18 dezembro 2005

Guíné 63/74 - CCCLXXXVIII: O meu Natal de 1968 em Barro (A. Marques Lopes)

Guiné-Bissau > Cacheu > Barro > 1968 > Feliz Natal...

"Este é mais outro aerograma que descobri. Mandei-o, pelo Natal, em 1968. O que eu quis transmitir é que eram natais de morte e que o que procurava era esquecer, dando de beber à dor".

Aerograma:

"Querida irmã e cunhado, um Natal feliz e que o Ano Novo seja sepre melhor que o anterior. António Manuel... Uma ginginha!.. Pois dar de beber à dar é o melhor"...

© A. Marques Lopes (2005)

Guíné 63/74 - CCCLXXXVIII: O meu Natal de 1968 em Barro (A. Marques Lopes)

Guiné-Bissau > Cacheu > Barro > 1968 > Feliz Natal...

"Este é mais outro aerograma que descobri. Mandei-o, pelo Natal, em 1968. O que eu quis transmitir é que eram natais de morte e que o que procurava era esquecer, dando de beber à dor".

Aerograma:

"Querida irmã e cunhado, um Natal feliz e que o Ano Novo seja sepre melhor que o anterior. António Manuel... Uma ginginha!.. Pois dar de beber à dar é o melhor"...

© A. Marques Lopes (2005)

Guiné 63/74 - CCCLXXXVII: O meu Natal de 1969 em Bambadincazinha (Luís Graça)


Guiné > Bambadinca > 1970 > Tabancas de Bambadincazinha onde estava instalada a Missão do Sono. Estrada Bambadinca-Mansambo-Xitole.

© Luís Moreira (2005)(ex-alf mil da CCS / BART 2917, Bambadinca, 1970/71; BENG, Bissau, 1971).


Este texto foi um dos primeiros aqui publicados no nosso blogue: 7 de Dezembro de 2004 > Guiné 69/71 - IV: Um Natal Tropical.

Nessa data ainda não havia tertúlia (que se começou a partir de finais de Maio de 2005), pelo que muitos dos nossos amigos e camaradas não o devem ter lido. Nesse texto (que tem de ser lido à luz da época, já que é tirado do meu diário...), relembro o que se passava nas vésperas de Natal e Ano Novo num sector como o de Bambadinca, onde a nossa companhia (CCAÇ 12, independente e de intervenção) tinha sido colocada.

O meu primeiro Natal passado na Guiné - tinha chegado em finais de Maio, eu, o Humberto, o Levezinho, o Fernandes e os restantes camaradas tugas da CCAÇ 2590, mais tarde rebaptizada CCAÇ 12 e integrada na "nova força africana" - terá sido igual ao de tantos outros de camaradas, de milhares de camaradas, emboscados ou enfiados nas suas tocas em aquartelamentos com abrigos subterrâneos, muitos deles (Mansambo ou Guileje, por exemplo). Talvez mais triste por ser o primeiro passado num cenário de guerra, e numa guerra na qual eu procurava ser um "resistente passivo"...

1. Excertos de: História da Companhia de Caçadores 12 (CCAÇ 2590): Guiné 1969/71. Bambadinca: CCAÇ 12. 1971. Cap. II. 19-21.

Bamdabinca, Dezembro de 1969:

(...) a 24, 2 Gr Comb [grupos de combate] da CCAÇ 12, em cooperação com a autoridade administrativa de Bambadinca [onde estava aquartelada a companhia], levam a efeito uma rusga (com cerco) à tabanca de Mero [aldeia balanta, junto ao Rio Geba]. Apesar de alguns indícios suspeitos, não foram detectados elementos IN [inimigo].

Para efeitos de controlo populacional, completou-se e actualizou-se o recenseamento dos habitantes de Mero (Op Acção Guilotina)[nome de código da operação]. Nas duas semanas anteriores, o IN tinha desencadeado várias acções de intimidação contra as populações de Canxicame, Nhabijão Bedinca e Bissaque, a última das quais levada a efeito por um grupo enquadrado por brancos que retirou para a região de Bucol, cambando o RGeba [atravesando o Rio Geba de canoa, para norte].

Por outro lado, prevendo-se a possibilidade o IN atacar os aquartelamentos das NT [nossas tropas] durante a quadra festiva do Natal e Ano Novo, foi reforçado o dispositivo de defesa de Bambadinca. Assim, além da emboscada diária até às 1 a 3 horas da noite, a nível de secção reforçada num raio de 3 a 5 km (segurança próxima), passou a ser destacado 1 Gr Comb para Bambadincazinha (em fase de reordenamento), todas as noites até às 6h da manhã, constituindo uma força de intervenção com a missão de fazer malograr o eventual ataque ao aquartelamento e/ou às tabancas da periferia, actuando pela manobra e pelo fogo sobre as prováveis linhas de infiltração e locais de instalação das bases de fogo do IN, ou no mínimo detê-lo e repeli-lo pelo fogo (1).

A 26 [de Dezembro de 1969], forças da CART 2520 [companhia de artilharia], reforçadas por um 1 Gr Comb da CCAÇ 12 realizam um patrulhamento ofensivo na região do Xime, Madina Colhido, Chacali, Colicumbel e Amedalai, sem detectacterm vestígios do IN (Op Faca Húmida).

A 30, Sua Excia. o Comandante Chefe [General António de Spínola]visita Bambadinca para apresentar cumprimentos de Ano Novo a todos os oficiais, sargentos e praças do CMD e CCS/BCAÇ 2852 [comando e companhia de comando e serviços do Batalhão de Artilharia 2852], e sub-unidades adidas [a CCAÇ 12 incluída].


2. Excertos do Diário de um tuga:

Bambadinca, 24/25 de Dezembro de 1969:

Natal nos trópicos! Não consigo imaginá-lo sem aquela ambiência mágica que me vem do fundo da memória. É que do cristianismo terei apenas captado o sentido encantatório do Natal e a sua antítese, que é o universo maniqueísta da Paixão. Mas decididamente não vou fazer flash-back. Cortei o corão umbilical a frio e da infância resta-me apenas a sensação do salto mortal. Há, porém, certas imagens poéticas, recalcadas no subconsciente ou guardadas no baú da memória, que hoje vêm ao de cima. Por um qualquer automatismo. Ou talvez por ser Natal algures, far from the Vietnam, longe da Guiné, e eu passar esta noite emboscado. O que não tem nada de insólito: é uma actividade de rotina.

Mas é terrivelmnete cruel a solidão deste tempo em que os homens se esperam uns aos outros nas encruzilhadas da morte, os dentes cerrados e as armas aperradas, em contraste com o bando alegre de crianças cabo-verdianas que, não longe daqui, da Missão do Sono (uma estrutura sanitária, agora militarizada, transformada em local de emboscada!), entoam alegres cânticos do Natal crioulo ao som do batuque pagão.

No aquartelamento, de que vejo as luzes ao fundo, ninguém se desejou boas festas porque também ninguém tem sentido de humor. Nem por isso deixou de celebrar-se a Consoada da nossa terra: um pretexto para se comer (o tradicional prato de bacalhau com batatas e grelhos.. desidratados) e sobretudo para se beber (muito).

- Hoji, festa di brancu, noite di Natal, manga di sabe! - lembra-me um dos meus soldados africanos, enquanto ao longe a artilharia do Xime e de Massambo faz fogo de reconhecimento.

E eu fiquei a pensar neste tempo de silêncio, de cobardia e de cumplicidade. Mas também de raiva. Como o Manuel Alegre, eu gostaria de poder dizer neste dia, todos os dias: "Mesmo na noite mais triste / Em tempo de servidão / Há sempre alguém que resiste / Há sempre alguém que diz não".

__________

(1) O Grupo de Combate ficava instalado na famosa Missão do Sono (uma estrutura sanitária, criada no âmbito do Programa de Luta contra a Doença do Sono, e na altura desactivada, presumo que em consequência da guerra). Era um edigfício térreo, de tijolo de adobe, rachas de cibe e telhado de zinco (ou de colmo ?, já não me recordo). A nossa posição era mais do que conhecida pela população e pelos elementos simpatizantes do PAIGC que havia em Bambadincazinha e em Bambadinca. Em caso de ataque ao aquartelamento de Bambadinca (sede de batalhão), eramos um alvo fácil. Uma ou duas roquetadas punham-nos a todos fora de combate.

Guiné 63/74 - CCCLXXXVII: O meu Natal de 1969 em Bambadincazinha (Luís Graça)


Guiné > Bambadinca > 1970 > Tabancas de Bambadincazinha onde estava instalada a Missão do Sono. Estrada Bambadinca-Mansambo-Xitole.

© Luís Moreira (2005)(ex-alf mil da CCS / BART 2917, Bambadinca, 1970/71; BENG, Bissau, 1971).


Este texto foi um dos primeiros aqui publicados no nosso blogue: 7 de Dezembro de 2004 > Guiné 69/71 - IV: Um Natal Tropical.

Nessa data ainda não havia tertúlia (que se começou a partir de finais de Maio de 2005), pelo que muitos dos nossos amigos e camaradas não o devem ter lido. Nesse texto (que tem de ser lido à luz da época, já que é tirado do meu diário...), relembro o que se passava nas vésperas de Natal e Ano Novo num sector como o de Bambadinca, onde a nossa companhia (CCAÇ 12, independente e de intervenção) tinha sido colocada.

O meu primeiro Natal passado na Guiné - tinha chegado em finais de Maio, eu, o Humberto, o Levezinho, o Fernandes e os restantes camaradas tugas da CCAÇ 2590, mais tarde rebaptizada CCAÇ 12 e integrada na "nova força africana" - terá sido igual ao de tantos outros de camaradas, de milhares de camaradas, emboscados ou enfiados nas suas tocas em aquartelamentos com abrigos subterrâneos, muitos deles (Mansambo ou Guileje, por exemplo). Talvez mais triste por ser o primeiro passado num cenário de guerra, e numa guerra na qual eu procurava ser um "resistente passivo"...

1. Excertos de: História da Companhia de Caçadores 12 (CCAÇ 2590): Guiné 1969/71. Bambadinca: CCAÇ 12. 1971. Cap. II. 19-21.

Bamdabinca, Dezembro de 1969:

(...) a 24, 2 Gr Comb [grupos de combate] da CCAÇ 12, em cooperação com a autoridade administrativa de Bambadinca [onde estava aquartelada a companhia], levam a efeito uma rusga (com cerco) à tabanca de Mero [aldeia balanta, junto ao Rio Geba]. Apesar de alguns indícios suspeitos, não foram detectados elementos IN [inimigo].

Para efeitos de controlo populacional, completou-se e actualizou-se o recenseamento dos habitantes de Mero (Op Acção Guilotina)[nome de código da operação]. Nas duas semanas anteriores, o IN tinha desencadeado várias acções de intimidação contra as populações de Canxicame, Nhabijão Bedinca e Bissaque, a última das quais levada a efeito por um grupo enquadrado por brancos que retirou para a região de Bucol, cambando o RGeba [atravesando o Rio Geba de canoa, para norte].

Por outro lado, prevendo-se a possibilidade o IN atacar os aquartelamentos das NT [nossas tropas] durante a quadra festiva do Natal e Ano Novo, foi reforçado o dispositivo de defesa de Bambadinca. Assim, além da emboscada diária até às 1 a 3 horas da noite, a nível de secção reforçada num raio de 3 a 5 km (segurança próxima), passou a ser destacado 1 Gr Comb para Bambadincazinha (em fase de reordenamento), todas as noites até às 6h da manhã, constituindo uma força de intervenção com a missão de fazer malograr o eventual ataque ao aquartelamento e/ou às tabancas da periferia, actuando pela manobra e pelo fogo sobre as prováveis linhas de infiltração e locais de instalação das bases de fogo do IN, ou no mínimo detê-lo e repeli-lo pelo fogo (1).

A 26 [de Dezembro de 1969], forças da CART 2520 [companhia de artilharia], reforçadas por um 1 Gr Comb da CCAÇ 12 realizam um patrulhamento ofensivo na região do Xime, Madina Colhido, Chacali, Colicumbel e Amedalai, sem detectacterm vestígios do IN (Op Faca Húmida).

A 30, Sua Excia. o Comandante Chefe [General António de Spínola]visita Bambadinca para apresentar cumprimentos de Ano Novo a todos os oficiais, sargentos e praças do CMD e CCS/BCAÇ 2852 [comando e companhia de comando e serviços do Batalhão de Artilharia 2852], e sub-unidades adidas [a CCAÇ 12 incluída].


2. Excertos do Diário de um tuga:

Bambadinca, 24/25 de Dezembro de 1969:

Natal nos trópicos! Não consigo imaginá-lo sem aquela ambiência mágica que me vem do fundo da memória. É que do cristianismo terei apenas captado o sentido encantatório do Natal e a sua antítese, que é o universo maniqueísta da Paixão. Mas decididamente não vou fazer flash-back. Cortei o corão umbilical a frio e da infância resta-me apenas a sensação do salto mortal. Há, porém, certas imagens poéticas, recalcadas no subconsciente ou guardadas no baú da memória, que hoje vêm ao de cima. Por um qualquer automatismo. Ou talvez por ser Natal algures, far from the Vietnam, longe da Guiné, e eu passar esta noite emboscado. O que não tem nada de insólito: é uma actividade de rotina.

Mas é terrivelmnete cruel a solidão deste tempo em que os homens se esperam uns aos outros nas encruzilhadas da morte, os dentes cerrados e as armas aperradas, em contraste com o bando alegre de crianças cabo-verdianas que, não longe daqui, da Missão do Sono (uma estrutura sanitária, agora militarizada, transformada em local de emboscada!), entoam alegres cânticos do Natal crioulo ao som do batuque pagão.

No aquartelamento, de que vejo as luzes ao fundo, ninguém se desejou boas festas porque também ninguém tem sentido de humor. Nem por isso deixou de celebrar-se a Consoada da nossa terra: um pretexto para se comer (o tradicional prato de bacalhau com batatas e grelhos.. desidratados) e sobretudo para se beber (muito).

- Hoji, festa di brancu, noite di Natal, manga di sabe! - lembra-me um dos meus soldados africanos, enquanto ao longe a artilharia do Xime e de Massambo faz fogo de reconhecimento.

E eu fiquei a pensar neste tempo de silêncio, de cobardia e de cumplicidade. Mas também de raiva. Como o Manuel Alegre, eu gostaria de poder dizer neste dia, todos os dias: "Mesmo na noite mais triste / Em tempo de servidão / Há sempre alguém que resiste / Há sempre alguém que diz não".

__________

(1) O Grupo de Combate ficava instalado na famosa Missão do Sono (uma estrutura sanitária, criada no âmbito do Programa de Luta contra a Doença do Sono, e na altura desactivada, presumo que em consequência da guerra). Era um edigfício térreo, de tijolo de adobe, rachas de cibe e telhado de zinco (ou de colmo ?, já não me recordo). A nossa posição era mais do que conhecida pela população e pelos elementos simpatizantes do PAIGC que havia em Bambadincazinha e em Bambadinca. Em caso de ataque ao aquartelamento de Bambadinca (sede de batalhão), eramos um alvo fácil. Uma ou duas roquetadas punham-nos a todos fora de combate.

Guiné 63/74 - CCCLXXXVI: ´'Bom festa pa tudo dgenti' ou o Natal de Bissau de 52 (Mário Dias)


Guiné-Bissau > Bissau > 2001: A catedral de Bissau símbolo do catolicismo, num país em que as religiões (o Islão e o cristianismo) disputam almas e território.

© David J. Guimarães (2005)


1. Mensagem de L.G.:

Grande Mário ! És aquela máquina (não era assim que se dizia entre a rapaziada dos comandos ?). Devo dizer-te que apreciei muito o teu relato (inédito) sobre a Op Tridente, os teus longos dias na Ilha do Como. Vejo que a idade se tornou um homem sábio e ponderado.

Fico à espera da tua crítica aos escritos fantasiosos e propagandísticos que por aí circulam, de um lado (NT) e doutro (PAIGC). Dá-lhe neles!... A verdade (dos factos) acima de tudo.


2. Resposta do Mário:


Obrigado, Luis, pelas tuas palavras. É verdade que a idade nos torna mais sábios pois, como dizia a minha avó, "o diabo sabe muito não é por ser esperto; é por ser velho".

Quanto à minha prometida crítica aos relatos fantasiosos sobre a Guerra do Ultramar que por aí circulam, vou deixa-los para o início do próximo ano que já não está longe.

Não quero estragar com críticas, que terão forçosamente de ser muito contundentes e polémicas, esta época natalícia de paz e amor. ( embora, para mim, Natal seja todo o ano).

Entretanto, aqui vai, não propriamente uma estória, mas o que poderemos chamar uma crónica ou memória de como era celebradao o Natal pelos rapazes (nunca vi raparigas a participar) de Bissau.

Caros camaradas de tertúlia:

Tintim, tintim, tintim,… “Bom festa pa tudo dgenti. Prança Deus bó iangaça tudo quê que bó misti”

Traduzo, ou não é preciso? Então lá vai: Boas-festas para todos. Queira Deus que alcanceis tudo quanto desejais.

Mário Dias


3. O NATAL EM BISSAU, NOS TEMPOS “DO ANTIGAMENTE”


Tinha 15 anos no tempo já distante de 1952. Ia passar o meu primeiro Natal em Bissau e nem calculava, nesses meus verdes anos, quão verdadeiro é o ditado popular: “cada terra com seu uso; cada roca com seu fuso”.

Em casa de meus pais, reunida a família para celebrar a consoada, comecei a escutar na rua sons e cantigas que me eram de todo estranhas, bem diferentes das que, em Portugal, celebravam o Natal. Curioso, vim à varanda e deparei com um cenário que me encantou de tal forma que ainda hoje dele me recordo com muita saudade.

Toda a rua onde morava (ia dar à avenida principal, perto do cinema da UDIB) era um mar de luzinhas e de sincopados sons. Não resisti e fui ver. Não queria perder o espectáculo para mim novo e bem longe do que poderia imaginar pudesse existir.

Grupos de 3 ou 4 crianças, transportavam pequenas casas feitas com armações de finas tiras de cana ou material semelhante revestidas com papel de seda de várias cores. Com um coto de vela aceso no seu interior, resplandeciam como se de vitrais se tratasse. E como havia algumas tão bem construídas e belas!... A catedral de Bissau, a casa do governador, o edifício da Administração Civil, ou simples casas saídas da fértil fantasia do seu construtor.

Também havia quem desse asas à criatividade e aparecesse com navios, aviões e de quanto a imaginação fosse capaz.

Iam parando em cada casa, ora à porta quando situada ao rés do passeio, ora penetrando nos pequenos jardins das mais recuadas, e um deles, portador de uma garrafa vazia e de um pequeno ponteiro de ferro batia o ritmo: tintim, tintim. tintim…

Então, ao compasso que o “tocador de garrafa” ordenava, todos rompiam nesta cantilena: ( por sinal bem afinados)

S. José, sagrada nha Maria,
e quando foi, quando foi para Belém,
a resgatar o Menino de Jesus,
lá ao pé, lá ao pé da santa cruz.


(refrão)

Adoro mistério sobrinho da minha alma (1)
sobrinho da minha alma louva o Senhor.
Coração Santo todo ruminado
Todo vez em quando sempre a chorar
ai, ai, ai de vez em quando sempre a chorar,
ai, ai, ai de vez em quando sempre a chorar. (2)


O Angelino, Angelino já morreu,
e não queria confessar senão do Papa,
e nem do Papa nem do Bispo confessou
para nos dar boas-festas boa sorte. (3)


(repetiam o refrão)

Terminada a cantilena, dirigindo-se aos donos da casa, soltavam o inevitável “partim festa” (dê-nos as festas), querendo com isso pedir dinheiro ou algo que lhes fosse útil. Um deles estendia a mão para o donativo que sempre surgia e enquanto iam a caminho de outra casa algum perguntava:

- Kanto qui dá-bo? (quanto te deu)
- Dôs peso e meio.
- Esse i bom branco.

Desta maneira corriam todas as ruas de Bissau, visitando as casas ou abordando quem passava nas ruas:

- Partim festa.
- Kanto que dá-bo?

- Só cinco patacon (20 centavos)
- Bé… rijo mon (bolas…que avarento)

Intercalados, outros grupos diferentes surgiam. Eram os rapazes do “Kinkon”. Traziam também uma garrafa para marcar o ritmo, (tintim, tintim, tintim,) mas o “chamariz” apelativo ao “partim festa” era outro. Um boneco recortado em papelão, com braços e pernas articuladas por um engenhoso sistema de cordéis e montado numa vara, era transportado por um dos miúdos que o fazia movimentar ao ritmo da batida na garrafa “tintim, tintim, tintim”.
O portador do boneco atirava:

- Kinkon, kinkon.
Respondiam os outros em coro:
- Rabada di kon.
De novo o líder:
- Kinkon, Kinkon.
Resposta do coro:
- Nariz di Kon.
E sempre alternando, líder e coro iam acrescentando à cega-rega diversas partes do corpo:

Kinkon, kinkon,
Cabeça di Kon.
Kinkin, kinkon,
Orelha di Kon.


Por vezes, os mais ousados lançavam alusões a partes anatómicas menos próprias. Alguns dos companheiros riam-se, outros não gostavam e protestavam:
-Abó ka t’a burgonho (tu não tens vergonha).

Mantinham a cantilena o tempo necessário a que alguém viesse oferecer as desejadas “festas” e seguiam para outro lado.

Por ali me quedava embevecido, admirando estas encantadoras cenas tão inesperadas e atraentes.

E por ter ficado de tal forma apaixonado com tão extraordinária tradição, todos os anos, mal se aproximava o Natal, não continha em mim a ânsia da sua rápida chegada, para mais uma vez ver as crianças de Bissau, vindas do Chão Papel, Alto do Crim, Cupilon, Gã Beafada, Santa Luzia e outros bairros, inundarem as ruas com as suas casinhas luminosas ou com os “kinkons” articulados e garrafas para marcar o ritmo:

…tintim, tintim… São José, sagrada nha Maria…
…tintim, tintim… Kinkon, kinkon,… rabada di kon…


Certamente que muitos dos que passaram por Bissau assistiram a esta tradição e dela se devem recordar. Quanto a mim, já passaram mais de 50 anos e ela continua tão viva na minha memória que, quando chega o Natal, dou por mim a cantarolar aquela lenga-lenga e nos meus ouvidos ecoa o “tintim, tintim”. Involuntariamente sinto-me transportado ao passado e perante mim desfila, com toda nitidez e riqueza de pormenores, o encanto de cores e de sons que os rapazes de Bissau me proporcionavam.

Falando há tempos com um amigo que lá esteve recentemente, por ele fui informado que esse costume se perdeu e que as actuais gerações nem o conhecem. Se assim for, é pena. Nenhum povo deve esquecer e, menos ainda, menosprezar as sua tradições.

Caros amigos guineenses: Vamos restaurar esta tão bela tradição?

Torna-se talvez conveniente explicar o significado da cantiga que, como devem ter reparado, não é crioulo. É pretensamente cantada em português, com versos de cânticos religiosos que os rapazes, na sua ingenuidade deturparam.
_________

(1) “Adoro o mistério sobrinho da minha alma…” corresponde a: “Adoro o mistério sublime da minha alma…”

(2) “Coração santo todo ruminado, todo vez em quando, sempre a chorar” é do cântico “coração santo, tu reinarás, o nosso encanto, sempre serás”.

(3) Quanto a esta alusão ao tal Angelino, nunca consegui saber do que se trataria.

Guiné 63/74 - CCCLXXXVI: ´'Bom festa pa tudo dgenti' ou o Natal de Bissau de 52 (Mário Dias)


Guiné-Bissau > Bissau > 2001: A catedral de Bissau símbolo do catolicismo, num país em que as religiões (o Islão e o cristianismo) disputam almas e território.

© David J. Guimarães (2005)


1. Mensagem de L.G.:

Grande Mário ! És aquela máquina (não era assim que se dizia entre a rapaziada dos comandos ?). Devo dizer-te que apreciei muito o teu relato (inédito) sobre a Op Tridente, os teus longos dias na Ilha do Como. Vejo que a idade se tornou um homem sábio e ponderado.

Fico à espera da tua crítica aos escritos fantasiosos e propagandísticos que por aí circulam, de um lado (NT) e doutro (PAIGC). Dá-lhe neles!... A verdade (dos factos) acima de tudo.


2. Resposta do Mário:


Obrigado, Luis, pelas tuas palavras. É verdade que a idade nos torna mais sábios pois, como dizia a minha avó, "o diabo sabe muito não é por ser esperto; é por ser velho".

Quanto à minha prometida crítica aos relatos fantasiosos sobre a Guerra do Ultramar que por aí circulam, vou deixa-los para o início do próximo ano que já não está longe.

Não quero estragar com críticas, que terão forçosamente de ser muito contundentes e polémicas, esta época natalícia de paz e amor. ( embora, para mim, Natal seja todo o ano).

Entretanto, aqui vai, não propriamente uma estória, mas o que poderemos chamar uma crónica ou memória de como era celebradao o Natal pelos rapazes (nunca vi raparigas a participar) de Bissau.

Caros camaradas de tertúlia:

Tintim, tintim, tintim,… “Bom festa pa tudo dgenti. Prança Deus bó iangaça tudo quê que bó misti”

Traduzo, ou não é preciso? Então lá vai: Boas-festas para todos. Queira Deus que alcanceis tudo quanto desejais.

Mário Dias


3. O NATAL EM BISSAU, NOS TEMPOS “DO ANTIGAMENTE”


Tinha 15 anos no tempo já distante de 1952. Ia passar o meu primeiro Natal em Bissau e nem calculava, nesses meus verdes anos, quão verdadeiro é o ditado popular: “cada terra com seu uso; cada roca com seu fuso”.

Em casa de meus pais, reunida a família para celebrar a consoada, comecei a escutar na rua sons e cantigas que me eram de todo estranhas, bem diferentes das que, em Portugal, celebravam o Natal. Curioso, vim à varanda e deparei com um cenário que me encantou de tal forma que ainda hoje dele me recordo com muita saudade.

Toda a rua onde morava (ia dar à avenida principal, perto do cinema da UDIB) era um mar de luzinhas e de sincopados sons. Não resisti e fui ver. Não queria perder o espectáculo para mim novo e bem longe do que poderia imaginar pudesse existir.

Grupos de 3 ou 4 crianças, transportavam pequenas casas feitas com armações de finas tiras de cana ou material semelhante revestidas com papel de seda de várias cores. Com um coto de vela aceso no seu interior, resplandeciam como se de vitrais se tratasse. E como havia algumas tão bem construídas e belas!... A catedral de Bissau, a casa do governador, o edifício da Administração Civil, ou simples casas saídas da fértil fantasia do seu construtor.

Também havia quem desse asas à criatividade e aparecesse com navios, aviões e de quanto a imaginação fosse capaz.

Iam parando em cada casa, ora à porta quando situada ao rés do passeio, ora penetrando nos pequenos jardins das mais recuadas, e um deles, portador de uma garrafa vazia e de um pequeno ponteiro de ferro batia o ritmo: tintim, tintim. tintim…

Então, ao compasso que o “tocador de garrafa” ordenava, todos rompiam nesta cantilena: ( por sinal bem afinados)

S. José, sagrada nha Maria,
e quando foi, quando foi para Belém,
a resgatar o Menino de Jesus,
lá ao pé, lá ao pé da santa cruz.


(refrão)

Adoro mistério sobrinho da minha alma (1)
sobrinho da minha alma louva o Senhor.
Coração Santo todo ruminado
Todo vez em quando sempre a chorar
ai, ai, ai de vez em quando sempre a chorar,
ai, ai, ai de vez em quando sempre a chorar. (2)


O Angelino, Angelino já morreu,
e não queria confessar senão do Papa,
e nem do Papa nem do Bispo confessou
para nos dar boas-festas boa sorte. (3)


(repetiam o refrão)

Terminada a cantilena, dirigindo-se aos donos da casa, soltavam o inevitável “partim festa” (dê-nos as festas), querendo com isso pedir dinheiro ou algo que lhes fosse útil. Um deles estendia a mão para o donativo que sempre surgia e enquanto iam a caminho de outra casa algum perguntava:

- Kanto qui dá-bo? (quanto te deu)
- Dôs peso e meio.
- Esse i bom branco.

Desta maneira corriam todas as ruas de Bissau, visitando as casas ou abordando quem passava nas ruas:

- Partim festa.
- Kanto que dá-bo?

- Só cinco patacon (20 centavos)
- Bé… rijo mon (bolas…que avarento)

Intercalados, outros grupos diferentes surgiam. Eram os rapazes do “Kinkon”. Traziam também uma garrafa para marcar o ritmo, (tintim, tintim, tintim,) mas o “chamariz” apelativo ao “partim festa” era outro. Um boneco recortado em papelão, com braços e pernas articuladas por um engenhoso sistema de cordéis e montado numa vara, era transportado por um dos miúdos que o fazia movimentar ao ritmo da batida na garrafa “tintim, tintim, tintim”.
O portador do boneco atirava:

- Kinkon, kinkon.
Respondiam os outros em coro:
- Rabada di kon.
De novo o líder:
- Kinkon, Kinkon.
Resposta do coro:
- Nariz di Kon.
E sempre alternando, líder e coro iam acrescentando à cega-rega diversas partes do corpo:

Kinkon, kinkon,
Cabeça di Kon.
Kinkin, kinkon,
Orelha di Kon.


Por vezes, os mais ousados lançavam alusões a partes anatómicas menos próprias. Alguns dos companheiros riam-se, outros não gostavam e protestavam:
-Abó ka t’a burgonho (tu não tens vergonha).

Mantinham a cantilena o tempo necessário a que alguém viesse oferecer as desejadas “festas” e seguiam para outro lado.

Por ali me quedava embevecido, admirando estas encantadoras cenas tão inesperadas e atraentes.

E por ter ficado de tal forma apaixonado com tão extraordinária tradição, todos os anos, mal se aproximava o Natal, não continha em mim a ânsia da sua rápida chegada, para mais uma vez ver as crianças de Bissau, vindas do Chão Papel, Alto do Crim, Cupilon, Gã Beafada, Santa Luzia e outros bairros, inundarem as ruas com as suas casinhas luminosas ou com os “kinkons” articulados e garrafas para marcar o ritmo:

…tintim, tintim… São José, sagrada nha Maria…
…tintim, tintim… Kinkon, kinkon,… rabada di kon…


Certamente que muitos dos que passaram por Bissau assistiram a esta tradição e dela se devem recordar. Quanto a mim, já passaram mais de 50 anos e ela continua tão viva na minha memória que, quando chega o Natal, dou por mim a cantarolar aquela lenga-lenga e nos meus ouvidos ecoa o “tintim, tintim”. Involuntariamente sinto-me transportado ao passado e perante mim desfila, com toda nitidez e riqueza de pormenores, o encanto de cores e de sons que os rapazes de Bissau me proporcionavam.

Falando há tempos com um amigo que lá esteve recentemente, por ele fui informado que esse costume se perdeu e que as actuais gerações nem o conhecem. Se assim for, é pena. Nenhum povo deve esquecer e, menos ainda, menosprezar as sua tradições.

Caros amigos guineenses: Vamos restaurar esta tão bela tradição?

Torna-se talvez conveniente explicar o significado da cantiga que, como devem ter reparado, não é crioulo. É pretensamente cantada em português, com versos de cânticos religiosos que os rapazes, na sua ingenuidade deturparam.
_________

(1) “Adoro o mistério sobrinho da minha alma…” corresponde a: “Adoro o mistério sublime da minha alma…”

(2) “Coração santo todo ruminado, todo vez em quando, sempre a chorar” é do cântico “coração santo, tu reinarás, o nosso encanto, sempre serás”.

(3) Quanto a esta alusão ao tal Angelino, nunca consegui saber do que se trataria.

Guiné 63/74 - CCCLXXXV: O meu Natal de 1966 no QG, em Bissau (Virgínio Briote)

O meu último Natal na Guiné, no QG. Um luxo! vb


NATAL DE 1966,

Virgínio Briote

Uma eternidade aquele mês de Dezembro, nunca mais acabava.

Arrumações no quarto, ordem na papelada, cópias dos relatórios das operações, as centenas de fotos. Estas são para rasgar, isto onde foi, quem é este gajo, apontamentos ao lado, nomes dos camaradas atrás, e depois disto, para onde fui? Anotava o que se lembrava, folhas e folhas, dois anos quase, ali à sua frente, parecia um romance.

O aroma dela nas cartas, falta pouco, um mês só, não vou a Lisboa esperar-te, mas quando puseres os pés em terra, pensa em mim. E uma folha toda em branco, enorme, com tanto espaço para responder, sem ideias, nem sabia como começar.

Quero estar contigo, só contigo, sem mais ninguém por perto. Uma frase só numa carta. Não tenho mais para dizer, nem sei o que devo escrever.

O sono leve, intermitente, e as malas, o que vou levar? Uma chega, leva tudo. Já pensaste no que vais levar, o que é que vai contigo? Os livros, todos, uma muda de roupa civil, as coisas do quarto de banho. Os sapatos civis e militares, o camuflado, tudo no saco da tropa. Levaria vestida a farda amarela, a que envergara aquele tempo todo, as botas de cabedal e a boina. O resto fica tudo.

O despertar súbito, outra vez muito acordado, uma sensação de medo a aparecer, a tomar conta dele, uma vontade irreprimível de fugir, os pés fora da cama, o que vou fazer, para onde, a tremer como se estivesse com febre. No quarto de banho, frente ao espelho, este sou eu com as mãos na cara, isto vai passar, só falta um mês.

Tinha que ser, numa daquelas tardes entrou no cemitério. Foi directo à campa do Silva. As diligências que fizeram, até o dinheiro que receberam pelas armas que capturaram, reverteu todo para as urnas de chumbo, para as trasladações dos corpos dos camaradas mortos. Tantos trabalhos que ele e o capitão Leão tinham feito e o Silva ainda aqui está, à minha frente.

António Maria Alves da Silva. Nasceu em 17 de Janeiro de 1942. Faleceu em 6 de Março de 1966. Sem flores, sem nada.

A menina Teresa? É noutro lado. Lá em baixo, aquela do meio, sim, à beira daquela palmeira. Uma tampa de mármore. “A saudade dos teus Pais e Amigos. Maria Teresa Campos Correia. Nasceu na Praia em 27 de Maio de 1947. Faleceu em Bissau em 23 de Outubro de 1966. Paz à sua alma”. Um jarro simples com flores frescas.

A guerra via-a de muito longe, como se fosse um assunto que já não lhe dizia respeito. Mas mesmo assim, às vezes não podia esquivar-se aos relatos dos recém-chegados do mato.

A nova companhia de comandos andava por Tite. Raramente saíam com efectivos inferiores a dois grupos. Entretanto chegara outra companhia, de um jovem capitão, um tipo simpático. Então como é isto aqui, fresco, não? As zonas da guerrilha são todas iguais ou há diferenças? Antes que me esqueça, cumprimentos do Manilha, quando chegar a Lisboa contacte-o.
Praticamente inexpugnável o Sul, as NT confinadas aos aquartelamentos. Madina do Boé, um inferno, o Diem-Biem-Phu dos portugueses, o capitão de lá a dizer que só viviam dentro dos abrigos, cavados no solo, suportados por troncos e enchidos com cimento em barda. Passavam os dias a verem a vida em frente por entre os buracos. Abastecidos do ar, os aviões faziam malabarismos para não serem atingidos. Madina vai ser o primeiro aquartelamento a ser tomado pelo PAIGC, era um assunto arrumado, ouvia-se em muitas bocas.

Um Allouette mergulhou numa bolanha, na zona de Tite, não se sabia se fora atingido ou se fora um acidente. Foi montada uma autêntica batalha, daquelas que se vêem nos filmes. Fuzileiros e comandos a protegerem o heli, sob fogo cerrado. O coronel da base aérea, ele próprio a pilotar um Dakota teve que se impor para meter os páras dentro do avião. Largou-os na zona da batalha, os pára-quedas abriram-se e toda a gente parou o fogo, não acreditas, Gil?

Um mecânico francês que estava em Bissau a fazer a manutenção dos helis foi transportado para o local com o equipamento todo para ver se conseguia tirar o aparelho das águas da bolanha. E não é que conseguiu, pá?

O norte em brasa, Barro, Bigene, Guidage, o Oio nem se fala, o leste ainda assim-assim!

Natal à porta, as montras de Bissau mudaram a cara, muitos militares nas ruas a entrarem e a saírem das lojas. Devia estar a fazer um ano andava por Barro e Bigene, foi um fim de ano diferente.

No QG organizaram uma ceia de natal como devia ser, bacalhau e os doces todos. Estava lá toda a oficialada superior, Brigadeiro incluído.

Beberam todos muito bem, alguns demais, como acontece sempre. Depois, ao ar livre, viram um filme italiano, com o Gianni Morandi, um cantor novo que estava na moda, a fazer o papel principal dentro da farda de um soldado, o que é que havia de ser? Um apaixonado, aquele Morandi, tirava canções atrás de canções. Tantas que a maralha lá de trás, entusiasmada, começou a acompanhar a música, primeiro muito baixo, depois já se sabe como é, outros entusiastas também, até o Morandi se virou para eles, a cantar de lágrimas nos olhos. Uns alferes de merda, uns comunistóides, que é para isso que agora servem as universidades, dizia um major do cága-e-tosse voltado lá para trás!

No outro dia, corria pelas mesas da messe uma história meio esquisita. Lá para as tantas, um noctívago quando ia a entrar para o quarto, ouviu música de samba a vir da porta entreaberta de uma das vivendas. Quis dançar também, empurrou a porta e fechou-a logo. Deve ter visto mal, uns gajos todos nus a dançarem encostados uns aos outros, pode lá ser?

Se calhar o líquido que tinha nos olhos era álcool! Mas eu vi, o fulano encostado ao sicrano, o beltrano amarrado ao… Estás a ver, nem te lembras dos nomes dos gajos!

Guiné 63/74 - CCCLXXXV: O meu Natal de 1966 no QG, em Bissau (Virgínio Briote)

O meu último Natal na Guiné, no QG. Um luxo! vb


NATAL DE 1966,

Virgínio Briote

Uma eternidade aquele mês de Dezembro, nunca mais acabava.

Arrumações no quarto, ordem na papelada, cópias dos relatórios das operações, as centenas de fotos. Estas são para rasgar, isto onde foi, quem é este gajo, apontamentos ao lado, nomes dos camaradas atrás, e depois disto, para onde fui? Anotava o que se lembrava, folhas e folhas, dois anos quase, ali à sua frente, parecia um romance.

O aroma dela nas cartas, falta pouco, um mês só, não vou a Lisboa esperar-te, mas quando puseres os pés em terra, pensa em mim. E uma folha toda em branco, enorme, com tanto espaço para responder, sem ideias, nem sabia como começar.

Quero estar contigo, só contigo, sem mais ninguém por perto. Uma frase só numa carta. Não tenho mais para dizer, nem sei o que devo escrever.

O sono leve, intermitente, e as malas, o que vou levar? Uma chega, leva tudo. Já pensaste no que vais levar, o que é que vai contigo? Os livros, todos, uma muda de roupa civil, as coisas do quarto de banho. Os sapatos civis e militares, o camuflado, tudo no saco da tropa. Levaria vestida a farda amarela, a que envergara aquele tempo todo, as botas de cabedal e a boina. O resto fica tudo.

O despertar súbito, outra vez muito acordado, uma sensação de medo a aparecer, a tomar conta dele, uma vontade irreprimível de fugir, os pés fora da cama, o que vou fazer, para onde, a tremer como se estivesse com febre. No quarto de banho, frente ao espelho, este sou eu com as mãos na cara, isto vai passar, só falta um mês.

Tinha que ser, numa daquelas tardes entrou no cemitério. Foi directo à campa do Silva. As diligências que fizeram, até o dinheiro que receberam pelas armas que capturaram, reverteu todo para as urnas de chumbo, para as trasladações dos corpos dos camaradas mortos. Tantos trabalhos que ele e o capitão Leão tinham feito e o Silva ainda aqui está, à minha frente.

António Maria Alves da Silva. Nasceu em 17 de Janeiro de 1942. Faleceu em 6 de Março de 1966. Sem flores, sem nada.

A menina Teresa? É noutro lado. Lá em baixo, aquela do meio, sim, à beira daquela palmeira. Uma tampa de mármore. “A saudade dos teus Pais e Amigos. Maria Teresa Campos Correia. Nasceu na Praia em 27 de Maio de 1947. Faleceu em Bissau em 23 de Outubro de 1966. Paz à sua alma”. Um jarro simples com flores frescas.

A guerra via-a de muito longe, como se fosse um assunto que já não lhe dizia respeito. Mas mesmo assim, às vezes não podia esquivar-se aos relatos dos recém-chegados do mato.

A nova companhia de comandos andava por Tite. Raramente saíam com efectivos inferiores a dois grupos. Entretanto chegara outra companhia, de um jovem capitão, um tipo simpático. Então como é isto aqui, fresco, não? As zonas da guerrilha são todas iguais ou há diferenças? Antes que me esqueça, cumprimentos do Manilha, quando chegar a Lisboa contacte-o.
Praticamente inexpugnável o Sul, as NT confinadas aos aquartelamentos. Madina do Boé, um inferno, o Diem-Biem-Phu dos portugueses, o capitão de lá a dizer que só viviam dentro dos abrigos, cavados no solo, suportados por troncos e enchidos com cimento em barda. Passavam os dias a verem a vida em frente por entre os buracos. Abastecidos do ar, os aviões faziam malabarismos para não serem atingidos. Madina vai ser o primeiro aquartelamento a ser tomado pelo PAIGC, era um assunto arrumado, ouvia-se em muitas bocas.

Um Allouette mergulhou numa bolanha, na zona de Tite, não se sabia se fora atingido ou se fora um acidente. Foi montada uma autêntica batalha, daquelas que se vêem nos filmes. Fuzileiros e comandos a protegerem o heli, sob fogo cerrado. O coronel da base aérea, ele próprio a pilotar um Dakota teve que se impor para meter os páras dentro do avião. Largou-os na zona da batalha, os pára-quedas abriram-se e toda a gente parou o fogo, não acreditas, Gil?

Um mecânico francês que estava em Bissau a fazer a manutenção dos helis foi transportado para o local com o equipamento todo para ver se conseguia tirar o aparelho das águas da bolanha. E não é que conseguiu, pá?

O norte em brasa, Barro, Bigene, Guidage, o Oio nem se fala, o leste ainda assim-assim!

Natal à porta, as montras de Bissau mudaram a cara, muitos militares nas ruas a entrarem e a saírem das lojas. Devia estar a fazer um ano andava por Barro e Bigene, foi um fim de ano diferente.

No QG organizaram uma ceia de natal como devia ser, bacalhau e os doces todos. Estava lá toda a oficialada superior, Brigadeiro incluído.

Beberam todos muito bem, alguns demais, como acontece sempre. Depois, ao ar livre, viram um filme italiano, com o Gianni Morandi, um cantor novo que estava na moda, a fazer o papel principal dentro da farda de um soldado, o que é que havia de ser? Um apaixonado, aquele Morandi, tirava canções atrás de canções. Tantas que a maralha lá de trás, entusiasmada, começou a acompanhar a música, primeiro muito baixo, depois já se sabe como é, outros entusiastas também, até o Morandi se virou para eles, a cantar de lágrimas nos olhos. Uns alferes de merda, uns comunistóides, que é para isso que agora servem as universidades, dizia um major do cága-e-tosse voltado lá para trás!

No outro dia, corria pelas mesas da messe uma história meio esquisita. Lá para as tantas, um noctívago quando ia a entrar para o quarto, ouviu música de samba a vir da porta entreaberta de uma das vivendas. Quis dançar também, empurrou a porta e fechou-a logo. Deve ter visto mal, uns gajos todos nus a dançarem encostados uns aos outros, pode lá ser?

Se calhar o líquido que tinha nos olhos era álcool! Mas eu vi, o fulano encostado ao sicrano, o beltrano amarrado ao… Estás a ver, nem te lembras dos nomes dos gajos!

Guiné 63/4 - CCCLXXXIV: Comandos à procura do Amílcar (Virgínio Briote)

Guiné > Brá > 1966 > O Alf Miliciano Comando Briote eo seu grupo, prontos a entrar em acção. © Virgínio Briote (2005)


Texto do Virgínio Briote:


À PROCURA DO AMÍLCAR (1)


No quarto em Brá, o capitão Leão sentou-se numa das camas.

O Amílcar Cabral esteve até ontem no Oio em reunião de quadros, dois ou três dias.

Está a retirar, a caminho do Senegal, para os lados de Sano, presume-se. Certeza é que já passou, está a passar ou vai sair pela zona de Bigene, num dos caminhos para a fronteira.

Está tudo mobilizado na zona, Força Aérea também, todas as tropas disponíveis nos trilhos para a fronteira. Uma boa oportunidade para o apanhar, que tal?

Amanhã, às 5 no aeroporto, nos helis. Vou estar em cima no PCA.

O Alegre teve que se pôr a pé, meteu-se no jeep para Bissau à procura dos furriéis. Reunião com eles, grupo acordado, conferir o material, o costume. Pequeno-almoço na cantina às 4 e meia, grupo ao corrente dos pormenores.

Era apenas uma hipótese em mil na melhor delas e, se os encontrássemos, teríamos que contar com uma larga coluna do IN a servir de escolta.

Levantaram à hora, com a Guiné a acordar, dirigiram-se para norte, pouco mais de meia hora depois estavam próximos da fronteira, T6 a aparecerem, a brilharem ao Sol, vai estar um dia quente.

Do heli viram os trilhos, o tenente Caldas, o piloto, a dizer-lhe para escolher. Onde quer ficar, talvez ali, sim, aí mesmo, OK, vamos baixar mais.

Ouviu a comunicação com o resto da esquadrilha, preparar a formação, por cima das árvores, abrir portas, uma mão no cinto outra na arma, saltar!

Tiros dispersos para os helis, a virarem-se em formação, os T6 lentos, a picarem, fumos a sair das asas, estrondos, mais uma vez o costume, nada que não tivesse acontecido antes.

Reagrupados, correram a abrigar-se, vegetação rasteira, não tinha muito aonde. Os T6, no rádio, diziam estar um pequeno grupo para aí a um km, na direcção da fronteira, iam picar nessa direcção. Coluna por um, trilho fora, o sol em cima deles, pegadas frescas, mais nada a não ser estrondos ao longe, de vários lados.

Pouco tempo depois, o PCA num DO a comunicar que já não havia sinais de movimento, informações agora mesmo a confirmar a presença de Amílcar Cabral no Oio, e que terá passado a fronteira há já algumas horas, por outra zona, mais para leste.

Terá? E as suas instruções, quais são? De momento não pode adiantar mais nada? O que sugiro? Não, nós não, aqui de baixo a vista alcança pouco, e aí em cima vê alguma coisa? Nada? Para procurarmos aqui em baixo, onde, pode dizer? Não sabe, cá em baixo é que devemos saber, OK, terminado.

Uma conversa que já tivera antes, lembrou-se, mas com outro protagonista.

Sempre em frente, a caminho da fronteira, nem tempo tiveram para meter guias da zona, iam por ali como se estivessem a subir a Avenida da Liberdade. A boca seca, borbotos brancos de saliva nos cantos dos lábios colados, uma chuvada agora é que vinha a calhar, nem uma nuvem, um sol muito grande. Ao longe, no caminho para lá, pareceu-lhes ver uma sombra de árvores.

Gigante, arranque com a sua equipa, olho vivo, atenção. Os 5 a andar, parecia um bailado, uma eternidade! Desapareceram na mata, uns minutos. Um sinal deles, lá foi o resto do grupo abrigar-se do sol.

Uma plantação de abacaxi, a crescer meia selvagem. Cortaram o que lhes apeteceu, sentaram-se à sombra, limparam a saliva da boca com fatias cortadas com o punhal. O silêncio, um oásis!

Tinha passado pelo Bento (2) depois de jantar, as pernas doridas a pedirem descanso, mas a levarem-no para a Sé, rua acima, as luzes das janelas a apagarem-se.

____________

Notas de L.G.

(1) Vd. o post anterior >Guiné 63/74 - CCCLXXXIII: O que diziam os jornais estrangeiros (1): Le Nouvel Observateur no Morès

(2) Café Bento, ou a 5ª Rep, em Bissau, onde se juntavam os militares.

Guiné 63/4 - CCCLXXXIV: Comandos à procura do Amílcar (Virgínio Briote)

Guiné > Brá > 1966 > O Alf Miliciano Comando Briote eo seu grupo, prontos a entrar em acção. © Virgínio Briote (2005)


Texto do Virgínio Briote:


À PROCURA DO AMÍLCAR (1)


No quarto em Brá, o capitão Leão sentou-se numa das camas.

O Amílcar Cabral esteve até ontem no Oio em reunião de quadros, dois ou três dias.

Está a retirar, a caminho do Senegal, para os lados de Sano, presume-se. Certeza é que já passou, está a passar ou vai sair pela zona de Bigene, num dos caminhos para a fronteira.

Está tudo mobilizado na zona, Força Aérea também, todas as tropas disponíveis nos trilhos para a fronteira. Uma boa oportunidade para o apanhar, que tal?

Amanhã, às 5 no aeroporto, nos helis. Vou estar em cima no PCA.

O Alegre teve que se pôr a pé, meteu-se no jeep para Bissau à procura dos furriéis. Reunião com eles, grupo acordado, conferir o material, o costume. Pequeno-almoço na cantina às 4 e meia, grupo ao corrente dos pormenores.

Era apenas uma hipótese em mil na melhor delas e, se os encontrássemos, teríamos que contar com uma larga coluna do IN a servir de escolta.

Levantaram à hora, com a Guiné a acordar, dirigiram-se para norte, pouco mais de meia hora depois estavam próximos da fronteira, T6 a aparecerem, a brilharem ao Sol, vai estar um dia quente.

Do heli viram os trilhos, o tenente Caldas, o piloto, a dizer-lhe para escolher. Onde quer ficar, talvez ali, sim, aí mesmo, OK, vamos baixar mais.

Ouviu a comunicação com o resto da esquadrilha, preparar a formação, por cima das árvores, abrir portas, uma mão no cinto outra na arma, saltar!

Tiros dispersos para os helis, a virarem-se em formação, os T6 lentos, a picarem, fumos a sair das asas, estrondos, mais uma vez o costume, nada que não tivesse acontecido antes.

Reagrupados, correram a abrigar-se, vegetação rasteira, não tinha muito aonde. Os T6, no rádio, diziam estar um pequeno grupo para aí a um km, na direcção da fronteira, iam picar nessa direcção. Coluna por um, trilho fora, o sol em cima deles, pegadas frescas, mais nada a não ser estrondos ao longe, de vários lados.

Pouco tempo depois, o PCA num DO a comunicar que já não havia sinais de movimento, informações agora mesmo a confirmar a presença de Amílcar Cabral no Oio, e que terá passado a fronteira há já algumas horas, por outra zona, mais para leste.

Terá? E as suas instruções, quais são? De momento não pode adiantar mais nada? O que sugiro? Não, nós não, aqui de baixo a vista alcança pouco, e aí em cima vê alguma coisa? Nada? Para procurarmos aqui em baixo, onde, pode dizer? Não sabe, cá em baixo é que devemos saber, OK, terminado.

Uma conversa que já tivera antes, lembrou-se, mas com outro protagonista.

Sempre em frente, a caminho da fronteira, nem tempo tiveram para meter guias da zona, iam por ali como se estivessem a subir a Avenida da Liberdade. A boca seca, borbotos brancos de saliva nos cantos dos lábios colados, uma chuvada agora é que vinha a calhar, nem uma nuvem, um sol muito grande. Ao longe, no caminho para lá, pareceu-lhes ver uma sombra de árvores.

Gigante, arranque com a sua equipa, olho vivo, atenção. Os 5 a andar, parecia um bailado, uma eternidade! Desapareceram na mata, uns minutos. Um sinal deles, lá foi o resto do grupo abrigar-se do sol.

Uma plantação de abacaxi, a crescer meia selvagem. Cortaram o que lhes apeteceu, sentaram-se à sombra, limparam a saliva da boca com fatias cortadas com o punhal. O silêncio, um oásis!

Tinha passado pelo Bento (2) depois de jantar, as pernas doridas a pedirem descanso, mas a levarem-no para a Sé, rua acima, as luzes das janelas a apagarem-se.

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Notas de L.G.

(1) Vd. o post anterior >Guiné 63/74 - CCCLXXXIII: O que diziam os jornais estrangeiros (1): Le Nouvel Observateur no Morès

(2) Café Bento, ou a 5ª Rep, em Bissau, onde se juntavam os militares.

Guiné 63/74 - CCCLXXXIII: O que diziam os jornais estrangeiros (1): Le Nouvel Observateur no Morés (1966)

Gérard Chaliand: Com os Rebeldes da Guiné. Nouvelle Observateur (Paris) 13 de Julho de 1966. Notas de leitura de Virgínio Briote (ex-alferes miliciano, comando, Brá, 1865/66)


O autor começa por descrever um bombardeamento aéreo, algures no norte da Guiné, pela aviação portuguesa, com aviões americanos e alemães, o 11º num período de 12 dias e dizendo que, desta vez os portugueses iam em força porque havia uma razão: Amílcar Cabral encontrava-se naquela região.

Depois de descrever a visita de Cabral a uma aldeia da zona libertada, referindo uma concentração de 3.000 homens aclamando o dirigente do PAIGC, o jornalista prossegue:

"(...) Tudo se passou sem história. Em linha recta está-se a 80 kms de Bissau, a capital, mantida pelos portugueses que dispõem de 25.000 homens (...)..

"Em Abril de 1964, 3.000 portugueses apoiados pela aviação, não podiam, depois de 65 dias de combate, retomar a ilha do Como (1), no sul do país. Este pequeno país de 36.000 kms e de 800.000 habitantes é a zona mais activa de África (...)

"Os aviões picam antes de metralhar. Depois é o som espesso das bombas. Durante a noite um informador preveniu um dos postos portugueses da região. Os portugueses sabem certamente que o dirigente se encontra na zona. Bombardeiam com intensidade durante toda a manhã. No entanto, não haverá senão 7 mortos e 5 feridos em Djagali (2). Dissimulados num pequeno bosque - um grupo de 15 – esperamos que tudo se acalme. Muito perto fica a base de Maqué (2), onde há mais de 100 guerrilheiros. No dia da nossa chegada, depois de 40 kms de marcha, Cabral passou-os em revista. Com uniformes de caqui, correctos, quase todos calçados com sandálias de plástico – a propaganda portuguesa descreve-os nus – têm morteiros, bazucas e metralhadoras pesadas. Pertencem às FARP (Forças Armadas Revolucionárias do Povo). Nas aldeias existem aldeões sem uniforme, mas armados de espingardas de modelos recentes.

"Nesta base realizou-se, durante 2 dias, a reunião dos quadros do norte do país. Uma grande casa onde a luz penetra. Duas mesas rodeadas de cadeiras de palha. Trabalha-se com magnetofone, pois evita-se assim a papelada (...).

"O acolhimento, na dezena de aldeias que visitámos, foi sempre caloroso. Numa delas ofereceram-nos nozes de cola e sal, às vezes um frango e vinho de palma. Os camponeses conhecem os combatentes pelo próprio nome; às vezes, estes últimos são até da própria aldeia. Por toda a parte os camponeses elegeram os comités do Partido: 3 homens e 2 mulheres, que estão em ligação com o comissário político que comanda cada grupo de combatentes.

“ - No tempo dos Portugueses - diz um responsável de uma aldeia - existia o trabalho forçado, o imposto, os castigos de palmatória e o chicote. Há já dois anos que nunca mais vimos Portugueses por aqui" - (...) Este ano o Partido vai fazer armazéns para o povo. Trocar-se-à o arroz e o amendoim pelos tecidos (...)".

E depois de uma entrevista com um desertor português, em que este refere a vida impossível nos estacionamentos e o mau trato dado aos soldados, o autor da reportagem aborda a assistência médica e educativa nas zonas sob controlo do PAIGC:

"Na base, dois médicos cirurgiões tratam os feridos, quando os há – havia uns 10 quando por lá passámos. A mesa de operações é rudimentar, mas os medicamentos não faltam. Enfermeiras formadas no estrangeiro, preparam por sua vez, no próprio local, jovens auxiliares. Ensina-se igualmente a ler. Duzentos alunos, rapazes e raparigas, estudam em Morés. Têm entre os 7 e os 15 anos. Divididos em secções, já todos sabem ler e escrever correctamente o português. Professores-combatentes dão-lhes 4 horas de aula por dia. Os exercícios fazem-se num quadro suspenso numa árvore. Há exames trimestrais e semestrais para transferência de secção. No bom tempo da Paz Lusitana tinham os portugueses escolarizado 2.000 crianças. Em três anos o PAIGC escolarizou 4.000, sempre a conduzir a guerra (...).

" - As razões do sucesso da nossa luta - diz Chico, comissário político do Norte - estão no facto de dois anos antes de rebentar, Cabral ter formado centenas de quadros em Conakry e de ter enviado dezenas deles para fazer o trabalho de explicação e mobilização nas aldeias. Quando começou a luta não tivemos que nos esconder dos Portugueses e dos camponeses, pois estes últimos informavam-nos sobre todos os movimentos das tropas. Depois velou-se sempre para que não surgissem atritos entre os combatentes e a população" (...).

E o artigo termina assim:

"Esta manhã, enquanto bombardeavam Djagali, os Portugueses(3) mandaram uns 50 homens de helicóptero até à zona da fronteira. Foram interceptados por combatentes do PAIGC; retrocederam, depois de algumas horas de combate, deixando vários mortos no terreno. Quando chegámos, a estrada estava livre. A estação das chuvas vai começar. Para poderem ver, os aviões descem abaixo dos 1.000 metros. É a esta altitude que os guerrilheiros já abateram 3 aparelhos no último ano. Além do mais chegaram armas pesadas.

____________

Notas de L.G.:


(1) Vd. a crónica do Mário Dias: pots de 15 de Dezembro > Guiné 63/74 - CCCLXXII: Op Tridente (Ilha do Como, 1964): Parte I (Mário Dias).

(2) Região do Oio > Jagali entre Bissorã e o Rio Cahceu. Maqué fia entre Bissorã e Olossato. Vd. mapa geral da Guiné (1961)

(3)
"O meu grupo esteve numa acção nesta zona, na data indicada. Ver a seguir aquilo que escrevi na altura (VB)": Guiné 63/74 - CCCLXXXIV: Comandos à procura do Amílcar.

Guiné 63/74 - CCCLXXXIII: O que diziam os jornais estrangeiros (1): Le Nouvel Observateur no Morés (1966)

Gérard Chaliand: Com os Rebeldes da Guiné. Nouvelle Observateur (Paris) 13 de Julho de 1966. Notas de leitura de Virgínio Briote (ex-alferes miliciano, comando, Brá, 1865/66)


O autor começa por descrever um bombardeamento aéreo, algures no norte da Guiné, pela aviação portuguesa, com aviões americanos e alemães, o 11º num período de 12 dias e dizendo que, desta vez os portugueses iam em força porque havia uma razão: Amílcar Cabral encontrava-se naquela região.

Depois de descrever a visita de Cabral a uma aldeia da zona libertada, referindo uma concentração de 3.000 homens aclamando o dirigente do PAIGC, o jornalista prossegue:

"(...) Tudo se passou sem história. Em linha recta está-se a 80 kms de Bissau, a capital, mantida pelos portugueses que dispõem de 25.000 homens (...)..

"Em Abril de 1964, 3.000 portugueses apoiados pela aviação, não podiam, depois de 65 dias de combate, retomar a ilha do Como (1), no sul do país. Este pequeno país de 36.000 kms e de 800.000 habitantes é a zona mais activa de África (...)

"Os aviões picam antes de metralhar. Depois é o som espesso das bombas. Durante a noite um informador preveniu um dos postos portugueses da região. Os portugueses sabem certamente que o dirigente se encontra na zona. Bombardeiam com intensidade durante toda a manhã. No entanto, não haverá senão 7 mortos e 5 feridos em Djagali (2). Dissimulados num pequeno bosque - um grupo de 15 – esperamos que tudo se acalme. Muito perto fica a base de Maqué (2), onde há mais de 100 guerrilheiros. No dia da nossa chegada, depois de 40 kms de marcha, Cabral passou-os em revista. Com uniformes de caqui, correctos, quase todos calçados com sandálias de plástico – a propaganda portuguesa descreve-os nus – têm morteiros, bazucas e metralhadoras pesadas. Pertencem às FARP (Forças Armadas Revolucionárias do Povo). Nas aldeias existem aldeões sem uniforme, mas armados de espingardas de modelos recentes.

"Nesta base realizou-se, durante 2 dias, a reunião dos quadros do norte do país. Uma grande casa onde a luz penetra. Duas mesas rodeadas de cadeiras de palha. Trabalha-se com magnetofone, pois evita-se assim a papelada (...).

"O acolhimento, na dezena de aldeias que visitámos, foi sempre caloroso. Numa delas ofereceram-nos nozes de cola e sal, às vezes um frango e vinho de palma. Os camponeses conhecem os combatentes pelo próprio nome; às vezes, estes últimos são até da própria aldeia. Por toda a parte os camponeses elegeram os comités do Partido: 3 homens e 2 mulheres, que estão em ligação com o comissário político que comanda cada grupo de combatentes.

“ - No tempo dos Portugueses - diz um responsável de uma aldeia - existia o trabalho forçado, o imposto, os castigos de palmatória e o chicote. Há já dois anos que nunca mais vimos Portugueses por aqui" - (...) Este ano o Partido vai fazer armazéns para o povo. Trocar-se-à o arroz e o amendoim pelos tecidos (...)".

E depois de uma entrevista com um desertor português, em que este refere a vida impossível nos estacionamentos e o mau trato dado aos soldados, o autor da reportagem aborda a assistência médica e educativa nas zonas sob controlo do PAIGC:

"Na base, dois médicos cirurgiões tratam os feridos, quando os há – havia uns 10 quando por lá passámos. A mesa de operações é rudimentar, mas os medicamentos não faltam. Enfermeiras formadas no estrangeiro, preparam por sua vez, no próprio local, jovens auxiliares. Ensina-se igualmente a ler. Duzentos alunos, rapazes e raparigas, estudam em Morés. Têm entre os 7 e os 15 anos. Divididos em secções, já todos sabem ler e escrever correctamente o português. Professores-combatentes dão-lhes 4 horas de aula por dia. Os exercícios fazem-se num quadro suspenso numa árvore. Há exames trimestrais e semestrais para transferência de secção. No bom tempo da Paz Lusitana tinham os portugueses escolarizado 2.000 crianças. Em três anos o PAIGC escolarizou 4.000, sempre a conduzir a guerra (...).

" - As razões do sucesso da nossa luta - diz Chico, comissário político do Norte - estão no facto de dois anos antes de rebentar, Cabral ter formado centenas de quadros em Conakry e de ter enviado dezenas deles para fazer o trabalho de explicação e mobilização nas aldeias. Quando começou a luta não tivemos que nos esconder dos Portugueses e dos camponeses, pois estes últimos informavam-nos sobre todos os movimentos das tropas. Depois velou-se sempre para que não surgissem atritos entre os combatentes e a população" (...).

E o artigo termina assim:

"Esta manhã, enquanto bombardeavam Djagali, os Portugueses(3) mandaram uns 50 homens de helicóptero até à zona da fronteira. Foram interceptados por combatentes do PAIGC; retrocederam, depois de algumas horas de combate, deixando vários mortos no terreno. Quando chegámos, a estrada estava livre. A estação das chuvas vai começar. Para poderem ver, os aviões descem abaixo dos 1.000 metros. É a esta altitude que os guerrilheiros já abateram 3 aparelhos no último ano. Além do mais chegaram armas pesadas.

____________

Notas de L.G.:


(1) Vd. a crónica do Mário Dias: pots de 15 de Dezembro > Guiné 63/74 - CCCLXXII: Op Tridente (Ilha do Como, 1964): Parte I (Mário Dias).

(2) Região do Oio > Jagali entre Bissorã e o Rio Cahceu. Maqué fia entre Bissorã e Olossato. Vd. mapa geral da Guiné (1961)

(3)
"O meu grupo esteve numa acção nesta zona, na data indicada. Ver a seguir aquilo que escrevi na altura (VB)": Guiné 63/74 - CCCLXXXIV: Comandos à procura do Amílcar.

17 dezembro 2005

Guiné 63/74 - CCCLXXXII: Vocês não tenham medo, não fujam, sou o Cabral (Fá, 1969/71)

1. Através do Humberto Reis, reencontrei o Jorge Cabral que é do nosso tempo de Guiné. Falei com ele pelo telefone, soube do crescente interesse com que ele tem acompanhado o desenvolvimento da nossa tertúlia e lido as nossas estórias...

O Jorge era, para mim, o mais paisano dos militares que eu conheci na Guiné: alferes miliciano, foi o comandante do Pel Caç Nat 63, afecto ao Sector L1 (Bambadinca) da Zona Leste, tendo estado em Fá Mandinga e em Missirá (1969/71).

Em Fá não se limitava a ser um heterodoxo representante do exército colonial, actor e crítico ao mesmo tempo. Era também homem grande, pai, patrão, chefe de tabanca, conselheiro, amigo do PAIGC, poeta, antropólogo, feiticeiro, cherno, médico, sexólogo, advogado e não sei que mais. Um verdadeiro Lawrence da Guiné. Alguns dos seus amigos e companheiros de Bambadinca (aonde ele ia com frequência matar a sede) chegaram a recear que ele ficasse completamente cafrealizado!...

Até ao dia em que chegou o circo dos Comandos Africanos (1): montaram tenda em Fá Mandinga e daí só zarparam para a misteriosa Op Mar Verde ... Vendo o caso mal parado, e não querendo correr o risco de ser enforcado num candeeiro público em Conacri, o Jorge lá conseguiu mexer os seus pauzinhos e ser destacado para a Missirá, mais a norte, embora se tratasse de um destacamento mais exposto às morteiradas e roquetadas dos camaradas do PAIGC... O que para o Jorge não era problema, já que era o único de todos nós a quem o PAIGG tinha respeito. Desde o famoso dia em que foi atrás deles, na bolanha, a apaziguá-los e a tranquilizá-los:
- Vocês não tenham medo, não fujam, sou o Cabral!

Ele um dia há-de contar essa estória para gáudio (e cultura militar) da nossa tertúlia... O convite está feito e ele irá aparecer por aqui, um belo dia destes... Mais: irá explicar-nos como é que foi parar, já em finais de comissão, em 1971, a Madina/Belel, sem ter sido convidado... Julgo que lá foi beber uns copos com os camaradas do PAIGC, aproveitando uma boleia dos paraquedistas!...

2. Outro Jorge, mas este Santos, que é um dos principais fornecedores desta tertúlia, tinha-me mandado há tempos, em 7 de Julho passado, uma mensagem com poemas, em anexo, sobre a Guiné. Eu não consigo dar vazão a tudo o que ele me manda: não há nada sobre a Guerra Colonial que lhe escape. Vasculhando nos arquivos da minha caixa de correio, não é que vou dar com um poema do Jorge Cabral, com data de 1970, escrito em Missirá ?

É claro que não resisto a publicá-lo. Com isso mato dois coelhos de um só tiro: dou a conhecer esta faceta de poeta que muitos dos seus camaradas de Bambadinca não conheciam; e, por outro, divulgo também a APOIAR - Associação de Apoio aos Ex-Combatentes Vítima de Stress de Guerra(2). Esta associação tem uma revista, bimestral, sendo o último número editado o 36º, de Maio-Junho de 2005. Esta associação médico, psicológico e jurídico aos seus associados, ex-combatentes da guerra colonial.

O belíssimo poema do Jorge Cabral aqui vai:

O HELICÓPTERO

Pelo ar lento que aquece
Um pássaro de ferro e aço
Leva o morto que apodrece
Na boca mais um abraço

A gente fica a pensar
Mas mais um morto que interessa
Já vêm mais pelo mar
Vêm muitos e depressa

A gente pensa
Mas fica com o dedo no gatilho
Na garganta um nó que pica
Na preta o ventre com o filho.

Jorge Cabral – Missirá, Guiné – 1970
In Jornal “Apoiar”. 23 (Jan/Mar 2002)

(Selecção de Jorge Santos, membro da nossa tertúlia, e autor da página sobre A Guerra Colonial.

3. O Jorge Cabral é hoje um ilustre advogado na nossa praça e professor universitário, director do Instituto de Criminologia da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.

Para que os nossos tertulianos tenham uma ideia mais completa desta personalidade fascinante, dou-vos a conhecer uma entrevista que ele deu a dois dos seus alunos (3), como testemunha presencial de uma acto de mutilação genital feminina (MGF) na Guiné, em 1969. Pelo contexto e época, terá sido em Fá Mandinga. O Jorge Cabral deverá ser um dos raros homens (e brancos) a assistir a um controverso ritual de passagem como este, ainda profundamente enraízado na cultura de certos povos africanos. O problema da MGF já foi aqui abordado neste Blogue (4).


Entrevista ao Prof. Dr. Jorge Cabral

p: Quando é que assistiu à excisão?

r: Em 1969

p: Foi na Guiné Bissau?

r: Sim

p: Porque é que quis assistir?

r: Por curiosidade antropológica. Eu fui sempre uma pessoa extremamente curiosa. O problema da colonização portuguesa, que é o problema de qualquer colonização, é que o colonizador não fez um esforço para perceber a cultura do colonizado. A colonização é isto: partir da base que a nossa cultura é que é.

Neste sentido, já que eu estava numa posição privilegiada, procurei compreender alguma coisa dessa cultura e, obviamente, a excisão fazia parte dela. Também procurei compreender o tipo de famílias, as relações familiares, perceber porque é que alguns cortavam as cabeças a outros, qual o significado de cortarem a cabeça e pô-la nos pântanos... procurei entender, embora não seja antropólogo.

Eu nessa altura nunca tinha ouvido falar da excisão... em 69.
Foi uma experiência sobretudo traumatizante. Se calhar tenho o trauma da excisão!

p: Mas foi lá de férias, estava de passagem...?

r: Não, não! eu estava na guerra!

p: Qual foi o tipo de excisão a que assistiu?

r: Foi a mais simples, foi a ablação do clítoris.

p: Em que condições foi feita?

r: As condições eram más... mas estavam várias miúdas para fazer a cerimónia. A cerimónia só tinha mulheres, a rapariga... era uma miudita de onze anos talvez... estava amarrada, era evidente que gritava, gritava bastante e era uma mulher mais velha que fez o corte para a ablação do clítoris.

p: Com que objecto?

r: Com uma faca e sem quaisquer condições de higiene, aliás, como era feita a circuncisão dos miúdos. Era feita com uma faca ou com uma lâmina.

p: Como é que foi feita a abordagem, como é que se proporcionou a hipótese de ver uma excisão?
r: Eu estava numa situação muito privilegiada, primeiro porque eu era chefe daquilo tudo, segundo porque estava só com soldados africanos e com população africana, cada soldado tinha as suas três mulheres, não sei quantos filhos, de maneira que eu era, pelo menos a um nível simbólico, uma espécie de chefe. Nesse sentido, por curiosidade, falei com mulheres, não falei com homens, e disse que estaria interessado. Primeiro negaram, disseram que os homens não podiam assistir e eu lá expliquei, lá entreguei dinheiro e lá consegui.

A cerimónia não é feita na aldeia, é feita fora da aldeia.

p: Porquê?

r: Porque mesmo entre eles é dotado de algum secretismo, é uma cerimónia que tem alguma coisa de religioso por isso mesmo não é feita na aldeia, é feita na floresta.
A rapariga não sabia como era. Há simultaneamente medo mas algum orgulho porque significa uma passagem para uma idade adulta, por isso há essa duplicidade, penso eu, ao nível das miúdas que têm medo, é evidente, porque as outras também já contaram como foi e que vão sofrer muito, mas ao mesmo tempo... se calhar é como usar o primeiro sutiã. Há efectivamente um certo orgulho.

p: Qual é a posição dos homens em relação à excisão?

r: Os homens concordam até porque eles não aceitam para mulher alguém que não seja excisada.

Dentro da própria comunidade uma rapariga que não tenha passado pela excisão, dificilmente arranjará marido. Uma rapariga que não tenha feito a excisão é uma criança por isso elas submetem-se para evitarem a exclusão.

Não podemos generalizar e falar da mulher africana porque mesmo na Guiné não são todas as etnias que fazem a excisão. Normalmente são os islamizados. Há excisões muito mais gravosas principalmente na Somália, na Etiópia.

Há outro tipo de excisão, já agora. É uma excisão que se faz em Angola, eu ainda estou a começar a estudar isso, é uma excisão ao contrário, serve para mulher ter mais prazer durante o acto sexual. Ainda não vi nada disso escrito, li isso num romance. Já perguntei a várias angolanas e elas não sabem nada mas é uma excisão para dar mais prazer à mulher, não é como a outra. Não é a ablação do clítoris, é como um “desembaraçar” do clítoris e também é feita na pré-adolescência, aos 12, 13 anos.

p: A maior parte das pessoas é contra esta prática porque é uma violação dos direitos humanos...

r: Sim, embora isso hoje seja muito discutível há uma posição radical que diz que isto ofende os direitos humanos mas há vozes autorizadas que a defendem e eu já tive a oportunidade de assistir a uma conferência, creio que há três anos, em Valência, em que um professor dizia “O que é que nós temos a ver com isso?! Isso é um valor cultural, porque é que nós estamos sempre a ver de uma perspectiva europeia, europocêntrica o problema?”

Por isso há vozes que discordam desta luta contra a mutilação sexual.

p: Mas hoje em dia há organizações e outras pessoas k trabalham no terreno, no sentido de dissuadirem as mulheres a praticar este tipo de ritual.

r: Pode ter o efeito contrário, não é?!, se é proibido...

P: O isolamento destas tribos torna muito mais difícil o acesso a qualquer alteração na mentalidade destas pessoas?

R: Será muito difícil. Se nós defendêssemos sempre os mesmo valores culturais não havia evolução. É precisamente a mesma coisa, os chineses partiam os pés às crianças, os aztecas apertavam os olhos, o meu avô tomava banho uma vez por mês... quer dizer esses são valores culturais. As coisas alteram-se.

p: O que é que a lei portuguesa diz acerca disto?

r: A lei portuguesa não prevê a excisão. Se aparecer algum caso será um crime contra a integridade física grave, se aparecer algum caso.

Já me contaram um caso que apareceu num hospital em que os próprios médicos nunca tinham ouvido falar da excisão e não foi levantado nenhum processo crime. Os médicos apenas verificaram que havia uma ablação mas não sabiam mais nada.

p: A quem seria aplicada a medida?

r: Neste caso seria contra a mãe. Ela é que é responsável porque leva a criança e, também, contra quem fez isso. É evidente que os casos vão aparecer. Será inevitável que qualquer dia apareça um caso destes, em França já foram julgados alguns casos.

p: Quer dizer que não estamos preparados...

r: Claro que não! É natural que uma miúda apanhe uma infecção qualquer, vá para a Estefânia e... é natural! O que o médico devia fazer era participar imediatamente mas para isso é preciso que os médicos saibam o que é a excisão e que se pratica em Portugal .


_____________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 11 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - CIII: Comandos africanos: do Pilão a Conacri

Já na altura eu tinha escrito o seguinte parágrafo, referindo o nome do Cabral:

"Um dos comandos africanos mais tristemente famosos era o furriel Uloma, filho de régulo, da zona de Varela, e um dos raros felupes que vestiam a farda do exército português, segundo se dizia no meu tempo. Uloma era uma espécie de coqueluche ou mscote da companhia, não só pelo seu aspecto físico de orangotango (sem ofensa para os felupes e para os orangotangos) como sobretduo pelos seus estranhos rituais de guerra e pela sua macabra colecção de cabeças cortadas ao inimigo, conservadas em álcool (trinta e duas, ao que parece, segundo os cálculos do Carlos França, que terá privado com ele, em Fá).

"Essas práticas culturais de bom selvagem teriam a ver com as reminiscências do canibalismo ritual entre os felupes – como me tentava, em vão, explicar, em jeito de antropólogo, com uma garrafa de uísque na mão, o meu amigo Cabral, poeta, antifascista, calejado nas lutas estudantis, antimilitarista, filho de militar de carreira, alferes miliciano, tão dilacerado como eu pela brutal irracionalidade daquela guerra, e que privava como os comandos africanos na sua qualidade de comandante do Pelotão de Caçadores Nativos local, o PEL CAÇ NAT 63".

(2) Sede da Associaão Apoiar:

Rua C, Lote 10, Loja 1.10 - Piso 1
Bairro da Liberdade
1070-023 Lisboa~
Telefones: 213 870 174 / 213 808 000
E-mail: apoiar@mail.telepac.pt

(3) Mafalda Sofia Félix dos Santos; Paulo César Lino Belchior de Matos - Mutilação genital feminina. Trabalho apresentado na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias no Curso de Pós-Graduação em Criminologia. s/d.

(4) Vd. post de 4 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - XII: O silêncio dos tugas face à MGF (Mutilação Genital Feminina)

Guiné 63/74 - CCCLXXXII: Vocês não tenham medo, não fujam, sou o Cabral (Fá, 1969/71)

1. Através do Humberto Reis, reencontrei o Jorge Cabral que é do nosso tempo de Guiné. Falei com ele pelo telefone, soube do crescente interesse com que ele tem acompanhado o desenvolvimento da nossa tertúlia e lido as nossas estórias...

O Jorge era, para mim, o mais paisano dos militares que eu conheci na Guiné: alferes miliciano, foi o comandante do Pel Caç Nat 63, afecto ao Sector L1 (Bambadinca) da Zona Leste, tendo estado em Fá Mandinga e em Missirá (1969/71).

Em Fá não se limitava a ser um heterodoxo representante do exército colonial, actor e crítico ao mesmo tempo. Era também homem grande, pai, patrão, chefe de tabanca, conselheiro, amigo do PAIGC, poeta, antropólogo, feiticeiro, cherno, médico, sexólogo, advogado e não sei que mais. Um verdadeiro Lawrence da Guiné. Alguns dos seus amigos e companheiros de Bambadinca (aonde ele ia com frequência matar a sede) chegaram a recear que ele ficasse completamente cafrealizado!...

Até ao dia em que chegou o circo dos Comandos Africanos (1): montaram tenda em Fá Mandinga e daí só zarparam para a misteriosa Op Mar Verde ... Vendo o caso mal parado, e não querendo correr o risco de ser enforcado num candeeiro público em Conacri, o Jorge lá conseguiu mexer os seus pauzinhos e ser destacado para a Missirá, mais a norte, embora se tratasse de um destacamento mais exposto às morteiradas e roquetadas dos camaradas do PAIGC... O que para o Jorge não era problema, já que era o único de todos nós a quem o PAIGG tinha respeito. Desde o famoso dia em que foi atrás deles, na bolanha, a apaziguá-los e a tranquilizá-los:
- Vocês não tenham medo, não fujam, sou o Cabral!

Ele um dia há-de contar essa estória para gáudio (e cultura militar) da nossa tertúlia... O convite está feito e ele irá aparecer por aqui, um belo dia destes... Mais: irá explicar-nos como é que foi parar, já em finais de comissão, em 1971, a Madina/Belel, sem ter sido convidado... Julgo que lá foi beber uns copos com os camaradas do PAIGC, aproveitando uma boleia dos paraquedistas!...

2. Outro Jorge, mas este Santos, que é um dos principais fornecedores desta tertúlia, tinha-me mandado há tempos, em 7 de Julho passado, uma mensagem com poemas, em anexo, sobre a Guiné. Eu não consigo dar vazão a tudo o que ele me manda: não há nada sobre a Guerra Colonial que lhe escape. Vasculhando nos arquivos da minha caixa de correio, não é que vou dar com um poema do Jorge Cabral, com data de 1970, escrito em Missirá ?

É claro que não resisto a publicá-lo. Com isso mato dois coelhos de um só tiro: dou a conhecer esta faceta de poeta que muitos dos seus camaradas de Bambadinca não conheciam; e, por outro, divulgo também a APOIAR - Associação de Apoio aos Ex-Combatentes Vítima de Stress de Guerra(2). Esta associação tem uma revista, bimestral, sendo o último número editado o 36º, de Maio-Junho de 2005. Esta associação médico, psicológico e jurídico aos seus associados, ex-combatentes da guerra colonial.

O belíssimo poema do Jorge Cabral aqui vai:

O HELICÓPTERO

Pelo ar lento que aquece
Um pássaro de ferro e aço
Leva o morto que apodrece
Na boca mais um abraço

A gente fica a pensar
Mas mais um morto que interessa
Já vêm mais pelo mar
Vêm muitos e depressa

A gente pensa
Mas fica com o dedo no gatilho
Na garganta um nó que pica
Na preta o ventre com o filho.

Jorge Cabral – Missirá, Guiné – 1970
In Jornal “Apoiar”. 23 (Jan/Mar 2002)

(Selecção de Jorge Santos, membro da nossa tertúlia, e autor da página sobre A Guerra Colonial.

3. O Jorge Cabral é hoje um ilustre advogado na nossa praça e professor universitário, director do Instituto de Criminologia da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.

Para que os nossos tertulianos tenham uma ideia mais completa desta personalidade fascinante, dou-vos a conhecer uma entrevista que ele deu a dois dos seus alunos (3), como testemunha presencial de uma acto de mutilação genital feminina (MGF) na Guiné, em 1969. Pelo contexto e época, terá sido em Fá Mandinga. O Jorge Cabral deverá ser um dos raros homens (e brancos) a assistir a um controverso ritual de passagem como este, ainda profundamente enraízado na cultura de certos povos africanos. O problema da MGF já foi aqui abordado neste Blogue (4).


Entrevista ao Prof. Dr. Jorge Cabral

p: Quando é que assistiu à excisão?

r: Em 1969

p: Foi na Guiné Bissau?

r: Sim

p: Porque é que quis assistir?

r: Por curiosidade antropológica. Eu fui sempre uma pessoa extremamente curiosa. O problema da colonização portuguesa, que é o problema de qualquer colonização, é que o colonizador não fez um esforço para perceber a cultura do colonizado. A colonização é isto: partir da base que a nossa cultura é que é.

Neste sentido, já que eu estava numa posição privilegiada, procurei compreender alguma coisa dessa cultura e, obviamente, a excisão fazia parte dela. Também procurei compreender o tipo de famílias, as relações familiares, perceber porque é que alguns cortavam as cabeças a outros, qual o significado de cortarem a cabeça e pô-la nos pântanos... procurei entender, embora não seja antropólogo.

Eu nessa altura nunca tinha ouvido falar da excisão... em 69.
Foi uma experiência sobretudo traumatizante. Se calhar tenho o trauma da excisão!

p: Mas foi lá de férias, estava de passagem...?

r: Não, não! eu estava na guerra!

p: Qual foi o tipo de excisão a que assistiu?

r: Foi a mais simples, foi a ablação do clítoris.

p: Em que condições foi feita?

r: As condições eram más... mas estavam várias miúdas para fazer a cerimónia. A cerimónia só tinha mulheres, a rapariga... era uma miudita de onze anos talvez... estava amarrada, era evidente que gritava, gritava bastante e era uma mulher mais velha que fez o corte para a ablação do clítoris.

p: Com que objecto?

r: Com uma faca e sem quaisquer condições de higiene, aliás, como era feita a circuncisão dos miúdos. Era feita com uma faca ou com uma lâmina.

p: Como é que foi feita a abordagem, como é que se proporcionou a hipótese de ver uma excisão?
r: Eu estava numa situação muito privilegiada, primeiro porque eu era chefe daquilo tudo, segundo porque estava só com soldados africanos e com população africana, cada soldado tinha as suas três mulheres, não sei quantos filhos, de maneira que eu era, pelo menos a um nível simbólico, uma espécie de chefe. Nesse sentido, por curiosidade, falei com mulheres, não falei com homens, e disse que estaria interessado. Primeiro negaram, disseram que os homens não podiam assistir e eu lá expliquei, lá entreguei dinheiro e lá consegui.

A cerimónia não é feita na aldeia, é feita fora da aldeia.

p: Porquê?

r: Porque mesmo entre eles é dotado de algum secretismo, é uma cerimónia que tem alguma coisa de religioso por isso mesmo não é feita na aldeia, é feita na floresta.
A rapariga não sabia como era. Há simultaneamente medo mas algum orgulho porque significa uma passagem para uma idade adulta, por isso há essa duplicidade, penso eu, ao nível das miúdas que têm medo, é evidente, porque as outras também já contaram como foi e que vão sofrer muito, mas ao mesmo tempo... se calhar é como usar o primeiro sutiã. Há efectivamente um certo orgulho.

p: Qual é a posição dos homens em relação à excisão?

r: Os homens concordam até porque eles não aceitam para mulher alguém que não seja excisada.

Dentro da própria comunidade uma rapariga que não tenha passado pela excisão, dificilmente arranjará marido. Uma rapariga que não tenha feito a excisão é uma criança por isso elas submetem-se para evitarem a exclusão.

Não podemos generalizar e falar da mulher africana porque mesmo na Guiné não são todas as etnias que fazem a excisão. Normalmente são os islamizados. Há excisões muito mais gravosas principalmente na Somália, na Etiópia.

Há outro tipo de excisão, já agora. É uma excisão que se faz em Angola, eu ainda estou a começar a estudar isso, é uma excisão ao contrário, serve para mulher ter mais prazer durante o acto sexual. Ainda não vi nada disso escrito, li isso num romance. Já perguntei a várias angolanas e elas não sabem nada mas é uma excisão para dar mais prazer à mulher, não é como a outra. Não é a ablação do clítoris, é como um “desembaraçar” do clítoris e também é feita na pré-adolescência, aos 12, 13 anos.

p: A maior parte das pessoas é contra esta prática porque é uma violação dos direitos humanos...

r: Sim, embora isso hoje seja muito discutível há uma posição radical que diz que isto ofende os direitos humanos mas há vozes autorizadas que a defendem e eu já tive a oportunidade de assistir a uma conferência, creio que há três anos, em Valência, em que um professor dizia “O que é que nós temos a ver com isso?! Isso é um valor cultural, porque é que nós estamos sempre a ver de uma perspectiva europeia, europocêntrica o problema?”

Por isso há vozes que discordam desta luta contra a mutilação sexual.

p: Mas hoje em dia há organizações e outras pessoas k trabalham no terreno, no sentido de dissuadirem as mulheres a praticar este tipo de ritual.

r: Pode ter o efeito contrário, não é?!, se é proibido...

P: O isolamento destas tribos torna muito mais difícil o acesso a qualquer alteração na mentalidade destas pessoas?

R: Será muito difícil. Se nós defendêssemos sempre os mesmo valores culturais não havia evolução. É precisamente a mesma coisa, os chineses partiam os pés às crianças, os aztecas apertavam os olhos, o meu avô tomava banho uma vez por mês... quer dizer esses são valores culturais. As coisas alteram-se.

p: O que é que a lei portuguesa diz acerca disto?

r: A lei portuguesa não prevê a excisão. Se aparecer algum caso será um crime contra a integridade física grave, se aparecer algum caso.

Já me contaram um caso que apareceu num hospital em que os próprios médicos nunca tinham ouvido falar da excisão e não foi levantado nenhum processo crime. Os médicos apenas verificaram que havia uma ablação mas não sabiam mais nada.

p: A quem seria aplicada a medida?

r: Neste caso seria contra a mãe. Ela é que é responsável porque leva a criança e, também, contra quem fez isso. É evidente que os casos vão aparecer. Será inevitável que qualquer dia apareça um caso destes, em França já foram julgados alguns casos.

p: Quer dizer que não estamos preparados...

r: Claro que não! É natural que uma miúda apanhe uma infecção qualquer, vá para a Estefânia e... é natural! O que o médico devia fazer era participar imediatamente mas para isso é preciso que os médicos saibam o que é a excisão e que se pratica em Portugal .


_____________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 11 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - CIII: Comandos africanos: do Pilão a Conacri

Já na altura eu tinha escrito o seguinte parágrafo, referindo o nome do Cabral:

"Um dos comandos africanos mais tristemente famosos era o furriel Uloma, filho de régulo, da zona de Varela, e um dos raros felupes que vestiam a farda do exército português, segundo se dizia no meu tempo. Uloma era uma espécie de coqueluche ou mscote da companhia, não só pelo seu aspecto físico de orangotango (sem ofensa para os felupes e para os orangotangos) como sobretduo pelos seus estranhos rituais de guerra e pela sua macabra colecção de cabeças cortadas ao inimigo, conservadas em álcool (trinta e duas, ao que parece, segundo os cálculos do Carlos França, que terá privado com ele, em Fá).

"Essas práticas culturais de bom selvagem teriam a ver com as reminiscências do canibalismo ritual entre os felupes – como me tentava, em vão, explicar, em jeito de antropólogo, com uma garrafa de uísque na mão, o meu amigo Cabral, poeta, antifascista, calejado nas lutas estudantis, antimilitarista, filho de militar de carreira, alferes miliciano, tão dilacerado como eu pela brutal irracionalidade daquela guerra, e que privava como os comandos africanos na sua qualidade de comandante do Pelotão de Caçadores Nativos local, o PEL CAÇ NAT 63".

(2) Sede da Associaão Apoiar:

Rua C, Lote 10, Loja 1.10 - Piso 1
Bairro da Liberdade
1070-023 Lisboa~
Telefones: 213 870 174 / 213 808 000
E-mail: apoiar@mail.telepac.pt

(3) Mafalda Sofia Félix dos Santos; Paulo César Lino Belchior de Matos - Mutilação genital feminina. Trabalho apresentado na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias no Curso de Pós-Graduação em Criminologia. s/d.

(4) Vd. post de 4 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - XII: O silêncio dos tugas face à MGF (Mutilação Genital Feminina)

Guiné 63/74 - CCCLXXXI: Poesia de Cabo Verde (Aguinaldo Fonseca)

Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo >

"O belo porto de mar de São Vicente; ao centro o ilhéu que se confunde com um barco. Outubro de 1941".

Luís Henriques (ex-1º Cabo nº 188/41 da 3ª Companhia do 1º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria nº 5, que esteve em Cabo Verde, Ilha de São Vicente, no Lazareto, 1941/43).


© Luís Graça (2005)



Selecção do nosso camarada Jorge Santos

Aguinaldo Fonseca (1)


POVO

É sempre a mesma história repetida.
É sempre o mesmo lodo, a mesma fome
É sempre a mesma vida mal vivida
De quem amassa o pão mas não o come.

É sempre a mesma angústia desgrenhada
De quem naufraga em terra olhando o oceano;
O rubro desespero, a mão crispada,
O sonho a desfolhar-se… e o desengano.

É sempre este horizonte de fuligem,
É sempre este arranhar em duro chão,
Com fúria até ao centro da vertigem
Em busca da raiz da salvação.


In “Boletim Mensagem”, Ano III, nº 1, Janeiro de 1960


TERRA MORTA

Os meus irmãos, na terra estéril,
Seguem aos tombos pela vida fora,
Tontos de sol
Fartos de vento,
E sobre as ondas
Nas claras noites de lua cheia
Bóiam miragens
De verdes prados e extensos bosques.

Os meus irmãos na terra triste
(O mar em volta, o céu por cima)
Arrastam longas canções de bruma
Que sobem no ar buscando céus
E depois caem de asas fechadas
Desamparados.

Os meus irmãos na terra morta
Exposta ao vento, ao sol, às aves
Olham o mar
Olham as nuvens…
- Ficam à espera
De mãos vazias.

In “Mensagem – Casa dos Estudantes do Império, 2º Vol. ”, ALAC Editor, Outubro 1996.

_____

(1) Há um texto de Amílcar Cabral, originalmente publicado em 1952, onde se faz referência ao jovem poeta Aguinaldo Fonseca:


"A Poesia Cabo-Verdiana abre os olhos, descobre-se a si própria, - e é o romper duma nova aurora. É a claridade que surge, dando forma às coisas reais, apontando o mar, as rochas escalvadas, o povo a debater-se nas crises, a luta do cabo-verdiano "anónimo", enfim, a terra e o povo de Cabo Verde. Por isso, o caracter intencional - e felizmente intencional - do nome da revista que revela essa profunda modificação na Poesia Cabo-Verdiana: Claridade (...).

"As mensagens da Claridade e da Certeza têm de ser transcendidas. O sonho de evasão, o desejo de "querer partir", não pode eternizar-se. O sonho tem de ser outro, e aos Poetas - os que continuam de mãos dadas com o povo, de pés fincados na terra e participando no drama comum - compete cantá-lo. O cabo-verdiano, de olhos bem abertos, compreenderá o seu próprio sonho, descobrirá a sua própria voz, na mensagem dos Poetas.

"Parece que António Nunes e Aguinaldo Fonseca estão na vanguarda dessa nova Poesia. Não se conformam com a estagnação. A prisão não está no Mar.

"O primeiro, auscultando a terra e o povo, sonha com um "Amanhã" diferente, que antevê possível. E descreve a alteração que há de operar-se: "Em vez dos campos sem nada..." E profetiza, para a terra cabo-verdiana, a "vivificação da Vida".

"O segundo exprime, em toda a sua grandeza, o "naufrágio em terra" do povo a que pertence. Retrata os "homens calados" sofrendo a "dor da Terra-Mãe...num abandono de não ter remédio". Dos homens, "presos na cadeia da desesperança". E o seu sonho, não é de "querer partir": é de
Outra terra dentro da nossa terra".

Amílcar Cabral > Apontamentos sobre a Poesia Caboverdiana (*)

* Apareceu pela primeira vez em Boletim de Propaganda e Informação III, 28 (01/01/1952). Reproduzido em Obras Escolhidas de Amílcar Cabral, Vol. I: A Arma da Teoria - Unidade e Luta. Lisboa: Seara Nova. 1976. 25-29.

Guiné 63/74 - CCCLXXXI: Poesia de Cabo Verde (Aguinaldo Fonseca)

Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo >

"O belo porto de mar de São Vicente; ao centro o ilhéu que se confunde com um barco. Outubro de 1941".

Luís Henriques (ex-1º Cabo nº 188/41 da 3ª Companhia do 1º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria nº 5, que esteve em Cabo Verde, Ilha de São Vicente, no Lazareto, 1941/43).


© Luís Graça (2005)



Selecção do nosso camarada Jorge Santos

Aguinaldo Fonseca (1)


POVO

É sempre a mesma história repetida.
É sempre o mesmo lodo, a mesma fome
É sempre a mesma vida mal vivida
De quem amassa o pão mas não o come.

É sempre a mesma angústia desgrenhada
De quem naufraga em terra olhando o oceano;
O rubro desespero, a mão crispada,
O sonho a desfolhar-se… e o desengano.

É sempre este horizonte de fuligem,
É sempre este arranhar em duro chão,
Com fúria até ao centro da vertigem
Em busca da raiz da salvação.


In “Boletim Mensagem”, Ano III, nº 1, Janeiro de 1960


TERRA MORTA

Os meus irmãos, na terra estéril,
Seguem aos tombos pela vida fora,
Tontos de sol
Fartos de vento,
E sobre as ondas
Nas claras noites de lua cheia
Bóiam miragens
De verdes prados e extensos bosques.

Os meus irmãos na terra triste
(O mar em volta, o céu por cima)
Arrastam longas canções de bruma
Que sobem no ar buscando céus
E depois caem de asas fechadas
Desamparados.

Os meus irmãos na terra morta
Exposta ao vento, ao sol, às aves
Olham o mar
Olham as nuvens…
- Ficam à espera
De mãos vazias.

In “Mensagem – Casa dos Estudantes do Império, 2º Vol. ”, ALAC Editor, Outubro 1996.

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(1) Há um texto de Amílcar Cabral, originalmente publicado em 1952, onde se faz referência ao jovem poeta Aguinaldo Fonseca:


"A Poesia Cabo-Verdiana abre os olhos, descobre-se a si própria, - e é o romper duma nova aurora. É a claridade que surge, dando forma às coisas reais, apontando o mar, as rochas escalvadas, o povo a debater-se nas crises, a luta do cabo-verdiano "anónimo", enfim, a terra e o povo de Cabo Verde. Por isso, o caracter intencional - e felizmente intencional - do nome da revista que revela essa profunda modificação na Poesia Cabo-Verdiana: Claridade (...).

"As mensagens da Claridade e da Certeza têm de ser transcendidas. O sonho de evasão, o desejo de "querer partir", não pode eternizar-se. O sonho tem de ser outro, e aos Poetas - os que continuam de mãos dadas com o povo, de pés fincados na terra e participando no drama comum - compete cantá-lo. O cabo-verdiano, de olhos bem abertos, compreenderá o seu próprio sonho, descobrirá a sua própria voz, na mensagem dos Poetas.

"Parece que António Nunes e Aguinaldo Fonseca estão na vanguarda dessa nova Poesia. Não se conformam com a estagnação. A prisão não está no Mar.

"O primeiro, auscultando a terra e o povo, sonha com um "Amanhã" diferente, que antevê possível. E descreve a alteração que há de operar-se: "Em vez dos campos sem nada..." E profetiza, para a terra cabo-verdiana, a "vivificação da Vida".

"O segundo exprime, em toda a sua grandeza, o "naufrágio em terra" do povo a que pertence. Retrata os "homens calados" sofrendo a "dor da Terra-Mãe...num abandono de não ter remédio". Dos homens, "presos na cadeia da desesperança". E o seu sonho, não é de "querer partir": é de
Outra terra dentro da nossa terra".

Amílcar Cabral > Apontamentos sobre a Poesia Caboverdiana (*)

* Apareceu pela primeira vez em Boletim de Propaganda e Informação III, 28 (01/01/1952). Reproduzido em Obras Escolhidas de Amílcar Cabral, Vol. I: A Arma da Teoria - Unidade e Luta. Lisboa: Seara Nova. 1976. 25-29.