24 julho 2005

Socio(b)logia - XVII: Espelho Meu... ou os portugas vistos pelos fotógrafos da Magnum

1. Um país tão pequeno e tão periférico (em relação ao centro do mundo, da notícia, do acontecimento, da história, da geopolítica, da economia global, em suma, tão longe da objectiva do fotógrafo) que cabe em mil negativos do arquivo de uma das mais célebres agências de fotojornalismo do mundo: a Magnum Photos, criada em 1947 por Henri Cartier-Bresson, Robert Capa e demais cooperantes.

Havia registos de 1955, da década de 60, do 25 de Abril de 1974, do PREC… Depois disso, os fotógrafos foram assobiar para outro lado. Que o mundo é vasto e fotogénico, mesmo quando feio, horrível, mau, sujo e perigoso.

Portugal e os portugas deixaram definitivamente de estar na moda quando a festa acabou. Os ratos abandonaram o navio. Na ressaca da festa, pá, ficaram os bêbados, os loucos, os marginais, os místicos, os poetas, os retornados, os deficientes das forças armadas, os cacimbados da guerra, os ex-soldados africanos ao nosso serviço, os desempregados da reforma agrária, os cães que ladram à lua, as mulheres de preto, os eternos perdedores… Trinta anos depois era preciso bater umas chapas para fazer o upgrade do arquivo. Vieram a Susan Meiselas, o Miguel Rio Branco, o Joseph Koudelka. Com as suas credenciais da praxe, as suas obsessões de estimação, o seu portfólio, o seu prestígio, os seus mitos, os seus medos, a sua vaidade, o seu génio, o seu código de ética e deontologia profissionais.

2. “Não era de surpreender a desconfiança com que os meus passos eram seguidos enquanto percorria as ruas da Cova da Moura, mas na Cova são propriedade privada. Cada esquina tem uma personalidade distinta” (Susan Meiselas).

A exposição, no CCB, começa nos Nos Kasa, a 10ª ilha de Cabo Verde, com seis a sete mil habitantes, incluindo gente oriunda de Angola e de S. Tomé e Príncipe, parte dela imigrantes ilegais. Com um fabuloso som de fundo: o coro das mulheres da Cova da Moura. Meiselas teve vontade de lá ir porque ouviu a notícia do arrastão na BBC ou noutra estação global qualquer.

De repente, Portugal dera de novo a volta ao mundo. O arrastão de Carcavelos foi notícia, à falta de Tsunami, vulcão, terramoto, atentado terrorista ou castigo divino. Há males que vêm por bem, dirão uns. As fotos da Meiselas, penduradas nas janelas, nas varandas e nos estendais da roupa do gueto da Cova da Moura, acabaram por dar-lhe uma outra dimensão mediática e contribuir para a melhoria da sua imagem e da auto-estima dos seus habitantes, náufragos do império, filhos de um deus menor.

Os jovens do bairro (e as suas associações, como a Associação Moínho da Juventude) perceberam que a fotografia pode ser uma arma. Que uma foto de Meiselas (e da Magnum) vale mais do que uma presidência aberta ou o estafado discurso de um presidente da câmara. As associações locais comentam que a notícia (da participação de jovens desta comunidade, local no já famoso arrastão de Carcavelos) foi um exagero, mas que acabou por ter um efeito positivo na sócio-economia da ilha.

Por 5 euros, os estrangeiros passaram a poder entrar, sem passaporte, na Cova da Moura, com direito a visita guiada e guarda-costas. Por mais 7 euros e meio, o turista podia inclusive provar os sabores da gastronomia local, a melhor cachupa da diáspora crioula. O período de tréguas, boa vontade e estado de graça acabou no dia 17 de Julho, mas a exposição do CCB continua aberta até final de Agosto.

Entretanto, a polícia vem agora dizer, pelo seu serviço de relações públicas, que afinal o arrastão nunca existiu: fora uma figura de retórica. País de inventonas, de polícias que gostam de fazer notícia e de jornalistas que dão demasiado crédito aos polícias. País de minorias que a maioria nega, escamoteia, ignora. Todos iguais, mas uns mais do que outros.

3. Miguel Rio Branco (n. 1946), de ascendência lusitana, é o único dos fotógrafos que fala com o coração: “Portugal, o berço dos meus antepassados, das primeiras memórias com significado, dos meus primeiros amores, deixa-me sempre profundamente emocionado. Mais uma vez, procuro as raízes que perdi…”. E quem pode viver sem raízes ? É preciso o trabalho do arqueólogo, do paleontólogo, do geólogo, do etnólogo, para voltar a aprender a ler as sucessivas camadas que compõem a realidade de Portugal e dos portugueses: um coração talhado na pedra, a pedra, o chão, a sombra, a penumbra, as castanhas quentes e boas, o silêncio, a cruz, o mistério, o profano e o sagrado...

4. Também nada tem de fotojornalismo o olhar de Josef Koudelka… Aqui não há mais tropas, tanques, botas a esmagar a primavera de Praga, os cravos checos. Aqui já não há império, nem do mal nem do bem. Apenas uma paisagem calcinada pelos incêndios que lavram desde o 25 de Abril de 1974 e que nunca mais se extinguiram. Portugal está a arder em fogo lento. Portugal já ardeu. Portugal é consumido por uma trágica paixão. Foi a mensagem que eu li nas legendas que podiam ser em checo ou noutra língua qualquer, desde que falada pelos humanos: “Passei seis semanas em Portugal. Viajei de norte a sul, de este a oeste. Segui um caminho que eu próprio tracei. Tentei ver o máximo. Fiquei surpreso. Com o que Portugal mudou desde os anos setenta. Mas eu também mudei” (Josef Koudelka).

Todos nós mudámos, camarada. E connosco, Portugal, o mundo... Mas em 1979, cinco anos depois do poder ter sofrido o risco de cair na rua, o que atrai o fotógrafo é a Ladeira do Pinheiro, a santa, a “Procissão dos milagres”, o Portugal no seu pior, o Portugal do (pro)fundo, o Portugal sacro-profano (Bruno Barbey, n. 1941). Mas se o Portugal não tem raça nem fotogenia, tem-nas, uma e outra, os ciganos, as minorias, os marginais. Registe-se as cenas de um casamento cigano, em 1998 (Bruce Golden, n. 1946). Há ainda o olhar, eslavo, russo, de Georgui Pinkhassov (n. 1952), sobre o Barro Alto, o Chiado, Alfama (1998), a Lisboa saloia, mourisca, judaica, cristã, exótica, pitoresca, labiríntica, que sempre seduziu o olhar do outro, o estrangeiro, desde os francos, os cruzados, o Bráulio no Séc. XVI ou o Byron no Séc. XIX.

5. Afinal, o único núcleo temático desta mostra (decepcionante, nalguns casos; provocadora, irritante, estimulante, noutros) que se pode qualificar de fotojornalismo propriamente dito é o do 25 de Abril de 1974.

Portugal desperta a curiosidade (romântica ? voyeurista ? interesseira ?) dos fotógrafos e de alguns revolucionários profissionais, sem esquecer os perdedores do Chile de Allende, da França do Maio de 68, da contestação à guerra do Vietname, dos cientistas da revolução social…

Guy de Querrec (n. 1941), Jean Gaumy (n. 1948) e Gilles Peress (n. 1946) são os três fotógrafos da Agência que estão de serviço ao Portugal do PREC de 1974/75.Venez, copains et copines, il ya une révolution qui marche, là bas au Portugal. Viva Portugal, o laboratório social!

Foto de uma imagem de Koudelka (1976), exposta no CCB, por Luís Graça (2005): Talvez o melhor retrato do Portugal que nasce e renasce. A não perder. Exposição no CCB (Centro Cultural de Belém, Lisboa) > Espelho Meu: Portugal visto por fotógrafos da Magnum. Data: 1 de Julho a 28d e Agosto de 2005. Comissariado: Alexandra Fonseca Pinho e Andrea Holzherr (Magnum Photos Paris). Produção: Centro Cultural de Belém e Agência Magnum Photos Paris

A fotografia que melhor retrata os anos sombrios de 1976, tão sombrios como os de hoje, tão sombrios como o day-after de todas a s euforias, de todas as orgias sociais, em todas as épocas e sociedades, ainda é a de Koudelka, a do homem, maneta, que sai do mar, enquanto uma criancinha berra ao colo da mãe que teima em levá-la ao banho. O Portugal futuro, parafraseando o Ruy Belo, em confronto com o do passado, que acabava de ser liquidado… Confronto ? Nem isso, há um Portugal que sai de cena, o maneta, e outro que entra… Medo de entrar na água ? Mais do que medo, direi que é pânico. O pânico de ter que lidar com o futuro, as suas oportunidades e as suas ameaças.

6. Thomas Hoepker conheceu o Portugal dos anos 60. Um certo Portugal, o da minha adolescência. Trás-os-Montes, que eu só conheci mais tarde. Quem viajava nessa época ? Por que estradas ? A salto, para França, por terras de Espanha. Há uma revolução silenciosa, em marcha, que nenhum fotojornalista da Magnum captou.

... Mas também se viajava de comboio, pela calada da noite, desde o Campo Militar de Santa Margarida até ao barco que nos esperava no cais Conde de Óbidos. Destino: o Ultramar, Angola, a jóia da coroa, depois da perda dos brasis, das índias. Mas também a Guiné ou Moçambique.

Em 1964, é ainda o que resta do Portugal rural, pobrezinho, mas feliz q.b., tão bem retratado nas fotos do casamento popular ou do latifundiário, sozinho, à mesa. Ou ainda do fascismo serôdio, tão podre que irá cair da cadeira com o seu velho criador, uns anos depois.

Ainda em 1964, os padres (católicos, não há outros) entronizavam as criancinhas nos ritos e ritmos patrioteiros da Mocidade Portuguesa. Que a Pátria (n)os chamava: “Para Angola, rapidamente e em força!”...

7. Cartier-Bresson e Inge Morath tinham fotografado os portugas de 1955, o Portugal ronceiro e engravatado do salazarismo, recauchutado e recuperado pela NATO, três anos antes do furacão chamado General Sem Medo:”Obviamente, demito-o” (referia-se a Salazar).

Os fotógrafos da Magnum tinham mais que fazer do que documentar o simulacro de eleições livres para a presidência da república das bananas. A estética do realismo social fixa, enquadra, recorta, emoldura, aquilo que era o Portugal very typical do Secretariado Nacional da Propaganda (mais tarde, Informação), ainda e sempre pela batuta do António Ferro. A Nazaré, o Toinho, de pé descalço, a Maria das sete saias… É ainda e sempre esta pobreza envergonhada dos pobres envergonhados que um dia ousaram sonhar ser donos do mundo.

8. Paralelamente à exposição, é exibido um vídeo (uma reportagem que passou na RTP há alguns anos) sobre os documentários (quatro dezenas) que foram feitos por estrangeiros sobre o PREC (o período que vai do 25 de Abril de 1974 a 25 de Novembro de 1975). Vários dos jornalistas e realizadores são entrevistados: Robert Kramer, Thomas Harlan… Já o tinha visto na altura. Mas gostei de o rever.

Registo a intervenção do cineasta Thomas Harlan, que filmou o processo de ocupação da Torre Bela, e que vem falar em “suicídio” das forças armadas portuguesas. Nunca se tinha visto isso. Uns meses antes, no Chile, um exército de estrutura prussiana, nazi, esmaga Allende e subjuga o seu próprio povo.

Esse suicídio (colectivo, institucional), a ter acontecido, aconteceu ou começou a ser preparado na Guiné. Mas a Magnum nunca esteve, com os seus fotógrafos, na Guiné Portuguesa, hoje Guiné-Bissau.... Não estava na Guiné para testemunhar o princípio do alegado suicídio das Forças Armadas Portuguesas. Só Deus pode estar em todo o lado... Mas nessa época também Ele devia andar muito distraído.

Socio(b)logia - XVII: Espelho Meu... ou os portugas vistos pelos fotógrafos da Magnum

1. Um país tão pequeno e tão periférico (em relação ao centro do mundo, da notícia, do acontecimento, da história, da geopolítica, da economia global, em suma, tão longe da objectiva do fotógrafo) que cabe em mil negativos do arquivo de uma das mais célebres agências de fotojornalismo do mundo: a Magnum Photos, criada em 1947 por Henri Cartier-Bresson, Robert Capa e demais cooperantes.

Havia registos de 1955, da década de 60, do 25 de Abril de 1974, do PREC… Depois disso, os fotógrafos foram assobiar para outro lado. Que o mundo é vasto e fotogénico, mesmo quando feio, horrível, mau, sujo e perigoso.

Portugal e os portugas deixaram definitivamente de estar na moda quando a festa acabou. Os ratos abandonaram o navio. Na ressaca da festa, pá, ficaram os bêbados, os loucos, os marginais, os místicos, os poetas, os retornados, os deficientes das forças armadas, os cacimbados da guerra, os ex-soldados africanos ao nosso serviço, os desempregados da reforma agrária, os cães que ladram à lua, as mulheres de preto, os eternos perdedores… Trinta anos depois era preciso bater umas chapas para fazer o upgrade do arquivo. Vieram a Susan Meiselas, o Miguel Rio Branco, o Joseph Koudelka. Com as suas credenciais da praxe, as suas obsessões de estimação, o seu portfólio, o seu prestígio, os seus mitos, os seus medos, a sua vaidade, o seu génio, o seu código de ética e deontologia profissionais.

2. “Não era de surpreender a desconfiança com que os meus passos eram seguidos enquanto percorria as ruas da Cova da Moura, mas na Cova são propriedade privada. Cada esquina tem uma personalidade distinta” (Susan Meiselas).

A exposição, no CCB, começa nos Nos Kasa, a 10ª ilha de Cabo Verde, com seis a sete mil habitantes, incluindo gente oriunda de Angola e de S. Tomé e Príncipe, parte dela imigrantes ilegais. Com um fabuloso som de fundo: o coro das mulheres da Cova da Moura. Meiselas teve vontade de lá ir porque ouviu a notícia do arrastão na BBC ou noutra estação global qualquer.

De repente, Portugal dera de novo a volta ao mundo. O arrastão de Carcavelos foi notícia, à falta de Tsunami, vulcão, terramoto, atentado terrorista ou castigo divino. Há males que vêm por bem, dirão uns. As fotos da Meiselas, penduradas nas janelas, nas varandas e nos estendais da roupa do gueto da Cova da Moura, acabaram por dar-lhe uma outra dimensão mediática e contribuir para a melhoria da sua imagem e da auto-estima dos seus habitantes, náufragos do império, filhos de um deus menor.

Os jovens do bairro (e as suas associações, como a Associação Moínho da Juventude) perceberam que a fotografia pode ser uma arma. Que uma foto de Meiselas (e da Magnum) vale mais do que uma presidência aberta ou o estafado discurso de um presidente da câmara. As associações locais comentam que a notícia (da participação de jovens desta comunidade, local no já famoso arrastão de Carcavelos) foi um exagero, mas que acabou por ter um efeito positivo na sócio-economia da ilha.

Por 5 euros, os estrangeiros passaram a poder entrar, sem passaporte, na Cova da Moura, com direito a visita guiada e guarda-costas. Por mais 7 euros e meio, o turista podia inclusive provar os sabores da gastronomia local, a melhor cachupa da diáspora crioula. O período de tréguas, boa vontade e estado de graça acabou no dia 17 de Julho, mas a exposição do CCB continua aberta até final de Agosto.

Entretanto, a polícia vem agora dizer, pelo seu serviço de relações públicas, que afinal o arrastão nunca existiu: fora uma figura de retórica. País de inventonas, de polícias que gostam de fazer notícia e de jornalistas que dão demasiado crédito aos polícias. País de minorias que a maioria nega, escamoteia, ignora. Todos iguais, mas uns mais do que outros.

3. Miguel Rio Branco (n. 1946), de ascendência lusitana, é o único dos fotógrafos que fala com o coração: “Portugal, o berço dos meus antepassados, das primeiras memórias com significado, dos meus primeiros amores, deixa-me sempre profundamente emocionado. Mais uma vez, procuro as raízes que perdi…”. E quem pode viver sem raízes ? É preciso o trabalho do arqueólogo, do paleontólogo, do geólogo, do etnólogo, para voltar a aprender a ler as sucessivas camadas que compõem a realidade de Portugal e dos portugueses: um coração talhado na pedra, a pedra, o chão, a sombra, a penumbra, as castanhas quentes e boas, o silêncio, a cruz, o mistério, o profano e o sagrado...

4. Também nada tem de fotojornalismo o olhar de Josef Koudelka… Aqui não há mais tropas, tanques, botas a esmagar a primavera de Praga, os cravos checos. Aqui já não há império, nem do mal nem do bem. Apenas uma paisagem calcinada pelos incêndios que lavram desde o 25 de Abril de 1974 e que nunca mais se extinguiram. Portugal está a arder em fogo lento. Portugal já ardeu. Portugal é consumido por uma trágica paixão. Foi a mensagem que eu li nas legendas que podiam ser em checo ou noutra língua qualquer, desde que falada pelos humanos: “Passei seis semanas em Portugal. Viajei de norte a sul, de este a oeste. Segui um caminho que eu próprio tracei. Tentei ver o máximo. Fiquei surpreso. Com o que Portugal mudou desde os anos setenta. Mas eu também mudei” (Josef Koudelka).

Todos nós mudámos, camarada. E connosco, Portugal, o mundo... Mas em 1979, cinco anos depois do poder ter sofrido o risco de cair na rua, o que atrai o fotógrafo é a Ladeira do Pinheiro, a santa, a “Procissão dos milagres”, o Portugal no seu pior, o Portugal do (pro)fundo, o Portugal sacro-profano (Bruno Barbey, n. 1941). Mas se o Portugal não tem raça nem fotogenia, tem-nas, uma e outra, os ciganos, as minorias, os marginais. Registe-se as cenas de um casamento cigano, em 1998 (Bruce Golden, n. 1946). Há ainda o olhar, eslavo, russo, de Georgui Pinkhassov (n. 1952), sobre o Barro Alto, o Chiado, Alfama (1998), a Lisboa saloia, mourisca, judaica, cristã, exótica, pitoresca, labiríntica, que sempre seduziu o olhar do outro, o estrangeiro, desde os francos, os cruzados, o Bráulio no Séc. XVI ou o Byron no Séc. XIX.

5. Afinal, o único núcleo temático desta mostra (decepcionante, nalguns casos; provocadora, irritante, estimulante, noutros) que se pode qualificar de fotojornalismo propriamente dito é o do 25 de Abril de 1974.

Portugal desperta a curiosidade (romântica ? voyeurista ? interesseira ?) dos fotógrafos e de alguns revolucionários profissionais, sem esquecer os perdedores do Chile de Allende, da França do Maio de 68, da contestação à guerra do Vietname, dos cientistas da revolução social…

Guy de Querrec (n. 1941), Jean Gaumy (n. 1948) e Gilles Peress (n. 1946) são os três fotógrafos da Agência que estão de serviço ao Portugal do PREC de 1974/75.Venez, copains et copines, il ya une révolution qui marche, là bas au Portugal. Viva Portugal, o laboratório social!

Foto de uma imagem de Koudelka (1976), exposta no CCB, por Luís Graça (2005): Talvez o melhor retrato do Portugal que nasce e renasce. A não perder. Exposição no CCB (Centro Cultural de Belém, Lisboa) > Espelho Meu: Portugal visto por fotógrafos da Magnum. Data: 1 de Julho a 28d e Agosto de 2005. Comissariado: Alexandra Fonseca Pinho e Andrea Holzherr (Magnum Photos Paris). Produção: Centro Cultural de Belém e Agência Magnum Photos Paris

A fotografia que melhor retrata os anos sombrios de 1976, tão sombrios como os de hoje, tão sombrios como o day-after de todas a s euforias, de todas as orgias sociais, em todas as épocas e sociedades, ainda é a de Koudelka, a do homem, maneta, que sai do mar, enquanto uma criancinha berra ao colo da mãe que teima em levá-la ao banho. O Portugal futuro, parafraseando o Ruy Belo, em confronto com o do passado, que acabava de ser liquidado… Confronto ? Nem isso, há um Portugal que sai de cena, o maneta, e outro que entra… Medo de entrar na água ? Mais do que medo, direi que é pânico. O pânico de ter que lidar com o futuro, as suas oportunidades e as suas ameaças.

6. Thomas Hoepker conheceu o Portugal dos anos 60. Um certo Portugal, o da minha adolescência. Trás-os-Montes, que eu só conheci mais tarde. Quem viajava nessa época ? Por que estradas ? A salto, para França, por terras de Espanha. Há uma revolução silenciosa, em marcha, que nenhum fotojornalista da Magnum captou.

... Mas também se viajava de comboio, pela calada da noite, desde o Campo Militar de Santa Margarida até ao barco que nos esperava no cais Conde de Óbidos. Destino: o Ultramar, Angola, a jóia da coroa, depois da perda dos brasis, das índias. Mas também a Guiné ou Moçambique.

Em 1964, é ainda o que resta do Portugal rural, pobrezinho, mas feliz q.b., tão bem retratado nas fotos do casamento popular ou do latifundiário, sozinho, à mesa. Ou ainda do fascismo serôdio, tão podre que irá cair da cadeira com o seu velho criador, uns anos depois.

Ainda em 1964, os padres (católicos, não há outros) entronizavam as criancinhas nos ritos e ritmos patrioteiros da Mocidade Portuguesa. Que a Pátria (n)os chamava: “Para Angola, rapidamente e em força!”...

7. Cartier-Bresson e Inge Morath tinham fotografado os portugas de 1955, o Portugal ronceiro e engravatado do salazarismo, recauchutado e recuperado pela NATO, três anos antes do furacão chamado General Sem Medo:”Obviamente, demito-o” (referia-se a Salazar).

Os fotógrafos da Magnum tinham mais que fazer do que documentar o simulacro de eleições livres para a presidência da república das bananas. A estética do realismo social fixa, enquadra, recorta, emoldura, aquilo que era o Portugal very typical do Secretariado Nacional da Propaganda (mais tarde, Informação), ainda e sempre pela batuta do António Ferro. A Nazaré, o Toinho, de pé descalço, a Maria das sete saias… É ainda e sempre esta pobreza envergonhada dos pobres envergonhados que um dia ousaram sonhar ser donos do mundo.

8. Paralelamente à exposição, é exibido um vídeo (uma reportagem que passou na RTP há alguns anos) sobre os documentários (quatro dezenas) que foram feitos por estrangeiros sobre o PREC (o período que vai do 25 de Abril de 1974 a 25 de Novembro de 1975). Vários dos jornalistas e realizadores são entrevistados: Robert Kramer, Thomas Harlan… Já o tinha visto na altura. Mas gostei de o rever.

Registo a intervenção do cineasta Thomas Harlan, que filmou o processo de ocupação da Torre Bela, e que vem falar em “suicídio” das forças armadas portuguesas. Nunca se tinha visto isso. Uns meses antes, no Chile, um exército de estrutura prussiana, nazi, esmaga Allende e subjuga o seu próprio povo.

Esse suicídio (colectivo, institucional), a ter acontecido, aconteceu ou começou a ser preparado na Guiné. Mas a Magnum nunca esteve, com os seus fotógrafos, na Guiné Portuguesa, hoje Guiné-Bissau.... Não estava na Guiné para testemunhar o princípio do alegado suicídio das Forças Armadas Portuguesas. Só Deus pode estar em todo o lado... Mas nessa época também Ele devia andar muito distraído.

Guiné 63/74 - CXXV: Homenagem aos mortos da minha terra (Lourinhã, 2005)

Pormenor do monumento aos lourinhanenses mortos na Guerra do Utramar. Lourinhã, Largo António Granjo. © Luís Graça (2005).

1. José António Canoa Nogueira, o primeiro morto da Lourinhã, na Guiné. Em 1965. Tinha eu os meus dezoito anos e, por isso, já tinha dado o nome para ir às sortes. A pacata vila do oeste estremenho foi sacudida pela notícia da morte do Nogueira. Já não me lembro onde nem em que circunstâncias. Sei que foi algures na Guiné. As Forças Armadas não davam explicações dessas. Um telegrama, seco e brutal, chegava normalmente a casa do pai e/ou mãe, uns dias depois, anunciando a funesta notícia: “As Forças Armadas cumprem o doloroso dever de o(a) informar que o seu filho morreu no campo da honra, servindo a Pátria”. Imagino que o teor do telegrama fosse esse...

Sei que o soldado Nogueira moreu em 30 de Janeiro de 1965. Soube-o através do memorial que consta da página do Jorge Santos (Obrigado, amigo!). O funeral do Nogueira, largas semanas ou até meses depois (já não posso precisar), foi uma impressionante manifestação de dor. Lembro-me da urna, selada, em chumbo. Dos soldados fardados e aprumados, vindos de Mafra, da Escola Prática de Infantaria. Da salva de tiros. Do luto carregado. Da emoção no ar. De uma família destroçada. De uma comunidade comovida. Dos boatos: "Se calhar o caixão vem é cheio de pedras". Da estupefacção e do medo dos mancebos que estavam na lista para a tropa. Lembro-me sobretudo do silêncio do cemitério. Nasci e vivi os meus primeiros anos, a 100 metros de um cemitério. Era incapaz de lá passar à noite quando puto. A paz do cemitério num país em guerra... a milhares de quilómetros das portas de cada um de nós.

O Nogueira era meu primo, embora em 3º grau. Não tínhamos grande convívio, mas os nossos pais (o pai dele e a minha mãe) eram primos direitos. As nossas avós maternas eram irmãs. Todavia, a sua morte tocou-me. A morte aproxima sempre os grupos, as famílias. Fiz-lhe uma singela (e creio que sentida) homenagem no jornal da terra, com direito a caixa alta. Um dia destes vou vasculhar os arquivos do quinzenário regionalista Alvorada para rever a sua foto e o meu texto. E eventualmente republicá-los aqui, no blogue, se o director do jornal, o Padre Joaquim Batalha, mo autorizar.

Na altura eu ainda era o chefe de redacção e o repórter principal daquela publicação. Já não me lembro do que escrevi nessas circunstâncias difíceis. Tenho uma vaga ideia de ter desejado, em letra de forma, que a morte do primeiro lourinhanense na guerra da Guiné não tivesse sido em vão. Não sei se foi depois disso que o director, o Padre António Escudeiro, recebeu um ofício do Ministério do Interior a perguntar por que é que o jornal já não ia à censura prévia há mais de um ano. Duas linhas, secas, burocráticas, impessoais. Em baixo, ocupando mais de metade da folha, a assinatura, em letra garrafal, mais arrogante e intimadatória que eu jamais vi em toda a minha vida… Se o fascismo existiu na minha terra, na nossa terra, então essa assinatura do censor-mor (ou de algum dos seus esbirros) era fascismo, puro e duro.

2. Por contraste, o funeral do Nogueira trouxe-me à memória a festa da chegada de um meu vizinho que veio da Índia Portuguesa, são e salvo. Ainda antes da invasão de Goa, Damão e Diu. Terá sido por volta de 1956, andava já eu na escola. O Jorge da Ti Albertina teve honras de herói, na nossa rua, a Rua do Castelo, a rua do cemitério. Era a última ou penúltima casa antes do cemitério. Ainda ecoam, na minha cabeça, as manifestações de alegria (o riso, o choro sufocado, os gritos, os abraços, os beijos) com que a Ti Alberina, a família e os vizinhos da rua receberam o nosso soldado e herói da Índia, um dos nossos últimos soldados e heróis da Índia. Eu era puto de bibe, andava na escola e jogava ao pião: para mim, todos os soldados eram heróis.

Escultura em bronze do combatente da Guerra do Ultramar. O monumento é da autoria do arquitecto A. Silva e da escultora A. Couto © Luís Graça (2005).

3. Em 26 de Junho passado, a Lourinhã, através da autarquia local, prestou a devida homenagem aos seus mortos no Ultramar: vinte ao todo, nove em Angola, seis na Guiné, cinco em Moçambique. Nesse dia foi inaugurado um "monumento aos lourinhanenses mortos na guerra do Ultramar”, obra do arquitecto Augusto Silva e da escultora Andreia Couto.

Fizeram parte da comissão organizadora, entre outros ex-combatentes, os meus amigos e conterrâneos João Delgado, Jaime Bonifácio e José Picão de Oliveira: este último, foi furriel miliciano na zona leste da Guiné, mesmo na ponta nordeste, em Canquelifá, tendo regressado já em Setembro de 1974, enquanto o Jaime foi alferes milicano paraquedista em Angola, sensivelmente na mesma época em que eu fui mobilizado para a Guiné (1969/71).

Vinte mortos (seis dos quais na Guiné, entre 1965 e 1973) foi o contributo da minha terra, o imposto de sangue que os lourinhanenses pagaram na defesa dum império e de um regime em agonia. Registo aqui, porque muito apropriadas, as palavras do presidente da Câmara Municipal da Lourinhã, José Manuel Custódio, na homenagem aos nossos mortos: "Pior do que uma guerra é fazer de conta que ela nunca existiu, e a guerra de África existiu".

Não estive na cerimónia nem tive conhecimento conhecimento antecipado dela. Sou um lourinhanense da diáspora. Mas leio no jornal da terra, o mesmo de há quarenta anos, o Alvorada, a notícia a dizer que "numa cerimónia simples, a altura da chamada dos mortos em combate foi a mais sentida por todos os presentes" e que as honras militares foram feitas por um pelotão da Escola Prática de Infantaria (EPI) de Mafra, e a sua fanfarra. A mesma unidade que quarenta anos antes tinha prestado as honras fúnebres ao meu primo Nogueira, se a memória não me atraiçoa.

Registo ainda a presença do (i) Tenente General Jorge Silvério, um homem do MFA, natural de Ribamar onde tenho inúmeros parentes, do lado da minha visavó paterna (a família Maçarico); do (ii) Patuleia, o meu amigo Patuleia, natural do concelho vizinho do Bombarral, o Manuel Patuleia Mendes, presidente da Associação Portuguesa dos Deficientes das Forças Armadas, ele próprio talvez o mais dramático exemplo do horror, estampado no rosto, do que foi esta guerra para os jovens da nossa geração; e, por fim, do (iii) António Basto, Presidente da Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra.

Guiné 63/74 - CXXV: Homenagem aos mortos da minha terra (Lourinhã, 2005)

Pormenor do monumento aos lourinhanenses mortos na Guerra do Utramar. Lourinhã, Largo António Granjo. © Luís Graça (2005).

1. José António Canoa Nogueira, o primeiro morto da Lourinhã, na Guiné. Em 1965. Tinha eu os meus dezoito anos e, por isso, já tinha dado o nome para ir às sortes. A pacata vila do oeste estremenho foi sacudida pela notícia da morte do Nogueira. Já não me lembro onde nem em que circunstâncias. Sei que foi algures na Guiné. As Forças Armadas não davam explicações dessas. Um telegrama, seco e brutal, chegava normalmente a casa do pai e/ou mãe, uns dias depois, anunciando a funesta notícia: “As Forças Armadas cumprem o doloroso dever de o(a) informar que o seu filho morreu no campo da honra, servindo a Pátria”. Imagino que o teor do telegrama fosse esse...

Sei que o soldado Nogueira moreu em 30 de Janeiro de 1965. Soube-o através do memorial que consta da página do Jorge Santos (Obrigado, amigo!). O funeral do Nogueira, largas semanas ou até meses depois (já não posso precisar), foi uma impressionante manifestação de dor. Lembro-me da urna, selada, em chumbo. Dos soldados fardados e aprumados, vindos de Mafra, da Escola Prática de Infantaria. Da salva de tiros. Do luto carregado. Da emoção no ar. De uma família destroçada. De uma comunidade comovida. Dos boatos: "Se calhar o caixão vem é cheio de pedras". Da estupefacção e do medo dos mancebos que estavam na lista para a tropa. Lembro-me sobretudo do silêncio do cemitério. Nasci e vivi os meus primeiros anos, a 100 metros de um cemitério. Era incapaz de lá passar à noite quando puto. A paz do cemitério num país em guerra... a milhares de quilómetros das portas de cada um de nós.

O Nogueira era meu primo, embora em 3º grau. Não tínhamos grande convívio, mas os nossos pais (o pai dele e a minha mãe) eram primos direitos. As nossas avós maternas eram irmãs. Todavia, a sua morte tocou-me. A morte aproxima sempre os grupos, as famílias. Fiz-lhe uma singela (e creio que sentida) homenagem no jornal da terra, com direito a caixa alta. Um dia destes vou vasculhar os arquivos do quinzenário regionalista Alvorada para rever a sua foto e o meu texto. E eventualmente republicá-los aqui, no blogue, se o director do jornal, o Padre Joaquim Batalha, mo autorizar.

Na altura eu ainda era o chefe de redacção e o repórter principal daquela publicação. Já não me lembro do que escrevi nessas circunstâncias difíceis. Tenho uma vaga ideia de ter desejado, em letra de forma, que a morte do primeiro lourinhanense na guerra da Guiné não tivesse sido em vão. Não sei se foi depois disso que o director, o Padre António Escudeiro, recebeu um ofício do Ministério do Interior a perguntar por que é que o jornal já não ia à censura prévia há mais de um ano. Duas linhas, secas, burocráticas, impessoais. Em baixo, ocupando mais de metade da folha, a assinatura, em letra garrafal, mais arrogante e intimadatória que eu jamais vi em toda a minha vida… Se o fascismo existiu na minha terra, na nossa terra, então essa assinatura do censor-mor (ou de algum dos seus esbirros) era fascismo, puro e duro.

2. Por contraste, o funeral do Nogueira trouxe-me à memória a festa da chegada de um meu vizinho que veio da Índia Portuguesa, são e salvo. Ainda antes da invasão de Goa, Damão e Diu. Terá sido por volta de 1956, andava já eu na escola. O Jorge da Ti Albertina teve honras de herói, na nossa rua, a Rua do Castelo, a rua do cemitério. Era a última ou penúltima casa antes do cemitério. Ainda ecoam, na minha cabeça, as manifestações de alegria (o riso, o choro sufocado, os gritos, os abraços, os beijos) com que a Ti Alberina, a família e os vizinhos da rua receberam o nosso soldado e herói da Índia, um dos nossos últimos soldados e heróis da Índia. Eu era puto de bibe, andava na escola e jogava ao pião: para mim, todos os soldados eram heróis.

Escultura em bronze do combatente da Guerra do Ultramar. O monumento é da autoria do arquitecto A. Silva e da escultora A. Couto © Luís Graça (2005).

3. Em 26 de Junho passado, a Lourinhã, através da autarquia local, prestou a devida homenagem aos seus mortos no Ultramar: vinte ao todo, nove em Angola, seis na Guiné, cinco em Moçambique. Nesse dia foi inaugurado um "monumento aos lourinhanenses mortos na guerra do Ultramar”, obra do arquitecto Augusto Silva e da escultora Andreia Couto.

Fizeram parte da comissão organizadora, entre outros ex-combatentes, os meus amigos e conterrâneos João Delgado, Jaime Bonifácio e José Picão de Oliveira: este último, foi furriel miliciano na zona leste da Guiné, mesmo na ponta nordeste, em Canquelifá, tendo regressado já em Setembro de 1974, enquanto o Jaime foi alferes milicano paraquedista em Angola, sensivelmente na mesma época em que eu fui mobilizado para a Guiné (1969/71).

Vinte mortos (seis dos quais na Guiné, entre 1965 e 1973) foi o contributo da minha terra, o imposto de sangue que os lourinhanenses pagaram na defesa dum império e de um regime em agonia. Registo aqui, porque muito apropriadas, as palavras do presidente da Câmara Municipal da Lourinhã, José Manuel Custódio, na homenagem aos nossos mortos: "Pior do que uma guerra é fazer de conta que ela nunca existiu, e a guerra de África existiu".

Não estive na cerimónia nem tive conhecimento conhecimento antecipado dela. Sou um lourinhanense da diáspora. Mas leio no jornal da terra, o mesmo de há quarenta anos, o Alvorada, a notícia a dizer que "numa cerimónia simples, a altura da chamada dos mortos em combate foi a mais sentida por todos os presentes" e que as honras militares foram feitas por um pelotão da Escola Prática de Infantaria (EPI) de Mafra, e a sua fanfarra. A mesma unidade que quarenta anos antes tinha prestado as honras fúnebres ao meu primo Nogueira, se a memória não me atraiçoa.

Registo ainda a presença do (i) Tenente General Jorge Silvério, um homem do MFA, natural de Ribamar onde tenho inúmeros parentes, do lado da minha visavó paterna (a família Maçarico); do (ii) Patuleia, o meu amigo Patuleia, natural do concelho vizinho do Bombarral, o Manuel Patuleia Mendes, presidente da Associação Portuguesa dos Deficientes das Forças Armadas, ele próprio talvez o mais dramático exemplo do horror, estampado no rosto, do que foi esta guerra para os jovens da nossa geração; e, por fim, do (iii) António Basto, Presidente da Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra.

Guiné 63/74 - CXXIV: Bibliografia da guerra no feminino (3): Madrinhas de guerra

Pela mão do Jorge Santos, sempre atento, chegou-nos este belíssimo texto. É da autoria de Constança Lucas (2001), artista plástica e poeta. Vem na sua página pessoal (Pintura, Desenho, Aquarela, Pintura em Azulejos, Poesia, Prosa Poética, Fotografia, Poesia Visual, Desenhos no computador, Selos Postais, Desenhos para livros... Nascida em Coimbra em 1960, a autora vive e trabalha actualmente em S. Paulo, Brasil).


© Constança Lucas (1997-2005)

Madrinha de Guerra

Madrinha de Guerra, como se algo assim fosse possível de imaginar. Mas sim existiam e serviam para escrever aerogramas aos soldados da guerra colonial, algumas o faziam com entusiasmo, por também precisarem de ombro. A guerra - algo que nem sabiam bem porque existia.

Muitas perdidas na angústia da distância que as envolvia numa tristeza diária, na esperança de um retorno muitas vezes não acontecido, tentavam construir os seus afectos, divididas nem mesmo sabiam o que tinham com África. Esse continente distante que lhes engolia quem mais pensavam querer.

Tudo fingia mais calma, ninguém falava nos mortos e estropiados abertamente, tabu necessário à sobrevivência do regime.

As mulheres construíam os seus sonhos com pessoas que mal conheciam, na ânsia de amarem e serem amadas. Amavam perdidamente as poucas linhas que lhes chegavam, alimento das feridas tão fundas num mundo tão desigual.

Mesmo quando viam os imensos cortejos de gentes chorosas que seguiam num funeral, caixões de chumbo, corpos lacrados de jovens ou de pedras. E um povo assim sofrido é manipulado nas mais absurdas ideologias de dominação, as mortes tinham de fazer sentido, os inválidos tinham de ser vingados, os loucos tinham de ser esquecidos, os desertores eram clandestinos e chamados de fugidos a salto. Salto porque saltavam a fronteira da Espanha a pé sem serem vistos ou tentavam que assim fosse. Idos para terras que nem a língua conheciam e trabalho o mais miserável eras-lhes reservado como favor, afinal povo inferior.

Este povo olha para o mar há trezentos mil dias na crença que lá do outro lado poderão ser algo sem perseguições. Essa linha de horizonte que cria ilusões tão maravilhosas como funestas, ela que nos traz e mata as alegrias.

A água salgada cria laços de diálogo entre as diferenças, onde as lágrimas das mulheres são tão intensas, cansadas de ficarem sozinhas acreditavam que poderiam, sendo madrinhas, ter um coração aberto e correspondido. Perdidas nessas fantasias, a guerra impunha-se na chegada ou nos enterros de homens desconhecidos e atormentados, para quem elas haviam escrito, durante anos, todos os seus mais íntimos e inventados segredos.

Constança Lucas / 2001

Guiné 63/74 - CXXIV: Bibliografia da guerra no feminino (3): Madrinhas de guerra

Pela mão do Jorge Santos, sempre atento, chegou-nos este belíssimo texto. É da autoria de Constança Lucas (2001), artista plástica e poeta. Vem na sua página pessoal (Pintura, Desenho, Aquarela, Pintura em Azulejos, Poesia, Prosa Poética, Fotografia, Poesia Visual, Desenhos no computador, Selos Postais, Desenhos para livros... Nascida em Coimbra em 1960, a autora vive e trabalha actualmente em S. Paulo, Brasil).


© Constança Lucas (1997-2005)

Madrinha de Guerra

Madrinha de Guerra, como se algo assim fosse possível de imaginar. Mas sim existiam e serviam para escrever aerogramas aos soldados da guerra colonial, algumas o faziam com entusiasmo, por também precisarem de ombro. A guerra - algo que nem sabiam bem porque existia.

Muitas perdidas na angústia da distância que as envolvia numa tristeza diária, na esperança de um retorno muitas vezes não acontecido, tentavam construir os seus afectos, divididas nem mesmo sabiam o que tinham com África. Esse continente distante que lhes engolia quem mais pensavam querer.

Tudo fingia mais calma, ninguém falava nos mortos e estropiados abertamente, tabu necessário à sobrevivência do regime.

As mulheres construíam os seus sonhos com pessoas que mal conheciam, na ânsia de amarem e serem amadas. Amavam perdidamente as poucas linhas que lhes chegavam, alimento das feridas tão fundas num mundo tão desigual.

Mesmo quando viam os imensos cortejos de gentes chorosas que seguiam num funeral, caixões de chumbo, corpos lacrados de jovens ou de pedras. E um povo assim sofrido é manipulado nas mais absurdas ideologias de dominação, as mortes tinham de fazer sentido, os inválidos tinham de ser vingados, os loucos tinham de ser esquecidos, os desertores eram clandestinos e chamados de fugidos a salto. Salto porque saltavam a fronteira da Espanha a pé sem serem vistos ou tentavam que assim fosse. Idos para terras que nem a língua conheciam e trabalho o mais miserável eras-lhes reservado como favor, afinal povo inferior.

Este povo olha para o mar há trezentos mil dias na crença que lá do outro lado poderão ser algo sem perseguições. Essa linha de horizonte que cria ilusões tão maravilhosas como funestas, ela que nos traz e mata as alegrias.

A água salgada cria laços de diálogo entre as diferenças, onde as lágrimas das mulheres são tão intensas, cansadas de ficarem sozinhas acreditavam que poderiam, sendo madrinhas, ter um coração aberto e correspondido. Perdidas nessas fantasias, a guerra impunha-se na chegada ou nos enterros de homens desconhecidos e atormentados, para quem elas haviam escrito, durante anos, todos os seus mais íntimos e inventados segredos.

Constança Lucas / 2001

Guiné 63/74 - CXXIII: Op Mar Verde (invasão de Conacri) (5)

1. Mensagem do Afonso Sousa (22 de Julho de 2005), em resposta ao texto de A.Marques Lopes sobre o livro de Alpoím Galvão:

Binta, aonde estive !... Binta não era bem um quartel de mato, entalado no cerco alto do arame farpado, com velhos barracões de mancarra, outrora sinónimo de comércio, hoje com utilidades várias e sempre profundamente vazios. Vinham batelões rio [Cacheu] acima, sem perigos de morteiro, carregar colheitas de amendoim, que dariam óleo nos alambiques de Bissau. Não fossem as árvores e Binta seria agora um deserto.

Porquê, então, Binta ? Ponto estratégico (?), encostado ao Rio Cacheu, com Ganturé (nos tempos da guerra, a Base Fluvial de Alpoim Calvão) logo alí, um pouco mais a jusante (Bigene), ou local privilegiado para escoamento do produto.

O negrito talvez seja forte e quererá, também, significar que urge revisitar estes sítios !

Afinal fica claro. A Operação Mar Verde visava o derrube de Sekou Touré. O António Marques Lopes não refere se no livro o autor faz a justificação desse golpe de estado. Nós, no entanto, conhecemos alguns dos intentos, mas seria giro conhecê-los com maior profundidade através do seu maior protagonista (...).

2. Texto do A. Marques Lopes (23 de Julho de 2005):

Em especial para o amigo Afonso Sousa.

É muito claro no livro de Alpoim Calvão que o objectivo era derrubar o governo de Sékou Touré colocar no seu lugar a FLNG (Front de Libération National Guinéen), opositora do PDG, partido no poder, a qual impediria a existência de bases de apoio do PAIGC na Guiné-Conacri, o objectivo táctico. Com efeito, diz Calvão, a páginas 67-68:

"Desde 1964 que os oposicionistas guineenses, procuravam contactar, como é lógico, com as nossas autoridades. Foram-se trocando ideias, pesando possibilidades, mas não apareciam resultados práticos palpáveis. A política seguida pelo Governo Português dera origem a uma cautelosa estratégia militar, que considerava as fronteiras (?) tabu, permitindo assim que as unidades do PAIGC tivessem sempre possibilidades de refúgio, de recompletamento e de treino. Contudo, com a vinda do então Brigadeiro António de Spínola, as coisas tomaram outro rumo. Os oposicionistas guineenses começaram a sentir que havia viabilidades para realizações práticas que os poderiam ajudar a alcançar o objectivo das suas aspirações pertinazes — a queda do regime de Sekou Touré.

"As diversas ramificações do FNLG tinham vindo a contactar as autoridades portuguesas por canais diferentes — Ministério do Ultramar em Lisboa e Sub-Delegação da D.G.S. em Bissau. Esta, com o núcleo que se ia agrupando à sua volta, iniciou a recolha dum certo número de informações que, recortadas com as que vinham de Lisboa, fizeram perceber a amplitude da dissidência guineense.

"Foi primeira intenção do Governador e Comandante Chefe, instalar um ramo militar do FNLG algures em território da província, donde irradiariam acções de guerrilha contra o vizinho do Sul. Esta hipótese foi encarada em Outubro de 1969 começando-se os preparativos para a enformar. Necessariamente, assunto tão complexo levaria muito tempo a resolver em toda a extensão e assim de facto sucedeu.

"Mas com o decorrer do tempo, a viabilidade do plano parecia maior e verificava-se, com satisfação, que o projectado ataque aos navios do PAIGC em Conakry poderia ser perfeitamente enquadrado nas futuras operações de guerrilha do Front."

Mas diz ele [o Alpoím Galvão], logo à frente, que esta hipótese de uma guerrilha contra a República da Guiné a partir de território português levantaria problemas de política internacional junto da ONU e da OUA, pelo que, diz ele, "propôs que se executasse um golpe de Estado em Conakry o que obteve a imediata adesão do General Comandante Chefe".

Com esse objectivo, diz ele também, "após vários encontros de coordenação entre a parte portuguesa (Cap.ten.Calvão e Inspector Adjunto Matos Rodrigues [, da PIDE/DGS]) e os representantes do FNLG, realizados em Bissau, Paris e Genève, fizeram-se uma série de acções para a recolha do pessoal [do FNLG]" (p. 69).

Refere também que houve algumas reticências entre os operacionais desta acção. O major Leal de Almeida, supervisor da Companhia de Comandos Africanos, recusava-se a tomar parte nela, por achar ser contra a ética militar realizar uma operação contra o governo dum país com o qual não estávamos em guerra. Foi preso e mandado de helicóptero para Bissau, onde o General Spínola o mandou regressar novamente a Soga e reintegrar-se nas forças de assalto.

Mas esta atitude, reconhece ele [o Alpoím Galvão], teve efeito deletério no moral de alguns elementos da Companhia de Comandos Africanos. É assim que o capitão João Bacar Jaló, com grande ascendente sobre a CCA, revelou dúvidas e condicionalismos. Mas lá acedeu a participar. Esta situação terá, acho eu, tido alguma influência no resultado final da acção.

Claro que não restam dúvidas sobre os objectivos da Op Mar Verde. O Afonso Sousa tem razão.

Marques Lopes

Guiné 63/74 - CXXIII: Op Mar Verde (invasão de Conacri) (5)

1. Mensagem do Afonso Sousa (22 de Julho de 2005), em resposta ao texto de A.Marques Lopes sobre o livro de Alpoím Galvão:

Binta, aonde estive !... Binta não era bem um quartel de mato, entalado no cerco alto do arame farpado, com velhos barracões de mancarra, outrora sinónimo de comércio, hoje com utilidades várias e sempre profundamente vazios. Vinham batelões rio [Cacheu] acima, sem perigos de morteiro, carregar colheitas de amendoim, que dariam óleo nos alambiques de Bissau. Não fossem as árvores e Binta seria agora um deserto.

Porquê, então, Binta ? Ponto estratégico (?), encostado ao Rio Cacheu, com Ganturé (nos tempos da guerra, a Base Fluvial de Alpoim Calvão) logo alí, um pouco mais a jusante (Bigene), ou local privilegiado para escoamento do produto.

O negrito talvez seja forte e quererá, também, significar que urge revisitar estes sítios !

Afinal fica claro. A Operação Mar Verde visava o derrube de Sekou Touré. O António Marques Lopes não refere se no livro o autor faz a justificação desse golpe de estado. Nós, no entanto, conhecemos alguns dos intentos, mas seria giro conhecê-los com maior profundidade através do seu maior protagonista (...).

2. Texto do A. Marques Lopes (23 de Julho de 2005):

Em especial para o amigo Afonso Sousa.

É muito claro no livro de Alpoim Calvão que o objectivo era derrubar o governo de Sékou Touré colocar no seu lugar a FLNG (Front de Libération National Guinéen), opositora do PDG, partido no poder, a qual impediria a existência de bases de apoio do PAIGC na Guiné-Conacri, o objectivo táctico. Com efeito, diz Calvão, a páginas 67-68:

"Desde 1964 que os oposicionistas guineenses, procuravam contactar, como é lógico, com as nossas autoridades. Foram-se trocando ideias, pesando possibilidades, mas não apareciam resultados práticos palpáveis. A política seguida pelo Governo Português dera origem a uma cautelosa estratégia militar, que considerava as fronteiras (?) tabu, permitindo assim que as unidades do PAIGC tivessem sempre possibilidades de refúgio, de recompletamento e de treino. Contudo, com a vinda do então Brigadeiro António de Spínola, as coisas tomaram outro rumo. Os oposicionistas guineenses começaram a sentir que havia viabilidades para realizações práticas que os poderiam ajudar a alcançar o objectivo das suas aspirações pertinazes — a queda do regime de Sekou Touré.

"As diversas ramificações do FNLG tinham vindo a contactar as autoridades portuguesas por canais diferentes — Ministério do Ultramar em Lisboa e Sub-Delegação da D.G.S. em Bissau. Esta, com o núcleo que se ia agrupando à sua volta, iniciou a recolha dum certo número de informações que, recortadas com as que vinham de Lisboa, fizeram perceber a amplitude da dissidência guineense.

"Foi primeira intenção do Governador e Comandante Chefe, instalar um ramo militar do FNLG algures em território da província, donde irradiariam acções de guerrilha contra o vizinho do Sul. Esta hipótese foi encarada em Outubro de 1969 começando-se os preparativos para a enformar. Necessariamente, assunto tão complexo levaria muito tempo a resolver em toda a extensão e assim de facto sucedeu.

"Mas com o decorrer do tempo, a viabilidade do plano parecia maior e verificava-se, com satisfação, que o projectado ataque aos navios do PAIGC em Conakry poderia ser perfeitamente enquadrado nas futuras operações de guerrilha do Front."

Mas diz ele [o Alpoím Galvão], logo à frente, que esta hipótese de uma guerrilha contra a República da Guiné a partir de território português levantaria problemas de política internacional junto da ONU e da OUA, pelo que, diz ele, "propôs que se executasse um golpe de Estado em Conakry o que obteve a imediata adesão do General Comandante Chefe".

Com esse objectivo, diz ele também, "após vários encontros de coordenação entre a parte portuguesa (Cap.ten.Calvão e Inspector Adjunto Matos Rodrigues [, da PIDE/DGS]) e os representantes do FNLG, realizados em Bissau, Paris e Genève, fizeram-se uma série de acções para a recolha do pessoal [do FNLG]" (p. 69).

Refere também que houve algumas reticências entre os operacionais desta acção. O major Leal de Almeida, supervisor da Companhia de Comandos Africanos, recusava-se a tomar parte nela, por achar ser contra a ética militar realizar uma operação contra o governo dum país com o qual não estávamos em guerra. Foi preso e mandado de helicóptero para Bissau, onde o General Spínola o mandou regressar novamente a Soga e reintegrar-se nas forças de assalto.

Mas esta atitude, reconhece ele [o Alpoím Galvão], teve efeito deletério no moral de alguns elementos da Companhia de Comandos Africanos. É assim que o capitão João Bacar Jaló, com grande ascendente sobre a CCA, revelou dúvidas e condicionalismos. Mas lá acedeu a participar. Esta situação terá, acho eu, tido alguma influência no resultado final da acção.

Claro que não restam dúvidas sobre os objectivos da Op Mar Verde. O Afonso Sousa tem razão.

Marques Lopes

Guiné 63/74 - CXXII: Bibliografia da guerra no feminino (2)

Sugestão de leitura e selecção de Jorge Santos.

TÍTULO: As Mulheres e a Guerra Colonial
PUBLICAÇÃO: Revista Crítica de Ciências Sociais, 68
EDITORA: Centro de Estudos Sociais (Universidade de Coimbra)
DATA: Abril 2004

AUTORES E RESUMOS DOS ARTIGOS:

Margarida Calafate Ribeiro

África no feminino: As mulheres portuguesas e a Guerra Colonial

Procura-se traçar as linhas gerais que no discurso crítico histórico, político, sociológico e literário levaram a considerar a guerra como um fenómeno não exclusivamente masculino. Dentro da situação portuguesa, visa-se interpretar o "papel de apoio" que sempre esteve reservado às mulheres, de um ponto de vista público e privado, e analisar com mais detalhe a situação das mulheres portuguesas que acompanharam os maridos em missão militar em África, durante o período da Guerra Colonial.

Maria Manuela Cruzeiro

As mulheres e a Guerra Colonial: Um silêncio demasiado ruidoso

O texto pretende denunciar as várias camadas de silêncio com que a sociedade portuguesa fugiu ao encontro inevitável com a maior tragédia da sua contemporaneidade: a Guerra Colonial. A estratégia de ocultação, que oscila frequentemente entre o recalcamento e a denegação, atinge, quer os seus directos intervenientes (os militares mobilizados), quer as instituições do poder "político" e outro, quer sobretudo as suas vítimas mais ignoradas: as mulheres. Afastadas naturalmente da máquina de guerra, mas profundamente implicadas nos seus efeitos devastadores, o seu silêncio torna duplamente absurdo e incompreensível esse momento traumático da nossa história recente.

Helena Neves

Amor em tempo de guerra: Guerra Colonial, a (in)comunicabilidade (im)possível

O período da Guerra Colonial (1961-1974) produziu em Portugal profundas alterações de ordem demográfica, económica, social e cultural. Mas se o que é mensurável se encontra, hoje em dia, mais ou menos visível, há uma vertente que praticamente permanece por estudar: as vivências da intersubjectividade, dos afectos e das relações amorosas em tempo de guerra. O que se apresenta é um levantamento empírico desta problemática que urge analisar.

Maria Manuel Lisboa
"Até ao fim do mundo": Amor, rancor e guerra em Hélia Correia

A peça de teatro de Hélia Correia, O rancor: Exercício sobre Helena, oferece a base para uma análise textual do entendimento clássico e moderno do papel da mulher no contexto da guerra. As mulheres, na versão contemporânea de Hélia Correia, reproduzem e acentuam alguns dos indícios já disseminados pela tragédia e epopeia gregas, nomeadamente a problemática da sexualidade feminina e da paixão, enquanto forças contrapostas ao instinto belicoso masculino, por aquelas eventualmente derruido.

A leitura aqui apresentada focaliza aspectos variados da justaposição dos sexos no contexto da guerra: nomeadamente, a dinâmica entre mãe e filha enquanto agentes de um feminino solidário em confrontação com o imperativo belicoso masculino; a relação mãe-filho conforme inscrita no dilema edipiano filial de opção entre o pai guerreiro e a mãe atavicamente amada; a questão da maternidade/paternidade e do sacrifício voluntário ou recusado de filhos e filhas aos interesses da guerra; e o problema da representação passional do inimigo enquanto objecto de desejo e figuração do ideal do bem-amado.

Roberto Vecchi

Incoincidências de autoras: Fragmentos de um discurso não só amoroso na literatura da Guerra Colonial

Se a guerra é por excelência o território do androcêntrico, a experiência traumática da guerra e a sua representação pelo olhar feminino enxertar-se-ão numa margem periférica, numa orla de deslocação da própria experiência traumática. Deste ponto de vista, o feminino torna-se por excelência um “olhar testemunhal”, sendo a possibilidade sobrevivente, residual, da impossibilidade do testemunho integral diante do evento traumático. Uma deslocação esta que evidencia a não coincidência entre experiência e imagem, própria do testemunho, em que lógos e memória femininos se tornam portadores contundentes de um outro lógos, duma contra-memória.

Os romances de Wanda Ramos e Lídia Jorge são recolocados também na problemática trágica da aporia testemunhal, mostrando como uma reflexão crítica sobre o trágico moderno pode proporcionar uma perspectiva mais compreensiva de uma literatura problemática – pelo seu corpo a corpo com a história – como a da Guerra Colonial.

Ana de Medeiros
Re-escrevendo a História: A Costa dos Murmúrios de Lídia Jorge e L’Amour, la Fantasia de Assia Djebar

Dentro do tema geral da incompatibilidade entre a vida privada e a vida pública, decidi concentrar a minha atenção numa série de elementos comuns aos dois textos em análise e que explicam, em parte, a sua qualidade subversiva, num sentido político e histórico: a ideia das representações dominantes da mulher como falsas representações, o restaurar do passado da auto-representação feminina e o reconhecimento da necessidade de representar as diferenças entre mulheres. O trabalho de Lynn Hunt sobre a Revolução Francesa servirá como espaço teórico para início da minha análise.

Laura Cavalcante Padilha
Dois olhares e uma Guerra

A partir da leitura das obras poéticas Sangue negro (2001) e É nosso o solo sagrado da terra (1978), respectivamente de Noémia de Sousa e Alda Espírito Santo, o texto procura surpreender dois olhares africanos sobre a guerra, em perspectiva ao mesmo tempo étnica e de género. Para além disso, discute-se o duplo gesto de nomeação do conflito: a mudança, no universo discursivo, do sistema de referências imposto pelo colonialismo e, consequentemente, a encenação da interioridade de novos sujeitos históricos femininos.

Dossier
Dois depoimentos sobre a presença e a participação femininas na Guerra Colonial

Depoimento de Elsa Adler Gomes da Costa
Depoimento de Ivone Reis

Guiné 63/74 - CXXII: Bibliografia da guerra no feminino (2)

Sugestão de leitura e selecção de Jorge Santos.

TÍTULO: As Mulheres e a Guerra Colonial
PUBLICAÇÃO: Revista Crítica de Ciências Sociais, 68
EDITORA: Centro de Estudos Sociais (Universidade de Coimbra)
DATA: Abril 2004

AUTORES E RESUMOS DOS ARTIGOS:

Margarida Calafate Ribeiro

África no feminino: As mulheres portuguesas e a Guerra Colonial

Procura-se traçar as linhas gerais que no discurso crítico histórico, político, sociológico e literário levaram a considerar a guerra como um fenómeno não exclusivamente masculino. Dentro da situação portuguesa, visa-se interpretar o "papel de apoio" que sempre esteve reservado às mulheres, de um ponto de vista público e privado, e analisar com mais detalhe a situação das mulheres portuguesas que acompanharam os maridos em missão militar em África, durante o período da Guerra Colonial.

Maria Manuela Cruzeiro

As mulheres e a Guerra Colonial: Um silêncio demasiado ruidoso

O texto pretende denunciar as várias camadas de silêncio com que a sociedade portuguesa fugiu ao encontro inevitável com a maior tragédia da sua contemporaneidade: a Guerra Colonial. A estratégia de ocultação, que oscila frequentemente entre o recalcamento e a denegação, atinge, quer os seus directos intervenientes (os militares mobilizados), quer as instituições do poder "político" e outro, quer sobretudo as suas vítimas mais ignoradas: as mulheres. Afastadas naturalmente da máquina de guerra, mas profundamente implicadas nos seus efeitos devastadores, o seu silêncio torna duplamente absurdo e incompreensível esse momento traumático da nossa história recente.

Helena Neves

Amor em tempo de guerra: Guerra Colonial, a (in)comunicabilidade (im)possível

O período da Guerra Colonial (1961-1974) produziu em Portugal profundas alterações de ordem demográfica, económica, social e cultural. Mas se o que é mensurável se encontra, hoje em dia, mais ou menos visível, há uma vertente que praticamente permanece por estudar: as vivências da intersubjectividade, dos afectos e das relações amorosas em tempo de guerra. O que se apresenta é um levantamento empírico desta problemática que urge analisar.

Maria Manuel Lisboa
"Até ao fim do mundo": Amor, rancor e guerra em Hélia Correia

A peça de teatro de Hélia Correia, O rancor: Exercício sobre Helena, oferece a base para uma análise textual do entendimento clássico e moderno do papel da mulher no contexto da guerra. As mulheres, na versão contemporânea de Hélia Correia, reproduzem e acentuam alguns dos indícios já disseminados pela tragédia e epopeia gregas, nomeadamente a problemática da sexualidade feminina e da paixão, enquanto forças contrapostas ao instinto belicoso masculino, por aquelas eventualmente derruido.

A leitura aqui apresentada focaliza aspectos variados da justaposição dos sexos no contexto da guerra: nomeadamente, a dinâmica entre mãe e filha enquanto agentes de um feminino solidário em confrontação com o imperativo belicoso masculino; a relação mãe-filho conforme inscrita no dilema edipiano filial de opção entre o pai guerreiro e a mãe atavicamente amada; a questão da maternidade/paternidade e do sacrifício voluntário ou recusado de filhos e filhas aos interesses da guerra; e o problema da representação passional do inimigo enquanto objecto de desejo e figuração do ideal do bem-amado.

Roberto Vecchi

Incoincidências de autoras: Fragmentos de um discurso não só amoroso na literatura da Guerra Colonial

Se a guerra é por excelência o território do androcêntrico, a experiência traumática da guerra e a sua representação pelo olhar feminino enxertar-se-ão numa margem periférica, numa orla de deslocação da própria experiência traumática. Deste ponto de vista, o feminino torna-se por excelência um “olhar testemunhal”, sendo a possibilidade sobrevivente, residual, da impossibilidade do testemunho integral diante do evento traumático. Uma deslocação esta que evidencia a não coincidência entre experiência e imagem, própria do testemunho, em que lógos e memória femininos se tornam portadores contundentes de um outro lógos, duma contra-memória.

Os romances de Wanda Ramos e Lídia Jorge são recolocados também na problemática trágica da aporia testemunhal, mostrando como uma reflexão crítica sobre o trágico moderno pode proporcionar uma perspectiva mais compreensiva de uma literatura problemática – pelo seu corpo a corpo com a história – como a da Guerra Colonial.

Ana de Medeiros
Re-escrevendo a História: A Costa dos Murmúrios de Lídia Jorge e L’Amour, la Fantasia de Assia Djebar

Dentro do tema geral da incompatibilidade entre a vida privada e a vida pública, decidi concentrar a minha atenção numa série de elementos comuns aos dois textos em análise e que explicam, em parte, a sua qualidade subversiva, num sentido político e histórico: a ideia das representações dominantes da mulher como falsas representações, o restaurar do passado da auto-representação feminina e o reconhecimento da necessidade de representar as diferenças entre mulheres. O trabalho de Lynn Hunt sobre a Revolução Francesa servirá como espaço teórico para início da minha análise.

Laura Cavalcante Padilha
Dois olhares e uma Guerra

A partir da leitura das obras poéticas Sangue negro (2001) e É nosso o solo sagrado da terra (1978), respectivamente de Noémia de Sousa e Alda Espírito Santo, o texto procura surpreender dois olhares africanos sobre a guerra, em perspectiva ao mesmo tempo étnica e de género. Para além disso, discute-se o duplo gesto de nomeação do conflito: a mudança, no universo discursivo, do sistema de referências imposto pelo colonialismo e, consequentemente, a encenação da interioridade de novos sujeitos históricos femininos.

Dossier
Dois depoimentos sobre a presença e a participação femininas na Guerra Colonial

Depoimento de Elsa Adler Gomes da Costa
Depoimento de Ivone Reis

23 julho 2005

Guiné 63/74 - CXXI: Bibliografia da guerra no feminino (1)

1. Caro Luís Graça:

Como há várias coisas escritas por mulheres sobre a Guerra Colonial (algumas já enviei), não seria uma boa ideia criar um espaço no blogue só para elas? Por exemplo, com a designação "Escrita feminina e Guerra Colonial", "As Mulheres e a Guerra Colonial", etc., ou mesmo uma outra que tenhas em mente. É apenas e só uma sugestão.

Um abraço e bom fim de semana.

Jorge Santos (1º Grumete Fuzileiro, DFA, Companhia de Fuzileiros nº 4, Moçambique > Niassa, 1968/70)

2. Respondi-lhe que sim, que podia ser "a guerra no feminino" ou qualquer coisa do género. Que tinha todo o meu apoio. E que fosse mandando coisas. Pois aqui vão as primeiras sobre a "bibliografia da guerra no feminino". A guerra ? A nossa, a colonial, que era só uma... Selecção e notas do Jorge Santos. L.G.


TÍTULO: Uma História de Regressos: Império, Guerra Colonial e Pós-Colonialismo
AUTORA: Margarida Calafate Ribeiro
EDITORA: Afrontamento
ANO: 2004

NOTA: Margarida Calafate Ribeiro é investigadora associada do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e é doutorada em Literatura Portuguesa pelo King's College, Universidade de Londres. Foi professora convidada na Holanda e no Brasil. Co-organizou, com Ana Paula Ferreira, a obra colectiva Fantasmas e Fantasias Imperiais no Imaginário Contemporâneo (Campo das Letras, Porto,).


SINOPSE: Em entrevista publicada no jornal Público, de 3 de Julho de 2004, a autora respondeu a uma pergunta do jornalista ("Ao ler-se o seu livro "Uma História de Regressos - Império, Guerra Colonial e Pós-Colonialismo" fica-se com a ideia inquietante de que Portugal é um manicómio. É verdade?"):

"Há momentos na nossa História e na nossa História recente - os que têm a ver com os regressos - em que podemos utilizar essa linguagem da psiquiatria. Há loucura e loucura trágica que envolve a nossa identidade. Refiro-me à guerra colonial e à literatura da guerra colonial. Houve então supressão do humano. Nessa medida pode falar-se de loucura. A guerra colonial foi a grande tragédia da nossa contemporaneidade, não só para os rapazes que nela participaram, mas também para os pais que os viam partir e para as irmãs, namoradas e esposas que ficavam à espera. A insistência com que o Estado Novo impôs a guerra colonial mais longa em que um país europeu participou, a imposição de uma vontade, de uma maneira de estar no mundo podem também ser consideradas dementes. A poesia de Fernando Assis Pacheco (in "Musa Irregular") mostra isso, na sua componente autobiográfica: família salazarista, filho de um "Menino da Luz", apanhado por uma engrenagem. Mas o pai, que ameaçara alistar-se como oficial médico se ele desertasse, acabou por rever as suas posições quando Assis Pacheco foi o primeiro evacuado da frente de combate por razões neuro-psiquiátricas. Essa ruptura entre o Governo de Salazar e o país foi-se aprofundando. O ministro dos Negócios Estrangeiros Franco Nogueira escreveu uma carta a Marcello Caetano muito significativa a esse respeito: acusa a burguesia de ser invertebrada, de retirar o seu apoio ao esforço africano quando se tratava de enviar os filhos para as frentes de combate e de se interessar mais pelos negócios possíveis com a Europa do que com as colónias africanas".


Há uma versão mais reduzida, em formato.pdf, de 40 páginas, deste estudo, disponível na Net.

Guiné 63/74 - CXXI: Bibliografia da guerra no feminino (1)

1. Caro Luís Graça:

Como há várias coisas escritas por mulheres sobre a Guerra Colonial (algumas já enviei), não seria uma boa ideia criar um espaço no blogue só para elas? Por exemplo, com a designação "Escrita feminina e Guerra Colonial", "As Mulheres e a Guerra Colonial", etc., ou mesmo uma outra que tenhas em mente. É apenas e só uma sugestão.

Um abraço e bom fim de semana.

Jorge Santos (1º Grumete Fuzileiro, DFA, Companhia de Fuzileiros nº 4, Moçambique > Niassa, 1968/70)

2. Respondi-lhe que sim, que podia ser "a guerra no feminino" ou qualquer coisa do género. Que tinha todo o meu apoio. E que fosse mandando coisas. Pois aqui vão as primeiras sobre a "bibliografia da guerra no feminino". A guerra ? A nossa, a colonial, que era só uma... Selecção e notas do Jorge Santos. L.G.


TÍTULO: Uma História de Regressos: Império, Guerra Colonial e Pós-Colonialismo
AUTORA: Margarida Calafate Ribeiro
EDITORA: Afrontamento
ANO: 2004

NOTA: Margarida Calafate Ribeiro é investigadora associada do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e é doutorada em Literatura Portuguesa pelo King's College, Universidade de Londres. Foi professora convidada na Holanda e no Brasil. Co-organizou, com Ana Paula Ferreira, a obra colectiva Fantasmas e Fantasias Imperiais no Imaginário Contemporâneo (Campo das Letras, Porto,).


SINOPSE: Em entrevista publicada no jornal Público, de 3 de Julho de 2004, a autora respondeu a uma pergunta do jornalista ("Ao ler-se o seu livro "Uma História de Regressos - Império, Guerra Colonial e Pós-Colonialismo" fica-se com a ideia inquietante de que Portugal é um manicómio. É verdade?"):

"Há momentos na nossa História e na nossa História recente - os que têm a ver com os regressos - em que podemos utilizar essa linguagem da psiquiatria. Há loucura e loucura trágica que envolve a nossa identidade. Refiro-me à guerra colonial e à literatura da guerra colonial. Houve então supressão do humano. Nessa medida pode falar-se de loucura. A guerra colonial foi a grande tragédia da nossa contemporaneidade, não só para os rapazes que nela participaram, mas também para os pais que os viam partir e para as irmãs, namoradas e esposas que ficavam à espera. A insistência com que o Estado Novo impôs a guerra colonial mais longa em que um país europeu participou, a imposição de uma vontade, de uma maneira de estar no mundo podem também ser consideradas dementes. A poesia de Fernando Assis Pacheco (in "Musa Irregular") mostra isso, na sua componente autobiográfica: família salazarista, filho de um "Menino da Luz", apanhado por uma engrenagem. Mas o pai, que ameaçara alistar-se como oficial médico se ele desertasse, acabou por rever as suas posições quando Assis Pacheco foi o primeiro evacuado da frente de combate por razões neuro-psiquiátricas. Essa ruptura entre o Governo de Salazar e o país foi-se aprofundando. O ministro dos Negócios Estrangeiros Franco Nogueira escreveu uma carta a Marcello Caetano muito significativa a esse respeito: acusa a burguesia de ser invertebrada, de retirar o seu apoio ao esforço africano quando se tratava de enviar os filhos para as frentes de combate e de se interessar mais pelos negócios possíveis com a Europa do que com as colónias africanas".


Há uma versão mais reduzida, em formato.pdf, de 40 páginas, deste estudo, disponível na Net.

22 julho 2005

Guiné 63/74 - CXX: Bibliografia de uma guerra (9): a invasão de Conacri

Texto da autoria do A. Marques Lopes
TÍTULO: De Conakry ao M.D.L.P.: dossier secreto
AUTOR: Alpoím Galvão
EDITORA: Intervenção
ANO: 1976


Este livro foi publicado em 1976 pela Editorial Intervenção. Na sua segunda parte, o comandante Alpoím Calvão faz o relatório detalhado da preparação e do desenrolar da operação Mar Verde que levou ao ataque a Conacri.

Tem outros relatos sobe a sua infância em Moçambique, sobre o MDLP e sobre o 25 de Abril, do qual diz muito mal (embora, semanas antes, tivesse sido convidado pelo então comandante Pinheiro de Azevedo a aderir ao MFA, recusou-se).

Mas trago-o aqui porque terá interesse à nossa tertúlia saber em pormenor como é que sucedeu aquela acção. Este relatório tem 36 páginas e, é claro, não o trancrevo aqui. Algumas operações prepararam aquela principal: a operação Hitler (curioso!), junto do rio Camexibó, a operação Nebulosa, junto ao rio Inxanxe e a operação Gata Brava em Kadigné.

No seu relatório das acções em Conacri faz uma descrição detalhada delas, mas, curiosamente, faz apenas uma breve referência à libertação dos 26 prisioneiros portugueses que se encontravam na prisão "La Montaigne", feita pelo 1º tenente Cunha e Silva. Não foi este, de facto, o objectivo da operação Mar Verde. Se dúvidas houvesse sobre os objectivos dessa operação, ele próprio diz, a páginas 84, que "o insucesso do golpe de Estado ficou-se devendo à manifesta carência de informação, que falhou completamente no que toca à presença da aviação de caça em Conakry [ os Migs da Guiné-Conacri, tinham mudado de Conacri para outra base poucos dias antes; ele não refere, mas as suas forças ainda foram sobrevoadas por um Mig] aos apoios activos internos que não existiam ou, se existiam, não se concretizaram".

De acordo em não me meter nas questões internas do povo da Guiné-Bissau. Mas não deixa de ser curioso o que vai dizer amanhã o semanário Expresso: "O engenheiro Daniel Nunes participa, com o antigo oficial da Marinha Alpoím Calvão e o empresário Manuel Macedo (que tinha negócios com a Indonésia no regime de Suharto e é amigo do ex-Presidente Nino Vieira), num projecto de industrialização da castanha de caju - uma aposta do Governo para o relançamento da economia da Guiné. O empreendimento, que arranca este ano, prevê a instalação de unidades de processamento de castanha de caju em Bolola, na capital, na ilha de Bolama, no Sul do país, e em Binta."

A perspectiva de Nino Vieira em Presidente?

Guiné 63/74 - CXX: Bibliografia de uma guerra (9): a invasão de Conacri

Texto da autoria do A. Marques Lopes
TÍTULO: De Conakry ao M.D.L.P.: dossier secreto
AUTOR: Alpoím Galvão
EDITORA: Intervenção
ANO: 1976


Este livro foi publicado em 1976 pela Editorial Intervenção. Na sua segunda parte, o comandante Alpoím Calvão faz o relatório detalhado da preparação e do desenrolar da operação Mar Verde que levou ao ataque a Conacri.

Tem outros relatos sobe a sua infância em Moçambique, sobre o MDLP e sobre o 25 de Abril, do qual diz muito mal (embora, semanas antes, tivesse sido convidado pelo então comandante Pinheiro de Azevedo a aderir ao MFA, recusou-se).

Mas trago-o aqui porque terá interesse à nossa tertúlia saber em pormenor como é que sucedeu aquela acção. Este relatório tem 36 páginas e, é claro, não o trancrevo aqui. Algumas operações prepararam aquela principal: a operação Hitler (curioso!), junto do rio Camexibó, a operação Nebulosa, junto ao rio Inxanxe e a operação Gata Brava em Kadigné.

No seu relatório das acções em Conacri faz uma descrição detalhada delas, mas, curiosamente, faz apenas uma breve referência à libertação dos 26 prisioneiros portugueses que se encontravam na prisão "La Montaigne", feita pelo 1º tenente Cunha e Silva. Não foi este, de facto, o objectivo da operação Mar Verde. Se dúvidas houvesse sobre os objectivos dessa operação, ele próprio diz, a páginas 84, que "o insucesso do golpe de Estado ficou-se devendo à manifesta carência de informação, que falhou completamente no que toca à presença da aviação de caça em Conakry [ os Migs da Guiné-Conacri, tinham mudado de Conacri para outra base poucos dias antes; ele não refere, mas as suas forças ainda foram sobrevoadas por um Mig] aos apoios activos internos que não existiam ou, se existiam, não se concretizaram".

De acordo em não me meter nas questões internas do povo da Guiné-Bissau. Mas não deixa de ser curioso o que vai dizer amanhã o semanário Expresso: "O engenheiro Daniel Nunes participa, com o antigo oficial da Marinha Alpoím Calvão e o empresário Manuel Macedo (que tinha negócios com a Indonésia no regime de Suharto e é amigo do ex-Presidente Nino Vieira), num projecto de industrialização da castanha de caju - uma aposta do Governo para o relançamento da economia da Guiné. O empreendimento, que arranca este ano, prevê a instalação de unidades de processamento de castanha de caju em Bolola, na capital, na ilha de Bolama, no Sul do país, e em Binta."

A perspectiva de Nino Vieira em Presidente?

Guiné 63/74 - CXIX: Antologia (10): Dossiê Guiné (Vida Mundial, 1971) (conclusão)

Prosseguimos a publicação de "Para um dossier Guiné - A guerrilha e o contra-ataque". Vida Mundial. 19 de Fevereiro de 1971. 3ª e última parte. Selecção e notas do nosso amigo e camarada de tertúlia A. Marques Lopes.

OPERAÇÃO FANTA

O exército do P. A.I.G.C. está organizado e estruturado conforme noutro local se revela. O planeamento dos ataques a diferentes objectivos processa-se do mesmo modo do que num exército regular, como se pode demonstrar no caso da operação Fanta, que foi desencadeada, em 1965, na frente Este, e cujas ordens de execução, emanadas do estado-maior do exército, foram assinadas por Amílcar Cabral.

Trata-se de um exemplo extraído dos arquivos do P.A.I.G.C. e consta das ordens endereçadas aos bigrupos 3 e 4 (constituídos cada um por 50-60 homens), as quais eram completadas e esclarecidas em cartas topográficas do estado-maior.

Operação Fanta

Ordem de participação dos bigrupos números 3 e 4 na frente Este (sector P)

Fase l — Destruição da ponte M.

Barragem de estrada:
1 — Estrada número 10 (perto do ponto B): grupo do camarada Sory Djalo, que deverá minar a estrada.
2 - Estrada numero 11 A (perto do ponto B): grupo do camarada N'Bare Tchuda, que deverá minar a estrada.
3 — Estrada número 11 B; perto de G: grupo do camarada Kemessene Camará, que deverá minar a estrada; perto de T: grupo do camarada Temna Kebeque, que deverá minar a estrada.
Destruição da ponte: camarada Malam Sanhá, com quatro outros camaradas, um de cada grupo.
Controle de estradas:
Após a destruição da ponte:
O bigrupo Numo-Hilário deverá assegurar a vigilância nas estradas 10 e 11 (emboscadas).
O bigrupo Sanhá-Luís deverá retirar-se para o sector T, para repouso e preparação do ataque de P, que será feito no dia seguinte, à tarde.

Fase 2 - Ataque a P

Barragem de estradas
Ataque ao campo entrincheirado de P: grupo dos camaradas Kemessene Camará e Temna Kebeque.
N.B. - Na mesma noite deve ser bombardeado o campo entrincheirado de C (morteiros dirigidos pelo camarada Cirilo).
Para atacar P seguir o plano da operação Fanta tendo em conta as mudanças exigidas pelo reforço em combatentes e em material.

Após o ataque a P:
O bigrupo Numo-Hilário. deverá vigiar as estradas convergentes para P.
Ataque ao campo entrincheirado de B:
Barragem de estradas:
1 - Estrada número 10 (cruzamento D): grupo de Sory Djaló com Malam-Numo.
2 - Estrada número 11 A (cruzamento C): grupo de M'Bare Tchuda com Hilário.
3 - Estrada número 12:5 combatentes do grupo Kemessene Camará (1 ML(x), 2 PM(x) e l bazooca).
Ataque ao campo entrincheirado de B:
Grupos Temna Kebeque e Kemessene Camará, apoiados por 1 morteiro e 1 bazooca.
N.B. - Antes do ataque, as estradas devem ser minadas.
Depois do ataque, o bigrupo Numo-Hilário deve prosseguir a vigilância das estradas, com patrulhas e emboscadas.

Fase 3 - Libertação de OM e de outras tabancas da zona.

Reforço do isolamento de C. Ataque ao campo entrincheirado de OM.
Barragem de estradas
Libertação das outras tabancas - Seguir o plano de vigilância nas estradas de P e de B — bigrupo Numo

Fase 4 — Ordenamento com outras forças para atacar C

Fase 5 - Ordenamento com outras forças para libertar todas as outras tabancas desta zona e isolar BT totalmente.

Fase 6 - Ordenamento com outras forças para atacar BT.

N.B. - A ordenação de forças nas fases 4, 5 e 6 será dirigida pelo camarada Domingos Ramos.

Amílcar Cabral

(x) M.L.-Metralhadora ligeira; P.M.-Pistola-metralhadora.

Esta ordem de operações - segundo uma fonte militar - não é mais do que o relatório escrito de instruções verbais e causa uma certa admiração ter sido assinado pelo chefe máximo dos guerrilheiros.


A ACTIVIDADE DOS GUERRILHEIROS


A acção dos guerrilheiros na Guiné tem-se feito sentir, ao longo dos anos, desde que o P.A.I.G.C. resolveu, em princípios de 1963, desencadear a luta no Sul daquele território, muito embora se saiba que já antes, em 1961, vários elementos dos grupos subversivos atacavam instalações localizadas na Guiné.

Com efeito, na noite de 23-24 de Julho de 1961, segundo uma notícia divulgada na Imprensa portuguesa, um grupo calculado em cerca de 200 indivíduos, vindos do Senegal, entrou na praia de Varela, tendo cortado o fio telefónico e causado estragos em algumas moradias de veraneantes, mas não atacou ninguém. Mais tarde, em 3 de Agosto do mesmo ano, era revelado que um outro grupo de indivíduos, proveniente do Senegal, atacou o porto de Bigene.

Como noutro local assinalamos, o primeiro contingente de tropas saído da Metrópole para o Ultramar, desde o início das operações militares nos territórios africanos, foi, exactamente, para a Guiné. Registe-se, ainda, que em 25 de Agosto de 1962 (Portaria 19 363) se constituiu a esquadrilha de lanchas de fiscalização da Guiné e, um ano mais tarde, em Outubro (Portaria 20 092), era reforçada com uma companhia móvel [1] o corpo de Polícia da Guiné.

A situação naquele território tem dado azo a várias controvérsias e, por isso, o Serviço de Informação Pública das Forças Armadas, em 20 de Julho de 1963, divulgou o seguinte esclarecimento:

«O Diário Popular, ao entrevistar o ministro da Defesa Nacional, perguntou-lhe qual a província ultramarina em que a situação militar causa maiores preocupações ao ministro e porquê. O ministro, na sua resposta, analisou a situação interna e externa em cada uma das províncias. Ora, verifica-se que os termos em que o ministro examinou a situação interna da Guiné foram, por vezes, mal interpretadas, porquanto parece haver quem ficasse com a noção de que aquela província foi invadida e de que 15 por cento do seu território está na posse dos terroristas. Torna-se, por isso, indispensável restabelecer a verdade, esclarecendo melhor a situação e, portanto, aqueles termos, porquanto nem houve invasão da província nem os terroristas estão na posse da mínima parcela daquele território.

«A situação - continua o comunicado do S.I.P.F.A. - é, rigorosamente, a seguinte: Em 85 por cento da província, a vida é inteiramente normal. Nos restantes 15 por cento processaram-se, nos últimos meses, infiltrações de terroristas vindos da República da Guiné, que actuam na clandestinidade, a partir de refúgios nas matas e procuram iludir a presença das forças militares na execução de acções de vandalismo sobre aldeias nativas e instalações económicas. No entanto, grande parte das populações e os postos administrativos e povoações continuam a sua vida habitual e as vias de comunicação estão desimpedidas.

«Nem estas infiltrações - conclui o referido comunicado - insidiosas se podem classificar de invasão nem a presença de terroristas numa ou noutra mata que, repete-se, procuram subtrair-se à acção das forças que têm por missão a manutenção da ordem, pode permitir afirmar-se que há qualquer parcela do território, por mínima que seja, na sua posse.»

A entrevista do ministro da Defesa fora a primeira informação oficial da existência de uma situação alarmante na Guiné e, no dia 25, a ANI desmentia uma notícia dada pela Rádio Conakry segundo a qual «os terroristas teriam, afundado com explosivos, no Sul da província, quatro barcos a motor encarregados no transporte de mercadorias». O telegrama daquela agência de informações esclarecia: «Sabe-se que apenas um desses barcos desapareceu e que outro, descoberto no fundo mas a pouca profundidade, foi imediatamente recuperado, encontrando-se já de novo a navegar.»

Entretanto, nesse mesmo dia circulou a notícia de um ataque a Pirada e no ano seguinte, em 11 de Maio, a Imprensa divulgava um boletim informativo das Forças Armadas da Guiné no qual se assinalava que o inimigo «flagelou, à distância, Jabadá, Barro (fronteira norte) e Madina do Boé (fronteira leste)» e que tinham sido destruídos acampamentos na região de Ohio (em Camam e Queré), a sudeste de Farim, em Salancaur Fula (no Sul), em Flaque Cibe, onde foram inutilizadas ou capturadas treze canoas de que o inimigo se servia ilegalmente.

As flagelações ao território da Guiné têm continuado, cada vez com maior apoio, acentuando-se num outro comunicado das F.A. que «na fronteira norte, o inimigo, irradiando das bases de Samine [2] e Yaram, localizadas em território senegalês, atacou as povoações de Bigene e Barro, flagelando as povoações com bases de fogos situadas na República do Senegal [3]; nas fronteiras leste e sul, o inimigo, irradiando das bases de Kandiafara, Sansalé e Bidel Pavi (área de Massira Fulamansa), localizadas em território da República da Guiné, flagelou as povoações de Canquelifá e Gadamel Porto, e na flagelação a esta última povoação foi apoiado por fogos de artilharia do Exército da República da Guiné, instalada dentro do seu território».

Muito embora os ataques se tenham mantido, em 27 de Dezembro de 1969 o S.I.P.F.A. informava que «no dia 23 a povoação de Guidage havia sido flagelada pelo fogo de armas pesadas» e acentuava que «era a quarta flagelação depois do dia 8».

Com efeito, em 17 e 19, fora atacada à povoação de São Domingos e no dia 18 a de Ingoré. Em 4 e 6 de Janeiro de 1970 a flagelação atingia Gadamael, e no dia 5 coubera a vez a Guilege. Nestes ataques foram, assinalados, pelo menos, 150 rebentamentos. No mês de Fevereiro (11), a povoação de Guilege é atingida (6 feridos); rio dia seguinte, fogo de morteiros causa 15 mortos em Guidage, e 2 dias mais tarde. São Domingos e Gadamel sofrem os efeitos das armas pesadas do inimigo. Em 27 e 28 de Março, o fogo de armas pesadas atinge, a intervalos regulares, Buruntuma, causando 1 morto e 12 feridos.

Entretanto, no dia 15 de Julho, era distribuído à imprensa o seguinte comunicado:

«O Serviço de Informação Pública das Forças Armadas informa que, segundo notícias recebidas ontem, 14, do Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné, um grupo inimigo com efectivo superior a 300 combatentes, atacou Pirada na noite de 12 para 13 do corrente, com apoio de foguetões, canhões anticarro, morteiros e outras armas pesadas. A acção foi de apreciável envergadura e o inimigo que realizou o assalto entrou na povoação e saqueou e incendiou 50 moranças.

«Toda a acção foi desencadeada de território senegalês, onde estiveram implantadas as bases de fogos dos canhões anticarro rebocados e dos foguetões e morteiros.

«O inimigo causou na população 15 mortos e 41 feridos tendo desaparecido um militar europeu".

____________

[1] O capitão Manuel Carlos da Conceição Guimarães, que foi o primeiro comandante da CART 1690, e que morreu na estrada de Geba para Banjara, fez parte desta companhia móvel. (ML)


[2] Samine fica no Senegal a cerca de 6 km de Barro. Também lá os fomos atacar. E eles também iam a Barro, é claro. (ML)

[3] É verdade que, às vezes, nem saíam do Senegal, disparando com os morteiros 82 e canhões sem recuo. (ML)

Guiné 63/74 - CXIX: Antologia (10): Dossiê Guiné (Vida Mundial, 1971) (conclusão)

Prosseguimos a publicação de "Para um dossier Guiné - A guerrilha e o contra-ataque". Vida Mundial. 19 de Fevereiro de 1971. 3ª e última parte. Selecção e notas do nosso amigo e camarada de tertúlia A. Marques Lopes.

OPERAÇÃO FANTA

O exército do P. A.I.G.C. está organizado e estruturado conforme noutro local se revela. O planeamento dos ataques a diferentes objectivos processa-se do mesmo modo do que num exército regular, como se pode demonstrar no caso da operação Fanta, que foi desencadeada, em 1965, na frente Este, e cujas ordens de execução, emanadas do estado-maior do exército, foram assinadas por Amílcar Cabral.

Trata-se de um exemplo extraído dos arquivos do P.A.I.G.C. e consta das ordens endereçadas aos bigrupos 3 e 4 (constituídos cada um por 50-60 homens), as quais eram completadas e esclarecidas em cartas topográficas do estado-maior.

Operação Fanta

Ordem de participação dos bigrupos números 3 e 4 na frente Este (sector P)

Fase l — Destruição da ponte M.

Barragem de estrada:
1 — Estrada número 10 (perto do ponto B): grupo do camarada Sory Djalo, que deverá minar a estrada.
2 - Estrada numero 11 A (perto do ponto B): grupo do camarada N'Bare Tchuda, que deverá minar a estrada.
3 — Estrada número 11 B; perto de G: grupo do camarada Kemessene Camará, que deverá minar a estrada; perto de T: grupo do camarada Temna Kebeque, que deverá minar a estrada.
Destruição da ponte: camarada Malam Sanhá, com quatro outros camaradas, um de cada grupo.
Controle de estradas:
Após a destruição da ponte:
O bigrupo Numo-Hilário deverá assegurar a vigilância nas estradas 10 e 11 (emboscadas).
O bigrupo Sanhá-Luís deverá retirar-se para o sector T, para repouso e preparação do ataque de P, que será feito no dia seguinte, à tarde.

Fase 2 - Ataque a P

Barragem de estradas
Ataque ao campo entrincheirado de P: grupo dos camaradas Kemessene Camará e Temna Kebeque.
N.B. - Na mesma noite deve ser bombardeado o campo entrincheirado de C (morteiros dirigidos pelo camarada Cirilo).
Para atacar P seguir o plano da operação Fanta tendo em conta as mudanças exigidas pelo reforço em combatentes e em material.

Após o ataque a P:
O bigrupo Numo-Hilário. deverá vigiar as estradas convergentes para P.
Ataque ao campo entrincheirado de B:
Barragem de estradas:
1 - Estrada número 10 (cruzamento D): grupo de Sory Djaló com Malam-Numo.
2 - Estrada número 11 A (cruzamento C): grupo de M'Bare Tchuda com Hilário.
3 - Estrada número 12:5 combatentes do grupo Kemessene Camará (1 ML(x), 2 PM(x) e l bazooca).
Ataque ao campo entrincheirado de B:
Grupos Temna Kebeque e Kemessene Camará, apoiados por 1 morteiro e 1 bazooca.
N.B. - Antes do ataque, as estradas devem ser minadas.
Depois do ataque, o bigrupo Numo-Hilário deve prosseguir a vigilância das estradas, com patrulhas e emboscadas.

Fase 3 - Libertação de OM e de outras tabancas da zona.

Reforço do isolamento de C. Ataque ao campo entrincheirado de OM.
Barragem de estradas
Libertação das outras tabancas - Seguir o plano de vigilância nas estradas de P e de B — bigrupo Numo

Fase 4 — Ordenamento com outras forças para atacar C

Fase 5 - Ordenamento com outras forças para libertar todas as outras tabancas desta zona e isolar BT totalmente.

Fase 6 - Ordenamento com outras forças para atacar BT.

N.B. - A ordenação de forças nas fases 4, 5 e 6 será dirigida pelo camarada Domingos Ramos.

Amílcar Cabral

(x) M.L.-Metralhadora ligeira; P.M.-Pistola-metralhadora.

Esta ordem de operações - segundo uma fonte militar - não é mais do que o relatório escrito de instruções verbais e causa uma certa admiração ter sido assinado pelo chefe máximo dos guerrilheiros.


A ACTIVIDADE DOS GUERRILHEIROS


A acção dos guerrilheiros na Guiné tem-se feito sentir, ao longo dos anos, desde que o P.A.I.G.C. resolveu, em princípios de 1963, desencadear a luta no Sul daquele território, muito embora se saiba que já antes, em 1961, vários elementos dos grupos subversivos atacavam instalações localizadas na Guiné.

Com efeito, na noite de 23-24 de Julho de 1961, segundo uma notícia divulgada na Imprensa portuguesa, um grupo calculado em cerca de 200 indivíduos, vindos do Senegal, entrou na praia de Varela, tendo cortado o fio telefónico e causado estragos em algumas moradias de veraneantes, mas não atacou ninguém. Mais tarde, em 3 de Agosto do mesmo ano, era revelado que um outro grupo de indivíduos, proveniente do Senegal, atacou o porto de Bigene.

Como noutro local assinalamos, o primeiro contingente de tropas saído da Metrópole para o Ultramar, desde o início das operações militares nos territórios africanos, foi, exactamente, para a Guiné. Registe-se, ainda, que em 25 de Agosto de 1962 (Portaria 19 363) se constituiu a esquadrilha de lanchas de fiscalização da Guiné e, um ano mais tarde, em Outubro (Portaria 20 092), era reforçada com uma companhia móvel [1] o corpo de Polícia da Guiné.

A situação naquele território tem dado azo a várias controvérsias e, por isso, o Serviço de Informação Pública das Forças Armadas, em 20 de Julho de 1963, divulgou o seguinte esclarecimento:

«O Diário Popular, ao entrevistar o ministro da Defesa Nacional, perguntou-lhe qual a província ultramarina em que a situação militar causa maiores preocupações ao ministro e porquê. O ministro, na sua resposta, analisou a situação interna e externa em cada uma das províncias. Ora, verifica-se que os termos em que o ministro examinou a situação interna da Guiné foram, por vezes, mal interpretadas, porquanto parece haver quem ficasse com a noção de que aquela província foi invadida e de que 15 por cento do seu território está na posse dos terroristas. Torna-se, por isso, indispensável restabelecer a verdade, esclarecendo melhor a situação e, portanto, aqueles termos, porquanto nem houve invasão da província nem os terroristas estão na posse da mínima parcela daquele território.

«A situação - continua o comunicado do S.I.P.F.A. - é, rigorosamente, a seguinte: Em 85 por cento da província, a vida é inteiramente normal. Nos restantes 15 por cento processaram-se, nos últimos meses, infiltrações de terroristas vindos da República da Guiné, que actuam na clandestinidade, a partir de refúgios nas matas e procuram iludir a presença das forças militares na execução de acções de vandalismo sobre aldeias nativas e instalações económicas. No entanto, grande parte das populações e os postos administrativos e povoações continuam a sua vida habitual e as vias de comunicação estão desimpedidas.

«Nem estas infiltrações - conclui o referido comunicado - insidiosas se podem classificar de invasão nem a presença de terroristas numa ou noutra mata que, repete-se, procuram subtrair-se à acção das forças que têm por missão a manutenção da ordem, pode permitir afirmar-se que há qualquer parcela do território, por mínima que seja, na sua posse.»

A entrevista do ministro da Defesa fora a primeira informação oficial da existência de uma situação alarmante na Guiné e, no dia 25, a ANI desmentia uma notícia dada pela Rádio Conakry segundo a qual «os terroristas teriam, afundado com explosivos, no Sul da província, quatro barcos a motor encarregados no transporte de mercadorias». O telegrama daquela agência de informações esclarecia: «Sabe-se que apenas um desses barcos desapareceu e que outro, descoberto no fundo mas a pouca profundidade, foi imediatamente recuperado, encontrando-se já de novo a navegar.»

Entretanto, nesse mesmo dia circulou a notícia de um ataque a Pirada e no ano seguinte, em 11 de Maio, a Imprensa divulgava um boletim informativo das Forças Armadas da Guiné no qual se assinalava que o inimigo «flagelou, à distância, Jabadá, Barro (fronteira norte) e Madina do Boé (fronteira leste)» e que tinham sido destruídos acampamentos na região de Ohio (em Camam e Queré), a sudeste de Farim, em Salancaur Fula (no Sul), em Flaque Cibe, onde foram inutilizadas ou capturadas treze canoas de que o inimigo se servia ilegalmente.

As flagelações ao território da Guiné têm continuado, cada vez com maior apoio, acentuando-se num outro comunicado das F.A. que «na fronteira norte, o inimigo, irradiando das bases de Samine [2] e Yaram, localizadas em território senegalês, atacou as povoações de Bigene e Barro, flagelando as povoações com bases de fogos situadas na República do Senegal [3]; nas fronteiras leste e sul, o inimigo, irradiando das bases de Kandiafara, Sansalé e Bidel Pavi (área de Massira Fulamansa), localizadas em território da República da Guiné, flagelou as povoações de Canquelifá e Gadamel Porto, e na flagelação a esta última povoação foi apoiado por fogos de artilharia do Exército da República da Guiné, instalada dentro do seu território».

Muito embora os ataques se tenham mantido, em 27 de Dezembro de 1969 o S.I.P.F.A. informava que «no dia 23 a povoação de Guidage havia sido flagelada pelo fogo de armas pesadas» e acentuava que «era a quarta flagelação depois do dia 8».

Com efeito, em 17 e 19, fora atacada à povoação de São Domingos e no dia 18 a de Ingoré. Em 4 e 6 de Janeiro de 1970 a flagelação atingia Gadamael, e no dia 5 coubera a vez a Guilege. Nestes ataques foram, assinalados, pelo menos, 150 rebentamentos. No mês de Fevereiro (11), a povoação de Guilege é atingida (6 feridos); rio dia seguinte, fogo de morteiros causa 15 mortos em Guidage, e 2 dias mais tarde. São Domingos e Gadamel sofrem os efeitos das armas pesadas do inimigo. Em 27 e 28 de Março, o fogo de armas pesadas atinge, a intervalos regulares, Buruntuma, causando 1 morto e 12 feridos.

Entretanto, no dia 15 de Julho, era distribuído à imprensa o seguinte comunicado:

«O Serviço de Informação Pública das Forças Armadas informa que, segundo notícias recebidas ontem, 14, do Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné, um grupo inimigo com efectivo superior a 300 combatentes, atacou Pirada na noite de 12 para 13 do corrente, com apoio de foguetões, canhões anticarro, morteiros e outras armas pesadas. A acção foi de apreciável envergadura e o inimigo que realizou o assalto entrou na povoação e saqueou e incendiou 50 moranças.

«Toda a acção foi desencadeada de território senegalês, onde estiveram implantadas as bases de fogos dos canhões anticarro rebocados e dos foguetões e morteiros.

«O inimigo causou na população 15 mortos e 41 feridos tendo desaparecido um militar europeu".

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[1] O capitão Manuel Carlos da Conceição Guimarães, que foi o primeiro comandante da CART 1690, e que morreu na estrada de Geba para Banjara, fez parte desta companhia móvel. (ML)


[2] Samine fica no Senegal a cerca de 6 km de Barro. Também lá os fomos atacar. E eles também iam a Barro, é claro. (ML)

[3] É verdade que, às vezes, nem saíam do Senegal, disparando com os morteiros 82 e canhões sem recuo. (ML)