O Dicionário da Língua Portuguesa da Academia das Ciências bem como o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa acabam de produzir, em conjunto, um verbete sobre um novo vocábulo da língua portuguesa a figurar na próxima edição daquelas duas obras de referência. Podem tomar nota:
Santanice s.m. (c. 2000) 1. Comportamento de alguém que, por acto, acção ou omissão, acaba sempre por prejudicar outrem e ser também ele prejudicado com esse acto, acção ou omissão, sem ter disso consciência. 2. Forma de agir inopinada e irresponsável que prejudica toda a gente envolvida directa ou indirectamente na acção, sem que o autor tenha uma consciência (relativa ou absoluta) das consequências dessa acção < Tá bem, pronto, eu volto>. 3. Estupidez, parvoíce, inexperiência, calinada, irresponsabilidade, efeito negativo de algo dito ou feito por um inconsciente com poder e desplante para o fazer ou dizer. 4. Tendência para a vitimização. 5. Um misto de sacanice com trapalhada, ou de sacanagem com trapalhice < Fez-lhe uma santanice>. 6. Feitiço, mau olhado < Virou-se a santanice contra o santana (feiticeiro)>. Etim. Santana + ice.
blogue-fora-nada. homo socius ergo blogus [sum]. homem social logo blogador. em sociobloguês nos entendemos. o port(ug)al dos (por)tugas. a prova dos blogue-fora-nada. a guerra colonial. a guiné. do chacheu ao boe. de bissau a bambadinca. os cacimbados. o geba. o corubal. os rios. o macaréu da nossa revolta. o humor nosso de cada dia nos dai hoje.lá vamos blogando e rindo. e venham mais cinco (camaradas). e vieram tantos que isto se transformou numa caserna. a maior caserna virtual da Net!
12 janeiro 2005
Humor com humor se paga - XXIX: Santanice, novo vocábulo do léxico português
O Dicionário da Língua Portuguesa da Academia das Ciências bem como o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa acabam de produzir, em conjunto, um verbete sobre um novo vocábulo da língua portuguesa a figurar na próxima edição daquelas duas obras de referência. Podem tomar nota:
Santanice s.m. (c. 2000) 1. Comportamento de alguém que, por acto, acção ou omissão, acaba sempre por prejudicar outrem e ser também ele prejudicado com esse acto, acção ou omissão, sem ter disso consciência. 2. Forma de agir inopinada e irresponsável que prejudica toda a gente envolvida directa ou indirectamente na acção, sem que o autor tenha uma consciência (relativa ou absoluta) das consequências dessa acção < Tá bem, pronto, eu volto>. 3. Estupidez, parvoíce, inexperiência, calinada, irresponsabilidade, efeito negativo de algo dito ou feito por um inconsciente com poder e desplante para o fazer ou dizer. 4. Tendência para a vitimização. 5. Um misto de sacanice com trapalhada, ou de sacanagem com trapalhice < Fez-lhe uma santanice>. 6. Feitiço, mau olhado < Virou-se a santanice contra o santana (feiticeiro)>. Etim. Santana + ice.
Santanice s.m. (c. 2000) 1. Comportamento de alguém que, por acto, acção ou omissão, acaba sempre por prejudicar outrem e ser também ele prejudicado com esse acto, acção ou omissão, sem ter disso consciência. 2. Forma de agir inopinada e irresponsável que prejudica toda a gente envolvida directa ou indirectamente na acção, sem que o autor tenha uma consciência (relativa ou absoluta) das consequências dessa acção < Tá bem, pronto, eu volto>. 3. Estupidez, parvoíce, inexperiência, calinada, irresponsabilidade, efeito negativo de algo dito ou feito por um inconsciente com poder e desplante para o fazer ou dizer. 4. Tendência para a vitimização. 5. Um misto de sacanice com trapalhada, ou de sacanagem com trapalhice < Fez-lhe uma santanice>. 6. Feitiço, mau olhado < Virou-se a santanice contra o santana (feiticeiro)>. Etim. Santana + ice.
10 janeiro 2005
Car@s ciberamig@s - VII: Nem tudo o que luz (no ciberespaço) é ouro
1. Barretes na Net ? Há milhares, milhões. O último que apanhei foi o da Livraria Buccholz. Alguém andou a gozar comigo, a gozar connosco, lançando um falso alarme para uma situação de pré-falência de uma livraria que, para muitos de nós, é um ícone da cidade de Lisboa, e apelando à nossa ajuda...
Afinal, o gerente vem dizer que, de facto, há ou houve algumas dificuldades de tesouraria mas nada de tão dramático assim, a ponto de se falar em pré-falências ou mortes anunciadas... O homem até está a preparar-se, segundo a Lusa, para ficar com a posição dominante da empresa e fazer um bom negócio...
Pergunta minha, ingénua: Será que alguém anda a explorar a nossa boa-fé e o nosso sentido de solidariedade ? O e-mail anónoimo que por sí circulou foi excesso de zelo e/ou preocupação de um amigo e cliente da Buccholz ? Ou não se tratou antes de um golpe publicitário ? Fico na dúvida. E sobretudo fico de pé atrás.
De qualquer modo peço desculpa a quem chateei, entupindo a caixa do correio com uma mensagem que não corresponde, em grande parte, à verdade, ou que é alarmista.
2. Outro exemplo dos barretes na Net é uma "mensagem maravilhosa" atribuída a um tal George Carlin que circula por aí e que sensibilizou o meu filho que a recebeu ontem, por e-mail, de um colega de faculdade, segundo creio.
O autor, um comediante norte-americano dos anos 80, em fim de carreira e na sequência da morte recente da esposa, teria escrita esta peça inspiradíssima, tocante, cheia de espiritualidade, própria para ajudar a fazer o luto, consolar seres tristes e solitários, amparar gente pobre de espírito, enobrecer as almas misericordiosas...
Afinal, é tudo treta. O texto tem outra história e autor. Tive o cuidado de fazer uma elementar pesquisa na Net. Só no Google encontrei cerca de 30 mil referências à "wonderful message" do nosso viúvo e comediante George Carlin que, ao que parece, era um canastrão de um actor...
No sítio TruthOrFiction.com repõe-se a verdade. Aqui ficam as peças desta ficção para uso e apreciação dos leitores deste blogue. Este caso é, de resto, interessante para se perceber melhor como se produz e reproduz o rumor, o boato, na Net e fora dela: por exemplo, no nosso país, nos bastidores da política e da comunicação social, nas nossas empresas e demais organizações...
Para a próxima, car@s ciberamig@s, tenham mais cuidado com o que me/nos mandam para as caixas de correio... Façam a triagem do que recebem no vosso correio, não acreditem acéfala e piamente em tudo o que lêem e vêem, pesquisem outras fontes, pratiquem o "contraditório" (como está agora na moda dizer-se), e sobretudo não contribuam, por amor da vossa e nossa saúde mental para aumentar exponencialmente o lixo que circulo na Net!... Começo por criticar-me e penitenciar-me, a mim próprio, que às vezes sou ingénuo nestas coisas e caio na esparrela como um patinho. De facto, tenho de concluir que nem tudo o que luz (no ciberespaço) é ouro...
_________
The Paradox of Our Time > George Carlin's Tribute to His Late Wife >Fiction!
Summary of the eRumor
A message said to have come from George Carlin on the occasion of his wife's death and his commentary on the nation after the Attack on America on September 11, 2001. It has also circulated as having been written by a surviving student of the Columbine high school massacre in Colorado
The Truth
This has been circulating on the Internet for quite a while...long before September 11, and is not from George Carlin. Those who know George Carlin's views would immediately know that the comments in "The Paradox of Our Time" do not match those of Carlin.
On his website at www.georgecarlin.com he denies authorship and criticizes the piece. The rumor that these words were spoken on the occasion of the death of his wife are a recent addition to the eRumor, which began circulating about 1999.
There are many websites that quote from this now classic eRumor and identify it as having been written by Jeff Dickson in 1998. Thanks to a tip from one of our readers, we have found the original author, however. It is minister, author, and former pastor of Overlake Christian Church in Redmond, Washington.
In a response to an inquiry by TruthOrFiction.com, Dr. Moorehead said he wrote it in 1990. It was later published in 1995 in his book WORDS APTLY SPOKEN. (Our thanks to the Office of Communications of the Overlake Christian Church for his help on this story.)
Last updated 6/9/03
A real example of the eRumor as it has appeared on the Internet:
AFTER THE DEATH OF HIS WIFE!
GEORGE CARLIN POST 9-11 (His wife had recently died...)
Isn't it amazing that the George Carlin - gross and mouthy comedian of the 70's and 80's - could write something so very eloquent.... and so very appropriate post 9-11.
A wonderful Message by George Carlin:
The paradox of our time in history is that we have taller buildings but shorter tempers, wider freeways, but narrower viewpoints. We spend more, but have less; we buy more, but enjoy less. We have bigger houses and smaller families, more conveniences, but less time. We have more degrees but less sense, more knowledge, but less judgment, more experts, yet more problems, more medicine, but less wellness.
We drink too much, smoke too much, spend too recklessly, laugh too little, drive too fast, get too angry, stay up too late, get up too tired, read too little, watch TV too much, and pray too seldom. We have multiplied our possessions, but reduced our values. We talk too much, love too seldom, and hate too often.
We've learned how to make a living, but not a life. We've added years to life not life to years. We've been all the way to the moon and back, but have trouble crossing the street to meet a new neighbor. We conquered outer space but not inner space.
We've done larger things, but not better things. We've cleaned up the air, but polluted the soul. We've conquered the atom, but not our prejudice.
We write more, but learn less. We plan more, but accomplish less.
We've learned to rush, but not to wait. We build more computers to hold more information, to produce more copies than ever, but we communicate less and less.
These are the times of fast foods and slow digestion, big men and small character, steep profits and shallow relationships. These are the days of two incomes but more divorce, fancier houses, but broken homes.
These are days of quick trips, disposable diapers, throwaway morality, one night stands, overweight bodies, and pills that do everything from cheer, to quiet, to kill.
It is a time when there is much in the showroom window and nothing in the stockroom. A time when technology can bring this letter to you, and a time when you can choose either to share this insight, or to just hit delete.
Remember, spend some time with your loved ones, because they are not going to be around forever. Remember, say a kind word to someone who looks up to you in awe, because that little person soon will grow up and leave your side.
Remember to give a warm hug to the one next to you because that is the only treasure you can give with your heart and it doesn't cost a cent. Remember, to say "I love you" to your partner and your loved ones, but most of all mean it. A kiss and an embrace will mend hurt when it comes from deep inside of you. Remember to hold hands and cherish the moment for someday that person will not be there again. Give time to love, give time to speak and give time to share the precious thoughts in your mind.
(Com a devida cortesia: Fonte: TruthOrFiction.com > The paradox of our time) (2005.01.10)
Afinal, o gerente vem dizer que, de facto, há ou houve algumas dificuldades de tesouraria mas nada de tão dramático assim, a ponto de se falar em pré-falências ou mortes anunciadas... O homem até está a preparar-se, segundo a Lusa, para ficar com a posição dominante da empresa e fazer um bom negócio...
Pergunta minha, ingénua: Será que alguém anda a explorar a nossa boa-fé e o nosso sentido de solidariedade ? O e-mail anónoimo que por sí circulou foi excesso de zelo e/ou preocupação de um amigo e cliente da Buccholz ? Ou não se tratou antes de um golpe publicitário ? Fico na dúvida. E sobretudo fico de pé atrás.
De qualquer modo peço desculpa a quem chateei, entupindo a caixa do correio com uma mensagem que não corresponde, em grande parte, à verdade, ou que é alarmista.
2. Outro exemplo dos barretes na Net é uma "mensagem maravilhosa" atribuída a um tal George Carlin que circula por aí e que sensibilizou o meu filho que a recebeu ontem, por e-mail, de um colega de faculdade, segundo creio.
O autor, um comediante norte-americano dos anos 80, em fim de carreira e na sequência da morte recente da esposa, teria escrita esta peça inspiradíssima, tocante, cheia de espiritualidade, própria para ajudar a fazer o luto, consolar seres tristes e solitários, amparar gente pobre de espírito, enobrecer as almas misericordiosas...
Afinal, é tudo treta. O texto tem outra história e autor. Tive o cuidado de fazer uma elementar pesquisa na Net. Só no Google encontrei cerca de 30 mil referências à "wonderful message" do nosso viúvo e comediante George Carlin que, ao que parece, era um canastrão de um actor...
No sítio TruthOrFiction.com repõe-se a verdade. Aqui ficam as peças desta ficção para uso e apreciação dos leitores deste blogue. Este caso é, de resto, interessante para se perceber melhor como se produz e reproduz o rumor, o boato, na Net e fora dela: por exemplo, no nosso país, nos bastidores da política e da comunicação social, nas nossas empresas e demais organizações...
Para a próxima, car@s ciberamig@s, tenham mais cuidado com o que me/nos mandam para as caixas de correio... Façam a triagem do que recebem no vosso correio, não acreditem acéfala e piamente em tudo o que lêem e vêem, pesquisem outras fontes, pratiquem o "contraditório" (como está agora na moda dizer-se), e sobretudo não contribuam, por amor da vossa e nossa saúde mental para aumentar exponencialmente o lixo que circulo na Net!... Começo por criticar-me e penitenciar-me, a mim próprio, que às vezes sou ingénuo nestas coisas e caio na esparrela como um patinho. De facto, tenho de concluir que nem tudo o que luz (no ciberespaço) é ouro...
_________
The Paradox of Our Time > George Carlin's Tribute to His Late Wife >Fiction!
Summary of the eRumor
A message said to have come from George Carlin on the occasion of his wife's death and his commentary on the nation after the Attack on America on September 11, 2001. It has also circulated as having been written by a surviving student of the Columbine high school massacre in Colorado
The Truth
This has been circulating on the Internet for quite a while...long before September 11, and is not from George Carlin. Those who know George Carlin's views would immediately know that the comments in "The Paradox of Our Time" do not match those of Carlin.
On his website at www.georgecarlin.com he denies authorship and criticizes the piece. The rumor that these words were spoken on the occasion of the death of his wife are a recent addition to the eRumor, which began circulating about 1999.
There are many websites that quote from this now classic eRumor and identify it as having been written by Jeff Dickson in 1998. Thanks to a tip from one of our readers, we have found the original author, however. It is minister, author, and former pastor of Overlake Christian Church in Redmond, Washington.
In a response to an inquiry by TruthOrFiction.com, Dr. Moorehead said he wrote it in 1990. It was later published in 1995 in his book WORDS APTLY SPOKEN. (Our thanks to the Office of Communications of the Overlake Christian Church for his help on this story.)
Last updated 6/9/03
A real example of the eRumor as it has appeared on the Internet:
AFTER THE DEATH OF HIS WIFE!
GEORGE CARLIN POST 9-11 (His wife had recently died...)
Isn't it amazing that the George Carlin - gross and mouthy comedian of the 70's and 80's - could write something so very eloquent.... and so very appropriate post 9-11.
A wonderful Message by George Carlin:
The paradox of our time in history is that we have taller buildings but shorter tempers, wider freeways, but narrower viewpoints. We spend more, but have less; we buy more, but enjoy less. We have bigger houses and smaller families, more conveniences, but less time. We have more degrees but less sense, more knowledge, but less judgment, more experts, yet more problems, more medicine, but less wellness.
We drink too much, smoke too much, spend too recklessly, laugh too little, drive too fast, get too angry, stay up too late, get up too tired, read too little, watch TV too much, and pray too seldom. We have multiplied our possessions, but reduced our values. We talk too much, love too seldom, and hate too often.
We've learned how to make a living, but not a life. We've added years to life not life to years. We've been all the way to the moon and back, but have trouble crossing the street to meet a new neighbor. We conquered outer space but not inner space.
We've done larger things, but not better things. We've cleaned up the air, but polluted the soul. We've conquered the atom, but not our prejudice.
We write more, but learn less. We plan more, but accomplish less.
We've learned to rush, but not to wait. We build more computers to hold more information, to produce more copies than ever, but we communicate less and less.
These are the times of fast foods and slow digestion, big men and small character, steep profits and shallow relationships. These are the days of two incomes but more divorce, fancier houses, but broken homes.
These are days of quick trips, disposable diapers, throwaway morality, one night stands, overweight bodies, and pills that do everything from cheer, to quiet, to kill.
It is a time when there is much in the showroom window and nothing in the stockroom. A time when technology can bring this letter to you, and a time when you can choose either to share this insight, or to just hit delete.
Remember, spend some time with your loved ones, because they are not going to be around forever. Remember, say a kind word to someone who looks up to you in awe, because that little person soon will grow up and leave your side.
Remember to give a warm hug to the one next to you because that is the only treasure you can give with your heart and it doesn't cost a cent. Remember, to say "I love you" to your partner and your loved ones, but most of all mean it. A kiss and an embrace will mend hurt when it comes from deep inside of you. Remember to hold hands and cherish the moment for someday that person will not be there again. Give time to love, give time to speak and give time to share the precious thoughts in your mind.
(Com a devida cortesia: Fonte: TruthOrFiction.com > The paradox of our time) (2005.01.10)
Car@s ciberamig@s - VII: Nem tudo o que luz (no ciberespaço) é ouro
1. Barretes na Net ? Há milhares, milhões. O último que apanhei foi o da Livraria Buccholz. Alguém andou a gozar comigo, a gozar connosco, lançando um falso alarme para uma situação de pré-falência de uma livraria que, para muitos de nós, é um ícone da cidade de Lisboa, e apelando à nossa ajuda...
Afinal, o gerente vem dizer que, de facto, há ou houve algumas dificuldades de tesouraria mas nada de tão dramático assim, a ponto de se falar em pré-falências ou mortes anunciadas... O homem até está a preparar-se, segundo a Lusa, para ficar com a posição dominante da empresa e fazer um bom negócio...
Pergunta minha, ingénua: Será que alguém anda a explorar a nossa boa-fé e o nosso sentido de solidariedade ? O e-mail anónoimo que por sí circulou foi excesso de zelo e/ou preocupação de um amigo e cliente da Buccholz ? Ou não se tratou antes de um golpe publicitário ? Fico na dúvida. E sobretudo fico de pé atrás.
De qualquer modo peço desculpa a quem chateei, entupindo a caixa do correio com uma mensagem que não corresponde, em grande parte, à verdade, ou que é alarmista.
2. Outro exemplo dos barretes na Net é uma "mensagem maravilhosa" atribuída a um tal George Carlin que circula por aí e que sensibilizou o meu filho que a recebeu ontem, por e-mail, de um colega de faculdade, segundo creio.
O autor, um comediante norte-americano dos anos 80, em fim de carreira e na sequência da morte recente da esposa, teria escrita esta peça inspiradíssima, tocante, cheia de espiritualidade, própria para ajudar a fazer o luto, consolar seres tristes e solitários, amparar gente pobre de espírito, enobrecer as almas misericordiosas...
Afinal, é tudo treta. O texto tem outra história e autor. Tive o cuidado de fazer uma elementar pesquisa na Net. Só no Google encontrei cerca de 30 mil referências à "wonderful message" do nosso viúvo e comediante George Carlin que, ao que parece, era um canastrão de um actor...
No sítio TruthOrFiction.com repõe-se a verdade. Aqui ficam as peças desta ficção para uso e apreciação dos leitores deste blogue. Este caso é, de resto, interessante para se perceber melhor como se produz e reproduz o rumor, o boato, na Net e fora dela: por exemplo, no nosso país, nos bastidores da política e da comunicação social, nas nossas empresas e demais organizações...
Para a próxima, car@s ciberamig@s, tenham mais cuidado com o que me/nos mandam para as caixas de correio... Façam a triagem do que recebem no vosso correio, não acreditem acéfala e piamente em tudo o que lêem e vêem, pesquisem outras fontes, pratiquem o "contraditório" (como está agora na moda dizer-se), e sobretudo não contribuam, por amor da vossa e nossa saúde mental para aumentar exponencialmente o lixo que circulo na Net!... Começo por criticar-me e penitenciar-me, a mim próprio, que às vezes sou ingénuo nestas coisas e caio na esparrela como um patinho. De facto, tenho de concluir que nem tudo o que luz (no ciberespaço) é ouro...
_________
The Paradox of Our Time > George Carlin's Tribute to His Late Wife >Fiction!
Summary of the eRumor
A message said to have come from George Carlin on the occasion of his wife's death and his commentary on the nation after the Attack on America on September 11, 2001. It has also circulated as having been written by a surviving student of the Columbine high school massacre in Colorado
The Truth
This has been circulating on the Internet for quite a while...long before September 11, and is not from George Carlin. Those who know George Carlin's views would immediately know that the comments in "The Paradox of Our Time" do not match those of Carlin.
On his website at www.georgecarlin.com he denies authorship and criticizes the piece. The rumor that these words were spoken on the occasion of the death of his wife are a recent addition to the eRumor, which began circulating about 1999.
There are many websites that quote from this now classic eRumor and identify it as having been written by Jeff Dickson in 1998. Thanks to a tip from one of our readers, we have found the original author, however. It is minister, author, and former pastor of Overlake Christian Church in Redmond, Washington.
In a response to an inquiry by TruthOrFiction.com, Dr. Moorehead said he wrote it in 1990. It was later published in 1995 in his book WORDS APTLY SPOKEN. (Our thanks to the Office of Communications of the Overlake Christian Church for his help on this story.)
Last updated 6/9/03
A real example of the eRumor as it has appeared on the Internet:
AFTER THE DEATH OF HIS WIFE!
GEORGE CARLIN POST 9-11 (His wife had recently died...)
Isn't it amazing that the George Carlin - gross and mouthy comedian of the 70's and 80's - could write something so very eloquent.... and so very appropriate post 9-11.
A wonderful Message by George Carlin:
The paradox of our time in history is that we have taller buildings but shorter tempers, wider freeways, but narrower viewpoints. We spend more, but have less; we buy more, but enjoy less. We have bigger houses and smaller families, more conveniences, but less time. We have more degrees but less sense, more knowledge, but less judgment, more experts, yet more problems, more medicine, but less wellness.
We drink too much, smoke too much, spend too recklessly, laugh too little, drive too fast, get too angry, stay up too late, get up too tired, read too little, watch TV too much, and pray too seldom. We have multiplied our possessions, but reduced our values. We talk too much, love too seldom, and hate too often.
We've learned how to make a living, but not a life. We've added years to life not life to years. We've been all the way to the moon and back, but have trouble crossing the street to meet a new neighbor. We conquered outer space but not inner space.
We've done larger things, but not better things. We've cleaned up the air, but polluted the soul. We've conquered the atom, but not our prejudice.
We write more, but learn less. We plan more, but accomplish less.
We've learned to rush, but not to wait. We build more computers to hold more information, to produce more copies than ever, but we communicate less and less.
These are the times of fast foods and slow digestion, big men and small character, steep profits and shallow relationships. These are the days of two incomes but more divorce, fancier houses, but broken homes.
These are days of quick trips, disposable diapers, throwaway morality, one night stands, overweight bodies, and pills that do everything from cheer, to quiet, to kill.
It is a time when there is much in the showroom window and nothing in the stockroom. A time when technology can bring this letter to you, and a time when you can choose either to share this insight, or to just hit delete.
Remember, spend some time with your loved ones, because they are not going to be around forever. Remember, say a kind word to someone who looks up to you in awe, because that little person soon will grow up and leave your side.
Remember to give a warm hug to the one next to you because that is the only treasure you can give with your heart and it doesn't cost a cent. Remember, to say "I love you" to your partner and your loved ones, but most of all mean it. A kiss and an embrace will mend hurt when it comes from deep inside of you. Remember to hold hands and cherish the moment for someday that person will not be there again. Give time to love, give time to speak and give time to share the precious thoughts in your mind.
(Com a devida cortesia: Fonte: TruthOrFiction.com > The paradox of our time) (2005.01.10)
Afinal, o gerente vem dizer que, de facto, há ou houve algumas dificuldades de tesouraria mas nada de tão dramático assim, a ponto de se falar em pré-falências ou mortes anunciadas... O homem até está a preparar-se, segundo a Lusa, para ficar com a posição dominante da empresa e fazer um bom negócio...
Pergunta minha, ingénua: Será que alguém anda a explorar a nossa boa-fé e o nosso sentido de solidariedade ? O e-mail anónoimo que por sí circulou foi excesso de zelo e/ou preocupação de um amigo e cliente da Buccholz ? Ou não se tratou antes de um golpe publicitário ? Fico na dúvida. E sobretudo fico de pé atrás.
De qualquer modo peço desculpa a quem chateei, entupindo a caixa do correio com uma mensagem que não corresponde, em grande parte, à verdade, ou que é alarmista.
2. Outro exemplo dos barretes na Net é uma "mensagem maravilhosa" atribuída a um tal George Carlin que circula por aí e que sensibilizou o meu filho que a recebeu ontem, por e-mail, de um colega de faculdade, segundo creio.
O autor, um comediante norte-americano dos anos 80, em fim de carreira e na sequência da morte recente da esposa, teria escrita esta peça inspiradíssima, tocante, cheia de espiritualidade, própria para ajudar a fazer o luto, consolar seres tristes e solitários, amparar gente pobre de espírito, enobrecer as almas misericordiosas...
Afinal, é tudo treta. O texto tem outra história e autor. Tive o cuidado de fazer uma elementar pesquisa na Net. Só no Google encontrei cerca de 30 mil referências à "wonderful message" do nosso viúvo e comediante George Carlin que, ao que parece, era um canastrão de um actor...
No sítio TruthOrFiction.com repõe-se a verdade. Aqui ficam as peças desta ficção para uso e apreciação dos leitores deste blogue. Este caso é, de resto, interessante para se perceber melhor como se produz e reproduz o rumor, o boato, na Net e fora dela: por exemplo, no nosso país, nos bastidores da política e da comunicação social, nas nossas empresas e demais organizações...
Para a próxima, car@s ciberamig@s, tenham mais cuidado com o que me/nos mandam para as caixas de correio... Façam a triagem do que recebem no vosso correio, não acreditem acéfala e piamente em tudo o que lêem e vêem, pesquisem outras fontes, pratiquem o "contraditório" (como está agora na moda dizer-se), e sobretudo não contribuam, por amor da vossa e nossa saúde mental para aumentar exponencialmente o lixo que circulo na Net!... Começo por criticar-me e penitenciar-me, a mim próprio, que às vezes sou ingénuo nestas coisas e caio na esparrela como um patinho. De facto, tenho de concluir que nem tudo o que luz (no ciberespaço) é ouro...
_________
The Paradox of Our Time > George Carlin's Tribute to His Late Wife >Fiction!
Summary of the eRumor
A message said to have come from George Carlin on the occasion of his wife's death and his commentary on the nation after the Attack on America on September 11, 2001. It has also circulated as having been written by a surviving student of the Columbine high school massacre in Colorado
The Truth
This has been circulating on the Internet for quite a while...long before September 11, and is not from George Carlin. Those who know George Carlin's views would immediately know that the comments in "The Paradox of Our Time" do not match those of Carlin.
On his website at www.georgecarlin.com he denies authorship and criticizes the piece. The rumor that these words were spoken on the occasion of the death of his wife are a recent addition to the eRumor, which began circulating about 1999.
There are many websites that quote from this now classic eRumor and identify it as having been written by Jeff Dickson in 1998. Thanks to a tip from one of our readers, we have found the original author, however. It is minister, author, and former pastor of Overlake Christian Church in Redmond, Washington.
In a response to an inquiry by TruthOrFiction.com, Dr. Moorehead said he wrote it in 1990. It was later published in 1995 in his book WORDS APTLY SPOKEN. (Our thanks to the Office of Communications of the Overlake Christian Church for his help on this story.)
Last updated 6/9/03
A real example of the eRumor as it has appeared on the Internet:
AFTER THE DEATH OF HIS WIFE!
GEORGE CARLIN POST 9-11 (His wife had recently died...)
Isn't it amazing that the George Carlin - gross and mouthy comedian of the 70's and 80's - could write something so very eloquent.... and so very appropriate post 9-11.
A wonderful Message by George Carlin:
The paradox of our time in history is that we have taller buildings but shorter tempers, wider freeways, but narrower viewpoints. We spend more, but have less; we buy more, but enjoy less. We have bigger houses and smaller families, more conveniences, but less time. We have more degrees but less sense, more knowledge, but less judgment, more experts, yet more problems, more medicine, but less wellness.
We drink too much, smoke too much, spend too recklessly, laugh too little, drive too fast, get too angry, stay up too late, get up too tired, read too little, watch TV too much, and pray too seldom. We have multiplied our possessions, but reduced our values. We talk too much, love too seldom, and hate too often.
We've learned how to make a living, but not a life. We've added years to life not life to years. We've been all the way to the moon and back, but have trouble crossing the street to meet a new neighbor. We conquered outer space but not inner space.
We've done larger things, but not better things. We've cleaned up the air, but polluted the soul. We've conquered the atom, but not our prejudice.
We write more, but learn less. We plan more, but accomplish less.
We've learned to rush, but not to wait. We build more computers to hold more information, to produce more copies than ever, but we communicate less and less.
These are the times of fast foods and slow digestion, big men and small character, steep profits and shallow relationships. These are the days of two incomes but more divorce, fancier houses, but broken homes.
These are days of quick trips, disposable diapers, throwaway morality, one night stands, overweight bodies, and pills that do everything from cheer, to quiet, to kill.
It is a time when there is much in the showroom window and nothing in the stockroom. A time when technology can bring this letter to you, and a time when you can choose either to share this insight, or to just hit delete.
Remember, spend some time with your loved ones, because they are not going to be around forever. Remember, say a kind word to someone who looks up to you in awe, because that little person soon will grow up and leave your side.
Remember to give a warm hug to the one next to you because that is the only treasure you can give with your heart and it doesn't cost a cent. Remember, to say "I love you" to your partner and your loved ones, but most of all mean it. A kiss and an embrace will mend hurt when it comes from deep inside of you. Remember to hold hands and cherish the moment for someday that person will not be there again. Give time to love, give time to speak and give time to share the precious thoughts in your mind.
(Com a devida cortesia: Fonte: TruthOrFiction.com > The paradox of our time) (2005.01.10)
05 janeiro 2005
Car@s ciberamig@s - VI: Salvemos a Livraria Buchholz
Chegou-me, por e-mail, por mão amiga, este apelo. Num país em que o consumo cultural é baixo, o índice de iliteracia alto, e o número de hipermercados e centros comerciais por hectare avassalador, o fecho de uma livraria é sempre uma grande perda, a nível local, regional ou nacional.
Dizem-me que a Livraria Buchholz corre o risco de desaparecer. Não sei exactamente quais são as razões, mas julgo que sejam comerciais e económico-financeiras. Com a sua morte, a nossa cultura e a cidade de Lisboa ficariam mais pobres. Um pequeno gesto nosso, de todos nós que gostamos de livros, que compramos livros, que lemos livros, pode ajudar a salvar este espaço de convívio e de cultura que faz parte da memória e do património da cidade.
Como diz um outro amigo meu, adiro ao presente apelo na esperança de que a velha e prestigiada Buccholz - International Bookshop não venha a ser substituída por uma qualquer manjedoura da McDonald's ou por um qualquer franchising na área do pronto a despir.
L.G.
1. A Livraria Buchholz, lugar de referência do nosso (pequeno) universo cultural, encontra-se em situação de pré-falência.
Agradece-se a todos quantos a frequentaram que a voltem a visitar, de vez em quando.
Comprar um livro que não se encontra em mais lado nenhum pode, eventualmente, ajudar a reerguê-la.
Agradece-se que passem esta informação aos amigos e interessados.
2. A Livraria Buchholz é uma livraria com história. Foi fundada em 1943 pelo livreiro alemão Karl Buchholz, que deixou Berlim depois da sua galeria de arte e livraria terem sido destruídas pelos bombardeamentos.
A actividade de Buchholz era incompatível com o regime de Berlim, nomeadamente a venda de autores considerados proscritos, como Thomas Mann. No entanto, a relação de Buchholz com o regime era algo dúbia pois tanto compactuava em manobras de propaganda alemã como salvava da fogueira obras de Picasso e Braque, condenadas pela fúria nazi.
No início, a livraria estava situada em Lisboa na Avenida da Liberdade e só em 1965 se instalou na Rua Duque de Palmela. O interior foi projectado pelo próprio livreiro ao estilo das livrarias da sua terra natal. O espaço estende-se por três andares unidos por uma escada de caracol, com recantos e sofás que proporcionam uma intimidade dos leitores com os livros. A madeira das escadas, chão e estantes torna o espaço acolhedor e agradável.
Durante os anos 60, a tertúlia artística lisboeta - entre eles, Escada, Noronha da Costa, Eduardo Nery e Malangatana - passou pela cave da Buchholz que funcionou como galeria até 1974.
Hoje, a galeria continua a ser uma referência cultural com um público fiel que preza o espaço de convívio que a livraria sugere. A selecção dos títulos é vasta e inclui várias áreas: artes, ciência, humanidades, literatura portuguesa e estrangeira, livros técnicos e infantis. Na cave funciona uma secção de música clássica e etnográfica. Apesar de não ser especializada em nenhuma área, a secção dedicada à ciência política é frequentada por muitos políticos da nossa praça.
A Buchholz acolhe ainda eventos especiais como lançamentos de livros, sessões de leitura e o "Domingo Especial" que são os saldos anuais da livraria, uma vez por ano, no último domingo de Novembro. Na Buchholz on-line pode percorrer as estantes da livraria sem sair de casa e ainda encomendar livros nacionais e alguns estrangeiros.
Telefone: 213170580
Local: Lisboa, R. Duque de Palmela, 4
Horários: Segunda a sábado das 09h00 às 18h00 (encerra sábado às 13h).
Observações: Especialidades: livraria generalista.
Sítio oficial: http://www.buchholz.pt (em remodelação, nesta data).
Post-scriptum
Segundo notícia da Lusa, de hoje,ao fim da tarde, que acabo de receber por outra mão amiga, o novo director-geral da Livraria Buccholz, José Leal Loureiro, veio dizer que a livraria está a recuperar de uma "fase crítica" e veio promter uma livraria com capacidade de bem servir os clientes, dinamizada através de lançamentos e conferências: "A livraria teve um período de dificuldades, relacionado com a própria conjuntura do país, mas agora vai retomar os eventos que costuma acolher", assegurou à Lusa José Loureiro, que reagia a um e- mail enviado para a comunicação social a dar conta de uma alegada situação de pré-falência. "Pré-falência parece-me uma expressão demasiado violenta", comentou o responsável, acrescentando que a mensagem anónima terá sido remetida "por algum cliente bem intencionado, que julgou assim dar o seu melhor para ajudar a livraria".
O novo director-geral da Buchholz afirmou também que "a livraria encontra-se a preparar um reforço de capital, e está a tentar incrementar as vendas e reduzir alguns custos, com vista a voltar a funcionar em pleno". José Leal Loureiro declarou ainda à Lusa que "alguns importantes editores que tinham cessado os fornecimentos à livraria devido às dificuldades financeiras da Buchholz já os retomaram, caso da Difel/Gótica, Caminho, Europa-América ou Dinalivro".
Ainda segundo a notícia das Lusa, esta terça-feira foi enviada um e-mail anónimo a diversos órgãos de comunicação dizendo que a Buchholz estaria a um passo de falir e apelando aos leitores para que ajudassem à recuperação da livraria, conhecida por ter algumas edições raras e obras em língua estrangeira.
Conclusão: Os blogadores portugueses reagem rápído às notícias más, agoirentas ou ameaçadoras. E acima de tudo são generosos e solidários. Espero que esta história tenha um final feliz. L.G.
Dizem-me que a Livraria Buchholz corre o risco de desaparecer. Não sei exactamente quais são as razões, mas julgo que sejam comerciais e económico-financeiras. Com a sua morte, a nossa cultura e a cidade de Lisboa ficariam mais pobres. Um pequeno gesto nosso, de todos nós que gostamos de livros, que compramos livros, que lemos livros, pode ajudar a salvar este espaço de convívio e de cultura que faz parte da memória e do património da cidade.
Como diz um outro amigo meu, adiro ao presente apelo na esperança de que a velha e prestigiada Buccholz - International Bookshop não venha a ser substituída por uma qualquer manjedoura da McDonald's ou por um qualquer franchising na área do pronto a despir.
L.G.
1. A Livraria Buchholz, lugar de referência do nosso (pequeno) universo cultural, encontra-se em situação de pré-falência.
Agradece-se a todos quantos a frequentaram que a voltem a visitar, de vez em quando.
Comprar um livro que não se encontra em mais lado nenhum pode, eventualmente, ajudar a reerguê-la.
Agradece-se que passem esta informação aos amigos e interessados.
2. A Livraria Buchholz é uma livraria com história. Foi fundada em 1943 pelo livreiro alemão Karl Buchholz, que deixou Berlim depois da sua galeria de arte e livraria terem sido destruídas pelos bombardeamentos.
A actividade de Buchholz era incompatível com o regime de Berlim, nomeadamente a venda de autores considerados proscritos, como Thomas Mann. No entanto, a relação de Buchholz com o regime era algo dúbia pois tanto compactuava em manobras de propaganda alemã como salvava da fogueira obras de Picasso e Braque, condenadas pela fúria nazi.
No início, a livraria estava situada em Lisboa na Avenida da Liberdade e só em 1965 se instalou na Rua Duque de Palmela. O interior foi projectado pelo próprio livreiro ao estilo das livrarias da sua terra natal. O espaço estende-se por três andares unidos por uma escada de caracol, com recantos e sofás que proporcionam uma intimidade dos leitores com os livros. A madeira das escadas, chão e estantes torna o espaço acolhedor e agradável.
Durante os anos 60, a tertúlia artística lisboeta - entre eles, Escada, Noronha da Costa, Eduardo Nery e Malangatana - passou pela cave da Buchholz que funcionou como galeria até 1974.
Hoje, a galeria continua a ser uma referência cultural com um público fiel que preza o espaço de convívio que a livraria sugere. A selecção dos títulos é vasta e inclui várias áreas: artes, ciência, humanidades, literatura portuguesa e estrangeira, livros técnicos e infantis. Na cave funciona uma secção de música clássica e etnográfica. Apesar de não ser especializada em nenhuma área, a secção dedicada à ciência política é frequentada por muitos políticos da nossa praça.
A Buchholz acolhe ainda eventos especiais como lançamentos de livros, sessões de leitura e o "Domingo Especial" que são os saldos anuais da livraria, uma vez por ano, no último domingo de Novembro. Na Buchholz on-line pode percorrer as estantes da livraria sem sair de casa e ainda encomendar livros nacionais e alguns estrangeiros.
Telefone: 213170580
Local: Lisboa, R. Duque de Palmela, 4
Horários: Segunda a sábado das 09h00 às 18h00 (encerra sábado às 13h).
Observações: Especialidades: livraria generalista.
Sítio oficial: http://www.buchholz.pt (em remodelação, nesta data).
Post-scriptum
Segundo notícia da Lusa, de hoje,ao fim da tarde, que acabo de receber por outra mão amiga, o novo director-geral da Livraria Buccholz, José Leal Loureiro, veio dizer que a livraria está a recuperar de uma "fase crítica" e veio promter uma livraria com capacidade de bem servir os clientes, dinamizada através de lançamentos e conferências: "A livraria teve um período de dificuldades, relacionado com a própria conjuntura do país, mas agora vai retomar os eventos que costuma acolher", assegurou à Lusa José Loureiro, que reagia a um e- mail enviado para a comunicação social a dar conta de uma alegada situação de pré-falência. "Pré-falência parece-me uma expressão demasiado violenta", comentou o responsável, acrescentando que a mensagem anónima terá sido remetida "por algum cliente bem intencionado, que julgou assim dar o seu melhor para ajudar a livraria".
O novo director-geral da Buchholz afirmou também que "a livraria encontra-se a preparar um reforço de capital, e está a tentar incrementar as vendas e reduzir alguns custos, com vista a voltar a funcionar em pleno". José Leal Loureiro declarou ainda à Lusa que "alguns importantes editores que tinham cessado os fornecimentos à livraria devido às dificuldades financeiras da Buchholz já os retomaram, caso da Difel/Gótica, Caminho, Europa-América ou Dinalivro".
Ainda segundo a notícia das Lusa, esta terça-feira foi enviada um e-mail anónimo a diversos órgãos de comunicação dizendo que a Buchholz estaria a um passo de falir e apelando aos leitores para que ajudassem à recuperação da livraria, conhecida por ter algumas edições raras e obras em língua estrangeira.
Conclusão: Os blogadores portugueses reagem rápído às notícias más, agoirentas ou ameaçadoras. E acima de tudo são generosos e solidários. Espero que esta história tenha um final feliz. L.G.
Car@s ciberamig@s - VI: Salvemos a Livraria Buchholz
Chegou-me, por e-mail, por mão amiga, este apelo. Num país em que o consumo cultural é baixo, o índice de iliteracia alto, e o número de hipermercados e centros comerciais por hectare avassalador, o fecho de uma livraria é sempre uma grande perda, a nível local, regional ou nacional.
Dizem-me que a Livraria Buchholz corre o risco de desaparecer. Não sei exactamente quais são as razões, mas julgo que sejam comerciais e económico-financeiras. Com a sua morte, a nossa cultura e a cidade de Lisboa ficariam mais pobres. Um pequeno gesto nosso, de todos nós que gostamos de livros, que compramos livros, que lemos livros, pode ajudar a salvar este espaço de convívio e de cultura que faz parte da memória e do património da cidade.
Como diz um outro amigo meu, adiro ao presente apelo na esperança de que a velha e prestigiada Buccholz - International Bookshop não venha a ser substituída por uma qualquer manjedoura da McDonald's ou por um qualquer franchising na área do pronto a despir.
L.G.
1. A Livraria Buchholz, lugar de referência do nosso (pequeno) universo cultural, encontra-se em situação de pré-falência.
Agradece-se a todos quantos a frequentaram que a voltem a visitar, de vez em quando.
Comprar um livro que não se encontra em mais lado nenhum pode, eventualmente, ajudar a reerguê-la.
Agradece-se que passem esta informação aos amigos e interessados.
2. A Livraria Buchholz é uma livraria com história. Foi fundada em 1943 pelo livreiro alemão Karl Buchholz, que deixou Berlim depois da sua galeria de arte e livraria terem sido destruídas pelos bombardeamentos.
A actividade de Buchholz era incompatível com o regime de Berlim, nomeadamente a venda de autores considerados proscritos, como Thomas Mann. No entanto, a relação de Buchholz com o regime era algo dúbia pois tanto compactuava em manobras de propaganda alemã como salvava da fogueira obras de Picasso e Braque, condenadas pela fúria nazi.
No início, a livraria estava situada em Lisboa na Avenida da Liberdade e só em 1965 se instalou na Rua Duque de Palmela. O interior foi projectado pelo próprio livreiro ao estilo das livrarias da sua terra natal. O espaço estende-se por três andares unidos por uma escada de caracol, com recantos e sofás que proporcionam uma intimidade dos leitores com os livros. A madeira das escadas, chão e estantes torna o espaço acolhedor e agradável.
Durante os anos 60, a tertúlia artística lisboeta - entre eles, Escada, Noronha da Costa, Eduardo Nery e Malangatana - passou pela cave da Buchholz que funcionou como galeria até 1974.
Hoje, a galeria continua a ser uma referência cultural com um público fiel que preza o espaço de convívio que a livraria sugere. A selecção dos títulos é vasta e inclui várias áreas: artes, ciência, humanidades, literatura portuguesa e estrangeira, livros técnicos e infantis. Na cave funciona uma secção de música clássica e etnográfica. Apesar de não ser especializada em nenhuma área, a secção dedicada à ciência política é frequentada por muitos políticos da nossa praça.
A Buchholz acolhe ainda eventos especiais como lançamentos de livros, sessões de leitura e o "Domingo Especial" que são os saldos anuais da livraria, uma vez por ano, no último domingo de Novembro. Na Buchholz on-line pode percorrer as estantes da livraria sem sair de casa e ainda encomendar livros nacionais e alguns estrangeiros.
Telefone: 213170580
Local: Lisboa, R. Duque de Palmela, 4
Horários: Segunda a sábado das 09h00 às 18h00 (encerra sábado às 13h).
Observações: Especialidades: livraria generalista.
Sítio oficial: http://www.buchholz.pt (em remodelação, nesta data).
Post-scriptum
Segundo notícia da Lusa, de hoje,ao fim da tarde, que acabo de receber por outra mão amiga, o novo director-geral da Livraria Buccholz, José Leal Loureiro, veio dizer que a livraria está a recuperar de uma "fase crítica" e veio promter uma livraria com capacidade de bem servir os clientes, dinamizada através de lançamentos e conferências: "A livraria teve um período de dificuldades, relacionado com a própria conjuntura do país, mas agora vai retomar os eventos que costuma acolher", assegurou à Lusa José Loureiro, que reagia a um e- mail enviado para a comunicação social a dar conta de uma alegada situação de pré-falência. "Pré-falência parece-me uma expressão demasiado violenta", comentou o responsável, acrescentando que a mensagem anónima terá sido remetida "por algum cliente bem intencionado, que julgou assim dar o seu melhor para ajudar a livraria".
O novo director-geral da Buchholz afirmou também que "a livraria encontra-se a preparar um reforço de capital, e está a tentar incrementar as vendas e reduzir alguns custos, com vista a voltar a funcionar em pleno". José Leal Loureiro declarou ainda à Lusa que "alguns importantes editores que tinham cessado os fornecimentos à livraria devido às dificuldades financeiras da Buchholz já os retomaram, caso da Difel/Gótica, Caminho, Europa-América ou Dinalivro".
Ainda segundo a notícia das Lusa, esta terça-feira foi enviada um e-mail anónimo a diversos órgãos de comunicação dizendo que a Buchholz estaria a um passo de falir e apelando aos leitores para que ajudassem à recuperação da livraria, conhecida por ter algumas edições raras e obras em língua estrangeira.
Conclusão: Os blogadores portugueses reagem rápído às notícias más, agoirentas ou ameaçadoras. E acima de tudo são generosos e solidários. Espero que esta história tenha um final feliz. L.G.
Dizem-me que a Livraria Buchholz corre o risco de desaparecer. Não sei exactamente quais são as razões, mas julgo que sejam comerciais e económico-financeiras. Com a sua morte, a nossa cultura e a cidade de Lisboa ficariam mais pobres. Um pequeno gesto nosso, de todos nós que gostamos de livros, que compramos livros, que lemos livros, pode ajudar a salvar este espaço de convívio e de cultura que faz parte da memória e do património da cidade.
Como diz um outro amigo meu, adiro ao presente apelo na esperança de que a velha e prestigiada Buccholz - International Bookshop não venha a ser substituída por uma qualquer manjedoura da McDonald's ou por um qualquer franchising na área do pronto a despir.
L.G.
1. A Livraria Buchholz, lugar de referência do nosso (pequeno) universo cultural, encontra-se em situação de pré-falência.
Agradece-se a todos quantos a frequentaram que a voltem a visitar, de vez em quando.
Comprar um livro que não se encontra em mais lado nenhum pode, eventualmente, ajudar a reerguê-la.
Agradece-se que passem esta informação aos amigos e interessados.
2. A Livraria Buchholz é uma livraria com história. Foi fundada em 1943 pelo livreiro alemão Karl Buchholz, que deixou Berlim depois da sua galeria de arte e livraria terem sido destruídas pelos bombardeamentos.
A actividade de Buchholz era incompatível com o regime de Berlim, nomeadamente a venda de autores considerados proscritos, como Thomas Mann. No entanto, a relação de Buchholz com o regime era algo dúbia pois tanto compactuava em manobras de propaganda alemã como salvava da fogueira obras de Picasso e Braque, condenadas pela fúria nazi.
No início, a livraria estava situada em Lisboa na Avenida da Liberdade e só em 1965 se instalou na Rua Duque de Palmela. O interior foi projectado pelo próprio livreiro ao estilo das livrarias da sua terra natal. O espaço estende-se por três andares unidos por uma escada de caracol, com recantos e sofás que proporcionam uma intimidade dos leitores com os livros. A madeira das escadas, chão e estantes torna o espaço acolhedor e agradável.
Durante os anos 60, a tertúlia artística lisboeta - entre eles, Escada, Noronha da Costa, Eduardo Nery e Malangatana - passou pela cave da Buchholz que funcionou como galeria até 1974.
Hoje, a galeria continua a ser uma referência cultural com um público fiel que preza o espaço de convívio que a livraria sugere. A selecção dos títulos é vasta e inclui várias áreas: artes, ciência, humanidades, literatura portuguesa e estrangeira, livros técnicos e infantis. Na cave funciona uma secção de música clássica e etnográfica. Apesar de não ser especializada em nenhuma área, a secção dedicada à ciência política é frequentada por muitos políticos da nossa praça.
A Buchholz acolhe ainda eventos especiais como lançamentos de livros, sessões de leitura e o "Domingo Especial" que são os saldos anuais da livraria, uma vez por ano, no último domingo de Novembro. Na Buchholz on-line pode percorrer as estantes da livraria sem sair de casa e ainda encomendar livros nacionais e alguns estrangeiros.
Telefone: 213170580
Local: Lisboa, R. Duque de Palmela, 4
Horários: Segunda a sábado das 09h00 às 18h00 (encerra sábado às 13h).
Observações: Especialidades: livraria generalista.
Sítio oficial: http://www.buchholz.pt (em remodelação, nesta data).
Post-scriptum
Segundo notícia da Lusa, de hoje,ao fim da tarde, que acabo de receber por outra mão amiga, o novo director-geral da Livraria Buccholz, José Leal Loureiro, veio dizer que a livraria está a recuperar de uma "fase crítica" e veio promter uma livraria com capacidade de bem servir os clientes, dinamizada através de lançamentos e conferências: "A livraria teve um período de dificuldades, relacionado com a própria conjuntura do país, mas agora vai retomar os eventos que costuma acolher", assegurou à Lusa José Loureiro, que reagia a um e- mail enviado para a comunicação social a dar conta de uma alegada situação de pré-falência. "Pré-falência parece-me uma expressão demasiado violenta", comentou o responsável, acrescentando que a mensagem anónima terá sido remetida "por algum cliente bem intencionado, que julgou assim dar o seu melhor para ajudar a livraria".
O novo director-geral da Buchholz afirmou também que "a livraria encontra-se a preparar um reforço de capital, e está a tentar incrementar as vendas e reduzir alguns custos, com vista a voltar a funcionar em pleno". José Leal Loureiro declarou ainda à Lusa que "alguns importantes editores que tinham cessado os fornecimentos à livraria devido às dificuldades financeiras da Buchholz já os retomaram, caso da Difel/Gótica, Caminho, Europa-América ou Dinalivro".
Ainda segundo a notícia das Lusa, esta terça-feira foi enviada um e-mail anónimo a diversos órgãos de comunicação dizendo que a Buchholz estaria a um passo de falir e apelando aos leitores para que ajudassem à recuperação da livraria, conhecida por ter algumas edições raras e obras em língua estrangeira.
Conclusão: Os blogadores portugueses reagem rápído às notícias más, agoirentas ou ameaçadoras. E acima de tudo são generosos e solidários. Espero que esta história tenha um final feliz. L.G.
23 dezembro 2004
Blogantologia(s) - XXII: Saldo(s) para o ano de 2005
A todos os homens e mulheres (i) que cabem na minha lista de e-mails ou (ii) que a transbordam ou (iii) que circulam, a desoras e sem rumo, na blogosfera, (iv) quer façam ou não o favor de serem meus amigos: deixem-me desejar-vos o melhor da vida para o Novo Ano que, dizem, aí vem!!!
L.G.
Car@s amig@s planetári@s:
1. Eis-nos chegad@s
Ao fim do ano de dois mil e quatro,
E digo fim
Porque é já inverno
E faz frio
E porque acabei de arrancar
A última folha amarelada do calendário.
E digo fim para não praguejar
E para não ir parar com os quatro costados
Ao inferno.
Dizemos fim do ano
Por mera convenção ou conveniência.
Ou se calhar,
Por tristeza ou desfastio,
Cansaço, saturação, impaciência.
Depressão, dirá muita boa gente.
Ou só por que nos deu na real veneta;
Em suma, dizemos fim
Sem qualquer razão aparente.
Na prática não chegámos ao fim,
Não chegámos a parte nenhuma,
A pé, de carro, de barco ou de dromedário,
À boleia, a nado ou até de parapente,
Que o chegar é sempre a um algum sítio,
Lugar, porto, ilha, montanha de bruma,
País, continente, planeta,
Ou pico do Evereste.
E chegar ao fim
É sempre sinónimo de festa.
Não arribámos a nenhum porto
Ou outro ponto imaginário
Do globo terrestre;
Não fomos pioneiros,
Não descobrimos a misteriosa citânia
Da nossa proto-história lusitana
Nem sequer a porta do risonho futuro
Que há-de vir;
É tudo treta,
Não fomos os primeiros
Nem sequer os últimos
A cortar a meta;
Não fomos notícia,
Nem mesmo em Alcácer Quibir;
Não estávamos entre os anónimos mineiros
Soterrados na China e na Ucrânia;
Não houve festa, nem luto, nem bomba atómica,
Não houve alvoroço, nem foguetes,
Nem estátua equestre,
Nem sequer a banda trágico-cómica
Dos bombeiros voluntários
Do Emir Kusturica.
À nossa espera
Ou no nosso enterro.
Vendo bem,
Não fizemos nada de heróico,
Não salvámos a humanidade,
Não fizemos a guerra,
Não lutámos contra os canhões,
Não assinámos a paz,
Nem sequer levámos a carta a Garcia.
Enfim, não ganhámos nenhum prémio,
Nem sequer o Nobel, nem a lotaria,
Muito menos o Euromilhões;
Em resumo, dizem-nos que,
No ano da graça do senhor
De dois e mil e quatro,
Tu e eu, nós todos,
Nada temos de concreto
Para celebrar.
Mas chegados ao fim do ano,
É costume fazer-se o balanço,
Se não da viagem,
Pelo menos do deve-e-haver
Das nossas vidas,
Da carga preciosa que transportamos connosco,
Que é a vida e o dever de a viver.
Que é o fogo da vida
E a obrigação de o alimentarmos,
O pequeno milagre
Ou o simples facto
De estarmos vivos,
De ainda estarmos vivos
E de estarmos juntos.
2. Façamos, pois, o balanço,
Meus amigos,
O deve-e-haver deste ano
De dois mil e quatro,
Que se calhar foi um annus horribilis
Como os anteriores,
Para a maior parte dos homens e mulheres,
Noss@s vizinh@s planetári@s.
Que a vinte e três de dezembro,
O horóscopo da humanidade
Não está em condições de prever
Terramotos, catástrofes, pestes, tsunamis,
O cortejo dos horrores
Que costumam acompanhar os cavaleiros do Apocalipse.
Façamos o balanço das nossas vidas
Como pessoas, como grupos,
Como instituições, como países.
Siga-se, nesta matéria, a tradição,
Que a tradição ainda manda,
E com isso não vai grande mal ao mundo
(Se querem saber a minha opinião).
3. Como sempre, houve coisas boas
E coisas más
Ao longo do ano que agora finda.
Releguemos as más para os historiadores.
Ou para o nosso confessor, psiquiatra ou confidente.
Ou para o diário secreto de Narciso.
Em boa verdade, as coisas más vão ao fundo,
Não flutuam como os corpos,
São, por definição, para esquecer.
- Dorme, que foi um sonho mau!,
Diziam-te em criança.
Criança sem juízo,
Sem dente do siso.
Abramos, pois, os nossos corações
Para falar ou dar testemunho
Das coisas boas que nos aconteceram.
Que a hora é de desafivelar as máscaras
Dos actores que também somos.
Maus, canastrões,
Mas que importa, se o palco é tudo!
Falemos dos acontecimentos
De que fomos protagonistas.
Pequenos, sem dúvida,
À nossa escala, à escala humana,
Mas importantes,
Para nós, a nossa família, os nossos amigos,
As empresas ou organizações onde trabalhamos,
As pessoas que confiaram em nós,
Que apostaram e acreditaram em nós.
Falemos das situações de que fomos
Actores de verdade, actores de facto.
Independentemente do nosso papel,
E do tamanho do nosso papel.
Ou do número de graus de liberdade
A que temos direito
Ou que fazem parte do nosso contrato.
Que o importante foi ser actor
E não mero figurante.
Falemos dos projectos
De que fomos gestores
Ou simples trabalhadores
De equipa.
Falemos dos conhecimentos novos
Que tivemos o privilégio
De produzir, obter ou divulgar
Através do nosso trabalho, estudo ou formação.
Dos livros que lemos ou escrevemos
Ou que comprámos para ler mais tarde,
”Quando formos velhinh@s
E tivermos todo o tempo do mundo”
(Oh, doce ilusão!).
Não nos esqueçamos de evocar
As pessoas fantásticas que conhecemos.
Mas também os filmes de última hora
Que perdemos no trânsito da vida.
Ou as estórias que não ouvimos ou não lemos,
Por falta de paciência ou de audiência
Ou de simples lugar de estacionamento
No hall congestionado do planeta azul.
Falemos das oportunidades que tivemos
De fazer coisas novas,
Inovadoras, ou simplesmente úteis,
Para nós, para os outros, para o nosso país.
E que não desperdiçámos.
Ajudando o mundo a tornar-se
Mais amigável
Ou, pelo menos, mais habitável.
Falemos das pequenas coisas boas
Que nos aconteceram,
Não por mero acaso,
Mas porque as merecemos,
(Sem falsa modéstia!),
Porque lutámos por elas,
Porque outros nos ajudaram a conseguí-las
Porque juntos conseguimo-las.
Falemos ainda do nosso crescimento interior:
Se estamos mais sábios, mais atentos,
Mais conscientes da água que corre nos nossos rios
Ou do HIV/SIDA que nos está matando,
É porque crescemos por dentro.
Mas sejamos capazes também de falar
Das brincadeiras ou partidas
(Não das sacanices!)
Que fizemos uns aos outros.
Que o brincar não é proibido,
Ou não deveria sê-lo,
Que o brincar devia mesmo ser obrigatório
Na escolinha da vida
E nos locais de trabalho
Onde, já crescidos, a ganhamos.
Falemos dos e-mails que trocámos
E que encheram as nossas caixas de correio.
Das anedotas que contámos.
Até das de mau gosto,
Xenófobas, racistas e sexistas.
Falemos do pão, do queijo e do vinho
Que partilhámos com alguém,
Ao fim da tarde,
Não importa onde,
No Alentejo, em Angola, ou no Minho,
Em qualquer parte onde
Temos im amigo, um parceiro, um compincha.
Que o companheiro (do latim cum + pane) é
Justamente aquele que compartilha connosco
O pão e o vinho à mesma mesa.
Sim, falemos das emoções
Que pusemos em cima da mesa.
Ou da ausência delas.
Da paz que conseguimos, em certas ocasiões,
Estabelecer connosco e com os outros.
Sim, falemos da paz:
Nada como um minuto de paz
Ao fim do dia, no fim do ano.
Um minuto, uma hora,
Mesmo se o fim do ano é uma treta
Do calendário gregoriano.
Falemos, por isso, e já agora
D@s velh@s amig@s que voltámos a encontrar.
Em vaigem,
Num terminal de aeroporto,
Numa esquina de rua congestionada,
Num bar triste de uma cidade
Em que estávamos de passagem.
Falemos d@s nov@s amig@s que fizemos.
Sem esquecer @s querid@s amig@s
Que perdemos, assim sem mais nada,
Por razões de vida ou de morte,
Ou de que perdemos simplesmente o norte,
O telefone, o fax, o endereço, o e-mail, a morada.
4. É a pensar em vocês tod@s
Com quem trabalhei, interagi, vivi, falei,
Discuti, barafustei,
E, se calhar, até magoei e decepcionei,
Durante o ano de dois mil e quatro,
É a pensar em tod@s vós,
Que eu peço ao Pai Natal
(Que eu ainda acredito nele,
Seja isso idiota ou infantil,
Muito pouco ou nada racional!)
Para pôr no vosso sapatinho
Esta singela mensagem:
“Que a nossa amizade seja…
O saldo contabilístico, positivo,
Que transita para o ano de dois mil e cinco”.
Estou-vos obrigado,
A todos vós,
Pela parte de mérito que vos coube
Nas pequenas coisas boas
Que me aconteceram, nos aconteceram,
Em dois mil e quatro.
Resta-me pedir-vos, sensibilizado:
"A mim, desculpem-me lá qualquer coisinha!"...
L.G.
Lisboa, 23 de Dezembro de 2004
L.G.
Car@s amig@s planetári@s:
1. Eis-nos chegad@s
Ao fim do ano de dois mil e quatro,
E digo fim
Porque é já inverno
E faz frio
E porque acabei de arrancar
A última folha amarelada do calendário.
E digo fim para não praguejar
E para não ir parar com os quatro costados
Ao inferno.
Dizemos fim do ano
Por mera convenção ou conveniência.
Ou se calhar,
Por tristeza ou desfastio,
Cansaço, saturação, impaciência.
Depressão, dirá muita boa gente.
Ou só por que nos deu na real veneta;
Em suma, dizemos fim
Sem qualquer razão aparente.
Na prática não chegámos ao fim,
Não chegámos a parte nenhuma,
A pé, de carro, de barco ou de dromedário,
À boleia, a nado ou até de parapente,
Que o chegar é sempre a um algum sítio,
Lugar, porto, ilha, montanha de bruma,
País, continente, planeta,
Ou pico do Evereste.
E chegar ao fim
É sempre sinónimo de festa.
Não arribámos a nenhum porto
Ou outro ponto imaginário
Do globo terrestre;
Não fomos pioneiros,
Não descobrimos a misteriosa citânia
Da nossa proto-história lusitana
Nem sequer a porta do risonho futuro
Que há-de vir;
É tudo treta,
Não fomos os primeiros
Nem sequer os últimos
A cortar a meta;
Não fomos notícia,
Nem mesmo em Alcácer Quibir;
Não estávamos entre os anónimos mineiros
Soterrados na China e na Ucrânia;
Não houve festa, nem luto, nem bomba atómica,
Não houve alvoroço, nem foguetes,
Nem estátua equestre,
Nem sequer a banda trágico-cómica
Dos bombeiros voluntários
Do Emir Kusturica.
À nossa espera
Ou no nosso enterro.
Vendo bem,
Não fizemos nada de heróico,
Não salvámos a humanidade,
Não fizemos a guerra,
Não lutámos contra os canhões,
Não assinámos a paz,
Nem sequer levámos a carta a Garcia.
Enfim, não ganhámos nenhum prémio,
Nem sequer o Nobel, nem a lotaria,
Muito menos o Euromilhões;
Em resumo, dizem-nos que,
No ano da graça do senhor
De dois e mil e quatro,
Tu e eu, nós todos,
Nada temos de concreto
Para celebrar.
Mas chegados ao fim do ano,
É costume fazer-se o balanço,
Se não da viagem,
Pelo menos do deve-e-haver
Das nossas vidas,
Da carga preciosa que transportamos connosco,
Que é a vida e o dever de a viver.
Que é o fogo da vida
E a obrigação de o alimentarmos,
O pequeno milagre
Ou o simples facto
De estarmos vivos,
De ainda estarmos vivos
E de estarmos juntos.
2. Façamos, pois, o balanço,
Meus amigos,
O deve-e-haver deste ano
De dois mil e quatro,
Que se calhar foi um annus horribilis
Como os anteriores,
Para a maior parte dos homens e mulheres,
Noss@s vizinh@s planetári@s.
Que a vinte e três de dezembro,
O horóscopo da humanidade
Não está em condições de prever
Terramotos, catástrofes, pestes, tsunamis,
O cortejo dos horrores
Que costumam acompanhar os cavaleiros do Apocalipse.
Façamos o balanço das nossas vidas
Como pessoas, como grupos,
Como instituições, como países.
Siga-se, nesta matéria, a tradição,
Que a tradição ainda manda,
E com isso não vai grande mal ao mundo
(Se querem saber a minha opinião).
3. Como sempre, houve coisas boas
E coisas más
Ao longo do ano que agora finda.
Releguemos as más para os historiadores.
Ou para o nosso confessor, psiquiatra ou confidente.
Ou para o diário secreto de Narciso.
Em boa verdade, as coisas más vão ao fundo,
Não flutuam como os corpos,
São, por definição, para esquecer.
- Dorme, que foi um sonho mau!,
Diziam-te em criança.
Criança sem juízo,
Sem dente do siso.
Abramos, pois, os nossos corações
Para falar ou dar testemunho
Das coisas boas que nos aconteceram.
Que a hora é de desafivelar as máscaras
Dos actores que também somos.
Maus, canastrões,
Mas que importa, se o palco é tudo!
Falemos dos acontecimentos
De que fomos protagonistas.
Pequenos, sem dúvida,
À nossa escala, à escala humana,
Mas importantes,
Para nós, a nossa família, os nossos amigos,
As empresas ou organizações onde trabalhamos,
As pessoas que confiaram em nós,
Que apostaram e acreditaram em nós.
Falemos das situações de que fomos
Actores de verdade, actores de facto.
Independentemente do nosso papel,
E do tamanho do nosso papel.
Ou do número de graus de liberdade
A que temos direito
Ou que fazem parte do nosso contrato.
Que o importante foi ser actor
E não mero figurante.
Falemos dos projectos
De que fomos gestores
Ou simples trabalhadores
De equipa.
Falemos dos conhecimentos novos
Que tivemos o privilégio
De produzir, obter ou divulgar
Através do nosso trabalho, estudo ou formação.
Dos livros que lemos ou escrevemos
Ou que comprámos para ler mais tarde,
”Quando formos velhinh@s
E tivermos todo o tempo do mundo”
(Oh, doce ilusão!).
Não nos esqueçamos de evocar
As pessoas fantásticas que conhecemos.
Mas também os filmes de última hora
Que perdemos no trânsito da vida.
Ou as estórias que não ouvimos ou não lemos,
Por falta de paciência ou de audiência
Ou de simples lugar de estacionamento
No hall congestionado do planeta azul.
Falemos das oportunidades que tivemos
De fazer coisas novas,
Inovadoras, ou simplesmente úteis,
Para nós, para os outros, para o nosso país.
E que não desperdiçámos.
Ajudando o mundo a tornar-se
Mais amigável
Ou, pelo menos, mais habitável.
Falemos das pequenas coisas boas
Que nos aconteceram,
Não por mero acaso,
Mas porque as merecemos,
(Sem falsa modéstia!),
Porque lutámos por elas,
Porque outros nos ajudaram a conseguí-las
Porque juntos conseguimo-las.
Falemos ainda do nosso crescimento interior:
Se estamos mais sábios, mais atentos,
Mais conscientes da água que corre nos nossos rios
Ou do HIV/SIDA que nos está matando,
É porque crescemos por dentro.
Mas sejamos capazes também de falar
Das brincadeiras ou partidas
(Não das sacanices!)
Que fizemos uns aos outros.
Que o brincar não é proibido,
Ou não deveria sê-lo,
Que o brincar devia mesmo ser obrigatório
Na escolinha da vida
E nos locais de trabalho
Onde, já crescidos, a ganhamos.
Falemos dos e-mails que trocámos
E que encheram as nossas caixas de correio.
Das anedotas que contámos.
Até das de mau gosto,
Xenófobas, racistas e sexistas.
Falemos do pão, do queijo e do vinho
Que partilhámos com alguém,
Ao fim da tarde,
Não importa onde,
No Alentejo, em Angola, ou no Minho,
Em qualquer parte onde
Temos im amigo, um parceiro, um compincha.
Que o companheiro (do latim cum + pane) é
Justamente aquele que compartilha connosco
O pão e o vinho à mesma mesa.
Sim, falemos das emoções
Que pusemos em cima da mesa.
Ou da ausência delas.
Da paz que conseguimos, em certas ocasiões,
Estabelecer connosco e com os outros.
Sim, falemos da paz:
Nada como um minuto de paz
Ao fim do dia, no fim do ano.
Um minuto, uma hora,
Mesmo se o fim do ano é uma treta
Do calendário gregoriano.
Falemos, por isso, e já agora
D@s velh@s amig@s que voltámos a encontrar.
Em vaigem,
Num terminal de aeroporto,
Numa esquina de rua congestionada,
Num bar triste de uma cidade
Em que estávamos de passagem.
Falemos d@s nov@s amig@s que fizemos.
Sem esquecer @s querid@s amig@s
Que perdemos, assim sem mais nada,
Por razões de vida ou de morte,
Ou de que perdemos simplesmente o norte,
O telefone, o fax, o endereço, o e-mail, a morada.
4. É a pensar em vocês tod@s
Com quem trabalhei, interagi, vivi, falei,
Discuti, barafustei,
E, se calhar, até magoei e decepcionei,
Durante o ano de dois mil e quatro,
É a pensar em tod@s vós,
Que eu peço ao Pai Natal
(Que eu ainda acredito nele,
Seja isso idiota ou infantil,
Muito pouco ou nada racional!)
Para pôr no vosso sapatinho
Esta singela mensagem:
“Que a nossa amizade seja…
O saldo contabilístico, positivo,
Que transita para o ano de dois mil e cinco”.
Estou-vos obrigado,
A todos vós,
Pela parte de mérito que vos coube
Nas pequenas coisas boas
Que me aconteceram, nos aconteceram,
Em dois mil e quatro.
Resta-me pedir-vos, sensibilizado:
"A mim, desculpem-me lá qualquer coisinha!"...
L.G.
Lisboa, 23 de Dezembro de 2004
Blogantologia(s) - XXII: Saldo(s) para o ano de 2005
A todos os homens e mulheres (i) que cabem na minha lista de e-mails ou (ii) que a transbordam ou (iii) que circulam, a desoras e sem rumo, na blogosfera, (iv) quer façam ou não o favor de serem meus amigos: deixem-me desejar-vos o melhor da vida para o Novo Ano que, dizem, aí vem!!!
L.G.
Car@s amig@s planetári@s:
1. Eis-nos chegad@s
Ao fim do ano de dois mil e quatro,
E digo fim
Porque é já inverno
E faz frio
E porque acabei de arrancar
A última folha amarelada do calendário.
E digo fim para não praguejar
E para não ir parar com os quatro costados
Ao inferno.
Dizemos fim do ano
Por mera convenção ou conveniência.
Ou se calhar,
Por tristeza ou desfastio,
Cansaço, saturação, impaciência.
Depressão, dirá muita boa gente.
Ou só por que nos deu na real veneta;
Em suma, dizemos fim
Sem qualquer razão aparente.
Na prática não chegámos ao fim,
Não chegámos a parte nenhuma,
A pé, de carro, de barco ou de dromedário,
À boleia, a nado ou até de parapente,
Que o chegar é sempre a um algum sítio,
Lugar, porto, ilha, montanha de bruma,
País, continente, planeta,
Ou pico do Evereste.
E chegar ao fim
É sempre sinónimo de festa.
Não arribámos a nenhum porto
Ou outro ponto imaginário
Do globo terrestre;
Não fomos pioneiros,
Não descobrimos a misteriosa citânia
Da nossa proto-história lusitana
Nem sequer a porta do risonho futuro
Que há-de vir;
É tudo treta,
Não fomos os primeiros
Nem sequer os últimos
A cortar a meta;
Não fomos notícia,
Nem mesmo em Alcácer Quibir;
Não estávamos entre os anónimos mineiros
Soterrados na China e na Ucrânia;
Não houve festa, nem luto, nem bomba atómica,
Não houve alvoroço, nem foguetes,
Nem estátua equestre,
Nem sequer a banda trágico-cómica
Dos bombeiros voluntários
Do Emir Kusturica.
À nossa espera
Ou no nosso enterro.
Vendo bem,
Não fizemos nada de heróico,
Não salvámos a humanidade,
Não fizemos a guerra,
Não lutámos contra os canhões,
Não assinámos a paz,
Nem sequer levámos a carta a Garcia.
Enfim, não ganhámos nenhum prémio,
Nem sequer o Nobel, nem a lotaria,
Muito menos o Euromilhões;
Em resumo, dizem-nos que,
No ano da graça do senhor
De dois e mil e quatro,
Tu e eu, nós todos,
Nada temos de concreto
Para celebrar.
Mas chegados ao fim do ano,
É costume fazer-se o balanço,
Se não da viagem,
Pelo menos do deve-e-haver
Das nossas vidas,
Da carga preciosa que transportamos connosco,
Que é a vida e o dever de a viver.
Que é o fogo da vida
E a obrigação de o alimentarmos,
O pequeno milagre
Ou o simples facto
De estarmos vivos,
De ainda estarmos vivos
E de estarmos juntos.
2. Façamos, pois, o balanço,
Meus amigos,
O deve-e-haver deste ano
De dois mil e quatro,
Que se calhar foi um annus horribilis
Como os anteriores,
Para a maior parte dos homens e mulheres,
Noss@s vizinh@s planetári@s.
Que a vinte e três de dezembro,
O horóscopo da humanidade
Não está em condições de prever
Terramotos, catástrofes, pestes, tsunamis,
O cortejo dos horrores
Que costumam acompanhar os cavaleiros do Apocalipse.
Façamos o balanço das nossas vidas
Como pessoas, como grupos,
Como instituições, como países.
Siga-se, nesta matéria, a tradição,
Que a tradição ainda manda,
E com isso não vai grande mal ao mundo
(Se querem saber a minha opinião).
3. Como sempre, houve coisas boas
E coisas más
Ao longo do ano que agora finda.
Releguemos as más para os historiadores.
Ou para o nosso confessor, psiquiatra ou confidente.
Ou para o diário secreto de Narciso.
Em boa verdade, as coisas más vão ao fundo,
Não flutuam como os corpos,
São, por definição, para esquecer.
- Dorme, que foi um sonho mau!,
Diziam-te em criança.
Criança sem juízo,
Sem dente do siso.
Abramos, pois, os nossos corações
Para falar ou dar testemunho
Das coisas boas que nos aconteceram.
Que a hora é de desafivelar as máscaras
Dos actores que também somos.
Maus, canastrões,
Mas que importa, se o palco é tudo!
Falemos dos acontecimentos
De que fomos protagonistas.
Pequenos, sem dúvida,
À nossa escala, à escala humana,
Mas importantes,
Para nós, a nossa família, os nossos amigos,
As empresas ou organizações onde trabalhamos,
As pessoas que confiaram em nós,
Que apostaram e acreditaram em nós.
Falemos das situações de que fomos
Actores de verdade, actores de facto.
Independentemente do nosso papel,
E do tamanho do nosso papel.
Ou do número de graus de liberdade
A que temos direito
Ou que fazem parte do nosso contrato.
Que o importante foi ser actor
E não mero figurante.
Falemos dos projectos
De que fomos gestores
Ou simples trabalhadores
De equipa.
Falemos dos conhecimentos novos
Que tivemos o privilégio
De produzir, obter ou divulgar
Através do nosso trabalho, estudo ou formação.
Dos livros que lemos ou escrevemos
Ou que comprámos para ler mais tarde,
”Quando formos velhinh@s
E tivermos todo o tempo do mundo”
(Oh, doce ilusão!).
Não nos esqueçamos de evocar
As pessoas fantásticas que conhecemos.
Mas também os filmes de última hora
Que perdemos no trânsito da vida.
Ou as estórias que não ouvimos ou não lemos,
Por falta de paciência ou de audiência
Ou de simples lugar de estacionamento
No hall congestionado do planeta azul.
Falemos das oportunidades que tivemos
De fazer coisas novas,
Inovadoras, ou simplesmente úteis,
Para nós, para os outros, para o nosso país.
E que não desperdiçámos.
Ajudando o mundo a tornar-se
Mais amigável
Ou, pelo menos, mais habitável.
Falemos das pequenas coisas boas
Que nos aconteceram,
Não por mero acaso,
Mas porque as merecemos,
(Sem falsa modéstia!),
Porque lutámos por elas,
Porque outros nos ajudaram a conseguí-las
Porque juntos conseguimo-las.
Falemos ainda do nosso crescimento interior:
Se estamos mais sábios, mais atentos,
Mais conscientes da água que corre nos nossos rios
Ou do HIV/SIDA que nos está matando,
É porque crescemos por dentro.
Mas sejamos capazes também de falar
Das brincadeiras ou partidas
(Não das sacanices!)
Que fizemos uns aos outros.
Que o brincar não é proibido,
Ou não deveria sê-lo,
Que o brincar devia mesmo ser obrigatório
Na escolinha da vida
E nos locais de trabalho
Onde, já crescidos, a ganhamos.
Falemos dos e-mails que trocámos
E que encheram as nossas caixas de correio.
Das anedotas que contámos.
Até das de mau gosto,
Xenófobas, racistas e sexistas.
Falemos do pão, do queijo e do vinho
Que partilhámos com alguém,
Ao fim da tarde,
Não importa onde,
No Alentejo, em Angola, ou no Minho,
Em qualquer parte onde
Temos im amigo, um parceiro, um compincha.
Que o companheiro (do latim cum + pane) é
Justamente aquele que compartilha connosco
O pão e o vinho à mesma mesa.
Sim, falemos das emoções
Que pusemos em cima da mesa.
Ou da ausência delas.
Da paz que conseguimos, em certas ocasiões,
Estabelecer connosco e com os outros.
Sim, falemos da paz:
Nada como um minuto de paz
Ao fim do dia, no fim do ano.
Um minuto, uma hora,
Mesmo se o fim do ano é uma treta
Do calendário gregoriano.
Falemos, por isso, e já agora
D@s velh@s amig@s que voltámos a encontrar.
Em vaigem,
Num terminal de aeroporto,
Numa esquina de rua congestionada,
Num bar triste de uma cidade
Em que estávamos de passagem.
Falemos d@s nov@s amig@s que fizemos.
Sem esquecer @s querid@s amig@s
Que perdemos, assim sem mais nada,
Por razões de vida ou de morte,
Ou de que perdemos simplesmente o norte,
O telefone, o fax, o endereço, o e-mail, a morada.
4. É a pensar em vocês tod@s
Com quem trabalhei, interagi, vivi, falei,
Discuti, barafustei,
E, se calhar, até magoei e decepcionei,
Durante o ano de dois mil e quatro,
É a pensar em tod@s vós,
Que eu peço ao Pai Natal
(Que eu ainda acredito nele,
Seja isso idiota ou infantil,
Muito pouco ou nada racional!)
Para pôr no vosso sapatinho
Esta singela mensagem:
“Que a nossa amizade seja…
O saldo contabilístico, positivo,
Que transita para o ano de dois mil e cinco”.
Estou-vos obrigado,
A todos vós,
Pela parte de mérito que vos coube
Nas pequenas coisas boas
Que me aconteceram, nos aconteceram,
Em dois mil e quatro.
Resta-me pedir-vos, sensibilizado:
"A mim, desculpem-me lá qualquer coisinha!"...
L.G.
Lisboa, 23 de Dezembro de 2004
L.G.
Car@s amig@s planetári@s:
1. Eis-nos chegad@s
Ao fim do ano de dois mil e quatro,
E digo fim
Porque é já inverno
E faz frio
E porque acabei de arrancar
A última folha amarelada do calendário.
E digo fim para não praguejar
E para não ir parar com os quatro costados
Ao inferno.
Dizemos fim do ano
Por mera convenção ou conveniência.
Ou se calhar,
Por tristeza ou desfastio,
Cansaço, saturação, impaciência.
Depressão, dirá muita boa gente.
Ou só por que nos deu na real veneta;
Em suma, dizemos fim
Sem qualquer razão aparente.
Na prática não chegámos ao fim,
Não chegámos a parte nenhuma,
A pé, de carro, de barco ou de dromedário,
À boleia, a nado ou até de parapente,
Que o chegar é sempre a um algum sítio,
Lugar, porto, ilha, montanha de bruma,
País, continente, planeta,
Ou pico do Evereste.
E chegar ao fim
É sempre sinónimo de festa.
Não arribámos a nenhum porto
Ou outro ponto imaginário
Do globo terrestre;
Não fomos pioneiros,
Não descobrimos a misteriosa citânia
Da nossa proto-história lusitana
Nem sequer a porta do risonho futuro
Que há-de vir;
É tudo treta,
Não fomos os primeiros
Nem sequer os últimos
A cortar a meta;
Não fomos notícia,
Nem mesmo em Alcácer Quibir;
Não estávamos entre os anónimos mineiros
Soterrados na China e na Ucrânia;
Não houve festa, nem luto, nem bomba atómica,
Não houve alvoroço, nem foguetes,
Nem estátua equestre,
Nem sequer a banda trágico-cómica
Dos bombeiros voluntários
Do Emir Kusturica.
À nossa espera
Ou no nosso enterro.
Vendo bem,
Não fizemos nada de heróico,
Não salvámos a humanidade,
Não fizemos a guerra,
Não lutámos contra os canhões,
Não assinámos a paz,
Nem sequer levámos a carta a Garcia.
Enfim, não ganhámos nenhum prémio,
Nem sequer o Nobel, nem a lotaria,
Muito menos o Euromilhões;
Em resumo, dizem-nos que,
No ano da graça do senhor
De dois e mil e quatro,
Tu e eu, nós todos,
Nada temos de concreto
Para celebrar.
Mas chegados ao fim do ano,
É costume fazer-se o balanço,
Se não da viagem,
Pelo menos do deve-e-haver
Das nossas vidas,
Da carga preciosa que transportamos connosco,
Que é a vida e o dever de a viver.
Que é o fogo da vida
E a obrigação de o alimentarmos,
O pequeno milagre
Ou o simples facto
De estarmos vivos,
De ainda estarmos vivos
E de estarmos juntos.
2. Façamos, pois, o balanço,
Meus amigos,
O deve-e-haver deste ano
De dois mil e quatro,
Que se calhar foi um annus horribilis
Como os anteriores,
Para a maior parte dos homens e mulheres,
Noss@s vizinh@s planetári@s.
Que a vinte e três de dezembro,
O horóscopo da humanidade
Não está em condições de prever
Terramotos, catástrofes, pestes, tsunamis,
O cortejo dos horrores
Que costumam acompanhar os cavaleiros do Apocalipse.
Façamos o balanço das nossas vidas
Como pessoas, como grupos,
Como instituições, como países.
Siga-se, nesta matéria, a tradição,
Que a tradição ainda manda,
E com isso não vai grande mal ao mundo
(Se querem saber a minha opinião).
3. Como sempre, houve coisas boas
E coisas más
Ao longo do ano que agora finda.
Releguemos as más para os historiadores.
Ou para o nosso confessor, psiquiatra ou confidente.
Ou para o diário secreto de Narciso.
Em boa verdade, as coisas más vão ao fundo,
Não flutuam como os corpos,
São, por definição, para esquecer.
- Dorme, que foi um sonho mau!,
Diziam-te em criança.
Criança sem juízo,
Sem dente do siso.
Abramos, pois, os nossos corações
Para falar ou dar testemunho
Das coisas boas que nos aconteceram.
Que a hora é de desafivelar as máscaras
Dos actores que também somos.
Maus, canastrões,
Mas que importa, se o palco é tudo!
Falemos dos acontecimentos
De que fomos protagonistas.
Pequenos, sem dúvida,
À nossa escala, à escala humana,
Mas importantes,
Para nós, a nossa família, os nossos amigos,
As empresas ou organizações onde trabalhamos,
As pessoas que confiaram em nós,
Que apostaram e acreditaram em nós.
Falemos das situações de que fomos
Actores de verdade, actores de facto.
Independentemente do nosso papel,
E do tamanho do nosso papel.
Ou do número de graus de liberdade
A que temos direito
Ou que fazem parte do nosso contrato.
Que o importante foi ser actor
E não mero figurante.
Falemos dos projectos
De que fomos gestores
Ou simples trabalhadores
De equipa.
Falemos dos conhecimentos novos
Que tivemos o privilégio
De produzir, obter ou divulgar
Através do nosso trabalho, estudo ou formação.
Dos livros que lemos ou escrevemos
Ou que comprámos para ler mais tarde,
”Quando formos velhinh@s
E tivermos todo o tempo do mundo”
(Oh, doce ilusão!).
Não nos esqueçamos de evocar
As pessoas fantásticas que conhecemos.
Mas também os filmes de última hora
Que perdemos no trânsito da vida.
Ou as estórias que não ouvimos ou não lemos,
Por falta de paciência ou de audiência
Ou de simples lugar de estacionamento
No hall congestionado do planeta azul.
Falemos das oportunidades que tivemos
De fazer coisas novas,
Inovadoras, ou simplesmente úteis,
Para nós, para os outros, para o nosso país.
E que não desperdiçámos.
Ajudando o mundo a tornar-se
Mais amigável
Ou, pelo menos, mais habitável.
Falemos das pequenas coisas boas
Que nos aconteceram,
Não por mero acaso,
Mas porque as merecemos,
(Sem falsa modéstia!),
Porque lutámos por elas,
Porque outros nos ajudaram a conseguí-las
Porque juntos conseguimo-las.
Falemos ainda do nosso crescimento interior:
Se estamos mais sábios, mais atentos,
Mais conscientes da água que corre nos nossos rios
Ou do HIV/SIDA que nos está matando,
É porque crescemos por dentro.
Mas sejamos capazes também de falar
Das brincadeiras ou partidas
(Não das sacanices!)
Que fizemos uns aos outros.
Que o brincar não é proibido,
Ou não deveria sê-lo,
Que o brincar devia mesmo ser obrigatório
Na escolinha da vida
E nos locais de trabalho
Onde, já crescidos, a ganhamos.
Falemos dos e-mails que trocámos
E que encheram as nossas caixas de correio.
Das anedotas que contámos.
Até das de mau gosto,
Xenófobas, racistas e sexistas.
Falemos do pão, do queijo e do vinho
Que partilhámos com alguém,
Ao fim da tarde,
Não importa onde,
No Alentejo, em Angola, ou no Minho,
Em qualquer parte onde
Temos im amigo, um parceiro, um compincha.
Que o companheiro (do latim cum + pane) é
Justamente aquele que compartilha connosco
O pão e o vinho à mesma mesa.
Sim, falemos das emoções
Que pusemos em cima da mesa.
Ou da ausência delas.
Da paz que conseguimos, em certas ocasiões,
Estabelecer connosco e com os outros.
Sim, falemos da paz:
Nada como um minuto de paz
Ao fim do dia, no fim do ano.
Um minuto, uma hora,
Mesmo se o fim do ano é uma treta
Do calendário gregoriano.
Falemos, por isso, e já agora
D@s velh@s amig@s que voltámos a encontrar.
Em vaigem,
Num terminal de aeroporto,
Numa esquina de rua congestionada,
Num bar triste de uma cidade
Em que estávamos de passagem.
Falemos d@s nov@s amig@s que fizemos.
Sem esquecer @s querid@s amig@s
Que perdemos, assim sem mais nada,
Por razões de vida ou de morte,
Ou de que perdemos simplesmente o norte,
O telefone, o fax, o endereço, o e-mail, a morada.
4. É a pensar em vocês tod@s
Com quem trabalhei, interagi, vivi, falei,
Discuti, barafustei,
E, se calhar, até magoei e decepcionei,
Durante o ano de dois mil e quatro,
É a pensar em tod@s vós,
Que eu peço ao Pai Natal
(Que eu ainda acredito nele,
Seja isso idiota ou infantil,
Muito pouco ou nada racional!)
Para pôr no vosso sapatinho
Esta singela mensagem:
“Que a nossa amizade seja…
O saldo contabilístico, positivo,
Que transita para o ano de dois mil e cinco”.
Estou-vos obrigado,
A todos vós,
Pela parte de mérito que vos coube
Nas pequenas coisas boas
Que me aconteceram, nos aconteceram,
Em dois mil e quatro.
Resta-me pedir-vos, sensibilizado:
"A mim, desculpem-me lá qualquer coisinha!"...
L.G.
Lisboa, 23 de Dezembro de 2004
20 dezembro 2004
BlogAngola - III: A cooperação no domínio da formação em saúde pública
1. “Portugal e os portugueses podem dar à Angola e aos angolanos aquilo em que são especialistas: o saber-ser, o saber-estar e o saber-fazer em saúde pública”, dizia-me há um ano, em Luanda, José Vieira Dias Van-Dúnem, vice-Ministro da Saúde do Governo de Unidade e Reconciliação Nacional da República de Angola e membro do Comité Central do MPLA. Cito de cor mas julgo não estar a atraiçoar o pensamento do autor.
Médico licenciado, em 1988, pela Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, de Luanda (FML/UAN), o Dr. José Vieira Dias Van-Dúnem frequentou no ano lectivo de 1994/95 o Curso de Especialização em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde, Universidade Nova de Lisboa (ENSP/UNL), como bolseiro da OMS.
Qual é o sentido exacto das palavras daquele dirigente político angolano e antigo aluno da ENSP/UNL ? Em que circunstâncias foram ditas ? Que recado subentendiam ?
O que o meu interlocutor pretendia dizer-me ou transmitir-me, a mim, à instituição e até ao país que eu estava ali, de certo modo, a representar, era que a cooperação (i) não se resume aos grandes projectos que envolvem muitos milhões de dólares, transferência de alta tecnologia, grande volumes de trocas comerciais, mediáticas declarações políticas e, por vezes até, tráfico de interesses ligados a poderosos lóbis, internos e/ou externos; pelo contrário, que a cooperação também pode (e deve) ser vista, antes de mais, (ii) como uma relação recíproca, duplamente ganhadora, uma relação de amizade entre dois povos que têm valores, interesses e afinidades em comum (a história, a língua, a cultura, o imaginário, a economia…). E justamente em áreas que são vitais para o desenvolvimento do capital humano e que fazem mais apelo às soft sciences do que às hard sciences.
Estava, além disso, a defender uma concepção integrada e sustentada da formação e da cooperação no domínio da formação. Por fim, estava implicitamente a lembrar-me a origem etimológica da palavra cooperar, que significa trabalhar juntamente com outros para um mesmo fim, do latim cu(m) + operari.
A cooperação no domínio da educação, da formação e até da investigação em saúde pública é um campo onde se pode (e deve) estabelecer relações igualitárias, senão mesmo fraternas, entre instituições, povos e países. É algo que obriga à hospitalidade e à partilha, tal como uma refeição tomada à mesma mesa entre amigos. É um terreno onde todos aprendem a aprender e aprendem uns com os outros, o que os coloca num mesmo nível. Qualquer atitude de imperialismo, cultural e científico, ou até de simples paternalismo, é hoje inaceitável, de parte a parte, neste como noutros campos da cooperação bilateral.
2. Tratou-se, além disso, de uma conversa informal, num jantar que nos foi oferecido por ocasião da inauguração do 1º Curso de Especialização em Gestão em Saúde (Opção Administração Hospitalar), curso esse que resultou da solicitação, à FML/UAN, parte do Ministério da Saúde de Angola (MINSA), e que contou com o entusiástico apoio de duas instituições portuguesas: o apoio científico e pedagógico da ENSP/UNL e o apoio financeiro da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG).
A FML/UAN ainda não tinha então a experiência e os recursos suficientes para montar um curso de especialização ou um mestrado nesta área (tem noutros, por exemplo o mestrado em educação médica que está a decorrer em Luanda). Decidiu por isso
recorrer à ENSP/UNL mas não quis um curso de "chaves na mão", participou desde o princípio na concepção, desenvolvimento, aplicação e avaliação do produto.
Usando a metáfora do conhecido provérbio chinês, os nossos amigos e parceiros angolanos não querem apenas o peixe, mas também o anzol e a cana de pesca para poderem passar a pescar. Como está na moda dizer-se, a isto chama-se empowerment.
O supracitado curso teve início em Setembro de 2003 e terminou , na sua parte lectiva, em Dezembro de 2004. Até meados de Março de 2005, os alunos deverão entregar uma monografia final de 40 páginas (cerca de 50 mil caracteres), incidindo sobre um tema concreto, actual e relevante da administração hospitalar em Angola.
Os destinatários deste primeiro curso, em número de 33, são profissionais de saúde (cerca de 80% são médicos) que exercem ou podem vir a exercer funções ou cargos de gestão (director geral e director administrativo) e direcção técnica (director clínico) no subsistema hospitalar angolano, de Cabinda ao Cunene.
O Curso teve a duração de um ano (2003/2004) e 630 horas presenciais, repartidas por três Blocos separados no tempo (Setembro a Novembro de 2003, Maio a Julho de 2004; Setembro a Dezembro de 2004).
Cada módulo, semanal, foi leccionado por 2 formadores ou prelectores portugueses (em geral, docentes da ENSP/UNL ou formadores de outras instituições ligadas ao ensino da gestão em saúde). Estes formadores foram coadjuvados, em cada módulo, por 1 monitor local recrutado pela FML/UAN, com o propósito de (i) contextualizar as diferentes áreas temáticas no quadro político, jurídico, cultural, sócio-económico, demográfico e sanitário de Angola, e ainda de (ii) promover o seu próprio treino e formação como potencial docente angolano de futuras edições deste curso de especialização.
No Curso estiveram incluídos dois Estágios Hospitalares (um no Bloco II e outro no Bloco III) para constatação in loco da realidade de diferentes hospitais de referência de Angola, apresentada e discutida sob a forma de um relatório crítico. Nestes estágios colaboraram ainda tutores locais para efeitos de acompanhamento e orientação dos formandos.
O sucesso deste curso deve-se a muitas dezenas de pessoas competentes e e empenhadas. Gostaria de citar aqui, pela parte portuguesa, o Prof. Dr. António Correia de Campos; e pela parte angolana, o Prof. Dr. Mário Fresta.
Embora não querendo incorrer no risco do elogio em boca própria, não posso deixar de apontar este exemplo como um caso de sucesso que serviu três propósitos: (i) formar gestores de saúde angolanos ou melhorar os seus conhecimentos e competências (técnicas, sociais e humanas); (ii) capacitar uma equipa de docentes angolanos na área da administração de serviços de saúde; e, por fim, (iii) garantir o reforço da capacidade educativa e formativa do MINSA e da FML/UAN e a sustentabilidade deste projecto de cooperação, criando ao mesmo tempo condições para instalação da futura e tão desejada Escola Nacional de Saúde Pública de Angola.
De facto, o desafio agora é “consolidar a capacidade formativa”, sendo desejável para 2005 a realização de um curso de formação pedagógica em Lisboa, que reunisse docentes angolanos e portugueses com vista à preparação do próximo 2º Curso de Especialziação em Gestão em Saúde, a ministrar em Luanda com recursos locais.
Mas a cooperação da ENSP com o MINSA e a FML/UAN não se circunscreve apenas a este curso. A ENSP está também a apoiar o curso pós-graduado em saúde pública e, portanto, a formação dos futuros médicos de saúde pública de Angola em duas áreas disciplinares específicas onde os nossos parceiros angolanos pediram apoio: o ensino da epidemiologia e da administração de saúde. Além disso, tem recebido de braços abertos os profissionais de saúde, oriundos daquele país, que se inscrevem no seus cursos (mestrado de saúde pública e cursos de especialização de administração hospitalar, saúde pública e medicina do trabalho). Mais de metade dos cerca de 30 alunos oriundos de Macau e dos PALOP que frequentaram, nos últimos oito anos, os referidos cursos eram oriundos de Angola.
Todos fazemos votos para que a cooperação com Angola (e os demais países da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) se reforce no próximo ano de 2005, muito em particular no domínio da educação, formação e investigação em saúde pública.
(Editorial, Revista Portuguesa de Saúde Pública, 2/2004)
Médico licenciado, em 1988, pela Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, de Luanda (FML/UAN), o Dr. José Vieira Dias Van-Dúnem frequentou no ano lectivo de 1994/95 o Curso de Especialização em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde, Universidade Nova de Lisboa (ENSP/UNL), como bolseiro da OMS.
Qual é o sentido exacto das palavras daquele dirigente político angolano e antigo aluno da ENSP/UNL ? Em que circunstâncias foram ditas ? Que recado subentendiam ?
O que o meu interlocutor pretendia dizer-me ou transmitir-me, a mim, à instituição e até ao país que eu estava ali, de certo modo, a representar, era que a cooperação (i) não se resume aos grandes projectos que envolvem muitos milhões de dólares, transferência de alta tecnologia, grande volumes de trocas comerciais, mediáticas declarações políticas e, por vezes até, tráfico de interesses ligados a poderosos lóbis, internos e/ou externos; pelo contrário, que a cooperação também pode (e deve) ser vista, antes de mais, (ii) como uma relação recíproca, duplamente ganhadora, uma relação de amizade entre dois povos que têm valores, interesses e afinidades em comum (a história, a língua, a cultura, o imaginário, a economia…). E justamente em áreas que são vitais para o desenvolvimento do capital humano e que fazem mais apelo às soft sciences do que às hard sciences.
Estava, além disso, a defender uma concepção integrada e sustentada da formação e da cooperação no domínio da formação. Por fim, estava implicitamente a lembrar-me a origem etimológica da palavra cooperar, que significa trabalhar juntamente com outros para um mesmo fim, do latim cu(m) + operari.
A cooperação no domínio da educação, da formação e até da investigação em saúde pública é um campo onde se pode (e deve) estabelecer relações igualitárias, senão mesmo fraternas, entre instituições, povos e países. É algo que obriga à hospitalidade e à partilha, tal como uma refeição tomada à mesma mesa entre amigos. É um terreno onde todos aprendem a aprender e aprendem uns com os outros, o que os coloca num mesmo nível. Qualquer atitude de imperialismo, cultural e científico, ou até de simples paternalismo, é hoje inaceitável, de parte a parte, neste como noutros campos da cooperação bilateral.
2. Tratou-se, além disso, de uma conversa informal, num jantar que nos foi oferecido por ocasião da inauguração do 1º Curso de Especialização em Gestão em Saúde (Opção Administração Hospitalar), curso esse que resultou da solicitação, à FML/UAN, parte do Ministério da Saúde de Angola (MINSA), e que contou com o entusiástico apoio de duas instituições portuguesas: o apoio científico e pedagógico da ENSP/UNL e o apoio financeiro da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG).
A FML/UAN ainda não tinha então a experiência e os recursos suficientes para montar um curso de especialização ou um mestrado nesta área (tem noutros, por exemplo o mestrado em educação médica que está a decorrer em Luanda). Decidiu por isso
recorrer à ENSP/UNL mas não quis um curso de "chaves na mão", participou desde o princípio na concepção, desenvolvimento, aplicação e avaliação do produto.
Usando a metáfora do conhecido provérbio chinês, os nossos amigos e parceiros angolanos não querem apenas o peixe, mas também o anzol e a cana de pesca para poderem passar a pescar. Como está na moda dizer-se, a isto chama-se empowerment.
O supracitado curso teve início em Setembro de 2003 e terminou , na sua parte lectiva, em Dezembro de 2004. Até meados de Março de 2005, os alunos deverão entregar uma monografia final de 40 páginas (cerca de 50 mil caracteres), incidindo sobre um tema concreto, actual e relevante da administração hospitalar em Angola.
Os destinatários deste primeiro curso, em número de 33, são profissionais de saúde (cerca de 80% são médicos) que exercem ou podem vir a exercer funções ou cargos de gestão (director geral e director administrativo) e direcção técnica (director clínico) no subsistema hospitalar angolano, de Cabinda ao Cunene.
O Curso teve a duração de um ano (2003/2004) e 630 horas presenciais, repartidas por três Blocos separados no tempo (Setembro a Novembro de 2003, Maio a Julho de 2004; Setembro a Dezembro de 2004).
Cada módulo, semanal, foi leccionado por 2 formadores ou prelectores portugueses (em geral, docentes da ENSP/UNL ou formadores de outras instituições ligadas ao ensino da gestão em saúde). Estes formadores foram coadjuvados, em cada módulo, por 1 monitor local recrutado pela FML/UAN, com o propósito de (i) contextualizar as diferentes áreas temáticas no quadro político, jurídico, cultural, sócio-económico, demográfico e sanitário de Angola, e ainda de (ii) promover o seu próprio treino e formação como potencial docente angolano de futuras edições deste curso de especialização.
No Curso estiveram incluídos dois Estágios Hospitalares (um no Bloco II e outro no Bloco III) para constatação in loco da realidade de diferentes hospitais de referência de Angola, apresentada e discutida sob a forma de um relatório crítico. Nestes estágios colaboraram ainda tutores locais para efeitos de acompanhamento e orientação dos formandos.
O sucesso deste curso deve-se a muitas dezenas de pessoas competentes e e empenhadas. Gostaria de citar aqui, pela parte portuguesa, o Prof. Dr. António Correia de Campos; e pela parte angolana, o Prof. Dr. Mário Fresta.
Embora não querendo incorrer no risco do elogio em boca própria, não posso deixar de apontar este exemplo como um caso de sucesso que serviu três propósitos: (i) formar gestores de saúde angolanos ou melhorar os seus conhecimentos e competências (técnicas, sociais e humanas); (ii) capacitar uma equipa de docentes angolanos na área da administração de serviços de saúde; e, por fim, (iii) garantir o reforço da capacidade educativa e formativa do MINSA e da FML/UAN e a sustentabilidade deste projecto de cooperação, criando ao mesmo tempo condições para instalação da futura e tão desejada Escola Nacional de Saúde Pública de Angola.
De facto, o desafio agora é “consolidar a capacidade formativa”, sendo desejável para 2005 a realização de um curso de formação pedagógica em Lisboa, que reunisse docentes angolanos e portugueses com vista à preparação do próximo 2º Curso de Especialziação em Gestão em Saúde, a ministrar em Luanda com recursos locais.
Mas a cooperação da ENSP com o MINSA e a FML/UAN não se circunscreve apenas a este curso. A ENSP está também a apoiar o curso pós-graduado em saúde pública e, portanto, a formação dos futuros médicos de saúde pública de Angola em duas áreas disciplinares específicas onde os nossos parceiros angolanos pediram apoio: o ensino da epidemiologia e da administração de saúde. Além disso, tem recebido de braços abertos os profissionais de saúde, oriundos daquele país, que se inscrevem no seus cursos (mestrado de saúde pública e cursos de especialização de administração hospitalar, saúde pública e medicina do trabalho). Mais de metade dos cerca de 30 alunos oriundos de Macau e dos PALOP que frequentaram, nos últimos oito anos, os referidos cursos eram oriundos de Angola.
Todos fazemos votos para que a cooperação com Angola (e os demais países da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) se reforce no próximo ano de 2005, muito em particular no domínio da educação, formação e investigação em saúde pública.
(Editorial, Revista Portuguesa de Saúde Pública, 2/2004)
BlogAngola - III: A cooperação no domínio da formação em saúde pública
1. “Portugal e os portugueses podem dar à Angola e aos angolanos aquilo em que são especialistas: o saber-ser, o saber-estar e o saber-fazer em saúde pública”, dizia-me há um ano, em Luanda, José Vieira Dias Van-Dúnem, vice-Ministro da Saúde do Governo de Unidade e Reconciliação Nacional da República de Angola e membro do Comité Central do MPLA. Cito de cor mas julgo não estar a atraiçoar o pensamento do autor.
Médico licenciado, em 1988, pela Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, de Luanda (FML/UAN), o Dr. José Vieira Dias Van-Dúnem frequentou no ano lectivo de 1994/95 o Curso de Especialização em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde, Universidade Nova de Lisboa (ENSP/UNL), como bolseiro da OMS.
Qual é o sentido exacto das palavras daquele dirigente político angolano e antigo aluno da ENSP/UNL ? Em que circunstâncias foram ditas ? Que recado subentendiam ?
O que o meu interlocutor pretendia dizer-me ou transmitir-me, a mim, à instituição e até ao país que eu estava ali, de certo modo, a representar, era que a cooperação (i) não se resume aos grandes projectos que envolvem muitos milhões de dólares, transferência de alta tecnologia, grande volumes de trocas comerciais, mediáticas declarações políticas e, por vezes até, tráfico de interesses ligados a poderosos lóbis, internos e/ou externos; pelo contrário, que a cooperação também pode (e deve) ser vista, antes de mais, (ii) como uma relação recíproca, duplamente ganhadora, uma relação de amizade entre dois povos que têm valores, interesses e afinidades em comum (a história, a língua, a cultura, o imaginário, a economia…). E justamente em áreas que são vitais para o desenvolvimento do capital humano e que fazem mais apelo às soft sciences do que às hard sciences.
Estava, além disso, a defender uma concepção integrada e sustentada da formação e da cooperação no domínio da formação. Por fim, estava implicitamente a lembrar-me a origem etimológica da palavra cooperar, que significa trabalhar juntamente com outros para um mesmo fim, do latim cu(m) + operari.
A cooperação no domínio da educação, da formação e até da investigação em saúde pública é um campo onde se pode (e deve) estabelecer relações igualitárias, senão mesmo fraternas, entre instituições, povos e países. É algo que obriga à hospitalidade e à partilha, tal como uma refeição tomada à mesma mesa entre amigos. É um terreno onde todos aprendem a aprender e aprendem uns com os outros, o que os coloca num mesmo nível. Qualquer atitude de imperialismo, cultural e científico, ou até de simples paternalismo, é hoje inaceitável, de parte a parte, neste como noutros campos da cooperação bilateral.
2. Tratou-se, além disso, de uma conversa informal, num jantar que nos foi oferecido por ocasião da inauguração do 1º Curso de Especialização em Gestão em Saúde (Opção Administração Hospitalar), curso esse que resultou da solicitação, à FML/UAN, parte do Ministério da Saúde de Angola (MINSA), e que contou com o entusiástico apoio de duas instituições portuguesas: o apoio científico e pedagógico da ENSP/UNL e o apoio financeiro da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG).
A FML/UAN ainda não tinha então a experiência e os recursos suficientes para montar um curso de especialização ou um mestrado nesta área (tem noutros, por exemplo o mestrado em educação médica que está a decorrer em Luanda). Decidiu por isso
recorrer à ENSP/UNL mas não quis um curso de "chaves na mão", participou desde o princípio na concepção, desenvolvimento, aplicação e avaliação do produto.
Usando a metáfora do conhecido provérbio chinês, os nossos amigos e parceiros angolanos não querem apenas o peixe, mas também o anzol e a cana de pesca para poderem passar a pescar. Como está na moda dizer-se, a isto chama-se empowerment.
O supracitado curso teve início em Setembro de 2003 e terminou , na sua parte lectiva, em Dezembro de 2004. Até meados de Março de 2005, os alunos deverão entregar uma monografia final de 40 páginas (cerca de 50 mil caracteres), incidindo sobre um tema concreto, actual e relevante da administração hospitalar em Angola.
Os destinatários deste primeiro curso, em número de 33, são profissionais de saúde (cerca de 80% são médicos) que exercem ou podem vir a exercer funções ou cargos de gestão (director geral e director administrativo) e direcção técnica (director clínico) no subsistema hospitalar angolano, de Cabinda ao Cunene.
O Curso teve a duração de um ano (2003/2004) e 630 horas presenciais, repartidas por três Blocos separados no tempo (Setembro a Novembro de 2003, Maio a Julho de 2004; Setembro a Dezembro de 2004).
Cada módulo, semanal, foi leccionado por 2 formadores ou prelectores portugueses (em geral, docentes da ENSP/UNL ou formadores de outras instituições ligadas ao ensino da gestão em saúde). Estes formadores foram coadjuvados, em cada módulo, por 1 monitor local recrutado pela FML/UAN, com o propósito de (i) contextualizar as diferentes áreas temáticas no quadro político, jurídico, cultural, sócio-económico, demográfico e sanitário de Angola, e ainda de (ii) promover o seu próprio treino e formação como potencial docente angolano de futuras edições deste curso de especialização.
No Curso estiveram incluídos dois Estágios Hospitalares (um no Bloco II e outro no Bloco III) para constatação in loco da realidade de diferentes hospitais de referência de Angola, apresentada e discutida sob a forma de um relatório crítico. Nestes estágios colaboraram ainda tutores locais para efeitos de acompanhamento e orientação dos formandos.
O sucesso deste curso deve-se a muitas dezenas de pessoas competentes e e empenhadas. Gostaria de citar aqui, pela parte portuguesa, o Prof. Dr. António Correia de Campos; e pela parte angolana, o Prof. Dr. Mário Fresta.
Embora não querendo incorrer no risco do elogio em boca própria, não posso deixar de apontar este exemplo como um caso de sucesso que serviu três propósitos: (i) formar gestores de saúde angolanos ou melhorar os seus conhecimentos e competências (técnicas, sociais e humanas); (ii) capacitar uma equipa de docentes angolanos na área da administração de serviços de saúde; e, por fim, (iii) garantir o reforço da capacidade educativa e formativa do MINSA e da FML/UAN e a sustentabilidade deste projecto de cooperação, criando ao mesmo tempo condições para instalação da futura e tão desejada Escola Nacional de Saúde Pública de Angola.
De facto, o desafio agora é “consolidar a capacidade formativa”, sendo desejável para 2005 a realização de um curso de formação pedagógica em Lisboa, que reunisse docentes angolanos e portugueses com vista à preparação do próximo 2º Curso de Especialziação em Gestão em Saúde, a ministrar em Luanda com recursos locais.
Mas a cooperação da ENSP com o MINSA e a FML/UAN não se circunscreve apenas a este curso. A ENSP está também a apoiar o curso pós-graduado em saúde pública e, portanto, a formação dos futuros médicos de saúde pública de Angola em duas áreas disciplinares específicas onde os nossos parceiros angolanos pediram apoio: o ensino da epidemiologia e da administração de saúde. Além disso, tem recebido de braços abertos os profissionais de saúde, oriundos daquele país, que se inscrevem no seus cursos (mestrado de saúde pública e cursos de especialização de administração hospitalar, saúde pública e medicina do trabalho). Mais de metade dos cerca de 30 alunos oriundos de Macau e dos PALOP que frequentaram, nos últimos oito anos, os referidos cursos eram oriundos de Angola.
Todos fazemos votos para que a cooperação com Angola (e os demais países da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) se reforce no próximo ano de 2005, muito em particular no domínio da educação, formação e investigação em saúde pública.
(Editorial, Revista Portuguesa de Saúde Pública, 2/2004)
Médico licenciado, em 1988, pela Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, de Luanda (FML/UAN), o Dr. José Vieira Dias Van-Dúnem frequentou no ano lectivo de 1994/95 o Curso de Especialização em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde, Universidade Nova de Lisboa (ENSP/UNL), como bolseiro da OMS.
Qual é o sentido exacto das palavras daquele dirigente político angolano e antigo aluno da ENSP/UNL ? Em que circunstâncias foram ditas ? Que recado subentendiam ?
O que o meu interlocutor pretendia dizer-me ou transmitir-me, a mim, à instituição e até ao país que eu estava ali, de certo modo, a representar, era que a cooperação (i) não se resume aos grandes projectos que envolvem muitos milhões de dólares, transferência de alta tecnologia, grande volumes de trocas comerciais, mediáticas declarações políticas e, por vezes até, tráfico de interesses ligados a poderosos lóbis, internos e/ou externos; pelo contrário, que a cooperação também pode (e deve) ser vista, antes de mais, (ii) como uma relação recíproca, duplamente ganhadora, uma relação de amizade entre dois povos que têm valores, interesses e afinidades em comum (a história, a língua, a cultura, o imaginário, a economia…). E justamente em áreas que são vitais para o desenvolvimento do capital humano e que fazem mais apelo às soft sciences do que às hard sciences.
Estava, além disso, a defender uma concepção integrada e sustentada da formação e da cooperação no domínio da formação. Por fim, estava implicitamente a lembrar-me a origem etimológica da palavra cooperar, que significa trabalhar juntamente com outros para um mesmo fim, do latim cu(m) + operari.
A cooperação no domínio da educação, da formação e até da investigação em saúde pública é um campo onde se pode (e deve) estabelecer relações igualitárias, senão mesmo fraternas, entre instituições, povos e países. É algo que obriga à hospitalidade e à partilha, tal como uma refeição tomada à mesma mesa entre amigos. É um terreno onde todos aprendem a aprender e aprendem uns com os outros, o que os coloca num mesmo nível. Qualquer atitude de imperialismo, cultural e científico, ou até de simples paternalismo, é hoje inaceitável, de parte a parte, neste como noutros campos da cooperação bilateral.
2. Tratou-se, além disso, de uma conversa informal, num jantar que nos foi oferecido por ocasião da inauguração do 1º Curso de Especialização em Gestão em Saúde (Opção Administração Hospitalar), curso esse que resultou da solicitação, à FML/UAN, parte do Ministério da Saúde de Angola (MINSA), e que contou com o entusiástico apoio de duas instituições portuguesas: o apoio científico e pedagógico da ENSP/UNL e o apoio financeiro da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG).
A FML/UAN ainda não tinha então a experiência e os recursos suficientes para montar um curso de especialização ou um mestrado nesta área (tem noutros, por exemplo o mestrado em educação médica que está a decorrer em Luanda). Decidiu por isso
recorrer à ENSP/UNL mas não quis um curso de "chaves na mão", participou desde o princípio na concepção, desenvolvimento, aplicação e avaliação do produto.
Usando a metáfora do conhecido provérbio chinês, os nossos amigos e parceiros angolanos não querem apenas o peixe, mas também o anzol e a cana de pesca para poderem passar a pescar. Como está na moda dizer-se, a isto chama-se empowerment.
O supracitado curso teve início em Setembro de 2003 e terminou , na sua parte lectiva, em Dezembro de 2004. Até meados de Março de 2005, os alunos deverão entregar uma monografia final de 40 páginas (cerca de 50 mil caracteres), incidindo sobre um tema concreto, actual e relevante da administração hospitalar em Angola.
Os destinatários deste primeiro curso, em número de 33, são profissionais de saúde (cerca de 80% são médicos) que exercem ou podem vir a exercer funções ou cargos de gestão (director geral e director administrativo) e direcção técnica (director clínico) no subsistema hospitalar angolano, de Cabinda ao Cunene.
O Curso teve a duração de um ano (2003/2004) e 630 horas presenciais, repartidas por três Blocos separados no tempo (Setembro a Novembro de 2003, Maio a Julho de 2004; Setembro a Dezembro de 2004).
Cada módulo, semanal, foi leccionado por 2 formadores ou prelectores portugueses (em geral, docentes da ENSP/UNL ou formadores de outras instituições ligadas ao ensino da gestão em saúde). Estes formadores foram coadjuvados, em cada módulo, por 1 monitor local recrutado pela FML/UAN, com o propósito de (i) contextualizar as diferentes áreas temáticas no quadro político, jurídico, cultural, sócio-económico, demográfico e sanitário de Angola, e ainda de (ii) promover o seu próprio treino e formação como potencial docente angolano de futuras edições deste curso de especialização.
No Curso estiveram incluídos dois Estágios Hospitalares (um no Bloco II e outro no Bloco III) para constatação in loco da realidade de diferentes hospitais de referência de Angola, apresentada e discutida sob a forma de um relatório crítico. Nestes estágios colaboraram ainda tutores locais para efeitos de acompanhamento e orientação dos formandos.
O sucesso deste curso deve-se a muitas dezenas de pessoas competentes e e empenhadas. Gostaria de citar aqui, pela parte portuguesa, o Prof. Dr. António Correia de Campos; e pela parte angolana, o Prof. Dr. Mário Fresta.
Embora não querendo incorrer no risco do elogio em boca própria, não posso deixar de apontar este exemplo como um caso de sucesso que serviu três propósitos: (i) formar gestores de saúde angolanos ou melhorar os seus conhecimentos e competências (técnicas, sociais e humanas); (ii) capacitar uma equipa de docentes angolanos na área da administração de serviços de saúde; e, por fim, (iii) garantir o reforço da capacidade educativa e formativa do MINSA e da FML/UAN e a sustentabilidade deste projecto de cooperação, criando ao mesmo tempo condições para instalação da futura e tão desejada Escola Nacional de Saúde Pública de Angola.
De facto, o desafio agora é “consolidar a capacidade formativa”, sendo desejável para 2005 a realização de um curso de formação pedagógica em Lisboa, que reunisse docentes angolanos e portugueses com vista à preparação do próximo 2º Curso de Especialziação em Gestão em Saúde, a ministrar em Luanda com recursos locais.
Mas a cooperação da ENSP com o MINSA e a FML/UAN não se circunscreve apenas a este curso. A ENSP está também a apoiar o curso pós-graduado em saúde pública e, portanto, a formação dos futuros médicos de saúde pública de Angola em duas áreas disciplinares específicas onde os nossos parceiros angolanos pediram apoio: o ensino da epidemiologia e da administração de saúde. Além disso, tem recebido de braços abertos os profissionais de saúde, oriundos daquele país, que se inscrevem no seus cursos (mestrado de saúde pública e cursos de especialização de administração hospitalar, saúde pública e medicina do trabalho). Mais de metade dos cerca de 30 alunos oriundos de Macau e dos PALOP que frequentaram, nos últimos oito anos, os referidos cursos eram oriundos de Angola.
Todos fazemos votos para que a cooperação com Angola (e os demais países da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) se reforce no próximo ano de 2005, muito em particular no domínio da educação, formação e investigação em saúde pública.
(Editorial, Revista Portuguesa de Saúde Pública, 2/2004)
17 dezembro 2004
Blognecos - V: Grafiteiros, pichadores e satânicos, 1; Siza Vieira, 0
1. O Marco de Canaveses (também) é conhecido por possuir uma das obras mais emblemáticas da nossa arquitectura moderna, a “Igreja do Siza” (sic). É já hoje um ex-libris daquela simpática cidade duriense, e um dos seus pontos de atracção turística…
Há quem não goste. Por exemplo, o senhor Dom Duarte Nuno de Bragança não gosta. Está no seu real (e absoluto) direito de não gostar. Eu gosto, estou no meu direito relativo e republicano de gostar. O padre da freguesia (de Fornos) gosta. E a maior parte dos seus paroquianos também gostam. E muita gente, doutros pontos do país e do estrangeiro, também gostam. Ou, pelo menos, vão lá de propósito para ver o "caixote", o "armazém", o "quartel". Quarenta mil, no espaço de dois anos e meio, desde a sua abertura ao público. Leio no Diário de Notícias, de 11 de Dezembro de 1998. O jornal chama-lhes "os devotos de Siza Vieira". Um terço dos novos peregrinos são estrangeiros. Mesmo incompleto, em obra realizada (falta o centro paroquial, agora em construção), este projecto do Siza veio dar uma projecção internacional à terra que até agora só era conhecida por ser o berço de duas celebridades, a Carmen Miranda e o Eng. Belmiro de Azevedo.
Convenhamos que o risco é polémico, ousado, quiçá provocante. É uma arquitectura depurada, ascética, feita de luz e de silêncio. Tal como os templos gregos ou egípcios. Ou os primitivos conventos. Um templo deve ser feito de luz e de silêncio. Um sítio onde coabita o divino e o humano, o transcendente e o imanente, o sagrado e o profano. Num templo deve caber o finito e o infinito, o homem e o seu Deus.
2. Felizmente que neste país há liberdade estética. Há liberddae para se gostar e para não se gostar do Siza Vieira. Felizmente que neste país não há uma estética oficial. Já ninguém pinta à moda (naturalista) do Carlos Reis nem já se desenham casas ao estilo (ruralista) do Raul Lino. Mas estes padrões continuam a modelar o sentido estético do Portugal sacro-profano. A educação estética deixa muito a desejar. Não há nenhum portuga que não seja meio-arquitecto, meio-engenheiro, meio-pato bravo e meio-trolha da construção civil. Não admira por isso a estupefacção das pessoas, crentes e não crentes, arquitectos, engenheiros, patos bravos, trolhas da construção civil, críticos de arte, eleitos e eleitores, quando são confrontadas com propostas de arquitectura como a Igreja óu a Pala do Siza. Com o tempo, o Siza torna-se consensual. É já consensual. Aqui funciona a teoria da difusão da inovação. Claro qu haverá sempre os tais 16% dos irreudtíveis conservadores, o heróico punhado de gente que nunca gostará do Siza, não por razões estéticas mas por outras razões que são anedóticas ou circunstanciais: o homem fuma, o homem é morcão, o homem é ateu, o gajo é de esquerda...
3. Infelizmente, no Marco de Canaveses, também há (ou passam por…) lá grafiteiros que não mostram qualquer respeito nem pela arte nem pela religião, por Deus e pelo homem. Vejam as fotos do meu álbum sobre o Portugal Sacro-Profano .
Serão grafiteiros ou pichadores ? Se calhar nem uma coisa nem outra. Grafiteiros e pichadores são tribos que até têm, ao que me dizem, a sua ética e deontologia profissionais: sabem, em princípio, distinguir um templo, antigo, medieval, barroco, oitocentista, moderno ou pós-moderno, de um simples armazém ou muro para demolição... Grafiteiro ou pichador que se preze, sabe respeitar o património edificado, pese embora a sua pulsão pela 'personalização' do espaço urbano.
Estes artistas da pesada pertencem a uma nova seita, os "satânicos"... Nunca tinha ouvido falar deles, embora a cruz suástica me não seja estranha. A verdade é a que a gente também não pode estar a par de todas as notícias, boas ou más, incluindo as que nos chegam do Marco de Canaveses.
As fotos foram tiradas em 3 de Setembro de 2004. Espero no Natal, quando lá voltar, já não encontrar os "satânicos", ou pelo menos as feias impressões digitais que eles deixaram na parede interior do pátio da Igreja do Siza. Igreja que já não é só do Siza, nem do padre Nuno Higino, nem da sua freguesia de Fornos, nem da cidade e concelho do Marco de Canaveses,nem do Portugal Sacro-Profano, mas também de todos nós, a comunidade mundial dos crentes e não-crentes. Uma comunidade ecuménica onde se pratica a inclusão mas onde é difícil lidar com o fenómeno "satânico"...
Há quem não goste. Por exemplo, o senhor Dom Duarte Nuno de Bragança não gosta. Está no seu real (e absoluto) direito de não gostar. Eu gosto, estou no meu direito relativo e republicano de gostar. O padre da freguesia (de Fornos) gosta. E a maior parte dos seus paroquianos também gostam. E muita gente, doutros pontos do país e do estrangeiro, também gostam. Ou, pelo menos, vão lá de propósito para ver o "caixote", o "armazém", o "quartel". Quarenta mil, no espaço de dois anos e meio, desde a sua abertura ao público. Leio no Diário de Notícias, de 11 de Dezembro de 1998. O jornal chama-lhes "os devotos de Siza Vieira". Um terço dos novos peregrinos são estrangeiros. Mesmo incompleto, em obra realizada (falta o centro paroquial, agora em construção), este projecto do Siza veio dar uma projecção internacional à terra que até agora só era conhecida por ser o berço de duas celebridades, a Carmen Miranda e o Eng. Belmiro de Azevedo.
Convenhamos que o risco é polémico, ousado, quiçá provocante. É uma arquitectura depurada, ascética, feita de luz e de silêncio. Tal como os templos gregos ou egípcios. Ou os primitivos conventos. Um templo deve ser feito de luz e de silêncio. Um sítio onde coabita o divino e o humano, o transcendente e o imanente, o sagrado e o profano. Num templo deve caber o finito e o infinito, o homem e o seu Deus.
2. Felizmente que neste país há liberdade estética. Há liberddae para se gostar e para não se gostar do Siza Vieira. Felizmente que neste país não há uma estética oficial. Já ninguém pinta à moda (naturalista) do Carlos Reis nem já se desenham casas ao estilo (ruralista) do Raul Lino. Mas estes padrões continuam a modelar o sentido estético do Portugal sacro-profano. A educação estética deixa muito a desejar. Não há nenhum portuga que não seja meio-arquitecto, meio-engenheiro, meio-pato bravo e meio-trolha da construção civil. Não admira por isso a estupefacção das pessoas, crentes e não crentes, arquitectos, engenheiros, patos bravos, trolhas da construção civil, críticos de arte, eleitos e eleitores, quando são confrontadas com propostas de arquitectura como a Igreja óu a Pala do Siza. Com o tempo, o Siza torna-se consensual. É já consensual. Aqui funciona a teoria da difusão da inovação. Claro qu haverá sempre os tais 16% dos irreudtíveis conservadores, o heróico punhado de gente que nunca gostará do Siza, não por razões estéticas mas por outras razões que são anedóticas ou circunstanciais: o homem fuma, o homem é morcão, o homem é ateu, o gajo é de esquerda...
3. Infelizmente, no Marco de Canaveses, também há (ou passam por…) lá grafiteiros que não mostram qualquer respeito nem pela arte nem pela religião, por Deus e pelo homem. Vejam as fotos do meu álbum sobre o Portugal Sacro-Profano .
Serão grafiteiros ou pichadores ? Se calhar nem uma coisa nem outra. Grafiteiros e pichadores são tribos que até têm, ao que me dizem, a sua ética e deontologia profissionais: sabem, em princípio, distinguir um templo, antigo, medieval, barroco, oitocentista, moderno ou pós-moderno, de um simples armazém ou muro para demolição... Grafiteiro ou pichador que se preze, sabe respeitar o património edificado, pese embora a sua pulsão pela 'personalização' do espaço urbano.
Estes artistas da pesada pertencem a uma nova seita, os "satânicos"... Nunca tinha ouvido falar deles, embora a cruz suástica me não seja estranha. A verdade é a que a gente também não pode estar a par de todas as notícias, boas ou más, incluindo as que nos chegam do Marco de Canaveses.
As fotos foram tiradas em 3 de Setembro de 2004. Espero no Natal, quando lá voltar, já não encontrar os "satânicos", ou pelo menos as feias impressões digitais que eles deixaram na parede interior do pátio da Igreja do Siza. Igreja que já não é só do Siza, nem do padre Nuno Higino, nem da sua freguesia de Fornos, nem da cidade e concelho do Marco de Canaveses,nem do Portugal Sacro-Profano, mas também de todos nós, a comunidade mundial dos crentes e não-crentes. Uma comunidade ecuménica onde se pratica a inclusão mas onde é difícil lidar com o fenómeno "satânico"...
Blognecos - V: Grafiteiros, pichadores e satânicos, 1; Siza Vieira, 0
1. O Marco de Canaveses (também) é conhecido por possuir uma das obras mais emblemáticas da nossa arquitectura moderna, a “Igreja do Siza” (sic). É já hoje um ex-libris daquela simpática cidade duriense, e um dos seus pontos de atracção turística…
Há quem não goste. Por exemplo, o senhor Dom Duarte Nuno de Bragança não gosta. Está no seu real (e absoluto) direito de não gostar. Eu gosto, estou no meu direito relativo e republicano de gostar. O padre da freguesia (de Fornos) gosta. E a maior parte dos seus paroquianos também gostam. E muita gente, doutros pontos do país e do estrangeiro, também gostam. Ou, pelo menos, vão lá de propósito para ver o "caixote", o "armazém", o "quartel". Quarenta mil, no espaço de dois anos e meio, desde a sua abertura ao público. Leio no Diário de Notícias, de 11 de Dezembro de 1998. O jornal chama-lhes "os devotos de Siza Vieira". Um terço dos novos peregrinos são estrangeiros. Mesmo incompleto, em obra realizada (falta o centro paroquial, agora em construção), este projecto do Siza veio dar uma projecção internacional à terra que até agora só era conhecida por ser o berço de duas celebridades, a Carmen Miranda e o Eng. Belmiro de Azevedo.
Convenhamos que o risco é polémico, ousado, quiçá provocante. É uma arquitectura depurada, ascética, feita de luz e de silêncio. Tal como os templos gregos ou egípcios. Ou os primitivos conventos. Um templo deve ser feito de luz e de silêncio. Um sítio onde coabita o divino e o humano, o transcendente e o imanente, o sagrado e o profano. Num templo deve caber o finito e o infinito, o homem e o seu Deus.
2. Felizmente que neste país há liberdade estética. Há liberddae para se gostar e para não se gostar do Siza Vieira. Felizmente que neste país não há uma estética oficial. Já ninguém pinta à moda (naturalista) do Carlos Reis nem já se desenham casas ao estilo (ruralista) do Raul Lino. Mas estes padrões continuam a modelar o sentido estético do Portugal sacro-profano. A educação estética deixa muito a desejar. Não há nenhum portuga que não seja meio-arquitecto, meio-engenheiro, meio-pato bravo e meio-trolha da construção civil. Não admira por isso a estupefacção das pessoas, crentes e não crentes, arquitectos, engenheiros, patos bravos, trolhas da construção civil, críticos de arte, eleitos e eleitores, quando são confrontadas com propostas de arquitectura como a Igreja óu a Pala do Siza. Com o tempo, o Siza torna-se consensual. É já consensual. Aqui funciona a teoria da difusão da inovação. Claro qu haverá sempre os tais 16% dos irreudtíveis conservadores, o heróico punhado de gente que nunca gostará do Siza, não por razões estéticas mas por outras razões que são anedóticas ou circunstanciais: o homem fuma, o homem é morcão, o homem é ateu, o gajo é de esquerda...
3. Infelizmente, no Marco de Canaveses, também há (ou passam por…) lá grafiteiros que não mostram qualquer respeito nem pela arte nem pela religião, por Deus e pelo homem. Vejam as fotos do meu álbum sobre o Portugal Sacro-Profano .
Serão grafiteiros ou pichadores ? Se calhar nem uma coisa nem outra. Grafiteiros e pichadores são tribos que até têm, ao que me dizem, a sua ética e deontologia profissionais: sabem, em princípio, distinguir um templo, antigo, medieval, barroco, oitocentista, moderno ou pós-moderno, de um simples armazém ou muro para demolição... Grafiteiro ou pichador que se preze, sabe respeitar o património edificado, pese embora a sua pulsão pela 'personalização' do espaço urbano.
Estes artistas da pesada pertencem a uma nova seita, os "satânicos"... Nunca tinha ouvido falar deles, embora a cruz suástica me não seja estranha. A verdade é a que a gente também não pode estar a par de todas as notícias, boas ou más, incluindo as que nos chegam do Marco de Canaveses.
As fotos foram tiradas em 3 de Setembro de 2004. Espero no Natal, quando lá voltar, já não encontrar os "satânicos", ou pelo menos as feias impressões digitais que eles deixaram na parede interior do pátio da Igreja do Siza. Igreja que já não é só do Siza, nem do padre Nuno Higino, nem da sua freguesia de Fornos, nem da cidade e concelho do Marco de Canaveses,nem do Portugal Sacro-Profano, mas também de todos nós, a comunidade mundial dos crentes e não-crentes. Uma comunidade ecuménica onde se pratica a inclusão mas onde é difícil lidar com o fenómeno "satânico"...
Há quem não goste. Por exemplo, o senhor Dom Duarte Nuno de Bragança não gosta. Está no seu real (e absoluto) direito de não gostar. Eu gosto, estou no meu direito relativo e republicano de gostar. O padre da freguesia (de Fornos) gosta. E a maior parte dos seus paroquianos também gostam. E muita gente, doutros pontos do país e do estrangeiro, também gostam. Ou, pelo menos, vão lá de propósito para ver o "caixote", o "armazém", o "quartel". Quarenta mil, no espaço de dois anos e meio, desde a sua abertura ao público. Leio no Diário de Notícias, de 11 de Dezembro de 1998. O jornal chama-lhes "os devotos de Siza Vieira". Um terço dos novos peregrinos são estrangeiros. Mesmo incompleto, em obra realizada (falta o centro paroquial, agora em construção), este projecto do Siza veio dar uma projecção internacional à terra que até agora só era conhecida por ser o berço de duas celebridades, a Carmen Miranda e o Eng. Belmiro de Azevedo.
Convenhamos que o risco é polémico, ousado, quiçá provocante. É uma arquitectura depurada, ascética, feita de luz e de silêncio. Tal como os templos gregos ou egípcios. Ou os primitivos conventos. Um templo deve ser feito de luz e de silêncio. Um sítio onde coabita o divino e o humano, o transcendente e o imanente, o sagrado e o profano. Num templo deve caber o finito e o infinito, o homem e o seu Deus.
2. Felizmente que neste país há liberdade estética. Há liberddae para se gostar e para não se gostar do Siza Vieira. Felizmente que neste país não há uma estética oficial. Já ninguém pinta à moda (naturalista) do Carlos Reis nem já se desenham casas ao estilo (ruralista) do Raul Lino. Mas estes padrões continuam a modelar o sentido estético do Portugal sacro-profano. A educação estética deixa muito a desejar. Não há nenhum portuga que não seja meio-arquitecto, meio-engenheiro, meio-pato bravo e meio-trolha da construção civil. Não admira por isso a estupefacção das pessoas, crentes e não crentes, arquitectos, engenheiros, patos bravos, trolhas da construção civil, críticos de arte, eleitos e eleitores, quando são confrontadas com propostas de arquitectura como a Igreja óu a Pala do Siza. Com o tempo, o Siza torna-se consensual. É já consensual. Aqui funciona a teoria da difusão da inovação. Claro qu haverá sempre os tais 16% dos irreudtíveis conservadores, o heróico punhado de gente que nunca gostará do Siza, não por razões estéticas mas por outras razões que são anedóticas ou circunstanciais: o homem fuma, o homem é morcão, o homem é ateu, o gajo é de esquerda...
3. Infelizmente, no Marco de Canaveses, também há (ou passam por…) lá grafiteiros que não mostram qualquer respeito nem pela arte nem pela religião, por Deus e pelo homem. Vejam as fotos do meu álbum sobre o Portugal Sacro-Profano .
Serão grafiteiros ou pichadores ? Se calhar nem uma coisa nem outra. Grafiteiros e pichadores são tribos que até têm, ao que me dizem, a sua ética e deontologia profissionais: sabem, em princípio, distinguir um templo, antigo, medieval, barroco, oitocentista, moderno ou pós-moderno, de um simples armazém ou muro para demolição... Grafiteiro ou pichador que se preze, sabe respeitar o património edificado, pese embora a sua pulsão pela 'personalização' do espaço urbano.
Estes artistas da pesada pertencem a uma nova seita, os "satânicos"... Nunca tinha ouvido falar deles, embora a cruz suástica me não seja estranha. A verdade é a que a gente também não pode estar a par de todas as notícias, boas ou más, incluindo as que nos chegam do Marco de Canaveses.
As fotos foram tiradas em 3 de Setembro de 2004. Espero no Natal, quando lá voltar, já não encontrar os "satânicos", ou pelo menos as feias impressões digitais que eles deixaram na parede interior do pátio da Igreja do Siza. Igreja que já não é só do Siza, nem do padre Nuno Higino, nem da sua freguesia de Fornos, nem da cidade e concelho do Marco de Canaveses,nem do Portugal Sacro-Profano, mas também de todos nós, a comunidade mundial dos crentes e não-crentes. Uma comunidade ecuménica onde se pratica a inclusão mas onde é difícil lidar com o fenómeno "satânico"...
14 dezembro 2004
Humor com humor se paga - XXVIII: Anedotário da saúde
1. O Ministro da Saúde nunca tinha visitado um "manicómio", como ele dizia, entretido como estava com o deve-e-o-haver dos Hospitais SA. Por sugestão de um assessor, e em triste fim de mandato, lá teve a maçada de se deslocar a um dos hospitais psiquiátricos da capital. Alguém organizou uma cerimónia de boas vindas.
- Viva o senhor minstro que nos trata da saúde! Viva o senhor ministro...!, gritava em coro a comissão de boas vindas.
Um dos elementos permanecia mudo e calado. O assessor do ministro, intrigado, perguntou-lhe:
- Porque é que você aí não grita "Viva o senhor ministro" ?
- Porque eu sou médico, não sou doido!
2 O psiquiatra para o seu doente:
- Bom, vamos lá contar essa história, direitinha, desde o princípio...
- Pois bem, xô doutor!... Como eu estava dizendo, no princípio era o Verbo. Então, Eu criei o céu e a terra...
3. No consultório, o médico tenta, em vão, tranquilizar um seu doente, abalado pela notícia do diagnóstico de uma doença grave:
- Não se preocupe, meu caro! Há uns anos atrás tive essa doença e fiquei completamente curado!
- Isso eu sei, senhor doutor!... Mas o seu médico era... outro!
4. Conversa entre dois doentes num consultório de psiquiatria:
- Sabes qual é a diferença e a semelhança entre um clínico geral, um especialista de cirurgia geral e um psiquiatra ?
- Mas não são todos médicos ?
- Não é isso... O clínico geral sabe de tudo, mas não te faz nada; o cirurgião geral não sabe de nada, mas é capaz de fazer tudo; por fim, o psiquiatra não sabe de nada e não te faz nada. A única semelhante entre os três é que todos te levam dinheiro pela consulta.
5 Numa aula sobre epidemiologica clínica:
- Sabem o que é um estudo duplamente cego?, pergunta o professor.
- É um ortopedista e um dermatologista a discutir um electrocardiograma, responde um dos alunos.
6. Um velhote é atentido por um enfermeiro no serviço de triagem do Banco de Urgência do Hospital de Santa Maria:
- Então o que é que o trouxe cá ?
- Foi a ambulância dos bombeiros...
7. Conversa entre dois estudantes de medicina em estágio hospitalar:
- Como é que tu sabes que aquele gajo ali é urologista ?
- É porque lava sempre as mãos antes de mijar...
8. E ainda a propósito de diferenças:
- O que é distingue Deus e um ortopedista ?
- É que Deus nunca se julga ortopedista...
9. Diálogo entre o médico e o seu doente:
- Tenho duas notícias para lhe dar: uma boa e uma má!
- Por favor, doutor, comece pela má!, pediu o doente.
- Recebi os resultados das suas análises... É triste mas vou ter que lhe dizer que o meu amigo só tem vinte e quatro horas de vida!
- Só vinte e quatro horas?! Ó meu Deus!... E qual é, ao menos, a notícia boa ?
- É que ando desde ontem a tentar contactá-lo para lhe dar a notícia má!
10. Pergunta o utente ao dentista:
- Senhor doutor, tenho os dentes amarelos... O que é que me aconselha ?
- Olhe, use uma gravata castanha.
11.Comenta o paciente para o seu estomatogista:
- Cem euros, só por me arrancar um dente num minuto ?! Mas você ganha seis mil euros por hora! É um roubo!
- Se quiser, para a próxima posso arrancar o seu dente mais devagar, responde-lhe o dentista.
12.Pergunta o doente ao seu médico, conhecido por ser um grande jogador da Bolsa de Valores de Lisboa:
- Senhor doutor, o que é que eu devo fazer se logo à tarde a febre subir aos 38 ?
- Ó homem, não hesite, dê logo uma ordem de venda!
13. O médico para o seu mecânico de automóveis, olhando para a conta da revisão do carro:
- É, pá, você desculpe, mas leva muito mais dinheiro do que eu, só de mão-de-obra, à hora...
- Pois é, doutor, mas não compare: o senhor trabalha com um modelo que nunca muda, é sempre o mesmo desde os tempos do Adão e a Eva; ao passo que nós temos todos os meses um modelo novo e precisamos de estar sempre actualizados...
14. Sabes aquela do tipo que foi ao médico, depois de uns problemas de coração ? Comentava ele, outro dia, com um amigo dos copos e das noitadas:
- Fui ao médico, pregou-me um susto, e desta vez tirou-me tudo...
- Tudo o quê, homem ?
- O que havia de ser ? A bebida, a comida, o sexo e ... o tabaco!
- E agora, o que é que te resta da puta da vida ?
- A saúde, meu!...
- Viva o senhor minstro que nos trata da saúde! Viva o senhor ministro...!, gritava em coro a comissão de boas vindas.
Um dos elementos permanecia mudo e calado. O assessor do ministro, intrigado, perguntou-lhe:
- Porque é que você aí não grita "Viva o senhor ministro" ?
- Porque eu sou médico, não sou doido!
2 O psiquiatra para o seu doente:
- Bom, vamos lá contar essa história, direitinha, desde o princípio...
- Pois bem, xô doutor!... Como eu estava dizendo, no princípio era o Verbo. Então, Eu criei o céu e a terra...
3. No consultório, o médico tenta, em vão, tranquilizar um seu doente, abalado pela notícia do diagnóstico de uma doença grave:
- Não se preocupe, meu caro! Há uns anos atrás tive essa doença e fiquei completamente curado!
- Isso eu sei, senhor doutor!... Mas o seu médico era... outro!
4. Conversa entre dois doentes num consultório de psiquiatria:
- Sabes qual é a diferença e a semelhança entre um clínico geral, um especialista de cirurgia geral e um psiquiatra ?
- Mas não são todos médicos ?
- Não é isso... O clínico geral sabe de tudo, mas não te faz nada; o cirurgião geral não sabe de nada, mas é capaz de fazer tudo; por fim, o psiquiatra não sabe de nada e não te faz nada. A única semelhante entre os três é que todos te levam dinheiro pela consulta.
5 Numa aula sobre epidemiologica clínica:
- Sabem o que é um estudo duplamente cego?, pergunta o professor.
- É um ortopedista e um dermatologista a discutir um electrocardiograma, responde um dos alunos.
6. Um velhote é atentido por um enfermeiro no serviço de triagem do Banco de Urgência do Hospital de Santa Maria:
- Então o que é que o trouxe cá ?
- Foi a ambulância dos bombeiros...
7. Conversa entre dois estudantes de medicina em estágio hospitalar:
- Como é que tu sabes que aquele gajo ali é urologista ?
- É porque lava sempre as mãos antes de mijar...
8. E ainda a propósito de diferenças:
- O que é distingue Deus e um ortopedista ?
- É que Deus nunca se julga ortopedista...
9. Diálogo entre o médico e o seu doente:
- Tenho duas notícias para lhe dar: uma boa e uma má!
- Por favor, doutor, comece pela má!, pediu o doente.
- Recebi os resultados das suas análises... É triste mas vou ter que lhe dizer que o meu amigo só tem vinte e quatro horas de vida!
- Só vinte e quatro horas?! Ó meu Deus!... E qual é, ao menos, a notícia boa ?
- É que ando desde ontem a tentar contactá-lo para lhe dar a notícia má!
10. Pergunta o utente ao dentista:
- Senhor doutor, tenho os dentes amarelos... O que é que me aconselha ?
- Olhe, use uma gravata castanha.
11.Comenta o paciente para o seu estomatogista:
- Cem euros, só por me arrancar um dente num minuto ?! Mas você ganha seis mil euros por hora! É um roubo!
- Se quiser, para a próxima posso arrancar o seu dente mais devagar, responde-lhe o dentista.
12.Pergunta o doente ao seu médico, conhecido por ser um grande jogador da Bolsa de Valores de Lisboa:
- Senhor doutor, o que é que eu devo fazer se logo à tarde a febre subir aos 38 ?
- Ó homem, não hesite, dê logo uma ordem de venda!
13. O médico para o seu mecânico de automóveis, olhando para a conta da revisão do carro:
- É, pá, você desculpe, mas leva muito mais dinheiro do que eu, só de mão-de-obra, à hora...
- Pois é, doutor, mas não compare: o senhor trabalha com um modelo que nunca muda, é sempre o mesmo desde os tempos do Adão e a Eva; ao passo que nós temos todos os meses um modelo novo e precisamos de estar sempre actualizados...
14. Sabes aquela do tipo que foi ao médico, depois de uns problemas de coração ? Comentava ele, outro dia, com um amigo dos copos e das noitadas:
- Fui ao médico, pregou-me um susto, e desta vez tirou-me tudo...
- Tudo o quê, homem ?
- O que havia de ser ? A bebida, a comida, o sexo e ... o tabaco!
- E agora, o que é que te resta da puta da vida ?
- A saúde, meu!...
Humor com humor se paga - XXVIII: Anedotário da saúde
1. O Ministro da Saúde nunca tinha visitado um "manicómio", como ele dizia, entretido como estava com o deve-e-o-haver dos Hospitais SA. Por sugestão de um assessor, e em triste fim de mandato, lá teve a maçada de se deslocar a um dos hospitais psiquiátricos da capital. Alguém organizou uma cerimónia de boas vindas.
- Viva o senhor minstro que nos trata da saúde! Viva o senhor ministro...!, gritava em coro a comissão de boas vindas.
Um dos elementos permanecia mudo e calado. O assessor do ministro, intrigado, perguntou-lhe:
- Porque é que você aí não grita "Viva o senhor ministro" ?
- Porque eu sou médico, não sou doido!
2 O psiquiatra para o seu doente:
- Bom, vamos lá contar essa história, direitinha, desde o princípio...
- Pois bem, xô doutor!... Como eu estava dizendo, no princípio era o Verbo. Então, Eu criei o céu e a terra...
3. No consultório, o médico tenta, em vão, tranquilizar um seu doente, abalado pela notícia do diagnóstico de uma doença grave:
- Não se preocupe, meu caro! Há uns anos atrás tive essa doença e fiquei completamente curado!
- Isso eu sei, senhor doutor!... Mas o seu médico era... outro!
4. Conversa entre dois doentes num consultório de psiquiatria:
- Sabes qual é a diferença e a semelhança entre um clínico geral, um especialista de cirurgia geral e um psiquiatra ?
- Mas não são todos médicos ?
- Não é isso... O clínico geral sabe de tudo, mas não te faz nada; o cirurgião geral não sabe de nada, mas é capaz de fazer tudo; por fim, o psiquiatra não sabe de nada e não te faz nada. A única semelhante entre os três é que todos te levam dinheiro pela consulta.
5 Numa aula sobre epidemiologica clínica:
- Sabem o que é um estudo duplamente cego?, pergunta o professor.
- É um ortopedista e um dermatologista a discutir um electrocardiograma, responde um dos alunos.
6. Um velhote é atentido por um enfermeiro no serviço de triagem do Banco de Urgência do Hospital de Santa Maria:
- Então o que é que o trouxe cá ?
- Foi a ambulância dos bombeiros...
7. Conversa entre dois estudantes de medicina em estágio hospitalar:
- Como é que tu sabes que aquele gajo ali é urologista ?
- É porque lava sempre as mãos antes de mijar...
8. E ainda a propósito de diferenças:
- O que é distingue Deus e um ortopedista ?
- É que Deus nunca se julga ortopedista...
9. Diálogo entre o médico e o seu doente:
- Tenho duas notícias para lhe dar: uma boa e uma má!
- Por favor, doutor, comece pela má!, pediu o doente.
- Recebi os resultados das suas análises... É triste mas vou ter que lhe dizer que o meu amigo só tem vinte e quatro horas de vida!
- Só vinte e quatro horas?! Ó meu Deus!... E qual é, ao menos, a notícia boa ?
- É que ando desde ontem a tentar contactá-lo para lhe dar a notícia má!
10. Pergunta o utente ao dentista:
- Senhor doutor, tenho os dentes amarelos... O que é que me aconselha ?
- Olhe, use uma gravata castanha.
11.Comenta o paciente para o seu estomatogista:
- Cem euros, só por me arrancar um dente num minuto ?! Mas você ganha seis mil euros por hora! É um roubo!
- Se quiser, para a próxima posso arrancar o seu dente mais devagar, responde-lhe o dentista.
12.Pergunta o doente ao seu médico, conhecido por ser um grande jogador da Bolsa de Valores de Lisboa:
- Senhor doutor, o que é que eu devo fazer se logo à tarde a febre subir aos 38 ?
- Ó homem, não hesite, dê logo uma ordem de venda!
13. O médico para o seu mecânico de automóveis, olhando para a conta da revisão do carro:
- É, pá, você desculpe, mas leva muito mais dinheiro do que eu, só de mão-de-obra, à hora...
- Pois é, doutor, mas não compare: o senhor trabalha com um modelo que nunca muda, é sempre o mesmo desde os tempos do Adão e a Eva; ao passo que nós temos todos os meses um modelo novo e precisamos de estar sempre actualizados...
14. Sabes aquela do tipo que foi ao médico, depois de uns problemas de coração ? Comentava ele, outro dia, com um amigo dos copos e das noitadas:
- Fui ao médico, pregou-me um susto, e desta vez tirou-me tudo...
- Tudo o quê, homem ?
- O que havia de ser ? A bebida, a comida, o sexo e ... o tabaco!
- E agora, o que é que te resta da puta da vida ?
- A saúde, meu!...
- Viva o senhor minstro que nos trata da saúde! Viva o senhor ministro...!, gritava em coro a comissão de boas vindas.
Um dos elementos permanecia mudo e calado. O assessor do ministro, intrigado, perguntou-lhe:
- Porque é que você aí não grita "Viva o senhor ministro" ?
- Porque eu sou médico, não sou doido!
2 O psiquiatra para o seu doente:
- Bom, vamos lá contar essa história, direitinha, desde o princípio...
- Pois bem, xô doutor!... Como eu estava dizendo, no princípio era o Verbo. Então, Eu criei o céu e a terra...
3. No consultório, o médico tenta, em vão, tranquilizar um seu doente, abalado pela notícia do diagnóstico de uma doença grave:
- Não se preocupe, meu caro! Há uns anos atrás tive essa doença e fiquei completamente curado!
- Isso eu sei, senhor doutor!... Mas o seu médico era... outro!
4. Conversa entre dois doentes num consultório de psiquiatria:
- Sabes qual é a diferença e a semelhança entre um clínico geral, um especialista de cirurgia geral e um psiquiatra ?
- Mas não são todos médicos ?
- Não é isso... O clínico geral sabe de tudo, mas não te faz nada; o cirurgião geral não sabe de nada, mas é capaz de fazer tudo; por fim, o psiquiatra não sabe de nada e não te faz nada. A única semelhante entre os três é que todos te levam dinheiro pela consulta.
5 Numa aula sobre epidemiologica clínica:
- Sabem o que é um estudo duplamente cego?, pergunta o professor.
- É um ortopedista e um dermatologista a discutir um electrocardiograma, responde um dos alunos.
6. Um velhote é atentido por um enfermeiro no serviço de triagem do Banco de Urgência do Hospital de Santa Maria:
- Então o que é que o trouxe cá ?
- Foi a ambulância dos bombeiros...
7. Conversa entre dois estudantes de medicina em estágio hospitalar:
- Como é que tu sabes que aquele gajo ali é urologista ?
- É porque lava sempre as mãos antes de mijar...
8. E ainda a propósito de diferenças:
- O que é distingue Deus e um ortopedista ?
- É que Deus nunca se julga ortopedista...
9. Diálogo entre o médico e o seu doente:
- Tenho duas notícias para lhe dar: uma boa e uma má!
- Por favor, doutor, comece pela má!, pediu o doente.
- Recebi os resultados das suas análises... É triste mas vou ter que lhe dizer que o meu amigo só tem vinte e quatro horas de vida!
- Só vinte e quatro horas?! Ó meu Deus!... E qual é, ao menos, a notícia boa ?
- É que ando desde ontem a tentar contactá-lo para lhe dar a notícia má!
10. Pergunta o utente ao dentista:
- Senhor doutor, tenho os dentes amarelos... O que é que me aconselha ?
- Olhe, use uma gravata castanha.
11.Comenta o paciente para o seu estomatogista:
- Cem euros, só por me arrancar um dente num minuto ?! Mas você ganha seis mil euros por hora! É um roubo!
- Se quiser, para a próxima posso arrancar o seu dente mais devagar, responde-lhe o dentista.
12.Pergunta o doente ao seu médico, conhecido por ser um grande jogador da Bolsa de Valores de Lisboa:
- Senhor doutor, o que é que eu devo fazer se logo à tarde a febre subir aos 38 ?
- Ó homem, não hesite, dê logo uma ordem de venda!
13. O médico para o seu mecânico de automóveis, olhando para a conta da revisão do carro:
- É, pá, você desculpe, mas leva muito mais dinheiro do que eu, só de mão-de-obra, à hora...
- Pois é, doutor, mas não compare: o senhor trabalha com um modelo que nunca muda, é sempre o mesmo desde os tempos do Adão e a Eva; ao passo que nós temos todos os meses um modelo novo e precisamos de estar sempre actualizados...
14. Sabes aquela do tipo que foi ao médico, depois de uns problemas de coração ? Comentava ele, outro dia, com um amigo dos copos e das noitadas:
- Fui ao médico, pregou-me um susto, e desta vez tirou-me tudo...
- Tudo o quê, homem ?
- O que havia de ser ? A bebida, a comida, o sexo e ... o tabaco!
- E agora, o que é que te resta da puta da vida ?
- A saúde, meu!...
11 dezembro 2004
Socio(b)logia - XII: A humanização da condição animal
1. Há fotos que recebemos na nossa caixa de correio que são tristes, lamentáveis e até reprováveis. Eis uma lista, a título exemplificativo:
(i) o tigre a brincar num jardim zoológico tailandês com os três porquinhos da história do lobo;
(ii) os três ursinhos pardos, perdidos da mãe, a espreitar para dentro de um jeep todo o terreno numa estrada de um parque nacional nos States, sobb o olhar embevecido de uma turista de fim-de-semana;
(iii) uma mãe orangotango olhando com ‘ar ternurento’ o seu bebé orangotango, num centro de reabilitação de orangotangos;
(iv) o pobre do cão que se refugia na parte de baixo do frigorífico para fugir da canícula do verão ou da estupidez do dono;
(v) um macaco (japonês ? Macaca fuscata ?) a abraçar um felino…
Fotos tristes, eticamente reprováveis e que poderiam ter como legenda, se os animais falassem como no tempo de La Fontaine: “Eis que o Ele fez de nós!”… Ele é o ‘Homo Sapiens’, o ‘Primus Inter Pares’, o primeiro entre iguais, segundo a velha classificação de Lineu (1707-1778)...
Tenho, às vezes, a secreta dúvida, ou suspeita, de que a humanização do planeta azul foi (ou tem sido) igual a colonização e domesticação (logo, dominação) dos outros seres vivos… O primata social e territorial que há em nós é incapaz de amar sem possuir, colonizar, e hélas!, destruir…
2. Fico horrorizado só de pensar que os nossos ’irmãos’ primatas, os grandes símios, do gorila de montanha, na África equatorial, ao orangotango da floresta do Bornéu, na Indonésia, vão desaparecer dentro dos próximos anos e que só vamos passar a poder vê-los em cativeiro, em prisões mais ou menos douradas, em zoos pós-modernos, nas reservas para turistas ricos, nos laboratórios de genética animal, nos canais de televisão por cabo, nas imagens que guardarmos nos nossos computadores, nos manuais de biologia, zoologia e etologia, nos livros das nossas bibliotecas de Alexandria… Como estas imagens que de vez em quando recebo e que também mando aos meus amigos e conhecidos, e que não deveria mandar porque são tristes, lamentáveis e sobretudo reprováveis.
Será que Ele e eles ainda têm alguma chance de escapar da extinção? Sejamos moderadamente optimistas… De qualquer modo, dizer que o homem é o lobo do homem (homo lupus homimi) é um insulto ao pobre do lobo, em extinção em Portugal e no resto da Europa. Como se não bastasse já esta estória execrável, antropocêntrica, de violação e de terror que é a do O Lobo e o Capuchinho Vermelho, que nos era contada até à saciedade quando éramos meninos do coro e da catequese, usávamos bibe e jogávamos ao pião.
(i) o tigre a brincar num jardim zoológico tailandês com os três porquinhos da história do lobo;
(ii) os três ursinhos pardos, perdidos da mãe, a espreitar para dentro de um jeep todo o terreno numa estrada de um parque nacional nos States, sobb o olhar embevecido de uma turista de fim-de-semana;
(iii) uma mãe orangotango olhando com ‘ar ternurento’ o seu bebé orangotango, num centro de reabilitação de orangotangos;
(iv) o pobre do cão que se refugia na parte de baixo do frigorífico para fugir da canícula do verão ou da estupidez do dono;
(v) um macaco (japonês ? Macaca fuscata ?) a abraçar um felino…
Fotos tristes, eticamente reprováveis e que poderiam ter como legenda, se os animais falassem como no tempo de La Fontaine: “Eis que o Ele fez de nós!”… Ele é o ‘Homo Sapiens’, o ‘Primus Inter Pares’, o primeiro entre iguais, segundo a velha classificação de Lineu (1707-1778)...
Tenho, às vezes, a secreta dúvida, ou suspeita, de que a humanização do planeta azul foi (ou tem sido) igual a colonização e domesticação (logo, dominação) dos outros seres vivos… O primata social e territorial que há em nós é incapaz de amar sem possuir, colonizar, e hélas!, destruir…
2. Fico horrorizado só de pensar que os nossos ’irmãos’ primatas, os grandes símios, do gorila de montanha, na África equatorial, ao orangotango da floresta do Bornéu, na Indonésia, vão desaparecer dentro dos próximos anos e que só vamos passar a poder vê-los em cativeiro, em prisões mais ou menos douradas, em zoos pós-modernos, nas reservas para turistas ricos, nos laboratórios de genética animal, nos canais de televisão por cabo, nas imagens que guardarmos nos nossos computadores, nos manuais de biologia, zoologia e etologia, nos livros das nossas bibliotecas de Alexandria… Como estas imagens que de vez em quando recebo e que também mando aos meus amigos e conhecidos, e que não deveria mandar porque são tristes, lamentáveis e sobretudo reprováveis.
Será que Ele e eles ainda têm alguma chance de escapar da extinção? Sejamos moderadamente optimistas… De qualquer modo, dizer que o homem é o lobo do homem (homo lupus homimi) é um insulto ao pobre do lobo, em extinção em Portugal e no resto da Europa. Como se não bastasse já esta estória execrável, antropocêntrica, de violação e de terror que é a do O Lobo e o Capuchinho Vermelho, que nos era contada até à saciedade quando éramos meninos do coro e da catequese, usávamos bibe e jogávamos ao pião.
Socio(b)logia - XII: A humanização da condição animal
1. Há fotos que recebemos na nossa caixa de correio que são tristes, lamentáveis e até reprováveis. Eis uma lista, a título exemplificativo:
(i) o tigre a brincar num jardim zoológico tailandês com os três porquinhos da história do lobo;
(ii) os três ursinhos pardos, perdidos da mãe, a espreitar para dentro de um jeep todo o terreno numa estrada de um parque nacional nos States, sobb o olhar embevecido de uma turista de fim-de-semana;
(iii) uma mãe orangotango olhando com ‘ar ternurento’ o seu bebé orangotango, num centro de reabilitação de orangotangos;
(iv) o pobre do cão que se refugia na parte de baixo do frigorífico para fugir da canícula do verão ou da estupidez do dono;
(v) um macaco (japonês ? Macaca fuscata ?) a abraçar um felino…
Fotos tristes, eticamente reprováveis e que poderiam ter como legenda, se os animais falassem como no tempo de La Fontaine: “Eis que o Ele fez de nós!”… Ele é o ‘Homo Sapiens’, o ‘Primus Inter Pares’, o primeiro entre iguais, segundo a velha classificação de Lineu (1707-1778)...
Tenho, às vezes, a secreta dúvida, ou suspeita, de que a humanização do planeta azul foi (ou tem sido) igual a colonização e domesticação (logo, dominação) dos outros seres vivos… O primata social e territorial que há em nós é incapaz de amar sem possuir, colonizar, e hélas!, destruir…
2. Fico horrorizado só de pensar que os nossos ’irmãos’ primatas, os grandes símios, do gorila de montanha, na África equatorial, ao orangotango da floresta do Bornéu, na Indonésia, vão desaparecer dentro dos próximos anos e que só vamos passar a poder vê-los em cativeiro, em prisões mais ou menos douradas, em zoos pós-modernos, nas reservas para turistas ricos, nos laboratórios de genética animal, nos canais de televisão por cabo, nas imagens que guardarmos nos nossos computadores, nos manuais de biologia, zoologia e etologia, nos livros das nossas bibliotecas de Alexandria… Como estas imagens que de vez em quando recebo e que também mando aos meus amigos e conhecidos, e que não deveria mandar porque são tristes, lamentáveis e sobretudo reprováveis.
Será que Ele e eles ainda têm alguma chance de escapar da extinção? Sejamos moderadamente optimistas… De qualquer modo, dizer que o homem é o lobo do homem (homo lupus homimi) é um insulto ao pobre do lobo, em extinção em Portugal e no resto da Europa. Como se não bastasse já esta estória execrável, antropocêntrica, de violação e de terror que é a do O Lobo e o Capuchinho Vermelho, que nos era contada até à saciedade quando éramos meninos do coro e da catequese, usávamos bibe e jogávamos ao pião.
(i) o tigre a brincar num jardim zoológico tailandês com os três porquinhos da história do lobo;
(ii) os três ursinhos pardos, perdidos da mãe, a espreitar para dentro de um jeep todo o terreno numa estrada de um parque nacional nos States, sobb o olhar embevecido de uma turista de fim-de-semana;
(iii) uma mãe orangotango olhando com ‘ar ternurento’ o seu bebé orangotango, num centro de reabilitação de orangotangos;
(iv) o pobre do cão que se refugia na parte de baixo do frigorífico para fugir da canícula do verão ou da estupidez do dono;
(v) um macaco (japonês ? Macaca fuscata ?) a abraçar um felino…
Fotos tristes, eticamente reprováveis e que poderiam ter como legenda, se os animais falassem como no tempo de La Fontaine: “Eis que o Ele fez de nós!”… Ele é o ‘Homo Sapiens’, o ‘Primus Inter Pares’, o primeiro entre iguais, segundo a velha classificação de Lineu (1707-1778)...
Tenho, às vezes, a secreta dúvida, ou suspeita, de que a humanização do planeta azul foi (ou tem sido) igual a colonização e domesticação (logo, dominação) dos outros seres vivos… O primata social e territorial que há em nós é incapaz de amar sem possuir, colonizar, e hélas!, destruir…
2. Fico horrorizado só de pensar que os nossos ’irmãos’ primatas, os grandes símios, do gorila de montanha, na África equatorial, ao orangotango da floresta do Bornéu, na Indonésia, vão desaparecer dentro dos próximos anos e que só vamos passar a poder vê-los em cativeiro, em prisões mais ou menos douradas, em zoos pós-modernos, nas reservas para turistas ricos, nos laboratórios de genética animal, nos canais de televisão por cabo, nas imagens que guardarmos nos nossos computadores, nos manuais de biologia, zoologia e etologia, nos livros das nossas bibliotecas de Alexandria… Como estas imagens que de vez em quando recebo e que também mando aos meus amigos e conhecidos, e que não deveria mandar porque são tristes, lamentáveis e sobretudo reprováveis.
Será que Ele e eles ainda têm alguma chance de escapar da extinção? Sejamos moderadamente optimistas… De qualquer modo, dizer que o homem é o lobo do homem (homo lupus homimi) é um insulto ao pobre do lobo, em extinção em Portugal e no resto da Europa. Como se não bastasse já esta estória execrável, antropocêntrica, de violação e de terror que é a do O Lobo e o Capuchinho Vermelho, que nos era contada até à saciedade quando éramos meninos do coro e da catequese, usávamos bibe e jogávamos ao pião.
07 dezembro 2004
Guiné 69/71 - IV: Um Natal Tropical
1. Excertos da história da Companhia de Caçadores 12 (CCAÇ 2590): Guiné 1969/71
Bamdabinca, Dezembro de 1969:
(...) a 24, 2 Gr Comb [grupos de combate] da CCAÇ 12, em cooperação com a autoridade administrativa de Bambadinca [onde estava aquartelada a companhia], levam a efeito uma rusga (com cerco) à tabanca de Mero [aldeia balanta, junto ao Rio Geba]. Apesar de alguns indícios suspeitos, não foram detectados elementos IN [inimigo]. Para efeitos de controlo populacional, completou-se e actualizou-se o recenseamento dos habitantes de Mero (Op Acção Guilotina)[nome de código da operação]. Nas duas semanas anteriores, o IN tinha desencadeado várias acções de intimidação contra as populações de Canxicame, Nhabijão Bedinca e Bissaque, a última das quais levada a efeito por um grupo enquadrado por brancos que retirou para a região de Bucol, cambando o RGeba [atravesando o Rio Geba de canoa, para norte].
Por outro lado, prevendo-se a possibilidade o IN atacar os aquartelamentos das NT [nossas tropas] durante a quadra festiva do Natal e Ano Novo, foi reforçado o dispositivo de defesa de Bambadinca. Assim, além da emboscada diária até às 1 a 3 horas da noite, a nível de secção reforçada num raio de 3 a 5 km (segurança próxima), passou a ser destacado 1 Gr Comb para Bambadincazinha (em fase de reordenamento), todas as noites até às 6h da manhã, constituindo uma força de intervenção com a missão de fazer malograr o eventual ataque ao aquartelamento e/ou às tabancas da periferia, actuando pela manobra e pelo fogo sobre as prováveis linhas de infiltração e locais de instalação das bases de fogo do IN, ou no mínimo detê-lo e repeli-lo pelo fogo.
A 26 [de Dezembro de 1969], forças da CART 2520 [companhia de artilharia], reforçadas por um 1 Gr Comb da CCAÇ 12 realizam um patrulhamento ofensivo na região do Xime, Madina Colhido, Chacali, Colicumbel e Amedalai, sem detectacterm vestígios do IN (Op Faca Húmida).
A 30, Sua Excia. o Comandante Chefe [General António de Spínola]visita Bambadinca para apresentar cumprimentos de Ano Novo a todos os oficiais, sargentos e praças do CMD e CCS/BCAÇ 2852 [comando e companhia de comando e serviços do Batalhão de Artilharia 2852], e sub-unidades adidas [a CCAÇ 12 incluída].
2. Excertos do diário de um tuga:
Bambadinca, 24/25 de Dezembro de 1969:
Natal nos trópicos! Não consigo imaginá-lo sem aquela ambiência mágica que me vem do fundo da memória. É que do cristianismo terei apenas captado o sentido encantatório do Natal e a sua antítese, que é o universo maniqueísta da Paixão. Mas decididamente não vou fazer flash-back. Cortei o corão umbilical a frio e da infância resta-me apenas a sensação do salto mortal.
Há, porém, certas imagens poéticas, recalcadas no subconsciente ou guardadas no baú da memória, que hoje vêm ao de cima. Por um qualquer automatismo. Ou talvez por ser Natal algures, far from the Vietnam, longe da Guiné, e eu passar esta noite emboscado. O que não tem nada de insólito: é uma actividade de rotina. Mas é terrivelmnete cruel a solidão deste tempo em que os homens se esperam uns aos outros nas encruzilhadas da morte, os dentes cerrados e as armas aperradas, em contraste com o bando alegre de crianças cabo-verdianas que, não longe daqui, da Missão do Sono (uma estrutura sanitária, agora militarizada, transformada em local de emboscada!), entoam alegres cânticos do Natal crioulo ao som do batuque pagão.
No aquartelamanto, de que vejo as luzes ao fundo, ninguém se desejou boas festas porque também ninguém tem sentido de humor. Nem por isso deixou de celebrar-se a Consoada da nossa terra: um pretexto para se comer (o tradicional prato de bacalhau com batatas e grelhos.. desidratados) e sobretudo para se beber (muito).
Hoji, festa di brancu, noite di Natal, manga di sabe!, lembra-me um dos meus soldados africanos, enquanto ao longe a artilharia do Xime e de Massambo faz fogo de reconhecimento. E eu fiquei a pensar neste tempo de silêncio, de cobardia e de cumplicidade. Mas também de raiva. Como o Manuel Alegre, eu gostaria de poder dizer neste dia, todos os dias: "Mesmo na noite mais triste / Em tempo de servidão / Há sempre alguém que resiste / Há sempre alguém que diz não".
Bamdabinca, Dezembro de 1969:
(...) a 24, 2 Gr Comb [grupos de combate] da CCAÇ 12, em cooperação com a autoridade administrativa de Bambadinca [onde estava aquartelada a companhia], levam a efeito uma rusga (com cerco) à tabanca de Mero [aldeia balanta, junto ao Rio Geba]. Apesar de alguns indícios suspeitos, não foram detectados elementos IN [inimigo]. Para efeitos de controlo populacional, completou-se e actualizou-se o recenseamento dos habitantes de Mero (Op Acção Guilotina)[nome de código da operação]. Nas duas semanas anteriores, o IN tinha desencadeado várias acções de intimidação contra as populações de Canxicame, Nhabijão Bedinca e Bissaque, a última das quais levada a efeito por um grupo enquadrado por brancos que retirou para a região de Bucol, cambando o RGeba [atravesando o Rio Geba de canoa, para norte].
Por outro lado, prevendo-se a possibilidade o IN atacar os aquartelamentos das NT [nossas tropas] durante a quadra festiva do Natal e Ano Novo, foi reforçado o dispositivo de defesa de Bambadinca. Assim, além da emboscada diária até às 1 a 3 horas da noite, a nível de secção reforçada num raio de 3 a 5 km (segurança próxima), passou a ser destacado 1 Gr Comb para Bambadincazinha (em fase de reordenamento), todas as noites até às 6h da manhã, constituindo uma força de intervenção com a missão de fazer malograr o eventual ataque ao aquartelamento e/ou às tabancas da periferia, actuando pela manobra e pelo fogo sobre as prováveis linhas de infiltração e locais de instalação das bases de fogo do IN, ou no mínimo detê-lo e repeli-lo pelo fogo.
A 26 [de Dezembro de 1969], forças da CART 2520 [companhia de artilharia], reforçadas por um 1 Gr Comb da CCAÇ 12 realizam um patrulhamento ofensivo na região do Xime, Madina Colhido, Chacali, Colicumbel e Amedalai, sem detectacterm vestígios do IN (Op Faca Húmida).
A 30, Sua Excia. o Comandante Chefe [General António de Spínola]visita Bambadinca para apresentar cumprimentos de Ano Novo a todos os oficiais, sargentos e praças do CMD e CCS/BCAÇ 2852 [comando e companhia de comando e serviços do Batalhão de Artilharia 2852], e sub-unidades adidas [a CCAÇ 12 incluída].
2. Excertos do diário de um tuga:
Bambadinca, 24/25 de Dezembro de 1969:
Natal nos trópicos! Não consigo imaginá-lo sem aquela ambiência mágica que me vem do fundo da memória. É que do cristianismo terei apenas captado o sentido encantatório do Natal e a sua antítese, que é o universo maniqueísta da Paixão. Mas decididamente não vou fazer flash-back. Cortei o corão umbilical a frio e da infância resta-me apenas a sensação do salto mortal.
Há, porém, certas imagens poéticas, recalcadas no subconsciente ou guardadas no baú da memória, que hoje vêm ao de cima. Por um qualquer automatismo. Ou talvez por ser Natal algures, far from the Vietnam, longe da Guiné, e eu passar esta noite emboscado. O que não tem nada de insólito: é uma actividade de rotina. Mas é terrivelmnete cruel a solidão deste tempo em que os homens se esperam uns aos outros nas encruzilhadas da morte, os dentes cerrados e as armas aperradas, em contraste com o bando alegre de crianças cabo-verdianas que, não longe daqui, da Missão do Sono (uma estrutura sanitária, agora militarizada, transformada em local de emboscada!), entoam alegres cânticos do Natal crioulo ao som do batuque pagão.
No aquartelamanto, de que vejo as luzes ao fundo, ninguém se desejou boas festas porque também ninguém tem sentido de humor. Nem por isso deixou de celebrar-se a Consoada da nossa terra: um pretexto para se comer (o tradicional prato de bacalhau com batatas e grelhos.. desidratados) e sobretudo para se beber (muito).
Hoji, festa di brancu, noite di Natal, manga di sabe!, lembra-me um dos meus soldados africanos, enquanto ao longe a artilharia do Xime e de Massambo faz fogo de reconhecimento. E eu fiquei a pensar neste tempo de silêncio, de cobardia e de cumplicidade. Mas também de raiva. Como o Manuel Alegre, eu gostaria de poder dizer neste dia, todos os dias: "Mesmo na noite mais triste / Em tempo de servidão / Há sempre alguém que resiste / Há sempre alguém que diz não".
Guiné 69/71 - IV: Um Natal Tropical
1. Excertos da história da Companhia de Caçadores 12 (CCAÇ 2590): Guiné 1969/71
Bamdabinca, Dezembro de 1969:
(...) a 24, 2 Gr Comb [grupos de combate] da CCAÇ 12, em cooperação com a autoridade administrativa de Bambadinca [onde estava aquartelada a companhia], levam a efeito uma rusga (com cerco) à tabanca de Mero [aldeia balanta, junto ao Rio Geba]. Apesar de alguns indícios suspeitos, não foram detectados elementos IN [inimigo]. Para efeitos de controlo populacional, completou-se e actualizou-se o recenseamento dos habitantes de Mero (Op Acção Guilotina)[nome de código da operação]. Nas duas semanas anteriores, o IN tinha desencadeado várias acções de intimidação contra as populações de Canxicame, Nhabijão Bedinca e Bissaque, a última das quais levada a efeito por um grupo enquadrado por brancos que retirou para a região de Bucol, cambando o RGeba [atravesando o Rio Geba de canoa, para norte].
Por outro lado, prevendo-se a possibilidade o IN atacar os aquartelamentos das NT [nossas tropas] durante a quadra festiva do Natal e Ano Novo, foi reforçado o dispositivo de defesa de Bambadinca. Assim, além da emboscada diária até às 1 a 3 horas da noite, a nível de secção reforçada num raio de 3 a 5 km (segurança próxima), passou a ser destacado 1 Gr Comb para Bambadincazinha (em fase de reordenamento), todas as noites até às 6h da manhã, constituindo uma força de intervenção com a missão de fazer malograr o eventual ataque ao aquartelamento e/ou às tabancas da periferia, actuando pela manobra e pelo fogo sobre as prováveis linhas de infiltração e locais de instalação das bases de fogo do IN, ou no mínimo detê-lo e repeli-lo pelo fogo.
A 26 [de Dezembro de 1969], forças da CART 2520 [companhia de artilharia], reforçadas por um 1 Gr Comb da CCAÇ 12 realizam um patrulhamento ofensivo na região do Xime, Madina Colhido, Chacali, Colicumbel e Amedalai, sem detectacterm vestígios do IN (Op Faca Húmida).
A 30, Sua Excia. o Comandante Chefe [General António de Spínola]visita Bambadinca para apresentar cumprimentos de Ano Novo a todos os oficiais, sargentos e praças do CMD e CCS/BCAÇ 2852 [comando e companhia de comando e serviços do Batalhão de Artilharia 2852], e sub-unidades adidas [a CCAÇ 12 incluída].
2. Excertos do diário de um tuga:
Bambadinca, 24/25 de Dezembro de 1969:
Natal nos trópicos! Não consigo imaginá-lo sem aquela ambiência mágica que me vem do fundo da memória. É que do cristianismo terei apenas captado o sentido encantatório do Natal e a sua antítese, que é o universo maniqueísta da Paixão. Mas decididamente não vou fazer flash-back. Cortei o corão umbilical a frio e da infância resta-me apenas a sensação do salto mortal.
Há, porém, certas imagens poéticas, recalcadas no subconsciente ou guardadas no baú da memória, que hoje vêm ao de cima. Por um qualquer automatismo. Ou talvez por ser Natal algures, far from the Vietnam, longe da Guiné, e eu passar esta noite emboscado. O que não tem nada de insólito: é uma actividade de rotina. Mas é terrivelmnete cruel a solidão deste tempo em que os homens se esperam uns aos outros nas encruzilhadas da morte, os dentes cerrados e as armas aperradas, em contraste com o bando alegre de crianças cabo-verdianas que, não longe daqui, da Missão do Sono (uma estrutura sanitária, agora militarizada, transformada em local de emboscada!), entoam alegres cânticos do Natal crioulo ao som do batuque pagão.
No aquartelamanto, de que vejo as luzes ao fundo, ninguém se desejou boas festas porque também ninguém tem sentido de humor. Nem por isso deixou de celebrar-se a Consoada da nossa terra: um pretexto para se comer (o tradicional prato de bacalhau com batatas e grelhos.. desidratados) e sobretudo para se beber (muito).
Hoji, festa di brancu, noite di Natal, manga di sabe!, lembra-me um dos meus soldados africanos, enquanto ao longe a artilharia do Xime e de Massambo faz fogo de reconhecimento. E eu fiquei a pensar neste tempo de silêncio, de cobardia e de cumplicidade. Mas também de raiva. Como o Manuel Alegre, eu gostaria de poder dizer neste dia, todos os dias: "Mesmo na noite mais triste / Em tempo de servidão / Há sempre alguém que resiste / Há sempre alguém que diz não".
Bamdabinca, Dezembro de 1969:
(...) a 24, 2 Gr Comb [grupos de combate] da CCAÇ 12, em cooperação com a autoridade administrativa de Bambadinca [onde estava aquartelada a companhia], levam a efeito uma rusga (com cerco) à tabanca de Mero [aldeia balanta, junto ao Rio Geba]. Apesar de alguns indícios suspeitos, não foram detectados elementos IN [inimigo]. Para efeitos de controlo populacional, completou-se e actualizou-se o recenseamento dos habitantes de Mero (Op Acção Guilotina)[nome de código da operação]. Nas duas semanas anteriores, o IN tinha desencadeado várias acções de intimidação contra as populações de Canxicame, Nhabijão Bedinca e Bissaque, a última das quais levada a efeito por um grupo enquadrado por brancos que retirou para a região de Bucol, cambando o RGeba [atravesando o Rio Geba de canoa, para norte].
Por outro lado, prevendo-se a possibilidade o IN atacar os aquartelamentos das NT [nossas tropas] durante a quadra festiva do Natal e Ano Novo, foi reforçado o dispositivo de defesa de Bambadinca. Assim, além da emboscada diária até às 1 a 3 horas da noite, a nível de secção reforçada num raio de 3 a 5 km (segurança próxima), passou a ser destacado 1 Gr Comb para Bambadincazinha (em fase de reordenamento), todas as noites até às 6h da manhã, constituindo uma força de intervenção com a missão de fazer malograr o eventual ataque ao aquartelamento e/ou às tabancas da periferia, actuando pela manobra e pelo fogo sobre as prováveis linhas de infiltração e locais de instalação das bases de fogo do IN, ou no mínimo detê-lo e repeli-lo pelo fogo.
A 26 [de Dezembro de 1969], forças da CART 2520 [companhia de artilharia], reforçadas por um 1 Gr Comb da CCAÇ 12 realizam um patrulhamento ofensivo na região do Xime, Madina Colhido, Chacali, Colicumbel e Amedalai, sem detectacterm vestígios do IN (Op Faca Húmida).
A 30, Sua Excia. o Comandante Chefe [General António de Spínola]visita Bambadinca para apresentar cumprimentos de Ano Novo a todos os oficiais, sargentos e praças do CMD e CCS/BCAÇ 2852 [comando e companhia de comando e serviços do Batalhão de Artilharia 2852], e sub-unidades adidas [a CCAÇ 12 incluída].
2. Excertos do diário de um tuga:
Bambadinca, 24/25 de Dezembro de 1969:
Natal nos trópicos! Não consigo imaginá-lo sem aquela ambiência mágica que me vem do fundo da memória. É que do cristianismo terei apenas captado o sentido encantatório do Natal e a sua antítese, que é o universo maniqueísta da Paixão. Mas decididamente não vou fazer flash-back. Cortei o corão umbilical a frio e da infância resta-me apenas a sensação do salto mortal.
Há, porém, certas imagens poéticas, recalcadas no subconsciente ou guardadas no baú da memória, que hoje vêm ao de cima. Por um qualquer automatismo. Ou talvez por ser Natal algures, far from the Vietnam, longe da Guiné, e eu passar esta noite emboscado. O que não tem nada de insólito: é uma actividade de rotina. Mas é terrivelmnete cruel a solidão deste tempo em que os homens se esperam uns aos outros nas encruzilhadas da morte, os dentes cerrados e as armas aperradas, em contraste com o bando alegre de crianças cabo-verdianas que, não longe daqui, da Missão do Sono (uma estrutura sanitária, agora militarizada, transformada em local de emboscada!), entoam alegres cânticos do Natal crioulo ao som do batuque pagão.
No aquartelamanto, de que vejo as luzes ao fundo, ninguém se desejou boas festas porque também ninguém tem sentido de humor. Nem por isso deixou de celebrar-se a Consoada da nossa terra: um pretexto para se comer (o tradicional prato de bacalhau com batatas e grelhos.. desidratados) e sobretudo para se beber (muito).
Hoji, festa di brancu, noite di Natal, manga di sabe!, lembra-me um dos meus soldados africanos, enquanto ao longe a artilharia do Xime e de Massambo faz fogo de reconhecimento. E eu fiquei a pensar neste tempo de silêncio, de cobardia e de cumplicidade. Mas também de raiva. Como o Manuel Alegre, eu gostaria de poder dizer neste dia, todos os dias: "Mesmo na noite mais triste / Em tempo de servidão / Há sempre alguém que resiste / Há sempre alguém que diz não".
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