O Papa João Paulo II, a Irmã Lúcia e o Zé Mourinho morrem num desastre de avião e, pela ordem natural das coisas, são apresentados por São Pedro a Deus, Nosso Senhor.
Pergunta o Criador ao Chefe Máximo dos Católicos:
- Então, meu filho, para ti o que é que foi mais importante na tua vida lá em baixo ?
O Papa respondeu-lhe, com a voz trémula:
- A paz na terra entre os homens de boa vontade…
Deus simpatizou com o simpático velhinho, e convidou-o a ficar no Céu:
- Vem sentar-te aqui ao meu lado.
A seguir, interpelou a Irmã Lúcia sobre a sua longa vida de mistério e de clausura:
- E tu, minha filha, ainda tens mais algum segredo de Fátima para desvendar ?
- Não, meu Pai, antes de morrer já tinha deixado os papéis todos arrumados no convento, prontos a seguirem para a Torre do Tombo…
- Também gosto dessa resposta na ponta da língua, para uma velhinha como tu que teve o privilégio de conhecer a Virgem Maria…
Deus fitou, por fim, o Zé Mourinho que parecia não constar da sua base de dados… Algo provocatoriamente, o maior treinador de futebol do mundo desafiava o Criador, com um gesto quase obsceno, o dedo espetado na boca como se O quisesse mandar calar. Diz-lhe Deus, depois de São Pedro ter-Lhe segredado o nome:
- Então, qual é o teu problema, Zé Mourinho?
Ao que este retorquiu:
- Eu acho que TU... estás sentado no banco errado; é que esse, por acaso, é o...MEU!
PS - Este anedota só pode ter uma segunda leitura: os portugas são o povo mais igualitário do mundo, de tal maneira que não sequer admitem a hipótese (teórica) de haver, entre eles, um "primus inter pares", um primeiro entre iguais. No entanto, muito secretamente admiram (ou morrem de inveja por) um Zé Mourinho, um portuga que está a ter um grande sucesso na estranja, e para quem nem o céu parece constituir um limite...
blogue-fora-nada. homo socius ergo blogus [sum]. homem social logo blogador. em sociobloguês nos entendemos. o port(ug)al dos (por)tugas. a prova dos blogue-fora-nada. a guerra colonial. a guiné. do chacheu ao boe. de bissau a bambadinca. os cacimbados. o geba. o corubal. os rios. o macaréu da nossa revolta. o humor nosso de cada dia nos dai hoje.lá vamos blogando e rindo. e venham mais cinco (camaradas). e vieram tantos que isto se transformou numa caserna. a maior caserna virtual da Net!
11 março 2005
Humor com humor se paga - XXX: Deus e Mourinho
O Papa João Paulo II, a Irmã Lúcia e o Zé Mourinho morrem num desastre de avião e, pela ordem natural das coisas, são apresentados por São Pedro a Deus, Nosso Senhor.
Pergunta o Criador ao Chefe Máximo dos Católicos:
- Então, meu filho, para ti o que é que foi mais importante na tua vida lá em baixo ?
O Papa respondeu-lhe, com a voz trémula:
- A paz na terra entre os homens de boa vontade…
Deus simpatizou com o simpático velhinho, e convidou-o a ficar no Céu:
- Vem sentar-te aqui ao meu lado.
A seguir, interpelou a Irmã Lúcia sobre a sua longa vida de mistério e de clausura:
- E tu, minha filha, ainda tens mais algum segredo de Fátima para desvendar ?
- Não, meu Pai, antes de morrer já tinha deixado os papéis todos arrumados no convento, prontos a seguirem para a Torre do Tombo…
- Também gosto dessa resposta na ponta da língua, para uma velhinha como tu que teve o privilégio de conhecer a Virgem Maria…
Deus fitou, por fim, o Zé Mourinho que parecia não constar da sua base de dados… Algo provocatoriamente, o maior treinador de futebol do mundo desafiava o Criador, com um gesto quase obsceno, o dedo espetado na boca como se O quisesse mandar calar. Diz-lhe Deus, depois de São Pedro ter-Lhe segredado o nome:
- Então, qual é o teu problema, Zé Mourinho?
Ao que este retorquiu:
- Eu acho que TU... estás sentado no banco errado; é que esse, por acaso, é o...MEU!
PS - Este anedota só pode ter uma segunda leitura: os portugas são o povo mais igualitário do mundo, de tal maneira que não sequer admitem a hipótese (teórica) de haver, entre eles, um "primus inter pares", um primeiro entre iguais. No entanto, muito secretamente admiram (ou morrem de inveja por) um Zé Mourinho, um portuga que está a ter um grande sucesso na estranja, e para quem nem o céu parece constituir um limite...
Pergunta o Criador ao Chefe Máximo dos Católicos:
- Então, meu filho, para ti o que é que foi mais importante na tua vida lá em baixo ?
O Papa respondeu-lhe, com a voz trémula:
- A paz na terra entre os homens de boa vontade…
Deus simpatizou com o simpático velhinho, e convidou-o a ficar no Céu:
- Vem sentar-te aqui ao meu lado.
A seguir, interpelou a Irmã Lúcia sobre a sua longa vida de mistério e de clausura:
- E tu, minha filha, ainda tens mais algum segredo de Fátima para desvendar ?
- Não, meu Pai, antes de morrer já tinha deixado os papéis todos arrumados no convento, prontos a seguirem para a Torre do Tombo…
- Também gosto dessa resposta na ponta da língua, para uma velhinha como tu que teve o privilégio de conhecer a Virgem Maria…
Deus fitou, por fim, o Zé Mourinho que parecia não constar da sua base de dados… Algo provocatoriamente, o maior treinador de futebol do mundo desafiava o Criador, com um gesto quase obsceno, o dedo espetado na boca como se O quisesse mandar calar. Diz-lhe Deus, depois de São Pedro ter-Lhe segredado o nome:
- Então, qual é o teu problema, Zé Mourinho?
Ao que este retorquiu:
- Eu acho que TU... estás sentado no banco errado; é que esse, por acaso, é o...MEU!
PS - Este anedota só pode ter uma segunda leitura: os portugas são o povo mais igualitário do mundo, de tal maneira que não sequer admitem a hipótese (teórica) de haver, entre eles, um "primus inter pares", um primeiro entre iguais. No entanto, muito secretamente admiram (ou morrem de inveja por) um Zé Mourinho, um portuga que está a ter um grande sucesso na estranja, e para quem nem o céu parece constituir um limite...
10 março 2005
Socio(b)logia - XIV: Um médico para Diamantino ou os problemas da (e)terna comunicação global
1. Tenho uma página na Net, o que me permite, ilusoriamente talvez, vencer as barreiras físicas que separam os falantes da língua portuguesa. É o caso, por exemplo, dos brasileiros, que de vez em quando me contactam, por uma razão ou outra. A verdade é que eu nunca fui ao Brasil nem nunca mandei um postal a ninguém do Novo Mundo. Ontem recebi um curioso e-mail, no qual sou confundido com: (i) médico; (ii) médico de família; e (iii) candidato a um lugar nos serviços de saúde de um município do Estado do Mato Grosso (para mim, fica no Cu de Judas, sem ofensa para os habitantes da dita terra). Transcrevo a mensagem, na esperança de pelo menos encontrar-lhe o destinatário certo:
2. Cópia de mensagem por e-mail que acabo de ler na minha caixa de correio:
"From: Secretaria Municipal de Saúde de Diamantino [saude@diamantino.mt.gov.br]
"Sent: qua 2005-03-09 17:58
"To: Luís Graça
"Subject: contratação urgente medicos saude da familia Diamantino-MT
"Prezado Dr, vimos o seu curriculum na internet, por isso resolvemos contactá-lo. O nosso município de Diamantino - MT [Mato Grosso] está precisando com urgência de médicos para trabalhar em Equipes de Saúde da Família. Salário bruto 7.200,00 descontando 27% de imposto de renda. Também pagamos o 13º salário e liberamos para férias. Dispomos apenas de 01 hospital particular no qual os médicos dão plantão. Caso tenha interesse, por gentileza entrar em contato por telefone ou por e-mail. Por gentileza divulgar esta informação junto aos seus colegas de trabalho.
"atenciosamente,
"Cristhiane Duarte, Enfermeira".
3. Acabo de responder ao citado e-mail:
"Minha cara amiga Christiane: Recebi a sua mensagem. Vejo que conhece a minha página na Net e até o meu currículo (http://www.ensp.unl.pt/luis.graca/). Acontece que não sou médico, e vivo a milhares de quilómetros de distância do seu município, no outro lado do Atlântico, no Velho Mundo, na Eurolândia… Mesmo assim apreciei e divulguei a sua mensagem. Boa sorte para o seu esforço de encontrar um médico que possa fazer um bom trabalho no seu serviço de saúde. A propósito, onde fica Diamantino ?
"Veja o meu blogue: http://blogueforanada.blogspot.com/
"Boa saúde, bom trabalho!
Luís Graça."
Socio(b)logia - XIV: Um médico para Diamantino ou os problemas da (e)terna comunicação global
1. Tenho uma página na Net, o que me permite, ilusoriamente talvez, vencer as barreiras físicas que separam os falantes da língua portuguesa. É o caso, por exemplo, dos brasileiros, que de vez em quando me contactam, por uma razão ou outra. A verdade é que eu nunca fui ao Brasil nem nunca mandei um postal a ninguém do Novo Mundo. Ontem recebi um curioso e-mail, no qual sou confundido com: (i) médico; (ii) médico de família; e (iii) candidato a um lugar nos serviços de saúde de um município do Estado do Mato Grosso (para mim, fica no Cu de Judas, sem ofensa para os habitantes da dita terra). Transcrevo a mensagem, na esperança de pelo menos encontrar-lhe o destinatário certo:
2. Cópia de mensagem por e-mail que acabo de ler na minha caixa de correio:
"From: Secretaria Municipal de Saúde de Diamantino [saude@diamantino.mt.gov.br]
"Sent: qua 2005-03-09 17:58
"To: Luís Graça
"Subject: contratação urgente medicos saude da familia Diamantino-MT
"Prezado Dr, vimos o seu curriculum na internet, por isso resolvemos contactá-lo. O nosso município de Diamantino - MT [Mato Grosso] está precisando com urgência de médicos para trabalhar em Equipes de Saúde da Família. Salário bruto 7.200,00 descontando 27% de imposto de renda. Também pagamos o 13º salário e liberamos para férias. Dispomos apenas de 01 hospital particular no qual os médicos dão plantão. Caso tenha interesse, por gentileza entrar em contato por telefone ou por e-mail. Por gentileza divulgar esta informação junto aos seus colegas de trabalho.
"atenciosamente,
"Cristhiane Duarte, Enfermeira".
3. Acabo de responder ao citado e-mail:
"Minha cara amiga Christiane: Recebi a sua mensagem. Vejo que conhece a minha página na Net e até o meu currículo (http://www.ensp.unl.pt/luis.graca/). Acontece que não sou médico, e vivo a milhares de quilómetros de distância do seu município, no outro lado do Atlântico, no Velho Mundo, na Eurolândia… Mesmo assim apreciei e divulguei a sua mensagem. Boa sorte para o seu esforço de encontrar um médico que possa fazer um bom trabalho no seu serviço de saúde. A propósito, onde fica Diamantino ?
"Veja o meu blogue: http://blogueforanada.blogspot.com/
"Boa saúde, bom trabalho!
Luís Graça."
07 março 2005
Portugas que merecem as nossas palmas - XV: O Museu de Medicina da Faculdade de Medicina de Lisboa
1. A criação da Faculdade de Medicina de Lisboa data de 1911,e a ela está associada a chamada "geração de ouro" da medicina portuguesa sob a liderança de Celestino da Costa. Quase cem anos depois, surge o projecto do Museu de Medicina, cuja filosofia é apresentada sucintamente no respectivo sítio, nestes termos:
"Os museus de arte e os museus da ciência e da técnica são dois mundos, duas culturas, cada um com o seu património, as suas especificidades, o seu público.
"Muitos programadores destes dois tipos de equipamento cultural interrogam-se frequentemente sobre a possibilidade de uma terceira via, e lançam questões: Como criar pontes que façam a ligação entre estes dois grandes ramos da experiência e do conhecimento humanos, sem prejuízo das suas especificidades? Será possível reunir num mesmo lugar de exposição, sob um denominador comum, objectos testemunhos de um e de outro universo? E, no caso afirmativo, não haverá o risco de reforçar um conhecimento estático ou de suscitar visões maniqueístas pré-existentes, que reenviariam cada um destes objectos, privados dos contextos respectivos, a categorias em que se poderiam opôr de forma redutora o belo e o verdadeiro, o imaginário e o concreto, o racional e o expressivo, a arte e a ciência? Como pensar uma tal iniciativa no contexto da medicina, não em termos de mera demonstração didática, de ilustração, de pretexto, mas de complementaridade (implicando caminhos paralelos, ou até mesmo divergentes) ou de "contaminação" recíproca (criando enriquecimentos mútuos)?
"Desde Hipócrates que a prática da medicina é assumida simultaneamente como uma arte e como uma ciência. A percepção dos fenómenos da saúde e da doença faz-se quase sempre cruzando métodos de avaliação qualitativos e quantitativos, conjugando a subjectividade sintomatológica das pessoas com a objectividade técnica e analítica das máquinas e instrumentos. Por isso faz todo o sentido que um museu de medicina se organize como uma terceira via que que faça a ligação entre arte, ciências humanas, naturais e sociais, procurando tirar partido da interacção dos diferentes ramos do saber.
"O projecto Museu de Medicina da Faculdade de Medicina de Lisboa seguirá esta terceira via. Organizar-se-á como um laboratório, um centro de circulação de informação e geração de conhecimento e ideias, aberto à multiplicidade de cruzamentos que hoje a investigação interdisciplinar permite fazer, a partir da especificidade da arte e da ciência".
2. Visitei ontem a exposição "Passagens - 100 Peças para o Museu de Medicina", a decorrer no Museu Nacional de Arte Antiga, entre 24 de Fevereiro e 30 de Abril de 2005. Estão de parabéns a equipa que lidera este projecto da Faculdade de Medicina de Lisboa mas também o Museu Nacional de Arte Antiga por esta aposta e esta oportunidade de renovação da (e de reflexão sobre a) prática museológica. Trata-se de uma exposição a não perder. No velho museu das Janelas Verdes modelos anatómicos, preparações humanas, mecanismos e imagens médicas, instrumentos de medição e de observação cruzam-se e ligam-se com obras de arte, e passam à categoria de objectos culturais, ligados à nossa memória, à nossa identidade e à produção de um discurso legitimador não só da ciência e da tecnologia como da arte. A exposição tem seis núcleos: (i) Espelhos e refelexões; (ii) Fragmentos e anatomias; (iii) Compôr, cuidar e tratar; (iv) Fluídos, circulação e imagens; (v) Observar, medir, temporizar; (vi) Ver o 'invisível'. Ao domingo de manhã, a visita ao msueu (e a esta exposição temporária) é gratuita.
De entre outras peças raras, vai aqui o meu destaque para um exemplar do De Humani Corporis Fabrica, do belga Andrea Vesalius (a 2ª edição, Pádua, 1555), uma obra-prima bibliográfica da Renascença e também uma obra decisiva para o desenvolvimento da anatomia e da cirurgia. Julgo que faça parte do espólio da antiga Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa (1836-1911). Por outro lado, é também notável o quadro que descreve e explica as experiências levadas a cabo por Egas Moniz e a sua equipa, e que contribuiram para o avanço das neurociências. Recorde-se que em 26 de Junho de 1927, foi feito pela primeira vez nuyms er humano vivo um exame radiográfico dos vasos sanguíneos cerebrais. Destaco ainda, e por fim, o tratamento museológico que foi dado uma desconjuntada e carcomida escultura em madeira do Séc. XIV, representando Cristo (Núcleo 3 - Compôr, cuidar, tratar): conforme se diz no guia da exposição, trata-se de "uma escultura 'doente', em fase terminal, submetida a tratamento museológico paliativo (...), que permite reflectir sobre o conceito de humanidade no próprioo acto de cuidar das obras de arte".
"Os museus de arte e os museus da ciência e da técnica são dois mundos, duas culturas, cada um com o seu património, as suas especificidades, o seu público.
"Muitos programadores destes dois tipos de equipamento cultural interrogam-se frequentemente sobre a possibilidade de uma terceira via, e lançam questões: Como criar pontes que façam a ligação entre estes dois grandes ramos da experiência e do conhecimento humanos, sem prejuízo das suas especificidades? Será possível reunir num mesmo lugar de exposição, sob um denominador comum, objectos testemunhos de um e de outro universo? E, no caso afirmativo, não haverá o risco de reforçar um conhecimento estático ou de suscitar visões maniqueístas pré-existentes, que reenviariam cada um destes objectos, privados dos contextos respectivos, a categorias em que se poderiam opôr de forma redutora o belo e o verdadeiro, o imaginário e o concreto, o racional e o expressivo, a arte e a ciência? Como pensar uma tal iniciativa no contexto da medicina, não em termos de mera demonstração didática, de ilustração, de pretexto, mas de complementaridade (implicando caminhos paralelos, ou até mesmo divergentes) ou de "contaminação" recíproca (criando enriquecimentos mútuos)?
"Desde Hipócrates que a prática da medicina é assumida simultaneamente como uma arte e como uma ciência. A percepção dos fenómenos da saúde e da doença faz-se quase sempre cruzando métodos de avaliação qualitativos e quantitativos, conjugando a subjectividade sintomatológica das pessoas com a objectividade técnica e analítica das máquinas e instrumentos. Por isso faz todo o sentido que um museu de medicina se organize como uma terceira via que que faça a ligação entre arte, ciências humanas, naturais e sociais, procurando tirar partido da interacção dos diferentes ramos do saber.
"O projecto Museu de Medicina da Faculdade de Medicina de Lisboa seguirá esta terceira via. Organizar-se-á como um laboratório, um centro de circulação de informação e geração de conhecimento e ideias, aberto à multiplicidade de cruzamentos que hoje a investigação interdisciplinar permite fazer, a partir da especificidade da arte e da ciência".
2. Visitei ontem a exposição "Passagens - 100 Peças para o Museu de Medicina", a decorrer no Museu Nacional de Arte Antiga, entre 24 de Fevereiro e 30 de Abril de 2005. Estão de parabéns a equipa que lidera este projecto da Faculdade de Medicina de Lisboa mas também o Museu Nacional de Arte Antiga por esta aposta e esta oportunidade de renovação da (e de reflexão sobre a) prática museológica. Trata-se de uma exposição a não perder. No velho museu das Janelas Verdes modelos anatómicos, preparações humanas, mecanismos e imagens médicas, instrumentos de medição e de observação cruzam-se e ligam-se com obras de arte, e passam à categoria de objectos culturais, ligados à nossa memória, à nossa identidade e à produção de um discurso legitimador não só da ciência e da tecnologia como da arte. A exposição tem seis núcleos: (i) Espelhos e refelexões; (ii) Fragmentos e anatomias; (iii) Compôr, cuidar e tratar; (iv) Fluídos, circulação e imagens; (v) Observar, medir, temporizar; (vi) Ver o 'invisível'. Ao domingo de manhã, a visita ao msueu (e a esta exposição temporária) é gratuita.
De entre outras peças raras, vai aqui o meu destaque para um exemplar do De Humani Corporis Fabrica, do belga Andrea Vesalius (a 2ª edição, Pádua, 1555), uma obra-prima bibliográfica da Renascença e também uma obra decisiva para o desenvolvimento da anatomia e da cirurgia. Julgo que faça parte do espólio da antiga Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa (1836-1911). Por outro lado, é também notável o quadro que descreve e explica as experiências levadas a cabo por Egas Moniz e a sua equipa, e que contribuiram para o avanço das neurociências. Recorde-se que em 26 de Junho de 1927, foi feito pela primeira vez nuyms er humano vivo um exame radiográfico dos vasos sanguíneos cerebrais. Destaco ainda, e por fim, o tratamento museológico que foi dado uma desconjuntada e carcomida escultura em madeira do Séc. XIV, representando Cristo (Núcleo 3 - Compôr, cuidar, tratar): conforme se diz no guia da exposição, trata-se de "uma escultura 'doente', em fase terminal, submetida a tratamento museológico paliativo (...), que permite reflectir sobre o conceito de humanidade no próprioo acto de cuidar das obras de arte".
Portugas que merecem as nossas palmas - XV: O Museu de Medicina da Faculdade de Medicina de Lisboa
1. A criação da Faculdade de Medicina de Lisboa data de 1911,e a ela está associada a chamada "geração de ouro" da medicina portuguesa sob a liderança de Celestino da Costa. Quase cem anos depois, surge o projecto do Museu de Medicina, cuja filosofia é apresentada sucintamente no respectivo sítio, nestes termos:
"Os museus de arte e os museus da ciência e da técnica são dois mundos, duas culturas, cada um com o seu património, as suas especificidades, o seu público.
"Muitos programadores destes dois tipos de equipamento cultural interrogam-se frequentemente sobre a possibilidade de uma terceira via, e lançam questões: Como criar pontes que façam a ligação entre estes dois grandes ramos da experiência e do conhecimento humanos, sem prejuízo das suas especificidades? Será possível reunir num mesmo lugar de exposição, sob um denominador comum, objectos testemunhos de um e de outro universo? E, no caso afirmativo, não haverá o risco de reforçar um conhecimento estático ou de suscitar visões maniqueístas pré-existentes, que reenviariam cada um destes objectos, privados dos contextos respectivos, a categorias em que se poderiam opôr de forma redutora o belo e o verdadeiro, o imaginário e o concreto, o racional e o expressivo, a arte e a ciência? Como pensar uma tal iniciativa no contexto da medicina, não em termos de mera demonstração didática, de ilustração, de pretexto, mas de complementaridade (implicando caminhos paralelos, ou até mesmo divergentes) ou de "contaminação" recíproca (criando enriquecimentos mútuos)?
"Desde Hipócrates que a prática da medicina é assumida simultaneamente como uma arte e como uma ciência. A percepção dos fenómenos da saúde e da doença faz-se quase sempre cruzando métodos de avaliação qualitativos e quantitativos, conjugando a subjectividade sintomatológica das pessoas com a objectividade técnica e analítica das máquinas e instrumentos. Por isso faz todo o sentido que um museu de medicina se organize como uma terceira via que que faça a ligação entre arte, ciências humanas, naturais e sociais, procurando tirar partido da interacção dos diferentes ramos do saber.
"O projecto Museu de Medicina da Faculdade de Medicina de Lisboa seguirá esta terceira via. Organizar-se-á como um laboratório, um centro de circulação de informação e geração de conhecimento e ideias, aberto à multiplicidade de cruzamentos que hoje a investigação interdisciplinar permite fazer, a partir da especificidade da arte e da ciência".
2. Visitei ontem a exposição "Passagens - 100 Peças para o Museu de Medicina", a decorrer no Museu Nacional de Arte Antiga, entre 24 de Fevereiro e 30 de Abril de 2005. Estão de parabéns a equipa que lidera este projecto da Faculdade de Medicina de Lisboa mas também o Museu Nacional de Arte Antiga por esta aposta e esta oportunidade de renovação da (e de reflexão sobre a) prática museológica. Trata-se de uma exposição a não perder. No velho museu das Janelas Verdes modelos anatómicos, preparações humanas, mecanismos e imagens médicas, instrumentos de medição e de observação cruzam-se e ligam-se com obras de arte, e passam à categoria de objectos culturais, ligados à nossa memória, à nossa identidade e à produção de um discurso legitimador não só da ciência e da tecnologia como da arte. A exposição tem seis núcleos: (i) Espelhos e refelexões; (ii) Fragmentos e anatomias; (iii) Compôr, cuidar e tratar; (iv) Fluídos, circulação e imagens; (v) Observar, medir, temporizar; (vi) Ver o 'invisível'. Ao domingo de manhã, a visita ao msueu (e a esta exposição temporária) é gratuita.
De entre outras peças raras, vai aqui o meu destaque para um exemplar do De Humani Corporis Fabrica, do belga Andrea Vesalius (a 2ª edição, Pádua, 1555), uma obra-prima bibliográfica da Renascença e também uma obra decisiva para o desenvolvimento da anatomia e da cirurgia. Julgo que faça parte do espólio da antiga Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa (1836-1911). Por outro lado, é também notável o quadro que descreve e explica as experiências levadas a cabo por Egas Moniz e a sua equipa, e que contribuiram para o avanço das neurociências. Recorde-se que em 26 de Junho de 1927, foi feito pela primeira vez nuyms er humano vivo um exame radiográfico dos vasos sanguíneos cerebrais. Destaco ainda, e por fim, o tratamento museológico que foi dado uma desconjuntada e carcomida escultura em madeira do Séc. XIV, representando Cristo (Núcleo 3 - Compôr, cuidar, tratar): conforme se diz no guia da exposição, trata-se de "uma escultura 'doente', em fase terminal, submetida a tratamento museológico paliativo (...), que permite reflectir sobre o conceito de humanidade no próprioo acto de cuidar das obras de arte".
"Os museus de arte e os museus da ciência e da técnica são dois mundos, duas culturas, cada um com o seu património, as suas especificidades, o seu público.
"Muitos programadores destes dois tipos de equipamento cultural interrogam-se frequentemente sobre a possibilidade de uma terceira via, e lançam questões: Como criar pontes que façam a ligação entre estes dois grandes ramos da experiência e do conhecimento humanos, sem prejuízo das suas especificidades? Será possível reunir num mesmo lugar de exposição, sob um denominador comum, objectos testemunhos de um e de outro universo? E, no caso afirmativo, não haverá o risco de reforçar um conhecimento estático ou de suscitar visões maniqueístas pré-existentes, que reenviariam cada um destes objectos, privados dos contextos respectivos, a categorias em que se poderiam opôr de forma redutora o belo e o verdadeiro, o imaginário e o concreto, o racional e o expressivo, a arte e a ciência? Como pensar uma tal iniciativa no contexto da medicina, não em termos de mera demonstração didática, de ilustração, de pretexto, mas de complementaridade (implicando caminhos paralelos, ou até mesmo divergentes) ou de "contaminação" recíproca (criando enriquecimentos mútuos)?
"Desde Hipócrates que a prática da medicina é assumida simultaneamente como uma arte e como uma ciência. A percepção dos fenómenos da saúde e da doença faz-se quase sempre cruzando métodos de avaliação qualitativos e quantitativos, conjugando a subjectividade sintomatológica das pessoas com a objectividade técnica e analítica das máquinas e instrumentos. Por isso faz todo o sentido que um museu de medicina se organize como uma terceira via que que faça a ligação entre arte, ciências humanas, naturais e sociais, procurando tirar partido da interacção dos diferentes ramos do saber.
"O projecto Museu de Medicina da Faculdade de Medicina de Lisboa seguirá esta terceira via. Organizar-se-á como um laboratório, um centro de circulação de informação e geração de conhecimento e ideias, aberto à multiplicidade de cruzamentos que hoje a investigação interdisciplinar permite fazer, a partir da especificidade da arte e da ciência".
2. Visitei ontem a exposição "Passagens - 100 Peças para o Museu de Medicina", a decorrer no Museu Nacional de Arte Antiga, entre 24 de Fevereiro e 30 de Abril de 2005. Estão de parabéns a equipa que lidera este projecto da Faculdade de Medicina de Lisboa mas também o Museu Nacional de Arte Antiga por esta aposta e esta oportunidade de renovação da (e de reflexão sobre a) prática museológica. Trata-se de uma exposição a não perder. No velho museu das Janelas Verdes modelos anatómicos, preparações humanas, mecanismos e imagens médicas, instrumentos de medição e de observação cruzam-se e ligam-se com obras de arte, e passam à categoria de objectos culturais, ligados à nossa memória, à nossa identidade e à produção de um discurso legitimador não só da ciência e da tecnologia como da arte. A exposição tem seis núcleos: (i) Espelhos e refelexões; (ii) Fragmentos e anatomias; (iii) Compôr, cuidar e tratar; (iv) Fluídos, circulação e imagens; (v) Observar, medir, temporizar; (vi) Ver o 'invisível'. Ao domingo de manhã, a visita ao msueu (e a esta exposição temporária) é gratuita.
De entre outras peças raras, vai aqui o meu destaque para um exemplar do De Humani Corporis Fabrica, do belga Andrea Vesalius (a 2ª edição, Pádua, 1555), uma obra-prima bibliográfica da Renascença e também uma obra decisiva para o desenvolvimento da anatomia e da cirurgia. Julgo que faça parte do espólio da antiga Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa (1836-1911). Por outro lado, é também notável o quadro que descreve e explica as experiências levadas a cabo por Egas Moniz e a sua equipa, e que contribuiram para o avanço das neurociências. Recorde-se que em 26 de Junho de 1927, foi feito pela primeira vez nuyms er humano vivo um exame radiográfico dos vasos sanguíneos cerebrais. Destaco ainda, e por fim, o tratamento museológico que foi dado uma desconjuntada e carcomida escultura em madeira do Séc. XIV, representando Cristo (Núcleo 3 - Compôr, cuidar, tratar): conforme se diz no guia da exposição, trata-se de "uma escultura 'doente', em fase terminal, submetida a tratamento museológico paliativo (...), que permite reflectir sobre o conceito de humanidade no próprioo acto de cuidar das obras de arte".
28 fevereiro 2005
Portugas que merecem as nossas palmas - XIV: Os profissionais de saúde do Centro de Saúde de Fernão Ferro
1. O Expresso, de 18 de Fevereiro último, em vésperas de eleições legislativas, dedicou um dossiê ao "Portugal que funciona" (sic), nos mais diversos sectores: a saúde, a educação, o ambiente, a justiça, a indústria, a política, a sociedade civil...
Vitor Rainho, editor da revista "Única", diz que "não faltam exemplos de sucesso no Portugal dito sem rumo", e cita entre outros o centro de saúde de Fernão Ferro, no concelho do Seixal, onde "não existem listas de espera" e onde os responsáveis "uniram esforços para conseguir atender uma população envelhecida". O texto é da jornalista Graça Rosendo: "Serviço à medida das pessoas" (leia-se: possibilidade de marcar consultas pelo telefone, visitas domiciliárias, cuidados continuados, cuidados integrados e personalizados, participação comunitária, coooperação intersectorial, organização do trabalho por equipas pluridisciplinares e pluriprofissionais...).
Numa freguesia com 15 mil habitantes, o centro de saúde, ou melhor, a extensão de saúde de Fernão Ferro do Centro de Saúde do Seixal tem seis médicos de família (falta um para garantir a cobertura total da população), os quais aderiram em 1996, juntamente com os seus colegas enfermeiros, administrativos e auxiliares, ao "Projecto Alfa", uma iniciativa inovadora lançada pelo Ministério da Saúde.
Escreve a jornalista: "A ideia era mesmo essa: que os profissionais dos centros de saúde se juntassem e, em equipa, assumissem a responsabilidade pela organização e pela prestação dos cuidados de saúde primários, 'garantindo mais satisfação a todas as partes'(...). Hoje Fernão Ferro é o único Projecto Alfa vivo. Com mais do que provas dadas".
2. Há três anos que só se ouve falar em empresarialização dos hospitais, em hospitais sociedades anónimas, em doentes, em listas de espera, em programas de recuperação de listas de espera, em parcerias público/privado, em unidades de missão... Há três anos que os centros de saúde, os cuidados de saúde primários, a protecção e a promoção da saúde, os sistemas locais de saúde, a saúde mental dos portugueses, a saúde mental comunitária e outros termos do glossário da moderna saúde pública, desapareceram do discurso do poder.
O ministro da tutela nos dois últimos governos ignorou, olimpicamente, os centros de saúde, os cuidados de saúde primários, os profissonais que lá trabalham, muitas vezes em condições bem duras, com insuficientes recursos humanos, técnicos e financeiros, muitas vezes sem um tostão para comprar uma máquina de café ou o café para a máquina ou mandar reparar o telefone, entalados entre os constrangimentos burocráticos do poder central e as dramáticas pressões da procura por parte de uma população, pobre, envelhecida e abandonada, trabalhando em vãos de escada, fazendo das casa de banho arquivos, sem tempo nem papel para fazer os dossiês clínicos, sem computadores, sem internet, com gente aos berros nos corredores e nas escadas de prédios dos anos 60 e 70, de má qualidade, que já foram caixas dos serviços médico-sociais da previdência estadonovista, nas periferias tristes e cinzentas da grande cidade anónima...
Fernão Ferro é um exemplo, discreto, da muita competência e generosidade de que são capazes os profissionais de saúde que trabalham nos nossos centros de saúde, instituições que estão muito próximas do quotidiano dos portugueses e das comunidades onde estes vivem, dormem, respiram, trabalham, amam, riem, sofrem e choram. Fernão Ferro não é um exemplo único. Mas é exemplar. Ainda bem que o Expresso lhe deu a merecida visibilidade mediática.
3. Eu, por mim, aplaudo: estes e estas portugas, a começar pela directora Maria da Luz Pereira (que eu não conheço pessoalmente), merecem as minhas palmas, as nossas palmas. O seu exemplo é o melhor tónico contra o miserabilismo, o masoquismo e o populismo que minaram a nossa vida política nos últimos anos e até a confiança nas nossas próprias capacidades de realização. Fernão Ferro é, por fim, um exemplo de liderança e de trabalho em equipa, de determinação e de estratégia, que é o que nos tem faltado a todos os níveis, em muitos sectores: gente que pense globalmente, que pense grande, e que aja localmente, que saiba também tomar o peso e a medida das pequenas coisas que é preciso fazer todos os dias, que saiba fazer as pequenas coisas que é preciso fazer todos os dias... Na saúde, na educação, no ambiente, na produção, na cultura...
Fernão Ferro, a sua equipa, os seus médicos, os seus enfermeiros, os seus administrativos e restante pessoal, não vêm nas capas nas revistas côr de rosa, nem são notícia de telejornal por más razões... Mas hoje eles merecem as minhas palmas, as nossas palmas...
Vitor Rainho, editor da revista "Única", diz que "não faltam exemplos de sucesso no Portugal dito sem rumo", e cita entre outros o centro de saúde de Fernão Ferro, no concelho do Seixal, onde "não existem listas de espera" e onde os responsáveis "uniram esforços para conseguir atender uma população envelhecida". O texto é da jornalista Graça Rosendo: "Serviço à medida das pessoas" (leia-se: possibilidade de marcar consultas pelo telefone, visitas domiciliárias, cuidados continuados, cuidados integrados e personalizados, participação comunitária, coooperação intersectorial, organização do trabalho por equipas pluridisciplinares e pluriprofissionais...).
Numa freguesia com 15 mil habitantes, o centro de saúde, ou melhor, a extensão de saúde de Fernão Ferro do Centro de Saúde do Seixal tem seis médicos de família (falta um para garantir a cobertura total da população), os quais aderiram em 1996, juntamente com os seus colegas enfermeiros, administrativos e auxiliares, ao "Projecto Alfa", uma iniciativa inovadora lançada pelo Ministério da Saúde.
Escreve a jornalista: "A ideia era mesmo essa: que os profissionais dos centros de saúde se juntassem e, em equipa, assumissem a responsabilidade pela organização e pela prestação dos cuidados de saúde primários, 'garantindo mais satisfação a todas as partes'(...). Hoje Fernão Ferro é o único Projecto Alfa vivo. Com mais do que provas dadas".
2. Há três anos que só se ouve falar em empresarialização dos hospitais, em hospitais sociedades anónimas, em doentes, em listas de espera, em programas de recuperação de listas de espera, em parcerias público/privado, em unidades de missão... Há três anos que os centros de saúde, os cuidados de saúde primários, a protecção e a promoção da saúde, os sistemas locais de saúde, a saúde mental dos portugueses, a saúde mental comunitária e outros termos do glossário da moderna saúde pública, desapareceram do discurso do poder.
O ministro da tutela nos dois últimos governos ignorou, olimpicamente, os centros de saúde, os cuidados de saúde primários, os profissonais que lá trabalham, muitas vezes em condições bem duras, com insuficientes recursos humanos, técnicos e financeiros, muitas vezes sem um tostão para comprar uma máquina de café ou o café para a máquina ou mandar reparar o telefone, entalados entre os constrangimentos burocráticos do poder central e as dramáticas pressões da procura por parte de uma população, pobre, envelhecida e abandonada, trabalhando em vãos de escada, fazendo das casa de banho arquivos, sem tempo nem papel para fazer os dossiês clínicos, sem computadores, sem internet, com gente aos berros nos corredores e nas escadas de prédios dos anos 60 e 70, de má qualidade, que já foram caixas dos serviços médico-sociais da previdência estadonovista, nas periferias tristes e cinzentas da grande cidade anónima...
Fernão Ferro é um exemplo, discreto, da muita competência e generosidade de que são capazes os profissionais de saúde que trabalham nos nossos centros de saúde, instituições que estão muito próximas do quotidiano dos portugueses e das comunidades onde estes vivem, dormem, respiram, trabalham, amam, riem, sofrem e choram. Fernão Ferro não é um exemplo único. Mas é exemplar. Ainda bem que o Expresso lhe deu a merecida visibilidade mediática.
3. Eu, por mim, aplaudo: estes e estas portugas, a começar pela directora Maria da Luz Pereira (que eu não conheço pessoalmente), merecem as minhas palmas, as nossas palmas. O seu exemplo é o melhor tónico contra o miserabilismo, o masoquismo e o populismo que minaram a nossa vida política nos últimos anos e até a confiança nas nossas próprias capacidades de realização. Fernão Ferro é, por fim, um exemplo de liderança e de trabalho em equipa, de determinação e de estratégia, que é o que nos tem faltado a todos os níveis, em muitos sectores: gente que pense globalmente, que pense grande, e que aja localmente, que saiba também tomar o peso e a medida das pequenas coisas que é preciso fazer todos os dias, que saiba fazer as pequenas coisas que é preciso fazer todos os dias... Na saúde, na educação, no ambiente, na produção, na cultura...
Fernão Ferro, a sua equipa, os seus médicos, os seus enfermeiros, os seus administrativos e restante pessoal, não vêm nas capas nas revistas côr de rosa, nem são notícia de telejornal por más razões... Mas hoje eles merecem as minhas palmas, as nossas palmas...
Portugas que merecem as nossas palmas - XIV: Os profissionais de saúde do Centro de Saúde de Fernão Ferro
1. O Expresso, de 18 de Fevereiro último, em vésperas de eleições legislativas, dedicou um dossiê ao "Portugal que funciona" (sic), nos mais diversos sectores: a saúde, a educação, o ambiente, a justiça, a indústria, a política, a sociedade civil...
Vitor Rainho, editor da revista "Única", diz que "não faltam exemplos de sucesso no Portugal dito sem rumo", e cita entre outros o centro de saúde de Fernão Ferro, no concelho do Seixal, onde "não existem listas de espera" e onde os responsáveis "uniram esforços para conseguir atender uma população envelhecida". O texto é da jornalista Graça Rosendo: "Serviço à medida das pessoas" (leia-se: possibilidade de marcar consultas pelo telefone, visitas domiciliárias, cuidados continuados, cuidados integrados e personalizados, participação comunitária, coooperação intersectorial, organização do trabalho por equipas pluridisciplinares e pluriprofissionais...).
Numa freguesia com 15 mil habitantes, o centro de saúde, ou melhor, a extensão de saúde de Fernão Ferro do Centro de Saúde do Seixal tem seis médicos de família (falta um para garantir a cobertura total da população), os quais aderiram em 1996, juntamente com os seus colegas enfermeiros, administrativos e auxiliares, ao "Projecto Alfa", uma iniciativa inovadora lançada pelo Ministério da Saúde.
Escreve a jornalista: "A ideia era mesmo essa: que os profissionais dos centros de saúde se juntassem e, em equipa, assumissem a responsabilidade pela organização e pela prestação dos cuidados de saúde primários, 'garantindo mais satisfação a todas as partes'(...). Hoje Fernão Ferro é o único Projecto Alfa vivo. Com mais do que provas dadas".
2. Há três anos que só se ouve falar em empresarialização dos hospitais, em hospitais sociedades anónimas, em doentes, em listas de espera, em programas de recuperação de listas de espera, em parcerias público/privado, em unidades de missão... Há três anos que os centros de saúde, os cuidados de saúde primários, a protecção e a promoção da saúde, os sistemas locais de saúde, a saúde mental dos portugueses, a saúde mental comunitária e outros termos do glossário da moderna saúde pública, desapareceram do discurso do poder.
O ministro da tutela nos dois últimos governos ignorou, olimpicamente, os centros de saúde, os cuidados de saúde primários, os profissonais que lá trabalham, muitas vezes em condições bem duras, com insuficientes recursos humanos, técnicos e financeiros, muitas vezes sem um tostão para comprar uma máquina de café ou o café para a máquina ou mandar reparar o telefone, entalados entre os constrangimentos burocráticos do poder central e as dramáticas pressões da procura por parte de uma população, pobre, envelhecida e abandonada, trabalhando em vãos de escada, fazendo das casa de banho arquivos, sem tempo nem papel para fazer os dossiês clínicos, sem computadores, sem internet, com gente aos berros nos corredores e nas escadas de prédios dos anos 60 e 70, de má qualidade, que já foram caixas dos serviços médico-sociais da previdência estadonovista, nas periferias tristes e cinzentas da grande cidade anónima...
Fernão Ferro é um exemplo, discreto, da muita competência e generosidade de que são capazes os profissionais de saúde que trabalham nos nossos centros de saúde, instituições que estão muito próximas do quotidiano dos portugueses e das comunidades onde estes vivem, dormem, respiram, trabalham, amam, riem, sofrem e choram. Fernão Ferro não é um exemplo único. Mas é exemplar. Ainda bem que o Expresso lhe deu a merecida visibilidade mediática.
3. Eu, por mim, aplaudo: estes e estas portugas, a começar pela directora Maria da Luz Pereira (que eu não conheço pessoalmente), merecem as minhas palmas, as nossas palmas. O seu exemplo é o melhor tónico contra o miserabilismo, o masoquismo e o populismo que minaram a nossa vida política nos últimos anos e até a confiança nas nossas próprias capacidades de realização. Fernão Ferro é, por fim, um exemplo de liderança e de trabalho em equipa, de determinação e de estratégia, que é o que nos tem faltado a todos os níveis, em muitos sectores: gente que pense globalmente, que pense grande, e que aja localmente, que saiba também tomar o peso e a medida das pequenas coisas que é preciso fazer todos os dias, que saiba fazer as pequenas coisas que é preciso fazer todos os dias... Na saúde, na educação, no ambiente, na produção, na cultura...
Fernão Ferro, a sua equipa, os seus médicos, os seus enfermeiros, os seus administrativos e restante pessoal, não vêm nas capas nas revistas côr de rosa, nem são notícia de telejornal por más razões... Mas hoje eles merecem as minhas palmas, as nossas palmas...
Vitor Rainho, editor da revista "Única", diz que "não faltam exemplos de sucesso no Portugal dito sem rumo", e cita entre outros o centro de saúde de Fernão Ferro, no concelho do Seixal, onde "não existem listas de espera" e onde os responsáveis "uniram esforços para conseguir atender uma população envelhecida". O texto é da jornalista Graça Rosendo: "Serviço à medida das pessoas" (leia-se: possibilidade de marcar consultas pelo telefone, visitas domiciliárias, cuidados continuados, cuidados integrados e personalizados, participação comunitária, coooperação intersectorial, organização do trabalho por equipas pluridisciplinares e pluriprofissionais...).
Numa freguesia com 15 mil habitantes, o centro de saúde, ou melhor, a extensão de saúde de Fernão Ferro do Centro de Saúde do Seixal tem seis médicos de família (falta um para garantir a cobertura total da população), os quais aderiram em 1996, juntamente com os seus colegas enfermeiros, administrativos e auxiliares, ao "Projecto Alfa", uma iniciativa inovadora lançada pelo Ministério da Saúde.
Escreve a jornalista: "A ideia era mesmo essa: que os profissionais dos centros de saúde se juntassem e, em equipa, assumissem a responsabilidade pela organização e pela prestação dos cuidados de saúde primários, 'garantindo mais satisfação a todas as partes'(...). Hoje Fernão Ferro é o único Projecto Alfa vivo. Com mais do que provas dadas".
2. Há três anos que só se ouve falar em empresarialização dos hospitais, em hospitais sociedades anónimas, em doentes, em listas de espera, em programas de recuperação de listas de espera, em parcerias público/privado, em unidades de missão... Há três anos que os centros de saúde, os cuidados de saúde primários, a protecção e a promoção da saúde, os sistemas locais de saúde, a saúde mental dos portugueses, a saúde mental comunitária e outros termos do glossário da moderna saúde pública, desapareceram do discurso do poder.
O ministro da tutela nos dois últimos governos ignorou, olimpicamente, os centros de saúde, os cuidados de saúde primários, os profissonais que lá trabalham, muitas vezes em condições bem duras, com insuficientes recursos humanos, técnicos e financeiros, muitas vezes sem um tostão para comprar uma máquina de café ou o café para a máquina ou mandar reparar o telefone, entalados entre os constrangimentos burocráticos do poder central e as dramáticas pressões da procura por parte de uma população, pobre, envelhecida e abandonada, trabalhando em vãos de escada, fazendo das casa de banho arquivos, sem tempo nem papel para fazer os dossiês clínicos, sem computadores, sem internet, com gente aos berros nos corredores e nas escadas de prédios dos anos 60 e 70, de má qualidade, que já foram caixas dos serviços médico-sociais da previdência estadonovista, nas periferias tristes e cinzentas da grande cidade anónima...
Fernão Ferro é um exemplo, discreto, da muita competência e generosidade de que são capazes os profissionais de saúde que trabalham nos nossos centros de saúde, instituições que estão muito próximas do quotidiano dos portugueses e das comunidades onde estes vivem, dormem, respiram, trabalham, amam, riem, sofrem e choram. Fernão Ferro não é um exemplo único. Mas é exemplar. Ainda bem que o Expresso lhe deu a merecida visibilidade mediática.
3. Eu, por mim, aplaudo: estes e estas portugas, a começar pela directora Maria da Luz Pereira (que eu não conheço pessoalmente), merecem as minhas palmas, as nossas palmas. O seu exemplo é o melhor tónico contra o miserabilismo, o masoquismo e o populismo que minaram a nossa vida política nos últimos anos e até a confiança nas nossas próprias capacidades de realização. Fernão Ferro é, por fim, um exemplo de liderança e de trabalho em equipa, de determinação e de estratégia, que é o que nos tem faltado a todos os níveis, em muitos sectores: gente que pense globalmente, que pense grande, e que aja localmente, que saiba também tomar o peso e a medida das pequenas coisas que é preciso fazer todos os dias, que saiba fazer as pequenas coisas que é preciso fazer todos os dias... Na saúde, na educação, no ambiente, na produção, na cultura...
Fernão Ferro, a sua equipa, os seus médicos, os seus enfermeiros, os seus administrativos e restante pessoal, não vêm nas capas nas revistas côr de rosa, nem são notícia de telejornal por más razões... Mas hoje eles merecem as minhas palmas, as nossas palmas...
24 fevereiro 2005
Saúde & Segurança do Trabalho - XVII: O estado do Estado
1. Escrevi há dias: "Quando o Estado não se comporta como pessoa de bem (não cumprindo, nomeadamente, as obrigações legais que impõe aos outros e a si próprio), não vale a pena gastar mais latim"...
Comentava eu uma peça jornalística do "Público", de 13 de Fevereiro de 2005, sobre os "riscos profissionais". Nela dizia Mariana Oliveira, a jornalista:
"A maioria dos organismos da Administração Pública não possui serviços de Medicina do Trabalho. Desde 1991 que a legislação prevê que os empregadores criem estas estruturas, que visam prevenir riscos profissionais e promover a saúde dos trabalhadores, mas mais de uma década depois o Estado continua a não cumprir a exigência. No sector privado, o cenário é bastante mais animador, mas só nas grandes firmas" (...).
E depois citava uma frase que eu lhe terei dito, em entrevista telefónica: "A situação na Administração Pública é escandalosa. O Estado como patrão não cumpre as suas obrigações neste campo e não cria serviços de Medicina do Trabalho".
2. Não sei se utilizei o adjectivo "escandaloso", mas o essencial da afirmação é verdadeira... Não há estatísticas (oficiais ou oficiosas), em Portugal, sobre a cobertura da população trabalhadora por serviços de saúde e segurança do trabalho, quer no sector empresarial quer na administração pública. A tutela (Instituto para a Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho, ex-IDICT, bem a Direcção-Geral de Saúde) não disponibiliza informação sobre esta e outras matérias. O que é escandaloso é sobretudo estes dois organismos da administração central não saberem pura e simplesmente o que se passa num sector que tutelam... Ficamos à espera dos primeiros resultados do tratamento informático e estatístico do relatório anual da actividade dos serviços de saúde e segurança do trabalho (abreviadamente, S&ST). E a propósito: para quando ? A resposta está dependente do Direcção-Geral de Estudos, Estatística e Planeamento (DGEEP), organismo central do ministério que tutela o emprego e a segurança social, e a quem incumbe o tratamento informático e estatítisco da nova fonte de informação administrativa sobre as empresas e os estabelecimentos que é o relatório anual dos serviços de S&ST.
Prossegue a jornalista: "A maior parte dos funcionários dos vários ministérios, escolas, universidades, tribunais, Finanças e Segurança Social nunca foi sequer a uma consulta de Medicina do Trabalho. A própria Inspecção-Geral do Trabalho, que fiscaliza o cumprimento destas regras e aplica multas aos prevaricadores, não esconde que não possui serviços de saúde ocupacional para os seus funcionários. Os grandes hospitais e algumas câmaras municipais são a excepção".
Convenhamos que esta situação é, no minímo, hilariante: A Inspecção-Geral do Trabalho comporta-se como o Frei Tomás ("Faz o que eu te digo, mas não faças o que eu faço"). Por outro lado, nunca ouvi do Ministro da Saúde (deste último, por exemplo)uma palavra de preocupação e incentivo em relação ao desenvolvimento de sistemas de gestão da saúde e segurança do trabalho na função pública, em geral, e no Serviço Nacional de SWaúde (SNS), em particular. Porque em boa verdade o problema não é tanto em termos mais ou menos serviços, mais ou menos médicos do trabalho, mais ou menos técnicos superiores de higiene e segurança do trabalho, como sobretudo em não termos uma estratégica efectiva e concreta nesta área. Temos diplomas legais (montanhas deles!), os quais, diga-se de passagem, fazem as delícias (e enchem os bolsos) dos juslaboristas, compiladores, anotadores e editores de códigos...
3. Paulo Trindade, coordenador da Federação Nacional de Sindicatos da Função Pública, avança com números: "Mais de 85 por cento dos serviços da Administração Pública não estão a cumprir a legislação [sobre S&ST] " (citado por Mariana Oliveira). Os principais organismos da administração pública (Saúde, Educação, Justiça) ignoraram pura e simplesmente o pedido da jornalista para prestarem informação sobre o grau de cumprimento da legislação em vigor em matéria de protecção e promoção da saúde dos funcionários públicos.
Sei que é uma situação desconfortável para um dirigente da administração pública, mas sempre é preferível a transparência e a frontalidade à "lei do silêncio". Esta não é própria de uma adninistração de um país moderno e democrático. Pergunto: para que serve,a final, um Director-Geral ? E um Secretário-Geral de Ministério ? E um Secretário de Estado ? E um Ministro ? E um Primeiro-Ministro ? E os demais órgãos de soberania ? Quem fiscaliza o Estado ?
Mas pergunto também: Para que servem os representantes dos trabalhadores da função pública, e em particular os seus sindicatos ? É verdade que a saúde e a segurança do trabalho continuam, pelo menos em termos gerais, a ser uma reivindidicação dos trabalhadores da função pública: "A efectiva aplicação na Administração Pública da legislação referente a saúde, higiene e segurança no trabalho, em todas as suas vertentes, incluindo a punição de dirigentes responsáveis por situações de infracção" foi, de facto, uma reivindicações da Proposta Reivindicativa 2003 da Frente Comum dos Sindicatos da Administração da Pública, conforme se pode ver no sítio da Federação Nacional dos Sindicatos da Função Pública. Penso, todavia, que os representantes dos trabalhadores da função pública já poderiam ter feito um pouco mais nesta matéria do que a simples retórica: refiro-me a acções de informação, formação, educação, identificação, avaliação e divulgação de exemplos de boas práticas...
4. O adjectivo "escandaloso" acaba, pois, por ser um eufemismo para descrever este lamentável estado de coisas a que chegou o Estado que nos representa e que deveria ser o orgulho de todos nós... Acho, no entanto, que a culpa não pode ser apenas imputada à governamentalização das chefias de topo, à decapitação dos dirigentes ministeriais, à partidarização da máquina do Estado, à desresponsabilização e à desmotivação dos quadros superiores e das chefias intermédias... Ou pode ? O assunto é demasiado sério para ser entregue apenas à responsabilidade e à competência dos "patrões" da função pública... Os trabalhadores devem, também eles, ter um papel proactivo em matéria de prevenção dos riscos profissionais e de promoção da sua saúde.
Comentava eu uma peça jornalística do "Público", de 13 de Fevereiro de 2005, sobre os "riscos profissionais". Nela dizia Mariana Oliveira, a jornalista:
"A maioria dos organismos da Administração Pública não possui serviços de Medicina do Trabalho. Desde 1991 que a legislação prevê que os empregadores criem estas estruturas, que visam prevenir riscos profissionais e promover a saúde dos trabalhadores, mas mais de uma década depois o Estado continua a não cumprir a exigência. No sector privado, o cenário é bastante mais animador, mas só nas grandes firmas" (...).
E depois citava uma frase que eu lhe terei dito, em entrevista telefónica: "A situação na Administração Pública é escandalosa. O Estado como patrão não cumpre as suas obrigações neste campo e não cria serviços de Medicina do Trabalho".
2. Não sei se utilizei o adjectivo "escandaloso", mas o essencial da afirmação é verdadeira... Não há estatísticas (oficiais ou oficiosas), em Portugal, sobre a cobertura da população trabalhadora por serviços de saúde e segurança do trabalho, quer no sector empresarial quer na administração pública. A tutela (Instituto para a Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho, ex-IDICT, bem a Direcção-Geral de Saúde) não disponibiliza informação sobre esta e outras matérias. O que é escandaloso é sobretudo estes dois organismos da administração central não saberem pura e simplesmente o que se passa num sector que tutelam... Ficamos à espera dos primeiros resultados do tratamento informático e estatístico do relatório anual da actividade dos serviços de saúde e segurança do trabalho (abreviadamente, S&ST). E a propósito: para quando ? A resposta está dependente do Direcção-Geral de Estudos, Estatística e Planeamento (DGEEP), organismo central do ministério que tutela o emprego e a segurança social, e a quem incumbe o tratamento informático e estatítisco da nova fonte de informação administrativa sobre as empresas e os estabelecimentos que é o relatório anual dos serviços de S&ST.
Prossegue a jornalista: "A maior parte dos funcionários dos vários ministérios, escolas, universidades, tribunais, Finanças e Segurança Social nunca foi sequer a uma consulta de Medicina do Trabalho. A própria Inspecção-Geral do Trabalho, que fiscaliza o cumprimento destas regras e aplica multas aos prevaricadores, não esconde que não possui serviços de saúde ocupacional para os seus funcionários. Os grandes hospitais e algumas câmaras municipais são a excepção".
Convenhamos que esta situação é, no minímo, hilariante: A Inspecção-Geral do Trabalho comporta-se como o Frei Tomás ("Faz o que eu te digo, mas não faças o que eu faço"). Por outro lado, nunca ouvi do Ministro da Saúde (deste último, por exemplo)uma palavra de preocupação e incentivo em relação ao desenvolvimento de sistemas de gestão da saúde e segurança do trabalho na função pública, em geral, e no Serviço Nacional de SWaúde (SNS), em particular. Porque em boa verdade o problema não é tanto em termos mais ou menos serviços, mais ou menos médicos do trabalho, mais ou menos técnicos superiores de higiene e segurança do trabalho, como sobretudo em não termos uma estratégica efectiva e concreta nesta área. Temos diplomas legais (montanhas deles!), os quais, diga-se de passagem, fazem as delícias (e enchem os bolsos) dos juslaboristas, compiladores, anotadores e editores de códigos...
3. Paulo Trindade, coordenador da Federação Nacional de Sindicatos da Função Pública, avança com números: "Mais de 85 por cento dos serviços da Administração Pública não estão a cumprir a legislação [sobre S&ST] " (citado por Mariana Oliveira). Os principais organismos da administração pública (Saúde, Educação, Justiça) ignoraram pura e simplesmente o pedido da jornalista para prestarem informação sobre o grau de cumprimento da legislação em vigor em matéria de protecção e promoção da saúde dos funcionários públicos.
Sei que é uma situação desconfortável para um dirigente da administração pública, mas sempre é preferível a transparência e a frontalidade à "lei do silêncio". Esta não é própria de uma adninistração de um país moderno e democrático. Pergunto: para que serve,a final, um Director-Geral ? E um Secretário-Geral de Ministério ? E um Secretário de Estado ? E um Ministro ? E um Primeiro-Ministro ? E os demais órgãos de soberania ? Quem fiscaliza o Estado ?
Mas pergunto também: Para que servem os representantes dos trabalhadores da função pública, e em particular os seus sindicatos ? É verdade que a saúde e a segurança do trabalho continuam, pelo menos em termos gerais, a ser uma reivindidicação dos trabalhadores da função pública: "A efectiva aplicação na Administração Pública da legislação referente a saúde, higiene e segurança no trabalho, em todas as suas vertentes, incluindo a punição de dirigentes responsáveis por situações de infracção" foi, de facto, uma reivindicações da Proposta Reivindicativa 2003 da Frente Comum dos Sindicatos da Administração da Pública, conforme se pode ver no sítio da Federação Nacional dos Sindicatos da Função Pública. Penso, todavia, que os representantes dos trabalhadores da função pública já poderiam ter feito um pouco mais nesta matéria do que a simples retórica: refiro-me a acções de informação, formação, educação, identificação, avaliação e divulgação de exemplos de boas práticas...
4. O adjectivo "escandaloso" acaba, pois, por ser um eufemismo para descrever este lamentável estado de coisas a que chegou o Estado que nos representa e que deveria ser o orgulho de todos nós... Acho, no entanto, que a culpa não pode ser apenas imputada à governamentalização das chefias de topo, à decapitação dos dirigentes ministeriais, à partidarização da máquina do Estado, à desresponsabilização e à desmotivação dos quadros superiores e das chefias intermédias... Ou pode ? O assunto é demasiado sério para ser entregue apenas à responsabilidade e à competência dos "patrões" da função pública... Os trabalhadores devem, também eles, ter um papel proactivo em matéria de prevenção dos riscos profissionais e de promoção da sua saúde.
Saúde & Segurança do Trabalho - XVII: O estado do Estado
1. Escrevi há dias: "Quando o Estado não se comporta como pessoa de bem (não cumprindo, nomeadamente, as obrigações legais que impõe aos outros e a si próprio), não vale a pena gastar mais latim"...
Comentava eu uma peça jornalística do "Público", de 13 de Fevereiro de 2005, sobre os "riscos profissionais". Nela dizia Mariana Oliveira, a jornalista:
"A maioria dos organismos da Administração Pública não possui serviços de Medicina do Trabalho. Desde 1991 que a legislação prevê que os empregadores criem estas estruturas, que visam prevenir riscos profissionais e promover a saúde dos trabalhadores, mas mais de uma década depois o Estado continua a não cumprir a exigência. No sector privado, o cenário é bastante mais animador, mas só nas grandes firmas" (...).
E depois citava uma frase que eu lhe terei dito, em entrevista telefónica: "A situação na Administração Pública é escandalosa. O Estado como patrão não cumpre as suas obrigações neste campo e não cria serviços de Medicina do Trabalho".
2. Não sei se utilizei o adjectivo "escandaloso", mas o essencial da afirmação é verdadeira... Não há estatísticas (oficiais ou oficiosas), em Portugal, sobre a cobertura da população trabalhadora por serviços de saúde e segurança do trabalho, quer no sector empresarial quer na administração pública. A tutela (Instituto para a Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho, ex-IDICT, bem a Direcção-Geral de Saúde) não disponibiliza informação sobre esta e outras matérias. O que é escandaloso é sobretudo estes dois organismos da administração central não saberem pura e simplesmente o que se passa num sector que tutelam... Ficamos à espera dos primeiros resultados do tratamento informático e estatístico do relatório anual da actividade dos serviços de saúde e segurança do trabalho (abreviadamente, S&ST). E a propósito: para quando ? A resposta está dependente do Direcção-Geral de Estudos, Estatística e Planeamento (DGEEP), organismo central do ministério que tutela o emprego e a segurança social, e a quem incumbe o tratamento informático e estatítisco da nova fonte de informação administrativa sobre as empresas e os estabelecimentos que é o relatório anual dos serviços de S&ST.
Prossegue a jornalista: "A maior parte dos funcionários dos vários ministérios, escolas, universidades, tribunais, Finanças e Segurança Social nunca foi sequer a uma consulta de Medicina do Trabalho. A própria Inspecção-Geral do Trabalho, que fiscaliza o cumprimento destas regras e aplica multas aos prevaricadores, não esconde que não possui serviços de saúde ocupacional para os seus funcionários. Os grandes hospitais e algumas câmaras municipais são a excepção".
Convenhamos que esta situação é, no minímo, hilariante: A Inspecção-Geral do Trabalho comporta-se como o Frei Tomás ("Faz o que eu te digo, mas não faças o que eu faço"). Por outro lado, nunca ouvi do Ministro da Saúde (deste último, por exemplo)uma palavra de preocupação e incentivo em relação ao desenvolvimento de sistemas de gestão da saúde e segurança do trabalho na função pública, em geral, e no Serviço Nacional de SWaúde (SNS), em particular. Porque em boa verdade o problema não é tanto em termos mais ou menos serviços, mais ou menos médicos do trabalho, mais ou menos técnicos superiores de higiene e segurança do trabalho, como sobretudo em não termos uma estratégica efectiva e concreta nesta área. Temos diplomas legais (montanhas deles!), os quais, diga-se de passagem, fazem as delícias (e enchem os bolsos) dos juslaboristas, compiladores, anotadores e editores de códigos...
3. Paulo Trindade, coordenador da Federação Nacional de Sindicatos da Função Pública, avança com números: "Mais de 85 por cento dos serviços da Administração Pública não estão a cumprir a legislação [sobre S&ST] " (citado por Mariana Oliveira). Os principais organismos da administração pública (Saúde, Educação, Justiça) ignoraram pura e simplesmente o pedido da jornalista para prestarem informação sobre o grau de cumprimento da legislação em vigor em matéria de protecção e promoção da saúde dos funcionários públicos.
Sei que é uma situação desconfortável para um dirigente da administração pública, mas sempre é preferível a transparência e a frontalidade à "lei do silêncio". Esta não é própria de uma adninistração de um país moderno e democrático. Pergunto: para que serve,a final, um Director-Geral ? E um Secretário-Geral de Ministério ? E um Secretário de Estado ? E um Ministro ? E um Primeiro-Ministro ? E os demais órgãos de soberania ? Quem fiscaliza o Estado ?
Mas pergunto também: Para que servem os representantes dos trabalhadores da função pública, e em particular os seus sindicatos ? É verdade que a saúde e a segurança do trabalho continuam, pelo menos em termos gerais, a ser uma reivindidicação dos trabalhadores da função pública: "A efectiva aplicação na Administração Pública da legislação referente a saúde, higiene e segurança no trabalho, em todas as suas vertentes, incluindo a punição de dirigentes responsáveis por situações de infracção" foi, de facto, uma reivindicações da Proposta Reivindicativa 2003 da Frente Comum dos Sindicatos da Administração da Pública, conforme se pode ver no sítio da Federação Nacional dos Sindicatos da Função Pública. Penso, todavia, que os representantes dos trabalhadores da função pública já poderiam ter feito um pouco mais nesta matéria do que a simples retórica: refiro-me a acções de informação, formação, educação, identificação, avaliação e divulgação de exemplos de boas práticas...
4. O adjectivo "escandaloso" acaba, pois, por ser um eufemismo para descrever este lamentável estado de coisas a que chegou o Estado que nos representa e que deveria ser o orgulho de todos nós... Acho, no entanto, que a culpa não pode ser apenas imputada à governamentalização das chefias de topo, à decapitação dos dirigentes ministeriais, à partidarização da máquina do Estado, à desresponsabilização e à desmotivação dos quadros superiores e das chefias intermédias... Ou pode ? O assunto é demasiado sério para ser entregue apenas à responsabilidade e à competência dos "patrões" da função pública... Os trabalhadores devem, também eles, ter um papel proactivo em matéria de prevenção dos riscos profissionais e de promoção da sua saúde.
Comentava eu uma peça jornalística do "Público", de 13 de Fevereiro de 2005, sobre os "riscos profissionais". Nela dizia Mariana Oliveira, a jornalista:
"A maioria dos organismos da Administração Pública não possui serviços de Medicina do Trabalho. Desde 1991 que a legislação prevê que os empregadores criem estas estruturas, que visam prevenir riscos profissionais e promover a saúde dos trabalhadores, mas mais de uma década depois o Estado continua a não cumprir a exigência. No sector privado, o cenário é bastante mais animador, mas só nas grandes firmas" (...).
E depois citava uma frase que eu lhe terei dito, em entrevista telefónica: "A situação na Administração Pública é escandalosa. O Estado como patrão não cumpre as suas obrigações neste campo e não cria serviços de Medicina do Trabalho".
2. Não sei se utilizei o adjectivo "escandaloso", mas o essencial da afirmação é verdadeira... Não há estatísticas (oficiais ou oficiosas), em Portugal, sobre a cobertura da população trabalhadora por serviços de saúde e segurança do trabalho, quer no sector empresarial quer na administração pública. A tutela (Instituto para a Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho, ex-IDICT, bem a Direcção-Geral de Saúde) não disponibiliza informação sobre esta e outras matérias. O que é escandaloso é sobretudo estes dois organismos da administração central não saberem pura e simplesmente o que se passa num sector que tutelam... Ficamos à espera dos primeiros resultados do tratamento informático e estatístico do relatório anual da actividade dos serviços de saúde e segurança do trabalho (abreviadamente, S&ST). E a propósito: para quando ? A resposta está dependente do Direcção-Geral de Estudos, Estatística e Planeamento (DGEEP), organismo central do ministério que tutela o emprego e a segurança social, e a quem incumbe o tratamento informático e estatítisco da nova fonte de informação administrativa sobre as empresas e os estabelecimentos que é o relatório anual dos serviços de S&ST.
Prossegue a jornalista: "A maior parte dos funcionários dos vários ministérios, escolas, universidades, tribunais, Finanças e Segurança Social nunca foi sequer a uma consulta de Medicina do Trabalho. A própria Inspecção-Geral do Trabalho, que fiscaliza o cumprimento destas regras e aplica multas aos prevaricadores, não esconde que não possui serviços de saúde ocupacional para os seus funcionários. Os grandes hospitais e algumas câmaras municipais são a excepção".
Convenhamos que esta situação é, no minímo, hilariante: A Inspecção-Geral do Trabalho comporta-se como o Frei Tomás ("Faz o que eu te digo, mas não faças o que eu faço"). Por outro lado, nunca ouvi do Ministro da Saúde (deste último, por exemplo)uma palavra de preocupação e incentivo em relação ao desenvolvimento de sistemas de gestão da saúde e segurança do trabalho na função pública, em geral, e no Serviço Nacional de SWaúde (SNS), em particular. Porque em boa verdade o problema não é tanto em termos mais ou menos serviços, mais ou menos médicos do trabalho, mais ou menos técnicos superiores de higiene e segurança do trabalho, como sobretudo em não termos uma estratégica efectiva e concreta nesta área. Temos diplomas legais (montanhas deles!), os quais, diga-se de passagem, fazem as delícias (e enchem os bolsos) dos juslaboristas, compiladores, anotadores e editores de códigos...
3. Paulo Trindade, coordenador da Federação Nacional de Sindicatos da Função Pública, avança com números: "Mais de 85 por cento dos serviços da Administração Pública não estão a cumprir a legislação [sobre S&ST] " (citado por Mariana Oliveira). Os principais organismos da administração pública (Saúde, Educação, Justiça) ignoraram pura e simplesmente o pedido da jornalista para prestarem informação sobre o grau de cumprimento da legislação em vigor em matéria de protecção e promoção da saúde dos funcionários públicos.
Sei que é uma situação desconfortável para um dirigente da administração pública, mas sempre é preferível a transparência e a frontalidade à "lei do silêncio". Esta não é própria de uma adninistração de um país moderno e democrático. Pergunto: para que serve,a final, um Director-Geral ? E um Secretário-Geral de Ministério ? E um Secretário de Estado ? E um Ministro ? E um Primeiro-Ministro ? E os demais órgãos de soberania ? Quem fiscaliza o Estado ?
Mas pergunto também: Para que servem os representantes dos trabalhadores da função pública, e em particular os seus sindicatos ? É verdade que a saúde e a segurança do trabalho continuam, pelo menos em termos gerais, a ser uma reivindidicação dos trabalhadores da função pública: "A efectiva aplicação na Administração Pública da legislação referente a saúde, higiene e segurança no trabalho, em todas as suas vertentes, incluindo a punição de dirigentes responsáveis por situações de infracção" foi, de facto, uma reivindicações da Proposta Reivindicativa 2003 da Frente Comum dos Sindicatos da Administração da Pública, conforme se pode ver no sítio da Federação Nacional dos Sindicatos da Função Pública. Penso, todavia, que os representantes dos trabalhadores da função pública já poderiam ter feito um pouco mais nesta matéria do que a simples retórica: refiro-me a acções de informação, formação, educação, identificação, avaliação e divulgação de exemplos de boas práticas...
4. O adjectivo "escandaloso" acaba, pois, por ser um eufemismo para descrever este lamentável estado de coisas a que chegou o Estado que nos representa e que deveria ser o orgulho de todos nós... Acho, no entanto, que a culpa não pode ser apenas imputada à governamentalização das chefias de topo, à decapitação dos dirigentes ministeriais, à partidarização da máquina do Estado, à desresponsabilização e à desmotivação dos quadros superiores e das chefias intermédias... Ou pode ? O assunto é demasiado sério para ser entregue apenas à responsabilidade e à competência dos "patrões" da função pública... Os trabalhadores devem, também eles, ter um papel proactivo em matéria de prevenção dos riscos profissionais e de promoção da sua saúde.
23 fevereiro 2005
Portugal sacro-profano - XXIV: In hoc S(ign)ocrates vinces
Séculos e séculos de inquisição e de delação, de bufaria, de esbirros e de pides: são (maus) hábitos de cidadania que não desaparecem facilmente, nem mesmo com a pedagogia da democracia.
Pois que viva a liberdade!... Não há nada (e ainda bem!) que não se queira conhecer e investigar na terra dos portugas... (Excepto talvez o mais importante e o mais essencial, mas adiante). Sócrates venceu, ou seja convenceu o Zé Portuga. A sua mensagem passou, com eficácia. E não foi seguramente pelo "curriculum vitae" do líder do Partido Socialista. Poucos dos eleitores terão lido sequer o sítio oficial do PS onde se apresenta o secretário-geral nestes termos: "Licenciado em Engenharia Civil, concluiu depois uma pós-graduação em Engenharia Sanitária, na Escola Nacional de Saúde Pública"...
Há quem não entenda, nem queira entender nem nunca provavelmente irá entender as diferenças entre a democracia e o resto. É-se líder porque se exerce e se pratica a liderança. Porque se assume, se aceita e se reconhece a liderança. Porque se é reconhecido como líder. E não porque se é bacharel, licenciado, mestre ou doutorado em qualquer coisa: liderança, política, direito, gestão, comunicação, economia, saúde, filosofia, escrita criativa, sedução, marketing, manipulação, terrorismo. Ou até em engenharia, que tem mais a ver com a administração das coisas (materiais) do que com o governo dos homens.
Chega-se a primeiro-ministro não por causa da idade, da experiência, do carisma, da inteligência, das medidas antropométricas, da cor dos olhos, do dinheiro, dos canudos, da imagem, do patois, dos privilégios ou de outros traços (pessoais ou socioculturais) que podem dar peso ao "curriculum vitae" do candidato, mas por outras qualidades que foram validadas nas urnas pelo universo dos cidadãos. A legitimação pelo voto: a democracia é isso, quer se goste ou não do jogo. A liderança e o sucesso da liderança em política continuam a ser conceitos de "caixa preta": poderímos citar centenas de figuras históricas e de dirigentes políticos actuais... Mas, por favor, poupem-me a esse exercício penoso.
Pois é, há já aí uns ratos, uns pequenos mamíferos roedores, a vasculhar o lixo, a examinar os papéis, a incubar o bacilo da peste da má língua e da inveja, a pôr em causa o curriculum vitae do vencedor... Não vale a pena citar o bloguista do dito Portugal Profundo. Seria dar-lhe demasiada importância. Mas é interessante assinalar a energia que se consome neste país (que nem sequer tem dimensão para ser um quintal do mundo, comparado com um Brasil que tem justamente à frente dos seus destinos um ex-operário metalúrgico), só a alimentar a maledicência, a cultivar a inveja, a afiar a má-língua e a encenar a mentira. Agora imaginem que o nosso homem, hoje indigitado primeiro-ministro de Portugal, tinha tido a infelicidade de nascer num daqueles lugares pitorescos do Portugal Profundo, como por exemplo, a Rata ou o Rato...
Esta coisa tão mesquinha do denegrir o sucesso dos outros é muita nossa. Esta coisa de ostentar e comparar títulos, diplomas, insíginas, galões e outros sinais de distinção (social) é muito nossa. É muita própria dos primatas sociais e territoriais que nós somos. Não sei se é própria dos hominídeos em geral, enquanto género, ou se é exclusiva da espécie Homo Sapiens Sapiens Lusitanus.
Espero bem que não façam parte do nosso genótipo (felizmente, que não há determinismo genético nestas coisas). Mas às vezes receio que faça parte do nosso fenótipo sociocultural...
Pois que viva a liberdade!... Não há nada (e ainda bem!) que não se queira conhecer e investigar na terra dos portugas... (Excepto talvez o mais importante e o mais essencial, mas adiante). Sócrates venceu, ou seja convenceu o Zé Portuga. A sua mensagem passou, com eficácia. E não foi seguramente pelo "curriculum vitae" do líder do Partido Socialista. Poucos dos eleitores terão lido sequer o sítio oficial do PS onde se apresenta o secretário-geral nestes termos: "Licenciado em Engenharia Civil, concluiu depois uma pós-graduação em Engenharia Sanitária, na Escola Nacional de Saúde Pública"...
Há quem não entenda, nem queira entender nem nunca provavelmente irá entender as diferenças entre a democracia e o resto. É-se líder porque se exerce e se pratica a liderança. Porque se assume, se aceita e se reconhece a liderança. Porque se é reconhecido como líder. E não porque se é bacharel, licenciado, mestre ou doutorado em qualquer coisa: liderança, política, direito, gestão, comunicação, economia, saúde, filosofia, escrita criativa, sedução, marketing, manipulação, terrorismo. Ou até em engenharia, que tem mais a ver com a administração das coisas (materiais) do que com o governo dos homens.
Chega-se a primeiro-ministro não por causa da idade, da experiência, do carisma, da inteligência, das medidas antropométricas, da cor dos olhos, do dinheiro, dos canudos, da imagem, do patois, dos privilégios ou de outros traços (pessoais ou socioculturais) que podem dar peso ao "curriculum vitae" do candidato, mas por outras qualidades que foram validadas nas urnas pelo universo dos cidadãos. A legitimação pelo voto: a democracia é isso, quer se goste ou não do jogo. A liderança e o sucesso da liderança em política continuam a ser conceitos de "caixa preta": poderímos citar centenas de figuras históricas e de dirigentes políticos actuais... Mas, por favor, poupem-me a esse exercício penoso.
Pois é, há já aí uns ratos, uns pequenos mamíferos roedores, a vasculhar o lixo, a examinar os papéis, a incubar o bacilo da peste da má língua e da inveja, a pôr em causa o curriculum vitae do vencedor... Não vale a pena citar o bloguista do dito Portugal Profundo. Seria dar-lhe demasiada importância. Mas é interessante assinalar a energia que se consome neste país (que nem sequer tem dimensão para ser um quintal do mundo, comparado com um Brasil que tem justamente à frente dos seus destinos um ex-operário metalúrgico), só a alimentar a maledicência, a cultivar a inveja, a afiar a má-língua e a encenar a mentira. Agora imaginem que o nosso homem, hoje indigitado primeiro-ministro de Portugal, tinha tido a infelicidade de nascer num daqueles lugares pitorescos do Portugal Profundo, como por exemplo, a Rata ou o Rato...
Esta coisa tão mesquinha do denegrir o sucesso dos outros é muita nossa. Esta coisa de ostentar e comparar títulos, diplomas, insíginas, galões e outros sinais de distinção (social) é muito nossa. É muita própria dos primatas sociais e territoriais que nós somos. Não sei se é própria dos hominídeos em geral, enquanto género, ou se é exclusiva da espécie Homo Sapiens Sapiens Lusitanus.
Espero bem que não façam parte do nosso genótipo (felizmente, que não há determinismo genético nestas coisas). Mas às vezes receio que faça parte do nosso fenótipo sociocultural...
Portugal sacro-profano - XXIV: In hoc S(ign)ocrates vinces
Séculos e séculos de inquisição e de delação, de bufaria, de esbirros e de pides: são (maus) hábitos de cidadania que não desaparecem facilmente, nem mesmo com a pedagogia da democracia.
Pois que viva a liberdade!... Não há nada (e ainda bem!) que não se queira conhecer e investigar na terra dos portugas... (Excepto talvez o mais importante e o mais essencial, mas adiante). Sócrates venceu, ou seja convenceu o Zé Portuga. A sua mensagem passou, com eficácia. E não foi seguramente pelo "curriculum vitae" do líder do Partido Socialista. Poucos dos eleitores terão lido sequer o sítio oficial do PS onde se apresenta o secretário-geral nestes termos: "Licenciado em Engenharia Civil, concluiu depois uma pós-graduação em Engenharia Sanitária, na Escola Nacional de Saúde Pública"...
Há quem não entenda, nem queira entender nem nunca provavelmente irá entender as diferenças entre a democracia e o resto. É-se líder porque se exerce e se pratica a liderança. Porque se assume, se aceita e se reconhece a liderança. Porque se é reconhecido como líder. E não porque se é bacharel, licenciado, mestre ou doutorado em qualquer coisa: liderança, política, direito, gestão, comunicação, economia, saúde, filosofia, escrita criativa, sedução, marketing, manipulação, terrorismo. Ou até em engenharia, que tem mais a ver com a administração das coisas (materiais) do que com o governo dos homens.
Chega-se a primeiro-ministro não por causa da idade, da experiência, do carisma, da inteligência, das medidas antropométricas, da cor dos olhos, do dinheiro, dos canudos, da imagem, do patois, dos privilégios ou de outros traços (pessoais ou socioculturais) que podem dar peso ao "curriculum vitae" do candidato, mas por outras qualidades que foram validadas nas urnas pelo universo dos cidadãos. A legitimação pelo voto: a democracia é isso, quer se goste ou não do jogo. A liderança e o sucesso da liderança em política continuam a ser conceitos de "caixa preta": poderímos citar centenas de figuras históricas e de dirigentes políticos actuais... Mas, por favor, poupem-me a esse exercício penoso.
Pois é, há já aí uns ratos, uns pequenos mamíferos roedores, a vasculhar o lixo, a examinar os papéis, a incubar o bacilo da peste da má língua e da inveja, a pôr em causa o curriculum vitae do vencedor... Não vale a pena citar o bloguista do dito Portugal Profundo. Seria dar-lhe demasiada importância. Mas é interessante assinalar a energia que se consome neste país (que nem sequer tem dimensão para ser um quintal do mundo, comparado com um Brasil que tem justamente à frente dos seus destinos um ex-operário metalúrgico), só a alimentar a maledicência, a cultivar a inveja, a afiar a má-língua e a encenar a mentira. Agora imaginem que o nosso homem, hoje indigitado primeiro-ministro de Portugal, tinha tido a infelicidade de nascer num daqueles lugares pitorescos do Portugal Profundo, como por exemplo, a Rata ou o Rato...
Esta coisa tão mesquinha do denegrir o sucesso dos outros é muita nossa. Esta coisa de ostentar e comparar títulos, diplomas, insíginas, galões e outros sinais de distinção (social) é muito nossa. É muita própria dos primatas sociais e territoriais que nós somos. Não sei se é própria dos hominídeos em geral, enquanto género, ou se é exclusiva da espécie Homo Sapiens Sapiens Lusitanus.
Espero bem que não façam parte do nosso genótipo (felizmente, que não há determinismo genético nestas coisas). Mas às vezes receio que faça parte do nosso fenótipo sociocultural...
Pois que viva a liberdade!... Não há nada (e ainda bem!) que não se queira conhecer e investigar na terra dos portugas... (Excepto talvez o mais importante e o mais essencial, mas adiante). Sócrates venceu, ou seja convenceu o Zé Portuga. A sua mensagem passou, com eficácia. E não foi seguramente pelo "curriculum vitae" do líder do Partido Socialista. Poucos dos eleitores terão lido sequer o sítio oficial do PS onde se apresenta o secretário-geral nestes termos: "Licenciado em Engenharia Civil, concluiu depois uma pós-graduação em Engenharia Sanitária, na Escola Nacional de Saúde Pública"...
Há quem não entenda, nem queira entender nem nunca provavelmente irá entender as diferenças entre a democracia e o resto. É-se líder porque se exerce e se pratica a liderança. Porque se assume, se aceita e se reconhece a liderança. Porque se é reconhecido como líder. E não porque se é bacharel, licenciado, mestre ou doutorado em qualquer coisa: liderança, política, direito, gestão, comunicação, economia, saúde, filosofia, escrita criativa, sedução, marketing, manipulação, terrorismo. Ou até em engenharia, que tem mais a ver com a administração das coisas (materiais) do que com o governo dos homens.
Chega-se a primeiro-ministro não por causa da idade, da experiência, do carisma, da inteligência, das medidas antropométricas, da cor dos olhos, do dinheiro, dos canudos, da imagem, do patois, dos privilégios ou de outros traços (pessoais ou socioculturais) que podem dar peso ao "curriculum vitae" do candidato, mas por outras qualidades que foram validadas nas urnas pelo universo dos cidadãos. A legitimação pelo voto: a democracia é isso, quer se goste ou não do jogo. A liderança e o sucesso da liderança em política continuam a ser conceitos de "caixa preta": poderímos citar centenas de figuras históricas e de dirigentes políticos actuais... Mas, por favor, poupem-me a esse exercício penoso.
Pois é, há já aí uns ratos, uns pequenos mamíferos roedores, a vasculhar o lixo, a examinar os papéis, a incubar o bacilo da peste da má língua e da inveja, a pôr em causa o curriculum vitae do vencedor... Não vale a pena citar o bloguista do dito Portugal Profundo. Seria dar-lhe demasiada importância. Mas é interessante assinalar a energia que se consome neste país (que nem sequer tem dimensão para ser um quintal do mundo, comparado com um Brasil que tem justamente à frente dos seus destinos um ex-operário metalúrgico), só a alimentar a maledicência, a cultivar a inveja, a afiar a má-língua e a encenar a mentira. Agora imaginem que o nosso homem, hoje indigitado primeiro-ministro de Portugal, tinha tido a infelicidade de nascer num daqueles lugares pitorescos do Portugal Profundo, como por exemplo, a Rata ou o Rato...
Esta coisa tão mesquinha do denegrir o sucesso dos outros é muita nossa. Esta coisa de ostentar e comparar títulos, diplomas, insíginas, galões e outros sinais de distinção (social) é muito nossa. É muita própria dos primatas sociais e territoriais que nós somos. Não sei se é própria dos hominídeos em geral, enquanto género, ou se é exclusiva da espécie Homo Sapiens Sapiens Lusitanus.
Espero bem que não façam parte do nosso genótipo (felizmente, que não há determinismo genético nestas coisas). Mas às vezes receio que faça parte do nosso fenótipo sociocultural...
20 fevereiro 2005
Portugal sacro-profano - XXIII: Gostava de falar do meu país...
Parafraseando um dos nossos grandes "vencidos da vida" mas também um dos melhores de todos nós, o António Barreto (Público, de 20 de Fevereiro de 2005), "gostaria de falar do meu país, mas hoje não posso falar de política".
Portugal sacro-profano - XXIII: Gostava de falar do meu país...
Parafraseando um dos nossos grandes "vencidos da vida" mas também um dos melhores de todos nós, o António Barreto (Público, de 20 de Fevereiro de 2005), "gostaria de falar do meu país, mas hoje não posso falar de política".
15 fevereiro 2005
Saúde & Segurança do Trabalho - XVI: A tragicomédia da participação
1. Escreve a jornalista Mariana Oliveira, no destaque do "Público" sobre "riscos profissionais", na sua edição de domingo passado: "A participação dos trabalhadores na área de segurança, higiene e saúde no trabalho ainda é muito deficitária (sic). Desde 1991 que a lei prevê a possibilidade dos operários elegerem representantes que se pronunciem e proponham medidas para prevenir os riscos profissionais, mas os sindicatos estimam que em todo o universo empresarial português existam menos de 1800 elementos a exercer estas funções".
2. Para Joaquim Dionísio, responsável pelo gabinete de estudos da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), a questão tão falada da regulamentação da participação dos trabalhadores (que só se efectivou em 2004, mas que já estava prevista desde 1991), seria uma falsa questão. "A regulamentação não vai alterar nada. As eleições [ para os representantes dos trabalhadores para a área da saúde e segurança do trabalho, abreviadamenet S&ST ]já estavam a ser feitas ao abrigo da anterior legislação. O problema é que muitos sindicatos não consideram esta questão prioritária". Segundo este dirigente sindical, em 1750 representantes na área da saúde e segurança que deverão existir (segundo estimativas da CGTP), "mais de 1700 foram eleitos nas listas" desta Central Sindical.
3. os velhos fantasmas do passado vêm ao de cima. Ainda não os conseguimos exorcizar. Enquanto as centrais sindicais contam espingardas (em vez de apostarem forte na formação dos representantes dos trabalhadores para área da S&ST), o presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), Francisco van Zeller, faz-se eco do velho receio dos empresários segundo o qual esta é mais uma potencialmente perigosa figura de agitador sindical: segundo a jornalista do "Público", o dirigente da CIP terá dito que a intervenção dos representantes dos trabalhadores se traduz, na prática, "em reivindicações cegas, só para complicar" (sic)a vida às empresas e aos empresários. E terá acrescentado, civilizadamente, que não tem nada contra o princípio: "A participação dos trabalhadores, sempre que razoável e responsável, não pode deixar de ser valorada positivamente".
4. Pessoalmente, acho que a afirmação da jornalista do "Pùblico" peca por efeito: dizer que a participação dos trabalhadores portugueses em matéria de saúde e segurança do trabalho é "deficitária" é um eufemismo. Neste como noutros domínios, temos que "pegar o boi pelos cornos" e acabar com os paninhos quentinhos: como diz o Joaquim Dionísio (e ele é insuspeito) os sindicatos (tanto os da UGT como os CGTP mais os restantes, incluindo os "não-alinhados") têm uma agenda com outros prioridades.
Por outro lado, as empresas, os empresa´rios e os gestores ainda não perceberam que é do seu interesse envolver os trabalhadores na identificação e resolução de problemas neste como nos restantes domínios que são cruciais para ganharmos as batalhas que faltam para ganhar a guerra do futuro.
Por seu turno, os médicos do trabalho, os engenheiros de segurança e os demais profissionais que trabalham nesta área anda distraídos (opu melhor: ocupados) a ganhar a sua vidinha e ainda não perceberam quão importante é a participação dos trabalhadores para o desenvolvimento (político, social, económico, técnico, científico, ético e profissional) deste domínio do conhecimento e da acção...
Já não falo dos restantes "stakeholders", a começar pelo Estado que, esse, faz o papel de triste figura nesta tragicomédia do cumprimento da legislação e regulamentação em matéria de S&ST... Quando o Estado não se comporta como pessoa de bem (não cumprindo, nomeadamente, as obrigações legais que impõe aos outros e a si próprio), não vale a pena gastar mais latim...
2. Para Joaquim Dionísio, responsável pelo gabinete de estudos da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), a questão tão falada da regulamentação da participação dos trabalhadores (que só se efectivou em 2004, mas que já estava prevista desde 1991), seria uma falsa questão. "A regulamentação não vai alterar nada. As eleições [ para os representantes dos trabalhadores para a área da saúde e segurança do trabalho, abreviadamenet S&ST ]já estavam a ser feitas ao abrigo da anterior legislação. O problema é que muitos sindicatos não consideram esta questão prioritária". Segundo este dirigente sindical, em 1750 representantes na área da saúde e segurança que deverão existir (segundo estimativas da CGTP), "mais de 1700 foram eleitos nas listas" desta Central Sindical.
3. os velhos fantasmas do passado vêm ao de cima. Ainda não os conseguimos exorcizar. Enquanto as centrais sindicais contam espingardas (em vez de apostarem forte na formação dos representantes dos trabalhadores para área da S&ST), o presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), Francisco van Zeller, faz-se eco do velho receio dos empresários segundo o qual esta é mais uma potencialmente perigosa figura de agitador sindical: segundo a jornalista do "Público", o dirigente da CIP terá dito que a intervenção dos representantes dos trabalhadores se traduz, na prática, "em reivindicações cegas, só para complicar" (sic)a vida às empresas e aos empresários. E terá acrescentado, civilizadamente, que não tem nada contra o princípio: "A participação dos trabalhadores, sempre que razoável e responsável, não pode deixar de ser valorada positivamente".
4. Pessoalmente, acho que a afirmação da jornalista do "Pùblico" peca por efeito: dizer que a participação dos trabalhadores portugueses em matéria de saúde e segurança do trabalho é "deficitária" é um eufemismo. Neste como noutros domínios, temos que "pegar o boi pelos cornos" e acabar com os paninhos quentinhos: como diz o Joaquim Dionísio (e ele é insuspeito) os sindicatos (tanto os da UGT como os CGTP mais os restantes, incluindo os "não-alinhados") têm uma agenda com outros prioridades.
Por outro lado, as empresas, os empresa´rios e os gestores ainda não perceberam que é do seu interesse envolver os trabalhadores na identificação e resolução de problemas neste como nos restantes domínios que são cruciais para ganharmos as batalhas que faltam para ganhar a guerra do futuro.
Por seu turno, os médicos do trabalho, os engenheiros de segurança e os demais profissionais que trabalham nesta área anda distraídos (opu melhor: ocupados) a ganhar a sua vidinha e ainda não perceberam quão importante é a participação dos trabalhadores para o desenvolvimento (político, social, económico, técnico, científico, ético e profissional) deste domínio do conhecimento e da acção...
Já não falo dos restantes "stakeholders", a começar pelo Estado que, esse, faz o papel de triste figura nesta tragicomédia do cumprimento da legislação e regulamentação em matéria de S&ST... Quando o Estado não se comporta como pessoa de bem (não cumprindo, nomeadamente, as obrigações legais que impõe aos outros e a si próprio), não vale a pena gastar mais latim...
Saúde & Segurança do Trabalho - XVI: A tragicomédia da participação
1. Escreve a jornalista Mariana Oliveira, no destaque do "Público" sobre "riscos profissionais", na sua edição de domingo passado: "A participação dos trabalhadores na área de segurança, higiene e saúde no trabalho ainda é muito deficitária (sic). Desde 1991 que a lei prevê a possibilidade dos operários elegerem representantes que se pronunciem e proponham medidas para prevenir os riscos profissionais, mas os sindicatos estimam que em todo o universo empresarial português existam menos de 1800 elementos a exercer estas funções".
2. Para Joaquim Dionísio, responsável pelo gabinete de estudos da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), a questão tão falada da regulamentação da participação dos trabalhadores (que só se efectivou em 2004, mas que já estava prevista desde 1991), seria uma falsa questão. "A regulamentação não vai alterar nada. As eleições [ para os representantes dos trabalhadores para a área da saúde e segurança do trabalho, abreviadamenet S&ST ]já estavam a ser feitas ao abrigo da anterior legislação. O problema é que muitos sindicatos não consideram esta questão prioritária". Segundo este dirigente sindical, em 1750 representantes na área da saúde e segurança que deverão existir (segundo estimativas da CGTP), "mais de 1700 foram eleitos nas listas" desta Central Sindical.
3. os velhos fantasmas do passado vêm ao de cima. Ainda não os conseguimos exorcizar. Enquanto as centrais sindicais contam espingardas (em vez de apostarem forte na formação dos representantes dos trabalhadores para área da S&ST), o presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), Francisco van Zeller, faz-se eco do velho receio dos empresários segundo o qual esta é mais uma potencialmente perigosa figura de agitador sindical: segundo a jornalista do "Público", o dirigente da CIP terá dito que a intervenção dos representantes dos trabalhadores se traduz, na prática, "em reivindicações cegas, só para complicar" (sic)a vida às empresas e aos empresários. E terá acrescentado, civilizadamente, que não tem nada contra o princípio: "A participação dos trabalhadores, sempre que razoável e responsável, não pode deixar de ser valorada positivamente".
4. Pessoalmente, acho que a afirmação da jornalista do "Pùblico" peca por efeito: dizer que a participação dos trabalhadores portugueses em matéria de saúde e segurança do trabalho é "deficitária" é um eufemismo. Neste como noutros domínios, temos que "pegar o boi pelos cornos" e acabar com os paninhos quentinhos: como diz o Joaquim Dionísio (e ele é insuspeito) os sindicatos (tanto os da UGT como os CGTP mais os restantes, incluindo os "não-alinhados") têm uma agenda com outros prioridades.
Por outro lado, as empresas, os empresa´rios e os gestores ainda não perceberam que é do seu interesse envolver os trabalhadores na identificação e resolução de problemas neste como nos restantes domínios que são cruciais para ganharmos as batalhas que faltam para ganhar a guerra do futuro.
Por seu turno, os médicos do trabalho, os engenheiros de segurança e os demais profissionais que trabalham nesta área anda distraídos (opu melhor: ocupados) a ganhar a sua vidinha e ainda não perceberam quão importante é a participação dos trabalhadores para o desenvolvimento (político, social, económico, técnico, científico, ético e profissional) deste domínio do conhecimento e da acção...
Já não falo dos restantes "stakeholders", a começar pelo Estado que, esse, faz o papel de triste figura nesta tragicomédia do cumprimento da legislação e regulamentação em matéria de S&ST... Quando o Estado não se comporta como pessoa de bem (não cumprindo, nomeadamente, as obrigações legais que impõe aos outros e a si próprio), não vale a pena gastar mais latim...
2. Para Joaquim Dionísio, responsável pelo gabinete de estudos da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), a questão tão falada da regulamentação da participação dos trabalhadores (que só se efectivou em 2004, mas que já estava prevista desde 1991), seria uma falsa questão. "A regulamentação não vai alterar nada. As eleições [ para os representantes dos trabalhadores para a área da saúde e segurança do trabalho, abreviadamenet S&ST ]já estavam a ser feitas ao abrigo da anterior legislação. O problema é que muitos sindicatos não consideram esta questão prioritária". Segundo este dirigente sindical, em 1750 representantes na área da saúde e segurança que deverão existir (segundo estimativas da CGTP), "mais de 1700 foram eleitos nas listas" desta Central Sindical.
3. os velhos fantasmas do passado vêm ao de cima. Ainda não os conseguimos exorcizar. Enquanto as centrais sindicais contam espingardas (em vez de apostarem forte na formação dos representantes dos trabalhadores para área da S&ST), o presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), Francisco van Zeller, faz-se eco do velho receio dos empresários segundo o qual esta é mais uma potencialmente perigosa figura de agitador sindical: segundo a jornalista do "Público", o dirigente da CIP terá dito que a intervenção dos representantes dos trabalhadores se traduz, na prática, "em reivindicações cegas, só para complicar" (sic)a vida às empresas e aos empresários. E terá acrescentado, civilizadamente, que não tem nada contra o princípio: "A participação dos trabalhadores, sempre que razoável e responsável, não pode deixar de ser valorada positivamente".
4. Pessoalmente, acho que a afirmação da jornalista do "Pùblico" peca por efeito: dizer que a participação dos trabalhadores portugueses em matéria de saúde e segurança do trabalho é "deficitária" é um eufemismo. Neste como noutros domínios, temos que "pegar o boi pelos cornos" e acabar com os paninhos quentinhos: como diz o Joaquim Dionísio (e ele é insuspeito) os sindicatos (tanto os da UGT como os CGTP mais os restantes, incluindo os "não-alinhados") têm uma agenda com outros prioridades.
Por outro lado, as empresas, os empresa´rios e os gestores ainda não perceberam que é do seu interesse envolver os trabalhadores na identificação e resolução de problemas neste como nos restantes domínios que são cruciais para ganharmos as batalhas que faltam para ganhar a guerra do futuro.
Por seu turno, os médicos do trabalho, os engenheiros de segurança e os demais profissionais que trabalham nesta área anda distraídos (opu melhor: ocupados) a ganhar a sua vidinha e ainda não perceberam quão importante é a participação dos trabalhadores para o desenvolvimento (político, social, económico, técnico, científico, ético e profissional) deste domínio do conhecimento e da acção...
Já não falo dos restantes "stakeholders", a começar pelo Estado que, esse, faz o papel de triste figura nesta tragicomédia do cumprimento da legislação e regulamentação em matéria de S&ST... Quando o Estado não se comporta como pessoa de bem (não cumprindo, nomeadamente, as obrigações legais que impõe aos outros e a si próprio), não vale a pena gastar mais latim...
14 fevereiro 2005
Saúde & Segurança do Trabalho - XV: Uma gralha para a eternidade
1. O jornal "Público" de ontem, 13 de Fevereiro de 2005, dedicou três páginas, na secção "Destaque", ao problema dos "Riscos Profissionais"(pp. 2 a 4). O trabalho, excelente, é de dois jovens jornalistas da redacção do Porto, a Mariana Oliveira e Rafael Matos.
Noutra ocasião, terei oportunidade de comentar, com mais detalhe, esta peça jornalística. Por agora, queria só destacar uma frase do Rafael Matos, a propósito do aumento de 22%, em sete anos (1997-2004), do número de pensionistas de doenças profissionais. Diz ele algures (p. 4), que "já em 1994, na altura do lançamento do Livro Verde dos Serviços de Prevenção das Empresas (...) os custos totais (directos e indirectos) [dos acidentes de trabalho e das doenças profissionais] eram estimados em 600 milhões de contos". Julgo que o jornalista se queria referir ao Livro Branco (lançado em 1999)e não ao Livro Verde (que também não é de 1994 mas de 1997).
2. Nunca soube como é que a Comissão do Livro Branco, editado pelo ex-IDICT, chegou a esta estimativa. Ou qual a sua fonte. Não vou aqui discutir se a estimativa está correcta ou não. Mas há cautelas téorico-metodológicas que andam, por vezes, arredadadas das preocupações dos sábios que fazem parte destas comissões dos livros verdes e dos livros brancos, mesmo quando a missão é patriótica e o trabalho gratuito.
Parece-me haver alguma ligeireza, em Portugal, quando as pessoas puxam por números para apoiar ou reforçar um ponto de vista. Salvo melhor opinião, isso aconteceu com Livro Branco dos Serviços de Prevenção das Empresas (publicado em 1999). É aí que vem a famosa estimativa dos 600 milhões de contos anuais, dez vezes mais do que os custos directos com a reparação, a cargo das companhias de seguros (para os acidentes de trabalho) e da Segurança Social (para as doenças profissionais) (Livro Branco, IDICT, 1999, p.33).
Em devido tempo e noutro lugar defendi que seria útil, interessante e até pedagógico que se mostrasse, por a mais b, quanto é o montante dos custos (directos e indirectos) dos acidentes de trabalho e das doenças profissionais em Portugal. Esse trabalho de casa não foi feito. Por outro lado, e em assunto tão sério, a referida Comissão também revelou alguma ligeireza ao deixar passar a monumental gralha que torna inelegível, absurdo e inevitavelmente hilariante o quadro estatístico apresentado na página 29 do Livro Branco: Citando o Instituto de Seguros de Portugal, a Comissão do Livro Verde diz, preto no branco, que o custo dos acidentes de trabalho, em milhões de contos, foi de 40.700 em 1990, 49.500 em 1991, 56.600 em 1992, 57.500 em 1993, 66.400 em 1994 e de 59.400 em 1995... Felizmente que os encargos (directos) com a reparação dos acidentes não custam o dobro do nosso PIB!... Mas a arreliadora falta de uma vírgula nos números apresentados na quarta linha é isso que sugere: o número correcto é 40,7 milhões em 1990 (40 milhões e 700 mil contos) e assim sucessivamente.
Para qualquer estudante de economia ou de sociologia, familiarizado com as contas nacionais, o lapso é de imediato detectável (Será ?)...Mas não para o pobre do leitor comum que troca facilmente milhões por biliões...
3.É uma arreliadora gralha que manchou um pouco o trabalho (de resto, excelente) da Comissão do Livro Branco, e que já vinha da versão original publicada on-line na página do IDICT na Internet. Errar é humano e falar com números nem sempre é fácil. Mas o que é um facto é que a gralha ficou para a posteridade, em letra de forma.
Dir-me-ão que tudo isto não passa de petite histoire, tal como a famosa gaffe do Eng. António Guterres a respeito do nosso PIB. Concordo plenamente. Mas aconteceu e só é eventualmente explicável, neste como noutros casos, pela falta de tempo, pela falta de verba para pagar a revisão técnico ou científica dos documentos ou outras desculpas de mau pagador...
O problema é que os livros (verdes ou brancos) também servem de arma de arremesso. Para a História é de recordar que a comissão (ou o seu presidente) teve a percepção da oportunidade (política) em divulgar on line o documento, just in time e à revelia da sua tutela, o Secretário de Estado da Segurança Social e das Relações Laborais. O presidente da Comissão do Livro Branco tinha acabado de ser demitido do cargo de presidente do IDICT, por alegada perda de confiança política. Recorde-se que o seu superior hierárquico, o Secretário de Estado, tinha acabado de autorizar, por deferimento tácito, a credenciação da UCS-Unidade de Cuidados de Saúde, SA (ligada à TAP - Air Portugal), como empresa idónea para a prestação de serviços de saúde e segurança do trabalho. O pedido de credenciação da UCS encontrava-se no IDICT desde 1995, com mais umas quatro ou cinco centenas de outros.
Entretanto, o documento (Livro Branco dos Serviços de Prevenção das Empresas) saiu mais tarde, em Outubro de 1999, em letra de forma, em edição do IDICT. Faz hoje parte da série Estudos, já não incomoda ninguém mas, hélàs!, pode continuar a enganar muita boa gente. A versão em papel vem enriquecida com a indispensável errata. Curiosamente a gralha da página 29 escapou, mais uma vez, à lupa do anónimo revisor de texto. Gralhas que a pressa (?) tece...
Noutra ocasião, terei oportunidade de comentar, com mais detalhe, esta peça jornalística. Por agora, queria só destacar uma frase do Rafael Matos, a propósito do aumento de 22%, em sete anos (1997-2004), do número de pensionistas de doenças profissionais. Diz ele algures (p. 4), que "já em 1994, na altura do lançamento do Livro Verde dos Serviços de Prevenção das Empresas (...) os custos totais (directos e indirectos) [dos acidentes de trabalho e das doenças profissionais] eram estimados em 600 milhões de contos". Julgo que o jornalista se queria referir ao Livro Branco (lançado em 1999)e não ao Livro Verde (que também não é de 1994 mas de 1997).
2. Nunca soube como é que a Comissão do Livro Branco, editado pelo ex-IDICT, chegou a esta estimativa. Ou qual a sua fonte. Não vou aqui discutir se a estimativa está correcta ou não. Mas há cautelas téorico-metodológicas que andam, por vezes, arredadadas das preocupações dos sábios que fazem parte destas comissões dos livros verdes e dos livros brancos, mesmo quando a missão é patriótica e o trabalho gratuito.
Parece-me haver alguma ligeireza, em Portugal, quando as pessoas puxam por números para apoiar ou reforçar um ponto de vista. Salvo melhor opinião, isso aconteceu com Livro Branco dos Serviços de Prevenção das Empresas (publicado em 1999). É aí que vem a famosa estimativa dos 600 milhões de contos anuais, dez vezes mais do que os custos directos com a reparação, a cargo das companhias de seguros (para os acidentes de trabalho) e da Segurança Social (para as doenças profissionais) (Livro Branco, IDICT, 1999, p.33).
Em devido tempo e noutro lugar defendi que seria útil, interessante e até pedagógico que se mostrasse, por a mais b, quanto é o montante dos custos (directos e indirectos) dos acidentes de trabalho e das doenças profissionais em Portugal. Esse trabalho de casa não foi feito. Por outro lado, e em assunto tão sério, a referida Comissão também revelou alguma ligeireza ao deixar passar a monumental gralha que torna inelegível, absurdo e inevitavelmente hilariante o quadro estatístico apresentado na página 29 do Livro Branco: Citando o Instituto de Seguros de Portugal, a Comissão do Livro Verde diz, preto no branco, que o custo dos acidentes de trabalho, em milhões de contos, foi de 40.700 em 1990, 49.500 em 1991, 56.600 em 1992, 57.500 em 1993, 66.400 em 1994 e de 59.400 em 1995... Felizmente que os encargos (directos) com a reparação dos acidentes não custam o dobro do nosso PIB!... Mas a arreliadora falta de uma vírgula nos números apresentados na quarta linha é isso que sugere: o número correcto é 40,7 milhões em 1990 (40 milhões e 700 mil contos) e assim sucessivamente.
Para qualquer estudante de economia ou de sociologia, familiarizado com as contas nacionais, o lapso é de imediato detectável (Será ?)...Mas não para o pobre do leitor comum que troca facilmente milhões por biliões...
3.É uma arreliadora gralha que manchou um pouco o trabalho (de resto, excelente) da Comissão do Livro Branco, e que já vinha da versão original publicada on-line na página do IDICT na Internet. Errar é humano e falar com números nem sempre é fácil. Mas o que é um facto é que a gralha ficou para a posteridade, em letra de forma.
Dir-me-ão que tudo isto não passa de petite histoire, tal como a famosa gaffe do Eng. António Guterres a respeito do nosso PIB. Concordo plenamente. Mas aconteceu e só é eventualmente explicável, neste como noutros casos, pela falta de tempo, pela falta de verba para pagar a revisão técnico ou científica dos documentos ou outras desculpas de mau pagador...
O problema é que os livros (verdes ou brancos) também servem de arma de arremesso. Para a História é de recordar que a comissão (ou o seu presidente) teve a percepção da oportunidade (política) em divulgar on line o documento, just in time e à revelia da sua tutela, o Secretário de Estado da Segurança Social e das Relações Laborais. O presidente da Comissão do Livro Branco tinha acabado de ser demitido do cargo de presidente do IDICT, por alegada perda de confiança política. Recorde-se que o seu superior hierárquico, o Secretário de Estado, tinha acabado de autorizar, por deferimento tácito, a credenciação da UCS-Unidade de Cuidados de Saúde, SA (ligada à TAP - Air Portugal), como empresa idónea para a prestação de serviços de saúde e segurança do trabalho. O pedido de credenciação da UCS encontrava-se no IDICT desde 1995, com mais umas quatro ou cinco centenas de outros.
Entretanto, o documento (Livro Branco dos Serviços de Prevenção das Empresas) saiu mais tarde, em Outubro de 1999, em letra de forma, em edição do IDICT. Faz hoje parte da série Estudos, já não incomoda ninguém mas, hélàs!, pode continuar a enganar muita boa gente. A versão em papel vem enriquecida com a indispensável errata. Curiosamente a gralha da página 29 escapou, mais uma vez, à lupa do anónimo revisor de texto. Gralhas que a pressa (?) tece...
Saúde & Segurança do Trabalho - XV: Uma gralha para a eternidade
1. O jornal "Público" de ontem, 13 de Fevereiro de 2005, dedicou três páginas, na secção "Destaque", ao problema dos "Riscos Profissionais"(pp. 2 a 4). O trabalho, excelente, é de dois jovens jornalistas da redacção do Porto, a Mariana Oliveira e Rafael Matos.
Noutra ocasião, terei oportunidade de comentar, com mais detalhe, esta peça jornalística. Por agora, queria só destacar uma frase do Rafael Matos, a propósito do aumento de 22%, em sete anos (1997-2004), do número de pensionistas de doenças profissionais. Diz ele algures (p. 4), que "já em 1994, na altura do lançamento do Livro Verde dos Serviços de Prevenção das Empresas (...) os custos totais (directos e indirectos) [dos acidentes de trabalho e das doenças profissionais] eram estimados em 600 milhões de contos". Julgo que o jornalista se queria referir ao Livro Branco (lançado em 1999)e não ao Livro Verde (que também não é de 1994 mas de 1997).
2. Nunca soube como é que a Comissão do Livro Branco, editado pelo ex-IDICT, chegou a esta estimativa. Ou qual a sua fonte. Não vou aqui discutir se a estimativa está correcta ou não. Mas há cautelas téorico-metodológicas que andam, por vezes, arredadadas das preocupações dos sábios que fazem parte destas comissões dos livros verdes e dos livros brancos, mesmo quando a missão é patriótica e o trabalho gratuito.
Parece-me haver alguma ligeireza, em Portugal, quando as pessoas puxam por números para apoiar ou reforçar um ponto de vista. Salvo melhor opinião, isso aconteceu com Livro Branco dos Serviços de Prevenção das Empresas (publicado em 1999). É aí que vem a famosa estimativa dos 600 milhões de contos anuais, dez vezes mais do que os custos directos com a reparação, a cargo das companhias de seguros (para os acidentes de trabalho) e da Segurança Social (para as doenças profissionais) (Livro Branco, IDICT, 1999, p.33).
Em devido tempo e noutro lugar defendi que seria útil, interessante e até pedagógico que se mostrasse, por a mais b, quanto é o montante dos custos (directos e indirectos) dos acidentes de trabalho e das doenças profissionais em Portugal. Esse trabalho de casa não foi feito. Por outro lado, e em assunto tão sério, a referida Comissão também revelou alguma ligeireza ao deixar passar a monumental gralha que torna inelegível, absurdo e inevitavelmente hilariante o quadro estatístico apresentado na página 29 do Livro Branco: Citando o Instituto de Seguros de Portugal, a Comissão do Livro Verde diz, preto no branco, que o custo dos acidentes de trabalho, em milhões de contos, foi de 40.700 em 1990, 49.500 em 1991, 56.600 em 1992, 57.500 em 1993, 66.400 em 1994 e de 59.400 em 1995... Felizmente que os encargos (directos) com a reparação dos acidentes não custam o dobro do nosso PIB!... Mas a arreliadora falta de uma vírgula nos números apresentados na quarta linha é isso que sugere: o número correcto é 40,7 milhões em 1990 (40 milhões e 700 mil contos) e assim sucessivamente.
Para qualquer estudante de economia ou de sociologia, familiarizado com as contas nacionais, o lapso é de imediato detectável (Será ?)...Mas não para o pobre do leitor comum que troca facilmente milhões por biliões...
3.É uma arreliadora gralha que manchou um pouco o trabalho (de resto, excelente) da Comissão do Livro Branco, e que já vinha da versão original publicada on-line na página do IDICT na Internet. Errar é humano e falar com números nem sempre é fácil. Mas o que é um facto é que a gralha ficou para a posteridade, em letra de forma.
Dir-me-ão que tudo isto não passa de petite histoire, tal como a famosa gaffe do Eng. António Guterres a respeito do nosso PIB. Concordo plenamente. Mas aconteceu e só é eventualmente explicável, neste como noutros casos, pela falta de tempo, pela falta de verba para pagar a revisão técnico ou científica dos documentos ou outras desculpas de mau pagador...
O problema é que os livros (verdes ou brancos) também servem de arma de arremesso. Para a História é de recordar que a comissão (ou o seu presidente) teve a percepção da oportunidade (política) em divulgar on line o documento, just in time e à revelia da sua tutela, o Secretário de Estado da Segurança Social e das Relações Laborais. O presidente da Comissão do Livro Branco tinha acabado de ser demitido do cargo de presidente do IDICT, por alegada perda de confiança política. Recorde-se que o seu superior hierárquico, o Secretário de Estado, tinha acabado de autorizar, por deferimento tácito, a credenciação da UCS-Unidade de Cuidados de Saúde, SA (ligada à TAP - Air Portugal), como empresa idónea para a prestação de serviços de saúde e segurança do trabalho. O pedido de credenciação da UCS encontrava-se no IDICT desde 1995, com mais umas quatro ou cinco centenas de outros.
Entretanto, o documento (Livro Branco dos Serviços de Prevenção das Empresas) saiu mais tarde, em Outubro de 1999, em letra de forma, em edição do IDICT. Faz hoje parte da série Estudos, já não incomoda ninguém mas, hélàs!, pode continuar a enganar muita boa gente. A versão em papel vem enriquecida com a indispensável errata. Curiosamente a gralha da página 29 escapou, mais uma vez, à lupa do anónimo revisor de texto. Gralhas que a pressa (?) tece...
Noutra ocasião, terei oportunidade de comentar, com mais detalhe, esta peça jornalística. Por agora, queria só destacar uma frase do Rafael Matos, a propósito do aumento de 22%, em sete anos (1997-2004), do número de pensionistas de doenças profissionais. Diz ele algures (p. 4), que "já em 1994, na altura do lançamento do Livro Verde dos Serviços de Prevenção das Empresas (...) os custos totais (directos e indirectos) [dos acidentes de trabalho e das doenças profissionais] eram estimados em 600 milhões de contos". Julgo que o jornalista se queria referir ao Livro Branco (lançado em 1999)e não ao Livro Verde (que também não é de 1994 mas de 1997).
2. Nunca soube como é que a Comissão do Livro Branco, editado pelo ex-IDICT, chegou a esta estimativa. Ou qual a sua fonte. Não vou aqui discutir se a estimativa está correcta ou não. Mas há cautelas téorico-metodológicas que andam, por vezes, arredadadas das preocupações dos sábios que fazem parte destas comissões dos livros verdes e dos livros brancos, mesmo quando a missão é patriótica e o trabalho gratuito.
Parece-me haver alguma ligeireza, em Portugal, quando as pessoas puxam por números para apoiar ou reforçar um ponto de vista. Salvo melhor opinião, isso aconteceu com Livro Branco dos Serviços de Prevenção das Empresas (publicado em 1999). É aí que vem a famosa estimativa dos 600 milhões de contos anuais, dez vezes mais do que os custos directos com a reparação, a cargo das companhias de seguros (para os acidentes de trabalho) e da Segurança Social (para as doenças profissionais) (Livro Branco, IDICT, 1999, p.33).
Em devido tempo e noutro lugar defendi que seria útil, interessante e até pedagógico que se mostrasse, por a mais b, quanto é o montante dos custos (directos e indirectos) dos acidentes de trabalho e das doenças profissionais em Portugal. Esse trabalho de casa não foi feito. Por outro lado, e em assunto tão sério, a referida Comissão também revelou alguma ligeireza ao deixar passar a monumental gralha que torna inelegível, absurdo e inevitavelmente hilariante o quadro estatístico apresentado na página 29 do Livro Branco: Citando o Instituto de Seguros de Portugal, a Comissão do Livro Verde diz, preto no branco, que o custo dos acidentes de trabalho, em milhões de contos, foi de 40.700 em 1990, 49.500 em 1991, 56.600 em 1992, 57.500 em 1993, 66.400 em 1994 e de 59.400 em 1995... Felizmente que os encargos (directos) com a reparação dos acidentes não custam o dobro do nosso PIB!... Mas a arreliadora falta de uma vírgula nos números apresentados na quarta linha é isso que sugere: o número correcto é 40,7 milhões em 1990 (40 milhões e 700 mil contos) e assim sucessivamente.
Para qualquer estudante de economia ou de sociologia, familiarizado com as contas nacionais, o lapso é de imediato detectável (Será ?)...Mas não para o pobre do leitor comum que troca facilmente milhões por biliões...
3.É uma arreliadora gralha que manchou um pouco o trabalho (de resto, excelente) da Comissão do Livro Branco, e que já vinha da versão original publicada on-line na página do IDICT na Internet. Errar é humano e falar com números nem sempre é fácil. Mas o que é um facto é que a gralha ficou para a posteridade, em letra de forma.
Dir-me-ão que tudo isto não passa de petite histoire, tal como a famosa gaffe do Eng. António Guterres a respeito do nosso PIB. Concordo plenamente. Mas aconteceu e só é eventualmente explicável, neste como noutros casos, pela falta de tempo, pela falta de verba para pagar a revisão técnico ou científica dos documentos ou outras desculpas de mau pagador...
O problema é que os livros (verdes ou brancos) também servem de arma de arremesso. Para a História é de recordar que a comissão (ou o seu presidente) teve a percepção da oportunidade (política) em divulgar on line o documento, just in time e à revelia da sua tutela, o Secretário de Estado da Segurança Social e das Relações Laborais. O presidente da Comissão do Livro Branco tinha acabado de ser demitido do cargo de presidente do IDICT, por alegada perda de confiança política. Recorde-se que o seu superior hierárquico, o Secretário de Estado, tinha acabado de autorizar, por deferimento tácito, a credenciação da UCS-Unidade de Cuidados de Saúde, SA (ligada à TAP - Air Portugal), como empresa idónea para a prestação de serviços de saúde e segurança do trabalho. O pedido de credenciação da UCS encontrava-se no IDICT desde 1995, com mais umas quatro ou cinco centenas de outros.
Entretanto, o documento (Livro Branco dos Serviços de Prevenção das Empresas) saiu mais tarde, em Outubro de 1999, em letra de forma, em edição do IDICT. Faz hoje parte da série Estudos, já não incomoda ninguém mas, hélàs!, pode continuar a enganar muita boa gente. A versão em papel vem enriquecida com a indispensável errata. Curiosamente a gralha da página 29 escapou, mais uma vez, à lupa do anónimo revisor de texto. Gralhas que a pressa (?) tece...
13 fevereiro 2005
Socio(b)logia - XIII: O país-do-diz-que-disse
Não há pachorra
Abre-se a televisão
Ou sintoniza-se a rádio
E corre-se um sério risco
De ouvir a mesma notícia
Ad nauseam:
Alguém
(Um candidato a primeiro-ministro,
Um candidato a candidato,
Um amigo do candidato,
Um amigo do amigo do candidato,
O seu assessor de imagem,
O primo da terra,
A ex-amante...)
A dizer que não disse o que disse
Ou melhor: Não disse, meus senhores,
O que os jornais disseram
Que ele disse
Ou o que o jornalista achava
Que ele deveria dizer.
Este estilo comunicacional
Tem muitos cultores.
E ficou defintivamente consagrado
Com a seráfica Zezinha:
"Você sabe que eu sei
Que você sabe".
Há uma variante tropical
Deste estilo de não-assertividade
Inventada pelos portugas:
"Eu sei que você sabe
Que eu sei que você sabe
Que é difícil de dizer",
Diz a brasileira Maria Monte,
Na sua canção "Eu sei"...
No país-do-diz-que-disse
Impera a lei da fofoca,
Do boato pidesco,
Da intriga palaciana,
Das bruxas feias e más,
Dos meninos birrentos e queixinhas,
Dos santinhos de pau carunchoso,
Do título de caixa alta,
Da delacção inquisitorial,
Da saloiice do Zé Povinho.
Faz-se do boato notícia
Da insinuação verdade
E da anedota tese doutoral.
Não tenho pachorra.
Ponto final.
Abre-se a televisão
Ou sintoniza-se a rádio
E corre-se um sério risco
De ouvir a mesma notícia
Ad nauseam:
Alguém
(Um candidato a primeiro-ministro,
Um candidato a candidato,
Um amigo do candidato,
Um amigo do amigo do candidato,
O seu assessor de imagem,
O primo da terra,
A ex-amante...)
A dizer que não disse o que disse
Ou melhor: Não disse, meus senhores,
O que os jornais disseram
Que ele disse
Ou o que o jornalista achava
Que ele deveria dizer.
Este estilo comunicacional
Tem muitos cultores.
E ficou defintivamente consagrado
Com a seráfica Zezinha:
"Você sabe que eu sei
Que você sabe".
Há uma variante tropical
Deste estilo de não-assertividade
Inventada pelos portugas:
"Eu sei que você sabe
Que eu sei que você sabe
Que é difícil de dizer",
Diz a brasileira Maria Monte,
Na sua canção "Eu sei"...
No país-do-diz-que-disse
Impera a lei da fofoca,
Do boato pidesco,
Da intriga palaciana,
Das bruxas feias e más,
Dos meninos birrentos e queixinhas,
Dos santinhos de pau carunchoso,
Do título de caixa alta,
Da delacção inquisitorial,
Da saloiice do Zé Povinho.
Faz-se do boato notícia
Da insinuação verdade
E da anedota tese doutoral.
Não tenho pachorra.
Ponto final.
Socio(b)logia - XIII: O país-do-diz-que-disse
Não há pachorra
Abre-se a televisão
Ou sintoniza-se a rádio
E corre-se um sério risco
De ouvir a mesma notícia
Ad nauseam:
Alguém
(Um candidato a primeiro-ministro,
Um candidato a candidato,
Um amigo do candidato,
Um amigo do amigo do candidato,
O seu assessor de imagem,
O primo da terra,
A ex-amante...)
A dizer que não disse o que disse
Ou melhor: Não disse, meus senhores,
O que os jornais disseram
Que ele disse
Ou o que o jornalista achava
Que ele deveria dizer.
Este estilo comunicacional
Tem muitos cultores.
E ficou defintivamente consagrado
Com a seráfica Zezinha:
"Você sabe que eu sei
Que você sabe".
Há uma variante tropical
Deste estilo de não-assertividade
Inventada pelos portugas:
"Eu sei que você sabe
Que eu sei que você sabe
Que é difícil de dizer",
Diz a brasileira Maria Monte,
Na sua canção "Eu sei"...
No país-do-diz-que-disse
Impera a lei da fofoca,
Do boato pidesco,
Da intriga palaciana,
Das bruxas feias e más,
Dos meninos birrentos e queixinhas,
Dos santinhos de pau carunchoso,
Do título de caixa alta,
Da delacção inquisitorial,
Da saloiice do Zé Povinho.
Faz-se do boato notícia
Da insinuação verdade
E da anedota tese doutoral.
Não tenho pachorra.
Ponto final.
Abre-se a televisão
Ou sintoniza-se a rádio
E corre-se um sério risco
De ouvir a mesma notícia
Ad nauseam:
Alguém
(Um candidato a primeiro-ministro,
Um candidato a candidato,
Um amigo do candidato,
Um amigo do amigo do candidato,
O seu assessor de imagem,
O primo da terra,
A ex-amante...)
A dizer que não disse o que disse
Ou melhor: Não disse, meus senhores,
O que os jornais disseram
Que ele disse
Ou o que o jornalista achava
Que ele deveria dizer.
Este estilo comunicacional
Tem muitos cultores.
E ficou defintivamente consagrado
Com a seráfica Zezinha:
"Você sabe que eu sei
Que você sabe".
Há uma variante tropical
Deste estilo de não-assertividade
Inventada pelos portugas:
"Eu sei que você sabe
Que eu sei que você sabe
Que é difícil de dizer",
Diz a brasileira Maria Monte,
Na sua canção "Eu sei"...
No país-do-diz-que-disse
Impera a lei da fofoca,
Do boato pidesco,
Da intriga palaciana,
Das bruxas feias e más,
Dos meninos birrentos e queixinhas,
Dos santinhos de pau carunchoso,
Do título de caixa alta,
Da delacção inquisitorial,
Da saloiice do Zé Povinho.
Faz-se do boato notícia
Da insinuação verdade
E da anedota tese doutoral.
Não tenho pachorra.
Ponto final.
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