Texto seleccionado e enviado por A. Marques Lopes, ex-alferes miliciano da CART 1690 (Geba, 1967):
A jornalista Diana Andringa esteve na Guiné em 1995, em trabalho profissional, e passou por Geba. Sobre essa passagem escreveu no jornal Público, de 10 de Junho de 1995, o texto que vos vou mostrar, com a sua autorização (até me pediu que lhe enviasse o cópia, que já não possui o original). Vai também um croqui do monumento a que ela se refere. Em 1998, quando lá estive também verifiquei que o monoumento estava destruído, com muita pena minha.
Geba, 1995, por Diana Adringa
Mortos. Estes nomes não podem ser senão de mortos. Guimarães, ...ndo Fernandes. Carlos A. Peixoto. ...ul C. Ferreira, ...ostinho Câmara, ...o Alves Aguiar, ...ime M.N. Estevão, ...sé A. V. Sousa, ...tónio D. Gomes.
Tudo em redor, aliás, fala de morte. As paredes em derrocada do que terá sido um quartel português. As viaturas a apodrecer sob o intenso sol africano. Os cacos de garrafas de cerveja. (Bebidas para enganar o medo? Suspensas por arame para, tinindo umas contra as outra, despertar os que dormissem ainda?).
E esta pedra caída, tumular.
Vivos, apenas os meninos que se cutucam, sorrindo, a olhar para nós, estranhos fotógrafos deste cemitério de metal e pedra.
A outra pedra, de pé, tem nomes de cidades, vilas, aldeias: Lisboa. S. Tirso. Moçâmedes. Alcobaça. Madeira. (Nas ilhas não haverá também povoações?) Ponte de Lima. Vila Nova de Ourem. Vila Pouca de Aguiar. Bissau. O tempo, ou a guerra, quebrou-lhe a parte de cima, e agora é uma pirâmide truncada, rasgada do lado direito, onde se inscrevem as primeiras letras dos postos, ou dos nomes, dos naturais dessas terras, que presumimos mortos.
De novo a primeira pedra, a que jaz por terra. A frente dos nomes dos que se presumem ter morrido, inscrevem-se o que supomos serem as datas dessas mortes: 1967, 1968. A última, na pedra, não em tempo, sobressalta-me: 21 de Agosto de 1967. Fiz vinte anos nesse dia. Nesse mesmo dia morreu António D. Gomes. Teria feito, sequer, os vinte anos?
Lembro-me de ter feito vinte anos. Das prendas dos meus pais. E pergunto-me como terão os pais do soldado António D. Gomes suportado a morte do seu filho. Se terão chegado um dia a conhecer este local onde uma pedra caída por terra assinala a data em que o perderam.
"Nós enterramos os nossos mortos nas nossas aldeias, ao lado das nossas casas... Os portugueses deveriam ter, também, um lugar para honrar os seus mortos, os que morreram aqui, durante a guerra", dissera-me, algumas horas antes, um antigo adversário. Aqui. Tão longe de casa, tão longe dos seus. Longe de mais para que possam trazer-lhes flores, arranjar-lhes as campas, preservar-lhes a memória.
Olho de novo as pedras, tentando compreender como se juntavam. Será a que jaz por terra a continuação da outra? Releio as terras e os nomes. Câmara pode ser da Madeira... Será mesmo? Sim. Lá estão em frente de Madeira o posto, sold., e as primeiras letras do seu nome: Ag...-
Agora cada morto tem o posto e a terra onde nasceu, excepto o primeiro, que parece ser de Lisboa, mas cujo posto e nome próprio se perderam, e João Alves Aguiar, de Ponte de Lima, a que o tempo corroeu o posto. Dois alferes, um furriel, sete soldados. Em cima, fragmentado, aquilo que parece a indicação do regimento a que pertenciam: ...RAL-1. ...Combate.
Postas assim as duas pedras em conjunto, apercebo-me de que o soldado que morreu no dia dos meus vinte anos era de Bissau, e de certa forma isso tranquiliza-me, porque não está, afinal, tão longe de casa- como se isso tivesse alguma importância depois de se estar morto, como se me tivesse contagiado essa lista de terras inscrita sobre a pedra, ou outras, sobre outras pedras encontradas ao longo da viagem, onde outros soldados, cabos, furriéis, escreveram como se a naturalidade fosse a sua primeira identificação e a mais forte, o nome da terra natal, primeiro, e só depois o posto, o nome, a data em que escreviam, por vezes uma frase de desesperança, algo como "até quando Deus quiser" — como que temendo que esse "até" fosse curtíssimo, coisa de poucas horas, minutos, talvez, e houvesse que inscrever urgentemente, sobre esses caminhos, placas, pontes, esse sinal de vida e de memória.
Parece estranho que alguém possa ter tido medo aqui, neste local tão calmo, com o tempo suspenso e o silêncio apenas cortado pelo ruído persistente das cigarras. É difícil imaginar, enquanto os meninos se agrupam à nossa volta, curiosos do que fazemos e olhamos, que em tempos houve aqui tiros e gemidos — e homens cumprindo a triste tarefa de escrever sobre estas pedras os nomes dos companheiros mortos.
Um pouco mais adiante, numa das paredes que ainda se mantêm de pé, alguém desenhou um rinoceronte e um leão. Tê-los-á visto realmente? Tê-los-á imaginado? Em frente, sobre uma paisagem aparentemente urbana de prédios e chaminés, voa uma ave. Uma gaivota? Uma pomba? Um símbolo de paz? Um piscar de olho a esse adversário que, a todo o momento, lembrava que a sua luta era "contra o colonialismo português e não contra o povo de Portugal"? E que, muito antes de disparar o primeiro tiro, advertira: "A via pela qual vai ser feita a liquidação total do colonialismo português na Guiné-Bissau e em Cabo Verde depende exclusivamente do colonialismo português. (...) Ainda não é tarde para proceder à liquidação pacífica da dominação colonial portuguesa nas nossas terras. A menos que o Governo português queira arrastar o povo de Portugal para o desastre de uma guerra colonial."
"O desastre de uma guerra colonial". Legenda para fotografia de pedras com listas de mortos, veículos destruídos, quartéis em derrocada — e, contrastando, os sorrisos dos meninos a dar-nos as boas-vindas.
Todos os anos, pelo 10 de Junho — esse dia que o regime colonial-fascista celebrava como Dia da Raça, e em que condecorava, no Terreiro do Paço, os pais, as viúvas e os órfãos dos militares caídos em combate —, ressuscitam algumas vozes saudosas do Império, a criticar a descolonizaçáo e a independência das ex-colónias portuguesas. Fazem-no, muitas vezes, usando a memória dos soldados mortos na guerra colonial. Escamoteando sempre que essas mortes se deveram, exclusivamente, à intransigência de um regime incapaz de compreender a inevitabilidade das independências, e à teimosia de um homem que, nunca tendo posto um pé em África, cuidava saber, bem melhor do que eles, o que melhor convinha aos africanos.
Releio a lista de mortos sobre a pedra e pergunto-me se, vinte anos depois, não será tempo de aceitar, claramente, que foram esses os únicos responsáveis dessas mortes... ».
Diana Andringa. Público. 10 e Junho de 1995.
blogue-fora-nada. homo socius ergo blogus [sum]. homem social logo blogador. em sociobloguês nos entendemos. o port(ug)al dos (por)tugas. a prova dos blogue-fora-nada. a guerra colonial. a guiné. do chacheu ao boe. de bissau a bambadinca. os cacimbados. o geba. o corubal. os rios. o macaréu da nossa revolta. o humor nosso de cada dia nos dai hoje.lá vamos blogando e rindo. e venham mais cinco (camaradas). e vieram tantos que isto se transformou numa caserna. a maior caserna virtual da Net!
23 junho 2005
22 junho 2005
Guiné 69/71 - LXXII: Contuboel, Sonaco, Gabu
Diz-nos o Humberto Reis, em mensagem enviada hoje, e a propósito do texto que inserimos ontem sobre o fanado em Geba, nos finais do Séc. XIX:
"Existe, pelo menos em 1969, uma localidade chamada Sonaco, a leste de Contuboel. Era um local sem quaisquer problemas e onde fui 2, ou 3, vezes em passeio, no tempo em que a CCaç 12 esteve em Contuboel [de 2 de Junho a 18 de Julho de 1969, na fase de instrução de especialidade dos nossos soldados africanos].
"É mais perto de Bafatá do que de Nova Lamego (Gabu), a velha Lamego conheci eu em 68 [onde tirei a especialidade de operações especiais].
Um abraço a todos.
Humberto Reis
Notas de Luís Graça:
No mapa da Guiné-Bissau, da Travelpost.com, aparece Contuboel como Contuba El (julgo ser gralha). Sonaco não consegui descobrir neste mapa (não vem na lista das povoações da Guiné-Bissau, tal como não vem Geba).
No Multimap.com podem ver a localização de Nova Lamego (ou Gabu). Este mapa tem um zoom que vai até à escala de 1:200.000. Há diversos mapas locais da Guiné-Bissau disponíveis na página Luís Graça & Camaradas > Subsídios para a História da Guerra Colonial > Guiné (1). Entre eles está Contuba El (a nossa Contuboel).
A localização destas povoações, que formam um um triângulo (Contuboel, Sonaco, Gabu) está bem bem visível no mapa da Guiné-Bissau, que consta da página da OMS . Nesse mapa, também são bem visíveis outras localidades da Zona Leste, que temos aqui falado, ou onde estivemos, ou por onde passámos, tais como Bambadinca, Xime, Xitole, Galomaru, Geba, Bafatá, etc.
Quando estive em Contuboel, com o Humberto Reis e o resto da malta da CCAÇ 12, não cheguei ir a Sonaco. Tal como não fui mais longe. Pelo menos não tenho ideia.Contuboel era, isso, sim, uma região paradisíaca naquele tempo...
"Existe, pelo menos em 1969, uma localidade chamada Sonaco, a leste de Contuboel. Era um local sem quaisquer problemas e onde fui 2, ou 3, vezes em passeio, no tempo em que a CCaç 12 esteve em Contuboel [de 2 de Junho a 18 de Julho de 1969, na fase de instrução de especialidade dos nossos soldados africanos].
"É mais perto de Bafatá do que de Nova Lamego (Gabu), a velha Lamego conheci eu em 68 [onde tirei a especialidade de operações especiais].
Um abraço a todos.
Humberto Reis
Notas de Luís Graça:
No mapa da Guiné-Bissau, da Travelpost.com, aparece Contuboel como Contuba El (julgo ser gralha). Sonaco não consegui descobrir neste mapa (não vem na lista das povoações da Guiné-Bissau, tal como não vem Geba).
No Multimap.com podem ver a localização de Nova Lamego (ou Gabu). Este mapa tem um zoom que vai até à escala de 1:200.000. Há diversos mapas locais da Guiné-Bissau disponíveis na página Luís Graça & Camaradas > Subsídios para a História da Guerra Colonial > Guiné (1). Entre eles está Contuba El (a nossa Contuboel).
A localização destas povoações, que formam um um triângulo (Contuboel, Sonaco, Gabu) está bem bem visível no mapa da Guiné-Bissau, que consta da página da OMS . Nesse mapa, também são bem visíveis outras localidades da Zona Leste, que temos aqui falado, ou onde estivemos, ou por onde passámos, tais como Bambadinca, Xime, Xitole, Galomaru, Geba, Bafatá, etc.
Quando estive em Contuboel, com o Humberto Reis e o resto da malta da CCAÇ 12, não cheguei ir a Sonaco. Tal como não fui mais longe. Pelo menos não tenho ideia.Contuboel era, isso, sim, uma região paradisíaca naquele tempo...
Guiné 69/71 - LXXII: Contuboel, Sonaco, Gabu
Diz-nos o Humberto Reis, em mensagem enviada hoje, e a propósito do texto que inserimos ontem sobre o fanado em Geba, nos finais do Séc. XIX:
"Existe, pelo menos em 1969, uma localidade chamada Sonaco, a leste de Contuboel. Era um local sem quaisquer problemas e onde fui 2, ou 3, vezes em passeio, no tempo em que a CCaç 12 esteve em Contuboel [de 2 de Junho a 18 de Julho de 1969, na fase de instrução de especialidade dos nossos soldados africanos].
"É mais perto de Bafatá do que de Nova Lamego (Gabu), a velha Lamego conheci eu em 68 [onde tirei a especialidade de operações especiais].
Um abraço a todos.
Humberto Reis
Notas de Luís Graça:
No mapa da Guiné-Bissau, da Travelpost.com, aparece Contuboel como Contuba El (julgo ser gralha). Sonaco não consegui descobrir neste mapa (não vem na lista das povoações da Guiné-Bissau, tal como não vem Geba).
No Multimap.com podem ver a localização de Nova Lamego (ou Gabu). Este mapa tem um zoom que vai até à escala de 1:200.000. Há diversos mapas locais da Guiné-Bissau disponíveis na página Luís Graça & Camaradas > Subsídios para a História da Guerra Colonial > Guiné (1). Entre eles está Contuba El (a nossa Contuboel).
A localização destas povoações, que formam um um triângulo (Contuboel, Sonaco, Gabu) está bem bem visível no mapa da Guiné-Bissau, que consta da página da OMS . Nesse mapa, também são bem visíveis outras localidades da Zona Leste, que temos aqui falado, ou onde estivemos, ou por onde passámos, tais como Bambadinca, Xime, Xitole, Galomaru, Geba, Bafatá, etc.
Quando estive em Contuboel, com o Humberto Reis e o resto da malta da CCAÇ 12, não cheguei ir a Sonaco. Tal como não fui mais longe. Pelo menos não tenho ideia.Contuboel era, isso, sim, uma região paradisíaca naquele tempo...
"Existe, pelo menos em 1969, uma localidade chamada Sonaco, a leste de Contuboel. Era um local sem quaisquer problemas e onde fui 2, ou 3, vezes em passeio, no tempo em que a CCaç 12 esteve em Contuboel [de 2 de Junho a 18 de Julho de 1969, na fase de instrução de especialidade dos nossos soldados africanos].
"É mais perto de Bafatá do que de Nova Lamego (Gabu), a velha Lamego conheci eu em 68 [onde tirei a especialidade de operações especiais].
Um abraço a todos.
Humberto Reis
Notas de Luís Graça:
No mapa da Guiné-Bissau, da Travelpost.com, aparece Contuboel como Contuba El (julgo ser gralha). Sonaco não consegui descobrir neste mapa (não vem na lista das povoações da Guiné-Bissau, tal como não vem Geba).
No Multimap.com podem ver a localização de Nova Lamego (ou Gabu). Este mapa tem um zoom que vai até à escala de 1:200.000. Há diversos mapas locais da Guiné-Bissau disponíveis na página Luís Graça & Camaradas > Subsídios para a História da Guerra Colonial > Guiné (1). Entre eles está Contuba El (a nossa Contuboel).
A localização destas povoações, que formam um um triângulo (Contuboel, Sonaco, Gabu) está bem bem visível no mapa da Guiné-Bissau, que consta da página da OMS . Nesse mapa, também são bem visíveis outras localidades da Zona Leste, que temos aqui falado, ou onde estivemos, ou por onde passámos, tais como Bambadinca, Xime, Xitole, Galomaru, Geba, Bafatá, etc.
Quando estive em Contuboel, com o Humberto Reis e o resto da malta da CCAÇ 12, não cheguei ir a Sonaco. Tal como não fui mais longe. Pelo menos não tenho ideia.Contuboel era, isso, sim, uma região paradisíaca naquele tempo...
21 junho 2005
Guiné 69/71 - LXXI: Antologia (3): Sócio-antropologia da família e da mulher em Geba, nos finais do Séc. XIX
Textos seleccionado e enviados por Marques Lopes (que foi alferes miliciano da CART 1690, em 1967, em Geba):
1. A circuncisão e a família em Geba, por Marcelino Costa Ribeiro (1885)
Há um péssimo costume gentílico inveterado no povo do presídio de Geba, o qual consiste em determinado tempo aplicar a circuncisão a ambos os sexos, operação a que em Geba dão o nome de fanado.
Esta operação, apesar de ser simples, carece de algum cuidado, e não é só empregada pelos selvagens, mas também por muitos da praça de Geba, que infelizmente têm o nome de cristãos e civilizados.
Na actualidade aquele costume está mais em uso entre as supostas donzelas, vulgo bajudas, de 12 a 26 anos, do que entre os mancebos, devido talvez à luz da civilização, que vai pouco a pouco penetrando nas camadas sociais, e que se prega na boa escola confiada ao digno missionário e pároco distinto, o sr. Luiz Baptista do Rosário e Sousa.
Infelizmente as bajudas não têm quem lhes ensine as boas doutrinas, adoptadas na lei de 1809, porque as suas amas, vulgo mestral, passaram pelo mesmo caminho, e deixam que as suas educandas sigam à risca as leis gentílicas, adoptadas pela nobre universidade de Sonaco (1) , aonde vão instruir-se.
Quem conhece Geba a fundo, e está em dia com os péssimos costumes ali adoptados, sente logo a diferença no número da população que reside no presídio, sem que ninguém lhe diga nada; esta diferença é sempre notável nos princípios de Dezembro, época em que as supostas donzelas vão para diferentes povoados perto do presídio, sujeitarem-se à circuncisão.
Algumas a quem os pais impedem a ida, lamentam a sua sorte, metem empenhos, e quando não conseguem a licença de se irem circuncidar, fogem aos pais, e vão para o sítio aonde está constituída a liga, sujeitar-se à operação ; evitando por este modo que amanhã sejam consideradas na alta sociedade de Geba como olmo (não circuncidadas). Eis aí a maneira como são educadas em Geba muitas, a maior parte, das raparigas oriundas daquele presídio, e filhas de pais da classe de grumetes (2).
Agora direi alguma cousa acerca dos mesmos grumetes, explicando a maneira como eles adquirem numerosos filhos e constituem família, sem serem muitos deles verdadeiros pais. É costume e uso inveterado entre os grumetes no presídio de Geba, terem 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8 mulheres. A mais antiga em casa é sempre tida como dona da mesma, e poucas vezes se ausenta ; as outras quase nunca param em casa, vão para Fulacunda (3) (pequena povoação dos gentios fulas) fazer negócio, e aí se conservam.
Estas mulheres, chegando a Fulacunda ao mesmo tempo que se ocupam da venda de sal, tabaco e outros artigos que levam para os gentios, vendem-se também a si mesmas. No fim de alguns anos, algumas voltam à praça com 2 filhos, outras com 3, outras com 4, outras com 5, os quais, longe de serem mal recebidos em casa dos supostos pais, são tratados por estes como verdadeiros filhos!
Aqueles pequenos crescendo, começam a apelidar-se com o mesmo apelido; se os supostos pais se chamam Sambú, todos se apelidam Sambú, e se forem tio-Chico, todos seguem o mesmo, etc. No recenseamento que se fez em Geba no ano de 1882, notei na relação dos recenseados alguns grumetes com 15 filhos, outros com 19, outros com 21, etc. Explica-se pela circunstância que acima mencionei.
Marcelino da Costa Ribeiro (Geba—Guiné), in Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro. 1885.277-278.
Notas de Marques Lopes:
(1) Será Sonaco na zona de Gabu? É que também há Sonaco, no Senegal, perto de Barro, e de que já vos falei (ML).
(2) Os grumetes eram africanos que, vivendo nas povoações luso-africanas e adoptando com grande liberdade os hábitos cristãos e os modos lusitanizados de ser, operavam como remadores, construtores e pilotos de barcos, carregadores e auxiliares no comércio. Como categoria sociológica, eles desempenhavam um papel chave no frágil compromisso em que a sociedade crioula se fundava, sendo os intermediários que faziam a delicada mediação nos relacionamentos entre a minoria de comerciantes europeus e luso-africanos e os régulos das sociedades tradicionais africanas que produziam bens para exportação (Wilson Trajano Filho, da Universidade de Brasília, in Outros Rumores de Identidade na Guiné-Bissau).
(3) Há uma tabanca Fulacunda, na zona de Geba; há outra Fulacunda na zona de Buba; e há também uma Fulacunda na Casamanse, Senegal (ML).
Observações de L.G.:
Sobre a polémica cerimónia do fanado, vd. o meu post, de 4 de Maio de 2005 >
Guiné 69/71 - XII: O silêncio dos tugas face à MGF (Mutilação Genital Feminina)
2. Beldades de Geba, por Costa Pessoa (1882)
Quando saí de Lisboa em Outubro de 1879 com direcção á Guiné portuguesa, julgava, senão impossível, pelo menos difícil encontrar indivíduos da raça preta que me parecessem bonitos; mas logo que cheguei a Bolama e Bissau desenganei-me e muito mais depois que, navegando no rio Geba, vim parar à povoação deste nome.
É realmente interessante ver chegar a este presídio todos os dias grandes ranchos de fulas, fulas-forras e mandigas (mouras) dentre as quais aparecem tipos tão bonitos e regulares, que muitas damas da nossa terra invejariam (salvo a cor).
Principalmente dentre as fulas-forras, tribo de cor bronzeada, aparecem raparigas de rosto comprido, nariz aquilino, pequeno, lábios delgados, olhos vivos, apresentando um conjunto agradável e simpático.
O seu vestuário é o mais simples possível, consiste unicamente em um pano de algodão de 0,5m de largura, algumas vezes enfeitado com contas, que passam à volta da cintura. No pescoço e tornozelos trazem também muitos fios de contas e nos pulsos quantidade de manilhas. Do cabelo fazem um penteado em forma de barco com a quilha para cima, que vai desde o alto da cabeça até à nuca, deixando áà volta na testa e nas fontes pequenas tranças a que prendem fios de comas com moedas de prata nas extremidades.
Deu-se um dia comigo um caso engraçado : Estando eu sentado à porta de um negociante deste presídio, vi chegar um rancho de fulas que vinham fazer o seu negócio. E entre elas havia uma que sobressaía mais do que qualquer outra por ser mais bela e vir mais enfeitada. Chamei-a : ela aproximou-se e comecei então a examiná-la sem que ela a isso se opusesse; porém uma rapariga cristã, que se achava entre elas, diz-lhe :
— Repara que isto não é homem, é um boneco de molas movido por aquele (designando o negociante).
A fula retorquiu-lhe :
— Não, ele fala, tem olhos e cabelo.
— Tudo é postiço, e não diz coisa que se entenda, respondeu a cristã. Tu percebes alguma cousa do que ele diz ? Já viste homem tão branco ? (Eu era o único europeu que então me adiava em Geba, mas em Portugal não passava por ser dos mais brancos).
A esta última quartada fugiu a rapariga. Não se aproximou mais de mim, e hoje seguem todas aquele exemplo.
Costa Pessoa (Geba — Guiné), in Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro. 1882. 27/28
1. A circuncisão e a família em Geba, por Marcelino Costa Ribeiro (1885)
Há um péssimo costume gentílico inveterado no povo do presídio de Geba, o qual consiste em determinado tempo aplicar a circuncisão a ambos os sexos, operação a que em Geba dão o nome de fanado.
Esta operação, apesar de ser simples, carece de algum cuidado, e não é só empregada pelos selvagens, mas também por muitos da praça de Geba, que infelizmente têm o nome de cristãos e civilizados.
Na actualidade aquele costume está mais em uso entre as supostas donzelas, vulgo bajudas, de 12 a 26 anos, do que entre os mancebos, devido talvez à luz da civilização, que vai pouco a pouco penetrando nas camadas sociais, e que se prega na boa escola confiada ao digno missionário e pároco distinto, o sr. Luiz Baptista do Rosário e Sousa.
Infelizmente as bajudas não têm quem lhes ensine as boas doutrinas, adoptadas na lei de 1809, porque as suas amas, vulgo mestral, passaram pelo mesmo caminho, e deixam que as suas educandas sigam à risca as leis gentílicas, adoptadas pela nobre universidade de Sonaco (1) , aonde vão instruir-se.
Quem conhece Geba a fundo, e está em dia com os péssimos costumes ali adoptados, sente logo a diferença no número da população que reside no presídio, sem que ninguém lhe diga nada; esta diferença é sempre notável nos princípios de Dezembro, época em que as supostas donzelas vão para diferentes povoados perto do presídio, sujeitarem-se à circuncisão.
Algumas a quem os pais impedem a ida, lamentam a sua sorte, metem empenhos, e quando não conseguem a licença de se irem circuncidar, fogem aos pais, e vão para o sítio aonde está constituída a liga, sujeitar-se à operação ; evitando por este modo que amanhã sejam consideradas na alta sociedade de Geba como olmo (não circuncidadas). Eis aí a maneira como são educadas em Geba muitas, a maior parte, das raparigas oriundas daquele presídio, e filhas de pais da classe de grumetes (2).
Agora direi alguma cousa acerca dos mesmos grumetes, explicando a maneira como eles adquirem numerosos filhos e constituem família, sem serem muitos deles verdadeiros pais. É costume e uso inveterado entre os grumetes no presídio de Geba, terem 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8 mulheres. A mais antiga em casa é sempre tida como dona da mesma, e poucas vezes se ausenta ; as outras quase nunca param em casa, vão para Fulacunda (3) (pequena povoação dos gentios fulas) fazer negócio, e aí se conservam.
Estas mulheres, chegando a Fulacunda ao mesmo tempo que se ocupam da venda de sal, tabaco e outros artigos que levam para os gentios, vendem-se também a si mesmas. No fim de alguns anos, algumas voltam à praça com 2 filhos, outras com 3, outras com 4, outras com 5, os quais, longe de serem mal recebidos em casa dos supostos pais, são tratados por estes como verdadeiros filhos!
Aqueles pequenos crescendo, começam a apelidar-se com o mesmo apelido; se os supostos pais se chamam Sambú, todos se apelidam Sambú, e se forem tio-Chico, todos seguem o mesmo, etc. No recenseamento que se fez em Geba no ano de 1882, notei na relação dos recenseados alguns grumetes com 15 filhos, outros com 19, outros com 21, etc. Explica-se pela circunstância que acima mencionei.
Marcelino da Costa Ribeiro (Geba—Guiné), in Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro. 1885.277-278.
Notas de Marques Lopes:
(1) Será Sonaco na zona de Gabu? É que também há Sonaco, no Senegal, perto de Barro, e de que já vos falei (ML).
(2) Os grumetes eram africanos que, vivendo nas povoações luso-africanas e adoptando com grande liberdade os hábitos cristãos e os modos lusitanizados de ser, operavam como remadores, construtores e pilotos de barcos, carregadores e auxiliares no comércio. Como categoria sociológica, eles desempenhavam um papel chave no frágil compromisso em que a sociedade crioula se fundava, sendo os intermediários que faziam a delicada mediação nos relacionamentos entre a minoria de comerciantes europeus e luso-africanos e os régulos das sociedades tradicionais africanas que produziam bens para exportação (Wilson Trajano Filho, da Universidade de Brasília, in Outros Rumores de Identidade na Guiné-Bissau).
(3) Há uma tabanca Fulacunda, na zona de Geba; há outra Fulacunda na zona de Buba; e há também uma Fulacunda na Casamanse, Senegal (ML).
Observações de L.G.:
Sobre a polémica cerimónia do fanado, vd. o meu post, de 4 de Maio de 2005 >
Guiné 69/71 - XII: O silêncio dos tugas face à MGF (Mutilação Genital Feminina)
2. Beldades de Geba, por Costa Pessoa (1882)
Quando saí de Lisboa em Outubro de 1879 com direcção á Guiné portuguesa, julgava, senão impossível, pelo menos difícil encontrar indivíduos da raça preta que me parecessem bonitos; mas logo que cheguei a Bolama e Bissau desenganei-me e muito mais depois que, navegando no rio Geba, vim parar à povoação deste nome.
É realmente interessante ver chegar a este presídio todos os dias grandes ranchos de fulas, fulas-forras e mandigas (mouras) dentre as quais aparecem tipos tão bonitos e regulares, que muitas damas da nossa terra invejariam (salvo a cor).
Principalmente dentre as fulas-forras, tribo de cor bronzeada, aparecem raparigas de rosto comprido, nariz aquilino, pequeno, lábios delgados, olhos vivos, apresentando um conjunto agradável e simpático.
O seu vestuário é o mais simples possível, consiste unicamente em um pano de algodão de 0,5m de largura, algumas vezes enfeitado com contas, que passam à volta da cintura. No pescoço e tornozelos trazem também muitos fios de contas e nos pulsos quantidade de manilhas. Do cabelo fazem um penteado em forma de barco com a quilha para cima, que vai desde o alto da cabeça até à nuca, deixando áà volta na testa e nas fontes pequenas tranças a que prendem fios de comas com moedas de prata nas extremidades.
Deu-se um dia comigo um caso engraçado : Estando eu sentado à porta de um negociante deste presídio, vi chegar um rancho de fulas que vinham fazer o seu negócio. E entre elas havia uma que sobressaía mais do que qualquer outra por ser mais bela e vir mais enfeitada. Chamei-a : ela aproximou-se e comecei então a examiná-la sem que ela a isso se opusesse; porém uma rapariga cristã, que se achava entre elas, diz-lhe :
— Repara que isto não é homem, é um boneco de molas movido por aquele (designando o negociante).
A fula retorquiu-lhe :
— Não, ele fala, tem olhos e cabelo.
— Tudo é postiço, e não diz coisa que se entenda, respondeu a cristã. Tu percebes alguma cousa do que ele diz ? Já viste homem tão branco ? (Eu era o único europeu que então me adiava em Geba, mas em Portugal não passava por ser dos mais brancos).
A esta última quartada fugiu a rapariga. Não se aproximou mais de mim, e hoje seguem todas aquele exemplo.
Costa Pessoa (Geba — Guiné), in Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro. 1882. 27/28
Guiné 69/71 - LXXI: Antologia (3): Sócio-antropologia da família e da mulher em Geba, nos finais do Séc. XIX
Textos seleccionado e enviados por Marques Lopes (que foi alferes miliciano da CART 1690, em 1967, em Geba):
1. A circuncisão e a família em Geba, por Marcelino Costa Ribeiro (1885)
Há um péssimo costume gentílico inveterado no povo do presídio de Geba, o qual consiste em determinado tempo aplicar a circuncisão a ambos os sexos, operação a que em Geba dão o nome de fanado.
Esta operação, apesar de ser simples, carece de algum cuidado, e não é só empregada pelos selvagens, mas também por muitos da praça de Geba, que infelizmente têm o nome de cristãos e civilizados.
Na actualidade aquele costume está mais em uso entre as supostas donzelas, vulgo bajudas, de 12 a 26 anos, do que entre os mancebos, devido talvez à luz da civilização, que vai pouco a pouco penetrando nas camadas sociais, e que se prega na boa escola confiada ao digno missionário e pároco distinto, o sr. Luiz Baptista do Rosário e Sousa.
Infelizmente as bajudas não têm quem lhes ensine as boas doutrinas, adoptadas na lei de 1809, porque as suas amas, vulgo mestral, passaram pelo mesmo caminho, e deixam que as suas educandas sigam à risca as leis gentílicas, adoptadas pela nobre universidade de Sonaco (1) , aonde vão instruir-se.
Quem conhece Geba a fundo, e está em dia com os péssimos costumes ali adoptados, sente logo a diferença no número da população que reside no presídio, sem que ninguém lhe diga nada; esta diferença é sempre notável nos princípios de Dezembro, época em que as supostas donzelas vão para diferentes povoados perto do presídio, sujeitarem-se à circuncisão.
Algumas a quem os pais impedem a ida, lamentam a sua sorte, metem empenhos, e quando não conseguem a licença de se irem circuncidar, fogem aos pais, e vão para o sítio aonde está constituída a liga, sujeitar-se à operação ; evitando por este modo que amanhã sejam consideradas na alta sociedade de Geba como olmo (não circuncidadas). Eis aí a maneira como são educadas em Geba muitas, a maior parte, das raparigas oriundas daquele presídio, e filhas de pais da classe de grumetes (2).
Agora direi alguma cousa acerca dos mesmos grumetes, explicando a maneira como eles adquirem numerosos filhos e constituem família, sem serem muitos deles verdadeiros pais. É costume e uso inveterado entre os grumetes no presídio de Geba, terem 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8 mulheres. A mais antiga em casa é sempre tida como dona da mesma, e poucas vezes se ausenta ; as outras quase nunca param em casa, vão para Fulacunda (3) (pequena povoação dos gentios fulas) fazer negócio, e aí se conservam.
Estas mulheres, chegando a Fulacunda ao mesmo tempo que se ocupam da venda de sal, tabaco e outros artigos que levam para os gentios, vendem-se também a si mesmas. No fim de alguns anos, algumas voltam à praça com 2 filhos, outras com 3, outras com 4, outras com 5, os quais, longe de serem mal recebidos em casa dos supostos pais, são tratados por estes como verdadeiros filhos!
Aqueles pequenos crescendo, começam a apelidar-se com o mesmo apelido; se os supostos pais se chamam Sambú, todos se apelidam Sambú, e se forem tio-Chico, todos seguem o mesmo, etc. No recenseamento que se fez em Geba no ano de 1882, notei na relação dos recenseados alguns grumetes com 15 filhos, outros com 19, outros com 21, etc. Explica-se pela circunstância que acima mencionei.
Marcelino da Costa Ribeiro (Geba—Guiné), in Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro. 1885.277-278.
Notas de Marques Lopes:
(1) Será Sonaco na zona de Gabu? É que também há Sonaco, no Senegal, perto de Barro, e de que já vos falei (ML).
(2) Os grumetes eram africanos que, vivendo nas povoações luso-africanas e adoptando com grande liberdade os hábitos cristãos e os modos lusitanizados de ser, operavam como remadores, construtores e pilotos de barcos, carregadores e auxiliares no comércio. Como categoria sociológica, eles desempenhavam um papel chave no frágil compromisso em que a sociedade crioula se fundava, sendo os intermediários que faziam a delicada mediação nos relacionamentos entre a minoria de comerciantes europeus e luso-africanos e os régulos das sociedades tradicionais africanas que produziam bens para exportação (Wilson Trajano Filho, da Universidade de Brasília, in Outros Rumores de Identidade na Guiné-Bissau).
(3) Há uma tabanca Fulacunda, na zona de Geba; há outra Fulacunda na zona de Buba; e há também uma Fulacunda na Casamanse, Senegal (ML).
Observações de L.G.:
Sobre a polémica cerimónia do fanado, vd. o meu post, de 4 de Maio de 2005 >
Guiné 69/71 - XII: O silêncio dos tugas face à MGF (Mutilação Genital Feminina)
2. Beldades de Geba, por Costa Pessoa (1882)
Quando saí de Lisboa em Outubro de 1879 com direcção á Guiné portuguesa, julgava, senão impossível, pelo menos difícil encontrar indivíduos da raça preta que me parecessem bonitos; mas logo que cheguei a Bolama e Bissau desenganei-me e muito mais depois que, navegando no rio Geba, vim parar à povoação deste nome.
É realmente interessante ver chegar a este presídio todos os dias grandes ranchos de fulas, fulas-forras e mandigas (mouras) dentre as quais aparecem tipos tão bonitos e regulares, que muitas damas da nossa terra invejariam (salvo a cor).
Principalmente dentre as fulas-forras, tribo de cor bronzeada, aparecem raparigas de rosto comprido, nariz aquilino, pequeno, lábios delgados, olhos vivos, apresentando um conjunto agradável e simpático.
O seu vestuário é o mais simples possível, consiste unicamente em um pano de algodão de 0,5m de largura, algumas vezes enfeitado com contas, que passam à volta da cintura. No pescoço e tornozelos trazem também muitos fios de contas e nos pulsos quantidade de manilhas. Do cabelo fazem um penteado em forma de barco com a quilha para cima, que vai desde o alto da cabeça até à nuca, deixando áà volta na testa e nas fontes pequenas tranças a que prendem fios de comas com moedas de prata nas extremidades.
Deu-se um dia comigo um caso engraçado : Estando eu sentado à porta de um negociante deste presídio, vi chegar um rancho de fulas que vinham fazer o seu negócio. E entre elas havia uma que sobressaía mais do que qualquer outra por ser mais bela e vir mais enfeitada. Chamei-a : ela aproximou-se e comecei então a examiná-la sem que ela a isso se opusesse; porém uma rapariga cristã, que se achava entre elas, diz-lhe :
— Repara que isto não é homem, é um boneco de molas movido por aquele (designando o negociante).
A fula retorquiu-lhe :
— Não, ele fala, tem olhos e cabelo.
— Tudo é postiço, e não diz coisa que se entenda, respondeu a cristã. Tu percebes alguma cousa do que ele diz ? Já viste homem tão branco ? (Eu era o único europeu que então me adiava em Geba, mas em Portugal não passava por ser dos mais brancos).
A esta última quartada fugiu a rapariga. Não se aproximou mais de mim, e hoje seguem todas aquele exemplo.
Costa Pessoa (Geba — Guiné), in Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro. 1882. 27/28
1. A circuncisão e a família em Geba, por Marcelino Costa Ribeiro (1885)
Há um péssimo costume gentílico inveterado no povo do presídio de Geba, o qual consiste em determinado tempo aplicar a circuncisão a ambos os sexos, operação a que em Geba dão o nome de fanado.
Esta operação, apesar de ser simples, carece de algum cuidado, e não é só empregada pelos selvagens, mas também por muitos da praça de Geba, que infelizmente têm o nome de cristãos e civilizados.
Na actualidade aquele costume está mais em uso entre as supostas donzelas, vulgo bajudas, de 12 a 26 anos, do que entre os mancebos, devido talvez à luz da civilização, que vai pouco a pouco penetrando nas camadas sociais, e que se prega na boa escola confiada ao digno missionário e pároco distinto, o sr. Luiz Baptista do Rosário e Sousa.
Infelizmente as bajudas não têm quem lhes ensine as boas doutrinas, adoptadas na lei de 1809, porque as suas amas, vulgo mestral, passaram pelo mesmo caminho, e deixam que as suas educandas sigam à risca as leis gentílicas, adoptadas pela nobre universidade de Sonaco (1) , aonde vão instruir-se.
Quem conhece Geba a fundo, e está em dia com os péssimos costumes ali adoptados, sente logo a diferença no número da população que reside no presídio, sem que ninguém lhe diga nada; esta diferença é sempre notável nos princípios de Dezembro, época em que as supostas donzelas vão para diferentes povoados perto do presídio, sujeitarem-se à circuncisão.
Algumas a quem os pais impedem a ida, lamentam a sua sorte, metem empenhos, e quando não conseguem a licença de se irem circuncidar, fogem aos pais, e vão para o sítio aonde está constituída a liga, sujeitar-se à operação ; evitando por este modo que amanhã sejam consideradas na alta sociedade de Geba como olmo (não circuncidadas). Eis aí a maneira como são educadas em Geba muitas, a maior parte, das raparigas oriundas daquele presídio, e filhas de pais da classe de grumetes (2).
Agora direi alguma cousa acerca dos mesmos grumetes, explicando a maneira como eles adquirem numerosos filhos e constituem família, sem serem muitos deles verdadeiros pais. É costume e uso inveterado entre os grumetes no presídio de Geba, terem 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8 mulheres. A mais antiga em casa é sempre tida como dona da mesma, e poucas vezes se ausenta ; as outras quase nunca param em casa, vão para Fulacunda (3) (pequena povoação dos gentios fulas) fazer negócio, e aí se conservam.
Estas mulheres, chegando a Fulacunda ao mesmo tempo que se ocupam da venda de sal, tabaco e outros artigos que levam para os gentios, vendem-se também a si mesmas. No fim de alguns anos, algumas voltam à praça com 2 filhos, outras com 3, outras com 4, outras com 5, os quais, longe de serem mal recebidos em casa dos supostos pais, são tratados por estes como verdadeiros filhos!
Aqueles pequenos crescendo, começam a apelidar-se com o mesmo apelido; se os supostos pais se chamam Sambú, todos se apelidam Sambú, e se forem tio-Chico, todos seguem o mesmo, etc. No recenseamento que se fez em Geba no ano de 1882, notei na relação dos recenseados alguns grumetes com 15 filhos, outros com 19, outros com 21, etc. Explica-se pela circunstância que acima mencionei.
Marcelino da Costa Ribeiro (Geba—Guiné), in Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro. 1885.277-278.
Notas de Marques Lopes:
(1) Será Sonaco na zona de Gabu? É que também há Sonaco, no Senegal, perto de Barro, e de que já vos falei (ML).
(2) Os grumetes eram africanos que, vivendo nas povoações luso-africanas e adoptando com grande liberdade os hábitos cristãos e os modos lusitanizados de ser, operavam como remadores, construtores e pilotos de barcos, carregadores e auxiliares no comércio. Como categoria sociológica, eles desempenhavam um papel chave no frágil compromisso em que a sociedade crioula se fundava, sendo os intermediários que faziam a delicada mediação nos relacionamentos entre a minoria de comerciantes europeus e luso-africanos e os régulos das sociedades tradicionais africanas que produziam bens para exportação (Wilson Trajano Filho, da Universidade de Brasília, in Outros Rumores de Identidade na Guiné-Bissau).
(3) Há uma tabanca Fulacunda, na zona de Geba; há outra Fulacunda na zona de Buba; e há também uma Fulacunda na Casamanse, Senegal (ML).
Observações de L.G.:
Sobre a polémica cerimónia do fanado, vd. o meu post, de 4 de Maio de 2005 >
Guiné 69/71 - XII: O silêncio dos tugas face à MGF (Mutilação Genital Feminina)
2. Beldades de Geba, por Costa Pessoa (1882)
Quando saí de Lisboa em Outubro de 1879 com direcção á Guiné portuguesa, julgava, senão impossível, pelo menos difícil encontrar indivíduos da raça preta que me parecessem bonitos; mas logo que cheguei a Bolama e Bissau desenganei-me e muito mais depois que, navegando no rio Geba, vim parar à povoação deste nome.
É realmente interessante ver chegar a este presídio todos os dias grandes ranchos de fulas, fulas-forras e mandigas (mouras) dentre as quais aparecem tipos tão bonitos e regulares, que muitas damas da nossa terra invejariam (salvo a cor).
Principalmente dentre as fulas-forras, tribo de cor bronzeada, aparecem raparigas de rosto comprido, nariz aquilino, pequeno, lábios delgados, olhos vivos, apresentando um conjunto agradável e simpático.
O seu vestuário é o mais simples possível, consiste unicamente em um pano de algodão de 0,5m de largura, algumas vezes enfeitado com contas, que passam à volta da cintura. No pescoço e tornozelos trazem também muitos fios de contas e nos pulsos quantidade de manilhas. Do cabelo fazem um penteado em forma de barco com a quilha para cima, que vai desde o alto da cabeça até à nuca, deixando áà volta na testa e nas fontes pequenas tranças a que prendem fios de comas com moedas de prata nas extremidades.
Deu-se um dia comigo um caso engraçado : Estando eu sentado à porta de um negociante deste presídio, vi chegar um rancho de fulas que vinham fazer o seu negócio. E entre elas havia uma que sobressaía mais do que qualquer outra por ser mais bela e vir mais enfeitada. Chamei-a : ela aproximou-se e comecei então a examiná-la sem que ela a isso se opusesse; porém uma rapariga cristã, que se achava entre elas, diz-lhe :
— Repara que isto não é homem, é um boneco de molas movido por aquele (designando o negociante).
A fula retorquiu-lhe :
— Não, ele fala, tem olhos e cabelo.
— Tudo é postiço, e não diz coisa que se entenda, respondeu a cristã. Tu percebes alguma cousa do que ele diz ? Já viste homem tão branco ? (Eu era o único europeu que então me adiava em Geba, mas em Portugal não passava por ser dos mais brancos).
A esta última quartada fugiu a rapariga. Não se aproximou mais de mim, e hoje seguem todas aquele exemplo.
Costa Pessoa (Geba — Guiné), in Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro. 1882. 27/28
Guiné 69/71 - LXX: Por uma boa causa, a Plataforma Bafatá...
1. 21 de Junho de 2005.
Meus caros senhores,
Sou jornalista e estou a preparar um trabalho sobre a arquitectura nos países lusófonos, incluindo a componente de restauração do património histórico e cultural, que está a ser feito ao abrigo da cooperação com Portugal. Este trabalho inclui a campanha da Plataforma Bafatá para a recuperação da cidade.
Tendo visto as vossas imagens venho por este pedir a permissão do autor David Guimarães para a sua publicação na revista Espaço África.
Aguardo a autorização do(s) autor(es) por esta via. Com os meus cumprimentos
João Carlos
2. A resposta do nosso David Guimarães não se fez esperar:
"migo João Carlos,esteja à vontade, pode utilizar as minhas fotigrafias. Querendo lhas enviarei.
Gostava de ter essa revista. Tenho mais fotografias de Bafatá" .
3. Como vêem, os nossos escritos e as nosssas fotos podem servir uma boa causa...
Meus caros senhores,
Sou jornalista e estou a preparar um trabalho sobre a arquitectura nos países lusófonos, incluindo a componente de restauração do património histórico e cultural, que está a ser feito ao abrigo da cooperação com Portugal. Este trabalho inclui a campanha da Plataforma Bafatá para a recuperação da cidade.
Tendo visto as vossas imagens venho por este pedir a permissão do autor David Guimarães para a sua publicação na revista Espaço África.
Aguardo a autorização do(s) autor(es) por esta via. Com os meus cumprimentos
João Carlos
2. A resposta do nosso David Guimarães não se fez esperar:
"migo João Carlos,esteja à vontade, pode utilizar as minhas fotigrafias. Querendo lhas enviarei.
Gostava de ter essa revista. Tenho mais fotografias de Bafatá" .
3. Como vêem, os nossos escritos e as nosssas fotos podem servir uma boa causa...
Guiné 69/71 - LXX: Por uma boa causa, a Plataforma Bafatá...
1. 21 de Junho de 2005.
Meus caros senhores,
Sou jornalista e estou a preparar um trabalho sobre a arquitectura nos países lusófonos, incluindo a componente de restauração do património histórico e cultural, que está a ser feito ao abrigo da cooperação com Portugal. Este trabalho inclui a campanha da Plataforma Bafatá para a recuperação da cidade.
Tendo visto as vossas imagens venho por este pedir a permissão do autor David Guimarães para a sua publicação na revista Espaço África.
Aguardo a autorização do(s) autor(es) por esta via. Com os meus cumprimentos
João Carlos
2. A resposta do nosso David Guimarães não se fez esperar:
"migo João Carlos,esteja à vontade, pode utilizar as minhas fotigrafias. Querendo lhas enviarei.
Gostava de ter essa revista. Tenho mais fotografias de Bafatá" .
3. Como vêem, os nossos escritos e as nosssas fotos podem servir uma boa causa...
Meus caros senhores,
Sou jornalista e estou a preparar um trabalho sobre a arquitectura nos países lusófonos, incluindo a componente de restauração do património histórico e cultural, que está a ser feito ao abrigo da cooperação com Portugal. Este trabalho inclui a campanha da Plataforma Bafatá para a recuperação da cidade.
Tendo visto as vossas imagens venho por este pedir a permissão do autor David Guimarães para a sua publicação na revista Espaço África.
Aguardo a autorização do(s) autor(es) por esta via. Com os meus cumprimentos
João Carlos
2. A resposta do nosso David Guimarães não se fez esperar:
"migo João Carlos,esteja à vontade, pode utilizar as minhas fotigrafias. Querendo lhas enviarei.
Gostava de ter essa revista. Tenho mais fotografias de Bafatá" .
3. Como vêem, os nossos escritos e as nosssas fotos podem servir uma boa causa...
Socio(b)logia - XVI: Ser português: crise (d)e identidade
Ciclicamente, os povos e as nações passam por crises de identidade. Portugal que é um dos Estados mais antigos da Europa e do mundo, não foge à regra.
Hoje estamos a passar por uma grave crise de identidade, em grande parte devido às profundas transformações que sofreu o Estado e a sociedade portugueses nos últimos trinta anos, mas também devido ao contexto (integração europeia, desenvolvimento das novas tecnologias da informação e do conhecimento, globalização da economia…).
Tal como outros povos, temos tido as nossas crises identitárias, mais acentuadamente nos últimos dois séculos: 1890, na sequência do ultimato inglês; 1910, a ruptura revolucionária com a monarquia; 1974, o fim do império e do “orgulhosamente sós”…
Recuando no tempo, poderíamos ainda apontar outras datas-chaves na formação da nossa tomada de consciência como povo: a crise dinástica de 1393-1395, a proclamação de D. João I, o apoio d”arraia miúda” da cidade de Lisboa à sua causa, a vitória sobre os castelhanos em Aljubarrota; a grande aventura dos descobrimentos, a época de ouro com D. João II, D. Manuel I e D. João III, mas também o desastre de Alcácer Quibir, o sebastianismo, o fim da dinastia de Avis em 1580, o domínio dos Filipes, a restauração em 1640…
Reforço da portugalidade
Em rigor a construção do moderno Estado português é muito mais recente, e a ele estão associados nomes de políticos e de intelectuais estrangeirados, como o Marquês de Pombal… As próprias invasões napoleónicas em 1807, a fuga da corte para o Brasil, a influência inglesa, a revolução liberal de 1820, a perda do Brasil, a guerra civil que só termina com o tratado de Évora Monte em 1834, todos estes acontecimentos marcaram profundamente a primeira metade do nosso Século XIX, que é o século por excelências das estados-nações e do nacionalismo não só na Europa como no Novo Mundo. Esses acontecimentos contribuíram para o reforço da nossa portugalidade. Mas, atenção, que nessa época não havia os poderosos meios de comunicação e de socialização que há hoje, tal como a televisão e a Internet…
As crises (políticas, sociais, económicas…) são também tempos de oportunidade: por exemplo, naqueles três momentos da nossa história (1890, 1910, 1974) houve uma mobilização popular que veio reforçar a nossa consciência colectiva enquanto povo. Recorde-se que o nosso actual hino data de 1890 e a bandeira das quinas, verde e rubra, não chega a ter cem anos…
Ser português hoje
Não me parece que hoje em dia seja devidamente valorizado o ensino e a divulgação da nossa história. Há um paradoxo: nunca como hoje se publicou tanta história, ou tantos livros de história… Recordo, por exemplo, o papel importante que tem tido o Círculo de Leitores (que acaba de lançar uma notável colecção com as biografias dos nossos reis, desde D. Afonso Henriques, o fundador do reinado, até D. Manuel II, o último dos nossos monarcas).
A nossa identidade é também indissociável da língua: nunca como agora se publicaram tantas obras em língua portuguesa. O português é, além disso, um recurso estratégico com enormes potencialidades, culturais e económicas, sendo decisivo para o nosso futuro, para o futuro dos nossos filhos e dos povos que falam a nossa língua. A língua é hoje um importantíssimo elo de ligação de povos que se cruzaram connosco ao longo da história.
Portugal tem razões para ter orgulho de si próprio. A escola e as famílias têm que interiorizar melhor os valores e os símbolos da nossa portugalidade. Esses valores e símbolos não podem ser estáticos. Daí não ser fácil definir o que é ser hoje português. Mas não tenho dúvidas de que os portugueses, mais uma vez, vão saber dar uma resposta cabal às muitas perplexidades e dúvidas que se colocam em relação ao seu presente e ao seu futuro. Tirar partido das lições do passado é já, por si, um sinal da sabedoria dos povos e um primeiro passo para encontrar soluções criativas e inovadoras para os novos desafios do Século XXI.
Texto de Luís Graça. Uma versão ligeiramente diferente foi publicada na revista Plenitude. (Lisboa) . 27 (Junho de 2005). 62-63.
Hoje estamos a passar por uma grave crise de identidade, em grande parte devido às profundas transformações que sofreu o Estado e a sociedade portugueses nos últimos trinta anos, mas também devido ao contexto (integração europeia, desenvolvimento das novas tecnologias da informação e do conhecimento, globalização da economia…).
Tal como outros povos, temos tido as nossas crises identitárias, mais acentuadamente nos últimos dois séculos: 1890, na sequência do ultimato inglês; 1910, a ruptura revolucionária com a monarquia; 1974, o fim do império e do “orgulhosamente sós”…
Recuando no tempo, poderíamos ainda apontar outras datas-chaves na formação da nossa tomada de consciência como povo: a crise dinástica de 1393-1395, a proclamação de D. João I, o apoio d”arraia miúda” da cidade de Lisboa à sua causa, a vitória sobre os castelhanos em Aljubarrota; a grande aventura dos descobrimentos, a época de ouro com D. João II, D. Manuel I e D. João III, mas também o desastre de Alcácer Quibir, o sebastianismo, o fim da dinastia de Avis em 1580, o domínio dos Filipes, a restauração em 1640…
Reforço da portugalidade
Em rigor a construção do moderno Estado português é muito mais recente, e a ele estão associados nomes de políticos e de intelectuais estrangeirados, como o Marquês de Pombal… As próprias invasões napoleónicas em 1807, a fuga da corte para o Brasil, a influência inglesa, a revolução liberal de 1820, a perda do Brasil, a guerra civil que só termina com o tratado de Évora Monte em 1834, todos estes acontecimentos marcaram profundamente a primeira metade do nosso Século XIX, que é o século por excelências das estados-nações e do nacionalismo não só na Europa como no Novo Mundo. Esses acontecimentos contribuíram para o reforço da nossa portugalidade. Mas, atenção, que nessa época não havia os poderosos meios de comunicação e de socialização que há hoje, tal como a televisão e a Internet…
As crises (políticas, sociais, económicas…) são também tempos de oportunidade: por exemplo, naqueles três momentos da nossa história (1890, 1910, 1974) houve uma mobilização popular que veio reforçar a nossa consciência colectiva enquanto povo. Recorde-se que o nosso actual hino data de 1890 e a bandeira das quinas, verde e rubra, não chega a ter cem anos…
Ser português hoje
Não me parece que hoje em dia seja devidamente valorizado o ensino e a divulgação da nossa história. Há um paradoxo: nunca como hoje se publicou tanta história, ou tantos livros de história… Recordo, por exemplo, o papel importante que tem tido o Círculo de Leitores (que acaba de lançar uma notável colecção com as biografias dos nossos reis, desde D. Afonso Henriques, o fundador do reinado, até D. Manuel II, o último dos nossos monarcas).
A nossa identidade é também indissociável da língua: nunca como agora se publicaram tantas obras em língua portuguesa. O português é, além disso, um recurso estratégico com enormes potencialidades, culturais e económicas, sendo decisivo para o nosso futuro, para o futuro dos nossos filhos e dos povos que falam a nossa língua. A língua é hoje um importantíssimo elo de ligação de povos que se cruzaram connosco ao longo da história.
Portugal tem razões para ter orgulho de si próprio. A escola e as famílias têm que interiorizar melhor os valores e os símbolos da nossa portugalidade. Esses valores e símbolos não podem ser estáticos. Daí não ser fácil definir o que é ser hoje português. Mas não tenho dúvidas de que os portugueses, mais uma vez, vão saber dar uma resposta cabal às muitas perplexidades e dúvidas que se colocam em relação ao seu presente e ao seu futuro. Tirar partido das lições do passado é já, por si, um sinal da sabedoria dos povos e um primeiro passo para encontrar soluções criativas e inovadoras para os novos desafios do Século XXI.
Texto de Luís Graça. Uma versão ligeiramente diferente foi publicada na revista Plenitude. (Lisboa) . 27 (Junho de 2005). 62-63.
Socio(b)logia - XVI: Ser português: crise (d)e identidade
Ciclicamente, os povos e as nações passam por crises de identidade. Portugal que é um dos Estados mais antigos da Europa e do mundo, não foge à regra.
Hoje estamos a passar por uma grave crise de identidade, em grande parte devido às profundas transformações que sofreu o Estado e a sociedade portugueses nos últimos trinta anos, mas também devido ao contexto (integração europeia, desenvolvimento das novas tecnologias da informação e do conhecimento, globalização da economia…).
Tal como outros povos, temos tido as nossas crises identitárias, mais acentuadamente nos últimos dois séculos: 1890, na sequência do ultimato inglês; 1910, a ruptura revolucionária com a monarquia; 1974, o fim do império e do “orgulhosamente sós”…
Recuando no tempo, poderíamos ainda apontar outras datas-chaves na formação da nossa tomada de consciência como povo: a crise dinástica de 1393-1395, a proclamação de D. João I, o apoio d”arraia miúda” da cidade de Lisboa à sua causa, a vitória sobre os castelhanos em Aljubarrota; a grande aventura dos descobrimentos, a época de ouro com D. João II, D. Manuel I e D. João III, mas também o desastre de Alcácer Quibir, o sebastianismo, o fim da dinastia de Avis em 1580, o domínio dos Filipes, a restauração em 1640…
Reforço da portugalidade
Em rigor a construção do moderno Estado português é muito mais recente, e a ele estão associados nomes de políticos e de intelectuais estrangeirados, como o Marquês de Pombal… As próprias invasões napoleónicas em 1807, a fuga da corte para o Brasil, a influência inglesa, a revolução liberal de 1820, a perda do Brasil, a guerra civil que só termina com o tratado de Évora Monte em 1834, todos estes acontecimentos marcaram profundamente a primeira metade do nosso Século XIX, que é o século por excelências das estados-nações e do nacionalismo não só na Europa como no Novo Mundo. Esses acontecimentos contribuíram para o reforço da nossa portugalidade. Mas, atenção, que nessa época não havia os poderosos meios de comunicação e de socialização que há hoje, tal como a televisão e a Internet…
As crises (políticas, sociais, económicas…) são também tempos de oportunidade: por exemplo, naqueles três momentos da nossa história (1890, 1910, 1974) houve uma mobilização popular que veio reforçar a nossa consciência colectiva enquanto povo. Recorde-se que o nosso actual hino data de 1890 e a bandeira das quinas, verde e rubra, não chega a ter cem anos…
Ser português hoje
Não me parece que hoje em dia seja devidamente valorizado o ensino e a divulgação da nossa história. Há um paradoxo: nunca como hoje se publicou tanta história, ou tantos livros de história… Recordo, por exemplo, o papel importante que tem tido o Círculo de Leitores (que acaba de lançar uma notável colecção com as biografias dos nossos reis, desde D. Afonso Henriques, o fundador do reinado, até D. Manuel II, o último dos nossos monarcas).
A nossa identidade é também indissociável da língua: nunca como agora se publicaram tantas obras em língua portuguesa. O português é, além disso, um recurso estratégico com enormes potencialidades, culturais e económicas, sendo decisivo para o nosso futuro, para o futuro dos nossos filhos e dos povos que falam a nossa língua. A língua é hoje um importantíssimo elo de ligação de povos que se cruzaram connosco ao longo da história.
Portugal tem razões para ter orgulho de si próprio. A escola e as famílias têm que interiorizar melhor os valores e os símbolos da nossa portugalidade. Esses valores e símbolos não podem ser estáticos. Daí não ser fácil definir o que é ser hoje português. Mas não tenho dúvidas de que os portugueses, mais uma vez, vão saber dar uma resposta cabal às muitas perplexidades e dúvidas que se colocam em relação ao seu presente e ao seu futuro. Tirar partido das lições do passado é já, por si, um sinal da sabedoria dos povos e um primeiro passo para encontrar soluções criativas e inovadoras para os novos desafios do Século XXI.
Texto de Luís Graça. Uma versão ligeiramente diferente foi publicada na revista Plenitude. (Lisboa) . 27 (Junho de 2005). 62-63.
Hoje estamos a passar por uma grave crise de identidade, em grande parte devido às profundas transformações que sofreu o Estado e a sociedade portugueses nos últimos trinta anos, mas também devido ao contexto (integração europeia, desenvolvimento das novas tecnologias da informação e do conhecimento, globalização da economia…).
Tal como outros povos, temos tido as nossas crises identitárias, mais acentuadamente nos últimos dois séculos: 1890, na sequência do ultimato inglês; 1910, a ruptura revolucionária com a monarquia; 1974, o fim do império e do “orgulhosamente sós”…
Recuando no tempo, poderíamos ainda apontar outras datas-chaves na formação da nossa tomada de consciência como povo: a crise dinástica de 1393-1395, a proclamação de D. João I, o apoio d”arraia miúda” da cidade de Lisboa à sua causa, a vitória sobre os castelhanos em Aljubarrota; a grande aventura dos descobrimentos, a época de ouro com D. João II, D. Manuel I e D. João III, mas também o desastre de Alcácer Quibir, o sebastianismo, o fim da dinastia de Avis em 1580, o domínio dos Filipes, a restauração em 1640…
Reforço da portugalidade
Em rigor a construção do moderno Estado português é muito mais recente, e a ele estão associados nomes de políticos e de intelectuais estrangeirados, como o Marquês de Pombal… As próprias invasões napoleónicas em 1807, a fuga da corte para o Brasil, a influência inglesa, a revolução liberal de 1820, a perda do Brasil, a guerra civil que só termina com o tratado de Évora Monte em 1834, todos estes acontecimentos marcaram profundamente a primeira metade do nosso Século XIX, que é o século por excelências das estados-nações e do nacionalismo não só na Europa como no Novo Mundo. Esses acontecimentos contribuíram para o reforço da nossa portugalidade. Mas, atenção, que nessa época não havia os poderosos meios de comunicação e de socialização que há hoje, tal como a televisão e a Internet…
As crises (políticas, sociais, económicas…) são também tempos de oportunidade: por exemplo, naqueles três momentos da nossa história (1890, 1910, 1974) houve uma mobilização popular que veio reforçar a nossa consciência colectiva enquanto povo. Recorde-se que o nosso actual hino data de 1890 e a bandeira das quinas, verde e rubra, não chega a ter cem anos…
Ser português hoje
Não me parece que hoje em dia seja devidamente valorizado o ensino e a divulgação da nossa história. Há um paradoxo: nunca como hoje se publicou tanta história, ou tantos livros de história… Recordo, por exemplo, o papel importante que tem tido o Círculo de Leitores (que acaba de lançar uma notável colecção com as biografias dos nossos reis, desde D. Afonso Henriques, o fundador do reinado, até D. Manuel II, o último dos nossos monarcas).
A nossa identidade é também indissociável da língua: nunca como agora se publicaram tantas obras em língua portuguesa. O português é, além disso, um recurso estratégico com enormes potencialidades, culturais e económicas, sendo decisivo para o nosso futuro, para o futuro dos nossos filhos e dos povos que falam a nossa língua. A língua é hoje um importantíssimo elo de ligação de povos que se cruzaram connosco ao longo da história.
Portugal tem razões para ter orgulho de si próprio. A escola e as famílias têm que interiorizar melhor os valores e os símbolos da nossa portugalidade. Esses valores e símbolos não podem ser estáticos. Daí não ser fácil definir o que é ser hoje português. Mas não tenho dúvidas de que os portugueses, mais uma vez, vão saber dar uma resposta cabal às muitas perplexidades e dúvidas que se colocam em relação ao seu presente e ao seu futuro. Tirar partido das lições do passado é já, por si, um sinal da sabedoria dos povos e um primeiro passo para encontrar soluções criativas e inovadoras para os novos desafios do Século XXI.
Texto de Luís Graça. Uma versão ligeiramente diferente foi publicada na revista Plenitude. (Lisboa) . 27 (Junho de 2005). 62-63.
Guiné 69/71 - LXIX: Fotomemória(s)
[O Alferes miliciano Lopes, da CCAÇ 3, em Barro, 1968, com o seu guarda-costas.© Marques Lopes]Texto de A. Marques Lopes, ex-alferes miliciano da CART 1690 (Geba, 1967) e da CCAÇ 3 (Barro, 1968):
1. Caros amigos:
Tenho-vos enchido de imagens e fotografias, porque achei que são importantes para dizer da nossa história vivida. Mas também porque sinto alguma dificuldade em pôr por escrito essa vida. Por um lado, o receio de envolver nela os seus intervenientes de uma maneira que a forte impressão em mim existente possa retratar, se calhar, não da forma mais justa; por outro lado, e influenciando ainda o aspecto anterior, a perplexidade que esses acontecimentos tão próximos ainda (nunca despegaram...) e sempre presentes continuam a provocar no meu espírito. Durante muito tempo tenho hesitado entre a narrativa histórica dos acontecimentos que me atormentam e um qualquer tipo de alegoria, ou ficção, que deles poderia tirar.
Em qualquer dos casos, nunca foi minha intenção enveredar pelo tom épico, patrioteiro, ou pelo panegírico a oragos guerreiros. Os dados já estão lançados e a minha constante vivência dos factos permite-me avaliá-los com realismo, com prospectiva e com alguma contrição. A temeridade não me falta, mas tenho também um maior grau de experiência, o que me permite escolher melhor os modos de actuação.
Mas creio, ao mesmo tempo, que a verdade é, sem dúvida, mais forte que quaisquer algemas. Não há prisão nem violência que possam banir tudo o que de verdade existe; não há perseguição que apague a evidência; não há acção presente que possa negar existência à sua causa passada.
Bem, isto é conversa. O que vos quero efectivamente dizer é que mostrei as minhas fotografias de Barro, as que vocês conhecem, a uma amiga muito chegada e lhe pedi para fazer um comentário sobre elas. Ela esteve de acordo que eu vos desse conhecimento desse comentário e é este que eu peço que leiam. Ela não quis que eu dissesse o nome dela, porque é uma pessoa muito envergonhada. Ei-lo:
2. «Não se pode possuir a realidade, mas pode possuir-se (e ser-se possuído por) imagens" (Susan Sontag).
"Fotografar é o acto pelo qual o fotógrafo capta um momento. Neste caso, o fotógrafo que faz a fotografia (porque não a tira, não é roubada, ela é antes um acto de colaboração) foi-o a pedido dos fotografados. O seu objectivo era obter um registo duma vivência única e ao mesmo tempo diversa para cada um dos elementos do grupo. A vivência de uma presença na guerra, numa terra distante, na Guiné, com aquele grupo unido por secretos laços de camaradagem.
"E porque se trata de uma relação única, aquela fotografia é um marco e também uma marca. Ela está ali a consubstanciar todos as pormenores do momento: o número de pessoas, aqueles mesmos, não outros quaisquer, aquele lugar, as sensações, os sentimentos, as emoções, o silêncio.
"Ela está ali há mais de 30 anos, testemunho vivo, porque todos os testemunhos são vivos apesar daquelas imagens petrificadas pelo tempo, mas reveladoras, prenhes de uma vivência, uma voz que se agiganta quando se folheia o álbum:
- Este era um grupo muito especial. Éramos um alferes, dois furriéis, um cabo e seis soldados. Costumávamos fazer incursões no Senegal, para, nas aldeias, roubar vacas para comer.
"Havia essa necessidade, vital como a de comer, de, no futuro, disso fazer prova à memória, por vezes traiçoeira. Mas também de possuir, em substância, aqueles momentos fugazes, de secretos laços de camaradagem. É como olhar-se no espelho e observar-se ali com os outros. Ali estou eu. Ali, naquele lugar concreto, aquela figura. Eu que não me posso ver, que só me construo por e na relação com os outros, que só me observo de dentro para fora. A fotografia é o espelho, dá-me a minha imagem com os outros, reflecte-me, constrói-me uma figura. E ao vê-la, por alastramento, eu acrescento-lhe o conteúdo, impregno-a dos sentimentos e emoções que são o lastro da minha memória.
"É esta relação dialéctica entre a fotografia e o fotografado, mais tarde observador também, que dá significado à fotografia, que a faz pulsar, mesmo que aparentemente morta, num vaivém entre um passado que foi presente e um presente que foi futuro, numa atmosfera irreal.
"E ali estão todos, na pose que idealizaram para ficarem fixados naquele presente e serem transportados ao futuro. De acordo com a hierarquia, o alferes no eixo vertical central, em posição de destaque, em pé. Em volta, descendo na hierarquia, os furriéis e, alargando-se para o eixo horizontal, mais igualitário, os soldados, formando uma pirâmide de base alargada [refere-se à fotografia em que estou com os Jagudis]. O grupo ocupa toda a fotografia. É um grande plano. O que importa para a memória do futuro, lá longe, no continente, é o grupo, a sua ligação, as suas recordações. A fotografia é assim a reificação duma relação estatificada, com aquelas pessoas, num determinado tempo (1968) num determinado local, em Barro, quase esquecida no mato, na guerra colonial, na Guiné. Ao fixar aquele momento, o fotografado, por acção do fotógrafo, quis construir um monumento que vencesse o esquecimento.
"Na sociedade de consumo, as fotografias consubstanciam a massificação dos heróis: do herói individual, de cada momento, de cada vivência única, das vivências únicas que se multiplicam e que, por serem únicas, necessitam de registo. A sua multiplicação permanente toma-as fugidias e por isso urgentes de memória. Todo o acto na vida do indivíduo se inflaccionou em rito de passagem. É o nascimento, a saída da maternidade, a 1ª mamada, o 1º banho, a 1ª papa, o 1° mês o 2°mês, do 1º dente, o 1º passeio, o 1º brinquedo, o brinquedo preferido. São tantos os momentos a registar, são tantos os marcos a assinalar! Tudo se esvai a uma velocidade impossível de estancar. A falta de tempo para agarrar o momento erige um único em monumento. Agarra-se pela fotografia. Pretende arrumar-se a memória. Quando dele necessitarmos, está à nossa disposição, arquivado no álbum para nos aclarar a memória.
"A linha de montagem da produção não o é só para a mercadoria, é também para a memória. Por todo o lado, em qualquer ocasião, por mais banal que nos pareça, a câmara lá está, pronta a produzir memória. É só carregar no botão.
"Também aquele foi único. Único para cada um dos protagonistas. A câmara imortalizou-o. O futuro seria de ausência. É a nostalgia dessa ausência o que reúne aquele grupo de homens, com ar sério, solene, numa postura de alguma descontracção física, mas de preocupação interior. Nas suas mentes perpassam imagens de separação. Os olhares estão distantes, evitam o confronto com a câmara, como que a recusar um certo mergulhar no seu interior, o desvendar do que lhes vai na alma. Ou evitam o confronto com o futuro, consigo próprios, quando observadores da fotografia. A recusa é esquiva, fugidia. No entanto, ali ficou, consubstanciada. Só dois olhares enfrentam, com frontalidade, essa incógnita.
"No limite esquerdo, uma cabeça, quase invisível, espreita. O seu corpo, bem visível, parece nem lhe pertencer, tal é a preocupação de evitar o confronto com a câmara. Aliás, toda aquela área quase parece tentar escapar-se da fotografia. Os tronco que constituem a paliçada como que se sobrepõem aos soldados, tomado-os ainda mais reduzidos. No limite direito, pelo contrário, o alferes em pé, isolado, quase que constitui uma outra unidade significante. Há uma distância física que o separa dos restantes. Não é muita. Possivelmente a câmara não lhe deu tempo de ajustar a pose. Por outro lado sente-se um certo desprendimento, algum desinteresse. Este espaço visível poderá ser o reflexo duma demarcação territorial psíquica, de um menor envolvimento.
"Um outro elemento que nos salta à vista é o facto de os únicos três brancos do grupo, o alferes e os dois furriéis, se encontrarem todos em posição de destaque, o que corresponde à realidade hierárquica. A incorporação no exército traduzia-se num rendimento muito acima da média. Os autóctones, dada a situação de guerra, tinham poucas oportunidades de trabalho, ainda por cima bem remunerado, ali tão longe da capital, nas aldeias praticamente perdidas na mata. A guerrilha, bem armada, e também com o apoio da população e até de alguns militares incorporados, conseguia um equilíbrio de forças, muitas vezes instável, que levou ao reconhecimento, por parte das chefias portuguesas, de que aquela guerra era um beco sem saída.
"Quando, em 1998, o nosso fotógrafo volta à Guiné para agarrar um pouco dessa vida perdida no mato, aos 20 anos, e também para arrumar as ideias sobre o livro que iniciou sobre a sua experiência na guerra, lá estava o mesmo chefe de tabanca, agora com 80 anos, forte como um baluarte na sua coerência, outrora apoiante da guerrilha e do PAIGC, gerindo diplomaticamente a amizade com o militar para mais facilmente jogar o xadrez da revolução, agora o ancião, o conselheiro, o sábio, de alguma forma amargurado com os trilhos perdidos após a independência.
"E este encontro foi o reviver duma relação de amizade urdida em muitos meses de comunhão de um espaço, sedimentada por uma identidade de valores que, afinal, estavam dos dois lados naquela guerra, sem sentido também para muitos daqueles que a faziam.
"Guerra que está presente em todas as fotografias. Pressentimo-la pelas fardas, a paliçada, as armas. Mas neste caso a exibição da metralhadora e do morteiro é como que uma espécie de encenação. Ela não me puxa pelo fio das minhas lembranças. O ar despreocupado dos fotografados dá-nos a ideia de que tudo é uma brincadeira e possivelmente em muitos dos momentos assim teve que ser encarada aquela situação de pressão psicológica extrema. A brincadeira com a função de descomprimir, fazer esquecer, para se aguentar a tensão dos momentos de violentação que eram os ataques, e as mortes daí decorrentes.
"Fotografias que me despoletaram a recordação de guerra, a real, não a da História ou das histórias, a guerra dos homens concretos, aquela que nós sentimos, que conhecemos, quando para isso estamos maduros. Até lá, há todo um caminho a percorrer, de muita surdez, ou falta de vista, incompreensão. Porque compreender é ligar, envolver, tomar para nós. E só quando somos capazes de pegar nessa realidade do outro, amassá-la com a nossa, deixar levedar como o pão, é que então estamos capazes de entendimento, de compreensão. Processo difícil, longo, que necessita de um grande esforço de deslocação, de descentração, sem no entanto se perder o Norte, a nossa bússola, a nossa identidade, os princípios, os valores, corporizados fundamentalmente no respeito pelo Outro.
"A conjugação do olhar directo com a fuga do olhar, as fisionomias sérias, o olhar carregado, os traços bem marcados do soldado negro, sentado, são sinais de dúvida, de incerteza. As imagens da minha infância agigantam-se. Aos meus ouvidos, o ressoar de Angola é nossa ao som abafado de botas a marchar em sintonia.
"Guerra era aquele som, misturado com mensagens de Natal na rádio e na televisão, e os navios apinhados de homens a largar o cais e muitas mãos no ar a acenar, e o filho daquela vizinha da minha avó que veio fechado num caixão, tinha eu 15 anos. Ele que nunca tinha saído da aldeia, aos 20 anos atravessou o mar, cruzou os continentes, em busca da morte, lá tão longe. Veio fechado num caixão e nunca mais ninguém o pôde ver. Essa, a ideia que me ficou da morte. Um caixão fechado, misterioso, e a repetição até ao infinito daquele marchar de botas, acompanhado de Angola é nossa.
"Na minha cabeça as ideias misturavam-se e assentavam todas naquele bocadinho de mapa, com palmeiras, umas bolas maiores e outras mais pequenas a assinalar as cidades, com mulheres negras com os filhos às costas. E o meu receio era que a guerra saltasse daquele mapa para este outro mapa onde eu estava. Guerra era ainda aquela voz que mais tarde aprendi que era do Salazar. E era só a voz a encher a rádio, que as palavras não tinham para mim sentido.
"A guerra preencheu o imaginário da minha infância. Mas a guerra só a vi, alguns anos mais tarde. Já não era a guerra da minha infância, quase invisível, de palavras sem sentido. Era a guerra de corpos calcinados, ou feitos em pedaços, de olhos secos raiados de revolta, de silêncios perfurantes como lanças. Era mais uma guerra, absurda, devastadora, única, pelos meios cada vez mais refinados, sempre igual, repetida, pelos efeitos de aniquilação. A geografia desta guerra era outra, as razões sempre as mesmas: impedir que o Outro fosse Outro, cada um conjugando as suas razões.
"E a nossa guerra, aquela onde os mortos eram invisíveis, mostrou o seu rosto, pelas mãos da Liberdade. Nessa altura, as fotografias dos horrores deste povo de brandos costumes invadiram-me a retina: corpos despedaçados, cabeças penduradas em paus. Aquela guerra queria dar testemunho de que a morte se pode fazer com as próprias mãos, com prazer ou com raiva, ou com tudo à mistura. Porque a guerra é uma fábrica de morte. A sua essência é o paradoxo EU-VIDA, OUTRO-MORTE.
"Foi esse paradoxo que acompanhou o nosso herói nesta guerra. As recordações escorrem-lhe destas fotografias e à mente vêm as visões malditas, enterradas, bem fundo:
- Numa busca a uma escola, fui obrigado a matar a professora. Num gesto rápido apontou-me a metralhadora. Não tive outra alternativa [a minha amiga refere-se ao que lhe contei da Operação Inquietar II: vd. meu texto, de 7 de Junho de 2005 > Guiné 69/71 - XLIX: Samba Culo II ]
"O silêncio pesou. A morte concreta, uma vontade que conjuga a morte porque quer conjugar a vida, a própria. No teatro de guerra, as cenas sucediam-se. A morte, sempre presente como ideia pairando, era uma realidade, mas aquela morte era um produto do seu disparo.
"E muitos mortos aconteceram, fruto de conjugações absurdas. Perdidos no mato, estão os espíritos dos que não queriam morrer, aos 20 anos, ou até mais novos, se pensarmos nos guerrilheiros, ou mais velhos, que importa. Fundo, nas consciências de cada um, continuam a fazer a guerra, a guerra mais difícil de vencer.
"É preciso não calar os espíritos, dar-lhes voz, ouvir as suas razões. É urgente pôr tudo no seu lugar. Fazer regressar os mortos à sua terra, num caixão selado, não dá aos mortos o seu lugar. O seu lugar é nas palavras. Escritas, sulcando o papel. É a catarse. Reproduzidas. Lidas. Regressando à consciência. É a renúncia. Derramada num livro que está em construção para que os mortos ocupem o seu devido lugar."
3. Já disse à minha amiga que me identifico completamente com a análise que ela fez. Os meus agradecimentos.
Um grande abraço para vocês do Marques Lopes.
Guiné 69/71 - LXIX: Fotomemória(s)
[O Alferes miliciano Lopes, da CCAÇ 3, em Barro, 1968, com o seu guarda-costas.© Marques Lopes]Texto de A. Marques Lopes, ex-alferes miliciano da CART 1690 (Geba, 1967) e da CCAÇ 3 (Barro, 1968):
1. Caros amigos:
Tenho-vos enchido de imagens e fotografias, porque achei que são importantes para dizer da nossa história vivida. Mas também porque sinto alguma dificuldade em pôr por escrito essa vida. Por um lado, o receio de envolver nela os seus intervenientes de uma maneira que a forte impressão em mim existente possa retratar, se calhar, não da forma mais justa; por outro lado, e influenciando ainda o aspecto anterior, a perplexidade que esses acontecimentos tão próximos ainda (nunca despegaram...) e sempre presentes continuam a provocar no meu espírito. Durante muito tempo tenho hesitado entre a narrativa histórica dos acontecimentos que me atormentam e um qualquer tipo de alegoria, ou ficção, que deles poderia tirar.
Em qualquer dos casos, nunca foi minha intenção enveredar pelo tom épico, patrioteiro, ou pelo panegírico a oragos guerreiros. Os dados já estão lançados e a minha constante vivência dos factos permite-me avaliá-los com realismo, com prospectiva e com alguma contrição. A temeridade não me falta, mas tenho também um maior grau de experiência, o que me permite escolher melhor os modos de actuação.
Mas creio, ao mesmo tempo, que a verdade é, sem dúvida, mais forte que quaisquer algemas. Não há prisão nem violência que possam banir tudo o que de verdade existe; não há perseguição que apague a evidência; não há acção presente que possa negar existência à sua causa passada.
Bem, isto é conversa. O que vos quero efectivamente dizer é que mostrei as minhas fotografias de Barro, as que vocês conhecem, a uma amiga muito chegada e lhe pedi para fazer um comentário sobre elas. Ela esteve de acordo que eu vos desse conhecimento desse comentário e é este que eu peço que leiam. Ela não quis que eu dissesse o nome dela, porque é uma pessoa muito envergonhada. Ei-lo:
2. «Não se pode possuir a realidade, mas pode possuir-se (e ser-se possuído por) imagens" (Susan Sontag).
"Fotografar é o acto pelo qual o fotógrafo capta um momento. Neste caso, o fotógrafo que faz a fotografia (porque não a tira, não é roubada, ela é antes um acto de colaboração) foi-o a pedido dos fotografados. O seu objectivo era obter um registo duma vivência única e ao mesmo tempo diversa para cada um dos elementos do grupo. A vivência de uma presença na guerra, numa terra distante, na Guiné, com aquele grupo unido por secretos laços de camaradagem.
"E porque se trata de uma relação única, aquela fotografia é um marco e também uma marca. Ela está ali a consubstanciar todos as pormenores do momento: o número de pessoas, aqueles mesmos, não outros quaisquer, aquele lugar, as sensações, os sentimentos, as emoções, o silêncio.
"Ela está ali há mais de 30 anos, testemunho vivo, porque todos os testemunhos são vivos apesar daquelas imagens petrificadas pelo tempo, mas reveladoras, prenhes de uma vivência, uma voz que se agiganta quando se folheia o álbum:
- Este era um grupo muito especial. Éramos um alferes, dois furriéis, um cabo e seis soldados. Costumávamos fazer incursões no Senegal, para, nas aldeias, roubar vacas para comer.
"Havia essa necessidade, vital como a de comer, de, no futuro, disso fazer prova à memória, por vezes traiçoeira. Mas também de possuir, em substância, aqueles momentos fugazes, de secretos laços de camaradagem. É como olhar-se no espelho e observar-se ali com os outros. Ali estou eu. Ali, naquele lugar concreto, aquela figura. Eu que não me posso ver, que só me construo por e na relação com os outros, que só me observo de dentro para fora. A fotografia é o espelho, dá-me a minha imagem com os outros, reflecte-me, constrói-me uma figura. E ao vê-la, por alastramento, eu acrescento-lhe o conteúdo, impregno-a dos sentimentos e emoções que são o lastro da minha memória.
"É esta relação dialéctica entre a fotografia e o fotografado, mais tarde observador também, que dá significado à fotografia, que a faz pulsar, mesmo que aparentemente morta, num vaivém entre um passado que foi presente e um presente que foi futuro, numa atmosfera irreal.
"E ali estão todos, na pose que idealizaram para ficarem fixados naquele presente e serem transportados ao futuro. De acordo com a hierarquia, o alferes no eixo vertical central, em posição de destaque, em pé. Em volta, descendo na hierarquia, os furriéis e, alargando-se para o eixo horizontal, mais igualitário, os soldados, formando uma pirâmide de base alargada [refere-se à fotografia em que estou com os Jagudis]. O grupo ocupa toda a fotografia. É um grande plano. O que importa para a memória do futuro, lá longe, no continente, é o grupo, a sua ligação, as suas recordações. A fotografia é assim a reificação duma relação estatificada, com aquelas pessoas, num determinado tempo (1968) num determinado local, em Barro, quase esquecida no mato, na guerra colonial, na Guiné. Ao fixar aquele momento, o fotografado, por acção do fotógrafo, quis construir um monumento que vencesse o esquecimento.
"Na sociedade de consumo, as fotografias consubstanciam a massificação dos heróis: do herói individual, de cada momento, de cada vivência única, das vivências únicas que se multiplicam e que, por serem únicas, necessitam de registo. A sua multiplicação permanente toma-as fugidias e por isso urgentes de memória. Todo o acto na vida do indivíduo se inflaccionou em rito de passagem. É o nascimento, a saída da maternidade, a 1ª mamada, o 1º banho, a 1ª papa, o 1° mês o 2°mês, do 1º dente, o 1º passeio, o 1º brinquedo, o brinquedo preferido. São tantos os momentos a registar, são tantos os marcos a assinalar! Tudo se esvai a uma velocidade impossível de estancar. A falta de tempo para agarrar o momento erige um único em monumento. Agarra-se pela fotografia. Pretende arrumar-se a memória. Quando dele necessitarmos, está à nossa disposição, arquivado no álbum para nos aclarar a memória.
"A linha de montagem da produção não o é só para a mercadoria, é também para a memória. Por todo o lado, em qualquer ocasião, por mais banal que nos pareça, a câmara lá está, pronta a produzir memória. É só carregar no botão.
"Também aquele foi único. Único para cada um dos protagonistas. A câmara imortalizou-o. O futuro seria de ausência. É a nostalgia dessa ausência o que reúne aquele grupo de homens, com ar sério, solene, numa postura de alguma descontracção física, mas de preocupação interior. Nas suas mentes perpassam imagens de separação. Os olhares estão distantes, evitam o confronto com a câmara, como que a recusar um certo mergulhar no seu interior, o desvendar do que lhes vai na alma. Ou evitam o confronto com o futuro, consigo próprios, quando observadores da fotografia. A recusa é esquiva, fugidia. No entanto, ali ficou, consubstanciada. Só dois olhares enfrentam, com frontalidade, essa incógnita.
"No limite esquerdo, uma cabeça, quase invisível, espreita. O seu corpo, bem visível, parece nem lhe pertencer, tal é a preocupação de evitar o confronto com a câmara. Aliás, toda aquela área quase parece tentar escapar-se da fotografia. Os tronco que constituem a paliçada como que se sobrepõem aos soldados, tomado-os ainda mais reduzidos. No limite direito, pelo contrário, o alferes em pé, isolado, quase que constitui uma outra unidade significante. Há uma distância física que o separa dos restantes. Não é muita. Possivelmente a câmara não lhe deu tempo de ajustar a pose. Por outro lado sente-se um certo desprendimento, algum desinteresse. Este espaço visível poderá ser o reflexo duma demarcação territorial psíquica, de um menor envolvimento.
"Um outro elemento que nos salta à vista é o facto de os únicos três brancos do grupo, o alferes e os dois furriéis, se encontrarem todos em posição de destaque, o que corresponde à realidade hierárquica. A incorporação no exército traduzia-se num rendimento muito acima da média. Os autóctones, dada a situação de guerra, tinham poucas oportunidades de trabalho, ainda por cima bem remunerado, ali tão longe da capital, nas aldeias praticamente perdidas na mata. A guerrilha, bem armada, e também com o apoio da população e até de alguns militares incorporados, conseguia um equilíbrio de forças, muitas vezes instável, que levou ao reconhecimento, por parte das chefias portuguesas, de que aquela guerra era um beco sem saída.
"Quando, em 1998, o nosso fotógrafo volta à Guiné para agarrar um pouco dessa vida perdida no mato, aos 20 anos, e também para arrumar as ideias sobre o livro que iniciou sobre a sua experiência na guerra, lá estava o mesmo chefe de tabanca, agora com 80 anos, forte como um baluarte na sua coerência, outrora apoiante da guerrilha e do PAIGC, gerindo diplomaticamente a amizade com o militar para mais facilmente jogar o xadrez da revolução, agora o ancião, o conselheiro, o sábio, de alguma forma amargurado com os trilhos perdidos após a independência.
"E este encontro foi o reviver duma relação de amizade urdida em muitos meses de comunhão de um espaço, sedimentada por uma identidade de valores que, afinal, estavam dos dois lados naquela guerra, sem sentido também para muitos daqueles que a faziam.
"Guerra que está presente em todas as fotografias. Pressentimo-la pelas fardas, a paliçada, as armas. Mas neste caso a exibição da metralhadora e do morteiro é como que uma espécie de encenação. Ela não me puxa pelo fio das minhas lembranças. O ar despreocupado dos fotografados dá-nos a ideia de que tudo é uma brincadeira e possivelmente em muitos dos momentos assim teve que ser encarada aquela situação de pressão psicológica extrema. A brincadeira com a função de descomprimir, fazer esquecer, para se aguentar a tensão dos momentos de violentação que eram os ataques, e as mortes daí decorrentes.
"Fotografias que me despoletaram a recordação de guerra, a real, não a da História ou das histórias, a guerra dos homens concretos, aquela que nós sentimos, que conhecemos, quando para isso estamos maduros. Até lá, há todo um caminho a percorrer, de muita surdez, ou falta de vista, incompreensão. Porque compreender é ligar, envolver, tomar para nós. E só quando somos capazes de pegar nessa realidade do outro, amassá-la com a nossa, deixar levedar como o pão, é que então estamos capazes de entendimento, de compreensão. Processo difícil, longo, que necessita de um grande esforço de deslocação, de descentração, sem no entanto se perder o Norte, a nossa bússola, a nossa identidade, os princípios, os valores, corporizados fundamentalmente no respeito pelo Outro.
"A conjugação do olhar directo com a fuga do olhar, as fisionomias sérias, o olhar carregado, os traços bem marcados do soldado negro, sentado, são sinais de dúvida, de incerteza. As imagens da minha infância agigantam-se. Aos meus ouvidos, o ressoar de Angola é nossa ao som abafado de botas a marchar em sintonia.
"Guerra era aquele som, misturado com mensagens de Natal na rádio e na televisão, e os navios apinhados de homens a largar o cais e muitas mãos no ar a acenar, e o filho daquela vizinha da minha avó que veio fechado num caixão, tinha eu 15 anos. Ele que nunca tinha saído da aldeia, aos 20 anos atravessou o mar, cruzou os continentes, em busca da morte, lá tão longe. Veio fechado num caixão e nunca mais ninguém o pôde ver. Essa, a ideia que me ficou da morte. Um caixão fechado, misterioso, e a repetição até ao infinito daquele marchar de botas, acompanhado de Angola é nossa.
"Na minha cabeça as ideias misturavam-se e assentavam todas naquele bocadinho de mapa, com palmeiras, umas bolas maiores e outras mais pequenas a assinalar as cidades, com mulheres negras com os filhos às costas. E o meu receio era que a guerra saltasse daquele mapa para este outro mapa onde eu estava. Guerra era ainda aquela voz que mais tarde aprendi que era do Salazar. E era só a voz a encher a rádio, que as palavras não tinham para mim sentido.
"A guerra preencheu o imaginário da minha infância. Mas a guerra só a vi, alguns anos mais tarde. Já não era a guerra da minha infância, quase invisível, de palavras sem sentido. Era a guerra de corpos calcinados, ou feitos em pedaços, de olhos secos raiados de revolta, de silêncios perfurantes como lanças. Era mais uma guerra, absurda, devastadora, única, pelos meios cada vez mais refinados, sempre igual, repetida, pelos efeitos de aniquilação. A geografia desta guerra era outra, as razões sempre as mesmas: impedir que o Outro fosse Outro, cada um conjugando as suas razões.
"E a nossa guerra, aquela onde os mortos eram invisíveis, mostrou o seu rosto, pelas mãos da Liberdade. Nessa altura, as fotografias dos horrores deste povo de brandos costumes invadiram-me a retina: corpos despedaçados, cabeças penduradas em paus. Aquela guerra queria dar testemunho de que a morte se pode fazer com as próprias mãos, com prazer ou com raiva, ou com tudo à mistura. Porque a guerra é uma fábrica de morte. A sua essência é o paradoxo EU-VIDA, OUTRO-MORTE.
"Foi esse paradoxo que acompanhou o nosso herói nesta guerra. As recordações escorrem-lhe destas fotografias e à mente vêm as visões malditas, enterradas, bem fundo:
- Numa busca a uma escola, fui obrigado a matar a professora. Num gesto rápido apontou-me a metralhadora. Não tive outra alternativa [a minha amiga refere-se ao que lhe contei da Operação Inquietar II: vd. meu texto, de 7 de Junho de 2005 > Guiné 69/71 - XLIX: Samba Culo II ]
"O silêncio pesou. A morte concreta, uma vontade que conjuga a morte porque quer conjugar a vida, a própria. No teatro de guerra, as cenas sucediam-se. A morte, sempre presente como ideia pairando, era uma realidade, mas aquela morte era um produto do seu disparo.
"E muitos mortos aconteceram, fruto de conjugações absurdas. Perdidos no mato, estão os espíritos dos que não queriam morrer, aos 20 anos, ou até mais novos, se pensarmos nos guerrilheiros, ou mais velhos, que importa. Fundo, nas consciências de cada um, continuam a fazer a guerra, a guerra mais difícil de vencer.
"É preciso não calar os espíritos, dar-lhes voz, ouvir as suas razões. É urgente pôr tudo no seu lugar. Fazer regressar os mortos à sua terra, num caixão selado, não dá aos mortos o seu lugar. O seu lugar é nas palavras. Escritas, sulcando o papel. É a catarse. Reproduzidas. Lidas. Regressando à consciência. É a renúncia. Derramada num livro que está em construção para que os mortos ocupem o seu devido lugar."
3. Já disse à minha amiga que me identifico completamente com a análise que ela fez. Os meus agradecimentos.
Um grande abraço para vocês do Marques Lopes.
20 junho 2005
Guiné 69/71 - LXVIII: Encontro do pessoal da CART 1690 (Geba, 1967/69)
Texto do A. Marques Lopes:
No dia 18 de Junho, como já vos tinha anunciado, houve um encontro dos elementos que estiveram na Guiné integrando a CART1690, de 1967 a 1969. Para já, a referência ao sítio maravilhoso onde estivemos, na zona de Sever do Vouga, no restaurante O Júnior. Na ida para lá, a floresta circundante do rio Vouga fez-nos lembrar as matas da Guiné... Saudades!
Já não estiveram muitos: fomos 40, com os familiares estavam 92 pessoas. Estiveram os furriéis Silva, Vasconcelos, Salvado, Pombeiro... os furriéis Vitor e Bicho já morreram... o furriel Rafael, que já não estava bom da bola, não foi porque está pior... o furriel Marcelo também não foi, e tem ido poucas vezes, e falámos sobre isso... o furriel Ribeiro também não foi, mas nunca tem ido, e perguntámo-nos porquê (talvez vos conte, um dia)...
O segundo-sargento Bajouco morreu-lhe a mulher... o primeiro-sargento também lhe morreu a mulher (já é a terceira que lhe morre - nenhuma o aguenta, dissemos nós...)... os cabos Costa e Sousa também já morreram... esteve o cabo Castro, DFA, também por ser passado da bola. Estiveram os alferes Reis e Moreira, que estiveram na companhia até ao fim, e os alferes Lopes e Maçarico, que foram feridos e evacuados, mas que se mantêm em contacto com a companhia... não esteve o alferes Fernandes, que ainda está na Guiné, "desaparecido em campanha", nem o alferes Peixoto, que "apareceu" na metrópole metido num saco de plástico entre quatro tábuas.
Esteve o capitão Santos Luís (agora coronel, reformado), que veio do batalhão de Bafatá para substituir durante uns tempos o capitão Guimarães quando ele morreu na estrada para Banjara (vd meu texto, de 31 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - XXXIII: A morte no caminho para Banjara) e esteve o capitão miliciano Carlos Manuel Ferreira que ficou, depois, até ao fim com a CART 1690.
Esteve o furriel Lume, que veio propositadamente da Madeira (pronunciem o "u" como deve ser, à madeirense) e que teceu elogios ao Alberto João... mas todos se riram ne mesma.
E esteve o Malan Baldé, que esteve na Companhia de Milícia 3 e foi ferido em Sinchã Jobel, em 19 de Dezembro de 1967, na operação Invisível (vd. o meu texto, de 7 de Junho de 2005 > Guiné 69/71 - XLV: Sinchã Jobel VII ). Mora em S. Domingos de Rana, perto de Carcavelos... Perguntei-lhe:
-Malan, entraste no arrastão?...
- Eu?! Eu não, eu até trabalho numa empresa de segurança! - Conhece outros que moram naquelas zonas. Um dia qualquer vou aparecer po lá. E hei-de enviar-vos uma fotgrafia que tirámos.
O meu amigo alferes Reis, agora um fundamentalista médico veterinário,que me diz sempre, quando me vê comer um belo bife de vaca, que não toca na carne das vacas há muito tempo porque são umas malucas, deu-me mais alguma fotografias de Banjara, que também vos enviarei depois.
Falámos de nós todos, falámos de tudo aquilo que vos tenho contado, falei-lhes deste blogue, e garantimos que estaríamos novamente juntos no próximo ano. E que traríamos outros que não estiveram. Pessoalmente, vou-me empenhar em trazer o furriel Ribeiro.
Vou conseguir mais coisas da CART 1690. Depois digo-vos.
Abraço. Marques Lopes
No dia 18 de Junho, como já vos tinha anunciado, houve um encontro dos elementos que estiveram na Guiné integrando a CART1690, de 1967 a 1969. Para já, a referência ao sítio maravilhoso onde estivemos, na zona de Sever do Vouga, no restaurante O Júnior. Na ida para lá, a floresta circundante do rio Vouga fez-nos lembrar as matas da Guiné... Saudades!
Já não estiveram muitos: fomos 40, com os familiares estavam 92 pessoas. Estiveram os furriéis Silva, Vasconcelos, Salvado, Pombeiro... os furriéis Vitor e Bicho já morreram... o furriel Rafael, que já não estava bom da bola, não foi porque está pior... o furriel Marcelo também não foi, e tem ido poucas vezes, e falámos sobre isso... o furriel Ribeiro também não foi, mas nunca tem ido, e perguntámo-nos porquê (talvez vos conte, um dia)...
O segundo-sargento Bajouco morreu-lhe a mulher... o primeiro-sargento também lhe morreu a mulher (já é a terceira que lhe morre - nenhuma o aguenta, dissemos nós...)... os cabos Costa e Sousa também já morreram... esteve o cabo Castro, DFA, também por ser passado da bola. Estiveram os alferes Reis e Moreira, que estiveram na companhia até ao fim, e os alferes Lopes e Maçarico, que foram feridos e evacuados, mas que se mantêm em contacto com a companhia... não esteve o alferes Fernandes, que ainda está na Guiné, "desaparecido em campanha", nem o alferes Peixoto, que "apareceu" na metrópole metido num saco de plástico entre quatro tábuas.
Esteve o capitão Santos Luís (agora coronel, reformado), que veio do batalhão de Bafatá para substituir durante uns tempos o capitão Guimarães quando ele morreu na estrada para Banjara (vd meu texto, de 31 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - XXXIII: A morte no caminho para Banjara) e esteve o capitão miliciano Carlos Manuel Ferreira que ficou, depois, até ao fim com a CART 1690.
Esteve o furriel Lume, que veio propositadamente da Madeira (pronunciem o "u" como deve ser, à madeirense) e que teceu elogios ao Alberto João... mas todos se riram ne mesma.
E esteve o Malan Baldé, que esteve na Companhia de Milícia 3 e foi ferido em Sinchã Jobel, em 19 de Dezembro de 1967, na operação Invisível (vd. o meu texto, de 7 de Junho de 2005 > Guiné 69/71 - XLV: Sinchã Jobel VII ). Mora em S. Domingos de Rana, perto de Carcavelos... Perguntei-lhe:
-Malan, entraste no arrastão?...
- Eu?! Eu não, eu até trabalho numa empresa de segurança! - Conhece outros que moram naquelas zonas. Um dia qualquer vou aparecer po lá. E hei-de enviar-vos uma fotgrafia que tirámos.
O meu amigo alferes Reis, agora um fundamentalista médico veterinário,que me diz sempre, quando me vê comer um belo bife de vaca, que não toca na carne das vacas há muito tempo porque são umas malucas, deu-me mais alguma fotografias de Banjara, que também vos enviarei depois.
Falámos de nós todos, falámos de tudo aquilo que vos tenho contado, falei-lhes deste blogue, e garantimos que estaríamos novamente juntos no próximo ano. E que traríamos outros que não estiveram. Pessoalmente, vou-me empenhar em trazer o furriel Ribeiro.
Vou conseguir mais coisas da CART 1690. Depois digo-vos.
Abraço. Marques Lopes
Guiné 69/71 - LXVIII: Encontro do pessoal da CART 1690 (Geba, 1967/69)
Texto do A. Marques Lopes:
No dia 18 de Junho, como já vos tinha anunciado, houve um encontro dos elementos que estiveram na Guiné integrando a CART1690, de 1967 a 1969. Para já, a referência ao sítio maravilhoso onde estivemos, na zona de Sever do Vouga, no restaurante O Júnior. Na ida para lá, a floresta circundante do rio Vouga fez-nos lembrar as matas da Guiné... Saudades!
Já não estiveram muitos: fomos 40, com os familiares estavam 92 pessoas. Estiveram os furriéis Silva, Vasconcelos, Salvado, Pombeiro... os furriéis Vitor e Bicho já morreram... o furriel Rafael, que já não estava bom da bola, não foi porque está pior... o furriel Marcelo também não foi, e tem ido poucas vezes, e falámos sobre isso... o furriel Ribeiro também não foi, mas nunca tem ido, e perguntámo-nos porquê (talvez vos conte, um dia)...
O segundo-sargento Bajouco morreu-lhe a mulher... o primeiro-sargento também lhe morreu a mulher (já é a terceira que lhe morre - nenhuma o aguenta, dissemos nós...)... os cabos Costa e Sousa também já morreram... esteve o cabo Castro, DFA, também por ser passado da bola. Estiveram os alferes Reis e Moreira, que estiveram na companhia até ao fim, e os alferes Lopes e Maçarico, que foram feridos e evacuados, mas que se mantêm em contacto com a companhia... não esteve o alferes Fernandes, que ainda está na Guiné, "desaparecido em campanha", nem o alferes Peixoto, que "apareceu" na metrópole metido num saco de plástico entre quatro tábuas.
Esteve o capitão Santos Luís (agora coronel, reformado), que veio do batalhão de Bafatá para substituir durante uns tempos o capitão Guimarães quando ele morreu na estrada para Banjara (vd meu texto, de 31 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - XXXIII: A morte no caminho para Banjara) e esteve o capitão miliciano Carlos Manuel Ferreira que ficou, depois, até ao fim com a CART 1690.
Esteve o furriel Lume, que veio propositadamente da Madeira (pronunciem o "u" como deve ser, à madeirense) e que teceu elogios ao Alberto João... mas todos se riram ne mesma.
E esteve o Malan Baldé, que esteve na Companhia de Milícia 3 e foi ferido em Sinchã Jobel, em 19 de Dezembro de 1967, na operação Invisível (vd. o meu texto, de 7 de Junho de 2005 > Guiné 69/71 - XLV: Sinchã Jobel VII ). Mora em S. Domingos de Rana, perto de Carcavelos... Perguntei-lhe:
-Malan, entraste no arrastão?...
- Eu?! Eu não, eu até trabalho numa empresa de segurança! - Conhece outros que moram naquelas zonas. Um dia qualquer vou aparecer po lá. E hei-de enviar-vos uma fotgrafia que tirámos.
O meu amigo alferes Reis, agora um fundamentalista médico veterinário,que me diz sempre, quando me vê comer um belo bife de vaca, que não toca na carne das vacas há muito tempo porque são umas malucas, deu-me mais alguma fotografias de Banjara, que também vos enviarei depois.
Falámos de nós todos, falámos de tudo aquilo que vos tenho contado, falei-lhes deste blogue, e garantimos que estaríamos novamente juntos no próximo ano. E que traríamos outros que não estiveram. Pessoalmente, vou-me empenhar em trazer o furriel Ribeiro.
Vou conseguir mais coisas da CART 1690. Depois digo-vos.
Abraço. Marques Lopes
No dia 18 de Junho, como já vos tinha anunciado, houve um encontro dos elementos que estiveram na Guiné integrando a CART1690, de 1967 a 1969. Para já, a referência ao sítio maravilhoso onde estivemos, na zona de Sever do Vouga, no restaurante O Júnior. Na ida para lá, a floresta circundante do rio Vouga fez-nos lembrar as matas da Guiné... Saudades!
Já não estiveram muitos: fomos 40, com os familiares estavam 92 pessoas. Estiveram os furriéis Silva, Vasconcelos, Salvado, Pombeiro... os furriéis Vitor e Bicho já morreram... o furriel Rafael, que já não estava bom da bola, não foi porque está pior... o furriel Marcelo também não foi, e tem ido poucas vezes, e falámos sobre isso... o furriel Ribeiro também não foi, mas nunca tem ido, e perguntámo-nos porquê (talvez vos conte, um dia)...
O segundo-sargento Bajouco morreu-lhe a mulher... o primeiro-sargento também lhe morreu a mulher (já é a terceira que lhe morre - nenhuma o aguenta, dissemos nós...)... os cabos Costa e Sousa também já morreram... esteve o cabo Castro, DFA, também por ser passado da bola. Estiveram os alferes Reis e Moreira, que estiveram na companhia até ao fim, e os alferes Lopes e Maçarico, que foram feridos e evacuados, mas que se mantêm em contacto com a companhia... não esteve o alferes Fernandes, que ainda está na Guiné, "desaparecido em campanha", nem o alferes Peixoto, que "apareceu" na metrópole metido num saco de plástico entre quatro tábuas.
Esteve o capitão Santos Luís (agora coronel, reformado), que veio do batalhão de Bafatá para substituir durante uns tempos o capitão Guimarães quando ele morreu na estrada para Banjara (vd meu texto, de 31 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - XXXIII: A morte no caminho para Banjara) e esteve o capitão miliciano Carlos Manuel Ferreira que ficou, depois, até ao fim com a CART 1690.
Esteve o furriel Lume, que veio propositadamente da Madeira (pronunciem o "u" como deve ser, à madeirense) e que teceu elogios ao Alberto João... mas todos se riram ne mesma.
E esteve o Malan Baldé, que esteve na Companhia de Milícia 3 e foi ferido em Sinchã Jobel, em 19 de Dezembro de 1967, na operação Invisível (vd. o meu texto, de 7 de Junho de 2005 > Guiné 69/71 - XLV: Sinchã Jobel VII ). Mora em S. Domingos de Rana, perto de Carcavelos... Perguntei-lhe:
-Malan, entraste no arrastão?...
- Eu?! Eu não, eu até trabalho numa empresa de segurança! - Conhece outros que moram naquelas zonas. Um dia qualquer vou aparecer po lá. E hei-de enviar-vos uma fotgrafia que tirámos.
O meu amigo alferes Reis, agora um fundamentalista médico veterinário,que me diz sempre, quando me vê comer um belo bife de vaca, que não toca na carne das vacas há muito tempo porque são umas malucas, deu-me mais alguma fotografias de Banjara, que também vos enviarei depois.
Falámos de nós todos, falámos de tudo aquilo que vos tenho contado, falei-lhes deste blogue, e garantimos que estaríamos novamente juntos no próximo ano. E que traríamos outros que não estiveram. Pessoalmente, vou-me empenhar em trazer o furriel Ribeiro.
Vou conseguir mais coisas da CART 1690. Depois digo-vos.
Abraço. Marques Lopes
Guiné 69/71 - LXVII: A vida dos prisioneiros portugueses em Conacri
Texto do A. Marques Lopes:
Amigos e camaradas: Sobre a fotografia de prisioneiros a jogar à bola em Conacri [ver texto de Luís Graça > Guiné 69/71 - LXIV: Tão (ini)(a)migos que nós fomos! , com data de ontem] , é natural que algum seja da CART 1690, pois eram os que estavam lá em maior número. No entanto, é difícil distingui-los nessa fotografia.
Para saberem o que foi a vida deles em cativeiro leiam o livro Memórias de Um Prisioneiro de Guerra, publicado pela editora Campo das Letras, Porto, em Outubro de 2003 (é o número 9 da colecção Campo da Memória). O seu autor é o ex-alferes miliciano António Júlio Rosa (agora professor de Educação Física), que foi aprisionado pelo PAIGC na zona de Tite, no dia 1 de Fevereiro de 1968.
Lá esteve até ao dia da libertação, na sequência da Op Mar Verde. É um relato simples, sem literatura. Vale a pena ler, sobretudo nós que compreendemos tudo aquilo.
Abraços. Marques Lopes
Post scriptum - Sobre os motivos que o levaram a escrever o livro, diz o autor: "
"Os motivos que me levaram a escrever este livro foram, acima de tudo, transmitir as experiências e os factos vividos durante a minha juventude e, em particular, o sofrimento duma guerra colonial de má memória.
"É um livro que escrevo a partir do que a memória guardou para dá-lo a conhecer aos meus contemporâneos e vindouros. Foram momentos notoriamente difíceis que, muitas vezes, revivo quando encontro velhos amigos, ou me encontro só, ou mesmo antes de adormecer.
"Os factos que vou apresentar reportam-se ao período compreendido entre Janeiro de 1967 e o final de Dezembro de 1970 [Guiné-Bissau e Guiné Conakry]. António Júlio Rosa".
Amigos e camaradas: Sobre a fotografia de prisioneiros a jogar à bola em Conacri [ver texto de Luís Graça > Guiné 69/71 - LXIV: Tão (ini)(a)migos que nós fomos! , com data de ontem] , é natural que algum seja da CART 1690, pois eram os que estavam lá em maior número. No entanto, é difícil distingui-los nessa fotografia.
Para saberem o que foi a vida deles em cativeiro leiam o livro Memórias de Um Prisioneiro de Guerra, publicado pela editora Campo das Letras, Porto, em Outubro de 2003 (é o número 9 da colecção Campo da Memória). O seu autor é o ex-alferes miliciano António Júlio Rosa (agora professor de Educação Física), que foi aprisionado pelo PAIGC na zona de Tite, no dia 1 de Fevereiro de 1968.
Lá esteve até ao dia da libertação, na sequência da Op Mar Verde. É um relato simples, sem literatura. Vale a pena ler, sobretudo nós que compreendemos tudo aquilo.
Abraços. Marques Lopes
Post scriptum - Sobre os motivos que o levaram a escrever o livro, diz o autor: "
"Os motivos que me levaram a escrever este livro foram, acima de tudo, transmitir as experiências e os factos vividos durante a minha juventude e, em particular, o sofrimento duma guerra colonial de má memória.
"É um livro que escrevo a partir do que a memória guardou para dá-lo a conhecer aos meus contemporâneos e vindouros. Foram momentos notoriamente difíceis que, muitas vezes, revivo quando encontro velhos amigos, ou me encontro só, ou mesmo antes de adormecer.
"Os factos que vou apresentar reportam-se ao período compreendido entre Janeiro de 1967 e o final de Dezembro de 1970 [Guiné-Bissau e Guiné Conakry]. António Júlio Rosa".
Guiné 69/71 - LXVII: A vida dos prisioneiros portugueses em Conacri
Texto do A. Marques Lopes:
Amigos e camaradas: Sobre a fotografia de prisioneiros a jogar à bola em Conacri [ver texto de Luís Graça > Guiné 69/71 - LXIV: Tão (ini)(a)migos que nós fomos! , com data de ontem] , é natural que algum seja da CART 1690, pois eram os que estavam lá em maior número. No entanto, é difícil distingui-los nessa fotografia.
Para saberem o que foi a vida deles em cativeiro leiam o livro Memórias de Um Prisioneiro de Guerra, publicado pela editora Campo das Letras, Porto, em Outubro de 2003 (é o número 9 da colecção Campo da Memória). O seu autor é o ex-alferes miliciano António Júlio Rosa (agora professor de Educação Física), que foi aprisionado pelo PAIGC na zona de Tite, no dia 1 de Fevereiro de 1968.
Lá esteve até ao dia da libertação, na sequência da Op Mar Verde. É um relato simples, sem literatura. Vale a pena ler, sobretudo nós que compreendemos tudo aquilo.
Abraços. Marques Lopes
Post scriptum - Sobre os motivos que o levaram a escrever o livro, diz o autor: "
"Os motivos que me levaram a escrever este livro foram, acima de tudo, transmitir as experiências e os factos vividos durante a minha juventude e, em particular, o sofrimento duma guerra colonial de má memória.
"É um livro que escrevo a partir do que a memória guardou para dá-lo a conhecer aos meus contemporâneos e vindouros. Foram momentos notoriamente difíceis que, muitas vezes, revivo quando encontro velhos amigos, ou me encontro só, ou mesmo antes de adormecer.
"Os factos que vou apresentar reportam-se ao período compreendido entre Janeiro de 1967 e o final de Dezembro de 1970 [Guiné-Bissau e Guiné Conakry]. António Júlio Rosa".
Amigos e camaradas: Sobre a fotografia de prisioneiros a jogar à bola em Conacri [ver texto de Luís Graça > Guiné 69/71 - LXIV: Tão (ini)(a)migos que nós fomos! , com data de ontem] , é natural que algum seja da CART 1690, pois eram os que estavam lá em maior número. No entanto, é difícil distingui-los nessa fotografia.
Para saberem o que foi a vida deles em cativeiro leiam o livro Memórias de Um Prisioneiro de Guerra, publicado pela editora Campo das Letras, Porto, em Outubro de 2003 (é o número 9 da colecção Campo da Memória). O seu autor é o ex-alferes miliciano António Júlio Rosa (agora professor de Educação Física), que foi aprisionado pelo PAIGC na zona de Tite, no dia 1 de Fevereiro de 1968.
Lá esteve até ao dia da libertação, na sequência da Op Mar Verde. É um relato simples, sem literatura. Vale a pena ler, sobretudo nós que compreendemos tudo aquilo.
Abraços. Marques Lopes
Post scriptum - Sobre os motivos que o levaram a escrever o livro, diz o autor: "
"Os motivos que me levaram a escrever este livro foram, acima de tudo, transmitir as experiências e os factos vividos durante a minha juventude e, em particular, o sofrimento duma guerra colonial de má memória.
"É um livro que escrevo a partir do que a memória guardou para dá-lo a conhecer aos meus contemporâneos e vindouros. Foram momentos notoriamente difíceis que, muitas vezes, revivo quando encontro velhos amigos, ou me encontro só, ou mesmo antes de adormecer.
"Os factos que vou apresentar reportam-se ao período compreendido entre Janeiro de 1967 e o final de Dezembro de 1970 [Guiné-Bissau e Guiné Conakry]. António Júlio Rosa".
Guiné 69/71 - LXVI: Vasculhando os meus papéis
Mensagem do A. Marques Lopes, ex-alferes miliciano da CART 1690 (Geba, 1967) e da CCAÇ 3 (Barro, 198):
Caros amigos:
Vasculhando os meus apontamentos, tirados sempre que me foi possível, tenho que:
1. Entre 24 de Dezembro de 1971 e 28 de Março de 1974, esteve em Barro a CCAÇ 3519 (a CCAÇ 3 já estava em Binta), da qual faziam parte: (i) o capitão miliciano Rui Fradique Ribeiro Rodrigues de Almeida, de Leiria; (ii) o furriel miliciano Alberto Sá Moreira, de Ermesinde; e (iii) o alferes miliciano José da Rocha Teixeira, de Castelo de Paiva.
2 - Em 26 de Outubro de 1971 houve um ataque a Cantacunda, tendo o IN ultrapassado a primeira fileira de arame farpado (já estava melhor pelos vistos...); tropa de Geba (não sei qual era a companhia) foi em auxílio e sofreu uma emboscada no caminho, com feridos; no dia seguinte, a 27 de Outubro, uma força de Bafatá, composta pelo EREC 2640 e elementos do BART2920, saíu para ajudar e foi também emboscada na estrada para Cantacunda, tendo sofrido 7 mortos e 14 feridos, entre eles o soldado Manuel de Oliveira Figueiras, de Barcelos.
Se alguém conhecer [ex-combatentes destas unidaes], ou tiver hipóteses de os contactar , seria óptimo, pois muita coisa terão também de contar.
Um abraço. Marques Lopes
Caros amigos:
Vasculhando os meus apontamentos, tirados sempre que me foi possível, tenho que:
1. Entre 24 de Dezembro de 1971 e 28 de Março de 1974, esteve em Barro a CCAÇ 3519 (a CCAÇ 3 já estava em Binta), da qual faziam parte: (i) o capitão miliciano Rui Fradique Ribeiro Rodrigues de Almeida, de Leiria; (ii) o furriel miliciano Alberto Sá Moreira, de Ermesinde; e (iii) o alferes miliciano José da Rocha Teixeira, de Castelo de Paiva.
2 - Em 26 de Outubro de 1971 houve um ataque a Cantacunda, tendo o IN ultrapassado a primeira fileira de arame farpado (já estava melhor pelos vistos...); tropa de Geba (não sei qual era a companhia) foi em auxílio e sofreu uma emboscada no caminho, com feridos; no dia seguinte, a 27 de Outubro, uma força de Bafatá, composta pelo EREC 2640 e elementos do BART2920, saíu para ajudar e foi também emboscada na estrada para Cantacunda, tendo sofrido 7 mortos e 14 feridos, entre eles o soldado Manuel de Oliveira Figueiras, de Barcelos.
Se alguém conhecer [ex-combatentes destas unidaes], ou tiver hipóteses de os contactar , seria óptimo, pois muita coisa terão também de contar.
Um abraço. Marques Lopes
Guiné 69/71 - LXVI: Vasculhando os meus papéis
Mensagem do A. Marques Lopes, ex-alferes miliciano da CART 1690 (Geba, 1967) e da CCAÇ 3 (Barro, 198):
Caros amigos:
Vasculhando os meus apontamentos, tirados sempre que me foi possível, tenho que:
1. Entre 24 de Dezembro de 1971 e 28 de Março de 1974, esteve em Barro a CCAÇ 3519 (a CCAÇ 3 já estava em Binta), da qual faziam parte: (i) o capitão miliciano Rui Fradique Ribeiro Rodrigues de Almeida, de Leiria; (ii) o furriel miliciano Alberto Sá Moreira, de Ermesinde; e (iii) o alferes miliciano José da Rocha Teixeira, de Castelo de Paiva.
2 - Em 26 de Outubro de 1971 houve um ataque a Cantacunda, tendo o IN ultrapassado a primeira fileira de arame farpado (já estava melhor pelos vistos...); tropa de Geba (não sei qual era a companhia) foi em auxílio e sofreu uma emboscada no caminho, com feridos; no dia seguinte, a 27 de Outubro, uma força de Bafatá, composta pelo EREC 2640 e elementos do BART2920, saíu para ajudar e foi também emboscada na estrada para Cantacunda, tendo sofrido 7 mortos e 14 feridos, entre eles o soldado Manuel de Oliveira Figueiras, de Barcelos.
Se alguém conhecer [ex-combatentes destas unidaes], ou tiver hipóteses de os contactar , seria óptimo, pois muita coisa terão também de contar.
Um abraço. Marques Lopes
Caros amigos:
Vasculhando os meus apontamentos, tirados sempre que me foi possível, tenho que:
1. Entre 24 de Dezembro de 1971 e 28 de Março de 1974, esteve em Barro a CCAÇ 3519 (a CCAÇ 3 já estava em Binta), da qual faziam parte: (i) o capitão miliciano Rui Fradique Ribeiro Rodrigues de Almeida, de Leiria; (ii) o furriel miliciano Alberto Sá Moreira, de Ermesinde; e (iii) o alferes miliciano José da Rocha Teixeira, de Castelo de Paiva.
2 - Em 26 de Outubro de 1971 houve um ataque a Cantacunda, tendo o IN ultrapassado a primeira fileira de arame farpado (já estava melhor pelos vistos...); tropa de Geba (não sei qual era a companhia) foi em auxílio e sofreu uma emboscada no caminho, com feridos; no dia seguinte, a 27 de Outubro, uma força de Bafatá, composta pelo EREC 2640 e elementos do BART2920, saíu para ajudar e foi também emboscada na estrada para Cantacunda, tendo sofrido 7 mortos e 14 feridos, entre eles o soldado Manuel de Oliveira Figueiras, de Barcelos.
Se alguém conhecer [ex-combatentes destas unidaes], ou tiver hipóteses de os contactar , seria óptimo, pois muita coisa terão também de contar.
Um abraço. Marques Lopes
19 junho 2005
Guiné 69/71 - LXV: Os momentos do fim (Junho de 1974)...
O Américo Marques, de Viana do Castelo, mandou-nos uma mensagem, tocante, sobre os "momentos do fim", quando a partir de Junho de 1974 os guerrilheiros do PAIGC começaram a aparecer no destacamento de Cansissé, oferecendo a paz... Não foi fácil para a população local (fulas e mandingas) e para alguns soldados como o Américo Marques. De repente, os inimigos de ontem, os turras, passavam a ser os amigos e até os irmãos de hoje.
Imagino que deve ter sido um momento muito difícil, daqueles em que a gente fica com um nó apertado na garganta… Vou publicar esta nota, no nosso blogue, mais as fotos, na esperança de que o Américo um dia destes arranje fôlego, coragem e inspiração para dar um testemunho mais extenso e profundo sobre o momento do hastear da bandeira da nova Guiné-Bissau a que ele assistiu… Enfim, se ele achar que vale a pena… Eu pessoalmente acho que vale a pena. O Américo, que regressou a Portugal em Stemebro de 1974, estava no sítio certo, no momento certo, para a nos dar conta do fim do império...
"Eu sou dos últimos guerreiros do Império. Meio guerreiro, pois não acabei a Comissão e ainda participei na troca de bandeiras. A minha ignorância e o meu patriotismo fizeram-me sentir uma tristeza... ainda mais triste.
"Era Transmissões de Infantaria, Formado no BC 5, Campolide [ Lisboa ]. Formei Batalhão em RAL 5, Penafiel. Embarquei no N/M Niassa em Junho de 1973, na companhia de um BCAÇ de Tomar, mais duas Companhias recebidas no Funchal. Pertenci à 3ª CART do BART 6523, aquartelado em Nova Lamego.
"Estive os 17 meses em Cansissé: um destacamento (com 25 soldados) que estava à distância de 1 hora, a pé (claro), da margem direita do Rio Corubal. Quem fosse de Bafatá para Nova Lamego, virava à direita por uma picada, situada mais ou menos a meio do trajecto.
"Sou de Viana do Castelo e amigão do Sousa Castro e do Luis Carvalhido que me recebeu no Xime, em trânsito para Nova Lamego [Gabu]. Era eu um coitado dum periquito; e o Luís não me ofereceu uma bazuca, levou-me a ver um buracão feito por uma. Perdi logo a sede. Espero que as fotos sejam mais um tijolo... para construir a historia das Dores e Agonias que estão aqui e agora. Sendo ao mesmos tempo Pedaços de Vida, que se me ofereceu (como se fossem mais uns Castelos) aquela Bandeira; muito amada e que aquece mais que mil vulcões. Um Alfa Bravo".
Imagino que deve ter sido um momento muito difícil, daqueles em que a gente fica com um nó apertado na garganta… Vou publicar esta nota, no nosso blogue, mais as fotos, na esperança de que o Américo um dia destes arranje fôlego, coragem e inspiração para dar um testemunho mais extenso e profundo sobre o momento do hastear da bandeira da nova Guiné-Bissau a que ele assistiu… Enfim, se ele achar que vale a pena… Eu pessoalmente acho que vale a pena. O Américo, que regressou a Portugal em Stemebro de 1974, estava no sítio certo, no momento certo, para a nos dar conta do fim do império...
"Eu sou dos últimos guerreiros do Império. Meio guerreiro, pois não acabei a Comissão e ainda participei na troca de bandeiras. A minha ignorância e o meu patriotismo fizeram-me sentir uma tristeza... ainda mais triste.
"Era Transmissões de Infantaria, Formado no BC 5, Campolide [ Lisboa ]. Formei Batalhão em RAL 5, Penafiel. Embarquei no N/M Niassa em Junho de 1973, na companhia de um BCAÇ de Tomar, mais duas Companhias recebidas no Funchal. Pertenci à 3ª CART do BART 6523, aquartelado em Nova Lamego.
"Estive os 17 meses em Cansissé: um destacamento (com 25 soldados) que estava à distância de 1 hora, a pé (claro), da margem direita do Rio Corubal. Quem fosse de Bafatá para Nova Lamego, virava à direita por uma picada, situada mais ou menos a meio do trajecto.
"Sou de Viana do Castelo e amigão do Sousa Castro e do Luis Carvalhido que me recebeu no Xime, em trânsito para Nova Lamego [Gabu]. Era eu um coitado dum periquito; e o Luís não me ofereceu uma bazuca, levou-me a ver um buracão feito por uma. Perdi logo a sede. Espero que as fotos sejam mais um tijolo... para construir a historia das Dores e Agonias que estão aqui e agora. Sendo ao mesmos tempo Pedaços de Vida, que se me ofereceu (como se fossem mais uns Castelos) aquela Bandeira; muito amada e que aquece mais que mil vulcões. Um Alfa Bravo".
Guiné 69/71 - LXV: Os momentos do fim (Junho de 1974)...
O Américo Marques, de Viana do Castelo, mandou-nos uma mensagem, tocante, sobre os "momentos do fim", quando a partir de Junho de 1974 os guerrilheiros do PAIGC começaram a aparecer no destacamento de Cansissé, oferecendo a paz... Não foi fácil para a população local (fulas e mandingas) e para alguns soldados como o Américo Marques. De repente, os inimigos de ontem, os turras, passavam a ser os amigos e até os irmãos de hoje.
Imagino que deve ter sido um momento muito difícil, daqueles em que a gente fica com um nó apertado na garganta… Vou publicar esta nota, no nosso blogue, mais as fotos, na esperança de que o Américo um dia destes arranje fôlego, coragem e inspiração para dar um testemunho mais extenso e profundo sobre o momento do hastear da bandeira da nova Guiné-Bissau a que ele assistiu… Enfim, se ele achar que vale a pena… Eu pessoalmente acho que vale a pena. O Américo, que regressou a Portugal em Stemebro de 1974, estava no sítio certo, no momento certo, para a nos dar conta do fim do império...
"Eu sou dos últimos guerreiros do Império. Meio guerreiro, pois não acabei a Comissão e ainda participei na troca de bandeiras. A minha ignorância e o meu patriotismo fizeram-me sentir uma tristeza... ainda mais triste.
"Era Transmissões de Infantaria, Formado no BC 5, Campolide [ Lisboa ]. Formei Batalhão em RAL 5, Penafiel. Embarquei no N/M Niassa em Junho de 1973, na companhia de um BCAÇ de Tomar, mais duas Companhias recebidas no Funchal. Pertenci à 3ª CART do BART 6523, aquartelado em Nova Lamego.
"Estive os 17 meses em Cansissé: um destacamento (com 25 soldados) que estava à distância de 1 hora, a pé (claro), da margem direita do Rio Corubal. Quem fosse de Bafatá para Nova Lamego, virava à direita por uma picada, situada mais ou menos a meio do trajecto.
"Sou de Viana do Castelo e amigão do Sousa Castro e do Luis Carvalhido que me recebeu no Xime, em trânsito para Nova Lamego [Gabu]. Era eu um coitado dum periquito; e o Luís não me ofereceu uma bazuca, levou-me a ver um buracão feito por uma. Perdi logo a sede. Espero que as fotos sejam mais um tijolo... para construir a historia das Dores e Agonias que estão aqui e agora. Sendo ao mesmos tempo Pedaços de Vida, que se me ofereceu (como se fossem mais uns Castelos) aquela Bandeira; muito amada e que aquece mais que mil vulcões. Um Alfa Bravo".
Imagino que deve ter sido um momento muito difícil, daqueles em que a gente fica com um nó apertado na garganta… Vou publicar esta nota, no nosso blogue, mais as fotos, na esperança de que o Américo um dia destes arranje fôlego, coragem e inspiração para dar um testemunho mais extenso e profundo sobre o momento do hastear da bandeira da nova Guiné-Bissau a que ele assistiu… Enfim, se ele achar que vale a pena… Eu pessoalmente acho que vale a pena. O Américo, que regressou a Portugal em Stemebro de 1974, estava no sítio certo, no momento certo, para a nos dar conta do fim do império...
"Eu sou dos últimos guerreiros do Império. Meio guerreiro, pois não acabei a Comissão e ainda participei na troca de bandeiras. A minha ignorância e o meu patriotismo fizeram-me sentir uma tristeza... ainda mais triste.
"Era Transmissões de Infantaria, Formado no BC 5, Campolide [ Lisboa ]. Formei Batalhão em RAL 5, Penafiel. Embarquei no N/M Niassa em Junho de 1973, na companhia de um BCAÇ de Tomar, mais duas Companhias recebidas no Funchal. Pertenci à 3ª CART do BART 6523, aquartelado em Nova Lamego.
"Estive os 17 meses em Cansissé: um destacamento (com 25 soldados) que estava à distância de 1 hora, a pé (claro), da margem direita do Rio Corubal. Quem fosse de Bafatá para Nova Lamego, virava à direita por uma picada, situada mais ou menos a meio do trajecto.
"Sou de Viana do Castelo e amigão do Sousa Castro e do Luis Carvalhido que me recebeu no Xime, em trânsito para Nova Lamego [Gabu]. Era eu um coitado dum periquito; e o Luís não me ofereceu uma bazuca, levou-me a ver um buracão feito por uma. Perdi logo a sede. Espero que as fotos sejam mais um tijolo... para construir a historia das Dores e Agonias que estão aqui e agora. Sendo ao mesmos tempo Pedaços de Vida, que se me ofereceu (como se fossem mais uns Castelos) aquela Bandeira; muito amada e que aquece mais que mil vulcões. Um Alfa Bravo".
Guiné 69/71 - LXIV: Tão (ini)(a)migos que nós fomos! A propósito do álbum fotográfico pessoal de Amílcar Cabral
1. O sítio da Fundação Mário Soares merece uma visita demorada. Mais: deve ser acrescentado à nossa lista de favoritos. Por muitas razões, e muito em especial pela qualidade e originalidade da documentação que disponibiliza, de interesse histórico e cultural.
De as entre as várias iniciativas desta Fundação que são de destacar, temos o Arquivo & Biblioteca.
O Arquivo & Biblioteca da Fundação Mário Soares disponibiliza, por exemplo, para visualização (não dá para fazer download), mais de um milhar de fotos do arquivo pessoal de Amilcar Cabral. Segundo a explicação que é dada, "em 1999, a Fundação Mário Soares, com a colaboração da Dra. Iva Cabral, procedeu à recolha de centenas de fotografias respeitantes a Amílcar Cabral e à luta de libertação nacional que se encontravam em iminente perigo de destruição". Muitas delas eram inéditas.
É grato registar que "todo esse importante espólio fotográfico foi objecto de tratamento e reprodução fotográfica e digital", tendo sido a partir de Janeiro de 2003, "gradualmente disponibilizado na Internet, ao mesmo tempo que se prossegue à sua descrição e classificação".
As fotos estão organizadas por conjuntos de 10, num total de 119. Não se perecebe, no entanto, qual foi o critério de ordenação. Aparentemente, não há nenhuma ordem lógica ou cronológica na organização do álbum. A pesquisa, no entanto, pode ser feita por temas ou palava-chave.
Infelizmente, muitas vezes não é indicado o local (nem a data) onde foram tiradas muitas das fotos, nas zonas libertadas ou nas frentes de combate... Presumo que uma boa parte tenham sido tiradas em bases mais recuadas e mais seguras do PAIGC: Ziguinchor, por exemplo (51/119). Tenho dificuldade em reconhecer os sítios por onde passei, de 1969 a 1971, com os meus camaradas da CCAÇ 12: por exemplo, a região do Xime e do Xitole que o PAIGC considerava como "zona libertada".
Há fotos de Cacine, em reuniões do PAIGC com a população (45/119). Há fotos de Cheche e do Rio Cheche (96/119), e até de um cemitério em Cheche (87/119). Mas em muitos casos a legenda limita-se apenas a indicar que a foto foi tirada no "interior da Guiné".
Há, por exemplo, uma foto do hastear da bandeira do PAIGC, com um poster do Amílcar Cabral, em Guileje (30/119). Essa foto só pode ser posterior ao abandono do aquartelamento pelas NT em 1973. Há também uma que parece ser de Gandembel, a crer na legenda que o fotógrafo terá escrito no verso do original (59/119).
Há outra, com elementos mais explícitos, que tem como legenda: "Quartel português da Companhia de Caçadores 3477, ocupado pelas forças do PAIGC; distinguindo-se além das insígnias da Companhia, uma imagem religiosa" (parece ser a imagem de Nossa de Senhora de Fátima, de pé, no parapeito de uma janela) (58/119).
Há muitas fotos de Cabral com dirigentes e combatentes do PAIGC (por exemplo, 50/119), ou de dirigentes, sozinhos ou em grupo. Dos operacionais, destaco a título exemplificativo os nomes de: Nino Vieira (10/119; 81/119), Kecuta Mané (8/119), André Gomes (10/119), Umaru Djaló (2/119), Malan Sanhá (3/119), Francisco Mendes (25/119), Otto Schacht (4/119 e 7/119), Arafan Mané (49/119), Quemo Mané (72/119).
Honório Chantre aparece numa foto mais recente (1974), tal como Manuel dos Santos (Manecas), confraternizando com tropas portuguesas já depois do 25 de Abril de 1974 (77/119) Há também retratos de Manecas em 1973 e 1970 (77/119). E ainda em 1972 (67/119).
Nas outras fotos (34/119) aparecem prisioneiros portugueses "a conviver" com guerrilheiros, disputando uma partida de futebol (34/119). Há retratos de militares portugueses, prisioneiros ou desertores (44/119). Ou ainda de militares portugueses a serem entregues à Cruz Vermelha, no Senegal (61/119).
Numa dessas fotos, por exemplo, vê-se um grupo de cinco prisioneiros portugueses, a jogar futebol, descalços,em Conacri, num espaço murado (18/119).
Pergunto ao Marques Lopes se não serão alguns dos nossos 11 camaradas da CART 1690 (Geba), que desapareceram na noite de 10 para 11 de Abril de 1968, no ataque e assalto do IN ao destacamento de Catacunda ?
Há também fotos de aeronaves portuguessas destruídas (49/119) ou de veículos apreendidos: Por exemplo, um veículo blindado do Batalhão de Cavalaria 311 ("Os Pipas") (17/119) e, mais à frente, de um jipe do mesmo batalhão (103/119) e uma Fox 3115 (MG-34-69); uma Berliet destruída por uma mina (MG-61-01) (35/119); uma vitura abandonada numa picada (64/119); armamento capturado (36/119). Há uma ou outra foto de aquartelamentos portugês. Há uma, por exemplo, que é referida como "quartel português destruído" (48/119) ou "saqueado" (103/119). Nunca é referido o tempo e o lugar (68/119).
Já agora seria interessante saber se alguém conheceu este azarado Batalhão de Cavalaria 311, "Os Pipas", onde esteve e em que época...
Há muitas fotos de grupos de combatentes, empunhando armas, em desfile, em acções de formação e treino (33/119; 38/119), em marcha ou coluna (39/1119; 40/119; 55/119), a pôr ou a levantar minas (32/119; 41/119), cambando um rio (26/119)ou cozinhando no mato (72/119) mas muito poucas tiradas debaixo de fogo, ou em popsição de combate, as verdadeiras "fotos de guerra" (56/119; 68/119; 91/119; 92/119).
O papel das mulheres na luta de libertação, como enfermeiras, professoras, carregadoras de material, milícias, etc., também está bem documentado (27/119; 75/119), bem como a relação da guerrilha com a população (93/119; 98/119).
É claro que também há fotos de "informação e propaganda", destinadas a consumo interno e externo, e nomeadamente dos países amigos do PAIGC (ex-União Soviética, República Popular da China, Cuba, Argélia, Suécia...)e para a opinião pública internacional.
Muitas das fotos são do início da luta armada: por exemplo, tomada da Ilha do Komo (52/119) ou congresso de Cassacá (50/119). Grande parte das fotos de Cabral estão relacionadas com a sua actividade política internacional e diplomática. Por exemplo, Amílcar Cabral com Fidel Castro (76/119), ou com dirigentes de outros movimentos de libertação (Angola, Moçambique).
Mas há também bastantes imagens da actividade do líder histórico do PAIGC, em visita ao interior da Guiné ou nas bases do PAIGC: por exemplo, com Nino Vieira e Constantino Teixeira (105/119). Uma das mais emblemáticas e mais conhecidas é a do líder do PAIGC atravessando um rio, de canoa, de pé, juntamente com Constantinto Teixeira, outros guerrilheiros e uma mulher (104/119).
2. Em resumo, peço aos amigos e camaradas da Guiné para visitarem, com tempo e vagar, esta pagína da Fundação, e verem com mais atenção e detalhe este ábum de fotografias que pertenciam ao arquivo pessoal do grande dirigente político Amílcar Cabral, de quem é bom lembrar que sempre disse que não combatia contra o povo português mas sim contra o regime político de António Salazar e de Marcelo Caetano.
De as entre as várias iniciativas desta Fundação que são de destacar, temos o Arquivo & Biblioteca.
O Arquivo & Biblioteca da Fundação Mário Soares disponibiliza, por exemplo, para visualização (não dá para fazer download), mais de um milhar de fotos do arquivo pessoal de Amilcar Cabral. Segundo a explicação que é dada, "em 1999, a Fundação Mário Soares, com a colaboração da Dra. Iva Cabral, procedeu à recolha de centenas de fotografias respeitantes a Amílcar Cabral e à luta de libertação nacional que se encontravam em iminente perigo de destruição". Muitas delas eram inéditas.
É grato registar que "todo esse importante espólio fotográfico foi objecto de tratamento e reprodução fotográfica e digital", tendo sido a partir de Janeiro de 2003, "gradualmente disponibilizado na Internet, ao mesmo tempo que se prossegue à sua descrição e classificação".
As fotos estão organizadas por conjuntos de 10, num total de 119. Não se perecebe, no entanto, qual foi o critério de ordenação. Aparentemente, não há nenhuma ordem lógica ou cronológica na organização do álbum. A pesquisa, no entanto, pode ser feita por temas ou palava-chave.
Infelizmente, muitas vezes não é indicado o local (nem a data) onde foram tiradas muitas das fotos, nas zonas libertadas ou nas frentes de combate... Presumo que uma boa parte tenham sido tiradas em bases mais recuadas e mais seguras do PAIGC: Ziguinchor, por exemplo (51/119). Tenho dificuldade em reconhecer os sítios por onde passei, de 1969 a 1971, com os meus camaradas da CCAÇ 12: por exemplo, a região do Xime e do Xitole que o PAIGC considerava como "zona libertada".
Há fotos de Cacine, em reuniões do PAIGC com a população (45/119). Há fotos de Cheche e do Rio Cheche (96/119), e até de um cemitério em Cheche (87/119). Mas em muitos casos a legenda limita-se apenas a indicar que a foto foi tirada no "interior da Guiné".
Há, por exemplo, uma foto do hastear da bandeira do PAIGC, com um poster do Amílcar Cabral, em Guileje (30/119). Essa foto só pode ser posterior ao abandono do aquartelamento pelas NT em 1973. Há também uma que parece ser de Gandembel, a crer na legenda que o fotógrafo terá escrito no verso do original (59/119).
Há outra, com elementos mais explícitos, que tem como legenda: "Quartel português da Companhia de Caçadores 3477, ocupado pelas forças do PAIGC; distinguindo-se além das insígnias da Companhia, uma imagem religiosa" (parece ser a imagem de Nossa de Senhora de Fátima, de pé, no parapeito de uma janela) (58/119).
Há muitas fotos de Cabral com dirigentes e combatentes do PAIGC (por exemplo, 50/119), ou de dirigentes, sozinhos ou em grupo. Dos operacionais, destaco a título exemplificativo os nomes de: Nino Vieira (10/119; 81/119), Kecuta Mané (8/119), André Gomes (10/119), Umaru Djaló (2/119), Malan Sanhá (3/119), Francisco Mendes (25/119), Otto Schacht (4/119 e 7/119), Arafan Mané (49/119), Quemo Mané (72/119).
Honório Chantre aparece numa foto mais recente (1974), tal como Manuel dos Santos (Manecas), confraternizando com tropas portuguesas já depois do 25 de Abril de 1974 (77/119) Há também retratos de Manecas em 1973 e 1970 (77/119). E ainda em 1972 (67/119).
Nas outras fotos (34/119) aparecem prisioneiros portugueses "a conviver" com guerrilheiros, disputando uma partida de futebol (34/119). Há retratos de militares portugueses, prisioneiros ou desertores (44/119). Ou ainda de militares portugueses a serem entregues à Cruz Vermelha, no Senegal (61/119).
Numa dessas fotos, por exemplo, vê-se um grupo de cinco prisioneiros portugueses, a jogar futebol, descalços,em Conacri, num espaço murado (18/119).
Pergunto ao Marques Lopes se não serão alguns dos nossos 11 camaradas da CART 1690 (Geba), que desapareceram na noite de 10 para 11 de Abril de 1968, no ataque e assalto do IN ao destacamento de Catacunda ?
Há também fotos de aeronaves portuguessas destruídas (49/119) ou de veículos apreendidos: Por exemplo, um veículo blindado do Batalhão de Cavalaria 311 ("Os Pipas") (17/119) e, mais à frente, de um jipe do mesmo batalhão (103/119) e uma Fox 3115 (MG-34-69); uma Berliet destruída por uma mina (MG-61-01) (35/119); uma vitura abandonada numa picada (64/119); armamento capturado (36/119). Há uma ou outra foto de aquartelamentos portugês. Há uma, por exemplo, que é referida como "quartel português destruído" (48/119) ou "saqueado" (103/119). Nunca é referido o tempo e o lugar (68/119).
Já agora seria interessante saber se alguém conheceu este azarado Batalhão de Cavalaria 311, "Os Pipas", onde esteve e em que época...
Há muitas fotos de grupos de combatentes, empunhando armas, em desfile, em acções de formação e treino (33/119; 38/119), em marcha ou coluna (39/1119; 40/119; 55/119), a pôr ou a levantar minas (32/119; 41/119), cambando um rio (26/119)ou cozinhando no mato (72/119) mas muito poucas tiradas debaixo de fogo, ou em popsição de combate, as verdadeiras "fotos de guerra" (56/119; 68/119; 91/119; 92/119).
O papel das mulheres na luta de libertação, como enfermeiras, professoras, carregadoras de material, milícias, etc., também está bem documentado (27/119; 75/119), bem como a relação da guerrilha com a população (93/119; 98/119).
É claro que também há fotos de "informação e propaganda", destinadas a consumo interno e externo, e nomeadamente dos países amigos do PAIGC (ex-União Soviética, República Popular da China, Cuba, Argélia, Suécia...)e para a opinião pública internacional.
Muitas das fotos são do início da luta armada: por exemplo, tomada da Ilha do Komo (52/119) ou congresso de Cassacá (50/119). Grande parte das fotos de Cabral estão relacionadas com a sua actividade política internacional e diplomática. Por exemplo, Amílcar Cabral com Fidel Castro (76/119), ou com dirigentes de outros movimentos de libertação (Angola, Moçambique).
Mas há também bastantes imagens da actividade do líder histórico do PAIGC, em visita ao interior da Guiné ou nas bases do PAIGC: por exemplo, com Nino Vieira e Constantino Teixeira (105/119). Uma das mais emblemáticas e mais conhecidas é a do líder do PAIGC atravessando um rio, de canoa, de pé, juntamente com Constantinto Teixeira, outros guerrilheiros e uma mulher (104/119).
2. Em resumo, peço aos amigos e camaradas da Guiné para visitarem, com tempo e vagar, esta pagína da Fundação, e verem com mais atenção e detalhe este ábum de fotografias que pertenciam ao arquivo pessoal do grande dirigente político Amílcar Cabral, de quem é bom lembrar que sempre disse que não combatia contra o povo português mas sim contra o regime político de António Salazar e de Marcelo Caetano.
Guiné 69/71 - LXIV: Tão (ini)(a)migos que nós fomos! A propósito do álbum fotográfico pessoal de Amílcar Cabral
1. O sítio da Fundação Mário Soares merece uma visita demorada. Mais: deve ser acrescentado à nossa lista de favoritos. Por muitas razões, e muito em especial pela qualidade e originalidade da documentação que disponibiliza, de interesse histórico e cultural.
De as entre as várias iniciativas desta Fundação que são de destacar, temos o Arquivo & Biblioteca.
O Arquivo & Biblioteca da Fundação Mário Soares disponibiliza, por exemplo, para visualização (não dá para fazer download), mais de um milhar de fotos do arquivo pessoal de Amilcar Cabral. Segundo a explicação que é dada, "em 1999, a Fundação Mário Soares, com a colaboração da Dra. Iva Cabral, procedeu à recolha de centenas de fotografias respeitantes a Amílcar Cabral e à luta de libertação nacional que se encontravam em iminente perigo de destruição". Muitas delas eram inéditas.
É grato registar que "todo esse importante espólio fotográfico foi objecto de tratamento e reprodução fotográfica e digital", tendo sido a partir de Janeiro de 2003, "gradualmente disponibilizado na Internet, ao mesmo tempo que se prossegue à sua descrição e classificação".
As fotos estão organizadas por conjuntos de 10, num total de 119. Não se perecebe, no entanto, qual foi o critério de ordenação. Aparentemente, não há nenhuma ordem lógica ou cronológica na organização do álbum. A pesquisa, no entanto, pode ser feita por temas ou palava-chave.
Infelizmente, muitas vezes não é indicado o local (nem a data) onde foram tiradas muitas das fotos, nas zonas libertadas ou nas frentes de combate... Presumo que uma boa parte tenham sido tiradas em bases mais recuadas e mais seguras do PAIGC: Ziguinchor, por exemplo (51/119). Tenho dificuldade em reconhecer os sítios por onde passei, de 1969 a 1971, com os meus camaradas da CCAÇ 12: por exemplo, a região do Xime e do Xitole que o PAIGC considerava como "zona libertada".
Há fotos de Cacine, em reuniões do PAIGC com a população (45/119). Há fotos de Cheche e do Rio Cheche (96/119), e até de um cemitério em Cheche (87/119). Mas em muitos casos a legenda limita-se apenas a indicar que a foto foi tirada no "interior da Guiné".
Há, por exemplo, uma foto do hastear da bandeira do PAIGC, com um poster do Amílcar Cabral, em Guileje (30/119). Essa foto só pode ser posterior ao abandono do aquartelamento pelas NT em 1973. Há também uma que parece ser de Gandembel, a crer na legenda que o fotógrafo terá escrito no verso do original (59/119).
Há outra, com elementos mais explícitos, que tem como legenda: "Quartel português da Companhia de Caçadores 3477, ocupado pelas forças do PAIGC; distinguindo-se além das insígnias da Companhia, uma imagem religiosa" (parece ser a imagem de Nossa de Senhora de Fátima, de pé, no parapeito de uma janela) (58/119).
Há muitas fotos de Cabral com dirigentes e combatentes do PAIGC (por exemplo, 50/119), ou de dirigentes, sozinhos ou em grupo. Dos operacionais, destaco a título exemplificativo os nomes de: Nino Vieira (10/119; 81/119), Kecuta Mané (8/119), André Gomes (10/119), Umaru Djaló (2/119), Malan Sanhá (3/119), Francisco Mendes (25/119), Otto Schacht (4/119 e 7/119), Arafan Mané (49/119), Quemo Mané (72/119).
Honório Chantre aparece numa foto mais recente (1974), tal como Manuel dos Santos (Manecas), confraternizando com tropas portuguesas já depois do 25 de Abril de 1974 (77/119) Há também retratos de Manecas em 1973 e 1970 (77/119). E ainda em 1972 (67/119).
Nas outras fotos (34/119) aparecem prisioneiros portugueses "a conviver" com guerrilheiros, disputando uma partida de futebol (34/119). Há retratos de militares portugueses, prisioneiros ou desertores (44/119). Ou ainda de militares portugueses a serem entregues à Cruz Vermelha, no Senegal (61/119).
Numa dessas fotos, por exemplo, vê-se um grupo de cinco prisioneiros portugueses, a jogar futebol, descalços,em Conacri, num espaço murado (18/119).
Pergunto ao Marques Lopes se não serão alguns dos nossos 11 camaradas da CART 1690 (Geba), que desapareceram na noite de 10 para 11 de Abril de 1968, no ataque e assalto do IN ao destacamento de Catacunda ?
Há também fotos de aeronaves portuguessas destruídas (49/119) ou de veículos apreendidos: Por exemplo, um veículo blindado do Batalhão de Cavalaria 311 ("Os Pipas") (17/119) e, mais à frente, de um jipe do mesmo batalhão (103/119) e uma Fox 3115 (MG-34-69); uma Berliet destruída por uma mina (MG-61-01) (35/119); uma vitura abandonada numa picada (64/119); armamento capturado (36/119). Há uma ou outra foto de aquartelamentos portugês. Há uma, por exemplo, que é referida como "quartel português destruído" (48/119) ou "saqueado" (103/119). Nunca é referido o tempo e o lugar (68/119).
Já agora seria interessante saber se alguém conheceu este azarado Batalhão de Cavalaria 311, "Os Pipas", onde esteve e em que época...
Há muitas fotos de grupos de combatentes, empunhando armas, em desfile, em acções de formação e treino (33/119; 38/119), em marcha ou coluna (39/1119; 40/119; 55/119), a pôr ou a levantar minas (32/119; 41/119), cambando um rio (26/119)ou cozinhando no mato (72/119) mas muito poucas tiradas debaixo de fogo, ou em popsição de combate, as verdadeiras "fotos de guerra" (56/119; 68/119; 91/119; 92/119).
O papel das mulheres na luta de libertação, como enfermeiras, professoras, carregadoras de material, milícias, etc., também está bem documentado (27/119; 75/119), bem como a relação da guerrilha com a população (93/119; 98/119).
É claro que também há fotos de "informação e propaganda", destinadas a consumo interno e externo, e nomeadamente dos países amigos do PAIGC (ex-União Soviética, República Popular da China, Cuba, Argélia, Suécia...)e para a opinião pública internacional.
Muitas das fotos são do início da luta armada: por exemplo, tomada da Ilha do Komo (52/119) ou congresso de Cassacá (50/119). Grande parte das fotos de Cabral estão relacionadas com a sua actividade política internacional e diplomática. Por exemplo, Amílcar Cabral com Fidel Castro (76/119), ou com dirigentes de outros movimentos de libertação (Angola, Moçambique).
Mas há também bastantes imagens da actividade do líder histórico do PAIGC, em visita ao interior da Guiné ou nas bases do PAIGC: por exemplo, com Nino Vieira e Constantino Teixeira (105/119). Uma das mais emblemáticas e mais conhecidas é a do líder do PAIGC atravessando um rio, de canoa, de pé, juntamente com Constantinto Teixeira, outros guerrilheiros e uma mulher (104/119).
2. Em resumo, peço aos amigos e camaradas da Guiné para visitarem, com tempo e vagar, esta pagína da Fundação, e verem com mais atenção e detalhe este ábum de fotografias que pertenciam ao arquivo pessoal do grande dirigente político Amílcar Cabral, de quem é bom lembrar que sempre disse que não combatia contra o povo português mas sim contra o regime político de António Salazar e de Marcelo Caetano.
De as entre as várias iniciativas desta Fundação que são de destacar, temos o Arquivo & Biblioteca.
O Arquivo & Biblioteca da Fundação Mário Soares disponibiliza, por exemplo, para visualização (não dá para fazer download), mais de um milhar de fotos do arquivo pessoal de Amilcar Cabral. Segundo a explicação que é dada, "em 1999, a Fundação Mário Soares, com a colaboração da Dra. Iva Cabral, procedeu à recolha de centenas de fotografias respeitantes a Amílcar Cabral e à luta de libertação nacional que se encontravam em iminente perigo de destruição". Muitas delas eram inéditas.
É grato registar que "todo esse importante espólio fotográfico foi objecto de tratamento e reprodução fotográfica e digital", tendo sido a partir de Janeiro de 2003, "gradualmente disponibilizado na Internet, ao mesmo tempo que se prossegue à sua descrição e classificação".
As fotos estão organizadas por conjuntos de 10, num total de 119. Não se perecebe, no entanto, qual foi o critério de ordenação. Aparentemente, não há nenhuma ordem lógica ou cronológica na organização do álbum. A pesquisa, no entanto, pode ser feita por temas ou palava-chave.
Infelizmente, muitas vezes não é indicado o local (nem a data) onde foram tiradas muitas das fotos, nas zonas libertadas ou nas frentes de combate... Presumo que uma boa parte tenham sido tiradas em bases mais recuadas e mais seguras do PAIGC: Ziguinchor, por exemplo (51/119). Tenho dificuldade em reconhecer os sítios por onde passei, de 1969 a 1971, com os meus camaradas da CCAÇ 12: por exemplo, a região do Xime e do Xitole que o PAIGC considerava como "zona libertada".
Há fotos de Cacine, em reuniões do PAIGC com a população (45/119). Há fotos de Cheche e do Rio Cheche (96/119), e até de um cemitério em Cheche (87/119). Mas em muitos casos a legenda limita-se apenas a indicar que a foto foi tirada no "interior da Guiné".
Há, por exemplo, uma foto do hastear da bandeira do PAIGC, com um poster do Amílcar Cabral, em Guileje (30/119). Essa foto só pode ser posterior ao abandono do aquartelamento pelas NT em 1973. Há também uma que parece ser de Gandembel, a crer na legenda que o fotógrafo terá escrito no verso do original (59/119).
Há outra, com elementos mais explícitos, que tem como legenda: "Quartel português da Companhia de Caçadores 3477, ocupado pelas forças do PAIGC; distinguindo-se além das insígnias da Companhia, uma imagem religiosa" (parece ser a imagem de Nossa de Senhora de Fátima, de pé, no parapeito de uma janela) (58/119).
Há muitas fotos de Cabral com dirigentes e combatentes do PAIGC (por exemplo, 50/119), ou de dirigentes, sozinhos ou em grupo. Dos operacionais, destaco a título exemplificativo os nomes de: Nino Vieira (10/119; 81/119), Kecuta Mané (8/119), André Gomes (10/119), Umaru Djaló (2/119), Malan Sanhá (3/119), Francisco Mendes (25/119), Otto Schacht (4/119 e 7/119), Arafan Mané (49/119), Quemo Mané (72/119).
Honório Chantre aparece numa foto mais recente (1974), tal como Manuel dos Santos (Manecas), confraternizando com tropas portuguesas já depois do 25 de Abril de 1974 (77/119) Há também retratos de Manecas em 1973 e 1970 (77/119). E ainda em 1972 (67/119).
Nas outras fotos (34/119) aparecem prisioneiros portugueses "a conviver" com guerrilheiros, disputando uma partida de futebol (34/119). Há retratos de militares portugueses, prisioneiros ou desertores (44/119). Ou ainda de militares portugueses a serem entregues à Cruz Vermelha, no Senegal (61/119).
Numa dessas fotos, por exemplo, vê-se um grupo de cinco prisioneiros portugueses, a jogar futebol, descalços,em Conacri, num espaço murado (18/119).
Pergunto ao Marques Lopes se não serão alguns dos nossos 11 camaradas da CART 1690 (Geba), que desapareceram na noite de 10 para 11 de Abril de 1968, no ataque e assalto do IN ao destacamento de Catacunda ?
Há também fotos de aeronaves portuguessas destruídas (49/119) ou de veículos apreendidos: Por exemplo, um veículo blindado do Batalhão de Cavalaria 311 ("Os Pipas") (17/119) e, mais à frente, de um jipe do mesmo batalhão (103/119) e uma Fox 3115 (MG-34-69); uma Berliet destruída por uma mina (MG-61-01) (35/119); uma vitura abandonada numa picada (64/119); armamento capturado (36/119). Há uma ou outra foto de aquartelamentos portugês. Há uma, por exemplo, que é referida como "quartel português destruído" (48/119) ou "saqueado" (103/119). Nunca é referido o tempo e o lugar (68/119).
Já agora seria interessante saber se alguém conheceu este azarado Batalhão de Cavalaria 311, "Os Pipas", onde esteve e em que época...
Há muitas fotos de grupos de combatentes, empunhando armas, em desfile, em acções de formação e treino (33/119; 38/119), em marcha ou coluna (39/1119; 40/119; 55/119), a pôr ou a levantar minas (32/119; 41/119), cambando um rio (26/119)ou cozinhando no mato (72/119) mas muito poucas tiradas debaixo de fogo, ou em popsição de combate, as verdadeiras "fotos de guerra" (56/119; 68/119; 91/119; 92/119).
O papel das mulheres na luta de libertação, como enfermeiras, professoras, carregadoras de material, milícias, etc., também está bem documentado (27/119; 75/119), bem como a relação da guerrilha com a população (93/119; 98/119).
É claro que também há fotos de "informação e propaganda", destinadas a consumo interno e externo, e nomeadamente dos países amigos do PAIGC (ex-União Soviética, República Popular da China, Cuba, Argélia, Suécia...)e para a opinião pública internacional.
Muitas das fotos são do início da luta armada: por exemplo, tomada da Ilha do Komo (52/119) ou congresso de Cassacá (50/119). Grande parte das fotos de Cabral estão relacionadas com a sua actividade política internacional e diplomática. Por exemplo, Amílcar Cabral com Fidel Castro (76/119), ou com dirigentes de outros movimentos de libertação (Angola, Moçambique).
Mas há também bastantes imagens da actividade do líder histórico do PAIGC, em visita ao interior da Guiné ou nas bases do PAIGC: por exemplo, com Nino Vieira e Constantino Teixeira (105/119). Uma das mais emblemáticas e mais conhecidas é a do líder do PAIGC atravessando um rio, de canoa, de pé, juntamente com Constantinto Teixeira, outros guerrilheiros e uma mulher (104/119).
2. Em resumo, peço aos amigos e camaradas da Guiné para visitarem, com tempo e vagar, esta pagína da Fundação, e verem com mais atenção e detalhe este ábum de fotografias que pertenciam ao arquivo pessoal do grande dirigente político Amílcar Cabral, de quem é bom lembrar que sempre disse que não combatia contra o povo português mas sim contra o regime político de António Salazar e de Marcelo Caetano.
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