17 março 2005

Blogantologia(s) - XXIV: Bons augúrios para a governança da coisa pública

1. Era costume, no tempo dos romanos, desejar-se bons augúrios aos novos governantes. Augúrio (do latim, auguriu) significava a arte de advinhação e interpretação do futuro mediante o canto e o voo dos pássaros. Em termos mais genéricos, significa, hoje, nas línguas latinas, sinal, indício ou presságio de coisa futura. Não sou augure nem conheço, pessoalmente, nenhum. Nem menos o Velho do Restelo. E ainda bem por que, como lá diz o provérbio, se um augure visse outro augure, não deixaria de rir.

Nem por isso deixo de desejar os bons augúrios ao novo governo, em geral, e ao novo ministro da saúde, em particular. Não rezo por eles por que não sou religioso. Mas gostaria que fizessem boas obras e boas acções. Que deixassem obra feita. Por mor de todos nós, como se diz em terras de Entre Douro e Minho. Por mor de nós e dos hão-de vir atrás de nós.

Por mor do meu país e da coisa pública.

Por mor da boa governação da coisa pública.
Por mor da saúde de todos nós.
Por mor do nosso futuro.
Por mor da nossa memória futura.
Por mor dos vindouros e dos perdedores.
Por mor dos historiadores que escreverão a história
Em nome dos vencedores.
Por mor dos que vierem depois de eu fechar a porta.
Por mor dos guardiões da Torre do Tombo.
Por mor de quem de direito.
Por mor dos pagantes.
E dos não-pagantes.
Por mor dos actores e dos espectadores.
Por mor dos marginais-secantes.
Por mor do mercado e da bolsa de Lisboa
E da casa forte do Banco de Portugal.
Por mor do meu querido Portugal S.A.
Que não quer dizer Portugal Sociedade Anal.
Por mor dos loucos e dos menos loucos.
Por mor dos poetas que têm um pouco de gestores.
E dos gestores que têm um pouco de médicos.
Mas também dos médicos que têm um pouco de loucos.
Por mor dos economistas que gostariam de governar o mundo.
Este mundo e não o outro.
Sem esquecer os políticos que gostariam de mandar
Nos economistas, nos gestores, nos médicos e nos doentes.
Por mor daqueles dos políticos que falam em nome do povo.
E daqueles que gostariam de mandar no povo.
Por mor do povo de esquerda, de centro e de direita.
(Abaixo a unicidade nacional!).
Por mor dos da lista de espera que desesperam de esperar.
Por mor dos que vão morrer esta noite
Nos Hospitais S.A. e nos Hospitais S.P.A.
Por mor dos que foram hoje ao serviço de atendimento permanente
Do meu centro de saúde
E que deram com a porta na cara.
Por mor dos cirurgiões que afiam a faca
À espera dos da lista de espera.
Por mor dos doentes agudos.
E dos doentes crónicos.
E dos hipocondríacos.
E dos doentes da saúde.
Por mor da saúde doente e das doenças saudáveis.
Por mor da saúde emprezarializada.
Por mor das vítimas da guerra, dos terramotos, dos tsunamis,
Da fome, da peste e do bispo da nossa terra, de que Deus nos livre!
Por mor dos simples, dos utentes, dos pacientes, dos clientes,
Dos beneficiários, dos misericordiosos e das crianças.
Por mor das catorze obras de misericórida, sete espirituais e sete corporais.
Por mor dos meus (con)cidadãos, os remediados e os ricos.
Por mor dos pobres, dos tristes, dos descrentes, dos desempregados,
Dos velhos, dos sós, dos esquecidos e dos desconsolados
Da minha rua, do meu bairro, da minha cidade, do meu país.
Sem esquecer os apátridas e os que perderam a identidade.
Por mor daqueles de quem um dia se disse que eram os bem-aventurados
porque deles seriam o reino dos céus, amen.
Por mor do meu fornecedor da revista cais
no semáforo da esquina da rua da alegria com a avenida da liberdade.
Por mor da minha médica de família que conta os dias
que lhe faltam para a reforma.
Por mor do médico do gabinete ao lado
que se enganou no curso que queria tirar
e que está a atender os gajos da propaganda médica.
Por mor do boticário do meu bairro.
Por mor do meu barbeiro-sangrador.
Por mor de mim e de ti, meu amor.
Por mor do meu psicanalista, do meu psicoterapeuta,
do meu confessor e do meu curandeiro.
Por mor do meu médico do trabalho
E do meu técnico de higiene e segurança do trabalho.
Por mor do ergonomista que está a desenhar
o meu sistema técnico e organizacional de trabalho.
Por mor dos habitantes da minha casa inteligente do futuro.
Por da minha cartomante preferida.
Por mor dos mais distraídos.
Dos votantes.
Das debutantes.
Dos amantes.
Por mor do meu patrão
Para que Deus lhe conserve a saúde e a riqueza.
E lhe aumente o empreendedorismo e a capacidade de inovação.
Por mor dos meus dinossauros de estimação.
Por mor dos médicos da noite.
Dos médicos na noite.
Da minha querida Médis.
Por mor dos mercadores de sonho
Que trazem com eles a peste onírica e bubónica.
Por mor do meu rico seguro contra todos os riscos.
Por mor do Estado, que se quer menos Estado e melhor Estado.
Por mor dos contínuos, porteiros e seguranças do Estado.
Mais os cobradores de impostos.
E os pagadores de promessas.
E os guarda-costas das figuras de Estado.
Por mor do Estado de todos nós, sem pompa nem circunstância.
Por mor da nossa jovem democracia.
Por mor dos gestores e administradores dos serviços de saúde.
Por mor dos que passam as noites e os dias a pensar
Na reforma do serviço nacional de saúde.
Por mor dos reformadores de sistemas.
De todos os reformadores.
E das vítimas das reformas.
Dos reformados e aposentados.
Por mor da nossa frágil saúde.
E dos vírus que hão-de vir.
E do mal gálico.
E do mal italiano.
E do mal espanhol.
E do mal americano.
E do mal chinês.
E do mal português.
E do Ribeiro Sanches
Que curava os males de amor
Na Rússia Imperial.
O amor em carne viva.
Por mor das doenças emergentes e re-emergentes
Que nos querem matar.
Por mor das galinhas
Eda gripe dos comedores de galinhas.
Por mor dos codificadores de grupos de dignósticos homogéneos de doença.
Por mor dos marcadores biológicos do Homo Sapiens Sapiens.
E sobretudo dos grandes arquitectos do genoma humano.
Por mor do meu antepassado troglodita
Que era recolector-caçador
E que quando almoçava nunca sabia onde e o quê iria jantar.
Por mor do meu Professor de economia
Que me lembra que não há almoços grátis.
Nem entradas grátis
No céu, no purgatório ou no inferno.
Por mor dos actuais e futuros ministros da saúde.
Por mor dos ministros do futuro.
Por mor da utopia do futuro sem ministros.
E até dos ministros sem futuro.
Por mor dos servidores do povo,
Para que nunca esqueçam que ministro vem do latim minus, pequeno.
Para que os deuses iluminem os nossos governantes
E os pescadores que andam perdidos no mar alto.
E os pecadores dos sete pecados mortais.
Por mor dos nossos governantes e dos seus governados.
Para que o canto e o voo dos pássaros lhes sejam favoráveis.
Por mor do Zé Portuga.
Do Zé Manel.
Do Zé, simplesmente.
E para que, eu, Blogador, me confesse
E nunca perca de vista
O essencial.
Por mor da minha terra, Portugal.

Blogantologia(s) - XXIV: Bons augúrios para a governança da coisa pública

1. Era costume, no tempo dos romanos, desejar-se bons augúrios aos novos governantes. Augúrio (do latim, auguriu) significava a arte de advinhação e interpretação do futuro mediante o canto e o voo dos pássaros. Em termos mais genéricos, significa, hoje, nas línguas latinas, sinal, indício ou presságio de coisa futura. Não sou augure nem conheço, pessoalmente, nenhum. Nem menos o Velho do Restelo. E ainda bem por que, como lá diz o provérbio, se um augure visse outro augure, não deixaria de rir.

Nem por isso deixo de desejar os bons augúrios ao novo governo, em geral, e ao novo ministro da saúde, em particular. Não rezo por eles por que não sou religioso. Mas gostaria que fizessem boas obras e boas acções. Que deixassem obra feita. Por mor de todos nós, como se diz em terras de Entre Douro e Minho. Por mor de nós e dos hão-de vir atrás de nós.

Por mor do meu país e da coisa pública.

Por mor da boa governação da coisa pública.
Por mor da saúde de todos nós.
Por mor do nosso futuro.
Por mor da nossa memória futura.
Por mor dos vindouros e dos perdedores.
Por mor dos historiadores que escreverão a história
Em nome dos vencedores.
Por mor dos que vierem depois de eu fechar a porta.
Por mor dos guardiões da Torre do Tombo.
Por mor de quem de direito.
Por mor dos pagantes.
E dos não-pagantes.
Por mor dos actores e dos espectadores.
Por mor dos marginais-secantes.
Por mor do mercado e da bolsa de Lisboa
E da casa forte do Banco de Portugal.
Por mor do meu querido Portugal S.A.
Que não quer dizer Portugal Sociedade Anal.
Por mor dos loucos e dos menos loucos.
Por mor dos poetas que têm um pouco de gestores.
E dos gestores que têm um pouco de médicos.
Mas também dos médicos que têm um pouco de loucos.
Por mor dos economistas que gostariam de governar o mundo.
Este mundo e não o outro.
Sem esquecer os políticos que gostariam de mandar
Nos economistas, nos gestores, nos médicos e nos doentes.
Por mor daqueles dos políticos que falam em nome do povo.
E daqueles que gostariam de mandar no povo.
Por mor do povo de esquerda, de centro e de direita.
(Abaixo a unicidade nacional!).
Por mor dos da lista de espera que desesperam de esperar.
Por mor dos que vão morrer esta noite
Nos Hospitais S.A. e nos Hospitais S.P.A.
Por mor dos que foram hoje ao serviço de atendimento permanente
Do meu centro de saúde
E que deram com a porta na cara.
Por mor dos cirurgiões que afiam a faca
À espera dos da lista de espera.
Por mor dos doentes agudos.
E dos doentes crónicos.
E dos hipocondríacos.
E dos doentes da saúde.
Por mor da saúde doente e das doenças saudáveis.
Por mor da saúde emprezarializada.
Por mor das vítimas da guerra, dos terramotos, dos tsunamis,
Da fome, da peste e do bispo da nossa terra, de que Deus nos livre!
Por mor dos simples, dos utentes, dos pacientes, dos clientes,
Dos beneficiários, dos misericordiosos e das crianças.
Por mor das catorze obras de misericórida, sete espirituais e sete corporais.
Por mor dos meus (con)cidadãos, os remediados e os ricos.
Por mor dos pobres, dos tristes, dos descrentes, dos desempregados,
Dos velhos, dos sós, dos esquecidos e dos desconsolados
Da minha rua, do meu bairro, da minha cidade, do meu país.
Sem esquecer os apátridas e os que perderam a identidade.
Por mor daqueles de quem um dia se disse que eram os bem-aventurados
porque deles seriam o reino dos céus, amen.
Por mor do meu fornecedor da revista cais
no semáforo da esquina da rua da alegria com a avenida da liberdade.
Por mor da minha médica de família que conta os dias
que lhe faltam para a reforma.
Por mor do médico do gabinete ao lado
que se enganou no curso que queria tirar
e que está a atender os gajos da propaganda médica.
Por mor do boticário do meu bairro.
Por mor do meu barbeiro-sangrador.
Por mor de mim e de ti, meu amor.
Por mor do meu psicanalista, do meu psicoterapeuta,
do meu confessor e do meu curandeiro.
Por mor do meu médico do trabalho
E do meu técnico de higiene e segurança do trabalho.
Por mor do ergonomista que está a desenhar
o meu sistema técnico e organizacional de trabalho.
Por mor dos habitantes da minha casa inteligente do futuro.
Por da minha cartomante preferida.
Por mor dos mais distraídos.
Dos votantes.
Das debutantes.
Dos amantes.
Por mor do meu patrão
Para que Deus lhe conserve a saúde e a riqueza.
E lhe aumente o empreendedorismo e a capacidade de inovação.
Por mor dos meus dinossauros de estimação.
Por mor dos médicos da noite.
Dos médicos na noite.
Da minha querida Médis.
Por mor dos mercadores de sonho
Que trazem com eles a peste onírica e bubónica.
Por mor do meu rico seguro contra todos os riscos.
Por mor do Estado, que se quer menos Estado e melhor Estado.
Por mor dos contínuos, porteiros e seguranças do Estado.
Mais os cobradores de impostos.
E os pagadores de promessas.
E os guarda-costas das figuras de Estado.
Por mor do Estado de todos nós, sem pompa nem circunstância.
Por mor da nossa jovem democracia.
Por mor dos gestores e administradores dos serviços de saúde.
Por mor dos que passam as noites e os dias a pensar
Na reforma do serviço nacional de saúde.
Por mor dos reformadores de sistemas.
De todos os reformadores.
E das vítimas das reformas.
Dos reformados e aposentados.
Por mor da nossa frágil saúde.
E dos vírus que hão-de vir.
E do mal gálico.
E do mal italiano.
E do mal espanhol.
E do mal americano.
E do mal chinês.
E do mal português.
E do Ribeiro Sanches
Que curava os males de amor
Na Rússia Imperial.
O amor em carne viva.
Por mor das doenças emergentes e re-emergentes
Que nos querem matar.
Por mor das galinhas
Eda gripe dos comedores de galinhas.
Por mor dos codificadores de grupos de dignósticos homogéneos de doença.
Por mor dos marcadores biológicos do Homo Sapiens Sapiens.
E sobretudo dos grandes arquitectos do genoma humano.
Por mor do meu antepassado troglodita
Que era recolector-caçador
E que quando almoçava nunca sabia onde e o quê iria jantar.
Por mor do meu Professor de economia
Que me lembra que não há almoços grátis.
Nem entradas grátis
No céu, no purgatório ou no inferno.
Por mor dos actuais e futuros ministros da saúde.
Por mor dos ministros do futuro.
Por mor da utopia do futuro sem ministros.
E até dos ministros sem futuro.
Por mor dos servidores do povo,
Para que nunca esqueçam que ministro vem do latim minus, pequeno.
Para que os deuses iluminem os nossos governantes
E os pescadores que andam perdidos no mar alto.
E os pecadores dos sete pecados mortais.
Por mor dos nossos governantes e dos seus governados.
Para que o canto e o voo dos pássaros lhes sejam favoráveis.
Por mor do Zé Portuga.
Do Zé Manel.
Do Zé, simplesmente.
E para que, eu, Blogador, me confesse
E nunca perca de vista
O essencial.
Por mor da minha terra, Portugal.

15 março 2005

Em Lisboa nem sangria má nem purga boa - VI: Até daqui a quatro anos, António!

1.Correia de Campos despediu-se dos seus leitores do Público no dia em que tomou posse do XVII Governo Constitucional, como ministro da saúde. À sua última crónica (quinzenal) deu-lhe um título sucinto mas programático: "Quatro anos" (Público, 11 de Março de 2005).

Começa por dizer-nos que quatro anos é muito tempo e pouco tempo, dependendo do balanço final que vier a ser feito da sua acção à frente da tutela da saúde. Será muito tempo ou tempo perdido, diz Correia de Campos, se daqui a quatro anos continuarmos a ter (itálicos meus):

(i) "as mulheres condenadas pela procriação não desejada ou desiludidas pela não assistida";

(ii) "os doentes de cancro tardiamente diagnosticados e mediocremente tratados";

(iii) "os doentes mortalmente infectados nos hospitais que os deveriam recuperar";

(iv) "os imigrantes que não entendem os labirintos da burocracia sanitária";

(v) "os doentes terminais";

(vi) "os portadores de deficiência mal assistida";

(vii) os sem-abrigo ("os que dormem nas arcadas ou nos vãos de escada");

(viii) "os velhos sós que mendigam conversa e se plantam, de madrugada, à porta do centro de saúde";

e, por fim, (ix) os velhos doentes e os doentes crónicos ("cada vez mais velhos e cada vez mais doentes, a cargo de famílias desesperadas, sem meios nem apoios, empurrados do hospital para um domicílio inexistente, um divã numa marquise suburbana").

2. Estes quatro anos que os cidadãos eleitores portugueses deram ao Partido Socialista e ao seu líder José Sócrates e à sua equipa governativa, não foram um cheque em branco mas serão tempo perdido, segundo o novo ministro da saúde, se:

(i) "o conhecimento, a inovação e a adequada tecnologia para a saúde continuarem a ser mal copiados, descuidados sem ambição ou meramente comprados ao estrangeiro";

(ii) "os interesses profissionais dos assistentes sobrelevarem o interesse dos assistidos";

(iii) "a estratégia do crescimento em mais um mercado vencer a estratégia da equidade;

(iv) "a desejável lógica de mercado em tudo o que o mercado faça melhor que o Estado deixar perverter a concorrência pela dominação";

(v) "não se contiver a hemorragia da despesa desnecessária";

(vi) "não se conseguirem introduzir novos parceiros locais na relação de proximidade entre serviços de saúde e cidadãos-utentes";

e, last but not the least, (vii) "não se conseguir (...) passar a mensagem do nº 1 do artigo 64º da Constituição de que todos têm direito à protecção da saúde, [mas todos têm] o dever de a defender e promover".

3. É um desafio, não direi temerário, mas antes lúcido, assertivo e corajoso, este que compromete mais o homem e o cidadão do que o político (ver-se-á o seu programa daqui a dias). Que compromete mas também honra o professor e o intelectual. Em contrapartida, quatro anos serão pouco tempo, "tempo bem utilizado", se:

(i) "os cuidados primários florescerem paulatinamente, com profissionais suficientes, bem treinados e bem apoiados, tratamento urbano dos assistidos";

(ii) "idosos e suas famílias encontrarem uma solução adequada a cada caso, sem descarte egoísta nem fardo insuportável";

(iii) "os toxicodependentes forem agarrados pelo sistema de saúde em vez de pelo sistema de distribuição da droga";

(iv) "os portadores de VIH e outras doenças transmissíveis souberem onde se tratar e como parar a cadeia de contágio";

(v) "hospitais e centros de saúde estiverem ligados entre si sem hegemonias nem recriminações";

(vi) "todos os hospitais souberem e puderem tratar bem o cancro, deixando para os mais especializados os casos mais complexos";

(vii) "todas as escolas disseminarem conhecimentos de saúde e sobretudo de vida saudável pelos seus alunos, criando nos adolescentes a noção de que o desporto sadio é tão cool como a 24 de Julho ou a Ribeira, que a entreajuda e a alegria de viver e o ar livre são pelo menos tão saborosos como a cervejada semanal e o maço diário, que beber com moderação em ocasiões festivas, designando um condutor rotativamente abstémio, é a melhor forma de não perder dolorosamente amigos e amigas na flor da vida";

(viii) "os nossos velhos vierem a ser mais bem acompanhados";

(ix) "os nossos doentes crónicos, nomeadamente de cancro e outras doenças de alta severidade, vierem a ser mais bem assistidos";

(x) e, por fim, "em cada ano, os ainda mais de mil mortos de acidentes de viação, os quase 500 de acidentes de trabalho, os quase mil de sida, as dezenas de milhares de mortos prematuros devido a doença cárdio e cérebro-vascular, a patologias respiratórias e digestivas evitáveis com exercício regular e redução do tabaco e álcool, os quase 80 mil atingidos por infecção hospitalar, dez por cento dos quais morrem, puderem deixar de contar nessa epidemia silenciosa".

3. Meu caro António, senhor ministro da saúde: sob a tua liderança, não tenho dúvidas de que na saúde nada será como dantes, mesmo que não tenhas, felizmente, prometido o céu. Os teus amigos conhecem-te as qualidades (e os defeitos), com destaque para as tuas reconhecidas capacidades de liderança, determinação, organização, competência, empenhamento e relacionamento, a par da tua cultura, inteligência e sentido de missão. E, no final, embora seguramente mais velho e cansado, terás achado que valeu a pena, que valeram a pena os sacrifícios pessoais, familiares e profissionais, que a análise de custo/benefício foi positiva, que todos ganhámos, os portugueses e as portuguesas, os novos, os adultos, os velhos e os doentes, a saúde pública, a universidade, as empresas, a economia, a economia da saúde e as demais ciências da saúde pública, os utentes mas também os profissionais de saúde, todos nós, afinal, os verdadeiros e legítimos stakeholders da saúde...

PS- Só posso desejar-te boa sorte. Até daqui a quatro anos, António!.

Em Lisboa nem sangria má nem purga boa - VI: Até daqui a quatro anos, António!

1.Correia de Campos despediu-se dos seus leitores do Público no dia em que tomou posse do XVII Governo Constitucional, como ministro da saúde. À sua última crónica (quinzenal) deu-lhe um título sucinto mas programático: "Quatro anos" (Público, 11 de Março de 2005).

Começa por dizer-nos que quatro anos é muito tempo e pouco tempo, dependendo do balanço final que vier a ser feito da sua acção à frente da tutela da saúde. Será muito tempo ou tempo perdido, diz Correia de Campos, se daqui a quatro anos continuarmos a ter (itálicos meus):

(i) "as mulheres condenadas pela procriação não desejada ou desiludidas pela não assistida";

(ii) "os doentes de cancro tardiamente diagnosticados e mediocremente tratados";

(iii) "os doentes mortalmente infectados nos hospitais que os deveriam recuperar";

(iv) "os imigrantes que não entendem os labirintos da burocracia sanitária";

(v) "os doentes terminais";

(vi) "os portadores de deficiência mal assistida";

(vii) os sem-abrigo ("os que dormem nas arcadas ou nos vãos de escada");

(viii) "os velhos sós que mendigam conversa e se plantam, de madrugada, à porta do centro de saúde";

e, por fim, (ix) os velhos doentes e os doentes crónicos ("cada vez mais velhos e cada vez mais doentes, a cargo de famílias desesperadas, sem meios nem apoios, empurrados do hospital para um domicílio inexistente, um divã numa marquise suburbana").

2. Estes quatro anos que os cidadãos eleitores portugueses deram ao Partido Socialista e ao seu líder José Sócrates e à sua equipa governativa, não foram um cheque em branco mas serão tempo perdido, segundo o novo ministro da saúde, se:

(i) "o conhecimento, a inovação e a adequada tecnologia para a saúde continuarem a ser mal copiados, descuidados sem ambição ou meramente comprados ao estrangeiro";

(ii) "os interesses profissionais dos assistentes sobrelevarem o interesse dos assistidos";

(iii) "a estratégia do crescimento em mais um mercado vencer a estratégia da equidade;

(iv) "a desejável lógica de mercado em tudo o que o mercado faça melhor que o Estado deixar perverter a concorrência pela dominação";

(v) "não se contiver a hemorragia da despesa desnecessária";

(vi) "não se conseguirem introduzir novos parceiros locais na relação de proximidade entre serviços de saúde e cidadãos-utentes";

e, last but not the least, (vii) "não se conseguir (...) passar a mensagem do nº 1 do artigo 64º da Constituição de que todos têm direito à protecção da saúde, [mas todos têm] o dever de a defender e promover".

3. É um desafio, não direi temerário, mas antes lúcido, assertivo e corajoso, este que compromete mais o homem e o cidadão do que o político (ver-se-á o seu programa daqui a dias). Que compromete mas também honra o professor e o intelectual. Em contrapartida, quatro anos serão pouco tempo, "tempo bem utilizado", se:

(i) "os cuidados primários florescerem paulatinamente, com profissionais suficientes, bem treinados e bem apoiados, tratamento urbano dos assistidos";

(ii) "idosos e suas famílias encontrarem uma solução adequada a cada caso, sem descarte egoísta nem fardo insuportável";

(iii) "os toxicodependentes forem agarrados pelo sistema de saúde em vez de pelo sistema de distribuição da droga";

(iv) "os portadores de VIH e outras doenças transmissíveis souberem onde se tratar e como parar a cadeia de contágio";

(v) "hospitais e centros de saúde estiverem ligados entre si sem hegemonias nem recriminações";

(vi) "todos os hospitais souberem e puderem tratar bem o cancro, deixando para os mais especializados os casos mais complexos";

(vii) "todas as escolas disseminarem conhecimentos de saúde e sobretudo de vida saudável pelos seus alunos, criando nos adolescentes a noção de que o desporto sadio é tão cool como a 24 de Julho ou a Ribeira, que a entreajuda e a alegria de viver e o ar livre são pelo menos tão saborosos como a cervejada semanal e o maço diário, que beber com moderação em ocasiões festivas, designando um condutor rotativamente abstémio, é a melhor forma de não perder dolorosamente amigos e amigas na flor da vida";

(viii) "os nossos velhos vierem a ser mais bem acompanhados";

(ix) "os nossos doentes crónicos, nomeadamente de cancro e outras doenças de alta severidade, vierem a ser mais bem assistidos";

(x) e, por fim, "em cada ano, os ainda mais de mil mortos de acidentes de viação, os quase 500 de acidentes de trabalho, os quase mil de sida, as dezenas de milhares de mortos prematuros devido a doença cárdio e cérebro-vascular, a patologias respiratórias e digestivas evitáveis com exercício regular e redução do tabaco e álcool, os quase 80 mil atingidos por infecção hospitalar, dez por cento dos quais morrem, puderem deixar de contar nessa epidemia silenciosa".

3. Meu caro António, senhor ministro da saúde: sob a tua liderança, não tenho dúvidas de que na saúde nada será como dantes, mesmo que não tenhas, felizmente, prometido o céu. Os teus amigos conhecem-te as qualidades (e os defeitos), com destaque para as tuas reconhecidas capacidades de liderança, determinação, organização, competência, empenhamento e relacionamento, a par da tua cultura, inteligência e sentido de missão. E, no final, embora seguramente mais velho e cansado, terás achado que valeu a pena, que valeram a pena os sacrifícios pessoais, familiares e profissionais, que a análise de custo/benefício foi positiva, que todos ganhámos, os portugueses e as portuguesas, os novos, os adultos, os velhos e os doentes, a saúde pública, a universidade, as empresas, a economia, a economia da saúde e as demais ciências da saúde pública, os utentes mas também os profissionais de saúde, todos nós, afinal, os verdadeiros e legítimos stakeholders da saúde...

PS- Só posso desejar-te boa sorte. Até daqui a quatro anos, António!.

11 março 2005

Humor com humor se paga - XXX: Deus e Mourinho

O Papa João Paulo II, a Irmã Lúcia e o Zé Mourinho morrem num desastre de avião e, pela ordem natural das coisas, são apresentados por São Pedro a Deus, Nosso Senhor.
Pergunta o Criador ao Chefe Máximo dos Católicos:
- Então, meu filho, para ti o que é que foi mais importante na tua vida lá em baixo ?
O Papa respondeu-lhe, com a voz trémula:
- A paz na terra entre os homens de boa vontade…
Deus simpatizou com o simpático velhinho, e convidou-o a ficar no Céu:
- Vem sentar-te aqui ao meu lado.

A seguir, interpelou a Irmã Lúcia sobre a sua longa vida de mistério e de clausura:
- E tu, minha filha, ainda tens mais algum segredo de Fátima para desvendar ?
- Não, meu Pai, antes de morrer já tinha deixado os papéis todos arrumados no convento, prontos a seguirem para a Torre do Tombo…
- Também gosto dessa resposta na ponta da língua, para uma velhinha como tu que teve o privilégio de conhecer a Virgem Maria…

Deus fitou, por fim, o Zé Mourinho que parecia não constar da sua base de dados… Algo provocatoriamente, o maior treinador de futebol do mundo desafiava o Criador, com um gesto quase obsceno, o dedo espetado na boca como se O quisesse mandar calar. Diz-lhe Deus, depois de São Pedro ter-Lhe segredado o nome:
- Então, qual é o teu problema, Zé Mourinho?
Ao que este retorquiu:
- Eu acho que TU... estás sentado no banco errado; é que esse, por acaso, é o...MEU!

PS - Este anedota só pode ter uma segunda leitura: os portugas são o povo mais igualitário do mundo, de tal maneira que não sequer admitem a hipótese (teórica) de haver, entre eles, um "primus inter pares", um primeiro entre iguais. No entanto, muito secretamente admiram (ou morrem de inveja por) um Zé Mourinho, um portuga que está a ter um grande sucesso na estranja, e para quem nem o céu parece constituir um limite...

Humor com humor se paga - XXX: Deus e Mourinho

O Papa João Paulo II, a Irmã Lúcia e o Zé Mourinho morrem num desastre de avião e, pela ordem natural das coisas, são apresentados por São Pedro a Deus, Nosso Senhor.
Pergunta o Criador ao Chefe Máximo dos Católicos:
- Então, meu filho, para ti o que é que foi mais importante na tua vida lá em baixo ?
O Papa respondeu-lhe, com a voz trémula:
- A paz na terra entre os homens de boa vontade…
Deus simpatizou com o simpático velhinho, e convidou-o a ficar no Céu:
- Vem sentar-te aqui ao meu lado.

A seguir, interpelou a Irmã Lúcia sobre a sua longa vida de mistério e de clausura:
- E tu, minha filha, ainda tens mais algum segredo de Fátima para desvendar ?
- Não, meu Pai, antes de morrer já tinha deixado os papéis todos arrumados no convento, prontos a seguirem para a Torre do Tombo…
- Também gosto dessa resposta na ponta da língua, para uma velhinha como tu que teve o privilégio de conhecer a Virgem Maria…

Deus fitou, por fim, o Zé Mourinho que parecia não constar da sua base de dados… Algo provocatoriamente, o maior treinador de futebol do mundo desafiava o Criador, com um gesto quase obsceno, o dedo espetado na boca como se O quisesse mandar calar. Diz-lhe Deus, depois de São Pedro ter-Lhe segredado o nome:
- Então, qual é o teu problema, Zé Mourinho?
Ao que este retorquiu:
- Eu acho que TU... estás sentado no banco errado; é que esse, por acaso, é o...MEU!

PS - Este anedota só pode ter uma segunda leitura: os portugas são o povo mais igualitário do mundo, de tal maneira que não sequer admitem a hipótese (teórica) de haver, entre eles, um "primus inter pares", um primeiro entre iguais. No entanto, muito secretamente admiram (ou morrem de inveja por) um Zé Mourinho, um portuga que está a ter um grande sucesso na estranja, e para quem nem o céu parece constituir um limite...

10 março 2005

Socio(b)logia - XIV: Um médico para Diamantino ou os problemas da (e)terna comunicação global


1.
Tenho uma página na Net, o que me permite, ilusoriamente talvez, vencer as barreiras físicas que separam os falantes da língua portuguesa. É o caso, por exemplo, dos brasileiros, que de vez em quando me contactam, por uma razão ou outra. A verdade é que eu nunca fui ao Brasil nem nunca mandei um postal a ninguém do Novo Mundo. Ontem recebi um curioso e-mail, no qual sou confundido com: (i) médico; (ii) médico de família; e (iii) candidato a um lugar nos serviços de saúde de um município do Estado do Mato Grosso (para mim, fica no Cu de Judas, sem ofensa para os habitantes da dita terra). Transcrevo a mensagem, na esperança de pelo menos encontrar-lhe o destinatário certo:


2. Cópia de mensagem por e-mail que acabo de ler na minha caixa de correio:

"From: Secretaria Municipal de Saúde de Diamantino [saude@diamantino.mt.gov.br]
"Sent: qua 2005-03-09 17:58
"To: Luís Graça
"Subject: contratação urgente medicos saude da familia Diamantino-MT


"Prezado Dr, vimos o seu curriculum na internet, por isso resolvemos contactá-lo. O nosso município de Diamantino - MT [Mato Grosso] está precisando com urgência de médicos para trabalhar em Equipes de Saúde da Família. Salário bruto 7.200,00 descontando 27% de imposto de renda. Também pagamos o 13º salário e liberamos para férias. Dispomos apenas de 01 hospital particular no qual os médicos dão plantão. Caso tenha interesse, por gentileza entrar em contato por telefone ou por e-mail. Por gentileza divulgar esta informação junto aos seus colegas de trabalho.

"atenciosamente,


"Cristhiane Duarte, Enfermeira".



3. Acabo de responder ao citado e-mail:

"Minha cara amiga Christiane: Recebi a sua mensagem. Vejo que conhece a minha página na Net e até o meu currículo (http://www.ensp.unl.pt/luis.graca/). Acontece que não sou médico, e vivo a milhares de quilómetros de distância do seu município, no outro lado do Atlântico, no Velho Mundo, na Eurolândia… Mesmo assim apreciei e divulguei a sua mensagem. Boa sorte para o seu esforço de encontrar um médico que possa fazer um bom trabalho no seu serviço de saúde. A propósito, onde fica Diamantino ?

"Veja o meu blogue: http://blogueforanada.blogspot.com/

"Boa saúde, bom trabalho!
Luís Graça."

Socio(b)logia - XIV: Um médico para Diamantino ou os problemas da (e)terna comunicação global


1.
Tenho uma página na Net, o que me permite, ilusoriamente talvez, vencer as barreiras físicas que separam os falantes da língua portuguesa. É o caso, por exemplo, dos brasileiros, que de vez em quando me contactam, por uma razão ou outra. A verdade é que eu nunca fui ao Brasil nem nunca mandei um postal a ninguém do Novo Mundo. Ontem recebi um curioso e-mail, no qual sou confundido com: (i) médico; (ii) médico de família; e (iii) candidato a um lugar nos serviços de saúde de um município do Estado do Mato Grosso (para mim, fica no Cu de Judas, sem ofensa para os habitantes da dita terra). Transcrevo a mensagem, na esperança de pelo menos encontrar-lhe o destinatário certo:


2. Cópia de mensagem por e-mail que acabo de ler na minha caixa de correio:

"From: Secretaria Municipal de Saúde de Diamantino [saude@diamantino.mt.gov.br]
"Sent: qua 2005-03-09 17:58
"To: Luís Graça
"Subject: contratação urgente medicos saude da familia Diamantino-MT


"Prezado Dr, vimos o seu curriculum na internet, por isso resolvemos contactá-lo. O nosso município de Diamantino - MT [Mato Grosso] está precisando com urgência de médicos para trabalhar em Equipes de Saúde da Família. Salário bruto 7.200,00 descontando 27% de imposto de renda. Também pagamos o 13º salário e liberamos para férias. Dispomos apenas de 01 hospital particular no qual os médicos dão plantão. Caso tenha interesse, por gentileza entrar em contato por telefone ou por e-mail. Por gentileza divulgar esta informação junto aos seus colegas de trabalho.

"atenciosamente,


"Cristhiane Duarte, Enfermeira".



3. Acabo de responder ao citado e-mail:

"Minha cara amiga Christiane: Recebi a sua mensagem. Vejo que conhece a minha página na Net e até o meu currículo (http://www.ensp.unl.pt/luis.graca/). Acontece que não sou médico, e vivo a milhares de quilómetros de distância do seu município, no outro lado do Atlântico, no Velho Mundo, na Eurolândia… Mesmo assim apreciei e divulguei a sua mensagem. Boa sorte para o seu esforço de encontrar um médico que possa fazer um bom trabalho no seu serviço de saúde. A propósito, onde fica Diamantino ?

"Veja o meu blogue: http://blogueforanada.blogspot.com/

"Boa saúde, bom trabalho!
Luís Graça."

07 março 2005

Portugas que merecem as nossas palmas - XV: O Museu de Medicina da Faculdade de Medicina de Lisboa

1. A criação da Faculdade de Medicina de Lisboa data de 1911,e a ela está associada a chamada "geração de ouro" da medicina portuguesa sob a liderança de Celestino da Costa. Quase cem anos depois, surge o projecto do Museu de Medicina, cuja filosofia é apresentada sucintamente no respectivo sítio, nestes termos:

"Os museus de arte e os museus da ciência e da técnica são dois mundos, duas culturas, cada um com o seu património, as suas especificidades, o seu público.


"Muitos programadores destes dois tipos de equipamento cultural interrogam-se frequentemente sobre a possibilidade de uma terceira via, e lançam questões: Como criar pontes que façam a ligação entre estes dois grandes ramos da experiência e do conhecimento humanos, sem prejuízo das suas especificidades? Será possível reunir num mesmo lugar de exposição, sob um denominador comum, objectos testemunhos de um e de outro universo? E, no caso afirmativo, não haverá o risco de reforçar um conhecimento estático ou de suscitar visões maniqueístas pré-existentes, que reenviariam cada um destes objectos, privados dos contextos respectivos, a categorias em que se poderiam opôr de forma redutora o belo e o verdadeiro, o imaginário e o concreto, o racional e o expressivo, a arte e a ciência? Como pensar uma tal iniciativa no contexto da medicina, não em termos de mera demonstração didática, de ilustração, de pretexto, mas de complementaridade (implicando caminhos paralelos, ou até mesmo divergentes) ou de "contaminação" recíproca (criando enriquecimentos mútuos)?

"Desde Hipócrates que a prática da medicina é assumida simultaneamente como uma arte e como uma ciência. A percepção dos fenómenos da saúde e da doença faz-se quase sempre cruzando métodos de avaliação qualitativos e quantitativos, conjugando a subjectividade sintomatológica das pessoas com a objectividade técnica e analítica das máquinas e instrumentos. Por isso faz todo o sentido que um museu de medicina se organize como uma terceira via que que faça a ligação entre arte, ciências humanas, naturais e sociais, procurando tirar partido da interacção dos diferentes ramos do saber.

"O projecto Museu de Medicina da Faculdade de Medicina de Lisboa seguirá esta terceira via. Organizar-se-á como um laboratório, um centro de circulação de informação e geração de conhecimento e ideias, aberto à multiplicidade de cruzamentos que hoje a investigação interdisciplinar permite fazer, a partir da especificidade da arte e da ciência".


2. Visitei ontem a exposição "Passagens - 100 Peças para o Museu de Medicina", a decorrer no Museu Nacional de Arte Antiga, entre 24 de Fevereiro e 30 de Abril de 2005. Estão de parabéns a equipa que lidera este projecto da Faculdade de Medicina de Lisboa mas também o Museu Nacional de Arte Antiga por esta aposta e esta oportunidade de renovação da (e de reflexão sobre a) prática museológica. Trata-se de uma exposição a não perder. No velho museu das Janelas Verdes modelos anatómicos, preparações humanas, mecanismos e imagens médicas, instrumentos de medição e de observação cruzam-se e ligam-se com obras de arte, e passam à categoria de objectos culturais, ligados à nossa memória, à nossa identidade e à produção de um discurso legitimador não só da ciência e da tecnologia como da arte. A exposição tem seis núcleos: (i) Espelhos e refelexões; (ii) Fragmentos e anatomias; (iii) Compôr, cuidar e tratar; (iv) Fluídos, circulação e imagens; (v) Observar, medir, temporizar; (vi) Ver o 'invisível'. Ao domingo de manhã, a visita ao msueu (e a esta exposição temporária) é gratuita.

De entre outras peças raras, vai aqui o meu destaque para um exemplar do De Humani Corporis Fabrica, do belga Andrea Vesalius (a 2ª edição, Pádua, 1555), uma obra-prima bibliográfica da Renascença e também uma obra decisiva para o desenvolvimento da anatomia e da cirurgia. Julgo que faça parte do espólio da antiga Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa (1836-1911). Por outro lado, é também notável o quadro que descreve e explica as experiências levadas a cabo por Egas Moniz e a sua equipa, e que contribuiram para o avanço das neurociências. Recorde-se que em 26 de Junho de 1927, foi feito pela primeira vez nuyms er humano vivo um exame radiográfico dos vasos sanguíneos cerebrais. Destaco ainda, e por fim, o tratamento museológico que foi dado uma desconjuntada e carcomida escultura em madeira do Séc. XIV, representando Cristo (Núcleo 3 - Compôr, cuidar, tratar): conforme se diz no guia da exposição, trata-se de "uma escultura 'doente', em fase terminal, submetida a tratamento museológico paliativo (...), que permite reflectir sobre o conceito de humanidade no próprioo acto de cuidar das obras de arte".

Portugas que merecem as nossas palmas - XV: O Museu de Medicina da Faculdade de Medicina de Lisboa

1. A criação da Faculdade de Medicina de Lisboa data de 1911,e a ela está associada a chamada "geração de ouro" da medicina portuguesa sob a liderança de Celestino da Costa. Quase cem anos depois, surge o projecto do Museu de Medicina, cuja filosofia é apresentada sucintamente no respectivo sítio, nestes termos:

"Os museus de arte e os museus da ciência e da técnica são dois mundos, duas culturas, cada um com o seu património, as suas especificidades, o seu público.


"Muitos programadores destes dois tipos de equipamento cultural interrogam-se frequentemente sobre a possibilidade de uma terceira via, e lançam questões: Como criar pontes que façam a ligação entre estes dois grandes ramos da experiência e do conhecimento humanos, sem prejuízo das suas especificidades? Será possível reunir num mesmo lugar de exposição, sob um denominador comum, objectos testemunhos de um e de outro universo? E, no caso afirmativo, não haverá o risco de reforçar um conhecimento estático ou de suscitar visões maniqueístas pré-existentes, que reenviariam cada um destes objectos, privados dos contextos respectivos, a categorias em que se poderiam opôr de forma redutora o belo e o verdadeiro, o imaginário e o concreto, o racional e o expressivo, a arte e a ciência? Como pensar uma tal iniciativa no contexto da medicina, não em termos de mera demonstração didática, de ilustração, de pretexto, mas de complementaridade (implicando caminhos paralelos, ou até mesmo divergentes) ou de "contaminação" recíproca (criando enriquecimentos mútuos)?

"Desde Hipócrates que a prática da medicina é assumida simultaneamente como uma arte e como uma ciência. A percepção dos fenómenos da saúde e da doença faz-se quase sempre cruzando métodos de avaliação qualitativos e quantitativos, conjugando a subjectividade sintomatológica das pessoas com a objectividade técnica e analítica das máquinas e instrumentos. Por isso faz todo o sentido que um museu de medicina se organize como uma terceira via que que faça a ligação entre arte, ciências humanas, naturais e sociais, procurando tirar partido da interacção dos diferentes ramos do saber.

"O projecto Museu de Medicina da Faculdade de Medicina de Lisboa seguirá esta terceira via. Organizar-se-á como um laboratório, um centro de circulação de informação e geração de conhecimento e ideias, aberto à multiplicidade de cruzamentos que hoje a investigação interdisciplinar permite fazer, a partir da especificidade da arte e da ciência".


2. Visitei ontem a exposição "Passagens - 100 Peças para o Museu de Medicina", a decorrer no Museu Nacional de Arte Antiga, entre 24 de Fevereiro e 30 de Abril de 2005. Estão de parabéns a equipa que lidera este projecto da Faculdade de Medicina de Lisboa mas também o Museu Nacional de Arte Antiga por esta aposta e esta oportunidade de renovação da (e de reflexão sobre a) prática museológica. Trata-se de uma exposição a não perder. No velho museu das Janelas Verdes modelos anatómicos, preparações humanas, mecanismos e imagens médicas, instrumentos de medição e de observação cruzam-se e ligam-se com obras de arte, e passam à categoria de objectos culturais, ligados à nossa memória, à nossa identidade e à produção de um discurso legitimador não só da ciência e da tecnologia como da arte. A exposição tem seis núcleos: (i) Espelhos e refelexões; (ii) Fragmentos e anatomias; (iii) Compôr, cuidar e tratar; (iv) Fluídos, circulação e imagens; (v) Observar, medir, temporizar; (vi) Ver o 'invisível'. Ao domingo de manhã, a visita ao msueu (e a esta exposição temporária) é gratuita.

De entre outras peças raras, vai aqui o meu destaque para um exemplar do De Humani Corporis Fabrica, do belga Andrea Vesalius (a 2ª edição, Pádua, 1555), uma obra-prima bibliográfica da Renascença e também uma obra decisiva para o desenvolvimento da anatomia e da cirurgia. Julgo que faça parte do espólio da antiga Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa (1836-1911). Por outro lado, é também notável o quadro que descreve e explica as experiências levadas a cabo por Egas Moniz e a sua equipa, e que contribuiram para o avanço das neurociências. Recorde-se que em 26 de Junho de 1927, foi feito pela primeira vez nuyms er humano vivo um exame radiográfico dos vasos sanguíneos cerebrais. Destaco ainda, e por fim, o tratamento museológico que foi dado uma desconjuntada e carcomida escultura em madeira do Séc. XIV, representando Cristo (Núcleo 3 - Compôr, cuidar, tratar): conforme se diz no guia da exposição, trata-se de "uma escultura 'doente', em fase terminal, submetida a tratamento museológico paliativo (...), que permite reflectir sobre o conceito de humanidade no próprioo acto de cuidar das obras de arte".

28 fevereiro 2005

Portugas que merecem as nossas palmas - XIV: Os profissionais de saúde do Centro de Saúde de Fernão Ferro

1. O Expresso, de 18 de Fevereiro último, em vésperas de eleições legislativas, dedicou um dossiê ao "Portugal que funciona" (sic), nos mais diversos sectores: a saúde, a educação, o ambiente, a justiça, a indústria, a política, a sociedade civil...

Vitor Rainho, editor da revista "Única", diz que "não faltam exemplos de sucesso no Portugal dito sem rumo", e cita entre outros o centro de saúde de Fernão Ferro, no concelho do Seixal, onde "não existem listas de espera" e onde os responsáveis "uniram esforços para conseguir atender uma população envelhecida". O texto é da jornalista Graça Rosendo: "Serviço à medida das pessoas" (leia-se: possibilidade de marcar consultas pelo telefone, visitas domiciliárias, cuidados continuados, cuidados integrados e personalizados, participação comunitária, coooperação intersectorial, organização do trabalho por equipas pluridisciplinares e pluriprofissionais...).

Numa freguesia com 15 mil habitantes, o centro de saúde, ou melhor, a extensão de saúde de Fernão Ferro do Centro de Saúde do Seixal tem seis médicos de família (falta um para garantir a cobertura total da população), os quais aderiram em 1996, juntamente com os seus colegas enfermeiros, administrativos e auxiliares, ao "Projecto Alfa", uma iniciativa inovadora lançada pelo Ministério da Saúde.

Escreve a jornalista: "A ideia era mesmo essa: que os profissionais dos centros de saúde se juntassem e, em equipa, assumissem a responsabilidade pela organização e pela prestação dos cuidados de saúde primários, 'garantindo mais satisfação a todas as partes'(...). Hoje Fernão Ferro é o único Projecto Alfa vivo. Com mais do que provas dadas".

2. Há três anos que só se ouve falar em empresarialização dos hospitais, em hospitais sociedades anónimas, em doentes, em listas de espera, em programas de recuperação de listas de espera, em parcerias público/privado, em unidades de missão... Há três anos que os centros de saúde, os cuidados de saúde primários, a protecção e a promoção da saúde, os sistemas locais de saúde, a saúde mental dos portugueses, a saúde mental comunitária e outros termos do glossário da moderna saúde pública, desapareceram do discurso do poder.

O ministro da tutela nos dois últimos governos ignorou, olimpicamente, os centros de saúde, os cuidados de saúde primários, os profissonais que lá trabalham, muitas vezes em condições bem duras, com insuficientes recursos humanos, técnicos e financeiros, muitas vezes sem um tostão para comprar uma máquina de café ou o café para a máquina ou mandar reparar o telefone, entalados entre os constrangimentos burocráticos do poder central e as dramáticas pressões da procura por parte de uma população, pobre, envelhecida e abandonada, trabalhando em vãos de escada, fazendo das casa de banho arquivos, sem tempo nem papel para fazer os dossiês clínicos, sem computadores, sem internet, com gente aos berros nos corredores e nas escadas de prédios dos anos 60 e 70, de má qualidade, que já foram caixas dos serviços médico-sociais da previdência estadonovista, nas periferias tristes e cinzentas da grande cidade anónima...

Fernão Ferro é um exemplo, discreto, da muita competência e generosidade de que são capazes os profissionais de saúde que trabalham nos nossos centros de saúde, instituições que estão muito próximas do quotidiano dos portugueses e das comunidades onde estes vivem, dormem, respiram, trabalham, amam, riem, sofrem e choram. Fernão Ferro não é um exemplo único. Mas é exemplar. Ainda bem que o Expresso lhe deu a merecida visibilidade mediática.

3. Eu, por mim, aplaudo: estes e estas portugas, a começar pela directora Maria da Luz Pereira (que eu não conheço pessoalmente), merecem as minhas palmas, as nossas palmas. O seu exemplo é o melhor tónico contra o miserabilismo, o masoquismo e o populismo que minaram a nossa vida política nos últimos anos e até a confiança nas nossas próprias capacidades de realização. Fernão Ferro é, por fim, um exemplo de liderança e de trabalho em equipa, de determinação e de estratégia, que é o que nos tem faltado a todos os níveis, em muitos sectores: gente que pense globalmente, que pense grande, e que aja localmente, que saiba também tomar o peso e a medida das pequenas coisas que é preciso fazer todos os dias, que saiba fazer as pequenas coisas que é preciso fazer todos os dias... Na saúde, na educação, no ambiente, na produção, na cultura...

Fernão Ferro, a sua equipa, os seus médicos, os seus enfermeiros, os seus administrativos e restante pessoal, não vêm nas capas nas revistas côr de rosa, nem são notícia de telejornal por más razões... Mas hoje eles merecem as minhas palmas, as nossas palmas...

Portugas que merecem as nossas palmas - XIV: Os profissionais de saúde do Centro de Saúde de Fernão Ferro

1. O Expresso, de 18 de Fevereiro último, em vésperas de eleições legislativas, dedicou um dossiê ao "Portugal que funciona" (sic), nos mais diversos sectores: a saúde, a educação, o ambiente, a justiça, a indústria, a política, a sociedade civil...

Vitor Rainho, editor da revista "Única", diz que "não faltam exemplos de sucesso no Portugal dito sem rumo", e cita entre outros o centro de saúde de Fernão Ferro, no concelho do Seixal, onde "não existem listas de espera" e onde os responsáveis "uniram esforços para conseguir atender uma população envelhecida". O texto é da jornalista Graça Rosendo: "Serviço à medida das pessoas" (leia-se: possibilidade de marcar consultas pelo telefone, visitas domiciliárias, cuidados continuados, cuidados integrados e personalizados, participação comunitária, coooperação intersectorial, organização do trabalho por equipas pluridisciplinares e pluriprofissionais...).

Numa freguesia com 15 mil habitantes, o centro de saúde, ou melhor, a extensão de saúde de Fernão Ferro do Centro de Saúde do Seixal tem seis médicos de família (falta um para garantir a cobertura total da população), os quais aderiram em 1996, juntamente com os seus colegas enfermeiros, administrativos e auxiliares, ao "Projecto Alfa", uma iniciativa inovadora lançada pelo Ministério da Saúde.

Escreve a jornalista: "A ideia era mesmo essa: que os profissionais dos centros de saúde se juntassem e, em equipa, assumissem a responsabilidade pela organização e pela prestação dos cuidados de saúde primários, 'garantindo mais satisfação a todas as partes'(...). Hoje Fernão Ferro é o único Projecto Alfa vivo. Com mais do que provas dadas".

2. Há três anos que só se ouve falar em empresarialização dos hospitais, em hospitais sociedades anónimas, em doentes, em listas de espera, em programas de recuperação de listas de espera, em parcerias público/privado, em unidades de missão... Há três anos que os centros de saúde, os cuidados de saúde primários, a protecção e a promoção da saúde, os sistemas locais de saúde, a saúde mental dos portugueses, a saúde mental comunitária e outros termos do glossário da moderna saúde pública, desapareceram do discurso do poder.

O ministro da tutela nos dois últimos governos ignorou, olimpicamente, os centros de saúde, os cuidados de saúde primários, os profissonais que lá trabalham, muitas vezes em condições bem duras, com insuficientes recursos humanos, técnicos e financeiros, muitas vezes sem um tostão para comprar uma máquina de café ou o café para a máquina ou mandar reparar o telefone, entalados entre os constrangimentos burocráticos do poder central e as dramáticas pressões da procura por parte de uma população, pobre, envelhecida e abandonada, trabalhando em vãos de escada, fazendo das casa de banho arquivos, sem tempo nem papel para fazer os dossiês clínicos, sem computadores, sem internet, com gente aos berros nos corredores e nas escadas de prédios dos anos 60 e 70, de má qualidade, que já foram caixas dos serviços médico-sociais da previdência estadonovista, nas periferias tristes e cinzentas da grande cidade anónima...

Fernão Ferro é um exemplo, discreto, da muita competência e generosidade de que são capazes os profissionais de saúde que trabalham nos nossos centros de saúde, instituições que estão muito próximas do quotidiano dos portugueses e das comunidades onde estes vivem, dormem, respiram, trabalham, amam, riem, sofrem e choram. Fernão Ferro não é um exemplo único. Mas é exemplar. Ainda bem que o Expresso lhe deu a merecida visibilidade mediática.

3. Eu, por mim, aplaudo: estes e estas portugas, a começar pela directora Maria da Luz Pereira (que eu não conheço pessoalmente), merecem as minhas palmas, as nossas palmas. O seu exemplo é o melhor tónico contra o miserabilismo, o masoquismo e o populismo que minaram a nossa vida política nos últimos anos e até a confiança nas nossas próprias capacidades de realização. Fernão Ferro é, por fim, um exemplo de liderança e de trabalho em equipa, de determinação e de estratégia, que é o que nos tem faltado a todos os níveis, em muitos sectores: gente que pense globalmente, que pense grande, e que aja localmente, que saiba também tomar o peso e a medida das pequenas coisas que é preciso fazer todos os dias, que saiba fazer as pequenas coisas que é preciso fazer todos os dias... Na saúde, na educação, no ambiente, na produção, na cultura...

Fernão Ferro, a sua equipa, os seus médicos, os seus enfermeiros, os seus administrativos e restante pessoal, não vêm nas capas nas revistas côr de rosa, nem são notícia de telejornal por más razões... Mas hoje eles merecem as minhas palmas, as nossas palmas...

24 fevereiro 2005

Saúde & Segurança do Trabalho - XVII: O estado do Estado

1. Escrevi há dias: "Quando o Estado não se comporta como pessoa de bem (não cumprindo, nomeadamente, as obrigações legais que impõe aos outros e a si próprio), não vale a pena gastar mais latim"...

Comentava eu uma peça jornalística do "Público", de 13 de Fevereiro de 2005, sobre os "riscos profissionais". Nela dizia Mariana Oliveira, a jornalista:

"A maioria dos organismos da Administração Pública não possui serviços de Medicina do Trabalho. Desde 1991 que a legislação prevê que os empregadores criem estas estruturas, que visam prevenir riscos profissionais e promover a saúde dos trabalhadores, mas mais de uma década depois o Estado continua a não cumprir a exigência. No sector privado, o cenário é bastante mais animador, mas só nas grandes firmas" (...).

E depois citava uma frase que eu lhe terei dito, em entrevista telefónica: "A situação na Administração Pública é escandalosa. O Estado como patrão não cumpre as suas obrigações neste campo e não cria serviços de Medicina do Trabalho".

2. Não sei se utilizei o adjectivo "escandaloso", mas o essencial da afirmação é verdadeira... Não há estatísticas (oficiais ou oficiosas), em Portugal, sobre a cobertura da população trabalhadora por serviços de saúde e segurança do trabalho, quer no sector empresarial quer na administração pública. A tutela (Instituto para a Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho, ex-IDICT, bem a Direcção-Geral de Saúde) não disponibiliza informação sobre esta e outras matérias. O que é escandaloso é sobretudo estes dois organismos da administração central não saberem pura e simplesmente o que se passa num sector que tutelam... Ficamos à espera dos primeiros resultados do tratamento informático e estatístico do relatório anual da actividade dos serviços de saúde e segurança do trabalho (abreviadamente, S&ST). E a propósito: para quando ? A resposta está dependente do Direcção-Geral de Estudos, Estatística e Planeamento (DGEEP), organismo central do ministério que tutela o emprego e a segurança social, e a quem incumbe o tratamento informático e estatítisco da nova fonte de informação administrativa sobre as empresas e os estabelecimentos que é o relatório anual dos serviços de S&ST.

Prossegue a jornalista: "A maior parte dos funcionários dos vários ministérios, escolas, universidades, tribunais, Finanças e Segurança Social nunca foi sequer a uma consulta de Medicina do Trabalho. A própria Inspecção-Geral do Trabalho, que fiscaliza o cumprimento destas regras e aplica multas aos prevaricadores, não esconde que não possui serviços de saúde ocupacional para os seus funcionários. Os grandes hospitais e algumas câmaras municipais são a excepção".

Convenhamos que esta situação é, no minímo, hilariante: A Inspecção-Geral do Trabalho comporta-se como o Frei Tomás ("Faz o que eu te digo, mas não faças o que eu faço"). Por outro lado, nunca ouvi do Ministro da Saúde (deste último, por exemplo)uma palavra de preocupação e incentivo em relação ao desenvolvimento de sistemas de gestão da saúde e segurança do trabalho na função pública, em geral, e no Serviço Nacional de SWaúde (SNS), em particular. Porque em boa verdade o problema não é tanto em termos mais ou menos serviços, mais ou menos médicos do trabalho, mais ou menos técnicos superiores de higiene e segurança do trabalho, como sobretudo em não termos uma estratégica efectiva e concreta nesta área. Temos diplomas legais (montanhas deles!), os quais, diga-se de passagem, fazem as delícias (e enchem os bolsos) dos juslaboristas, compiladores, anotadores e editores de códigos...

3. Paulo Trindade, coordenador da Federação Nacional de Sindicatos da Função Pública, avança com números: "Mais de 85 por cento dos serviços da Administração Pública não estão a cumprir a legislação [sobre S&ST] " (citado por Mariana Oliveira). Os principais organismos da administração pública (Saúde, Educação, Justiça) ignoraram pura e simplesmente o pedido da jornalista para prestarem informação sobre o grau de cumprimento da legislação em vigor em matéria de protecção e promoção da saúde dos funcionários públicos.

Sei que é uma situação desconfortável para um dirigente da administração pública, mas sempre é preferível a transparência e a frontalidade à "lei do silêncio". Esta não é própria de uma adninistração de um país moderno e democrático. Pergunto: para que serve,a final, um Director-Geral ? E um Secretário-Geral de Ministério ? E um Secretário de Estado ? E um Ministro ? E um Primeiro-Ministro ? E os demais órgãos de soberania ? Quem fiscaliza o Estado ?

Mas pergunto também: Para que servem os representantes dos trabalhadores da função pública, e em particular os seus sindicatos ? É verdade que a saúde e a segurança do trabalho continuam, pelo menos em termos gerais, a ser uma reivindidicação dos trabalhadores da função pública: "A efectiva aplicação na Administração Pública da legislação referente a saúde, higiene e segurança no trabalho, em todas as suas vertentes, incluindo a punição de dirigentes responsáveis por situações de infracção" foi, de facto, uma reivindicações da Proposta Reivindicativa 2003 da Frente Comum dos Sindicatos da Administração da Pública, conforme se pode ver no sítio da Federação Nacional dos Sindicatos da Função Pública. Penso, todavia, que os representantes dos trabalhadores da função pública já poderiam ter feito um pouco mais nesta matéria do que a simples retórica: refiro-me a acções de informação, formação, educação, identificação, avaliação e divulgação de exemplos de boas práticas...

4. O adjectivo "escandaloso" acaba, pois, por ser um eufemismo para descrever este lamentável estado de coisas a que chegou o Estado que nos representa e que deveria ser o orgulho de todos nós... Acho, no entanto, que a culpa não pode ser apenas imputada à governamentalização das chefias de topo, à decapitação dos dirigentes ministeriais, à partidarização da máquina do Estado, à desresponsabilização e à desmotivação dos quadros superiores e das chefias intermédias... Ou pode ? O assunto é demasiado sério para ser entregue apenas à responsabilidade e à competência dos "patrões" da função pública... Os trabalhadores devem, também eles, ter um papel proactivo em matéria de prevenção dos riscos profissionais e de promoção da sua saúde.

Saúde & Segurança do Trabalho - XVII: O estado do Estado

1. Escrevi há dias: "Quando o Estado não se comporta como pessoa de bem (não cumprindo, nomeadamente, as obrigações legais que impõe aos outros e a si próprio), não vale a pena gastar mais latim"...

Comentava eu uma peça jornalística do "Público", de 13 de Fevereiro de 2005, sobre os "riscos profissionais". Nela dizia Mariana Oliveira, a jornalista:

"A maioria dos organismos da Administração Pública não possui serviços de Medicina do Trabalho. Desde 1991 que a legislação prevê que os empregadores criem estas estruturas, que visam prevenir riscos profissionais e promover a saúde dos trabalhadores, mas mais de uma década depois o Estado continua a não cumprir a exigência. No sector privado, o cenário é bastante mais animador, mas só nas grandes firmas" (...).

E depois citava uma frase que eu lhe terei dito, em entrevista telefónica: "A situação na Administração Pública é escandalosa. O Estado como patrão não cumpre as suas obrigações neste campo e não cria serviços de Medicina do Trabalho".

2. Não sei se utilizei o adjectivo "escandaloso", mas o essencial da afirmação é verdadeira... Não há estatísticas (oficiais ou oficiosas), em Portugal, sobre a cobertura da população trabalhadora por serviços de saúde e segurança do trabalho, quer no sector empresarial quer na administração pública. A tutela (Instituto para a Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho, ex-IDICT, bem a Direcção-Geral de Saúde) não disponibiliza informação sobre esta e outras matérias. O que é escandaloso é sobretudo estes dois organismos da administração central não saberem pura e simplesmente o que se passa num sector que tutelam... Ficamos à espera dos primeiros resultados do tratamento informático e estatístico do relatório anual da actividade dos serviços de saúde e segurança do trabalho (abreviadamente, S&ST). E a propósito: para quando ? A resposta está dependente do Direcção-Geral de Estudos, Estatística e Planeamento (DGEEP), organismo central do ministério que tutela o emprego e a segurança social, e a quem incumbe o tratamento informático e estatítisco da nova fonte de informação administrativa sobre as empresas e os estabelecimentos que é o relatório anual dos serviços de S&ST.

Prossegue a jornalista: "A maior parte dos funcionários dos vários ministérios, escolas, universidades, tribunais, Finanças e Segurança Social nunca foi sequer a uma consulta de Medicina do Trabalho. A própria Inspecção-Geral do Trabalho, que fiscaliza o cumprimento destas regras e aplica multas aos prevaricadores, não esconde que não possui serviços de saúde ocupacional para os seus funcionários. Os grandes hospitais e algumas câmaras municipais são a excepção".

Convenhamos que esta situação é, no minímo, hilariante: A Inspecção-Geral do Trabalho comporta-se como o Frei Tomás ("Faz o que eu te digo, mas não faças o que eu faço"). Por outro lado, nunca ouvi do Ministro da Saúde (deste último, por exemplo)uma palavra de preocupação e incentivo em relação ao desenvolvimento de sistemas de gestão da saúde e segurança do trabalho na função pública, em geral, e no Serviço Nacional de SWaúde (SNS), em particular. Porque em boa verdade o problema não é tanto em termos mais ou menos serviços, mais ou menos médicos do trabalho, mais ou menos técnicos superiores de higiene e segurança do trabalho, como sobretudo em não termos uma estratégica efectiva e concreta nesta área. Temos diplomas legais (montanhas deles!), os quais, diga-se de passagem, fazem as delícias (e enchem os bolsos) dos juslaboristas, compiladores, anotadores e editores de códigos...

3. Paulo Trindade, coordenador da Federação Nacional de Sindicatos da Função Pública, avança com números: "Mais de 85 por cento dos serviços da Administração Pública não estão a cumprir a legislação [sobre S&ST] " (citado por Mariana Oliveira). Os principais organismos da administração pública (Saúde, Educação, Justiça) ignoraram pura e simplesmente o pedido da jornalista para prestarem informação sobre o grau de cumprimento da legislação em vigor em matéria de protecção e promoção da saúde dos funcionários públicos.

Sei que é uma situação desconfortável para um dirigente da administração pública, mas sempre é preferível a transparência e a frontalidade à "lei do silêncio". Esta não é própria de uma adninistração de um país moderno e democrático. Pergunto: para que serve,a final, um Director-Geral ? E um Secretário-Geral de Ministério ? E um Secretário de Estado ? E um Ministro ? E um Primeiro-Ministro ? E os demais órgãos de soberania ? Quem fiscaliza o Estado ?

Mas pergunto também: Para que servem os representantes dos trabalhadores da função pública, e em particular os seus sindicatos ? É verdade que a saúde e a segurança do trabalho continuam, pelo menos em termos gerais, a ser uma reivindidicação dos trabalhadores da função pública: "A efectiva aplicação na Administração Pública da legislação referente a saúde, higiene e segurança no trabalho, em todas as suas vertentes, incluindo a punição de dirigentes responsáveis por situações de infracção" foi, de facto, uma reivindicações da Proposta Reivindicativa 2003 da Frente Comum dos Sindicatos da Administração da Pública, conforme se pode ver no sítio da Federação Nacional dos Sindicatos da Função Pública. Penso, todavia, que os representantes dos trabalhadores da função pública já poderiam ter feito um pouco mais nesta matéria do que a simples retórica: refiro-me a acções de informação, formação, educação, identificação, avaliação e divulgação de exemplos de boas práticas...

4. O adjectivo "escandaloso" acaba, pois, por ser um eufemismo para descrever este lamentável estado de coisas a que chegou o Estado que nos representa e que deveria ser o orgulho de todos nós... Acho, no entanto, que a culpa não pode ser apenas imputada à governamentalização das chefias de topo, à decapitação dos dirigentes ministeriais, à partidarização da máquina do Estado, à desresponsabilização e à desmotivação dos quadros superiores e das chefias intermédias... Ou pode ? O assunto é demasiado sério para ser entregue apenas à responsabilidade e à competência dos "patrões" da função pública... Os trabalhadores devem, também eles, ter um papel proactivo em matéria de prevenção dos riscos profissionais e de promoção da sua saúde.

23 fevereiro 2005

Portugal sacro-profano - XXIV: In hoc S(ign)ocrates vinces

Séculos e séculos de inquisição e de delação, de bufaria, de esbirros e de pides: são (maus) hábitos de cidadania que não desaparecem facilmente, nem mesmo com a pedagogia da democracia.

Pois que viva a liberdade!... Não há nada (e ainda bem!) que não se queira conhecer e investigar na terra dos portugas... (Excepto talvez o mais importante e o mais essencial, mas adiante). Sócrates venceu, ou seja convenceu o Zé Portuga. A sua mensagem passou, com eficácia. E não foi seguramente pelo "curriculum vitae" do líder do Partido Socialista. Poucos dos eleitores terão lido sequer o sítio oficial do PS onde se apresenta o secretário-geral nestes termos: "Licenciado em Engenharia Civil, concluiu depois uma pós-graduação em Engenharia Sanitária, na Escola Nacional de Saúde Pública"...

Há quem não entenda, nem queira entender nem nunca provavelmente irá entender as diferenças entre a democracia e o resto. É-se líder porque se exerce e se pratica a liderança. Porque se assume, se aceita e se reconhece a liderança. Porque se é reconhecido como líder. E não porque se é bacharel, licenciado, mestre ou doutorado em qualquer coisa: liderança, política, direito, gestão, comunicação, economia, saúde, filosofia, escrita criativa, sedução, marketing, manipulação, terrorismo. Ou até em engenharia, que tem mais a ver com a administração das coisas (materiais) do que com o governo dos homens.

Chega-se a primeiro-ministro não por causa da idade, da experiência, do carisma, da inteligência, das medidas antropométricas, da cor dos olhos, do dinheiro, dos canudos, da imagem, do patois, dos privilégios ou de outros traços (pessoais ou socioculturais) que podem dar peso ao "curriculum vitae" do candidato, mas por outras qualidades que foram validadas nas urnas pelo universo dos cidadãos. A legitimação pelo voto: a democracia é isso, quer se goste ou não do jogo. A liderança e o sucesso da liderança em política continuam a ser conceitos de "caixa preta": poderímos citar centenas de figuras históricas e de dirigentes políticos actuais... Mas, por favor, poupem-me a esse exercício penoso.

Pois é, há já aí uns ratos, uns pequenos mamíferos roedores, a vasculhar o lixo, a examinar os papéis, a incubar o bacilo da peste da má língua e da inveja, a pôr em causa o curriculum vitae do vencedor... Não vale a pena citar o bloguista do dito Portugal Profundo. Seria dar-lhe demasiada importância. Mas é interessante assinalar a energia que se consome neste país (que nem sequer tem dimensão para ser um quintal do mundo, comparado com um Brasil que tem justamente à frente dos seus destinos um ex-operário metalúrgico), só a alimentar a maledicência, a cultivar a inveja, a afiar a má-língua e a encenar a mentira. Agora imaginem que o nosso homem, hoje indigitado primeiro-ministro de Portugal, tinha tido a infelicidade de nascer num daqueles lugares pitorescos do Portugal Profundo, como por exemplo, a Rata ou o Rato...

Esta coisa tão mesquinha do denegrir o sucesso dos outros é muita nossa. Esta coisa de ostentar e comparar títulos, diplomas, insíginas, galões e outros sinais de distinção (social) é muito nossa. É muita própria dos primatas sociais e territoriais que nós somos. Não sei se é própria dos hominídeos em geral, enquanto género, ou se é exclusiva da espécie Homo Sapiens Sapiens Lusitanus.

Espero bem que não façam parte do nosso genótipo (felizmente, que não há determinismo genético nestas coisas). Mas às vezes receio que faça parte do nosso fenótipo sociocultural...

Portugal sacro-profano - XXIV: In hoc S(ign)ocrates vinces

Séculos e séculos de inquisição e de delação, de bufaria, de esbirros e de pides: são (maus) hábitos de cidadania que não desaparecem facilmente, nem mesmo com a pedagogia da democracia.

Pois que viva a liberdade!... Não há nada (e ainda bem!) que não se queira conhecer e investigar na terra dos portugas... (Excepto talvez o mais importante e o mais essencial, mas adiante). Sócrates venceu, ou seja convenceu o Zé Portuga. A sua mensagem passou, com eficácia. E não foi seguramente pelo "curriculum vitae" do líder do Partido Socialista. Poucos dos eleitores terão lido sequer o sítio oficial do PS onde se apresenta o secretário-geral nestes termos: "Licenciado em Engenharia Civil, concluiu depois uma pós-graduação em Engenharia Sanitária, na Escola Nacional de Saúde Pública"...

Há quem não entenda, nem queira entender nem nunca provavelmente irá entender as diferenças entre a democracia e o resto. É-se líder porque se exerce e se pratica a liderança. Porque se assume, se aceita e se reconhece a liderança. Porque se é reconhecido como líder. E não porque se é bacharel, licenciado, mestre ou doutorado em qualquer coisa: liderança, política, direito, gestão, comunicação, economia, saúde, filosofia, escrita criativa, sedução, marketing, manipulação, terrorismo. Ou até em engenharia, que tem mais a ver com a administração das coisas (materiais) do que com o governo dos homens.

Chega-se a primeiro-ministro não por causa da idade, da experiência, do carisma, da inteligência, das medidas antropométricas, da cor dos olhos, do dinheiro, dos canudos, da imagem, do patois, dos privilégios ou de outros traços (pessoais ou socioculturais) que podem dar peso ao "curriculum vitae" do candidato, mas por outras qualidades que foram validadas nas urnas pelo universo dos cidadãos. A legitimação pelo voto: a democracia é isso, quer se goste ou não do jogo. A liderança e o sucesso da liderança em política continuam a ser conceitos de "caixa preta": poderímos citar centenas de figuras históricas e de dirigentes políticos actuais... Mas, por favor, poupem-me a esse exercício penoso.

Pois é, há já aí uns ratos, uns pequenos mamíferos roedores, a vasculhar o lixo, a examinar os papéis, a incubar o bacilo da peste da má língua e da inveja, a pôr em causa o curriculum vitae do vencedor... Não vale a pena citar o bloguista do dito Portugal Profundo. Seria dar-lhe demasiada importância. Mas é interessante assinalar a energia que se consome neste país (que nem sequer tem dimensão para ser um quintal do mundo, comparado com um Brasil que tem justamente à frente dos seus destinos um ex-operário metalúrgico), só a alimentar a maledicência, a cultivar a inveja, a afiar a má-língua e a encenar a mentira. Agora imaginem que o nosso homem, hoje indigitado primeiro-ministro de Portugal, tinha tido a infelicidade de nascer num daqueles lugares pitorescos do Portugal Profundo, como por exemplo, a Rata ou o Rato...

Esta coisa tão mesquinha do denegrir o sucesso dos outros é muita nossa. Esta coisa de ostentar e comparar títulos, diplomas, insíginas, galões e outros sinais de distinção (social) é muito nossa. É muita própria dos primatas sociais e territoriais que nós somos. Não sei se é própria dos hominídeos em geral, enquanto género, ou se é exclusiva da espécie Homo Sapiens Sapiens Lusitanus.

Espero bem que não façam parte do nosso genótipo (felizmente, que não há determinismo genético nestas coisas). Mas às vezes receio que faça parte do nosso fenótipo sociocultural...

20 fevereiro 2005

Portugal sacro-profano - XXIII: Gostava de falar do meu país...

Parafraseando um dos nossos grandes "vencidos da vida" mas também um dos melhores de todos nós, o António Barreto (Público, de 20 de Fevereiro de 2005), "gostaria de falar do meu país, mas hoje não posso falar de política".

Portugal sacro-profano - XXIII: Gostava de falar do meu país...

Parafraseando um dos nossos grandes "vencidos da vida" mas também um dos melhores de todos nós, o António Barreto (Público, de 20 de Fevereiro de 2005), "gostaria de falar do meu país, mas hoje não posso falar de política".

15 fevereiro 2005

Saúde & Segurança do Trabalho - XVI: A tragicomédia da participação

1. Escreve a jornalista Mariana Oliveira, no destaque do "Público" sobre "riscos profissionais", na sua edição de domingo passado: "A participação dos trabalhadores na área de segurança, higiene e saúde no trabalho ainda é muito deficitária (sic). Desde 1991 que a lei prevê a possibilidade dos operários elegerem representantes que se pronunciem e proponham medidas para prevenir os riscos profissionais, mas os sindicatos estimam que em todo o universo empresarial português existam menos de 1800 elementos a exercer estas funções".


2. Para Joaquim Dionísio, responsável pelo gabinete de estudos da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), a questão tão falada da regulamentação da participação dos trabalhadores (que só se efectivou em 2004, mas que já estava prevista desde 1991), seria uma falsa questão. "A regulamentação não vai alterar nada. As eleições [ para os representantes dos trabalhadores para a área da saúde e segurança do trabalho, abreviadamenet S&ST ]já estavam a ser feitas ao abrigo da anterior legislação. O problema é que muitos sindicatos não consideram esta questão prioritária". Segundo este dirigente sindical, em 1750 representantes na área da saúde e segurança que deverão existir (segundo estimativas da CGTP), "mais de 1700 foram eleitos nas listas" desta Central Sindical.

3. os velhos fantasmas do passado vêm ao de cima. Ainda não os conseguimos exorcizar. Enquanto as centrais sindicais contam espingardas (em vez de apostarem forte na formação dos representantes dos trabalhadores para área da S&ST), o presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), Francisco van Zeller, faz-se eco do velho receio dos empresários segundo o qual esta é mais uma potencialmente perigosa figura de agitador sindical: segundo a jornalista do "Público", o dirigente da CIP terá dito que a intervenção dos representantes dos trabalhadores se traduz, na prática, "em reivindicações cegas, só para complicar" (sic)a vida às empresas e aos empresários. E terá acrescentado, civilizadamente, que não tem nada contra o princípio: "A participação dos trabalhadores, sempre que razoável e responsável, não pode deixar de ser valorada positivamente".

4. Pessoalmente, acho que a afirmação da jornalista do "Pùblico" peca por efeito: dizer que a participação dos trabalhadores portugueses em matéria de saúde e segurança do trabalho é "deficitária" é um eufemismo. Neste como noutros domínios, temos que "pegar o boi pelos cornos" e acabar com os paninhos quentinhos: como diz o Joaquim Dionísio (e ele é insuspeito) os sindicatos (tanto os da UGT como os CGTP mais os restantes, incluindo os "não-alinhados") têm uma agenda com outros prioridades.

Por outro lado, as empresas, os empresa´rios e os gestores ainda não perceberam que é do seu interesse envolver os trabalhadores na identificação e resolução de problemas neste como nos restantes domínios que são cruciais para ganharmos as batalhas que faltam para ganhar a guerra do futuro.

Por seu turno, os médicos do trabalho, os engenheiros de segurança e os demais profissionais que trabalham nesta área anda distraídos (opu melhor: ocupados) a ganhar a sua vidinha e ainda não perceberam quão importante é a participação dos trabalhadores para o desenvolvimento (político, social, económico, técnico, científico, ético e profissional) deste domínio do conhecimento e da acção...

Já não falo dos restantes "stakeholders", a começar pelo Estado que, esse, faz o papel de triste figura nesta tragicomédia do cumprimento da legislação e regulamentação em matéria de S&ST... Quando o Estado não se comporta como pessoa de bem (não cumprindo, nomeadamente, as obrigações legais que impõe aos outros e a si próprio), não vale a pena gastar mais latim...

Saúde & Segurança do Trabalho - XVI: A tragicomédia da participação

1. Escreve a jornalista Mariana Oliveira, no destaque do "Público" sobre "riscos profissionais", na sua edição de domingo passado: "A participação dos trabalhadores na área de segurança, higiene e saúde no trabalho ainda é muito deficitária (sic). Desde 1991 que a lei prevê a possibilidade dos operários elegerem representantes que se pronunciem e proponham medidas para prevenir os riscos profissionais, mas os sindicatos estimam que em todo o universo empresarial português existam menos de 1800 elementos a exercer estas funções".


2. Para Joaquim Dionísio, responsável pelo gabinete de estudos da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), a questão tão falada da regulamentação da participação dos trabalhadores (que só se efectivou em 2004, mas que já estava prevista desde 1991), seria uma falsa questão. "A regulamentação não vai alterar nada. As eleições [ para os representantes dos trabalhadores para a área da saúde e segurança do trabalho, abreviadamenet S&ST ]já estavam a ser feitas ao abrigo da anterior legislação. O problema é que muitos sindicatos não consideram esta questão prioritária". Segundo este dirigente sindical, em 1750 representantes na área da saúde e segurança que deverão existir (segundo estimativas da CGTP), "mais de 1700 foram eleitos nas listas" desta Central Sindical.

3. os velhos fantasmas do passado vêm ao de cima. Ainda não os conseguimos exorcizar. Enquanto as centrais sindicais contam espingardas (em vez de apostarem forte na formação dos representantes dos trabalhadores para área da S&ST), o presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), Francisco van Zeller, faz-se eco do velho receio dos empresários segundo o qual esta é mais uma potencialmente perigosa figura de agitador sindical: segundo a jornalista do "Público", o dirigente da CIP terá dito que a intervenção dos representantes dos trabalhadores se traduz, na prática, "em reivindicações cegas, só para complicar" (sic)a vida às empresas e aos empresários. E terá acrescentado, civilizadamente, que não tem nada contra o princípio: "A participação dos trabalhadores, sempre que razoável e responsável, não pode deixar de ser valorada positivamente".

4. Pessoalmente, acho que a afirmação da jornalista do "Pùblico" peca por efeito: dizer que a participação dos trabalhadores portugueses em matéria de saúde e segurança do trabalho é "deficitária" é um eufemismo. Neste como noutros domínios, temos que "pegar o boi pelos cornos" e acabar com os paninhos quentinhos: como diz o Joaquim Dionísio (e ele é insuspeito) os sindicatos (tanto os da UGT como os CGTP mais os restantes, incluindo os "não-alinhados") têm uma agenda com outros prioridades.

Por outro lado, as empresas, os empresa´rios e os gestores ainda não perceberam que é do seu interesse envolver os trabalhadores na identificação e resolução de problemas neste como nos restantes domínios que são cruciais para ganharmos as batalhas que faltam para ganhar a guerra do futuro.

Por seu turno, os médicos do trabalho, os engenheiros de segurança e os demais profissionais que trabalham nesta área anda distraídos (opu melhor: ocupados) a ganhar a sua vidinha e ainda não perceberam quão importante é a participação dos trabalhadores para o desenvolvimento (político, social, económico, técnico, científico, ético e profissional) deste domínio do conhecimento e da acção...

Já não falo dos restantes "stakeholders", a começar pelo Estado que, esse, faz o papel de triste figura nesta tragicomédia do cumprimento da legislação e regulamentação em matéria de S&ST... Quando o Estado não se comporta como pessoa de bem (não cumprindo, nomeadamente, as obrigações legais que impõe aos outros e a si próprio), não vale a pena gastar mais latim...