21 abril 2004

Portugas que merecem as nossas palmas - VII: O pessoal dos centros de saúde do Baixo Alentejo

1. Às vezes este país parece-me quase perfeito e sem mácula. Em certos dias. A uma certa hora. Em certos sítios. Visto de um determinado ângulo. Num dia qualquer, tirado à sorte do calendário. Por exemplo, no mês de Abril, em pleno Baixo Alentejo. Ao pôr do sol. Experimenta ver este país sentado no banco da frente do piso superior do autocarro. Ao sul. A 250 km ao sul de Lisboa. Ao fim da tarde. Ao pôr do sol.

2. Tu podes achar este país quase perfeito e sem mácula, numa viagem de regresso a casa, de Beja a Lisboa. Viaja sobre as planícies de Beja. Podes ver as cegonhas que não já trazem os bebés de França. Num certo troço da estrada não-sei-quantos que vai desembocar na A2. A tal, que é mais conhecida como a autoestrada do Sul, a que te leva para o Algarve. Visão panorâmica. A dois metros e meio acima do solo. Em voo raso de cegonha. Toma nota que a hora é importante para veres o teu país. Tal como o sítio e o ângulo de visão. Ao fim da tarde, no conforto relativo do autocarro da Rede Expresso. Nada como deixares o teu carro em Lisboa e viajares na Rede Expresso. Toma a viatura nº 95, de preferência o lugar nº 1. Podias ter reservado o bilhete pela Internet ou enviado um SMS. Mas não vais estragar este momento único contaminando os teus pensamentos poéticos com as coisas prosaicas das novas tecnologias.

3. Nada como um perfeito pôr do sol no Alentejo. Nada como um montado de sobro e um bando de cegonhas em formação de voo. De regresso a casa, também elas. Nada como um horizonte quase perfeito e sem mácula. Tão pouco como isto. Tu podes achar este país quase perfeito e sem mácula. Por nove euros e meio. Viajando na Rede Expresso. Em certos dias, a uma certa hora, em certos sítios. Saíndo de Beja, a caminho de Lisboa.

4. Tanto e tão pouco, afinal, para te reconciliares com o teu país. Noutra hora e noutro lugar, eu acrescentaria: Nada como um pedaço de pão alentejano, umas azeitonas com o gosto dos orégãos, um bocado de requeijão, uma roda de amigos. Na Festa de Nossa Senhora das Pazes, entre ficalheiros e azinheiras centenárias. Todos os anos no domingo seguinte à Páscoa. Este ano veio muito menos gente. Que a morte bateu, com mão pesada, a muitas portas de Vila Verde de Ficalho. Vinte e cinco mortes, dizem-me desde Janeiro. A festa e o luto não combinam. Mas veio gente de outras partes do mundo, do Montijo, do Seixal, do Barreiro, de Lisboa, da diáspora alentejana. E a alegria e a festa do reencontro são universais. Todos os anos na primeira semana a seguir à Páscoa. Quer faça chuva, quer faça sol. E mesmo que os homens não se incorporem na procissão da santa que dá três voltas à capelinha. A um tiro de distância da raia espanhola. Nossa Senhora das Pazes. Lembrando, pelo caminho, os ódios e os amores antigos que atraem e repelem os vizinhos separados pelas extremas de dois países do Al-Andaluz. Desde 1232 quando o lusitano e cristão D. Sancho II reconquista aos mouros a margem esquerda do Guadiana. Mesmo que haja quem queira desistir da vida. Ou dela se despedir com dignidade. Doutor, em passando a festa, eu dou um rumo à minha vida. E aí tu percebes a diferença entre ter e não ter um médico de família, um equipa de saúde, um centro de saúde, ao alcance do teu braço.

5. Para trás deixas o verde das searas de trigo, do Alentejo que ainda dá pão. Para trás deixas gente fantástica. No mínimo, gente competente, boa e generosa. Que trabalha nos centros de saúde e suas extensões do Baixo Alentejo. Para trás deixas amigos. Em Vila Verde de Ficalho. Em Serpa. Na Cuba. Na Vidigueira. Em Aljustrel. Em Almodôvar e no Alvito. Em Barrancos. Em Beja. De Castro Verde a Ferreira do Alentejo. Em Mértola e em Moura. Em Odemira ou em Ourique. Médicos de família, enfermeiros, administrativos. Em condições muitas vezes difíceis, sem o conforto do teu gabinete de Lisboa. Sem o ar condicionado da Sony. Com 37 graus à sombra. Com um frio de rachar. Com falta de equipamentos sociais. Dando consultas em insólitos lugares, como o Sporting Clube de A do Pinto. Ou fazendo SAP em velhos conventos transformados em hospitais. Remando contra a maré do individualismo, do cinismo, da arrogância, da gestão mercantilista da saúde, da descrença, da desmotivação. Remando contra os doentes da saúde, as vítimas da aculturação médica, os tiques, os taques, as contas, os ajustes de contas do Portugal Sociedade Anónima dos Hospitais, da indústria farmacêutica, dos lóbis, do poder, da política politiqueira... Gente que cuida dos outros e que se cuida pouco. Que cuida pouco de si própria. E que pode estar trinta anos numa carreira administrativa como terceiríssimos oficiais. Ou que continua a fazer urgências mesmo para além do limite legal de idade. Que trabalha sem rede. E que às vezes é até agredida ou maltratada.

6. Um dia quiseram trabalhar em equipa. Para prestar melhores cuidados de saúde. Para trabalhar com outra motivação e satisfação. Um dia pensaram na utopia igualitária. Nos idos anos de setenta. Que nenhum deles era perfeito mas que juntos podiam sê-lo. Que podiam organizar o trabalho nos cuidados de saúde primários numa base cooperativa e, sobretudo, igualitária. Fora da tradicional relação hierárquica chefe / subordinado ou especialista / leigo. Pondo também na equipa o utente. Subvertendo a organização burocrática que o prussiano Max Weber considerava o tipo-ideal da racionalidade legal.

Hoje a utopia não morreu. Mas está mais velha e cansada. A utopia também envelhece mas não morre. Há muito que as equipas nucleares de saúde perderam o seu vigor ou se desfizeram. Mas contaminaram a cultura organizacional da Sub-Região de Saúde de Beja. O bichinho está lá e não morreu. Sempre discordei dos que pensam a utopia sem tempo nem lugar. A utopia também pode ter um tempo e um lugar. Porque na sua dupla etimologia, utopia tanto quer dizer "nenhum lugar" (ou + topia) como "lugar perfeito" (eu + topia).

Eles não são heróis nem levam nenhum existência heróica. São portugas como os outros. Profissionais de saúde como os outros. Apenas fazem alguma diferença. Eu diria que é um certo modo de ser e de estar. Algo que não se ensina em escola nenhuma. Que não se aprende nos cursos de formação do Fundo Social Europeu. Para os quais não há receitas de cozinha. Pequenos detalhes que fazem a diferença. Por isso, por tudo isso, gostei de os ver, gostei de voltar a encontrá-los. Eles são portugas que merecem as minhas palmas. As nossas palmas.

13 abril 2004

Portugal sacro-profano - XIX: Boas e Santas Páscoas. Nós, por cá, todos bem!

1. É domingo de Páscoa na aldeia. Faz frio mas o sol está esplêndido. É um daqueles dias em que a gente se reconcilia com a vida. Nem que seja por uns breves instantes. Com a vida, mas não necessariamente com o mundo. Como o Eça e o seu príncipe Jacinto, em Tormes, aqui ao lado, à volta de um copo de vinho branco e de umas favas suadas. A manhã, primaveril, traz-me os sons, as cores e os cheiros do campo. Um outro campo que não o da minha infância. Descobri, tarde, esta parte do Portugal sacro-profano que me dizem ser mais celta do que mouro.

2. Um citadino não sabe o que é isso de ouvir, logo pela manhã, os galos a cantar nos galinheiros. Ou ver as cerdeiras (cerejeiras) em flor. Ou observar os melros de bico amarelo pousados nas videiras que desabrocham. Um citadino nunca ouviu falar dos gaviões nem das suas frágeis presas. Nem sabe por que auto-estradas andam as toupeiras e os ouriços-caixeiros deste país. Nem por que razão falam alto e bom som as gentes de além-Douro. Nem o seu gosto desmedido pelo fogo que ribomba como o trovão.

3. Nos campos de erva, de diversas tonalidades de verde, são visíveis as partes que foram cortadas para as ovelhas, agora recolhidas nas cortes à medida que os gamões das videiras crescem a olhos vistos. Na grande matança da Páscoa, o sacrificado é o cordeiro, o anho, o ex-libris da gastronomia da região. Ao longe ouve-se o estralejar dos foguetes. O compasso pascal anda por aí. Com a cruz abrindo os tortuosos caminhos e exorcizando os medos ancestrais. In hoc signo vinces. Desde Constantino, o Imperador, que a cruz marca a vida dos camponeses, do nascer ao morrer. Com este sinal vencerás. Vai levar dois dias a percorrer a freguesia. A cruz, o Cristo pregado na cruz, o compasso, os homens da opa vermelha e o menino da sineta, de sobrepeliz branca como o anjo. Menos de mil almas e algumas escassas centenas de fogos a visitar. Aleluia, aleluia, Cristo ressuscitou, diz o homem da opa vermelha, o mordomo da festa sacro-profana.

4. Em frente o vale e a montanha. O rio Douro ao fundo. Pacificado. Cem anos depois, o Eça não voltaria a escrever A cidade e as serras. Há trinta ou quarenta anos atrás, talvez. Havia ainda um mundo a desmoronar-se. E testemunhas vivas desse mundo. O mundo dos rendeiros e dos camponeses pobres que decidiram trocar o arado e as juntas de bois pela linha de montagem automóvel ou pelos chantiers da construção civil nos arredores de Paris. Hoje há a barragem do Carrapatelo, as antenas das telecomunicações e os moinhos eólicos no alto das serras. E o Mercedes de matrícula K. O progresso cobra o seu preço. A globalização também. Estradas e estradões esventraram o cenário bucólico que escondia a miséria dos casebres dos cabaneiros, os mais pobres dos pobres. O Zé do Telhado já há muito que morreu, desterrado em Angola, mas ainda continua meio vivo na memória das gentes do Douro Litoral. Os netos dos antigos senhores, os fidalgos,proprietários agrícolas absentistas da Foz do Douro, recuperam as casas dos caseiros e fazem delas a sua casa de campo. Com piscina e court de ténis. O povoamento continua disperso pelo verde e pelos socalcos. Os montes estão carecas depois das últimas décadas de incêndios. Já há muito que regressou o último soldado das colónias e se escreveu o último aerograma. E o Porto aqui tão perto. Cada vez mais perto com as auto-estradas, as IP e as IC do país motorizado.

5. Um mundo quase perfeito, visto da janela do meu quarto. Domingo de Páscoa, de manhã. Faltam-lhe só, porventura, os camponeses, que morreram. E os que emigraram. E os que não voltaram. E os que morreram, mal nasceram. Que as famílias eram numerosas mas a mortalidade infantil altíssima. Passo os olhos pelas paredes da casa, de grosso granito. Já albergaram sete ou oito gerações. Não é nada, se tu souberes que os australopitecos, teus antepassados, evoluíram há 5 milhões de anos, 200 mil gerações atrás.

6. No Século XXI, Cristo continua a ressuscitar todos os anos, pela Páscoa. No Entre-Douro e Minho da minha aldeia. E os cristãos reunem-se em casa uns dos outros para comer o agnus Dei com arroz de forno. E para celebrar o milagre da vida. A vitória da vida sobre a morte. Há quinhentos anos que se deitam foguetes nas vilas e aldeias do Portugal sacro-profano. Não sei nada da história do fogo de artifício. Sei apenas que veio da velha China com as naus quinhentistas. Para celebrar a ressurreição de Cristo. Ou mais prosaicamente para fazer a festa. Que é a vitória sobre o trabalho. O tripaliu(m) que mata a gente. E para marcar o tempo, o fluir do tempo, o solstício do inverno e do verão, a inexorável usura do tempo. E todos os anos pela Páscoa, eu, descendente de austrapolitecos, assisto da minha varanda de granito à alegria infantil dos camponeses durienses que já morreram, face à orgia de fogo que assinala, em cada freguesia, o recolher do compasso pascal. Da minha janela vejo o mundo ou uma parte dele, mesmo ínfíma: Paredes de Viadores, Mesquinhata, Santa Leocádia, Porto Antigo, Paços de Gaiolo... Estes nomes, medievos, passaram a ser-me familiares. E as serras à volta do meu presépio: Montemuro, Aboboreira... Mas este ano, os de Paço é que lançaram o fogo mais vistoso: dois mil contos de réis!, dizem as gentes da terra, ainda incapazes de raciocinar em termos de euros, de milhões de euros. Capricharam, os de Paços de Gaiolo, mas também é verdade que eles têm o dobro dos fogos da minha adoptiva freguesia de Paredes dxe Viadores.

7. Da janela do quarto da aldeia que eu também fiz minha, só não posso ver o mar. E faz-me falta o mar. E o pôr do sol no mar. Na exacta e nítida linha do horizonte. Ah!, quanto falta nos faz o mar, ó Sofia, deusa grega antiga. Mas não penso nele, no mar. Nem na mediterrânica luz da poesia da Sofia. Neste domingo de Páscoa, se me é legítimo ter um pensamento de admiração e agradecimento, ele vai direitinho para os meus australopitecos que nunca terão chegado a estas terras frias de Candoz e de Fandinhães, parte do concelho, extinto em 1836, a que chamavam Bem Viver. Sei também que nunca receberão as minhas mensagens, porque já estão extintos, mas eu mandei-lhes um SMS: "Boas e Santas Páscoas. Nós por cá, todos bem!".

Portugal sacro-profano - XIX: Boas e Santas Páscoas. Nós, por cá, todos bem!

1. É domingo de Páscoa na aldeia. Faz frio mas o sol está esplêndido. É um daqueles dias em que a gente se reconcilia com a vida. Nem que seja por uns breves instantes. Com a vida, mas não necessariamente com o mundo. Como o Eça e o seu príncipe Jacinto, em Tormes, aqui ao lado, à volta de um copo de vinho branco e de umas favas suadas. A manhã, primaveril, traz-me os sons, as cores e os cheiros do campo. Um outro campo que não o da minha infância. Descobri, tarde, esta parte do Portugal sacro-profano que me dizem ser mais celta do que mouro.

2. Um citadino não sabe o que é isso de ouvir, logo pela manhã, os galos a cantar nos galinheiros. Ou ver as cerdeiras (cerejeiras) em flor. Ou observar os melros de bico amarelo pousados nas videiras que desabrocham. Um citadino nunca ouviu falar dos gaviões nem das suas frágeis presas. Nem sabe por que auto-estradas andam as toupeiras e os ouriços-caixeiros deste país. Nem por que razão falam alto e bom som as gentes de além-Douro. Nem o seu gosto desmedido pelo fogo que ribomba como o trovão.

3. Nos campos de erva, de diversas tonalidades de verde, são visíveis as partes que foram cortadas para as ovelhas, agora recolhidas nas cortes à medida que os gamões das videiras crescem a olhos vistos. Na grande matança da Páscoa, o sacrificado é o cordeiro, o anho, o ex-libris da gastronomia da região. Ao longe ouve-se o estralejar dos foguetes. O compasso pascal anda por aí. Com a cruz abrindo os tortuosos caminhos e exorcizando os medos ancestrais. In hoc signo vinces. Desde Constantino, o Imperador, que a cruz marca a vida dos camponeses, do nascer ao morrer. Com este sinal vencerás. Vai levar dois dias a percorrer a freguesia. A cruz, o Cristo pregado na cruz, o compasso, os homens da opa vermelha e o menino da sineta, de sobrepeliz branca como o anjo. Menos de mil almas e algumas escassas centenas de fogos a visitar. Aleluia, aleluia, Cristo ressuscitou, diz o homem da opa vermelha, o mordomo da festa sacro-profana.

4. Em frente o vale e a montanha. O rio Douro ao fundo. Pacificado. Cem anos depois, o Eça não voltaria a escrever A cidade e as serras. Há trinta ou quarenta anos atrás, talvez. Havia ainda um mundo a desmoronar-se. E testemunhas vivas desse mundo. O mundo dos rendeiros e dos camponeses pobres que decidiram trocar o arado e as juntas de bois pela linha de montagem automóvel ou pelos chantiers da construção civil nos arredores de Paris. Hoje há a barragem do Carrapatelo, as antenas das telecomunicações e os moinhos eólicos no alto das serras. E o Mercedes de matrícula K. O progresso cobra o seu preço. A globalização também. Estradas e estradões esventraram o cenário bucólico que escondia a miséria dos casebres dos cabaneiros, os mais pobres dos pobres. O Zé do Telhado já há muito que morreu, desterrado em Angola, mas ainda continua meio vivo na memória das gentes do Douro Litoral. Os netos dos antigos senhores, os fidalgos,proprietários agrícolas absentistas da Foz do Douro, recuperam as casas dos caseiros e fazem delas a sua casa de campo. Com piscina e court de ténis. O povoamento continua disperso pelo verde e pelos socalcos. Os montes estão carecas depois das últimas décadas de incêndios. Já há muito que regressou o último soldado das colónias e se escreveu o último aerograma. E o Porto aqui tão perto. Cada vez mais perto com as auto-estradas, as IP e as IC do país motorizado.

5. Um mundo quase perfeito, visto da janela do meu quarto. Domingo de Páscoa, de manhã. Faltam-lhe só, porventura, os camponeses, que morreram. E os que emigraram. E os que não voltaram. E os que morreram, mal nasceram. Que as famílias eram numerosas mas a mortalidade infantil altíssima. Passo os olhos pelas paredes da casa, de grosso granito. Já albergaram sete ou oito gerações. Não é nada, se tu souberes que os australopitecos, teus antepassados, evoluíram há 5 milhões de anos, 200 mil gerações atrás.

6. No Século XXI, Cristo continua a ressuscitar todos os anos, pela Páscoa. No Entre-Douro e Minho da minha aldeia. E os cristãos reunem-se em casa uns dos outros para comer o agnus Dei com arroz de forno. E para celebrar o milagre da vida. A vitória da vida sobre a morte. Há quinhentos anos que se deitam foguetes nas vilas e aldeias do Portugal sacro-profano. Não sei nada da história do fogo de artifício. Sei apenas que veio da velha China com as naus quinhentistas. Para celebrar a ressurreição de Cristo. Ou mais prosaicamente para fazer a festa. Que é a vitória sobre o trabalho. O tripaliu(m) que mata a gente. E para marcar o tempo, o fluir do tempo, o solstício do inverno e do verão, a inexorável usura do tempo. E todos os anos pela Páscoa, eu, descendente de austrapolitecos, assisto da minha varanda de granito à alegria infantil dos camponeses durienses que já morreram, face à orgia de fogo que assinala, em cada freguesia, o recolher do compasso pascal. Da minha janela vejo o mundo ou uma parte dele, mesmo ínfíma: Paredes de Viadores, Mesquinhata, Santa Leocádia, Porto Antigo, Paços de Gaiolo... Estes nomes, medievos, passaram a ser-me familiares. E as serras à volta do meu presépio: Montemuro, Aboboreira... Mas este ano, os de Paço é que lançaram o fogo mais vistoso: dois mil contos de réis!, dizem as gentes da terra, ainda incapazes de raciocinar em termos de euros, de milhões de euros. Capricharam, os de Paços de Gaiolo, mas também é verdade que eles têm o dobro dos fogos da minha adoptiva freguesia de Paredes dxe Viadores.

7. Da janela do quarto da aldeia que eu também fiz minha, só não posso ver o mar. E faz-me falta o mar. E o pôr do sol no mar. Na exacta e nítida linha do horizonte. Ah!, quanto falta nos faz o mar, ó Sofia, deusa grega antiga. Mas não penso nele, no mar. Nem na mediterrânica luz da poesia da Sofia. Neste domingo de Páscoa, se me é legítimo ter um pensamento de admiração e agradecimento, ele vai direitinho para os meus australopitecos que nunca terão chegado a estas terras frias de Candoz e de Fandinhães, parte do concelho, extinto em 1836, a que chamavam Bem Viver. Sei também que nunca receberão as minhas mensagens, porque já estão extintos, mas eu mandei-lhes um SMS: "Boas e Santas Páscoas. Nós por cá, todos bem!".

08 abril 2004

Estórias com mural ao fundo - XXV: No dia da minha morte

O que é que tu gostarias que te dissessem no dia da tua morte, no elogio fúnebre da tua pessoa, feito pelos teus familiares e amigos ? Esta questão foi levantada numa turma de jovens estudantes do ensino secundário de Lisboa. As respostas foram as mais diversas e as não menos surpreendentes:



- Foi um grande médico...

- Um óptimo pai de família...

- Mais famoso do que o Figo...

- Um tipo muito rico, que ajudou os pobrezinhos...

- Um gajo porreiro...

- Um cristão temente a Deus...

- A miss Universo de 2004...

- Um homem simples e bom que não ficou a dever nada a ninguém...

- Um tipo popular, amigo de toda a gente...

- Um primeiro-ministro muito melhor que o Guterres ou que o Durão...

- A cientista portuguesa mais citada do mundo...

- Chegou à terra, viu e venceu...

- A mulher mais linda que nasceu na nossa terra...

- Prémio Nobel da Literatura de 2050...

- Um ganda cromo...



No fim, ouviu-se uma voz, lá ao fundo da sala:

- Ó stôr, o que eu curtia mesmo era ouvir no caixão: 'Olha, olha, o gajo está-se a mexer!'...



Moral da história: Os homens (e as mulheres) são vaidosos, até na morte. Mas se puderem evitá-la, há pernas para que te quero!... Veja-se o Cristo que ressuscitou ao terceiro dia... Sinal de que a vida na terra está longe de ser o vale de lágrimas de que a gente se queixa, pelo menos alguns de nós, aqueles que somos mais infelizes ou que aparentamos sê-lo...

Estórias com mural ao fundo - XXV: No dia da minha morte

O que é que tu gostarias que te dissessem no dia da tua morte, no elogio fúnebre da tua pessoa, feito pelos teus familiares e amigos ? Esta questão foi levantada numa turma de jovens estudantes do ensino secundário de Lisboa. As respostas foram as mais diversas e as não menos surpreendentes:

- Foi um grande médico...
- Um óptimo pai de família...
- Mais famoso do que o Figo...
- Um tipo muito rico, que ajudou os pobrezinhos...
- Um gajo porreiro...
- Um cristão temente a Deus...
- A miss Universo de 2004...
- Um homem simples e bom que não ficou a dever nada a ninguém...
- Um tipo popular, amigo de toda a gente...
- Um primeiro-ministro muito melhor que o Guterres ou que o Durão...
- A cientista portuguesa mais citada do mundo...
- Chegou à terra, viu e venceu...
- A mulher mais linda que nasceu na nossa terra...
- Prémio Nobel da Literatura de 2050...
- Um ganda cromo...

No fim, ouviu-se uma voz, lá ao fundo da sala:
- Ó stôr, o que eu curtia mesmo era ouvir no caixão: 'Olha, olha, o gajo está-se a mexer!'...

Moral da história: Os homens (e as mulheres) são vaidosos, até na morte. Mas se puderem evitá-la, há pernas para que te quero!... Veja-se o Cristo que ressuscitou ao terceiro dia... Sinal de que a vida na terra está longe de ser o vale de lágrimas de que a gente se queixa, pelo menos alguns de nós, aqueles que somos mais infelizes ou que aparentamos sê-lo...

05 abril 2004

Portugal sacro-profano - XVIII: Não batam mais no ceguinho!

É, pá, não batas mais no ceguinho e em quem o conduz para o abismo! Às vezes até parece que fazes do Zé Povinho um desses trágicos figurantes do Ensaio sobre a Cegueira. E depois da cegueira, vem agora a lucidez , o Ensaio sobre a Lucidez...



As trevas e a luz, o bem e o mal, o céu e o inferno, a democracia e o dilúvio: por que é que tu havias agora de dicotomizar o mundo e a vida, ó Zé Saramago ? Sabes, a realidade é infinitamente mais complexa do que a tua ficção, dizem os geneticistas, os astrofísicos, os biólogos, os macrossociólogos, os micropsicólogos, os historiadores, os filósofos de imaginação por quotas limitada...



Como seria de esperar, o lucidíssimo e incontornável Pacheco não gostou. Do novo ensaio. O Saraiva, o editorialista-mor, o arquitecto da opinião pública, desancou: Saramago é decididamente um dos seus ódios de estimação. A direita intelectual, bem formada, não gostou nem gosta nem nunca gostará. Mesmo sem ler... A esquerda, sobretudo a mal formada, se calhar foi mais uma vez oportunista e disse que gostou, por conveniência ou não. Mesmo sem preparação literária para ler o nobilíssimo romance.



E quanto ao Blogador ? Eu ainda não li. Honestamente não li. Não sou caçador de autógrafos, não vou às vernissages literária, não estou propriamente a par das últimas novidades. Como também não li outros romances do nosso Nobel que comprei, por grosso, em saldo, numa dessas feiras do livro, de ocasião. Não me interpretem mal: comecei por comprar o nosso Nobel por razões patrióticas, se é isso que querem saber. Ou por razões de pesrtígio social. Parecia mal não ter lá em casa o único Nobel da Literatura, portuga e lusófono... Depois li três ou quatro livros, o Convento, o Ano da Morte de Ricardo Reis, o Ensaio da Cegueira, o Levantado do Chão... Mais a peça de teatro Em Nome de Deus....



Também compro sempre, religiosamente, o nosso próximo Nobel, o Lobo Antunes. Eu estou como um compadre meu, que vai fazendo a sua biblioteca para quando se reformar e tiver tempo para ler os seus autores favoritos. O homem é um assessor jurídico de uma direcção-geral qualquer, e não tempo senão para ler o Diário da República. Na casa de praia, ele tem os livrinhos todos alinhados na estante, por ordem alfabética, do autor do Cu de Judas (o único título do Lobo Antunes que ele consegue citar de memória, sem recurso a cábulas, e que ele terá lido, segundo os meus cálculos). E na casa de campo guarda os do Saramago. Um felizardo, este meu compadre, com duas segundas casas, uma no campo e outra na praia. Como ele costuma dizer, galhofeiro e infoanalfabeto (imnaginem que nem sequer tem um e-mail!), "já dei o meu contributo para aumentar o índice de consumo cultural dos portugas. Tenho o Saramago e o Lobo Antunes na estante, não me peçam mais".



Em boa verdade, o meu compadre é como eu: gostamos da escrita como deve ser, com ponto e vírgula, acento circunflexo, regras gramaticais, figuras de estilo e lágrima ao canto do olho. A única coisa que nos separa é a circunstância de o meu compadre ser anafado, ricaço, assessor, jurista e não ter e-mail. Quanto ao resto, somos da mesma criação e fomos daqueles que ainda aprenderam, nos bancos da escola, pelos intragáveis Lusíadas e pelas doces Pupilas do Senhor Reitor. Mas nem por isso eu, pelo menos, deixo de ser a favor da liberdade, a começar pela de pensamento, de criação e de escrita. Como republicano que prezo ser, sou laico e liberal. Sou a favor da liberdade. O Saramago não o é, diz o Pacheco, ex cathedra. É o lado de que menos gosto do Pacheco, quando ele diz que só gosta dele, por exclusões de partes. Muitos intelectuais, independentemente de serem de direita ou de esquerda, não gostam do Saramago, porque o homem é um self made man , não é doutor... Tiques de classe, toques de corporativismo.



Mas o que é que o pobre escritor, ficcionista, pseudo-ensaísta, pode fazer, ainda por cima sem ajuda do Grande Inquisidor-Mor que foi o Lara, o tal sujeito que em 1992 era um obscuro Subsecretário de Estado de qualquer coisa e que pôs o Saramago no Index?!



Em contrapartida, mais de 220 leitores da Amazon.com gostaram do Ensaio sobre a Cegueira (Blindness, em inglês). Deram-lhe quatro pontos numa escala de 1 a 5. Não me venham dizer que são todos camaradas do Zé Saramago, proletário.



Goste-se ou não do Saramago (que a gente cá na terra ainda tem liberdade de gostar ou não gostar de alguém!), há uma coisa que é certa e que lhe dá muitos pontos de avanço em relação a muitos dos seus críticos: se calhar Saramago, o escritor, já fez mais pela língua e cultura portuguesas do que todos os ministros da cultura destes últimos trinta anos do pós-25 de Abril. Em vez de repetir o miserável enxovalho de 1992, os portugas podiam ser mais simpáticos para com ele, mesmo aqueles que não gostam dele e sobretudo aqueles que não gostam dele mas que nunca o leram.



Eu sei que ele é menos consensual do que o Figo. Eu sei que a arte, a literatura, a cultura, são tudo coisas muito menos consensuais do que a bola. Não fazem parte do cabaz de compras, não são bens essenciais. "A poesia não enche barriga", diz o meu merceeiro de bairro, na zona pobre da Lapa, o mesmo que lê o Correio da Manhã e a Bola, vota no PP e que "não pode com o materialismo dialéctico do excomungado do Saramago". Eu gosto do meu merceeiro de bairro, faz-me lembrar o António Silva e os saudosos anos quarenta do século passado que só conheço dos filmes do Leitão de Barros.



Está visto que os portugas, certos portugas, não admitem que um escritor seja travestido (ou se desdobre) de cidadão, militante político, candidato a deputado europeu, mesmo em lugar não elegível ... E ter ideias. E sobretudo exprimi-las em público, roubando o tempo de antena dos políticos e dos seus analistas.



Um escritor deve ser só escritor. Cada macaco no seu galho. A história encarrega-se-á depois do juízo final sobre os seus (des)méritos. Dizem que o homem é irrequieto, que devia ficar quietinho a escrever os seus livros lá na ilha de Lanzarote, negra como o carvão. Ele já sabe que aqui não é querido por alguns, acham que (i) ele é o Guerra Junqueira do nosso tempo ou, mais sinistro ainda, que (ii) ele pode vir a ser o coveiro da nossa democracia com essa maluqueira do voto em branco... Não há dúvida que se isto fosse no tempo da Santa Inquisição ele iria de certo parar à fogueira como o camarada dele, o Judeu.



Em boa verdade, Saramago é homem de paixões, de fracturas, não é homem de consensos como o Figo (Também queria ver se o Figo voltasse a Portugal e assinasse um contrato pelos Dragões!).



Em suma, uns e outros adoram comprar guerras, dizem os treinadores de bancada. Saramago, os seus apoiantes e os seus críticos. Os tempos que por aí vão são propícios às guerras de religião. Às guerras in nomine Dei, em nome de Deus. As mais cruéis e estúpidas de todas as guerras, diga-se de passagem. E de que Deus nos livre, acrescento eu!



Enfim, mais inteligente foi o nosso primeiro que na semana transacta deixou o recado lá na redacção do Expresso: "Digam ao Saramago que pode regressar do seu auto-exílio nas Canárias; por mim, está perdoado!"... Diga-se que, depois do Aznar, está na moda deixar recados na redacção dos jornais. Segredos de Estado com direito a título de caixa alta: directamente do produtor ao consumidor final.



Um tipo que não é parvo de todo, este nosso primeiro... Ainda o hei-de vcer a tomar chá com o perigoso comuna. É que o Saramago é como o Bin Laden: (i) vale bem mais vivo do que morto, e (ii) vale muito mais ao pé de nós do que em Espanha, rodeado de más companhias... Há um provérbio chinês que diz: Se não podes matar o teu inimigo, elogia-lhe o talento (literário, artístico ou outro) mas mantem-no debaixo de olho". Há um outro, pós-maoísta, que diz: "Com o tempo, vai-se a ganga (ideológica) e fica a forma (artística)"... Acho que era isso que o nosso primeiro queria transmitir ao povo (i)letrado.



É caso para se dizer: que maçada aqueles suecos terem dado o Nobel a um portuga (des)alinhado como este Saramago!... Mas, se me permitem que fale em nome do Zé Povinho, eu acrescentaria, à laia de comentário final, o seguinte: (i) perdemos há muito o sentido da magnanimidade, (ii) somos uns cabrões uns para com os outros; mas (iii) eu lá estarei, se for vivo, quando enterrarem os ossos do nosso homem no Panteão Nacional!...

Portugal sacro-profano - XVIII: Não batam mais no ceguinho!

É, pá, não batas mais no ceguinho e em quem o conduz para o abismo! Às vezes até parece que fazes do Zé Povinho um desses trágicos figurantes do Ensaio sobre a Cegueira. E depois da cegueira, vem agora a lucidez , o Ensaio sobre a Lucidez...

As trevas e a luz, o bem e o mal, o céu e o inferno, a democracia e o dilúvio: por que é que tu havias agora de dicotomizar o mundo e a vida, ó Zé Saramago ? Sabes, a realidade é infinitamente mais complexa do que a tua ficção, dizem os geneticistas, os astrofísicos, os biólogos, os macrossociólogos, os micropsicólogos, os historiadores, os filósofos de imaginação por quotas limitada...

Como seria de esperar, o lucidíssimo e incontornável Pacheco não gostou. Do novo ensaio. O Saraiva, o editorialista-mor, o arquitecto da opinião pública, desancou: Saramago é decididamente um dos seus ódios de estimação. A direita intelectual, bem formada, não gostou nem gosta nem nunca gostará. Mesmo sem ler... A esquerda, sobretudo a mal formada, se calhar foi mais uma vez oportunista e disse que gostou, por conveniência ou não. Mesmo sem preparação literária para ler o nobilíssimo romance.

E quanto ao Blogador ? Eu ainda não li. Honestamente não li. Não sou caçador de autógrafos, não vou às vernissages literária, não estou propriamente a par das últimas novidades. Como também não li outros romances do nosso Nobel que comprei, por grosso, em saldo, numa dessas feiras do livro, de ocasião. Não me interpretem mal: comecei por comprar o nosso Nobel por razões patrióticas, se é isso que querem saber. Ou por razões de pesrtígio social. Parecia mal não ter lá em casa o único Nobel da Literatura, portuga e lusófono... Depois li três ou quatro livros, o Convento, o Ano da Morte de Ricardo Reis, o Ensaio da Cegueira, o Levantado do Chão... Mais a peça de teatro Em Nome de Deus....

Também compro sempre, religiosamente, o nosso próximo Nobel, o Lobo Antunes. Eu estou como um compadre meu, que vai fazendo a sua biblioteca para quando se reformar e tiver tempo para ler os seus autores favoritos. O homem é um assessor jurídico de uma direcção-geral qualquer, e não tempo senão para ler o Diário da República. Na casa de praia, ele tem os livrinhos todos alinhados na estante, por ordem alfabética, do autor do Cu de Judas (o único título do Lobo Antunes que ele consegue citar de memória, sem recurso a cábulas, e que ele terá lido, segundo os meus cálculos). E na casa de campo guarda os do Saramago. Um felizardo, este meu compadre, com duas segundas casas, uma no campo e outra na praia. Como ele costuma dizer, galhofeiro e infoanalfabeto (imnaginem que nem sequer tem um e-mail!), "já dei o meu contributo para aumentar o índice de consumo cultural dos portugas. Tenho o Saramago e o Lobo Antunes na estante, não me peçam mais".

Em boa verdade, o meu compadre é como eu: gostamos da escrita como deve ser, com ponto e vírgula, acento circunflexo, regras gramaticais, figuras de estilo e lágrima ao canto do olho. A única coisa que nos separa é a circunstância de o meu compadre ser anafado, ricaço, assessor, jurista e não ter e-mail. Quanto ao resto, somos da mesma criação e fomos daqueles que ainda aprenderam, nos bancos da escola, pelos intragáveis Lusíadas e pelas doces Pupilas do Senhor Reitor. Mas nem por isso eu, pelo menos, deixo de ser a favor da liberdade, a começar pela de pensamento, de criação e de escrita. Como republicano que prezo ser, sou laico e liberal. Sou a favor da liberdade. O Saramago não o é, diz o Pacheco, ex cathedra. É o lado de que menos gosto do Pacheco, quando ele diz que só gosta dele, por exclusões de partes. Muitos intelectuais, independentemente de serem de direita ou de esquerda, não gostam do Saramago, porque o homem é um self made man , não é doutor... Tiques de classe, toques de corporativismo.

Mas o que é que o pobre escritor, ficcionista, pseudo-ensaísta, pode fazer, ainda por cima sem ajuda do Grande Inquisidor-Mor que foi o Lara, o tal sujeito que em 1992 era um obscuro Subsecretário de Estado de qualquer coisa e que pôs o Saramago no Index?!

Em contrapartida, mais de 220 leitores da Amazon.com gostaram do Ensaio sobre a Cegueira (Blindness, em inglês). Deram-lhe quatro pontos numa escala de 1 a 5. Não me venham dizer que são todos camaradas do Zé Saramago, proletário.

Goste-se ou não do Saramago (que a gente cá na terra ainda tem liberdade de gostar ou não gostar de alguém!), há uma coisa que é certa e que lhe dá muitos pontos de avanço em relação a muitos dos seus críticos: se calhar Saramago, o escritor, já fez mais pela língua e cultura portuguesas do que todos os ministros da cultura destes últimos trinta anos do pós-25 de Abril. Em vez de repetir o miserável enxovalho de 1992, os portugas podiam ser mais simpáticos para com ele, mesmo aqueles que não gostam dele e sobretudo aqueles que não gostam dele mas que nunca o leram.

Eu sei que ele é menos consensual do que o Figo. Eu sei que a arte, a literatura, a cultura, são tudo coisas muito menos consensuais do que a bola. Não fazem parte do cabaz de compras, não são bens essenciais. "A poesia não enche barriga", diz o meu merceeiro de bairro, na zona pobre da Lapa, o mesmo que lê o Correio da Manhã e a Bola, vota no PP e que "não pode com o materialismo dialéctico do excomungado do Saramago". Eu gosto do meu merceeiro de bairro, faz-me lembrar o António Silva e os saudosos anos quarenta do século passado que só conheço dos filmes do Leitão de Barros.

Está visto que os portugas, certos portugas, não admitem que um escritor seja travestido (ou se desdobre) de cidadão, militante político, candidato a deputado europeu, mesmo em lugar não elegível ... E ter ideias. E sobretudo exprimi-las em público, roubando o tempo de antena dos políticos e dos seus analistas.

Um escritor deve ser só escritor. Cada macaco no seu galho. A história encarrega-se-á depois do juízo final sobre os seus (des)méritos. Dizem que o homem é irrequieto, que devia ficar quietinho a escrever os seus livros lá na ilha de Lanzarote, negra como o carvão. Ele já sabe que aqui não é querido por alguns, acham que (i) ele é o Guerra Junqueira do nosso tempo ou, mais sinistro ainda, que (ii) ele pode vir a ser o coveiro da nossa democracia com essa maluqueira do voto em branco... Não há dúvida que se isto fosse no tempo da Santa Inquisição ele iria de certo parar à fogueira como o camarada dele, o Judeu.

Em boa verdade, Saramago é homem de paixões, de fracturas, não é homem de consensos como o Figo (Também queria ver se o Figo voltasse a Portugal e assinasse um contrato pelos Dragões!).

Em suma, uns e outros adoram comprar guerras, dizem os treinadores de bancada. Saramago, os seus apoiantes e os seus críticos. Os tempos que por aí vão são propícios às guerras de religião. Às guerras in nomine Dei, em nome de Deus. As mais cruéis e estúpidas de todas as guerras, diga-se de passagem. E de que Deus nos livre, acrescento eu!

Enfim, mais inteligente foi o nosso primeiro que na semana transacta deixou o recado lá na redacção do Expresso: "Digam ao Saramago que pode regressar do seu auto-exílio nas Canárias; por mim, está perdoado!"... Diga-se que, depois do Aznar, está na moda deixar recados na redacção dos jornais. Segredos de Estado com direito a título de caixa alta: directamente do produtor ao consumidor final.

Um tipo que não é parvo de todo, este nosso primeiro... Ainda o hei-de vcer a tomar chá com o perigoso comuna. É que o Saramago é como o Bin Laden: (i) vale bem mais vivo do que morto, e (ii) vale muito mais ao pé de nós do que em Espanha, rodeado de más companhias... Há um provérbio chinês que diz: Se não podes matar o teu inimigo, elogia-lhe o talento (literário, artístico ou outro) mas mantem-no debaixo de olho". Há um outro, pós-maoísta, que diz: "Com o tempo, vai-se a ganga (ideológica) e fica a forma (artística)"... Acho que era isso que o nosso primeiro queria transmitir ao povo (i)letrado.

É caso para se dizer: que maçada aqueles suecos terem dado o Nobel a um portuga (des)alinhado como este Saramago!... Mas, se me permitem que fale em nome do Zé Povinho, eu acrescentaria, à laia de comentário final, o seguinte: (i) perdemos há muito o sentido da magnanimidade, (ii) somos uns cabrões uns para com os outros; mas (iii) eu lá estarei, se for vivo, quando enterrarem os ossos do nosso homem no Panteão Nacional!...

Portugal sacro-profano - XVII: Az(n)ar o meu!

Não sei o que fazer. Ou não sabia exatamente o que fazer há umas semanas atrás. Tinha acabado de ler, num jornal da capital, um anúncio com um oferta de venda de um país. Mais exactamente uma oferta de trespasse. Os dizeres eram mais ou menos deste jaez:



"Trespasse-se. Motivo: falência. País com 90 000 km2. Vista: Mar, praias. Bem localizado. Junto à Europa, mesmo ao lado de Espanha. A precisar de obras. Contactar Agência de São Bento. Telefone...".



Não se falava em números. Primeiro suspeitei mas depois reconheci logo que era o meu país. E tive um momento de fraqueza. Próprio dos humanos. Judas era homem e traiu o seu mestre. Por trinta dinheiros. De facto, ainda pensei duas vezes "Vendo, não vendo!?"... Confesso que ainda estive tentado a vender a (ínfima) parte que me cabe do país onde nasci. Mas depois tive uns laivos de orgulho patriótico. Dizem que é a voz do sangue. E arranjei força para dizer cá para comigo: "Az(n)ar o meu!"...



Pais, país, data e hora não se escolhem para nascer. Nasceste portuga, vais morrer portuga. Não sou supersticioso, mas este pensamento contraditório ocorreu-me no fatídico dia 11 de Março de 2004. Vou continuar a ser portuga, e o meu país vai continuar a ser sempre o meu país. Eu provavelmente é que nunca mais serei o mesmo.

Portugal sacro-profano - XVII: Az(n)ar o meu!

Não sei o que fazer. Ou não sabia exatamente o que fazer há umas semanas atrás. Tinha acabado de ler, num jornal da capital, um anúncio com um oferta de venda de um país. Mais exactamente uma oferta de trespasse. Os dizeres eram mais ou menos deste jaez:

"Trespasse-se. Motivo: falência. País com 90 000 km2. Vista: Mar, praias. Bem localizado. Junto à Europa, mesmo ao lado de Espanha. A precisar de obras. Contactar Agência de São Bento. Telefone...".

Não se falava em números. Primeiro suspeitei mas depois reconheci logo que era o meu país. E tive um momento de fraqueza. Próprio dos humanos. Judas era homem e traiu o seu mestre. Por trinta dinheiros. De facto, ainda pensei duas vezes "Vendo, não vendo!?"... Confesso que ainda estive tentado a vender a (ínfima) parte que me cabe do país onde nasci. Mas depois tive uns laivos de orgulho patriótico. Dizem que é a voz do sangue. E arranjei força para dizer cá para comigo: "Az(n)ar o meu!"...

Pais, país, data e hora não se escolhem para nascer. Nasceste portuga, vais morrer portuga. Não sou supersticioso, mas este pensamento contraditório ocorreu-me no fatídico dia 11 de Março de 2004. Vou continuar a ser portuga, e o meu país vai continuar a ser sempre o meu país. Eu provavelmente é que nunca mais serei o mesmo.

O tripaliu(m) que mata a gente - IV: Acidente in itinere

Lá se foi a tarde de domingo. E, com ela, o dolce far niente do fim de semana. Sempre curto, o fim de semana, para quem tem de recuperar do stresse pós-traumático do non-stop de segunda a sexta.



Com o pôr do sol tenho sempre um pensamento nobre, a condizer com a melancolia cesário-verdiana que é tão típica do portuga, incluindo aquele que escreveu na muralha, à beira-mar, numa daquelas praias tristes e sujas dos arredores de Lisboa: "Quando chegar a minha vez, eu gostaria de morrer durante o sono, como o meu avô... e não aos gritos, desesperado, como os passageiros da camioneta que ele conduzia a descer a Serra da Estrela!"...

O tripaliu(m) que mata a gente - IV: Acidente in itinere

Lá se foi a tarde de domingo. E, com ela, o dolce far niente do fim de semana. Sempre curto, o fim de semana, para quem tem de recuperar do stresse pós-traumático do non-stop de segunda a sexta.

Com o pôr do sol tenho sempre um pensamento nobre, a condizer com a melancolia cesário-verdiana que é tão típica do portuga, incluindo aquele que escreveu na muralha, à beira-mar, numa daquelas praias tristes e sujas dos arredores de Lisboa: "Quando chegar a minha vez, eu gostaria de morrer durante o sono, como o meu avô... e não aos gritos, desesperado, como os passageiros da camioneta que ele conduzia a descer a Serra da Estrela!"...

01 abril 2004

Estórias com mural ao fundo - XXIV: A sorte protege os audazesl

Uma empresa, uma daquelas novas empresas do Século XXI, pôs um anúncio num dos novos jornais de negócios on line, com oferta de emprego para uma importante função na área comercial.



Ainda à moda antiga (ou não estivéssemos em Lisboa), chegaram 830 currículos à mesa do director. Em suporte de papel, tal como era exigido no anúncio. O homem não se impressionou com o número de candidatos e ordenou à sua secretária:

- Escolha trinta à sorte e chame os candidatos para as entrevistas. As restantes oitocentas respostas podem mandá-las para o caixote do lixo.

O director de pessoal ainda ensaiou um gesto de protesto:

- Desculpe, senhor director, mas são 800 pessoas que responderam ao nosso anúncio e que querem mostrar o que valem. Quem sabe se nesse grupo não estará o melhor dos melhores!

- Oiça, eu tenho mais do que fazer e só preciso de gente com sorte!...



Moral da história: Tal como na guerra ou nos jogos de fortuna e azar, ter ou não ter sorte, eis a questão... Do meu tempo de jovem miliciano, contestatário da guerra colonial, recordo ainda a famosa divisa dos Comandos, Audaces Fortuna Juvat ou A Sorte Protege os Audazes. Infelizmente para os comandos africanos na Guiné a sorte foi-lhes madrasta, acabando a maior parte deles na vala comum dos ajustes de contas do pós-guerra.



Hoje no mercado como ontem na guerra, a sorte é o critério fundamental para se triunfar ou não na vida, no amor, na saúde, no amor, nos negócios, na riqueza, em tudo... Nunca como hoje a leitura matinal do horóscopo foi tão importante. Se eu fosse o director daquela empresa, já há muito que tinha despedido o gestor de recursos humanos, substituindo-o por um croupier e por uma tabela de números aleatórios...

Estórias com mural ao fundo - XXIV: A sorte protege os audazesl

Uma empresa, uma daquelas novas empresas do Século XXI, pôs um anúncio num dos novos jornais de negócios on line, com oferta de emprego para uma importante função na área comercial.

Ainda à moda antiga (ou não estivéssemos em Lisboa), chegaram 830 currículos à mesa do director. Em suporte de papel, tal como era exigido no anúncio. O homem não se impressionou com o número de candidatos e ordenou à sua secretária:
- Escolha trinta à sorte e chame os candidatos para as entrevistas. As restantes oitocentas respostas podem mandá-las para o caixote do lixo.
O director de pessoal ainda ensaiou um gesto de protesto:
- Desculpe, senhor director, mas são 800 pessoas que responderam ao nosso anúncio e que querem mostrar o que valem. Quem sabe se nesse grupo não estará o melhor dos melhores!
- Oiça, eu tenho mais do que fazer e só preciso de gente com sorte!...

Moral da história: Tal como na guerra ou nos jogos de fortuna e azar, ter ou não ter sorte, eis a questão... Do meu tempo de jovem miliciano, contestatário da guerra colonial, recordo ainda a famosa divisa dos Comandos, Audaces Fortuna Juvat ou A Sorte Protege os Audazes. Infelizmente para os comandos africanos na Guiné a sorte foi-lhes madrasta, acabando a maior parte deles na vala comum dos ajustes de contas do pós-guerra.

Hoje no mercado como ontem na guerra, a sorte é o critério fundamental para se triunfar ou não na vida, no amor, na saúde, no amor, nos negócios, na riqueza, em tudo... Nunca como hoje a leitura matinal do horóscopo foi tão importante. Se eu fosse o director daquela empresa, já há muito que tinha despedido o gestor de recursos humanos, substituindo-o por um croupier e por uma tabela de números aleatórios...

30 março 2004

O tripaliu(m) que mata a gente - III: O assédio moral

1. O assédio moral e outras formas de violência no local de trabalho não são de ontem nem de hoje mas agravam-se em épocas de crise. Um indício disso é o facto de hoje se falar mais nestes fenómenos, de haver mais casos que chegam ao nosso conhecimento, de haver inclusivamente uma tentativa para lhe dar uma moldura legal, criminalizando este tipo de comportamentos.



Por exemplo, o nosso Código do Trabalho, que entrou em vigor a partir de 1 de Dezembro de 2003, consagra a figura do assédio e dá uma definição alargada (se bem que imprecisa) desta forma de violência. Segundo o art. 24º (Assédio), (i) constitui discriminação o assédio a candidato a emprego e a trabalhador; (ii) entende-se por assédio todo o comportamento indesejado relacionado com um dos factores indicados no nº1 do art. 23º, praticado aquando do acesso ao emprego, ou no próprio emprego, trabalho ou formação profissional, com o objectivo ou o efeito de afectar a dignidade da pessoa, ou criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador; (iii) constitui, em especial, assédio, todo o comportamento indesejado de carácter sexual, sob forma verbal, não verbal ou física, com o objectivo ou o efeito referido no número anterior".



O nº 1 do artº 23º diz explicitamente que "o empregador não pode praticar qualquer discriminação, directa ou indirecta, baseada, nomeadamente, na ascendência, idade, sexo, orientação sexual, estado civil, situação familiar, património genético, capacidade de trabalho reduzida, deficiência, doença crónica, nacionalidade, origem étnica, religião, convicções políticas ou ideológicas e filiação sindical".



2. Para a organização Opusgay, "o novo Código de Trabalho atenta, em muitos aspectos, contra direitos adquiridos dos trabalhadores"; todavia, "na questão da luta contra a discriminação, foi dado um forte passo, em virtude da obrigatoriedade de transposição da Directiva 2000/78/CE".



Esta Directiva (Directiva 2000/78/CE do Conselho, de 27 de Novembro de 2000) estabelece o quadro legal de igualdade de tratamento no emprego e na actividade profissional.



Para a Opusgay há "um conceito de assédio mais alargado (que) está agora em vigor", passando a ser proibido "qualquer comportamento indesejado dos outros que, injustificadamente, humilhe ou intimide uma pessoa (por exemplo, em função da sua homossexualidade)".



Em teoria, não cabe à vítima de assédio fazer o ónus da prova. Na prática, continua a ser "muito difícil falar disto" e sobretudo criminalizar o assédio, seja ele praticado pelo empregador e/ou seus representantes, ou seja ele imputado aos colegas de trabalho da vítima...



3. Há dias recebi um pedido de ajuda, bastante dramático, de alguém, uma mulher, que está a ser alvo de comportamentos de intimação no seu local de trabalho. Falei com ela pelo telefone, e dei-lhe o conforto e a solidariedade possíveis. Acho que, nestas situações, o mais importante é saber ouvir mais do que falar... Dei-lhe também algumas dicas, por e-mail: Por exemplo, falei-lhe de Marie France Hirigoyen, a psiquiatra francesa que tem dois livros publicados em Portugal. Aconselhei a minha interlocutora a comprar o mais recente (2002). Ele é hoje reconhecida como uma autoridade a nível mundial neste domínio. "O livro custa à volta de 15 euros. É excepcional, você vai reconhecer-se nele... Pode ajudá-la a defender-se e sobretudo a sobreviver em toda esta história, com saúde mental, que é o mais importante".



Aqui ficam, para outros interessados, as referências bibliográficas:



Hirigoyen, M.-F. (1999). Assédio, Coacção e Violência no Quotidiano. Lisboa: Pergaminho.

Hirigoyen M.-F. (2002). O Assédio no Trabalho - Como Distinguir a Verdade. Lisboa: Pergaminho.



Veja-se também o sítio oficial, na Net, de Marie-France Hirigoyen, em francês. Há um grupo de profissionais brasileiros, ligados à saúde e segurança do trabalho, que também têm um excelente sítio sobre este tópico: Assédio moral no trabalho: chega de humilhação!



Em inglês há muito mais bibliografia em diversos sites.





4. Recebi logo a seguir a resposta desta jovem (que trabalha no ensino superior). Eis alguns extractos do e-mail que me mandou:



" (...) Estou-lhe muito agradecida pela amabilidade e prontidão com que atendeu o meu pedido e por toda a informação que me enviou. Vou certamente comprar o livro que me aconselhou e também ver se consigo que o meu colega o leia pois, de facto, não sabemos ambos como lidar com a situação.



"Apenas tive oportunidade de dar uma vista de olhos [aos sites citados. Num deles] é referido que muitos autores e a generalidade das pessoas que foram vítimas de assédio recomendam a mudança de emprego como medida de preservação da saúde física e mental. Como concordo com esta afirmação, esta questão é para mim a mais preocupante. Tenho consciência de que tanto eu como o meu colega não o conseguiremos fazer rapidamente uma vez que, na nossa área, há inclusivamente doutorados a candidatar-se a bolsas anuais de 150 contos e maior parte das pessoas chega a levar anos a encontrar um emprego que, na maioria das vezes, é tão ou mais precário que o nosso. Dedicámos também já muito trabalho ao emprego que temos e à progressão na carreira, conseguindo isto à custa de muito sofrimento pessoal e das nossas famílias. Acho, por isso, está mesmo na altura de ler o livro que me recomendou.



"Também já me apercebi que a maioria das pessoas que se encontra na nossa situação não fala a maior parte das vezes do seu caso e, por isso, estamos ainda mais isolados. O sigilo obriga-nos ainda a isolar-nos mais e, por isso, penso que o melhor é recorrer directamente aos serviços jurídicos dos sindicatos que mencionou" (por ex., sindicatos dos professores, sindicatos da função pública).



5. Infelizmente, para além do apoio jurídico, muitas das pessoas que são vítimas de violência no local de trabalho (e mais concretamente de assédio, sexual ou moral), também precisam de apoio clínico e psicoterapêutico. Repare-se que esta violência não é, em princípio, física, mas sobretudo psicológica. Há várias desiganções para este fenómeno, nas nossas línguas europeias: harrassement, mobbing, bullying, assédio, terrorismo organizacional, intimidação... Gosto particularmente do termo castelhano acoso ... A vítima de assédio moral no local de trabalho sente-se, em muitos casos, como um "animal acossado"!



E a verdade é que os nossos serviços de saúde (a começar pelos Serviços de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho, mas também o Serviço Nacional de Saúde) não estão ainda sensibilizados e preparados para lidar com estes casos. Considero, no entanto, que o médico de família, nos centros de saúde, e o médico do trabalho, nos serviços de saúde/medicina do trabalho, podem e devem ter uma intervenção qualificada nestes casos.



6. Infelizmente, este é um mundo de sigilo, silêncio, solidão, vergonha, medo... Mas é bom que falemos bem alto destas coisas, porque elas também parte do tripaliu(m) que mata a gente .

O tripaliu(m) que mata a gente - III: O assédio moral

1. O assédio moral e outras formas de violência no local de trabalho não são de ontem nem de hoje mas agravam-se em épocas de crise. Um indício disso é o facto de hoje se falar mais nestes fenómenos, de haver mais casos que chegam ao nosso conhecimento, de haver inclusivamente uma tentativa para lhe dar uma moldura legal, criminalizando este tipo de comportamentos.

Por exemplo, o nosso Código do Trabalho, que entrou em vigor a partir de 1 de Dezembro de 2003, consagra a figura do assédio e dá uma definição alargada (se bem que imprecisa) desta forma de violência. Segundo o art. 24º (Assédio), (i) constitui discriminação o assédio a candidato a emprego e a trabalhador; (ii) entende-se por assédio todo o comportamento indesejado relacionado com um dos factores indicados no nº1 do art. 23º, praticado aquando do acesso ao emprego, ou no próprio emprego, trabalho ou formação profissional, com o objectivo ou o efeito de afectar a dignidade da pessoa, ou criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador; (iii) constitui, em especial, assédio, todo o comportamento indesejado de carácter sexual, sob forma verbal, não verbal ou física, com o objectivo ou o efeito referido no número anterior".

O nº 1 do artº 23º diz explicitamente que "o empregador não pode praticar qualquer discriminação, directa ou indirecta, baseada, nomeadamente, na ascendência, idade, sexo, orientação sexual, estado civil, situação familiar, património genético, capacidade de trabalho reduzida, deficiência, doença crónica, nacionalidade, origem étnica, religião, convicções políticas ou ideológicas e filiação sindical".

2. Para a organização Opusgay, "o novo Código de Trabalho atenta, em muitos aspectos, contra direitos adquiridos dos trabalhadores"; todavia, "na questão da luta contra a discriminação, foi dado um forte passo, em virtude da obrigatoriedade de transposição da Directiva 2000/78/CE".

Esta Directiva (Directiva 2000/78/CE do Conselho, de 27 de Novembro de 2000) estabelece o quadro legal de igualdade de tratamento no emprego e na actividade profissional.

Para a Opusgay há "um conceito de assédio mais alargado (que) está agora em vigor", passando a ser proibido "qualquer comportamento indesejado dos outros que, injustificadamente, humilhe ou intimide uma pessoa (por exemplo, em função da sua homossexualidade)".

Em teoria, não cabe à vítima de assédio fazer o ónus da prova. Na prática, continua a ser "muito difícil falar disto" e sobretudo criminalizar o assédio, seja ele praticado pelo empregador e/ou seus representantes, ou seja ele imputado aos colegas de trabalho da vítima...

3. Há dias recebi um pedido de ajuda, bastante dramático, de alguém, uma mulher, que está a ser alvo de comportamentos de intimação no seu local de trabalho. Falei com ela pelo telefone, e dei-lhe o conforto e a solidariedade possíveis. Acho que, nestas situações, o mais importante é saber ouvir mais do que falar... Dei-lhe também algumas dicas, por e-mail: Por exemplo, falei-lhe de Marie France Hirigoyen, a psiquiatra francesa que tem dois livros publicados em Portugal. Aconselhei a minha interlocutora a comprar o mais recente (2002). Ele é hoje reconhecida como uma autoridade a nível mundial neste domínio. "O livro custa à volta de 15 euros. É excepcional, você vai reconhecer-se nele... Pode ajudá-la a defender-se e sobretudo a sobreviver em toda esta história, com saúde mental, que é o mais importante".

Aqui ficam, para outros interessados, as referências bibliográficas:

Hirigoyen, M.-F. (1999). Assédio, Coacção e Violência no Quotidiano. Lisboa: Pergaminho.
Hirigoyen M.-F. (2002). O Assédio no Trabalho - Como Distinguir a Verdade. Lisboa: Pergaminho.

Veja-se também o sítio oficial, na Net, de Marie-France Hirigoyen, em francês. Há um grupo de profissionais brasileiros, ligados à saúde e segurança do trabalho, que também têm um excelente sítio sobre este tópico: Assédio moral no trabalho: chega de humilhação!

Em inglês há muito mais bibliografia em diversos sites.


4. Recebi logo a seguir a resposta desta jovem (que trabalha no ensino superior). Eis alguns extractos do e-mail que me mandou:

" (...) Estou-lhe muito agradecida pela amabilidade e prontidão com que atendeu o meu pedido e por toda a informação que me enviou. Vou certamente comprar o livro que me aconselhou e também ver se consigo que o meu colega o leia pois, de facto, não sabemos ambos como lidar com a situação.

"Apenas tive oportunidade de dar uma vista de olhos [aos sites citados. Num deles] é referido que muitos autores e a generalidade das pessoas que foram vítimas de assédio recomendam a mudança de emprego como medida de preservação da saúde física e mental. Como concordo com esta afirmação, esta questão é para mim a mais preocupante. Tenho consciência de que tanto eu como o meu colega não o conseguiremos fazer rapidamente uma vez que, na nossa área, há inclusivamente doutorados a candidatar-se a bolsas anuais de 150 contos e maior parte das pessoas chega a levar anos a encontrar um emprego que, na maioria das vezes, é tão ou mais precário que o nosso. Dedicámos também já muito trabalho ao emprego que temos e à progressão na carreira, conseguindo isto à custa de muito sofrimento pessoal e das nossas famílias. Acho, por isso, está mesmo na altura de ler o livro que me recomendou.

"Também já me apercebi que a maioria das pessoas que se encontra na nossa situação não fala a maior parte das vezes do seu caso e, por isso, estamos ainda mais isolados. O sigilo obriga-nos ainda a isolar-nos mais e, por isso, penso que o melhor é recorrer directamente aos serviços jurídicos dos sindicatos que mencionou" (por ex., sindicatos dos professores, sindicatos da função pública).

5. Infelizmente, para além do apoio jurídico, muitas das pessoas que são vítimas de violência no local de trabalho (e mais concretamente de assédio, sexual ou moral), também precisam de apoio clínico e psicoterapêutico. Repare-se que esta violência não é, em princípio, física, mas sobretudo psicológica. Há várias desiganções para este fenómeno, nas nossas línguas europeias: harrassement, mobbing, bullying, assédio, terrorismo organizacional, intimidação... Gosto particularmente do termo castelhano acoso ... A vítima de assédio moral no local de trabalho sente-se, em muitos casos, como um "animal acossado"!

E a verdade é que os nossos serviços de saúde (a começar pelos Serviços de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho, mas também o Serviço Nacional de Saúde) não estão ainda sensibilizados e preparados para lidar com estes casos. Considero, no entanto, que o médico de família, nos centros de saúde, e o médico do trabalho, nos serviços de saúde/medicina do trabalho, podem e devem ter uma intervenção qualificada nestes casos.

6. Infelizmente, este é um mundo de sigilo, silêncio, solidão, vergonha, medo... Mas é bom que falemos bem alto destas coisas, porque elas também parte do tripaliu(m) que mata a gente .

25 março 2004

Portugal sacro-profano - XVI: De Coimbra B a Lisboa SA

14:13h. Coimbra B. Estação da CP. Deprimente. Como todas as estações B do mundo. Como todas as estações da CP. B de 2ª classe. B, segunda letra do alfabeto. Como todas as estações da CP urbanas, suburbanas e rurais.



Deprimentes. Todas as estações de caminho de ferro do mundo são deprimentes. Abro talvez uma excepção para os apeadeiros. São bonitos, os apeadeiros. Ou eram bonitos os apeadeiros, quando havia o cavador, o boi, a charrua, o burro, o camponês, o portuga camponês e burro, a horta, a saída directa para os campos. As hortas. O termo apeadeiro faz-me lembrar os tempos em que se ia às hortas. Eu já não sou desse tempo. Mas os alfacinhas iam às hortas dos saloios. Benfica, Porcalhota, Pontinha, Caneças, Colares, Sintra... Gosto do termo apeadeiro. E da ideia de ir passear às hortas. Em família, aos domingos, de comboio. Ronceiro, o comboio. Ronceira, a vida da gente.



Li isso algures numa história qualquer sobre os comboios que unificaram o país de norte a sul. Há uma dívida de gratidão que é devida aos comboios. E aos homens dos comboios. E aos engenheiros das estradas e pontes. Ao engenho e à obra. Ao Fontes. Aos Fontes. Mesmo que a minha professora de sociologia histórica, discípula do E.P. Thompson, só goste dos corticeiros que eram anarcossindicalistas. Sempre suspeitei que ela não gostasse dos cavadores. Nem de comboios. Nem de hortas. Nem do Fontes. Naquele tempo parava-se em todas estações e apeadeiros. E havia tempo, não havia pressa. Não havia stresse naquele tempo. O stresse é uma construção social do meu tempo. E não havia bombas nos comboios. Ao alcance de um qualquer toque de telemóvel da Nokia ou da Siemens, tanto faz. Que as novas tecnologias quando nascem (não) são para todos.



Ou talez houvesse stresse mas chamavam-lhe outra coisa. Afinal, é tão velho como a vida. E morria-se cedo naquele tempo. E há sessenta e tal anos, na França ocupada, os ferroviários também punham bombas nas linhas de caminhos de ferro. Para fazer descarrilar os comboios. Sabotagem. Resistência ao ocupante nazi. Será que hoje seriam caçados como terroristas internacionais ?





Não sou ferroviário nem resistente. Estou numa estação deprimente. Coimbra B. Coimbra merecia, pelo menos, uma estação A. Ouço uma voz gritante. Alfarelos. Com paragem não sei onde. Nunca soube, ao certo, onde fica Alfarelos. Vim de boleia. De Viseu. Aguardo o Alfa Pendular para Lisboa. Aliás, Lisboa SA. Deve chegar às 15:16h.

- Lisboa, Sociedade Anónima ?

- Não, Lisboa, Santa Apolónia, corrige o portuga por detrás do guiché.

- Mas eu não quero Santa Apolónia. Quero a Estação de Lisboa Oriente.

E depois... o que diria o Zé (Cardoso Pires)!

- Lisboa, SA!



Sou um mau utilizador do comboio. Comprei um bilhete de 2ª classe. 17 euros, IVA incluído à taxa de 5%.

- 2ª classe ?, pergunta o portuga que fala em nome da CP. Como se me tirasse as medidas. Ou espreitasse para a minha secreta conta bancária. 2ª classe, por defeito. Para quem não ostenta sinais exteriores de riqueza. Classe B. E eu a pensar ingenuamente que já não havia 2ª classe. Comboios de 2ª classe. Gente de 2ª classe (Ah!, meu velho José Rodrigues Miguéis, e a tua gente de 3ª classe nos porões nauseabundos dos cargueiros que rumavam às Américas!).



2ª classe ou turística ? Devo ter percebido mal. Os comboios e a CP também se democratizaram. Agora só há turística e conforto no alfa pendular de todas as emoções e condições. O Portugal SA já não é mais classista. Para ter classe basta ter dinheiro no multibanco.

- Vê-se mesmo que o senhor é um utente acidental da CP, já não há 2ª classe, garanto-lhe eu.



Em contrapartida, o outro gajo, o do guiché, ainda não fez o upagrade do seu software sociolinguístico. É por isso é que a CP ainda tem uma imagem negativa que tem junto do público.

- O senhor,desculpe, mas eu sou fã dos combóios e tinha que lhe dizer isto. Também vou para Lisboa, desço na Gare do Oriente...



Tenho tempo. Nada como esperar um comboio numa estação de tipo Coimbra B para saber o que é isso de ter tempo. É bom ter tempo. Uma hora de avanço. Como uma sandes manhosa no bar da esquina. Bebo uma topázio que é uma cerveja local. Compro o Zé Cardoso Pires no quiosque. A república dos corvos. Um livro de contos. Jornal Público. Colecção Mil Folhas, ao preço de hipermercado. Redescubro o meu velho Dinossauro Excelentíssimo. Que li na revista Almanaque, se bem me lembro. Deambulo no cais de embarque como o prisioneiro no pátio da prisão. E leio a única coisa interessante que está afixada na parede da estação de Coimbra B. Alguém mandou afixar. Creio que em bronze (sou mau em metais):

- "Neste cais da estação de Coimbra, embarcou, no dia 15 de Maio de 1982, Sua Santidade o Papa João Paulo II".



O artista não quis desqualificar a estação nem a cidade. Coimbra B, o que diria a corte papal! E os turistas que visitam a cidade dos doutores. E os vindouros. Mas lá fica a tabuleta. Para a história. Para o viajante distraído, apressado ou deprimido como eu, a caminho do sul. Para ninguém. Quem lê neste país placas de bronze afixadas em estações B da CP ? Aliás, quem lê neste país?



Um dia um arqueólogo, um historiador ou um antiquário desaparafusa a placa e leva-a para casa, para o museu ou para a loja. Não acontece nada em Coimbra B. Mas por aqui passou um peregrino. João Paulo II. Em 1982. Por aqui passou Jesus Cristo, na pessoa do seu representante na terra. Sou mau em metais e em teologia. Mas esta é a minha leitura. Peço desculpa aos mais doutos blogadores do que eu. Peço desculpa aos doutores de Coimbra.



Chega o Alfa. Just in time, como na linha de montagem automóvel pós-taylorista da AutoEuropa. Entro no Alfa e sinto-me quase europeu na ponta mais ocidental da Europa. Com o lusitano Mondego aqui ao lado. Admiro a eficiência das sociedades pós-tayloristas e cosmopolitas. A nossa nunca chegou a conhecer o Sr. Taylor. Provinciana e ronceira, lá diria o Eça. Acelera o Alfa. Tenho um secreta vertigem suicidária pela alta velocidade. Dou por bem empregues os meus 17 euros. Isto faz bem à minha auto-estima. Sobretudo depois da sandocha manhosa e da topázio morna que engoli, de pé, ao balcão, do bar manhoso da estação deprimente de Coimbra B.

- Quanto vai dar ?

- Chega aos 200 ou mais, diz-me um puto de brinco na orelha...



Não apostei. Nem gosto de apostas. Deixei de ser solidário.

- Umas cartas para passar o tempo ?

- Não, obrigado, não jogo, não aposto, não fumo.



Abranda o Alfa lá para os lados da Albergaria dos Doze. Regresso à idade média da minha memória colectiva. O caminho de Santiago. As albergarias. Já em terra dos mouros. La folie meutrière de la réligion. A tua, a minha. Deus é grande e tem muitos profetas. São bons hortelãos, os mouros e os moçárabes.

- Chega à tabela. Dezassete e seis na Estação do Oriente, diz-me o pica, orgulhoso.

- Até que enfim que os comboios partem e chegam à tabela na nossa terra. Fico sempre com inveja quando vou a Amesterdão e a Leiden. Quando ia à Hoalnda, que agora já não vou. Quero dizer, ao estrangeiro de fora.

- Já não te calha na rifa. Agora são vinte e cinco cães a um osso.

- Vai desejar tomar alguma coisa ?, pergunta no futuro próximo o homem do chá, café, laranjada...

- Um Prozac, por favor.

- Lamento, mas já não temos. Esgotou-se.

- Sim ?

- Esgotou-se na última viagem que fizemos ao inferno. 11 de Março último. Estação de Atocha. Madrid. Não leu nos jornais ?

- Não, acabo de chegar doutro planeta.

- En Madrid existen dos estaciones principales de tren: Chamartín y Atocha. Ambas son estaciones de trenes de largo recorrido y de cercanías...

- Muchas gracias!, não sabia. Não vou a Madrid há anos.

- Atocha está situada en la zona sur de la ciudad, muy cercana al centro. Desde ella salen todos los trenes de largo recorrido que van a levante y al sur de España. También algunos trenes de los que pasan por la estación se dirigen luego a Chamartín y luego a destinos en la mitad norte de la península. Dentro de la estación hay otra estación llamada Puerta de Atocha desde donde sale el tren de alta velocidad (AVE) que va a Andalucía...

- Muchas gracias! Vejo que é um homem viajado.

- Só faço a península ibérica. Sabe, nasci no Entroncamento, filho e neto de ferroviários. Os comboios estão-me na massa do sangue... Mas a Espanha para mim é pura emoção. Uma tragédia horrível, aquela...

- E não tem medo do futuro dos comboios ?

- Não... Com os aviões passou-se o mesmo. Enfim, um homem tem que ganhar a vida de qualquer jeito.

- Olhe, já agora dê-me um compal de maçã.



Fico sempre deprimido quando tomo o comboio. Ou quando parto. Ou quando bebo compal de maçã. Não sei por que pedi o raio do compal. Reflexo condicionado. Que é coisa rara, tomar o comboio. Nasci numa terra onde não passavam comboios. É um estranho sentimento, esse, que me acompanha desde pequeno. Mas o compal de maçã até é bom. E dizem que vale mais do que uma chávena de café para te tirar o sono.

- Já sei, saíste cedo da casa de teus pais, ainda menino e moço!?

- É a voz do sangue, o meu lado de marinheiro que nunca fui.



Em boa verdade, detesto os entroncamentos. Rodo ou ferroviários. Detesto o Entroncamento. Da primeira vez que lá passei. Meia de dúzia de casas mal caiadas, uma feixe de linhas e cheiro a sucata. Mas tenho a nostalgia dos cais de embarque. A nostalgia do mar e da maresia. Uma palavra que mexe comigo. Cais. Cais de embarque. Niassa. Rocha Conde de Óbidos. Num comboio que veio da noite, silencioso e triste. Do Campo Militar de Santa Margarida. Destino: Lisboa. Com carga para outro destino: Bissau. Primavera de 1969. Numa outra primavera que não chegou a haver.

- Política, meu estúpido!, a primavera política do Marcelo Cetano.



Eras jovem e não vias a luz ao fundo do túnel. Nem muito menos as luzes da cidade-luz. Paris. Perdeste o último comboio para Paris. Com o teu amigo que queria ser pintor. Fernando Nobis. Com paragem, talvez em Atocha, para visitar o Greco, o Velasquez, o Goya, os grandes de Espanha que estão no Prado...

- És doido, ou quê ?! Com a pide à perna, mais os fascistas da guardia civil!



Fazia sol e frio em Viseu. O país profundo. O país que mexe. Gosto sempre de ler os jornais da terra quando estou no hotel. Três estrelas, o hotel. Novo. Bom serviço. Mas faz frio à noite.

- Voyeurismo, pensa ela. A rapariga do bar.



Oito páginas, entre notícias locais e os pequenos anúncios classificados. Duas páginas de anúncios pessoais. "A brasileira do bumbum...A universitária que faz oral... A mulatinha dengosa"... Linguagem de código. A semiótica da solidão. Do sexo triste e solitário.

- Ligue para o meu telemóvel, que a crise bate a todas as portas, sem distinção de género, etnia, cor, condição ou religião.

- A crise também chegou ao teu país profundo, baby.

- Ah!, mas Viseu, como cresceu, meu Deus!

- Não sei se cresceu bem... Não sou de cá.



O Politécnico, o túnel de Viriato. Os colóquios. Os debates. As ideias. Os intelectuais e artistas que vêm de fora. O comércio. O fórum, que há-de vir. A Grande Área Metropolitana de Viseu. Quase 400 mil. O orgulho de se ser do cavaquistão.

- Ruas, estás de granito!, diz o grafito. (Ruas é o presidente da Câmara)



Nada como um bom grafito na terra do Grão Vasco:

- Apreciem o lado empreendedor dos beirões.

- Só falta a Universidade, que mais de 10 mil universitários já cá temos.

- Tiraram-nos a Faculdade de Medicina, os malandros da Covilhã.



Outro lóbi beirão, o da Covilhã. Registo o orgulho dos putos da Associação de Estudantes da Escola Superior de Enfermagem de Viseu que realizam anualmente as suas jornadas de enfermagem. Este ano, na sua 16ª edição. O país mexe. Viseu mexe. O país profundo mexe. Os jovens deste país mexem. Mesmo com capa e batina, vestidos de preto como o corvo do Zé (Cardoso Pires).



16:30h. Passou o corpo pelas brasas. Perdi um pedaço de mundo.

- O Alfa vai a 140, ó puto. Temperatura: 19º interior. 20º exterior, leio do tabelau de bord.

- Mas agora abranda. 129, 101, 74, 52... Está parado.

- Porquê ?



Uma placa com um S, outra com um M. Não percebo nada da sinalética dos comboios. Obras. Modernização da linha. Tenho um pensamento para com os trabalhadores anónimos que constroem as novas linhas dos caminhos de ferro do futuro. Ucranianos ? Africanos ? Imigras ? Clandestinos ?

- Não lhes vejo nem a cara nem o passaporte.

- Podiam estar a trabalhar na estufas de Almeria, o inferno na terra. Mas aí são magrebinos.

- O novo proletariado do Século XXI.

- Desço na Oriente. Mandem alguém da empresa buscar-me.

- Dá o Benfica na SporTV.



E de novo o Alfa em marcha... A paisagem muda. A paisagem industrial da bacia do Tejo. A ocupação selvagem da lezíria. Mataram os campinos e o gado bravo. O branqueamento de dinheiro que vai por essa nova Lisboa Oriental. A luxuriante estação do Oriente. Just in time.



17:06h. Cheguei. Balanço do cliente:

- Pensei que já fosse o TGV. O TGV é que é.

- Não é o TGV, mas por mim não desgostei. De viajar no Alfa Pendular. Turística, claro. De Coimbra B a Lisboa SA. 17 euros, IVA incluído à taxa de 5%. Mais 10% de desconto nos Hotéis Tal & Tal. Tive tempo para (des)arrumar algumas ideias. E o puto tinha razão: na ponta final, o Alfa Pendular dá mesmo os 210.



Um dia ainda vou ter orgulho na CP e na terra onde nasci e onde nunca vi passar os comboios. Os comboios não passam na minha terra. Nem chegam a Viseu. Um abraço aos viriatos. Até para o ano. Voltarei, se me convidarem. De Expresso, pelo IP3 acima. Com regresso de comboio. Se não matarem o comboio que pára em Coimbra B. E não me esquecerei de Atocha. Sobretudo não esquecerei Atocha quando voltar a Coimbra B. De Lisboa SA com amor.

Portugal sacro-profano - XVI: De Coimbra B a Lisboa SA

14:13h. Coimbra B. Estação da CP. Deprimente. Como todas as estações B do mundo. Como todas as estações da CP. B de 2ª classe. B, segunda letra do alfabeto. Como todas as estações da CP urbanas, suburbanas e rurais.

Deprimentes. Todas as estações de caminho de ferro do mundo são deprimentes. Abro talvez uma excepção para os apeadeiros. São bonitos, os apeadeiros. Ou eram bonitos os apeadeiros, quando havia o cavador, o boi, a charrua, o burro, o camponês, o portuga camponês e burro, a horta, a saída directa para os campos. As hortas. O termo apeadeiro faz-me lembrar os tempos em que se ia às hortas. Eu já não sou desse tempo. Mas os alfacinhas iam às hortas dos saloios. Benfica, Porcalhota, Pontinha, Caneças, Colares, Sintra... Gosto do termo apeadeiro. E da ideia de ir passear às hortas. Em família, aos domingos, de comboio. Ronceiro, o comboio. Ronceira, a vida da gente.

Li isso algures numa história qualquer sobre os comboios que unificaram o país de norte a sul. Há uma dívida de gratidão que é devida aos comboios. E aos homens dos comboios. E aos engenheiros das estradas e pontes. Ao engenho e à obra. Ao Fontes. Aos Fontes. Mesmo que a minha professora de sociologia histórica, discípula do E.P. Thompson, só goste dos corticeiros que eram anarcossindicalistas. Sempre suspeitei que ela não gostasse dos cavadores. Nem de comboios. Nem de hortas. Nem do Fontes. Naquele tempo parava-se em todas estações e apeadeiros. E havia tempo, não havia pressa. Não havia stresse naquele tempo. O stresse é uma construção social do meu tempo. E não havia bombas nos comboios. Ao alcance de um qualquer toque de telemóvel da Nokia ou da Siemens, tanto faz. Que as novas tecnologias quando nascem (não) são para todos.

Ou talez houvesse stresse mas chamavam-lhe outra coisa. Afinal, é tão velho como a vida. E morria-se cedo naquele tempo. E há sessenta e tal anos, na França ocupada, os ferroviários também punham bombas nas linhas de caminhos de ferro. Para fazer descarrilar os comboios. Sabotagem. Resistência ao ocupante nazi. Será que hoje seriam caçados como terroristas internacionais ?


Não sou ferroviário nem resistente. Estou numa estação deprimente. Coimbra B. Coimbra merecia, pelo menos, uma estação A. Ouço uma voz gritante. Alfarelos. Com paragem não sei onde. Nunca soube, ao certo, onde fica Alfarelos. Vim de boleia. De Viseu. Aguardo o Alfa Pendular para Lisboa. Aliás, Lisboa SA. Deve chegar às 15:16h.
- Lisboa, Sociedade Anónima ?
- Não, Lisboa, Santa Apolónia, corrige o portuga por detrás do guiché.
- Mas eu não quero Santa Apolónia. Quero a Estação de Lisboa Oriente.
E depois... o que diria o Zé (Cardoso Pires)!
- Lisboa, SA!

Sou um mau utilizador do comboio. Comprei um bilhete de 2ª classe. 17 euros, IVA incluído à taxa de 5%.
- 2ª classe ?, pergunta o portuga que fala em nome da CP. Como se me tirasse as medidas. Ou espreitasse para a minha secreta conta bancária. 2ª classe, por defeito. Para quem não ostenta sinais exteriores de riqueza. Classe B. E eu a pensar ingenuamente que já não havia 2ª classe. Comboios de 2ª classe. Gente de 2ª classe (Ah!, meu velho José Rodrigues Miguéis, e a tua gente de 3ª classe nos porões nauseabundos dos cargueiros que rumavam às Américas!).

2ª classe ou turística ? Devo ter percebido mal. Os comboios e a CP também se democratizaram. Agora só há turística e conforto no alfa pendular de todas as emoções e condições. O Portugal SA já não é mais classista. Para ter classe basta ter dinheiro no multibanco.
- Vê-se mesmo que o senhor é um utente acidental da CP, já não há 2ª classe, garanto-lhe eu.

Em contrapartida, o outro gajo, o do guiché, ainda não fez o upagrade do seu software sociolinguístico. É por isso é que a CP ainda tem uma imagem negativa que tem junto do público.
- O senhor,desculpe, mas eu sou fã dos combóios e tinha que lhe dizer isto. Também vou para Lisboa, desço na Gare do Oriente...

Tenho tempo. Nada como esperar um comboio numa estação de tipo Coimbra B para saber o que é isso de ter tempo. É bom ter tempo. Uma hora de avanço. Como uma sandes manhosa no bar da esquina. Bebo uma topázio que é uma cerveja local. Compro o Zé Cardoso Pires no quiosque. A república dos corvos. Um livro de contos. Jornal Público. Colecção Mil Folhas, ao preço de hipermercado. Redescubro o meu velho Dinossauro Excelentíssimo. Que li na revista Almanaque, se bem me lembro. Deambulo no cais de embarque como o prisioneiro no pátio da prisão. E leio a única coisa interessante que está afixada na parede da estação de Coimbra B. Alguém mandou afixar. Creio que em bronze (sou mau em metais):
- "Neste cais da estação de Coimbra, embarcou, no dia 15 de Maio de 1982, Sua Santidade o Papa João Paulo II".

O artista não quis desqualificar a estação nem a cidade. Coimbra B, o que diria a corte papal! E os turistas que visitam a cidade dos doutores. E os vindouros. Mas lá fica a tabuleta. Para a história. Para o viajante distraído, apressado ou deprimido como eu, a caminho do sul. Para ninguém. Quem lê neste país placas de bronze afixadas em estações B da CP ? Aliás, quem lê neste país?

Um dia um arqueólogo, um historiador ou um antiquário desaparafusa a placa e leva-a para casa, para o museu ou para a loja. Não acontece nada em Coimbra B. Mas por aqui passou um peregrino. João Paulo II. Em 1982. Por aqui passou Jesus Cristo, na pessoa do seu representante na terra. Sou mau em metais e em teologia. Mas esta é a minha leitura. Peço desculpa aos mais doutos blogadores do que eu. Peço desculpa aos doutores de Coimbra.

Chega o Alfa. Just in time, como na linha de montagem automóvel pós-taylorista da AutoEuropa. Entro no Alfa e sinto-me quase europeu na ponta mais ocidental da Europa. Com o lusitano Mondego aqui ao lado. Admiro a eficiência das sociedades pós-tayloristas e cosmopolitas. A nossa nunca chegou a conhecer o Sr. Taylor. Provinciana e ronceira, lá diria o Eça. Acelera o Alfa. Tenho um secreta vertigem suicidária pela alta velocidade. Dou por bem empregues os meus 17 euros. Isto faz bem à minha auto-estima. Sobretudo depois da sandocha manhosa e da topázio morna que engoli, de pé, ao balcão, do bar manhoso da estação deprimente de Coimbra B.
- Quanto vai dar ?
- Chega aos 200 ou mais, diz-me um puto de brinco na orelha...

Não apostei. Nem gosto de apostas. Deixei de ser solidário.
- Umas cartas para passar o tempo ?
- Não, obrigado, não jogo, não aposto, não fumo.

Abranda o Alfa lá para os lados da Albergaria dos Doze. Regresso à idade média da minha memória colectiva. O caminho de Santiago. As albergarias. Já em terra dos mouros. La folie meutrière de la réligion. A tua, a minha. Deus é grande e tem muitos profetas. São bons hortelãos, os mouros e os moçárabes.
- Chega à tabela. Dezassete e seis na Estação do Oriente, diz-me o pica, orgulhoso.
- Até que enfim que os comboios partem e chegam à tabela na nossa terra. Fico sempre com inveja quando vou a Amesterdão e a Leiden. Quando ia à Hoalnda, que agora já não vou. Quero dizer, ao estrangeiro de fora.
- Já não te calha na rifa. Agora são vinte e cinco cães a um osso.
- Vai desejar tomar alguma coisa ?, pergunta no futuro próximo o homem do chá, café, laranjada...
- Um Prozac, por favor.
- Lamento, mas já não temos. Esgotou-se.
- Sim ?
- Esgotou-se na última viagem que fizemos ao inferno. 11 de Março último. Estação de Atocha. Madrid. Não leu nos jornais ?
- Não, acabo de chegar doutro planeta.
- En Madrid existen dos estaciones principales de tren: Chamartín y Atocha. Ambas son estaciones de trenes de largo recorrido y de cercanías...
- Muchas gracias!, não sabia. Não vou a Madrid há anos.
- Atocha está situada en la zona sur de la ciudad, muy cercana al centro. Desde ella salen todos los trenes de largo recorrido que van a levante y al sur de España. También algunos trenes de los que pasan por la estación se dirigen luego a Chamartín y luego a destinos en la mitad norte de la península. Dentro de la estación hay otra estación llamada Puerta de Atocha desde donde sale el tren de alta velocidad (AVE) que va a Andalucía...
- Muchas gracias! Vejo que é um homem viajado.
- Só faço a península ibérica. Sabe, nasci no Entroncamento, filho e neto de ferroviários. Os comboios estão-me na massa do sangue... Mas a Espanha para mim é pura emoção. Uma tragédia horrível, aquela...
- E não tem medo do futuro dos comboios ?
- Não... Com os aviões passou-se o mesmo. Enfim, um homem tem que ganhar a vida de qualquer jeito.
- Olhe, já agora dê-me um compal de maçã.

Fico sempre deprimido quando tomo o comboio. Ou quando parto. Ou quando bebo compal de maçã. Não sei por que pedi o raio do compal. Reflexo condicionado. Que é coisa rara, tomar o comboio. Nasci numa terra onde não passavam comboios. É um estranho sentimento, esse, que me acompanha desde pequeno. Mas o compal de maçã até é bom. E dizem que vale mais do que uma chávena de café para te tirar o sono.
- Já sei, saíste cedo da casa de teus pais, ainda menino e moço!?
- É a voz do sangue, o meu lado de marinheiro que nunca fui.

Em boa verdade, detesto os entroncamentos. Rodo ou ferroviários. Detesto o Entroncamento. Da primeira vez que lá passei. Meia de dúzia de casas mal caiadas, uma feixe de linhas e cheiro a sucata. Mas tenho a nostalgia dos cais de embarque. A nostalgia do mar e da maresia. Uma palavra que mexe comigo. Cais. Cais de embarque. Niassa. Rocha Conde de Óbidos. Num comboio que veio da noite, silencioso e triste. Do Campo Militar de Santa Margarida. Destino: Lisboa. Com carga para outro destino: Bissau. Primavera de 1969. Numa outra primavera que não chegou a haver.
- Política, meu estúpido!, a primavera política do Marcelo Cetano.

Eras jovem e não vias a luz ao fundo do túnel. Nem muito menos as luzes da cidade-luz. Paris. Perdeste o último comboio para Paris. Com o teu amigo que queria ser pintor. Fernando Nobis. Com paragem, talvez em Atocha, para visitar o Greco, o Velasquez, o Goya, os grandes de Espanha que estão no Prado...
- És doido, ou quê ?! Com a pide à perna, mais os fascistas da guardia civil!

Fazia sol e frio em Viseu. O país profundo. O país que mexe. Gosto sempre de ler os jornais da terra quando estou no hotel. Três estrelas, o hotel. Novo. Bom serviço. Mas faz frio à noite.
- Voyeurismo, pensa ela. A rapariga do bar.

Oito páginas, entre notícias locais e os pequenos anúncios classificados. Duas páginas de anúncios pessoais. "A brasileira do bumbum...A universitária que faz oral... A mulatinha dengosa"... Linguagem de código. A semiótica da solidão. Do sexo triste e solitário.
- Ligue para o meu telemóvel, que a crise bate a todas as portas, sem distinção de género, etnia, cor, condição ou religião.
- A crise também chegou ao teu país profundo, baby.
- Ah!, mas Viseu, como cresceu, meu Deus!
- Não sei se cresceu bem... Não sou de cá.

O Politécnico, o túnel de Viriato. Os colóquios. Os debates. As ideias. Os intelectuais e artistas que vêm de fora. O comércio. O fórum, que há-de vir. A Grande Área Metropolitana de Viseu. Quase 400 mil. O orgulho de se ser do cavaquistão.
- Ruas, estás de granito!, diz o grafito. (Ruas é o presidente da Câmara)

Nada como um bom grafito na terra do Grão Vasco:
- Apreciem o lado empreendedor dos beirões.
- Só falta a Universidade, que mais de 10 mil universitários já cá temos.
- Tiraram-nos a Faculdade de Medicina, os malandros da Covilhã.

Outro lóbi beirão, o da Covilhã. Registo o orgulho dos putos da Associação de Estudantes da Escola Superior de Enfermagem de Viseu que realizam anualmente as suas jornadas de enfermagem. Este ano, na sua 16ª edição. O país mexe. Viseu mexe. O país profundo mexe. Os jovens deste país mexem. Mesmo com capa e batina, vestidos de preto como o corvo do Zé (Cardoso Pires).

16:30h. Passou o corpo pelas brasas. Perdi um pedaço de mundo.
- O Alfa vai a 140, ó puto. Temperatura: 19º interior. 20º exterior, leio do tabelau de bord.
- Mas agora abranda. 129, 101, 74, 52... Está parado.
- Porquê ?

Uma placa com um S, outra com um M. Não percebo nada da sinalética dos comboios. Obras. Modernização da linha. Tenho um pensamento para com os trabalhadores anónimos que constroem as novas linhas dos caminhos de ferro do futuro. Ucranianos ? Africanos ? Imigras ? Clandestinos ?
- Não lhes vejo nem a cara nem o passaporte.
- Podiam estar a trabalhar na estufas de Almeria, o inferno na terra. Mas aí são magrebinos.
- O novo proletariado do Século XXI.
- Desço na Oriente. Mandem alguém da empresa buscar-me.
- Dá o Benfica na SporTV.

E de novo o Alfa em marcha... A paisagem muda. A paisagem industrial da bacia do Tejo. A ocupação selvagem da lezíria. Mataram os campinos e o gado bravo. O branqueamento de dinheiro que vai por essa nova Lisboa Oriental. A luxuriante estação do Oriente. Just in time.

17:06h. Cheguei. Balanço do cliente:
- Pensei que já fosse o TGV. O TGV é que é.
- Não é o TGV, mas por mim não desgostei. De viajar no Alfa Pendular. Turística, claro. De Coimbra B a Lisboa SA. 17 euros, IVA incluído à taxa de 5%. Mais 10% de desconto nos Hotéis Tal & Tal. Tive tempo para (des)arrumar algumas ideias. E o puto tinha razão: na ponta final, o Alfa Pendular dá mesmo os 210.

Um dia ainda vou ter orgulho na CP e na terra onde nasci e onde nunca vi passar os comboios. Os comboios não passam na minha terra. Nem chegam a Viseu. Um abraço aos viriatos. Até para o ano. Voltarei, se me convidarem. De Expresso, pelo IP3 acima. Com regresso de comboio. Se não matarem o comboio que pára em Coimbra B. E não me esquecerei de Atocha. Sobretudo não esquecerei Atocha quando voltar a Coimbra B. De Lisboa SA com amor.

22 março 2004

Portugas que merecem as nossas palmas - VI: Aqueles que nos ajudam a fazer o luto

Cerca de 5000 portugueses, entre os zero e os trinta anos, morrem anualmente, em geral por causas violentas (acidentes de viação, de lazer ou de trabalho; homicídio, suicídio ou outras formas violentas, para além da doença), deixando destroçadas as suas famílias e inconsolados os seus amigos...



Apoiar e ajudar a fazer o luto aos pais, irmãos e amigos dos portugueses que morrem, em idade tão jovem, é justamente a missão de A Nossa Âncora, uma associação de entreajuda, com sede em Sintra, fundada em 1996, com o apoio do psiquiatra Dr. João Senfelt e da equipa de saúde mental comunitária de Sintra, pertencente ao Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda. À frente desta associação é de destacar o papel de Maria Emília Pires, sua fundadora e alma mater, e do poeta, engenheiro informático e doutorado em psicolopia social Abílio Oliveira (autor de Dar e Amar - Quando a Morte Invoca a Vida, 2003). Contactos: Tel. 21 910 57 50 / 21 910 57 55; fax 21 910 59 75.



Merece uma visita a página desta associação na Net, por ser interactiva e nela figurar a poesia em lugar de destaque.



Outra associação do género, mais recente e ainda em fase de instalação, é a Apelo - Apoio à Pessoa em Luta, com sede em Aveiro. Foi fundada e é dirigida por José Eduardo Rebelo, biólogo e mestre em psicologia, profesor da Universidade de Aveiro, autor do livro Desatar o Nó do Luto (Lisboa: Editorial Notícias, no prelo). Contactos: Tel. 234 34 17 09; telemóvel: 91 848 28 38 fax: 234 34 23 67; e-mail: apelo@iol.pt .



Tive há dias conhecimento do excelente trabalho que estas duas associações têm feito no apoio às pessoas em luto. Mais de mil e tal pessoas, a elas ligadas, estão hoje em condições de dar ajuda às famílias em luto, no caso da ocorrência de tragédias como a queda da ponte de Entre-os-Rios ou o ataque terrorista do 11 de Março em Madrid.



Infelizmente o nosso sistema de protecção civil e o próprio Serviço Nacional de Saúde parecem querer ignorar a sua existência e recusar os seus préstimos. Daí que as minhas palmas vão hoje para todos os membros, os técnicos e os dirigentes destas duas associações de grupos de auto-ajuda A Nossa Âncora e Apelo.



Estas palmas são tão mais merecidas quanto este tema (a morte e o luto) continua a ser tabu, tanto na nossa sociedade como nas nossas faculdades de medicina e demais escolas ligadas às formação de profissionais de saúde, para não falar já dos nossos hospitais e demais de serviços de saúde, onde, infelizmente, ainda é vulgar a morte dos nossos entes queridos ser comunicada anonimamente pela telefonista de serviço...



A nível internacional, destaque-se o papel de The Compassionate Friends, "an international self-help, mutual-support organization for bereaved parents, grandparents, and siblings of children who have died from any cause and at any age".

A sua missão é descrita como sendo a de " to assist families in the positive resolution of grief following the death of a child and to provide information to help others be supportive". Só nos EUA os Compassionate Friends têm cerca de 600 núcleos ("chapters").

Portugas que merecem as nossas palmas - VI: Aqueles que nos ajudam a fazer o luto

Cerca de 5000 portugueses, entre os zero e os trinta anos, morrem anualmente, em geral por causas violentas (acidentes de viação, de lazer ou de trabalho; homicídio, suicídio ou outras formas violentas, para além da doença), deixando destroçadas as suas famílias e inconsolados os seus amigos...

Apoiar e ajudar a fazer o luto aos pais, irmãos e amigos dos portugueses que morrem, em idade tão jovem, é justamente a missão de A Nossa Âncora, uma associação de entreajuda, com sede em Sintra, fundada em 1996, com o apoio do psiquiatra Dr. João Senfelt e da equipa de saúde mental comunitária de Sintra, pertencente ao Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda. À frente desta associação é de destacar o papel de Maria Emília Pires, sua fundadora e alma mater, e do poeta, engenheiro informático e doutorado em psicolopia social Abílio Oliveira (autor de Dar e Amar - Quando a Morte Invoca a Vida, 2003). Contactos: Tel. 21 910 57 50 / 21 910 57 55; fax 21 910 59 75.

Merece uma visita a página desta associação na Net, por ser interactiva e nela figurar a poesia em lugar de destaque.

Outra associação do género, mais recente e ainda em fase de instalação, é a Apelo - Apoio à Pessoa em Luta, com sede em Aveiro. Foi fundada e é dirigida por José Eduardo Rebelo, biólogo e mestre em psicologia, profesor da Universidade de Aveiro, autor do livro Desatar o Nó do Luto (Lisboa: Editorial Notícias, no prelo). Contactos: Tel. 234 34 17 09; telemóvel: 91 848 28 38 fax: 234 34 23 67; e-mail: apelo@iol.pt .

Tive há dias conhecimento do excelente trabalho que estas duas associações têm feito no apoio às pessoas em luto. Mais de mil e tal pessoas, a elas ligadas, estão hoje em condições de dar ajuda às famílias em luto, no caso da ocorrência de tragédias como a queda da ponte de Entre-os-Rios ou o ataque terrorista do 11 de Março em Madrid.

Infelizmente o nosso sistema de protecção civil e o próprio Serviço Nacional de Saúde parecem querer ignorar a sua existência e recusar os seus préstimos. Daí que as minhas palmas vão hoje para todos os membros, os técnicos e os dirigentes destas duas associações de grupos de auto-ajuda A Nossa Âncora e Apelo.

Estas palmas são tão mais merecidas quanto este tema (a morte e o luto) continua a ser tabu, tanto na nossa sociedade como nas nossas faculdades de medicina e demais escolas ligadas às formação de profissionais de saúde, para não falar já dos nossos hospitais e demais de serviços de saúde, onde, infelizmente, ainda é vulgar a morte dos nossos entes queridos ser comunicada anonimamente pela telefonista de serviço...

A nível internacional, destaque-se o papel de The Compassionate Friends, "an international self-help, mutual-support organization for bereaved parents, grandparents, and siblings of children who have died from any cause and at any age".
A sua missão é descrita como sendo a de " to assist families in the positive resolution of grief following the death of a child and to provide information to help others be supportive". Só nos EUA os Compassionate Friends têm cerca de 600 núcleos ("chapters").