o peixe aos três dias fedem (…é melhor pô-los no frigorífico!).
24. O meu Banco ? O Alimentar Contra a Fome (... que a fome dos outros, em Portugal ou em Angola, é apenas um fait-divers).
25. Os negócios do Zé (… afinal, quem os não tem?) .
26. Pensamento (não-oficial, mas oficioso) do dia: Percebe-se melhor o nível de desenvolvimento e a qualidade de vida de um país quando até o Primeiro-Ministro é um emigrante (de luxo).
27. Portugal: 0; Europa: 1 (… "Perdi um mau primeiro-ministro portuga; espero ganhar um bom presidente europeu", disse um dos indefectíveis apoiantes da selecção nacional de futebol que ainda não despiram a camisola, não penduraram o cachecol nem retiraram da janela a bandeira das quinas, na ressaca do Euro2004-de-todas-as-emoções-excepto-a-da-vitória-final).
28. Quando pobre come frango, um dos dois está doente (... ou fora do prazo de validade).
29. Se a merda valesse ouro, os pobres nasciam sem cu (... esta é miserabilista!).
30. Se a morte é um descanso, então eu prefiro viver cansado (... o que não me resolve o problema, a avaliar pelo provérbio 'Muita saúde, pouco vida, porque Deus não dá tudo').
31. Se Deus escreve direito por linhas tortas, a culpa só pode ser da caneta, do papel ou do professor.
32. Se te queres matar, porque não te queres matar? (… Se o Álvaro de Campos estivesse aqui acrescentaria: Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida, se ousasse matar-me, também me mataria...).
33. Sous le pavé, la plage! ("Debaixo da calçada, a praia!") (1968) (...os estudantes hoje não têm mais imaginação: vão directamente à agência de viagens da respectiva associação, em vez de levantarem as pedras da calçada).
34. Terra virgem (…que a minhoca é mole).
35. Uns têm veia poética, outros têm varizes (… é um problema de equidade em saúde).
36. Velho dá bom conselho (… já que não consegue dar mau exemplo).
37. Zé: A família tem orgulho em ti. Boa sorte! Desculpa lá qualquer coisinha...
16 julho 2004
Em Lisboa nem sangria má nem purga boa - V: Porque (não) reclamam os utentes dos serviços de saúde ?
A Andreia é uma ciberamiga que eu não conheço pessoalmente mas com quem me correspondo por e-mail, há mais de cinco anos! Jornalista, tem andado por vários sítios, o último dos quais no "Tempo Médico".
Há dias pediu-me, mesmo em cima da hora, para lhe responder a umas tantas perguntas, suscitadas pela leitura do relatório sobre as reclamações que chegaram à Direcção Geral de Saúde, relativamente ao ano de 2003 e aos utentes dos serviços de saúde, quer públicos quer privados (n=114). O relatório, de 13 páginas, está disponível em formato pdf no sítio da Direcção Geral de Saúde.
Eis as perguntas (P) da Andreia a que eu respondi (R), de improviso, em cima do joelho, sem ter lido o citado documento:
P1 - Quais serão os motivos que poderão justificar o facto de serem os médicos os mais visados pelas queixas dos utentes dos hospitais do SNS (48%) e centros de saúde (34%), quer na vertente de prestação de cuidados, quer na vertente da sua correcção e humanidade?
R1 - Os médicos são mais visados pelas queixas dos utentes dos hospitais do SNS (48%) e centros de saúde (34%) do que os outros profissionais (enfermeiros, pessoal de acção médica, administrativos, técnicos de diagnóstico e terapêutica)…
Haverá diversas explicações: (i) maior número de interacções dos utentes/doentes com o pessoal médico; (ii) maior impacto da relação terapêutica na satisfação do utente/doente; (iii) a relação terapêutica é uma relação de poder, assimétrica, stressante, propensa ao conflito; (iv) o poder técnico-científico que é reconhecido ao médico tem uma dimensão oculta (o poder mágico-religioso de toda a relação terapêutica: a palavra terapeuta vem do grego (terapeutes), quer dizer: medium, aquele que faz a ligação a um deus, aquele que cura através de ….; (v) last but not the least, os médicos, nas faculdades de medicina, são treinados para ver doenças, não para lidar com doentes, com pessoas doentes…
P2 - Nos Centros de Saúde, as matérias relacionadas com a sua organização e funcionamento originam a maioria das reclamações dos seus utentes (47%). O que é que o poderá motivar e o que poderá ser feito para melhorar a situação?
R2 - Os problemas de organização e funcionamento dos centros de saúde estão na origem da maioria das reclamações dos seus utentes (47%)… São sobretudo os problemas de marcação de consulta, de gestão da lista do médico de família, de falta de médicos, de excesso de consultas por médico, de horários, de falta de condições de acolhimento dos utentes (sala de espera)…
O primeiro contacto com o centro de saúde, o rosto do centro de saúde, é um administrativo, sem formação específica, muitas vezes com baixa escolaridade, e que nalguns casos vem da escala mais baixa do funcionalismo público: o pessoal auxiliar e operário… A solução do problema passa também pela melhoria das competências em gestão dos médicos, enfermeiros e administrativos que dirigem (ou dirigiam) os centros de saúde…
A actual reforma da rede dos cuidados de saúde primária (Decreto Lei nº 60/200, de 1 de Abril) pretende atacar este problema, mas isso não se resolve de um pé para a mão pondo os “privados” a governar o barco… Por outro lado, a clientela dos nossos centros de saúde tende, cada vez mais, a ser a população com menores recursos económicos e culturais (idosos, pobres, imigrantes…).
P3 - A DGS refere no relatório que as reclamações ainda não são usadas pelos utentes como oportunidades de melhoramento, mas para fazerem acusações. Como interpreta esta afirmação?
R3 - Na realidade, o utente dos serviços de saúde tem um papel passivo, e não proactivo: foi sempre visto como um consumidor, um doente, um “paciente” (sic), e não como um verdadeiro cliente com capacidade de influenciar a oferta de serviços… É um problema de empowerment, de competição, de mercado, de equidade… É também um problema sociocultural mais complexo…
P4 - Cerca de metade (49%) das reclamações são de utentes de instituições da Sub-Região de Saúde de Lisboa, seguindo-se as da Sub-Região de Saúde do Porto (13%) e de Setúbal (11%). A “interioridade” revela-se também neste tipo de actuação (ou não actuação) dos utentes?
R4 - De facto,a "interioridade” também se revela aqui… O eixo Setúbal-Braga, desenvolvido, litoral, urbano, jovem, com maior grau de literacia, também aqui faz sentir o seu peso (demográfico, económico, social…) sobre a periferia, pobre, rural, envelhecida, com baixa literacia…
Por outro lado, há uma maior relação de proximidade dos centros de saúde do interior (por ex., Baixo Alentejo) com a população que servem… O modelo de prestação de cuidados (por ex., trabalho em equipa, visitas domiciliárias, existência de extensões) também pode ser uma variável relevante para explicar estas diferenças comportamentais…
P5 - A maior parte das reclamações dizem respeito ao sector público. Será que as pessoas não se queixam do sector privado por falta de motivos de queixa ou porque não sabem que a DGS poderá intervir a esse nível?
R5 - Eu acho que os portugueses, embora não sendo parvos, são masoquistas… Por um lado, pensam que o dinheiro compra tudo (competência, qualidade, simpatia…), o que não é verdade… Se assim fosse, as nossas grandes empresas prestadores de serviços tratariam muito melhor os seus clientes… Essa história do “em cima o cliente, em baixo o presidente”, é uma história de conto de fadas que a gente costuma contar nos cursos de formação, mas que hoje em dia só produz sorrisos amarelos…
De resto, há cada vez menos respeito pelo cliente (seja externo, seja interno): parece que o único stakeholder que interessa satisfazer é o shareholder, esse peixe voraz e anónimo que especula na bolsa de valores…
Há ainda que referir que os consumidores de saúde (ou melhor do health care industry, que é a indústria da doença, e não da saúde!) não estão organizados, nem têm os mesmos meios de defesa e de lobbying como os outros… Abro uma excepção, para as relativamente poderosas associações de doentes crónicos…
Há dias pediu-me, mesmo em cima da hora, para lhe responder a umas tantas perguntas, suscitadas pela leitura do relatório sobre as reclamações que chegaram à Direcção Geral de Saúde, relativamente ao ano de 2003 e aos utentes dos serviços de saúde, quer públicos quer privados (n=114). O relatório, de 13 páginas, está disponível em formato pdf no sítio da Direcção Geral de Saúde.
Eis as perguntas (P) da Andreia a que eu respondi (R), de improviso, em cima do joelho, sem ter lido o citado documento:
P1 - Quais serão os motivos que poderão justificar o facto de serem os médicos os mais visados pelas queixas dos utentes dos hospitais do SNS (48%) e centros de saúde (34%), quer na vertente de prestação de cuidados, quer na vertente da sua correcção e humanidade?
R1 - Os médicos são mais visados pelas queixas dos utentes dos hospitais do SNS (48%) e centros de saúde (34%) do que os outros profissionais (enfermeiros, pessoal de acção médica, administrativos, técnicos de diagnóstico e terapêutica)…
Haverá diversas explicações: (i) maior número de interacções dos utentes/doentes com o pessoal médico; (ii) maior impacto da relação terapêutica na satisfação do utente/doente; (iii) a relação terapêutica é uma relação de poder, assimétrica, stressante, propensa ao conflito; (iv) o poder técnico-científico que é reconhecido ao médico tem uma dimensão oculta (o poder mágico-religioso de toda a relação terapêutica: a palavra terapeuta vem do grego (terapeutes), quer dizer: medium, aquele que faz a ligação a um deus, aquele que cura através de ….; (v) last but not the least, os médicos, nas faculdades de medicina, são treinados para ver doenças, não para lidar com doentes, com pessoas doentes…
P2 - Nos Centros de Saúde, as matérias relacionadas com a sua organização e funcionamento originam a maioria das reclamações dos seus utentes (47%). O que é que o poderá motivar e o que poderá ser feito para melhorar a situação?
R2 - Os problemas de organização e funcionamento dos centros de saúde estão na origem da maioria das reclamações dos seus utentes (47%)… São sobretudo os problemas de marcação de consulta, de gestão da lista do médico de família, de falta de médicos, de excesso de consultas por médico, de horários, de falta de condições de acolhimento dos utentes (sala de espera)…
O primeiro contacto com o centro de saúde, o rosto do centro de saúde, é um administrativo, sem formação específica, muitas vezes com baixa escolaridade, e que nalguns casos vem da escala mais baixa do funcionalismo público: o pessoal auxiliar e operário… A solução do problema passa também pela melhoria das competências em gestão dos médicos, enfermeiros e administrativos que dirigem (ou dirigiam) os centros de saúde…
A actual reforma da rede dos cuidados de saúde primária (Decreto Lei nº 60/200, de 1 de Abril) pretende atacar este problema, mas isso não se resolve de um pé para a mão pondo os “privados” a governar o barco… Por outro lado, a clientela dos nossos centros de saúde tende, cada vez mais, a ser a população com menores recursos económicos e culturais (idosos, pobres, imigrantes…).
P3 - A DGS refere no relatório que as reclamações ainda não são usadas pelos utentes como oportunidades de melhoramento, mas para fazerem acusações. Como interpreta esta afirmação?
R3 - Na realidade, o utente dos serviços de saúde tem um papel passivo, e não proactivo: foi sempre visto como um consumidor, um doente, um “paciente” (sic), e não como um verdadeiro cliente com capacidade de influenciar a oferta de serviços… É um problema de empowerment, de competição, de mercado, de equidade… É também um problema sociocultural mais complexo…
P4 - Cerca de metade (49%) das reclamações são de utentes de instituições da Sub-Região de Saúde de Lisboa, seguindo-se as da Sub-Região de Saúde do Porto (13%) e de Setúbal (11%). A “interioridade” revela-se também neste tipo de actuação (ou não actuação) dos utentes?
R4 - De facto,a "interioridade” também se revela aqui… O eixo Setúbal-Braga, desenvolvido, litoral, urbano, jovem, com maior grau de literacia, também aqui faz sentir o seu peso (demográfico, económico, social…) sobre a periferia, pobre, rural, envelhecida, com baixa literacia…
Por outro lado, há uma maior relação de proximidade dos centros de saúde do interior (por ex., Baixo Alentejo) com a população que servem… O modelo de prestação de cuidados (por ex., trabalho em equipa, visitas domiciliárias, existência de extensões) também pode ser uma variável relevante para explicar estas diferenças comportamentais…
P5 - A maior parte das reclamações dizem respeito ao sector público. Será que as pessoas não se queixam do sector privado por falta de motivos de queixa ou porque não sabem que a DGS poderá intervir a esse nível?
R5 - Eu acho que os portugueses, embora não sendo parvos, são masoquistas… Por um lado, pensam que o dinheiro compra tudo (competência, qualidade, simpatia…), o que não é verdade… Se assim fosse, as nossas grandes empresas prestadores de serviços tratariam muito melhor os seus clientes… Essa história do “em cima o cliente, em baixo o presidente”, é uma história de conto de fadas que a gente costuma contar nos cursos de formação, mas que hoje em dia só produz sorrisos amarelos…
De resto, há cada vez menos respeito pelo cliente (seja externo, seja interno): parece que o único stakeholder que interessa satisfazer é o shareholder, esse peixe voraz e anónimo que especula na bolsa de valores…
Há ainda que referir que os consumidores de saúde (ou melhor do health care industry, que é a indústria da doença, e não da saúde!) não estão organizados, nem têm os mesmos meios de defesa e de lobbying como os outros… Abro uma excepção, para as relativamente poderosas associações de doentes crónicos…
Em Lisboa nem sangria má nem purga boa - V: Porque (não) reclamam os utentes dos serviços de saúde ?
A Andreia é uma ciberamiga que eu não conheço pessoalmente mas com quem me correspondo por e-mail, há mais de cinco anos! Jornalista, tem andado por vários sítios, o último dos quais no "Tempo Médico".
Há dias pediu-me, mesmo em cima da hora, para lhe responder a umas tantas perguntas, suscitadas pela leitura do relatório sobre as reclamações que chegaram à Direcção Geral de Saúde, relativamente ao ano de 2003 e aos utentes dos serviços de saúde, quer públicos quer privados (n=114). O relatório, de 13 páginas, está disponível em formato pdf no sítio da Direcção Geral de Saúde.
Eis as perguntas (P) da Andreia a que eu respondi (R), de improviso, em cima do joelho, sem ter lido o citado documento:
P1 - Quais serão os motivos que poderão justificar o facto de serem os médicos os mais visados pelas queixas dos utentes dos hospitais do SNS (48%) e centros de saúde (34%), quer na vertente de prestação de cuidados, quer na vertente da sua correcção e humanidade?
R1 - Os médicos são mais visados pelas queixas dos utentes dos hospitais do SNS (48%) e centros de saúde (34%) do que os outros profissionais (enfermeiros, pessoal de acção médica, administrativos, técnicos de diagnóstico e terapêutica)…
Haverá diversas explicações: (i) maior número de interacções dos utentes/doentes com o pessoal médico; (ii) maior impacto da relação terapêutica na satisfação do utente/doente; (iii) a relação terapêutica é uma relação de poder, assimétrica, stressante, propensa ao conflito; (iv) o poder técnico-científico que é reconhecido ao médico tem uma dimensão oculta (o poder mágico-religioso de toda a relação terapêutica: a palavra terapeuta vem do grego (terapeutes), quer dizer: medium, aquele que faz a ligação a um deus, aquele que cura através de ….; (v) last but not the least, os médicos, nas faculdades de medicina, são treinados para ver doenças, não para lidar com doentes, com pessoas doentes…
P2 - Nos Centros de Saúde, as matérias relacionadas com a sua organização e funcionamento originam a maioria das reclamações dos seus utentes (47%). O que é que o poderá motivar e o que poderá ser feito para melhorar a situação?
R2 - Os problemas de organização e funcionamento dos centros de saúde estão na origem da maioria das reclamações dos seus utentes (47%)… São sobretudo os problemas de marcação de consulta, de gestão da lista do médico de família, de falta de médicos, de excesso de consultas por médico, de horários, de falta de condições de acolhimento dos utentes (sala de espera)…
O primeiro contacto com o centro de saúde, o rosto do centro de saúde, é um administrativo, sem formação específica, muitas vezes com baixa escolaridade, e que nalguns casos vem da escala mais baixa do funcionalismo público: o pessoal auxiliar e operário… A solução do problema passa também pela melhoria das competências em gestão dos médicos, enfermeiros e administrativos que dirigem (ou dirigiam) os centros de saúde…
A actual reforma da rede dos cuidados de saúde primária (Decreto Lei nº 60/200, de 1 de Abril) pretende atacar este problema, mas isso não se resolve de um pé para a mão pondo os “privados” a governar o barco… Por outro lado, a clientela dos nossos centros de saúde tende, cada vez mais, a ser a população com menores recursos económicos e culturais (idosos, pobres, imigrantes…).
P3 - A DGS refere no relatório que as reclamações ainda não são usadas pelos utentes como oportunidades de melhoramento, mas para fazerem acusações. Como interpreta esta afirmação?
R3 - Na realidade, o utente dos serviços de saúde tem um papel passivo, e não proactivo: foi sempre visto como um consumidor, um doente, um “paciente” (sic), e não como um verdadeiro cliente com capacidade de influenciar a oferta de serviços… É um problema de empowerment, de competição, de mercado, de equidade… É também um problema sociocultural mais complexo…
P4 - Cerca de metade (49%) das reclamações são de utentes de instituições da Sub-Região de Saúde de Lisboa, seguindo-se as da Sub-Região de Saúde do Porto (13%) e de Setúbal (11%). A “interioridade” revela-se também neste tipo de actuação (ou não actuação) dos utentes?
R4 - De facto,a "interioridade” também se revela aqui… O eixo Setúbal-Braga, desenvolvido, litoral, urbano, jovem, com maior grau de literacia, também aqui faz sentir o seu peso (demográfico, económico, social…) sobre a periferia, pobre, rural, envelhecida, com baixa literacia…
Por outro lado, há uma maior relação de proximidade dos centros de saúde do interior (por ex., Baixo Alentejo) com a população que servem… O modelo de prestação de cuidados (por ex., trabalho em equipa, visitas domiciliárias, existência de extensões) também pode ser uma variável relevante para explicar estas diferenças comportamentais…
P5 - A maior parte das reclamações dizem respeito ao sector público. Será que as pessoas não se queixam do sector privado por falta de motivos de queixa ou porque não sabem que a DGS poderá intervir a esse nível?
R5 - Eu acho que os portugueses, embora não sendo parvos, são masoquistas… Por um lado, pensam que o dinheiro compra tudo (competência, qualidade, simpatia…), o que não é verdade… Se assim fosse, as nossas grandes empresas prestadores de serviços tratariam muito melhor os seus clientes… Essa história do “em cima o cliente, em baixo o presidente”, é uma história de conto de fadas que a gente costuma contar nos cursos de formação, mas que hoje em dia só produz sorrisos amarelos…
De resto, há cada vez menos respeito pelo cliente (seja externo, seja interno): parece que o único stakeholder que interessa satisfazer é o shareholder, esse peixe voraz e anónimo que especula na bolsa de valores…
Há ainda que referir que os consumidores de saúde (ou melhor do health care industry, que é a indústria da doença, e não da saúde!) não estão organizados, nem têm os mesmos meios de defesa e de lobbying como os outros… Abro uma excepção, para as relativamente poderosas associações de doentes crónicos…
Há dias pediu-me, mesmo em cima da hora, para lhe responder a umas tantas perguntas, suscitadas pela leitura do relatório sobre as reclamações que chegaram à Direcção Geral de Saúde, relativamente ao ano de 2003 e aos utentes dos serviços de saúde, quer públicos quer privados (n=114). O relatório, de 13 páginas, está disponível em formato pdf no sítio da Direcção Geral de Saúde.
Eis as perguntas (P) da Andreia a que eu respondi (R), de improviso, em cima do joelho, sem ter lido o citado documento:
P1 - Quais serão os motivos que poderão justificar o facto de serem os médicos os mais visados pelas queixas dos utentes dos hospitais do SNS (48%) e centros de saúde (34%), quer na vertente de prestação de cuidados, quer na vertente da sua correcção e humanidade?
R1 - Os médicos são mais visados pelas queixas dos utentes dos hospitais do SNS (48%) e centros de saúde (34%) do que os outros profissionais (enfermeiros, pessoal de acção médica, administrativos, técnicos de diagnóstico e terapêutica)…
Haverá diversas explicações: (i) maior número de interacções dos utentes/doentes com o pessoal médico; (ii) maior impacto da relação terapêutica na satisfação do utente/doente; (iii) a relação terapêutica é uma relação de poder, assimétrica, stressante, propensa ao conflito; (iv) o poder técnico-científico que é reconhecido ao médico tem uma dimensão oculta (o poder mágico-religioso de toda a relação terapêutica: a palavra terapeuta vem do grego (terapeutes), quer dizer: medium, aquele que faz a ligação a um deus, aquele que cura através de ….; (v) last but not the least, os médicos, nas faculdades de medicina, são treinados para ver doenças, não para lidar com doentes, com pessoas doentes…
P2 - Nos Centros de Saúde, as matérias relacionadas com a sua organização e funcionamento originam a maioria das reclamações dos seus utentes (47%). O que é que o poderá motivar e o que poderá ser feito para melhorar a situação?
R2 - Os problemas de organização e funcionamento dos centros de saúde estão na origem da maioria das reclamações dos seus utentes (47%)… São sobretudo os problemas de marcação de consulta, de gestão da lista do médico de família, de falta de médicos, de excesso de consultas por médico, de horários, de falta de condições de acolhimento dos utentes (sala de espera)…
O primeiro contacto com o centro de saúde, o rosto do centro de saúde, é um administrativo, sem formação específica, muitas vezes com baixa escolaridade, e que nalguns casos vem da escala mais baixa do funcionalismo público: o pessoal auxiliar e operário… A solução do problema passa também pela melhoria das competências em gestão dos médicos, enfermeiros e administrativos que dirigem (ou dirigiam) os centros de saúde…
A actual reforma da rede dos cuidados de saúde primária (Decreto Lei nº 60/200, de 1 de Abril) pretende atacar este problema, mas isso não se resolve de um pé para a mão pondo os “privados” a governar o barco… Por outro lado, a clientela dos nossos centros de saúde tende, cada vez mais, a ser a população com menores recursos económicos e culturais (idosos, pobres, imigrantes…).
P3 - A DGS refere no relatório que as reclamações ainda não são usadas pelos utentes como oportunidades de melhoramento, mas para fazerem acusações. Como interpreta esta afirmação?
R3 - Na realidade, o utente dos serviços de saúde tem um papel passivo, e não proactivo: foi sempre visto como um consumidor, um doente, um “paciente” (sic), e não como um verdadeiro cliente com capacidade de influenciar a oferta de serviços… É um problema de empowerment, de competição, de mercado, de equidade… É também um problema sociocultural mais complexo…
P4 - Cerca de metade (49%) das reclamações são de utentes de instituições da Sub-Região de Saúde de Lisboa, seguindo-se as da Sub-Região de Saúde do Porto (13%) e de Setúbal (11%). A “interioridade” revela-se também neste tipo de actuação (ou não actuação) dos utentes?
R4 - De facto,a "interioridade” também se revela aqui… O eixo Setúbal-Braga, desenvolvido, litoral, urbano, jovem, com maior grau de literacia, também aqui faz sentir o seu peso (demográfico, económico, social…) sobre a periferia, pobre, rural, envelhecida, com baixa literacia…
Por outro lado, há uma maior relação de proximidade dos centros de saúde do interior (por ex., Baixo Alentejo) com a população que servem… O modelo de prestação de cuidados (por ex., trabalho em equipa, visitas domiciliárias, existência de extensões) também pode ser uma variável relevante para explicar estas diferenças comportamentais…
P5 - A maior parte das reclamações dizem respeito ao sector público. Será que as pessoas não se queixam do sector privado por falta de motivos de queixa ou porque não sabem que a DGS poderá intervir a esse nível?
R5 - Eu acho que os portugueses, embora não sendo parvos, são masoquistas… Por um lado, pensam que o dinheiro compra tudo (competência, qualidade, simpatia…), o que não é verdade… Se assim fosse, as nossas grandes empresas prestadores de serviços tratariam muito melhor os seus clientes… Essa história do “em cima o cliente, em baixo o presidente”, é uma história de conto de fadas que a gente costuma contar nos cursos de formação, mas que hoje em dia só produz sorrisos amarelos…
De resto, há cada vez menos respeito pelo cliente (seja externo, seja interno): parece que o único stakeholder que interessa satisfazer é o shareholder, esse peixe voraz e anónimo que especula na bolsa de valores…
Há ainda que referir que os consumidores de saúde (ou melhor do health care industry, que é a indústria da doença, e não da saúde!) não estão organizados, nem têm os mesmos meios de defesa e de lobbying como os outros… Abro uma excepção, para as relativamente poderosas associações de doentes crónicos…
11 julho 2004
Blogantologia(s) - XVI: Luanda revis(i)tada
Para o António, o Xico, o Daniel, o Mário, a Evelize, o Miguel, o Cunha, o Jorge e os demais companheiros da saúde pública, portugueses e angolanos, que acreditam e apostam no humanware angolano, tendo concebido, planeado e implementado o 1º Curso de Introdução à Administração dos Hospitais (3 blocos, com mais de 20 módulos, num total superior a 600 horas), num discreto mas notável projecto de cooperação que envolve, pelo lado angolano, o Ministério da Saúde de Angola e a Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, em Luanda, e pelo lado português a Fundação Calouste Gulbenkian e a Escola Nacional de Saúde Pública, em Lisboa. E para o pessoal de secretariado, da Idalisa (Lisboa) à Elisabete (Luanda), que na retaguarda asseguram as mil e uma pequenas coisas que garantem o sucesso das grandes coisas.
Um especial kandandu para o Jorge que eu não pude rever desta vez, em Luanda, e que me dizem estar doente. As tuas melhoras, amigo e companheiro.
Para a Rita, a Paulina, a Eugénia e a Maria Antónia, as meninas Leal Monteiro dessa Casa Grande & Sanzala que é a Hospedaria Soleme, em Luanda, na Maianga, que tem sido a nossa casa, o nosso oásis e o nosso porto de abrigo. Sem esquecer a velha senhora Maria Eulália, a matriarca da família, que eu infelizmente ainda não conheço.
Trata-se, além disso, de um lugar único em Luanda já que a casa está também cheia de recordações e de obras do grande pintor angolano Viteix (Vítor Teixeira) (1940-1993), só agora conhecido em Portugal (A galeria da Caixa Geral de Depósitos, no Porto, teve em exposição entre Abril e Junho de 2004 uma importante colecção de obras do pintor, do período de 1958 a 1993, uma parte das quais temporariamente cedidas pela família Leal Monteiro a que o pintor estava ligado pelos laços do casamento).
Um enorme painel de azulejos, reproduzindo um das suas telas, feito em Portugal e montado sob orientação do seu filho, passou entretanto a partir de Dezembro último a figurar no alto de uma das paredes, adjacentes à fachada principal do edifício da Soleme. Devidamente iluminado à noite por projectores, o painel é perfeitamente visível da Rua Kwamme N'krumah e constitui uma justa e terna homenagem da família ao Viteix. Os dez anos da sua morte também foram devidamente assinalados na sua terra, com uma exposição em Maio de 2003, sob o título "Reviver Viteix".
Queridas amigas: Continuo a pensar que a vossa casa, a Soleme, é um verdadeiro oásis em Luanda, um lugar onde se alia a tradição, a cultura, a gastronomia, a hospitalidade, o cosmopolitismo, a arte de bem receber e sobretudo o human touch, o toque humano, que faz de uma simples relação comercial uma verdadeira relação de amizade...
Quero aqui prestar, em meu nome, a minha homenagem às grandes mulheres que mantêm de pé a belíssima casa, feita de granito angolano, talhada por artesões portugueses dos anos 20, que foi do vosso pai e avô, João Monteiro, quadro superior da administração colonial que faria este ano cem anos se fosse vivo (1904-2004)... Tivemos pena, eu e o Daniel, de não podermos estar na vossa festa, na passada sexta-feira... De qualquer modo ficámos sensibilizados pelo vosso convite. A viagem de regresso a Lisboa correu bem. Até sempre, amig@s!
Fonte: Fotografia gentilmente cedida pela Hospedaria Soleme, Rua Kwamme N'krumah, 1, Maianga, Luanda
Luanda revis(i)tada
Não vi flores,
Não vi acácias vermelhas,
Dessas rubras acácias de Benguela,
No teu imenso muceque;
Não vi o esplendor celebrado
Da tua baía,
Nem senti o sortilégio da tua ilha dos amores,
Ó cidade de Luanda
Que a gente nunca esquece,
Outrora tão jovem e tão bela.
Porém, no teu rosto (re)visitado
Pelas rugas velhas
Da guerra, da pobreza e da malária,
Descobri diamantes em estado puro
No teu olhar de criança
Perdida em viagem imaginária.
De modo nenhum te quereria
Em postal ilustrado,
Decadente e saudosista,
Com carimbo de correio pós-colonial:
A restinga do Mussulo ao pôr-do-sol,
A laguna, o mangal, a marginal,
E o estúpido turista em férias,
No Coconuts, na ilha, elitista,
Ou na piscina do Hotel Tropical!
Não li sequer os graffiti do FMI,
Gravados a duro pau de giz
Nos muros dos palácios da cidade alta,
Proclamando urbi et orbi
Que doravante toda a malta
Seria rica e feliz!
Há muito que os kaluandas partiram,
Deixando atrás de si,
Com um misto de saudade e de glória,
O calor húmido e fraterno
Da grande nação crioula.
Mais os imbondeiros que resistiram
À seca, à fome, ao inferno,
Ao lixo, à sida, à história.
O cheiro fétido do humano
Viaja nos candongueiros
Que atravessam de lés a lés
A tua rede de túneis-formigueiros,
As tua entranhas, o teu tutano,
A tua essência.
Alguém poderia achar essas correrias loucas
Se não soubesse quem tu és,
Mas tu tens o teu tempo e a tua medida,
Ó cidade das mulheres empreendedoras,
Peritas na arte da sobrevivência.
Um enorme exército de formigas obreiras,
Com os jerricãs de plástico à cabeça,
Leva o fio da água da vida,
Tão preciosa quanto parca,
Ao teu ventre de Jocasta,
Mãe África, mãe de kixikila,
Zungueira, matriarca,
Moça reguila, parideira,
Quitandeira, kinguila.
Na praia dos pescadores
Há meninos, brancos e pretos,
Pé descalço e calças rotas,
A chutar a bola às balizas da sorte.
Poderão não vir a ser uns senhores,
E sorrir como o Mantorras,
O rosto espalhado em outdoors pela cidade.
Mas contarão, decerto, aos seus netos
Como souberam fintar a morte
Desde a mais tenra idade.
Mãe África, mãe coragem,
Para quem pouco te basta,
Mesmo se muito tu queres
Daquilo a que tens pleno direito:
Cidade revis(i)tada,
Sem mapa nem roteiro,
Simples lugar de passagem,
Onde um litro de gasolina, imagina!
Custa tanto quanto um pão,
Vinte kwanzas.
Poderei dizer em Lisboa, se quiseres,
Que o melhor de ti, Luanda, terra quente,
É a tua gente, a quem mando um chicoração:
As tuas infatigáveis mulheres,
E as tuas ternas, eternas, crianças.
Glossário de termos do falar local:
Candongueiros - Os endiabrados táxis colectivos de Luanda. Param um qualquer sítio e levam sempre mais um passageiro para além da sua lotação máxima Cada viagem custa 30 kwanzas. O termo vem de candonga (contrabando). "Inicialmente o contrabando de peixe seco. Só muitos anos mais tarde se passaria a usar o termo candongueiro para designar os contrabandistas de diamantes ou, mais tarde ainda, os novos taxistas luandenses do chamado processo dos 500" (Segundo leio no sítio de um brasileiro sobre os países e comunidades de língua portuguesa) .
Imbondeiro - Também conhecido por n´bondo (Adansonia digitata, Lin.):
Kaluanda - Nome antigo, colonial, dado ao habitante de Luanda.
Kandandu - Abraço (Plural: Jindandu). Ver outras expressões usadas nas saudações em kimbundu.
Kimbundu - Considerado o maior grupo etnolinguístico de Angola (c. 25% da população na costa oeste e no norte), a seguir ao ovimbundu (c. 37%, a sul), mas à frente do bakongo (13%) (Estas são as três principais línguas de Angola, todas elas pertencentes ao grupo bantu). A língua oficial é, como se sabe, o português. No Ciberdúvidas da Língua Portuguesa há uma interessantíssima nota de Rui Ramos sobre as relações nem sempre fáceis entre o português (colonial, dominante) e o kimbundu (ou quimbundo, o falar das gentes de Luanda-Malanje). Termos usados hoje pelos nossos jovens, como cota (dikota, pessoa mais velha) são provenientes do kimbundu. Sobre as questões de grafia (kimbundu ou quimbundo), ver igualmente a resposta do angolano Rui Ramos, especialista em línguas africanas, no mesmo sítio. Não se deve confundir, no entanto, o kimbundu com o calão de Luanda (caso de bué, e outras expressões que se ouvem na noite lisboeta).
Kinguila - Rapariga ou mulher que, no mercado paralelo, se dedica ao câmbio de moeda. Em geral, os maços de kwanzas e de dólares são guardados nos seios. Este negócio era tradicionalmente dos zairotas, habitantes do Zaire. Segundo o portal Netangola, numa página com preciosas dicas para os homens de negócios estrangeiros em visita a Luanda, "one can often find in the streets of the city the typical Kinguila - the seller of money - who normally offers the best quotation. This practice is forbidden by the authorities and offers some risks".
Kixikila - Em kimbundu, quer dizer contribuição, em dinheiro, para um dado fim colectivo. Em África, em geral, e em Angola, em particular, é aquilo que se designa pela expressão inglesa Rotating Savings and Credit Associations (ROSCA), um sistema informal de poupança e crédito, um grupo de ajuda mútua, liderado em geral por uma mulher, a "mãe de kixikila". O pequeno grupo, de cinco a dez elementos, tende a ser constituído por pessoas que estão ligadas entre si por laços de amizade, parentesco, vizinhança ou profissão. Cada elemento faz periodicamente uma determinada contribuição para um fundo comum que é depois utilizado rotativamente por cada um, com uma taxa de juro nula ou de valor reduzido. Na ausência de sistemas de crédito bancário acessíveis à generalidade da população, o kixikila voltou aos hábitos dos kaluandas como forma de atenuar ou reduzir o impacto da pobreza. O kixikila está hoje vulgarizado, não só entre as vendedeiras, quitandandeiras e kinguilas, mas também nos serviços públicos e nas empresas (vd. Neto, S. - Kixikila não é uma lotaria. Economia & Mercado. 19 (Maio-Junho de 2004). 40-42). Vd. também: Ducados, H.L.; Ferreira, M.E. (1998) - O financiamento informal e as estratégias de sobrevivência económica das mulheres em Angola : a Kixikila no caso do município do Sambizanga (Luanda). Lisboa: CEsA - Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento. Instituto Superior de Economia e Gestão. Universidade Técnica de Lisboa. 1998 (Documentos de Trabalho, 53).
Kwanza - Moeda local. 1 dólar equivale a c. 85 kwanzas. O cacete (tipo de pão) custa cerca de 20 kwanzas (Julho de 2004). Consultar também o sítio oficial da República de Angola.
Muceques - Bairros populares degradados de Luanda.
Quitandeira - Vendedora de rua (ou de mercado), em geral de produtos hortofrutícolas. Vem de quitanda, um termo kimbundu que significa expor (determinados produtos para venda), e, por extensão, feira ou mercado. Há um belíssimo poema de Agostinho Neto sobre a quitandeira, que vem no seu livro Sagrada Esperança (1974): "A quitanda. Muito sol /e a quitandeira à sombra / da mulemba. /- Laranja, minha senhora, /laranjinha boa!"...
Zungueira - Vendedor ambulante, uma figura típica da economia paralela de Luanda. Em geral é do sexo feminino, mas também há cada mais jovens e crianças do sexo masculino. Estima-se que 70% da população de Luanda, em idade activa, seja zungueira. Ninguém sabe ao certo qual é a população actual da cidade e periferia: estima-se que possa chegar aos 4 milhões (a maior parte deslocados de guerra), ou seja, mais de 1/3 da população angolana actual, estimada actualmente pela CIA em c. 11 milhões de habitantes. Do verbo zunguar (andar para cima e para baixo, circular tentando vender alguma coisa). As zungueiras abastecem-se em mercados como o Roque Santeiro ou o Kikolo, onde não é aconselhável, por razões de segurança, a visita do turista estrangeiro. Considerando a sua densidade populacional e o drama do seu quotidiano, Luanda é apesar de tudo uma cidade com uma baixa taxa de criminalidade. Sobre o comércio informal, a figura da zungueira e a arte de sobreviver em Luanda, veja-se uma excelente reportagem assinada pelo jornalista e sociólogo Paulo de Carvalho (paulodecarvalho@sociologist.com, na revista Economia & Mercado. 19 (Maio-Junho de 2004).34-39.
Fotos de Luanda e de outros sítios de Angola:
O meu álbum de fotografias > Angola > Luanda > Cidade / City (tiradas em data posterior a este post)
Angola > Imagens
Luanda > Ilha do Mussulo > Imagens
Luanda > 1983 > Imagens
Lusoáfrica > Angola > Fotografias
Outros sítios sobre Angola (história, sociedade, economia, cultura):
Nhamalanda > História da Família Costa
SanzalAngola > Página de Helder de Sousa
UEA - União dos Escritores Angolanos
Um especial kandandu para o Jorge que eu não pude rever desta vez, em Luanda, e que me dizem estar doente. As tuas melhoras, amigo e companheiro.
Para a Rita, a Paulina, a Eugénia e a Maria Antónia, as meninas Leal Monteiro dessa Casa Grande & Sanzala que é a Hospedaria Soleme, em Luanda, na Maianga, que tem sido a nossa casa, o nosso oásis e o nosso porto de abrigo. Sem esquecer a velha senhora Maria Eulália, a matriarca da família, que eu infelizmente ainda não conheço.
Trata-se, além disso, de um lugar único em Luanda já que a casa está também cheia de recordações e de obras do grande pintor angolano Viteix (Vítor Teixeira) (1940-1993), só agora conhecido em Portugal (A galeria da Caixa Geral de Depósitos, no Porto, teve em exposição entre Abril e Junho de 2004 uma importante colecção de obras do pintor, do período de 1958 a 1993, uma parte das quais temporariamente cedidas pela família Leal Monteiro a que o pintor estava ligado pelos laços do casamento).
Um enorme painel de azulejos, reproduzindo um das suas telas, feito em Portugal e montado sob orientação do seu filho, passou entretanto a partir de Dezembro último a figurar no alto de uma das paredes, adjacentes à fachada principal do edifício da Soleme. Devidamente iluminado à noite por projectores, o painel é perfeitamente visível da Rua Kwamme N'krumah e constitui uma justa e terna homenagem da família ao Viteix. Os dez anos da sua morte também foram devidamente assinalados na sua terra, com uma exposição em Maio de 2003, sob o título "Reviver Viteix".
Queridas amigas: Continuo a pensar que a vossa casa, a Soleme, é um verdadeiro oásis em Luanda, um lugar onde se alia a tradição, a cultura, a gastronomia, a hospitalidade, o cosmopolitismo, a arte de bem receber e sobretudo o human touch, o toque humano, que faz de uma simples relação comercial uma verdadeira relação de amizade...
Quero aqui prestar, em meu nome, a minha homenagem às grandes mulheres que mantêm de pé a belíssima casa, feita de granito angolano, talhada por artesões portugueses dos anos 20, que foi do vosso pai e avô, João Monteiro, quadro superior da administração colonial que faria este ano cem anos se fosse vivo (1904-2004)... Tivemos pena, eu e o Daniel, de não podermos estar na vossa festa, na passada sexta-feira... De qualquer modo ficámos sensibilizados pelo vosso convite. A viagem de regresso a Lisboa correu bem. Até sempre, amig@s!
Fonte: Fotografia gentilmente cedida pela Hospedaria Soleme, Rua Kwamme N'krumah, 1, Maianga, Luanda
Luanda revis(i)tada
Não vi flores,
Não vi acácias vermelhas,
Dessas rubras acácias de Benguela,
No teu imenso muceque;
Não vi o esplendor celebrado
Da tua baía,
Nem senti o sortilégio da tua ilha dos amores,
Ó cidade de Luanda
Que a gente nunca esquece,
Outrora tão jovem e tão bela.
Porém, no teu rosto (re)visitado
Pelas rugas velhas
Da guerra, da pobreza e da malária,
Descobri diamantes em estado puro
No teu olhar de criança
Perdida em viagem imaginária.
De modo nenhum te quereria
Em postal ilustrado,
Decadente e saudosista,
Com carimbo de correio pós-colonial:
A restinga do Mussulo ao pôr-do-sol,
A laguna, o mangal, a marginal,
E o estúpido turista em férias,
No Coconuts, na ilha, elitista,
Ou na piscina do Hotel Tropical!
Não li sequer os graffiti do FMI,
Gravados a duro pau de giz
Nos muros dos palácios da cidade alta,
Proclamando urbi et orbi
Que doravante toda a malta
Seria rica e feliz!
Há muito que os kaluandas partiram,
Deixando atrás de si,
Com um misto de saudade e de glória,
O calor húmido e fraterno
Da grande nação crioula.
Mais os imbondeiros que resistiram
À seca, à fome, ao inferno,
Ao lixo, à sida, à história.
O cheiro fétido do humano
Viaja nos candongueiros
Que atravessam de lés a lés
A tua rede de túneis-formigueiros,
As tua entranhas, o teu tutano,
A tua essência.
Alguém poderia achar essas correrias loucas
Se não soubesse quem tu és,
Mas tu tens o teu tempo e a tua medida,
Ó cidade das mulheres empreendedoras,
Peritas na arte da sobrevivência.
Um enorme exército de formigas obreiras,
Com os jerricãs de plástico à cabeça,
Leva o fio da água da vida,
Tão preciosa quanto parca,
Ao teu ventre de Jocasta,
Mãe África, mãe de kixikila,
Zungueira, matriarca,
Moça reguila, parideira,
Quitandeira, kinguila.
Na praia dos pescadores
Há meninos, brancos e pretos,
Pé descalço e calças rotas,
A chutar a bola às balizas da sorte.
Poderão não vir a ser uns senhores,
E sorrir como o Mantorras,
O rosto espalhado em outdoors pela cidade.
Mas contarão, decerto, aos seus netos
Como souberam fintar a morte
Desde a mais tenra idade.
Mãe África, mãe coragem,
Para quem pouco te basta,
Mesmo se muito tu queres
Daquilo a que tens pleno direito:
Cidade revis(i)tada,
Sem mapa nem roteiro,
Simples lugar de passagem,
Onde um litro de gasolina, imagina!
Custa tanto quanto um pão,
Vinte kwanzas.
Poderei dizer em Lisboa, se quiseres,
Que o melhor de ti, Luanda, terra quente,
É a tua gente, a quem mando um chicoração:
As tuas infatigáveis mulheres,
E as tuas ternas, eternas, crianças.
Glossário de termos do falar local:
Candongueiros - Os endiabrados táxis colectivos de Luanda. Param um qualquer sítio e levam sempre mais um passageiro para além da sua lotação máxima Cada viagem custa 30 kwanzas. O termo vem de candonga (contrabando). "Inicialmente o contrabando de peixe seco. Só muitos anos mais tarde se passaria a usar o termo candongueiro para designar os contrabandistas de diamantes ou, mais tarde ainda, os novos taxistas luandenses do chamado processo dos 500" (Segundo leio no sítio de um brasileiro sobre os países e comunidades de língua portuguesa) .
Imbondeiro - Também conhecido por n´bondo (Adansonia digitata, Lin.):
Kaluanda - Nome antigo, colonial, dado ao habitante de Luanda.
Kandandu - Abraço (Plural: Jindandu). Ver outras expressões usadas nas saudações em kimbundu.
Kimbundu - Considerado o maior grupo etnolinguístico de Angola (c. 25% da população na costa oeste e no norte), a seguir ao ovimbundu (c. 37%, a sul), mas à frente do bakongo (13%) (Estas são as três principais línguas de Angola, todas elas pertencentes ao grupo bantu). A língua oficial é, como se sabe, o português. No Ciberdúvidas da Língua Portuguesa há uma interessantíssima nota de Rui Ramos sobre as relações nem sempre fáceis entre o português (colonial, dominante) e o kimbundu (ou quimbundo, o falar das gentes de Luanda-Malanje). Termos usados hoje pelos nossos jovens, como cota (dikota, pessoa mais velha) são provenientes do kimbundu. Sobre as questões de grafia (kimbundu ou quimbundo), ver igualmente a resposta do angolano Rui Ramos, especialista em línguas africanas, no mesmo sítio. Não se deve confundir, no entanto, o kimbundu com o calão de Luanda (caso de bué, e outras expressões que se ouvem na noite lisboeta).
Kinguila - Rapariga ou mulher que, no mercado paralelo, se dedica ao câmbio de moeda. Em geral, os maços de kwanzas e de dólares são guardados nos seios. Este negócio era tradicionalmente dos zairotas, habitantes do Zaire. Segundo o portal Netangola, numa página com preciosas dicas para os homens de negócios estrangeiros em visita a Luanda, "one can often find in the streets of the city the typical Kinguila - the seller of money - who normally offers the best quotation. This practice is forbidden by the authorities and offers some risks".
Kixikila - Em kimbundu, quer dizer contribuição, em dinheiro, para um dado fim colectivo. Em África, em geral, e em Angola, em particular, é aquilo que se designa pela expressão inglesa Rotating Savings and Credit Associations (ROSCA), um sistema informal de poupança e crédito, um grupo de ajuda mútua, liderado em geral por uma mulher, a "mãe de kixikila". O pequeno grupo, de cinco a dez elementos, tende a ser constituído por pessoas que estão ligadas entre si por laços de amizade, parentesco, vizinhança ou profissão. Cada elemento faz periodicamente uma determinada contribuição para um fundo comum que é depois utilizado rotativamente por cada um, com uma taxa de juro nula ou de valor reduzido. Na ausência de sistemas de crédito bancário acessíveis à generalidade da população, o kixikila voltou aos hábitos dos kaluandas como forma de atenuar ou reduzir o impacto da pobreza. O kixikila está hoje vulgarizado, não só entre as vendedeiras, quitandandeiras e kinguilas, mas também nos serviços públicos e nas empresas (vd. Neto, S. - Kixikila não é uma lotaria. Economia & Mercado. 19 (Maio-Junho de 2004). 40-42). Vd. também: Ducados, H.L.; Ferreira, M.E. (1998) - O financiamento informal e as estratégias de sobrevivência económica das mulheres em Angola : a Kixikila no caso do município do Sambizanga (Luanda). Lisboa: CEsA - Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento. Instituto Superior de Economia e Gestão. Universidade Técnica de Lisboa. 1998 (Documentos de Trabalho, 53).
Kwanza - Moeda local. 1 dólar equivale a c. 85 kwanzas. O cacete (tipo de pão) custa cerca de 20 kwanzas (Julho de 2004). Consultar também o sítio oficial da República de Angola.
Muceques - Bairros populares degradados de Luanda.
Quitandeira - Vendedora de rua (ou de mercado), em geral de produtos hortofrutícolas. Vem de quitanda, um termo kimbundu que significa expor (determinados produtos para venda), e, por extensão, feira ou mercado. Há um belíssimo poema de Agostinho Neto sobre a quitandeira, que vem no seu livro Sagrada Esperança (1974): "A quitanda. Muito sol /e a quitandeira à sombra / da mulemba. /- Laranja, minha senhora, /laranjinha boa!"...
Zungueira - Vendedor ambulante, uma figura típica da economia paralela de Luanda. Em geral é do sexo feminino, mas também há cada mais jovens e crianças do sexo masculino. Estima-se que 70% da população de Luanda, em idade activa, seja zungueira. Ninguém sabe ao certo qual é a população actual da cidade e periferia: estima-se que possa chegar aos 4 milhões (a maior parte deslocados de guerra), ou seja, mais de 1/3 da população angolana actual, estimada actualmente pela CIA em c. 11 milhões de habitantes. Do verbo zunguar (andar para cima e para baixo, circular tentando vender alguma coisa). As zungueiras abastecem-se em mercados como o Roque Santeiro ou o Kikolo, onde não é aconselhável, por razões de segurança, a visita do turista estrangeiro. Considerando a sua densidade populacional e o drama do seu quotidiano, Luanda é apesar de tudo uma cidade com uma baixa taxa de criminalidade. Sobre o comércio informal, a figura da zungueira e a arte de sobreviver em Luanda, veja-se uma excelente reportagem assinada pelo jornalista e sociólogo Paulo de Carvalho (paulodecarvalho@sociologist.com, na revista Economia & Mercado. 19 (Maio-Junho de 2004).34-39.
Fotos de Luanda e de outros sítios de Angola:
O meu álbum de fotografias > Angola > Luanda > Cidade / City (tiradas em data posterior a este post)
Angola > Imagens
Luanda > Ilha do Mussulo > Imagens
Luanda > 1983 > Imagens
Lusoáfrica > Angola > Fotografias
Outros sítios sobre Angola (história, sociedade, economia, cultura):
Nhamalanda > História da Família Costa
SanzalAngola > Página de Helder de Sousa
UEA - União dos Escritores Angolanos
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