30 março 2004

O tripaliu(m) que mata a gente - III: O assédio moral

1. O assédio moral e outras formas de violência no local de trabalho não são de ontem nem de hoje mas agravam-se em épocas de crise. Um indício disso é o facto de hoje se falar mais nestes fenómenos, de haver mais casos que chegam ao nosso conhecimento, de haver inclusivamente uma tentativa para lhe dar uma moldura legal, criminalizando este tipo de comportamentos.



Por exemplo, o nosso Código do Trabalho, que entrou em vigor a partir de 1 de Dezembro de 2003, consagra a figura do assédio e dá uma definição alargada (se bem que imprecisa) desta forma de violência. Segundo o art. 24º (Assédio), (i) constitui discriminação o assédio a candidato a emprego e a trabalhador; (ii) entende-se por assédio todo o comportamento indesejado relacionado com um dos factores indicados no nº1 do art. 23º, praticado aquando do acesso ao emprego, ou no próprio emprego, trabalho ou formação profissional, com o objectivo ou o efeito de afectar a dignidade da pessoa, ou criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador; (iii) constitui, em especial, assédio, todo o comportamento indesejado de carácter sexual, sob forma verbal, não verbal ou física, com o objectivo ou o efeito referido no número anterior".



O nº 1 do artº 23º diz explicitamente que "o empregador não pode praticar qualquer discriminação, directa ou indirecta, baseada, nomeadamente, na ascendência, idade, sexo, orientação sexual, estado civil, situação familiar, património genético, capacidade de trabalho reduzida, deficiência, doença crónica, nacionalidade, origem étnica, religião, convicções políticas ou ideológicas e filiação sindical".



2. Para a organização Opusgay, "o novo Código de Trabalho atenta, em muitos aspectos, contra direitos adquiridos dos trabalhadores"; todavia, "na questão da luta contra a discriminação, foi dado um forte passo, em virtude da obrigatoriedade de transposição da Directiva 2000/78/CE".



Esta Directiva (Directiva 2000/78/CE do Conselho, de 27 de Novembro de 2000) estabelece o quadro legal de igualdade de tratamento no emprego e na actividade profissional.



Para a Opusgay há "um conceito de assédio mais alargado (que) está agora em vigor", passando a ser proibido "qualquer comportamento indesejado dos outros que, injustificadamente, humilhe ou intimide uma pessoa (por exemplo, em função da sua homossexualidade)".



Em teoria, não cabe à vítima de assédio fazer o ónus da prova. Na prática, continua a ser "muito difícil falar disto" e sobretudo criminalizar o assédio, seja ele praticado pelo empregador e/ou seus representantes, ou seja ele imputado aos colegas de trabalho da vítima...



3. Há dias recebi um pedido de ajuda, bastante dramático, de alguém, uma mulher, que está a ser alvo de comportamentos de intimação no seu local de trabalho. Falei com ela pelo telefone, e dei-lhe o conforto e a solidariedade possíveis. Acho que, nestas situações, o mais importante é saber ouvir mais do que falar... Dei-lhe também algumas dicas, por e-mail: Por exemplo, falei-lhe de Marie France Hirigoyen, a psiquiatra francesa que tem dois livros publicados em Portugal. Aconselhei a minha interlocutora a comprar o mais recente (2002). Ele é hoje reconhecida como uma autoridade a nível mundial neste domínio. "O livro custa à volta de 15 euros. É excepcional, você vai reconhecer-se nele... Pode ajudá-la a defender-se e sobretudo a sobreviver em toda esta história, com saúde mental, que é o mais importante".



Aqui ficam, para outros interessados, as referências bibliográficas:



Hirigoyen, M.-F. (1999). Assédio, Coacção e Violência no Quotidiano. Lisboa: Pergaminho.

Hirigoyen M.-F. (2002). O Assédio no Trabalho - Como Distinguir a Verdade. Lisboa: Pergaminho.



Veja-se também o sítio oficial, na Net, de Marie-France Hirigoyen, em francês. Há um grupo de profissionais brasileiros, ligados à saúde e segurança do trabalho, que também têm um excelente sítio sobre este tópico: Assédio moral no trabalho: chega de humilhação!



Em inglês há muito mais bibliografia em diversos sites.





4. Recebi logo a seguir a resposta desta jovem (que trabalha no ensino superior). Eis alguns extractos do e-mail que me mandou:



" (...) Estou-lhe muito agradecida pela amabilidade e prontidão com que atendeu o meu pedido e por toda a informação que me enviou. Vou certamente comprar o livro que me aconselhou e também ver se consigo que o meu colega o leia pois, de facto, não sabemos ambos como lidar com a situação.



"Apenas tive oportunidade de dar uma vista de olhos [aos sites citados. Num deles] é referido que muitos autores e a generalidade das pessoas que foram vítimas de assédio recomendam a mudança de emprego como medida de preservação da saúde física e mental. Como concordo com esta afirmação, esta questão é para mim a mais preocupante. Tenho consciência de que tanto eu como o meu colega não o conseguiremos fazer rapidamente uma vez que, na nossa área, há inclusivamente doutorados a candidatar-se a bolsas anuais de 150 contos e maior parte das pessoas chega a levar anos a encontrar um emprego que, na maioria das vezes, é tão ou mais precário que o nosso. Dedicámos também já muito trabalho ao emprego que temos e à progressão na carreira, conseguindo isto à custa de muito sofrimento pessoal e das nossas famílias. Acho, por isso, está mesmo na altura de ler o livro que me recomendou.



"Também já me apercebi que a maioria das pessoas que se encontra na nossa situação não fala a maior parte das vezes do seu caso e, por isso, estamos ainda mais isolados. O sigilo obriga-nos ainda a isolar-nos mais e, por isso, penso que o melhor é recorrer directamente aos serviços jurídicos dos sindicatos que mencionou" (por ex., sindicatos dos professores, sindicatos da função pública).



5. Infelizmente, para além do apoio jurídico, muitas das pessoas que são vítimas de violência no local de trabalho (e mais concretamente de assédio, sexual ou moral), também precisam de apoio clínico e psicoterapêutico. Repare-se que esta violência não é, em princípio, física, mas sobretudo psicológica. Há várias desiganções para este fenómeno, nas nossas línguas europeias: harrassement, mobbing, bullying, assédio, terrorismo organizacional, intimidação... Gosto particularmente do termo castelhano acoso ... A vítima de assédio moral no local de trabalho sente-se, em muitos casos, como um "animal acossado"!



E a verdade é que os nossos serviços de saúde (a começar pelos Serviços de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho, mas também o Serviço Nacional de Saúde) não estão ainda sensibilizados e preparados para lidar com estes casos. Considero, no entanto, que o médico de família, nos centros de saúde, e o médico do trabalho, nos serviços de saúde/medicina do trabalho, podem e devem ter uma intervenção qualificada nestes casos.



6. Infelizmente, este é um mundo de sigilo, silêncio, solidão, vergonha, medo... Mas é bom que falemos bem alto destas coisas, porque elas também parte do tripaliu(m) que mata a gente .

O tripaliu(m) que mata a gente - III: O assédio moral

1. O assédio moral e outras formas de violência no local de trabalho não são de ontem nem de hoje mas agravam-se em épocas de crise. Um indício disso é o facto de hoje se falar mais nestes fenómenos, de haver mais casos que chegam ao nosso conhecimento, de haver inclusivamente uma tentativa para lhe dar uma moldura legal, criminalizando este tipo de comportamentos.

Por exemplo, o nosso Código do Trabalho, que entrou em vigor a partir de 1 de Dezembro de 2003, consagra a figura do assédio e dá uma definição alargada (se bem que imprecisa) desta forma de violência. Segundo o art. 24º (Assédio), (i) constitui discriminação o assédio a candidato a emprego e a trabalhador; (ii) entende-se por assédio todo o comportamento indesejado relacionado com um dos factores indicados no nº1 do art. 23º, praticado aquando do acesso ao emprego, ou no próprio emprego, trabalho ou formação profissional, com o objectivo ou o efeito de afectar a dignidade da pessoa, ou criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador; (iii) constitui, em especial, assédio, todo o comportamento indesejado de carácter sexual, sob forma verbal, não verbal ou física, com o objectivo ou o efeito referido no número anterior".

O nº 1 do artº 23º diz explicitamente que "o empregador não pode praticar qualquer discriminação, directa ou indirecta, baseada, nomeadamente, na ascendência, idade, sexo, orientação sexual, estado civil, situação familiar, património genético, capacidade de trabalho reduzida, deficiência, doença crónica, nacionalidade, origem étnica, religião, convicções políticas ou ideológicas e filiação sindical".

2. Para a organização Opusgay, "o novo Código de Trabalho atenta, em muitos aspectos, contra direitos adquiridos dos trabalhadores"; todavia, "na questão da luta contra a discriminação, foi dado um forte passo, em virtude da obrigatoriedade de transposição da Directiva 2000/78/CE".

Esta Directiva (Directiva 2000/78/CE do Conselho, de 27 de Novembro de 2000) estabelece o quadro legal de igualdade de tratamento no emprego e na actividade profissional.

Para a Opusgay há "um conceito de assédio mais alargado (que) está agora em vigor", passando a ser proibido "qualquer comportamento indesejado dos outros que, injustificadamente, humilhe ou intimide uma pessoa (por exemplo, em função da sua homossexualidade)".

Em teoria, não cabe à vítima de assédio fazer o ónus da prova. Na prática, continua a ser "muito difícil falar disto" e sobretudo criminalizar o assédio, seja ele praticado pelo empregador e/ou seus representantes, ou seja ele imputado aos colegas de trabalho da vítima...

3. Há dias recebi um pedido de ajuda, bastante dramático, de alguém, uma mulher, que está a ser alvo de comportamentos de intimação no seu local de trabalho. Falei com ela pelo telefone, e dei-lhe o conforto e a solidariedade possíveis. Acho que, nestas situações, o mais importante é saber ouvir mais do que falar... Dei-lhe também algumas dicas, por e-mail: Por exemplo, falei-lhe de Marie France Hirigoyen, a psiquiatra francesa que tem dois livros publicados em Portugal. Aconselhei a minha interlocutora a comprar o mais recente (2002). Ele é hoje reconhecida como uma autoridade a nível mundial neste domínio. "O livro custa à volta de 15 euros. É excepcional, você vai reconhecer-se nele... Pode ajudá-la a defender-se e sobretudo a sobreviver em toda esta história, com saúde mental, que é o mais importante".

Aqui ficam, para outros interessados, as referências bibliográficas:

Hirigoyen, M.-F. (1999). Assédio, Coacção e Violência no Quotidiano. Lisboa: Pergaminho.
Hirigoyen M.-F. (2002). O Assédio no Trabalho - Como Distinguir a Verdade. Lisboa: Pergaminho.

Veja-se também o sítio oficial, na Net, de Marie-France Hirigoyen, em francês. Há um grupo de profissionais brasileiros, ligados à saúde e segurança do trabalho, que também têm um excelente sítio sobre este tópico: Assédio moral no trabalho: chega de humilhação!

Em inglês há muito mais bibliografia em diversos sites.


4. Recebi logo a seguir a resposta desta jovem (que trabalha no ensino superior). Eis alguns extractos do e-mail que me mandou:

" (...) Estou-lhe muito agradecida pela amabilidade e prontidão com que atendeu o meu pedido e por toda a informação que me enviou. Vou certamente comprar o livro que me aconselhou e também ver se consigo que o meu colega o leia pois, de facto, não sabemos ambos como lidar com a situação.

"Apenas tive oportunidade de dar uma vista de olhos [aos sites citados. Num deles] é referido que muitos autores e a generalidade das pessoas que foram vítimas de assédio recomendam a mudança de emprego como medida de preservação da saúde física e mental. Como concordo com esta afirmação, esta questão é para mim a mais preocupante. Tenho consciência de que tanto eu como o meu colega não o conseguiremos fazer rapidamente uma vez que, na nossa área, há inclusivamente doutorados a candidatar-se a bolsas anuais de 150 contos e maior parte das pessoas chega a levar anos a encontrar um emprego que, na maioria das vezes, é tão ou mais precário que o nosso. Dedicámos também já muito trabalho ao emprego que temos e à progressão na carreira, conseguindo isto à custa de muito sofrimento pessoal e das nossas famílias. Acho, por isso, está mesmo na altura de ler o livro que me recomendou.

"Também já me apercebi que a maioria das pessoas que se encontra na nossa situação não fala a maior parte das vezes do seu caso e, por isso, estamos ainda mais isolados. O sigilo obriga-nos ainda a isolar-nos mais e, por isso, penso que o melhor é recorrer directamente aos serviços jurídicos dos sindicatos que mencionou" (por ex., sindicatos dos professores, sindicatos da função pública).

5. Infelizmente, para além do apoio jurídico, muitas das pessoas que são vítimas de violência no local de trabalho (e mais concretamente de assédio, sexual ou moral), também precisam de apoio clínico e psicoterapêutico. Repare-se que esta violência não é, em princípio, física, mas sobretudo psicológica. Há várias desiganções para este fenómeno, nas nossas línguas europeias: harrassement, mobbing, bullying, assédio, terrorismo organizacional, intimidação... Gosto particularmente do termo castelhano acoso ... A vítima de assédio moral no local de trabalho sente-se, em muitos casos, como um "animal acossado"!

E a verdade é que os nossos serviços de saúde (a começar pelos Serviços de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho, mas também o Serviço Nacional de Saúde) não estão ainda sensibilizados e preparados para lidar com estes casos. Considero, no entanto, que o médico de família, nos centros de saúde, e o médico do trabalho, nos serviços de saúde/medicina do trabalho, podem e devem ter uma intervenção qualificada nestes casos.

6. Infelizmente, este é um mundo de sigilo, silêncio, solidão, vergonha, medo... Mas é bom que falemos bem alto destas coisas, porque elas também parte do tripaliu(m) que mata a gente .

25 março 2004

Portugal sacro-profano - XVI: De Coimbra B a Lisboa SA

14:13h. Coimbra B. Estação da CP. Deprimente. Como todas as estações B do mundo. Como todas as estações da CP. B de 2ª classe. B, segunda letra do alfabeto. Como todas as estações da CP urbanas, suburbanas e rurais.



Deprimentes. Todas as estações de caminho de ferro do mundo são deprimentes. Abro talvez uma excepção para os apeadeiros. São bonitos, os apeadeiros. Ou eram bonitos os apeadeiros, quando havia o cavador, o boi, a charrua, o burro, o camponês, o portuga camponês e burro, a horta, a saída directa para os campos. As hortas. O termo apeadeiro faz-me lembrar os tempos em que se ia às hortas. Eu já não sou desse tempo. Mas os alfacinhas iam às hortas dos saloios. Benfica, Porcalhota, Pontinha, Caneças, Colares, Sintra... Gosto do termo apeadeiro. E da ideia de ir passear às hortas. Em família, aos domingos, de comboio. Ronceiro, o comboio. Ronceira, a vida da gente.



Li isso algures numa história qualquer sobre os comboios que unificaram o país de norte a sul. Há uma dívida de gratidão que é devida aos comboios. E aos homens dos comboios. E aos engenheiros das estradas e pontes. Ao engenho e à obra. Ao Fontes. Aos Fontes. Mesmo que a minha professora de sociologia histórica, discípula do E.P. Thompson, só goste dos corticeiros que eram anarcossindicalistas. Sempre suspeitei que ela não gostasse dos cavadores. Nem de comboios. Nem de hortas. Nem do Fontes. Naquele tempo parava-se em todas estações e apeadeiros. E havia tempo, não havia pressa. Não havia stresse naquele tempo. O stresse é uma construção social do meu tempo. E não havia bombas nos comboios. Ao alcance de um qualquer toque de telemóvel da Nokia ou da Siemens, tanto faz. Que as novas tecnologias quando nascem (não) são para todos.



Ou talez houvesse stresse mas chamavam-lhe outra coisa. Afinal, é tão velho como a vida. E morria-se cedo naquele tempo. E há sessenta e tal anos, na França ocupada, os ferroviários também punham bombas nas linhas de caminhos de ferro. Para fazer descarrilar os comboios. Sabotagem. Resistência ao ocupante nazi. Será que hoje seriam caçados como terroristas internacionais ?





Não sou ferroviário nem resistente. Estou numa estação deprimente. Coimbra B. Coimbra merecia, pelo menos, uma estação A. Ouço uma voz gritante. Alfarelos. Com paragem não sei onde. Nunca soube, ao certo, onde fica Alfarelos. Vim de boleia. De Viseu. Aguardo o Alfa Pendular para Lisboa. Aliás, Lisboa SA. Deve chegar às 15:16h.

- Lisboa, Sociedade Anónima ?

- Não, Lisboa, Santa Apolónia, corrige o portuga por detrás do guiché.

- Mas eu não quero Santa Apolónia. Quero a Estação de Lisboa Oriente.

E depois... o que diria o Zé (Cardoso Pires)!

- Lisboa, SA!



Sou um mau utilizador do comboio. Comprei um bilhete de 2ª classe. 17 euros, IVA incluído à taxa de 5%.

- 2ª classe ?, pergunta o portuga que fala em nome da CP. Como se me tirasse as medidas. Ou espreitasse para a minha secreta conta bancária. 2ª classe, por defeito. Para quem não ostenta sinais exteriores de riqueza. Classe B. E eu a pensar ingenuamente que já não havia 2ª classe. Comboios de 2ª classe. Gente de 2ª classe (Ah!, meu velho José Rodrigues Miguéis, e a tua gente de 3ª classe nos porões nauseabundos dos cargueiros que rumavam às Américas!).



2ª classe ou turística ? Devo ter percebido mal. Os comboios e a CP também se democratizaram. Agora só há turística e conforto no alfa pendular de todas as emoções e condições. O Portugal SA já não é mais classista. Para ter classe basta ter dinheiro no multibanco.

- Vê-se mesmo que o senhor é um utente acidental da CP, já não há 2ª classe, garanto-lhe eu.



Em contrapartida, o outro gajo, o do guiché, ainda não fez o upagrade do seu software sociolinguístico. É por isso é que a CP ainda tem uma imagem negativa que tem junto do público.

- O senhor,desculpe, mas eu sou fã dos combóios e tinha que lhe dizer isto. Também vou para Lisboa, desço na Gare do Oriente...



Tenho tempo. Nada como esperar um comboio numa estação de tipo Coimbra B para saber o que é isso de ter tempo. É bom ter tempo. Uma hora de avanço. Como uma sandes manhosa no bar da esquina. Bebo uma topázio que é uma cerveja local. Compro o Zé Cardoso Pires no quiosque. A república dos corvos. Um livro de contos. Jornal Público. Colecção Mil Folhas, ao preço de hipermercado. Redescubro o meu velho Dinossauro Excelentíssimo. Que li na revista Almanaque, se bem me lembro. Deambulo no cais de embarque como o prisioneiro no pátio da prisão. E leio a única coisa interessante que está afixada na parede da estação de Coimbra B. Alguém mandou afixar. Creio que em bronze (sou mau em metais):

- "Neste cais da estação de Coimbra, embarcou, no dia 15 de Maio de 1982, Sua Santidade o Papa João Paulo II".



O artista não quis desqualificar a estação nem a cidade. Coimbra B, o que diria a corte papal! E os turistas que visitam a cidade dos doutores. E os vindouros. Mas lá fica a tabuleta. Para a história. Para o viajante distraído, apressado ou deprimido como eu, a caminho do sul. Para ninguém. Quem lê neste país placas de bronze afixadas em estações B da CP ? Aliás, quem lê neste país?



Um dia um arqueólogo, um historiador ou um antiquário desaparafusa a placa e leva-a para casa, para o museu ou para a loja. Não acontece nada em Coimbra B. Mas por aqui passou um peregrino. João Paulo II. Em 1982. Por aqui passou Jesus Cristo, na pessoa do seu representante na terra. Sou mau em metais e em teologia. Mas esta é a minha leitura. Peço desculpa aos mais doutos blogadores do que eu. Peço desculpa aos doutores de Coimbra.



Chega o Alfa. Just in time, como na linha de montagem automóvel pós-taylorista da AutoEuropa. Entro no Alfa e sinto-me quase europeu na ponta mais ocidental da Europa. Com o lusitano Mondego aqui ao lado. Admiro a eficiência das sociedades pós-tayloristas e cosmopolitas. A nossa nunca chegou a conhecer o Sr. Taylor. Provinciana e ronceira, lá diria o Eça. Acelera o Alfa. Tenho um secreta vertigem suicidária pela alta velocidade. Dou por bem empregues os meus 17 euros. Isto faz bem à minha auto-estima. Sobretudo depois da sandocha manhosa e da topázio morna que engoli, de pé, ao balcão, do bar manhoso da estação deprimente de Coimbra B.

- Quanto vai dar ?

- Chega aos 200 ou mais, diz-me um puto de brinco na orelha...



Não apostei. Nem gosto de apostas. Deixei de ser solidário.

- Umas cartas para passar o tempo ?

- Não, obrigado, não jogo, não aposto, não fumo.



Abranda o Alfa lá para os lados da Albergaria dos Doze. Regresso à idade média da minha memória colectiva. O caminho de Santiago. As albergarias. Já em terra dos mouros. La folie meutrière de la réligion. A tua, a minha. Deus é grande e tem muitos profetas. São bons hortelãos, os mouros e os moçárabes.

- Chega à tabela. Dezassete e seis na Estação do Oriente, diz-me o pica, orgulhoso.

- Até que enfim que os comboios partem e chegam à tabela na nossa terra. Fico sempre com inveja quando vou a Amesterdão e a Leiden. Quando ia à Hoalnda, que agora já não vou. Quero dizer, ao estrangeiro de fora.

- Já não te calha na rifa. Agora são vinte e cinco cães a um osso.

- Vai desejar tomar alguma coisa ?, pergunta no futuro próximo o homem do chá, café, laranjada...

- Um Prozac, por favor.

- Lamento, mas já não temos. Esgotou-se.

- Sim ?

- Esgotou-se na última viagem que fizemos ao inferno. 11 de Março último. Estação de Atocha. Madrid. Não leu nos jornais ?

- Não, acabo de chegar doutro planeta.

- En Madrid existen dos estaciones principales de tren: Chamartín y Atocha. Ambas son estaciones de trenes de largo recorrido y de cercanías...

- Muchas gracias!, não sabia. Não vou a Madrid há anos.

- Atocha está situada en la zona sur de la ciudad, muy cercana al centro. Desde ella salen todos los trenes de largo recorrido que van a levante y al sur de España. También algunos trenes de los que pasan por la estación se dirigen luego a Chamartín y luego a destinos en la mitad norte de la península. Dentro de la estación hay otra estación llamada Puerta de Atocha desde donde sale el tren de alta velocidad (AVE) que va a Andalucía...

- Muchas gracias! Vejo que é um homem viajado.

- Só faço a península ibérica. Sabe, nasci no Entroncamento, filho e neto de ferroviários. Os comboios estão-me na massa do sangue... Mas a Espanha para mim é pura emoção. Uma tragédia horrível, aquela...

- E não tem medo do futuro dos comboios ?

- Não... Com os aviões passou-se o mesmo. Enfim, um homem tem que ganhar a vida de qualquer jeito.

- Olhe, já agora dê-me um compal de maçã.



Fico sempre deprimido quando tomo o comboio. Ou quando parto. Ou quando bebo compal de maçã. Não sei por que pedi o raio do compal. Reflexo condicionado. Que é coisa rara, tomar o comboio. Nasci numa terra onde não passavam comboios. É um estranho sentimento, esse, que me acompanha desde pequeno. Mas o compal de maçã até é bom. E dizem que vale mais do que uma chávena de café para te tirar o sono.

- Já sei, saíste cedo da casa de teus pais, ainda menino e moço!?

- É a voz do sangue, o meu lado de marinheiro que nunca fui.



Em boa verdade, detesto os entroncamentos. Rodo ou ferroviários. Detesto o Entroncamento. Da primeira vez que lá passei. Meia de dúzia de casas mal caiadas, uma feixe de linhas e cheiro a sucata. Mas tenho a nostalgia dos cais de embarque. A nostalgia do mar e da maresia. Uma palavra que mexe comigo. Cais. Cais de embarque. Niassa. Rocha Conde de Óbidos. Num comboio que veio da noite, silencioso e triste. Do Campo Militar de Santa Margarida. Destino: Lisboa. Com carga para outro destino: Bissau. Primavera de 1969. Numa outra primavera que não chegou a haver.

- Política, meu estúpido!, a primavera política do Marcelo Cetano.



Eras jovem e não vias a luz ao fundo do túnel. Nem muito menos as luzes da cidade-luz. Paris. Perdeste o último comboio para Paris. Com o teu amigo que queria ser pintor. Fernando Nobis. Com paragem, talvez em Atocha, para visitar o Greco, o Velasquez, o Goya, os grandes de Espanha que estão no Prado...

- És doido, ou quê ?! Com a pide à perna, mais os fascistas da guardia civil!



Fazia sol e frio em Viseu. O país profundo. O país que mexe. Gosto sempre de ler os jornais da terra quando estou no hotel. Três estrelas, o hotel. Novo. Bom serviço. Mas faz frio à noite.

- Voyeurismo, pensa ela. A rapariga do bar.



Oito páginas, entre notícias locais e os pequenos anúncios classificados. Duas páginas de anúncios pessoais. "A brasileira do bumbum...A universitária que faz oral... A mulatinha dengosa"... Linguagem de código. A semiótica da solidão. Do sexo triste e solitário.

- Ligue para o meu telemóvel, que a crise bate a todas as portas, sem distinção de género, etnia, cor, condição ou religião.

- A crise também chegou ao teu país profundo, baby.

- Ah!, mas Viseu, como cresceu, meu Deus!

- Não sei se cresceu bem... Não sou de cá.



O Politécnico, o túnel de Viriato. Os colóquios. Os debates. As ideias. Os intelectuais e artistas que vêm de fora. O comércio. O fórum, que há-de vir. A Grande Área Metropolitana de Viseu. Quase 400 mil. O orgulho de se ser do cavaquistão.

- Ruas, estás de granito!, diz o grafito. (Ruas é o presidente da Câmara)



Nada como um bom grafito na terra do Grão Vasco:

- Apreciem o lado empreendedor dos beirões.

- Só falta a Universidade, que mais de 10 mil universitários já cá temos.

- Tiraram-nos a Faculdade de Medicina, os malandros da Covilhã.



Outro lóbi beirão, o da Covilhã. Registo o orgulho dos putos da Associação de Estudantes da Escola Superior de Enfermagem de Viseu que realizam anualmente as suas jornadas de enfermagem. Este ano, na sua 16ª edição. O país mexe. Viseu mexe. O país profundo mexe. Os jovens deste país mexem. Mesmo com capa e batina, vestidos de preto como o corvo do Zé (Cardoso Pires).



16:30h. Passou o corpo pelas brasas. Perdi um pedaço de mundo.

- O Alfa vai a 140, ó puto. Temperatura: 19º interior. 20º exterior, leio do tabelau de bord.

- Mas agora abranda. 129, 101, 74, 52... Está parado.

- Porquê ?



Uma placa com um S, outra com um M. Não percebo nada da sinalética dos comboios. Obras. Modernização da linha. Tenho um pensamento para com os trabalhadores anónimos que constroem as novas linhas dos caminhos de ferro do futuro. Ucranianos ? Africanos ? Imigras ? Clandestinos ?

- Não lhes vejo nem a cara nem o passaporte.

- Podiam estar a trabalhar na estufas de Almeria, o inferno na terra. Mas aí são magrebinos.

- O novo proletariado do Século XXI.

- Desço na Oriente. Mandem alguém da empresa buscar-me.

- Dá o Benfica na SporTV.



E de novo o Alfa em marcha... A paisagem muda. A paisagem industrial da bacia do Tejo. A ocupação selvagem da lezíria. Mataram os campinos e o gado bravo. O branqueamento de dinheiro que vai por essa nova Lisboa Oriental. A luxuriante estação do Oriente. Just in time.



17:06h. Cheguei. Balanço do cliente:

- Pensei que já fosse o TGV. O TGV é que é.

- Não é o TGV, mas por mim não desgostei. De viajar no Alfa Pendular. Turística, claro. De Coimbra B a Lisboa SA. 17 euros, IVA incluído à taxa de 5%. Mais 10% de desconto nos Hotéis Tal & Tal. Tive tempo para (des)arrumar algumas ideias. E o puto tinha razão: na ponta final, o Alfa Pendular dá mesmo os 210.



Um dia ainda vou ter orgulho na CP e na terra onde nasci e onde nunca vi passar os comboios. Os comboios não passam na minha terra. Nem chegam a Viseu. Um abraço aos viriatos. Até para o ano. Voltarei, se me convidarem. De Expresso, pelo IP3 acima. Com regresso de comboio. Se não matarem o comboio que pára em Coimbra B. E não me esquecerei de Atocha. Sobretudo não esquecerei Atocha quando voltar a Coimbra B. De Lisboa SA com amor.

Portugal sacro-profano - XVI: De Coimbra B a Lisboa SA

14:13h. Coimbra B. Estação da CP. Deprimente. Como todas as estações B do mundo. Como todas as estações da CP. B de 2ª classe. B, segunda letra do alfabeto. Como todas as estações da CP urbanas, suburbanas e rurais.

Deprimentes. Todas as estações de caminho de ferro do mundo são deprimentes. Abro talvez uma excepção para os apeadeiros. São bonitos, os apeadeiros. Ou eram bonitos os apeadeiros, quando havia o cavador, o boi, a charrua, o burro, o camponês, o portuga camponês e burro, a horta, a saída directa para os campos. As hortas. O termo apeadeiro faz-me lembrar os tempos em que se ia às hortas. Eu já não sou desse tempo. Mas os alfacinhas iam às hortas dos saloios. Benfica, Porcalhota, Pontinha, Caneças, Colares, Sintra... Gosto do termo apeadeiro. E da ideia de ir passear às hortas. Em família, aos domingos, de comboio. Ronceiro, o comboio. Ronceira, a vida da gente.

Li isso algures numa história qualquer sobre os comboios que unificaram o país de norte a sul. Há uma dívida de gratidão que é devida aos comboios. E aos homens dos comboios. E aos engenheiros das estradas e pontes. Ao engenho e à obra. Ao Fontes. Aos Fontes. Mesmo que a minha professora de sociologia histórica, discípula do E.P. Thompson, só goste dos corticeiros que eram anarcossindicalistas. Sempre suspeitei que ela não gostasse dos cavadores. Nem de comboios. Nem de hortas. Nem do Fontes. Naquele tempo parava-se em todas estações e apeadeiros. E havia tempo, não havia pressa. Não havia stresse naquele tempo. O stresse é uma construção social do meu tempo. E não havia bombas nos comboios. Ao alcance de um qualquer toque de telemóvel da Nokia ou da Siemens, tanto faz. Que as novas tecnologias quando nascem (não) são para todos.

Ou talez houvesse stresse mas chamavam-lhe outra coisa. Afinal, é tão velho como a vida. E morria-se cedo naquele tempo. E há sessenta e tal anos, na França ocupada, os ferroviários também punham bombas nas linhas de caminhos de ferro. Para fazer descarrilar os comboios. Sabotagem. Resistência ao ocupante nazi. Será que hoje seriam caçados como terroristas internacionais ?


Não sou ferroviário nem resistente. Estou numa estação deprimente. Coimbra B. Coimbra merecia, pelo menos, uma estação A. Ouço uma voz gritante. Alfarelos. Com paragem não sei onde. Nunca soube, ao certo, onde fica Alfarelos. Vim de boleia. De Viseu. Aguardo o Alfa Pendular para Lisboa. Aliás, Lisboa SA. Deve chegar às 15:16h.
- Lisboa, Sociedade Anónima ?
- Não, Lisboa, Santa Apolónia, corrige o portuga por detrás do guiché.
- Mas eu não quero Santa Apolónia. Quero a Estação de Lisboa Oriente.
E depois... o que diria o Zé (Cardoso Pires)!
- Lisboa, SA!

Sou um mau utilizador do comboio. Comprei um bilhete de 2ª classe. 17 euros, IVA incluído à taxa de 5%.
- 2ª classe ?, pergunta o portuga que fala em nome da CP. Como se me tirasse as medidas. Ou espreitasse para a minha secreta conta bancária. 2ª classe, por defeito. Para quem não ostenta sinais exteriores de riqueza. Classe B. E eu a pensar ingenuamente que já não havia 2ª classe. Comboios de 2ª classe. Gente de 2ª classe (Ah!, meu velho José Rodrigues Miguéis, e a tua gente de 3ª classe nos porões nauseabundos dos cargueiros que rumavam às Américas!).

2ª classe ou turística ? Devo ter percebido mal. Os comboios e a CP também se democratizaram. Agora só há turística e conforto no alfa pendular de todas as emoções e condições. O Portugal SA já não é mais classista. Para ter classe basta ter dinheiro no multibanco.
- Vê-se mesmo que o senhor é um utente acidental da CP, já não há 2ª classe, garanto-lhe eu.

Em contrapartida, o outro gajo, o do guiché, ainda não fez o upagrade do seu software sociolinguístico. É por isso é que a CP ainda tem uma imagem negativa que tem junto do público.
- O senhor,desculpe, mas eu sou fã dos combóios e tinha que lhe dizer isto. Também vou para Lisboa, desço na Gare do Oriente...

Tenho tempo. Nada como esperar um comboio numa estação de tipo Coimbra B para saber o que é isso de ter tempo. É bom ter tempo. Uma hora de avanço. Como uma sandes manhosa no bar da esquina. Bebo uma topázio que é uma cerveja local. Compro o Zé Cardoso Pires no quiosque. A república dos corvos. Um livro de contos. Jornal Público. Colecção Mil Folhas, ao preço de hipermercado. Redescubro o meu velho Dinossauro Excelentíssimo. Que li na revista Almanaque, se bem me lembro. Deambulo no cais de embarque como o prisioneiro no pátio da prisão. E leio a única coisa interessante que está afixada na parede da estação de Coimbra B. Alguém mandou afixar. Creio que em bronze (sou mau em metais):
- "Neste cais da estação de Coimbra, embarcou, no dia 15 de Maio de 1982, Sua Santidade o Papa João Paulo II".

O artista não quis desqualificar a estação nem a cidade. Coimbra B, o que diria a corte papal! E os turistas que visitam a cidade dos doutores. E os vindouros. Mas lá fica a tabuleta. Para a história. Para o viajante distraído, apressado ou deprimido como eu, a caminho do sul. Para ninguém. Quem lê neste país placas de bronze afixadas em estações B da CP ? Aliás, quem lê neste país?

Um dia um arqueólogo, um historiador ou um antiquário desaparafusa a placa e leva-a para casa, para o museu ou para a loja. Não acontece nada em Coimbra B. Mas por aqui passou um peregrino. João Paulo II. Em 1982. Por aqui passou Jesus Cristo, na pessoa do seu representante na terra. Sou mau em metais e em teologia. Mas esta é a minha leitura. Peço desculpa aos mais doutos blogadores do que eu. Peço desculpa aos doutores de Coimbra.

Chega o Alfa. Just in time, como na linha de montagem automóvel pós-taylorista da AutoEuropa. Entro no Alfa e sinto-me quase europeu na ponta mais ocidental da Europa. Com o lusitano Mondego aqui ao lado. Admiro a eficiência das sociedades pós-tayloristas e cosmopolitas. A nossa nunca chegou a conhecer o Sr. Taylor. Provinciana e ronceira, lá diria o Eça. Acelera o Alfa. Tenho um secreta vertigem suicidária pela alta velocidade. Dou por bem empregues os meus 17 euros. Isto faz bem à minha auto-estima. Sobretudo depois da sandocha manhosa e da topázio morna que engoli, de pé, ao balcão, do bar manhoso da estação deprimente de Coimbra B.
- Quanto vai dar ?
- Chega aos 200 ou mais, diz-me um puto de brinco na orelha...

Não apostei. Nem gosto de apostas. Deixei de ser solidário.
- Umas cartas para passar o tempo ?
- Não, obrigado, não jogo, não aposto, não fumo.

Abranda o Alfa lá para os lados da Albergaria dos Doze. Regresso à idade média da minha memória colectiva. O caminho de Santiago. As albergarias. Já em terra dos mouros. La folie meutrière de la réligion. A tua, a minha. Deus é grande e tem muitos profetas. São bons hortelãos, os mouros e os moçárabes.
- Chega à tabela. Dezassete e seis na Estação do Oriente, diz-me o pica, orgulhoso.
- Até que enfim que os comboios partem e chegam à tabela na nossa terra. Fico sempre com inveja quando vou a Amesterdão e a Leiden. Quando ia à Hoalnda, que agora já não vou. Quero dizer, ao estrangeiro de fora.
- Já não te calha na rifa. Agora são vinte e cinco cães a um osso.
- Vai desejar tomar alguma coisa ?, pergunta no futuro próximo o homem do chá, café, laranjada...
- Um Prozac, por favor.
- Lamento, mas já não temos. Esgotou-se.
- Sim ?
- Esgotou-se na última viagem que fizemos ao inferno. 11 de Março último. Estação de Atocha. Madrid. Não leu nos jornais ?
- Não, acabo de chegar doutro planeta.
- En Madrid existen dos estaciones principales de tren: Chamartín y Atocha. Ambas son estaciones de trenes de largo recorrido y de cercanías...
- Muchas gracias!, não sabia. Não vou a Madrid há anos.
- Atocha está situada en la zona sur de la ciudad, muy cercana al centro. Desde ella salen todos los trenes de largo recorrido que van a levante y al sur de España. También algunos trenes de los que pasan por la estación se dirigen luego a Chamartín y luego a destinos en la mitad norte de la península. Dentro de la estación hay otra estación llamada Puerta de Atocha desde donde sale el tren de alta velocidad (AVE) que va a Andalucía...
- Muchas gracias! Vejo que é um homem viajado.
- Só faço a península ibérica. Sabe, nasci no Entroncamento, filho e neto de ferroviários. Os comboios estão-me na massa do sangue... Mas a Espanha para mim é pura emoção. Uma tragédia horrível, aquela...
- E não tem medo do futuro dos comboios ?
- Não... Com os aviões passou-se o mesmo. Enfim, um homem tem que ganhar a vida de qualquer jeito.
- Olhe, já agora dê-me um compal de maçã.

Fico sempre deprimido quando tomo o comboio. Ou quando parto. Ou quando bebo compal de maçã. Não sei por que pedi o raio do compal. Reflexo condicionado. Que é coisa rara, tomar o comboio. Nasci numa terra onde não passavam comboios. É um estranho sentimento, esse, que me acompanha desde pequeno. Mas o compal de maçã até é bom. E dizem que vale mais do que uma chávena de café para te tirar o sono.
- Já sei, saíste cedo da casa de teus pais, ainda menino e moço!?
- É a voz do sangue, o meu lado de marinheiro que nunca fui.

Em boa verdade, detesto os entroncamentos. Rodo ou ferroviários. Detesto o Entroncamento. Da primeira vez que lá passei. Meia de dúzia de casas mal caiadas, uma feixe de linhas e cheiro a sucata. Mas tenho a nostalgia dos cais de embarque. A nostalgia do mar e da maresia. Uma palavra que mexe comigo. Cais. Cais de embarque. Niassa. Rocha Conde de Óbidos. Num comboio que veio da noite, silencioso e triste. Do Campo Militar de Santa Margarida. Destino: Lisboa. Com carga para outro destino: Bissau. Primavera de 1969. Numa outra primavera que não chegou a haver.
- Política, meu estúpido!, a primavera política do Marcelo Cetano.

Eras jovem e não vias a luz ao fundo do túnel. Nem muito menos as luzes da cidade-luz. Paris. Perdeste o último comboio para Paris. Com o teu amigo que queria ser pintor. Fernando Nobis. Com paragem, talvez em Atocha, para visitar o Greco, o Velasquez, o Goya, os grandes de Espanha que estão no Prado...
- És doido, ou quê ?! Com a pide à perna, mais os fascistas da guardia civil!

Fazia sol e frio em Viseu. O país profundo. O país que mexe. Gosto sempre de ler os jornais da terra quando estou no hotel. Três estrelas, o hotel. Novo. Bom serviço. Mas faz frio à noite.
- Voyeurismo, pensa ela. A rapariga do bar.

Oito páginas, entre notícias locais e os pequenos anúncios classificados. Duas páginas de anúncios pessoais. "A brasileira do bumbum...A universitária que faz oral... A mulatinha dengosa"... Linguagem de código. A semiótica da solidão. Do sexo triste e solitário.
- Ligue para o meu telemóvel, que a crise bate a todas as portas, sem distinção de género, etnia, cor, condição ou religião.
- A crise também chegou ao teu país profundo, baby.
- Ah!, mas Viseu, como cresceu, meu Deus!
- Não sei se cresceu bem... Não sou de cá.

O Politécnico, o túnel de Viriato. Os colóquios. Os debates. As ideias. Os intelectuais e artistas que vêm de fora. O comércio. O fórum, que há-de vir. A Grande Área Metropolitana de Viseu. Quase 400 mil. O orgulho de se ser do cavaquistão.
- Ruas, estás de granito!, diz o grafito. (Ruas é o presidente da Câmara)

Nada como um bom grafito na terra do Grão Vasco:
- Apreciem o lado empreendedor dos beirões.
- Só falta a Universidade, que mais de 10 mil universitários já cá temos.
- Tiraram-nos a Faculdade de Medicina, os malandros da Covilhã.

Outro lóbi beirão, o da Covilhã. Registo o orgulho dos putos da Associação de Estudantes da Escola Superior de Enfermagem de Viseu que realizam anualmente as suas jornadas de enfermagem. Este ano, na sua 16ª edição. O país mexe. Viseu mexe. O país profundo mexe. Os jovens deste país mexem. Mesmo com capa e batina, vestidos de preto como o corvo do Zé (Cardoso Pires).

16:30h. Passou o corpo pelas brasas. Perdi um pedaço de mundo.
- O Alfa vai a 140, ó puto. Temperatura: 19º interior. 20º exterior, leio do tabelau de bord.
- Mas agora abranda. 129, 101, 74, 52... Está parado.
- Porquê ?

Uma placa com um S, outra com um M. Não percebo nada da sinalética dos comboios. Obras. Modernização da linha. Tenho um pensamento para com os trabalhadores anónimos que constroem as novas linhas dos caminhos de ferro do futuro. Ucranianos ? Africanos ? Imigras ? Clandestinos ?
- Não lhes vejo nem a cara nem o passaporte.
- Podiam estar a trabalhar na estufas de Almeria, o inferno na terra. Mas aí são magrebinos.
- O novo proletariado do Século XXI.
- Desço na Oriente. Mandem alguém da empresa buscar-me.
- Dá o Benfica na SporTV.

E de novo o Alfa em marcha... A paisagem muda. A paisagem industrial da bacia do Tejo. A ocupação selvagem da lezíria. Mataram os campinos e o gado bravo. O branqueamento de dinheiro que vai por essa nova Lisboa Oriental. A luxuriante estação do Oriente. Just in time.

17:06h. Cheguei. Balanço do cliente:
- Pensei que já fosse o TGV. O TGV é que é.
- Não é o TGV, mas por mim não desgostei. De viajar no Alfa Pendular. Turística, claro. De Coimbra B a Lisboa SA. 17 euros, IVA incluído à taxa de 5%. Mais 10% de desconto nos Hotéis Tal & Tal. Tive tempo para (des)arrumar algumas ideias. E o puto tinha razão: na ponta final, o Alfa Pendular dá mesmo os 210.

Um dia ainda vou ter orgulho na CP e na terra onde nasci e onde nunca vi passar os comboios. Os comboios não passam na minha terra. Nem chegam a Viseu. Um abraço aos viriatos. Até para o ano. Voltarei, se me convidarem. De Expresso, pelo IP3 acima. Com regresso de comboio. Se não matarem o comboio que pára em Coimbra B. E não me esquecerei de Atocha. Sobretudo não esquecerei Atocha quando voltar a Coimbra B. De Lisboa SA com amor.

22 março 2004

Portugas que merecem as nossas palmas - VI: Aqueles que nos ajudam a fazer o luto

Cerca de 5000 portugueses, entre os zero e os trinta anos, morrem anualmente, em geral por causas violentas (acidentes de viação, de lazer ou de trabalho; homicídio, suicídio ou outras formas violentas, para além da doença), deixando destroçadas as suas famílias e inconsolados os seus amigos...



Apoiar e ajudar a fazer o luto aos pais, irmãos e amigos dos portugueses que morrem, em idade tão jovem, é justamente a missão de A Nossa Âncora, uma associação de entreajuda, com sede em Sintra, fundada em 1996, com o apoio do psiquiatra Dr. João Senfelt e da equipa de saúde mental comunitária de Sintra, pertencente ao Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda. À frente desta associação é de destacar o papel de Maria Emília Pires, sua fundadora e alma mater, e do poeta, engenheiro informático e doutorado em psicolopia social Abílio Oliveira (autor de Dar e Amar - Quando a Morte Invoca a Vida, 2003). Contactos: Tel. 21 910 57 50 / 21 910 57 55; fax 21 910 59 75.



Merece uma visita a página desta associação na Net, por ser interactiva e nela figurar a poesia em lugar de destaque.



Outra associação do género, mais recente e ainda em fase de instalação, é a Apelo - Apoio à Pessoa em Luta, com sede em Aveiro. Foi fundada e é dirigida por José Eduardo Rebelo, biólogo e mestre em psicologia, profesor da Universidade de Aveiro, autor do livro Desatar o Nó do Luto (Lisboa: Editorial Notícias, no prelo). Contactos: Tel. 234 34 17 09; telemóvel: 91 848 28 38 fax: 234 34 23 67; e-mail: apelo@iol.pt .



Tive há dias conhecimento do excelente trabalho que estas duas associações têm feito no apoio às pessoas em luto. Mais de mil e tal pessoas, a elas ligadas, estão hoje em condições de dar ajuda às famílias em luto, no caso da ocorrência de tragédias como a queda da ponte de Entre-os-Rios ou o ataque terrorista do 11 de Março em Madrid.



Infelizmente o nosso sistema de protecção civil e o próprio Serviço Nacional de Saúde parecem querer ignorar a sua existência e recusar os seus préstimos. Daí que as minhas palmas vão hoje para todos os membros, os técnicos e os dirigentes destas duas associações de grupos de auto-ajuda A Nossa Âncora e Apelo.



Estas palmas são tão mais merecidas quanto este tema (a morte e o luto) continua a ser tabu, tanto na nossa sociedade como nas nossas faculdades de medicina e demais escolas ligadas às formação de profissionais de saúde, para não falar já dos nossos hospitais e demais de serviços de saúde, onde, infelizmente, ainda é vulgar a morte dos nossos entes queridos ser comunicada anonimamente pela telefonista de serviço...



A nível internacional, destaque-se o papel de The Compassionate Friends, "an international self-help, mutual-support organization for bereaved parents, grandparents, and siblings of children who have died from any cause and at any age".

A sua missão é descrita como sendo a de " to assist families in the positive resolution of grief following the death of a child and to provide information to help others be supportive". Só nos EUA os Compassionate Friends têm cerca de 600 núcleos ("chapters").

Portugas que merecem as nossas palmas - VI: Aqueles que nos ajudam a fazer o luto

Cerca de 5000 portugueses, entre os zero e os trinta anos, morrem anualmente, em geral por causas violentas (acidentes de viação, de lazer ou de trabalho; homicídio, suicídio ou outras formas violentas, para além da doença), deixando destroçadas as suas famílias e inconsolados os seus amigos...

Apoiar e ajudar a fazer o luto aos pais, irmãos e amigos dos portugueses que morrem, em idade tão jovem, é justamente a missão de A Nossa Âncora, uma associação de entreajuda, com sede em Sintra, fundada em 1996, com o apoio do psiquiatra Dr. João Senfelt e da equipa de saúde mental comunitária de Sintra, pertencente ao Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda. À frente desta associação é de destacar o papel de Maria Emília Pires, sua fundadora e alma mater, e do poeta, engenheiro informático e doutorado em psicolopia social Abílio Oliveira (autor de Dar e Amar - Quando a Morte Invoca a Vida, 2003). Contactos: Tel. 21 910 57 50 / 21 910 57 55; fax 21 910 59 75.

Merece uma visita a página desta associação na Net, por ser interactiva e nela figurar a poesia em lugar de destaque.

Outra associação do género, mais recente e ainda em fase de instalação, é a Apelo - Apoio à Pessoa em Luta, com sede em Aveiro. Foi fundada e é dirigida por José Eduardo Rebelo, biólogo e mestre em psicologia, profesor da Universidade de Aveiro, autor do livro Desatar o Nó do Luto (Lisboa: Editorial Notícias, no prelo). Contactos: Tel. 234 34 17 09; telemóvel: 91 848 28 38 fax: 234 34 23 67; e-mail: apelo@iol.pt .

Tive há dias conhecimento do excelente trabalho que estas duas associações têm feito no apoio às pessoas em luto. Mais de mil e tal pessoas, a elas ligadas, estão hoje em condições de dar ajuda às famílias em luto, no caso da ocorrência de tragédias como a queda da ponte de Entre-os-Rios ou o ataque terrorista do 11 de Março em Madrid.

Infelizmente o nosso sistema de protecção civil e o próprio Serviço Nacional de Saúde parecem querer ignorar a sua existência e recusar os seus préstimos. Daí que as minhas palmas vão hoje para todos os membros, os técnicos e os dirigentes destas duas associações de grupos de auto-ajuda A Nossa Âncora e Apelo.

Estas palmas são tão mais merecidas quanto este tema (a morte e o luto) continua a ser tabu, tanto na nossa sociedade como nas nossas faculdades de medicina e demais escolas ligadas às formação de profissionais de saúde, para não falar já dos nossos hospitais e demais de serviços de saúde, onde, infelizmente, ainda é vulgar a morte dos nossos entes queridos ser comunicada anonimamente pela telefonista de serviço...

A nível internacional, destaque-se o papel de The Compassionate Friends, "an international self-help, mutual-support organization for bereaved parents, grandparents, and siblings of children who have died from any cause and at any age".
A sua missão é descrita como sendo a de " to assist families in the positive resolution of grief following the death of a child and to provide information to help others be supportive". Só nos EUA os Compassionate Friends têm cerca de 600 núcleos ("chapters").

18 março 2004

Humor com humor se paga - XXIV: O nacional-humorismo lusitano

1. Há anedotas estúpidas, sexistas, racistas, xenófobas, homofóbicas, fascistas, fundamentalistas, terroristas, internacionalistas, revolucionárias e contra-revolucionárias... Mesmo assim tu és capaz de esboçar um (sor)riso... De que nos rimos, afinal ? Porque nos rimos ? Ao fazer uma antologia da estupidez será que eu estou a reabilitar a estupidez e a pô-la ao mesmo nível da inteligência ?



Aproveito para deixar os meus (pesados) votos de agradecimento aos muitos contribuintes (líquidos) do nosso anedotário nacional, incluindo o Manel Madeira, o Luís Lopes, a Paula C., o Carlos Malarranha, o Anacleto M., o senhor ministro, o porteiro, o avelino, o bibi & pipi, e por aí fora...



De vez em quando não resisto a mandar-vos umas anedotas (preferencialmente estúpidas) no pressuposto de que a faculdade (que não a vontade) de rir, é, apesar de tudo, a última coisa de que o Zé Portuga deve abdicar, o mesmo é dizer, titularizar, hipotecar, vender em hasta pública, alienar, ceder, transacionar, privatizar...



Em suma, vá-se a Bombardier para o raio que a parta, fiquem as bombas (inteligentes) do nacional-humorismo lusitano!



2. Pergunta a jovem mãe, de novo grávida, ao seu rebento de seis aninhos (um típico pestinha mimado, egocêntrico, da nova geração de portugas que há-de uma dia chegar ao metro e noventa de altura):

- Então, meu querido, o que é que tu preferes? Um mano ou uma mana?

- Ó mamã, se não te fizer muito dói-dói, o que eu queria mesmo era um pónei para brincar e andar a cavalo...



3. Mensagem portuga de solidariedade aos terroristas informáticos que todos os dias nos atacam na globoesfera: "I am a Portuguese virus, but because of poor technology and no money in my pocket and in my country I am unable to damage your computer. So, please be kind and cooperate with me, by deleting a big file on your system and then forward me to other users. Many Euro thanks, obrigadinho. You are in my heart".



4. Introdução à economia para o Zé Portugal (Parte I): "Ó Zé, se tu tivesses comprado, há um ano atrás, mil dólares em acções da Nortel Networks (que é um dos gigantes da área das telecomunicações, para quem não lê os jornais de negócios), hoje terias 59 dólares. Se pelo contrário tivesses comprado mil dólares em acções da Lucent Technologies, outro gigante da área de telecomunicações (de que nunca ouviste falar e eu também não), hoje essas (más) acções só valeriam 79 dólares. Vê lá tu como são as coisas!



"Agora, se tu tivesses comprado, há um ano, mil dólares de Super Bock (em bejecas, não em acções), se tivesses bebido tudo e vendido as garrafas vazias, hoje terias 80 dólares no bolso...



"Conclusão: Ó Zé, ouve o que te digo, no cenário económico actual, que é o da retoma-não-retoma-dá-cá-o-meu, tu perdes menos graveto se ficares sentado, à porta de casa (admitindo que ainda não tens o estatuto de sem-abrigo), a beber umas bejecas valentes e a receber o subsídio (social) de desemprego... Tens é de ter cuidado com a bófia: para já se conduzires, não bebas! (ao menos sempre dás o bom exemplo às autoridades deste país)"...



5. Diz o terrorista, disfarçado de turista cheio de petrodólares, à vítima (indígena): "Ameaça de bomba no teu país ? Take easy, é tudo boato, meu irmaozinho (leia-se: ó cruzado, filho de cruzado, neto, bisneto, tetraneto de cruzados)!... E olha que o boato é como a bala perdida: entra por um ouvido e sai pelo outro".



6. Confidências e fraquezas de uma conhecida tia da nossa praça cor de rosa, em entrevista à televisão: (i) casei-me por falta de maturidade; (ii) separei-me por falta de paciência; e (iii) voltei a casar por falta de memória (ou terá sido já por causa do Alzheimer ?).



7. "O Zé Portuga não tem medo do fim do mundo que está para vir, tem é medo do fim de cada mês do calendário que, esse, sim, vem inexoravelmente, just in time, juntamente com a factura da luz, da água, do gás, da renda de casa, etc.", confirmam em uníssono o seu (dele) contabilista, o seu (dele) revisor oficial de contas, o seu (dele) gerente de conta no Banco e o seu (dele) fornecedor de roupa de marca na feira do Relógio...



8. Pergunta a esposa ao marido, delicadíssima:

- Querido, queres que eu vá preparar o pequeno-almoço e que to traga à cama?

- Não, obrigado! O raio do Viagra tirou-me o apetite!

À hora do almoço, de novo a pergunta sacramental:

- Meu amor, para o almoço, queres que eu te faça alguma coisa de especial ?

- Não, também não quero nada. Aquele sacana do Viagra tirou-me o apetite!

Chegada a hora jantar, a pacientíssima esposa volta a insistir:

- E para o jantar que é que tu queres, meu benzinho?

O marido mostra um ar de enfado:

- Ainda não me apetece nada. Aquele maldito Viagra tirou-me o apetite!

- Ah, não! Agora, tem lá santa paciência, sai de cima de mim que eu estou a morrer de fome!



9. A loira encontra a amiga (morena) que não via há muito tempo...

- Ai, querida, como estás diferente!...Toda modernaça...

- É que...

- Tás mais magra, rapaste o cabelo...

- É que...

- Mas conta-me lá: o que é que andas a fazer agora?

- Tou a fazer... quimioterapia...

- Ah que giro!... Na Católica ou na Moderna?



10. Um isqueiro publicitário que a Agência Funerária Central da Charneca da Caparica distribui aos seus clientes, fornecedores e amigos, tem os seguintes dizeres, gravados a branco, sob fundo preto:

- Vai fumando que eu à volta cá te espero...





11.Protestam os sindicatos dos professores frente ao Ministério da Educação: "A situação no nosso país está tão má que até as universitárias se tornaram prostitutas". Responde o ministro da educação, do alto da varanda do seu gabinete: "Pelo contrário, meus senhores!... A situação no nosso país é tão boa que até as prostitutas frequentam a Universidade”.



12. O marido, bêbedo que nem um cacho, depois de uma noitada numa conhecida discoteca africana da Venda Nova-Amadora, chega a casa às cinco da manhã e grita para a mulher:

- Chi, mulher, ti pripara pra levar três queca!

- Ó desgraçado, tu vens outra vez com a bebedeira !?

- Não, não, meu crecheu, eu hoje vir com dois amigo preto!



13. Assim se escreve em bom português:



"Se Maneta é quem não tem mão e Perneta é quem não tem perna, então Careta é quem não tem cara e Punheta é quem não tem punho".



14. Durante um comício político em Cuba, um assessor de Fidel vira-se para o povo e exclama:

- Mira, pueblo de Cuba! Acá está Fidel! Fidel no tiene la barba de Cristo?

E o povo:

- La tiene!

- Fidel no tiene los pelos de Cristo? - Los tiene!

- Fidel no tiene lo ojos de Cristo?

- Los tiene!

O assessor dá-se por satisfeito, fazendo sinal para o povo se acalmar e se preparar para ouvir o supremo comandante. É nessa altura que um bêbado grita, no meio da multidão:

- Entonces, porque no crucificá-lo?



15. A mulher: (i) se fosse boa, Deus tinha uma; e (ii) se fosse de confiança, o Diabo não tinha cornos.



16.



A oração que mais se reza em Portugal: por exemplo, (i) antes da febre de sexta-feira à noite; (ii) na véspera da semana da queima das fitas; (iii) nas festas de despedida de solteira/a; (iv)nos casamentos e baptizados; (v) nos derbies de futebol...





Whisky e Vodka que estão no bar,

Alcoolatrado seja o nosso fígado,

Venha a nós o copo cheio,

Nunca pelo meio.



Seja feita a nossa bagaçada,

Assim na taberna como na calçada,

A bjeca nossa de cada dia nos dai hoje.



Perdoai as nossas bebedeiras

Assim como nós perdoamos

A quem nunca tenha bebido.



Mas não nos deixeis cair na Coca Light

E livrai-nos da água e da bílis.

(B)a(r)men!!!

Humor com humor se paga - XXIV: O nacional-humorismo lusitano

1. Há anedotas estúpidas, sexistas, racistas, xenófobas, homofóbicas, fascistas, fundamentalistas, terroristas, internacionalistas, revolucionárias e contra-revolucionárias... Mesmo assim tu és capaz de esboçar um (sor)riso... De que nos rimos, afinal ? Porque nos rimos ? Ao fazer uma antologia da estupidez será que eu estou a reabilitar a estupidez e a pô-la ao mesmo nível da inteligência ?

Aproveito para deixar os meus (pesados) votos de agradecimento aos muitos contribuintes (líquidos) do nosso anedotário nacional, incluindo o Manel Madeira, o Luís Lopes, a Paula C., o Carlos Malarranha, o Anacleto M., o senhor ministro, o porteiro, o avelino, o bibi & pipi, e por aí fora...

De vez em quando não resisto a mandar-vos umas anedotas (preferencialmente estúpidas) no pressuposto de que a faculdade (que não a vontade) de rir, é, apesar de tudo, a última coisa de que o Zé Portuga deve abdicar, o mesmo é dizer, titularizar, hipotecar, vender em hasta pública, alienar, ceder, transacionar, privatizar...

Em suma, vá-se a Bombardier para o raio que a parta, fiquem as bombas (inteligentes) do nacional-humorismo lusitano!

2. Pergunta a jovem mãe, de novo grávida, ao seu rebento de seis aninhos (um típico pestinha mimado, egocêntrico, da nova geração de portugas que há-de uma dia chegar ao metro e noventa de altura):
- Então, meu querido, o que é que tu preferes? Um mano ou uma mana?
- Ó mamã, se não te fizer muito dói-dói, o que eu queria mesmo era um pónei para brincar e andar a cavalo...

3. Mensagem portuga de solidariedade aos terroristas informáticos que todos os dias nos atacam na globoesfera: "I am a Portuguese virus, but because of poor technology and no money in my pocket and in my country I am unable to damage your computer. So, please be kind and cooperate with me, by deleting a big file on your system and then forward me to other users. Many Euro thanks, obrigadinho. You are in my heart".

4. Introdução à economia para o Zé Portugal (Parte I): "Ó Zé, se tu tivesses comprado, há um ano atrás, mil dólares em acções da Nortel Networks (que é um dos gigantes da área das telecomunicações, para quem não lê os jornais de negócios), hoje terias 59 dólares. Se pelo contrário tivesses comprado mil dólares em acções da Lucent Technologies, outro gigante da área de telecomunicações (de que nunca ouviste falar e eu também não), hoje essas (más) acções só valeriam 79 dólares. Vê lá tu como são as coisas!

"Agora, se tu tivesses comprado, há um ano, mil dólares de Super Bock (em bejecas, não em acções), se tivesses bebido tudo e vendido as garrafas vazias, hoje terias 80 dólares no bolso...

"Conclusão: Ó Zé, ouve o que te digo, no cenário económico actual, que é o da retoma-não-retoma-dá-cá-o-meu, tu perdes menos graveto se ficares sentado, à porta de casa (admitindo que ainda não tens o estatuto de sem-abrigo), a beber umas bejecas valentes e a receber o subsídio (social) de desemprego... Tens é de ter cuidado com a bófia: para já se conduzires, não bebas! (ao menos sempre dás o bom exemplo às autoridades deste país)"...

5. Diz o terrorista, disfarçado de turista cheio de petrodólares, à vítima (indígena): "Ameaça de bomba no teu país ? Take easy, é tudo boato, meu irmaozinho (leia-se: ó cruzado, filho de cruzado, neto, bisneto, tetraneto de cruzados)!... E olha que o boato é como a bala perdida: entra por um ouvido e sai pelo outro".

6. Confidências e fraquezas de uma conhecida tia da nossa praça cor de rosa, em entrevista à televisão: (i) casei-me por falta de maturidade; (ii) separei-me por falta de paciência; e (iii) voltei a casar por falta de memória (ou terá sido já por causa do Alzheimer ?).

7. "O Zé Portuga não tem medo do fim do mundo que está para vir, tem é medo do fim de cada mês do calendário que, esse, sim, vem inexoravelmente, just in time, juntamente com a factura da luz, da água, do gás, da renda de casa, etc.", confirmam em uníssono o seu (dele) contabilista, o seu (dele) revisor oficial de contas, o seu (dele) gerente de conta no Banco e o seu (dele) fornecedor de roupa de marca na feira do Relógio...

8. Pergunta a esposa ao marido, delicadíssima:
- Querido, queres que eu vá preparar o pequeno-almoço e que to traga à cama?
- Não, obrigado! O raio do Viagra tirou-me o apetite!
À hora do almoço, de novo a pergunta sacramental:
- Meu amor, para o almoço, queres que eu te faça alguma coisa de especial ?
- Não, também não quero nada. Aquele sacana do Viagra tirou-me o apetite!
Chegada a hora jantar, a pacientíssima esposa volta a insistir:
- E para o jantar que é que tu queres, meu benzinho?
O marido mostra um ar de enfado:
- Ainda não me apetece nada. Aquele maldito Viagra tirou-me o apetite!
- Ah, não! Agora, tem lá santa paciência, sai de cima de mim que eu estou a morrer de fome!

9. A loira encontra a amiga (morena) que não via há muito tempo...
- Ai, querida, como estás diferente!...Toda modernaça...
- É que...
- Tás mais magra, rapaste o cabelo...
- É que...
- Mas conta-me lá: o que é que andas a fazer agora?
- Tou a fazer... quimioterapia...
- Ah que giro!... Na Católica ou na Moderna?

10. Um isqueiro publicitário que a Agência Funerária Central da Charneca da Caparica distribui aos seus clientes, fornecedores e amigos, tem os seguintes dizeres, gravados a branco, sob fundo preto:
- Vai fumando que eu à volta cá te espero...


11.Protestam os sindicatos dos professores frente ao Ministério da Educação: "A situação no nosso país está tão má que até as universitárias se tornaram prostitutas". Responde o ministro da educação, do alto da varanda do seu gabinete: "Pelo contrário, meus senhores!... A situação no nosso país é tão boa que até as prostitutas frequentam a Universidade”.

12. O marido, bêbedo que nem um cacho, depois de uma noitada numa conhecida discoteca africana da Venda Nova-Amadora, chega a casa às cinco da manhã e grita para a mulher:
- Chi, mulher, ti pripara pra levar três queca!
- Ó desgraçado, tu vens outra vez com a bebedeira !?
- Não, não, meu crecheu, eu hoje vir com dois amigo preto!

13. Assim se escreve em bom português:

"Se Maneta é quem não tem mão e Perneta é quem não tem perna, então Careta é quem não tem cara e Punheta é quem não tem punho".

14. Durante um comício político em Cuba, um assessor de Fidel vira-se para o povo e exclama:
- Mira, pueblo de Cuba! Acá está Fidel! Fidel no tiene la barba de Cristo?
E o povo:
- La tiene!
- Fidel no tiene los pelos de Cristo? - Los tiene!
- Fidel no tiene lo ojos de Cristo?
- Los tiene!
O assessor dá-se por satisfeito, fazendo sinal para o povo se acalmar e se preparar para ouvir o supremo comandante. É nessa altura que um bêbado grita, no meio da multidão:
- Entonces, porque no crucificá-lo?

15. A mulher: (i) se fosse boa, Deus tinha uma; e (ii) se fosse de confiança, o Diabo não tinha cornos.

16.

A oração que mais se reza em Portugal: por exemplo, (i) antes da febre de sexta-feira à noite; (ii) na véspera da semana da queima das fitas; (iii) nas festas de despedida de solteira/a; (iv)nos casamentos e baptizados; (v) nos derbies de futebol...


Whisky e Vodka que estão no bar,
Alcoolatrado seja o nosso fígado,
Venha a nós o copo cheio,
Nunca pelo meio.

Seja feita a nossa bagaçada,
Assim na taberna como na calçada,
A bjeca nossa de cada dia nos dai hoje.

Perdoai as nossas bebedeiras
Assim como nós perdoamos
A quem nunca tenha bebido.

Mas não nos deixeis cair na Coca Light
E livrai-nos da água e da bílis.
(B)a(r)men!!!

15 março 2004

Em Lisboa nem sangria má nem purga boa - IV: Deitar fora a criancinha com a água do banho

Há sempre um grande risco, nas reformas de tipo topdown e por decreto que os políticos tendem a protagonizar no nosso país, de deitar fora a(s) criancinha(s) com a água do banho. No caso da saúde, isso pode vir a acontecer com a reforma do subsistema de cuidados de saúde primários. O Decreto-Lei nº 60/2003, de 1 de Abril, veio criar a chamada rede de cuidados de saúde primários, e revogar o Decreto-Lei nº 157/99, de 10 de Maio (Regime de criação, organização e funcionamento dos centros de saúde).



Uma das criancinhas é o médico de família, o mesmo é dizar, a especificidade e a identidade da medicina geral e familiar. Os cerca de 1500 médicos de família, reunidos no 21º Encontro Nacional de Clínica Geral (Vilamoura, 10-13 de Março de 2004), estavam inquietos e, mais do que inquietos, receosos em relação aos possíveis efeitos perversos da implementação do novo diploma.



A entrevista que o Ministro da Saúde deu, na sua presença, no dia 12 de Março, não me parece que os tenha tranquilizado nem muito menos convenceu. Louve-se a atitude (intelectual) e até a coragem (física) do ministro, ao aceitar dar uma entrevista em terreno hostil, perante uma plateia de centenas de médicos de família reunidos no seu congresso anual.



Os compromissos assumidos publicamente pelo titular da pasta da saúde vão implicar alterações ao D. L. nº 60/2003, de 1 de Abril, dizem as estruturas representativas dos médicos de família (Ordem dos Médicos, Associação Portuguesa de Clínica Geral, sindicatos médicos). Mas uma coisa é a negociação, de boa fé, e outra coisa o discurso político para consumo interno e/ou externo.



A criancinha não é apenas o prestador de cuidados de saúde ou a "equipa de saúde multiprofissional", como se lê no preâmbulo do contestado diploma legal (o médico, “preferencialmente” da carreira de clínica geral; o médico de saúde pública, se o houver; o enfermeiro, o técnico de serviço social, o psicólogo, o pessoal de apoio administrativo, etc.). A criancinha é também, e sobretudo, o utente, o cidadão, a pessoa, no seu contexto sociofamiliar...



Para os médicos de família e os seus representantes, a questão é a seguinte: (i) este decreto-lei não acautelaria a gestão integrada da saúde e dos serviços de saúde; (ii) a carreira médica de clínica geral seria destruída; e (iii) os cuidados de saúde primários ficariam inexoravelmente na órbita centrípeta e trituradora da medicina hospitalar e da "gestão mercantilista da saúde"...



Trata-se de um parti-pris ideológico ? De uma reacção de defesa corporativa ? De uma forma de resistência à mudança ? Mesmo que assim fosse, seria sempre uma reacção saudável e necessária em qualquer sistema e em qualquer mudança, justamente para evitar que os reformadores, ofuscados pela sua agenda e pressionados pelo seu timing, acabem por esquecer o essencial, a missão, os valores, os princípios, os resultados... Ou até que façam mudanças que, embora tecnicamente bem conceptualizadas, redundem em estrondoso fracasso do ponto de vista sócio-organizacional... Infelizmente, a história dos cuidados de saúde primários em Portugal é, também ela, um sucessão de tentativas de mudança que não têm passado do papel, independentemente da cor política do ministro da tutela...



Partilho as preocupações do Senhor Presidente da República, manifestada num encontro de economistas no Palácio de Belém, no mesmíssimo dia 12 de Março de 2004, quanto aos riscos de a empresarialização dos hospitais e demais serviços de saúde e a consequente lógica de mercado não garantirem, devidamente, a equidade (ou a igualdade de oportunidades), que é essencial à operacionalização do conceito de direito à saúde, consagrado na nossa Constituição.



Seria trágico que, mais de 30 trinta anos depois da consagração portuguesa do conceito de cuidados de saúde primários (com vários anos de avanço em relação a instâncias internacionais como a OMS), nós voltássemos à estaca zero, ou seja, à caixificação da saúde/doença, ao modelo de prestação de cuidados dominante nos Serviços Médico-Sociais das Caixas da Previdência.



Ora este risco é real, e eu partilho as preocupações da minha médica de família que, o ano passado, me explicou, detalhadamente, por que razão é que ela, pela primeira vez na sua vida, fazia uma greve no seu centro de saúde. Ela não tinha nada que se justificar perante mim, simples utente da sua grossa lista, mas eu achei bonito o seu gesto. Ao sair do seu gabinete, pensei cá com os meus botões quão privilegiado era eu por ter esta mulher como minha médica de família!

Em Lisboa nem sangria má nem purga boa - IV: Deitar fora a criancinha com a água do banho

Há sempre um grande risco, nas reformas de tipo topdown e por decreto que os políticos tendem a protagonizar no nosso país, de deitar fora a(s) criancinha(s) com a água do banho. No caso da saúde, isso pode vir a acontecer com a reforma do subsistema de cuidados de saúde primários. O Decreto-Lei nº 60/2003, de 1 de Abril, veio criar a chamada rede de cuidados de saúde primários, e revogar o Decreto-Lei nº 157/99, de 10 de Maio (Regime de criação, organização e funcionamento dos centros de saúde).

Uma das criancinhas é o médico de família, o mesmo é dizar, a especificidade e a identidade da medicina geral e familiar. Os cerca de 1500 médicos de família, reunidos no 21º Encontro Nacional de Clínica Geral (Vilamoura, 10-13 de Março de 2004), estavam inquietos e, mais do que inquietos, receosos em relação aos possíveis efeitos perversos da implementação do novo diploma.

A entrevista que o Ministro da Saúde deu, na sua presença, no dia 12 de Março, não me parece que os tenha tranquilizado nem muito menos convenceu. Louve-se a atitude (intelectual) e até a coragem (física) do ministro, ao aceitar dar uma entrevista em terreno hostil, perante uma plateia de centenas de médicos de família reunidos no seu congresso anual.

Os compromissos assumidos publicamente pelo titular da pasta da saúde vão implicar alterações ao D. L. nº 60/2003, de 1 de Abril, dizem as estruturas representativas dos médicos de família (Ordem dos Médicos, Associação Portuguesa de Clínica Geral, sindicatos médicos). Mas uma coisa é a negociação, de boa fé, e outra coisa o discurso político para consumo interno e/ou externo.

A criancinha não é apenas o prestador de cuidados de saúde ou a "equipa de saúde multiprofissional", como se lê no preâmbulo do contestado diploma legal (o médico, “preferencialmente” da carreira de clínica geral; o médico de saúde pública, se o houver; o enfermeiro, o técnico de serviço social, o psicólogo, o pessoal de apoio administrativo, etc.). A criancinha é também, e sobretudo, o utente, o cidadão, a pessoa, no seu contexto sociofamiliar...

Para os médicos de família e os seus representantes, a questão é a seguinte: (i) este decreto-lei não acautelaria a gestão integrada da saúde e dos serviços de saúde; (ii) a carreira médica de clínica geral seria destruída; e (iii) os cuidados de saúde primários ficariam inexoravelmente na órbita centrípeta e trituradora da medicina hospitalar e da "gestão mercantilista da saúde"...

Trata-se de um parti-pris ideológico ? De uma reacção de defesa corporativa ? De uma forma de resistência à mudança ? Mesmo que assim fosse, seria sempre uma reacção saudável e necessária em qualquer sistema e em qualquer mudança, justamente para evitar que os reformadores, ofuscados pela sua agenda e pressionados pelo seu timing, acabem por esquecer o essencial, a missão, os valores, os princípios, os resultados... Ou até que façam mudanças que, embora tecnicamente bem conceptualizadas, redundem em estrondoso fracasso do ponto de vista sócio-organizacional... Infelizmente, a história dos cuidados de saúde primários em Portugal é, também ela, um sucessão de tentativas de mudança que não têm passado do papel, independentemente da cor política do ministro da tutela...

Partilho as preocupações do Senhor Presidente da República, manifestada num encontro de economistas no Palácio de Belém, no mesmíssimo dia 12 de Março de 2004, quanto aos riscos de a empresarialização dos hospitais e demais serviços de saúde e a consequente lógica de mercado não garantirem, devidamente, a equidade (ou a igualdade de oportunidades), que é essencial à operacionalização do conceito de direito à saúde, consagrado na nossa Constituição.

Seria trágico que, mais de 30 trinta anos depois da consagração portuguesa do conceito de cuidados de saúde primários (com vários anos de avanço em relação a instâncias internacionais como a OMS), nós voltássemos à estaca zero, ou seja, à caixificação da saúde/doença, ao modelo de prestação de cuidados dominante nos Serviços Médico-Sociais das Caixas da Previdência.

Ora este risco é real, e eu partilho as preocupações da minha médica de família que, o ano passado, me explicou, detalhadamente, por que razão é que ela, pela primeira vez na sua vida, fazia uma greve no seu centro de saúde. Ela não tinha nada que se justificar perante mim, simples utente da sua grossa lista, mas eu achei bonito o seu gesto. Ao sair do seu gabinete, pensei cá com os meus botões quão privilegiado era eu por ter esta mulher como minha médica de família!

08 março 2004

Blogantologia(s) - IX: Welcome, hooligans all over the world!

Aí vai o endereço de um dicionário de calão inglês-português, de A a Z... Aproxima-se o Euro2004, o grande acontecimento das nossas vidas (cinzentas) de portugas...



Acontece que estamos todos convocados para esse desígnio nacional, seguindo li nos jornais. E eu próprio pus um autocolante no meu carro para que não restassem dúvidas sobre a minha portugalidade e o meu arreigado amor à selecção de todos nós.



Confesso que estou muito excitado com a perspectiva da chegada, às nossas pachorrentas cidades, de largas dezenas de milhares de hooligans ingleses (e outros), falando uma língua estranha... Para não falar já dos nossos hooligans domésticos (que agora passaram a chamar-se avelinos, em homenagem a um conhecida figura pública que faz parte do Portugal pitoresco do arrebimba-o-malho).



Mais confesso que não sou muito entendido nessas coisas da bola, mas estou com curiosidade em saber quais os nomes feios que se irão chamar aos árbitros do Euro 2004, os palavrões com que irão ser mimoseados os cavalos da GNR e por aí fora...



Daí que eu já ande a estudar o minidicionário do calão inglês-português, disponibilizado pela Sofia Machado (da Universidade do Minho, segundo creio). O Governo mandou-nos ser acolhedores, hospitaleiros e bem educados. E eu, como cidadão exemplar e bom portuga, já estou a fazer a minha parte. Vocês façam a vossa. E não se esqueçam, quando a festa começar, de gritar em uníssono a frase que celebrizou o Marx e o Engels, em 1847: Hooligans de todo o mundo, uni-vos!... Hooligans ? Ou eram proletários ? Ou lumpen-proletários ? Bem, cito de cor, perdoem-me a falta de rigor.



PS - Outras fontes na Net: Há um relatório interessante, embora já datado de 1996, sobre o hooliganismo e a violência no futebol, com informação inclusive sobre Portugal. Os autores estão ligados ao SIRC - Social Issues Research Centre, um grupo de Oxford de que fazem parte alguns conhecidos (e polémicos) etólogos, antropólogos e sociobiólogos como Desmond Morris, Lionel Tiger ou Robin Fox...



Football Violence and Hooliganism in Europe

Marsh, P., Fox, K., Carnibella, G., McCann, J. and Marsh, J. (1996) Football Violence in Europe. The Amsterdam Group.

Blogantologia(s) - IX: Welcome, hooligans all over the world!

Aí vai o endereço de um dicionário de calão inglês-português, de A a Z... Aproxima-se o Euro2004, o grande acontecimento das nossas vidas (cinzentas) de portugas...

Acontece que estamos todos convocados para esse desígnio nacional, seguindo li nos jornais. E eu próprio pus um autocolante no meu carro para que não restassem dúvidas sobre a minha portugalidade e o meu arreigado amor à selecção de todos nós.

Confesso que estou muito excitado com a perspectiva da chegada, às nossas pachorrentas cidades, de largas dezenas de milhares de hooligans ingleses (e outros), falando uma língua estranha... Para não falar já dos nossos hooligans domésticos (que agora passaram a chamar-se avelinos, em homenagem a um conhecida figura pública que faz parte do Portugal pitoresco do arrebimba-o-malho).

Mais confesso que não sou muito entendido nessas coisas da bola, mas estou com curiosidade em saber quais os nomes feios que se irão chamar aos árbitros do Euro 2004, os palavrões com que irão ser mimoseados os cavalos da GNR e por aí fora...

Daí que eu já ande a estudar o minidicionário do calão inglês-português, disponibilizado pela Sofia Machado (da Universidade do Minho, segundo creio). O Governo mandou-nos ser acolhedores, hospitaleiros e bem educados. E eu, como cidadão exemplar e bom portuga, já estou a fazer a minha parte. Vocês façam a vossa. E não se esqueçam, quando a festa começar, de gritar em uníssono a frase que celebrizou o Marx e o Engels, em 1847: Hooligans de todo o mundo, uni-vos!... Hooligans ? Ou eram proletários ? Ou lumpen-proletários ? Bem, cito de cor, perdoem-me a falta de rigor.

PS - Outras fontes na Net: Há um relatório interessante, embora já datado de 1996, sobre o hooliganismo e a violência no futebol, com informação inclusive sobre Portugal. Os autores estão ligados ao SIRC - Social Issues Research Centre, um grupo de Oxford de que fazem parte alguns conhecidos (e polémicos) etólogos, antropólogos e sociobiólogos como Desmond Morris, Lionel Tiger ou Robin Fox...

Football Violence and Hooliganism in Europe
Marsh, P., Fox, K., Carnibella, G., McCann, J. and Marsh, J. (1996) Football Violence in Europe. The Amsterdam Group.

03 março 2004

Em Lisboa nem sangria má nem purga boa - III: Quando o médico atesta sob palavra de honra

Esta história acaba de me ser contada por um amigo meu, conhecido médico de família (não vou identificá-lo por razões óbvias de ética e sigilo profissional).



Ele que me perdoe mas eu não resisto a divulgá-la na blogosfera. É uma história exemplar que eu acho que pode e deve figurar numa futura antologia sobre o Portugal sacro-profano, o Portugal profundo, os portugas, a medicina, o sistema de saúde e tudo o que gira à volta disto. Aqui vai ela sem tirar nem pôr:



"Esta manhã quando pelas 8.30 cheguei à Extensão de Saúde, já tinha um jovem mancebo à minha espera, a tiritar de frio (geralmente sou eu que abro a porta e habitualmente chego antes dos utentes). Pensando tratar-se de um caso urgente, mandei-o logo entrar. Diz-me ele: 'Fui inscrever-me para a GNR e como o meu BI tem uma altura que é inferior à exigida para entrar nesta instituição, mandaram-me vir ter com o Sr. Doutor para passar um atestado com a minha altura actual'...



Comentário sábio e bem humorado do médico, no e-mail que me mandou:



"Hipótese 1: neste País só os médicos sabem medir a altura dos indivíduos; hipótese 2: neste País só confiam na palavra de honra dos médicos"...

Em Lisboa nem sangria má nem purga boa - III: Quando o médico atesta sob palavra de honra

Esta história acaba de me ser contada por um amigo meu, conhecido médico de família (não vou identificá-lo por razões óbvias de ética e sigilo profissional).

Ele que me perdoe mas eu não resisto a divulgá-la na blogosfera. É uma história exemplar que eu acho que pode e deve figurar numa futura antologia sobre o Portugal sacro-profano, o Portugal profundo, os portugas, a medicina, o sistema de saúde e tudo o que gira à volta disto. Aqui vai ela sem tirar nem pôr:

"Esta manhã quando pelas 8.30 cheguei à Extensão de Saúde, já tinha um jovem mancebo à minha espera, a tiritar de frio (geralmente sou eu que abro a porta e habitualmente chego antes dos utentes). Pensando tratar-se de um caso urgente, mandei-o logo entrar. Diz-me ele: 'Fui inscrever-me para a GNR e como o meu BI tem uma altura que é inferior à exigida para entrar nesta instituição, mandaram-me vir ter com o Sr. Doutor para passar um atestado com a minha altura actual'...

Comentário sábio e bem humorado do médico, no e-mail que me mandou:

"Hipótese 1: neste País só os médicos sabem medir a altura dos indivíduos; hipótese 2: neste País só confiam na palavra de honra dos médicos"...

01 março 2004

Em Lisboa nem sangria má nem purga boa - II: Os médicos para a machamba, já!

1. À hora do almoço fico sem ideias. E sobretudo com inveja dos almoços de trabalho dos executivos das nossas empresas. Um sandocha e um sumo de fruta são o suficiente para um golden collar (colarinho dourado) que não precisa de gastar muitas calorias ao longo do dia. Contrariamente ao pobre do blue collar (colarinho azul).



Isto diz o meu nutricionista, que é também o meu personal coach em matéria de wellness. Ele trouxe a ideia da América, é uma coisa que está na moda e que vende bem: veja-se o negócio do wellness por esse país fora. Health clubs e fitness centres, é o que está a dar. E ainda bem para as fornadas de jovens que saem licenciados em ciências do desporto e artes correlativas.



Eu sei que ele, o meu personal coach, às escondidas, também é capaz de cometer os seus pecados veniais ou até capitais, como qualquer bom portuga e cristão: arroz de tamboril, cozido à portuguesa, leitão da bairrada, anho assado no forno, carne à alentejana, feijoada transmontana, bacalhau com todos, bife à Trindade e por aí fora. Mas, enfim, faz o que prega o Frei Tomás mas não faças o que ele faz.



Adiante. Para se ter uma carreira (já não há carreiras!), para se ter uma vida (que ironia!), com saúde, com qualidade, mas também repleta de vitórias, êxitos, sucessos, golos e sobretudo muito dinheiro, não precisas de comer muito. Pelo contrário: tens de ser um asceta, um calvinista dos bons...



Um país que come muito não vai longe. E sobretudo se comer acima das suas necessidades e possibilidades. Esta é, pelo menos, a minha teoria e a do meu personal coach (que inveja!, diz a minha vizinha do lado, não por comer pouco, mas por ser uma tia e não ter um personal coach).



2. Passemos a outro tipo de confissões: hoje gostaria de bater palmas aos portugas que o merec(ess)em. E creio que há tantos. Somos uma terra de talentos por descobrir, por revelar. Aliás, é o que nos resta, depois dos impérios achados e perdidos. E é o que nos vale, o que sempre nos valeu, a nossa fábrica de talentos em potência.



Não sei o que me deu, com esta de querer bater palmas a alguém melhor do que eu, mas é capaz de ser a aproximação da primavera. Ou é o espírito de caridade cristã de que tanto se fala quando pela enésima vez se debate em vão o problema da descriminalização do aborto (de que Deus nos livre!). Ou então é o princípio da doença bipolar que ataca o portuga, cuja história de vida pode ser resumida a dois momentos: os de euforia e os de depressão.



Pessoalmente, não acredito nessas estatísticas que nos põem em último lugar, em tudo ou quase tudo, e agora também em matéria de criativos por metro quadrado (poetas, músicos, inventores, artistas, cientistas, etc.). Reajo mal, patrioticamente mal (quem diria!), a esta mania masoquista que deu agora aos portugas, transformados em coleccionadores de estatísticas que os põem sempre na mó de baixo!...



Foram os jornalistas que descobriram o filão: os portugas pagam para ver, ouvir e ler notícias destas, pagam para serem exibidos em público como coitadinhos!



- Que estranho povo, o vosso!, dizem-me os nossos camaradas da Europa setentrional. E na volta traz-me lá o último disco de fado da Mísia... (Mentira: não saio deste rectângulo da península ibérica desde o triunfo do euro sobre o escudo! Veio o euro e foi-se o meu poder de compra, a mobilidade sócio-espacial, a liberdade de circulação pelas auto-estradas da eurolândia...).



Felizmente que a criatividade também é como a economia: há uma, subterrânea, informal, paralela, clandestina... Descubro-a todos os dias na capacidade inventativa dos portugas, no seu sentido secular de desenrascanço, de sobrevivência, de viver à tona de água... Arte de marinheiro, de maçarico, de mouro levado à força para todo o serviço nas naus do mundo a haver...



E depois é mais fácil reparar nela (a dita criatividade) quando os portugas oferecem os seus talentos à estranja ou brilham na estranja: veja-se o caso do mal amado António Lobo Antunes, do mal tratado Zé Saramago, para não falar já da real sereníssima Sophia (de Mello Breyner Andresen), do futuro Prémio Nobel da Medicina António Damásio, do citadíssimo António Coutinho, do grande Figo, da fabulosa Paula Rego, do fantástico Eduardo Serra, da belíssima Mariza, da mozartiana Maria João Pires e de tantos outros, uns mais conhecidos, outros menos, cá dentro.



O nosso cientista mais famoso ou pelo menos mais citado (450 referências nas melhores revistas de genética, imunologia, biologia e outras ciências duras), por exemplo: não sei onde li, talvez no Expresso, o jornal do nosso regime demoliberal. Ele teve uma ideia original para reformar o ensino médico em Portugal: (i) mandar os estudantes de medicina limpar o cu aos doentes, substituindo durante um ano os enfermeiros que delegam estas tarefas menos nobres da prestação de cuidados nos chamados auxiliares de acção médica que, por sua vez, delegam nos familiares dos doentes, na hora das visitas que até vai passar a ser de 24 horas por dia, tal como nos hospitais de Luanda; e, paralelamente, (ii) pôr os professores de medicina a dar aulas de ciências sociais e humanas, de modo a aumentar a taxa de turnover, a mobilidade dos genes e, portanto, melhorar a pool genética da Universidade Portuguesa.



Ele, o nosso cientista mais citado em todo o mundo, está particulamente preocupado com a elevada taxa de consanguinidade (95%) da massa cinzenta que ensina (e alguma, pouca, que investiga) nas universidades dos portugas: os profs são todos filhos, legítimos ou bastardos, uns dos outros! Ora aqui está um ponto (sério) para uma discussão (a sério): a endogamia da universidade e do seu clero, a par dos métodos pedagógicos usados nas faculdades de medicina.



Shortly, precisamos de um verdadeiro método para ensinar medicina aos mancebos: aí estamos de acordo, que a memorização dos manuais de anatomia, fisiologia, bioquímica e genética não chega para fazer um bom médico, um bom clínico. Dir-me-ão que o homem é um biólogo, um fundamentalista, um médico não clínico, e que esta não passa de uma nova versão de um velho conflito de paradigmas. Seja como for, é uma voz autorizada e muito respeitável de um estrangeirado. Tal como Luís Verney ou Sanches Ribeiro no Século das Luzes...



Quanto aos aspirantes a médicos (e os demais estudantes das outras profissões científicas e técnicas, desde os engenheiros aos magistrados) eu também acho que lhes fazia bem pelo menos um dia por ano na machamba. Como em Moçambique no tempo do grande líder Samora Machel. Por uma razão simples: para que as elites portuguesas de amanhã não tenham, como no passado, desprezo pelo trabalho manual. E saibem o que é um campuna (uma espécie em vias de extinção).



3. Confesso que eu hoje queria bater palmas aos portugas. Mas estou sem ideias. Pode ser que amanhã tenha mais algumas (ideias) sobre isso: (i) a razão de não ter hoje ideias nenhumas; ou (ii) o facto de não me ocorrer um portuga a quem bater palmas para além do nosso cientista mais citado em todo o mundo. Falando sério: ele, o António Coutinho, o director do Instituto Gulbenkian de Ciência, é o único a quem me ocorre, hoje, a esta hora, bater palmas. Os portugas deveriam ter orgulho num cientista como ele. Em contapartida, muito poucos, o conhecem.



Foi pena o grande director de fotografia que é o Eduadrdo Serra, não ter ganho o Óscar da Academia. Fiquei decepcionado. Diziam-me que estava quase no papo. Aqueles américas são uns etnocêntricos! Se calhar falhou a nossa empresa de lobbying ou o nosso agente em Hollywood. Ou a máquina de guerra do Ministério dos Negócios Extrangeiros que se devia ocupar mais dos portugas da diáspora e da promoção da portugalidade (ó blogador, até pareces o ministro da defesa Paulo Portas a falar às tropas!).



De qualquer modo, foi importante descobrir-se mais um portuga que é bom no que faz. A nível mundial, repare-se. Refiro-me ao director de fotografia do filme europeu A rapariga com brinco de pérola. Um filme, aliás, que eu, blogador, recomendo aos consumidores do blogue-fora-nada. Por ser europeu. Pela fotografia. Pela época, que eu adoro: a idade de ouro da burguesia mercantil e financeira holandesa (meados do Séc. XVII). E, claro, do Vermeer. A rapariga do brinco de pérola vale bem a Gioconda e o nosso Museu das Janelas Verdes (que enormidade!)...



4. Mas a hora, agora, meus senhores, é dos gestores e dos empresários. São eles que estão sob as luzes da ribalta. São eles as primas donas. São eles de quem se espera a salvação da mãe-mátria. Nunca como agora se ouviu tanto dizer quanto é preciso empresarializar, gerir como uma empresa, gerir tout court: tudo, o país, os portugas, os hospitais, as escolas, a universidade, as empresas públicas, as câmaras municipais, o canil camarário, a junta de freguesia, a recolha do lixo, os sem-abrigo, as prisões, quiçá até as forças armadas, os submarinos, o ministério público e os tribunais. Os clubes de futebol foram os primeiros a dar o exemplo. E não é por acaso que, à falta de melhor, a bola é agora o motor da nossa economia.



A gestão está definitivamente na moda. Meus senhores, passou a época dos revolucionários, dos baladeiros, dos reformadores, dos políticos, dos juristas, dos engenheiros e até dos economistas. Agora o que é preciso é saber criar riqueza. E para isso estão cá os gestores.



A frase que eu tenho mais ouvido, no ano do festivaleiro Euro 2004, é lapidar a este respeito: "é tudo uma questão de organização!"... Cem anos depois, imaginem!, da santíssima trindade Weber, Taylor & Fayol que está na origem do scientific management... Só nunca percebi como é que os portugas descobriram o caminho marítimo para a Índia, chegaram ao Brasil e aportaram ao Japão...

Em Lisboa nem sangria má nem purga boa - II: Os médicos para a machamba, já!

1. À hora do almoço fico sem ideias. E sobretudo com inveja dos almoços de trabalho dos executivos das nossas empresas. Um sandocha e um sumo de fruta são o suficiente para um golden collar (colarinho dourado) que não precisa de gastar muitas calorias ao longo do dia. Contrariamente ao pobre do blue collar (colarinho azul).

Isto diz o meu nutricionista, que é também o meu personal coach em matéria de wellness. Ele trouxe a ideia da América, é uma coisa que está na moda e que vende bem: veja-se o negócio do wellness por esse país fora. Health clubs e fitness centres, é o que está a dar. E ainda bem para as fornadas de jovens que saem licenciados em ciências do desporto e artes correlativas.

Eu sei que ele, o meu personal coach, às escondidas, também é capaz de cometer os seus pecados veniais ou até capitais, como qualquer bom portuga e cristão: arroz de tamboril, cozido à portuguesa, leitão da bairrada, anho assado no forno, carne à alentejana, feijoada transmontana, bacalhau com todos, bife à Trindade e por aí fora. Mas, enfim, faz o que prega o Frei Tomás mas não faças o que ele faz.

Adiante. Para se ter uma carreira (já não há carreiras!), para se ter uma vida (que ironia!), com saúde, com qualidade, mas também repleta de vitórias, êxitos, sucessos, golos e sobretudo muito dinheiro, não precisas de comer muito. Pelo contrário: tens de ser um asceta, um calvinista dos bons...

Um país que come muito não vai longe. E sobretudo se comer acima das suas necessidades e possibilidades. Esta é, pelo menos, a minha teoria e a do meu personal coach (que inveja!, diz a minha vizinha do lado, não por comer pouco, mas por ser uma tia e não ter um personal coach).

2. Passemos a outro tipo de confissões: hoje gostaria de bater palmas aos portugas que o merec(ess)em. E creio que há tantos. Somos uma terra de talentos por descobrir, por revelar. Aliás, é o que nos resta, depois dos impérios achados e perdidos. E é o que nos vale, o que sempre nos valeu, a nossa fábrica de talentos em potência.

Não sei o que me deu, com esta de querer bater palmas a alguém melhor do que eu, mas é capaz de ser a aproximação da primavera. Ou é o espírito de caridade cristã de que tanto se fala quando pela enésima vez se debate em vão o problema da descriminalização do aborto (de que Deus nos livre!). Ou então é o princípio da doença bipolar que ataca o portuga, cuja história de vida pode ser resumida a dois momentos: os de euforia e os de depressão.

Pessoalmente, não acredito nessas estatísticas que nos põem em último lugar, em tudo ou quase tudo, e agora também em matéria de criativos por metro quadrado (poetas, músicos, inventores, artistas, cientistas, etc.). Reajo mal, patrioticamente mal (quem diria!), a esta mania masoquista que deu agora aos portugas, transformados em coleccionadores de estatísticas que os põem sempre na mó de baixo!...

Foram os jornalistas que descobriram o filão: os portugas pagam para ver, ouvir e ler notícias destas, pagam para serem exibidos em público como coitadinhos!

- Que estranho povo, o vosso!, dizem-me os nossos camaradas da Europa setentrional. E na volta traz-me lá o último disco de fado da Mísia... (Mentira: não saio deste rectângulo da península ibérica desde o triunfo do euro sobre o escudo! Veio o euro e foi-se o meu poder de compra, a mobilidade sócio-espacial, a liberdade de circulação pelas auto-estradas da eurolândia...).

Felizmente que a criatividade também é como a economia: há uma, subterrânea, informal, paralela, clandestina... Descubro-a todos os dias na capacidade inventativa dos portugas, no seu sentido secular de desenrascanço, de sobrevivência, de viver à tona de água... Arte de marinheiro, de maçarico, de mouro levado à força para todo o serviço nas naus do mundo a haver...

E depois é mais fácil reparar nela (a dita criatividade) quando os portugas oferecem os seus talentos à estranja ou brilham na estranja: veja-se o caso do mal amado António Lobo Antunes, do mal tratado Zé Saramago, para não falar já da real sereníssima Sophia (de Mello Breyner Andresen), do futuro Prémio Nobel da Medicina António Damásio, do citadíssimo António Coutinho, do grande Figo, da fabulosa Paula Rego, do fantástico Eduardo Serra, da belíssima Mariza, da mozartiana Maria João Pires e de tantos outros, uns mais conhecidos, outros menos, cá dentro.

O nosso cientista mais famoso ou pelo menos mais citado (450 referências nas melhores revistas de genética, imunologia, biologia e outras ciências duras), por exemplo: não sei onde li, talvez no Expresso, o jornal do nosso regime demoliberal. Ele teve uma ideia original para reformar o ensino médico em Portugal: (i) mandar os estudantes de medicina limpar o cu aos doentes, substituindo durante um ano os enfermeiros que delegam estas tarefas menos nobres da prestação de cuidados nos chamados auxiliares de acção médica que, por sua vez, delegam nos familiares dos doentes, na hora das visitas que até vai passar a ser de 24 horas por dia, tal como nos hospitais de Luanda; e, paralelamente, (ii) pôr os professores de medicina a dar aulas de ciências sociais e humanas, de modo a aumentar a taxa de turnover, a mobilidade dos genes e, portanto, melhorar a pool genética da Universidade Portuguesa.

Ele, o nosso cientista mais citado em todo o mundo, está particulamente preocupado com a elevada taxa de consanguinidade (95%) da massa cinzenta que ensina (e alguma, pouca, que investiga) nas universidades dos portugas: os profs são todos filhos, legítimos ou bastardos, uns dos outros! Ora aqui está um ponto (sério) para uma discussão (a sério): a endogamia da universidade e do seu clero, a par dos métodos pedagógicos usados nas faculdades de medicina.

Shortly, precisamos de um verdadeiro método para ensinar medicina aos mancebos: aí estamos de acordo, que a memorização dos manuais de anatomia, fisiologia, bioquímica e genética não chega para fazer um bom médico, um bom clínico. Dir-me-ão que o homem é um biólogo, um fundamentalista, um médico não clínico, e que esta não passa de uma nova versão de um velho conflito de paradigmas. Seja como for, é uma voz autorizada e muito respeitável de um estrangeirado. Tal como Luís Verney ou Sanches Ribeiro no Século das Luzes...

Quanto aos aspirantes a médicos (e os demais estudantes das outras profissões científicas e técnicas, desde os engenheiros aos magistrados) eu também acho que lhes fazia bem pelo menos um dia por ano na machamba. Como em Moçambique no tempo do grande líder Samora Machel. Por uma razão simples: para que as elites portuguesas de amanhã não tenham, como no passado, desprezo pelo trabalho manual. E saibem o que é um campuna (uma espécie em vias de extinção).

3. Confesso que eu hoje queria bater palmas aos portugas. Mas estou sem ideias. Pode ser que amanhã tenha mais algumas (ideias) sobre isso: (i) a razão de não ter hoje ideias nenhumas; ou (ii) o facto de não me ocorrer um portuga a quem bater palmas para além do nosso cientista mais citado em todo o mundo. Falando sério: ele, o António Coutinho, o director do Instituto Gulbenkian de Ciência, é o único a quem me ocorre, hoje, a esta hora, bater palmas. Os portugas deveriam ter orgulho num cientista como ele. Em contapartida, muito poucos, o conhecem.

Foi pena o grande director de fotografia que é o Eduadrdo Serra, não ter ganho o Óscar da Academia. Fiquei decepcionado. Diziam-me que estava quase no papo. Aqueles américas são uns etnocêntricos! Se calhar falhou a nossa empresa de lobbying ou o nosso agente em Hollywood. Ou a máquina de guerra do Ministério dos Negócios Extrangeiros que se devia ocupar mais dos portugas da diáspora e da promoção da portugalidade (ó blogador, até pareces o ministro da defesa Paulo Portas a falar às tropas!).

De qualquer modo, foi importante descobrir-se mais um portuga que é bom no que faz. A nível mundial, repare-se. Refiro-me ao director de fotografia do filme europeu A rapariga com brinco de pérola. Um filme, aliás, que eu, blogador, recomendo aos consumidores do blogue-fora-nada. Por ser europeu. Pela fotografia. Pela época, que eu adoro: a idade de ouro da burguesia mercantil e financeira holandesa (meados do Séc. XVII). E, claro, do Vermeer. A rapariga do brinco de pérola vale bem a Gioconda e o nosso Museu das Janelas Verdes (que enormidade!)...

4. Mas a hora, agora, meus senhores, é dos gestores e dos empresários. São eles que estão sob as luzes da ribalta. São eles as primas donas. São eles de quem se espera a salvação da mãe-mátria. Nunca como agora se ouviu tanto dizer quanto é preciso empresarializar, gerir como uma empresa, gerir tout court: tudo, o país, os portugas, os hospitais, as escolas, a universidade, as empresas públicas, as câmaras municipais, o canil camarário, a junta de freguesia, a recolha do lixo, os sem-abrigo, as prisões, quiçá até as forças armadas, os submarinos, o ministério público e os tribunais. Os clubes de futebol foram os primeiros a dar o exemplo. E não é por acaso que, à falta de melhor, a bola é agora o motor da nossa economia.

A gestão está definitivamente na moda. Meus senhores, passou a época dos revolucionários, dos baladeiros, dos reformadores, dos políticos, dos juristas, dos engenheiros e até dos economistas. Agora o que é preciso é saber criar riqueza. E para isso estão cá os gestores.

A frase que eu tenho mais ouvido, no ano do festivaleiro Euro 2004, é lapidar a este respeito: "é tudo uma questão de organização!"... Cem anos depois, imaginem!, da santíssima trindade Weber, Taylor & Fayol que está na origem do scientific management... Só nunca percebi como é que os portugas descobriram o caminho marítimo para a Índia, chegaram ao Brasil e aportaram ao Japão...